22 dezembro 2011

Para melhorar Salvador

Dá para sonhar com Salvador em preto e branco e mil toneladas de cinza pelas fotos de Pierre Verger ou no registro da região da Chapada Diamantina de Rui Rezende, a tradição de um povo nas fotos de Rogério Ferrari ao registrar o cotidiano do cigano ou mesmo o trabalho da fotógrafa das estrelas, a baiana Thereza Eugênia. Descobre que o melhor é mesmo Salvador ao ar livre, suas ruas, ladeiras, sua gente, e os panoramas que fazem da cidade uma verdadeira obra de arte viva. Atualmente, não tão viva assim, o termo certo é: abandonada.


O que é preciso ser feito para melhorar Salvador?


  1. Requalificação urbana e ambiental nas praias

  2. Obras de iluminação, restauração de monumentos, igrejas, fontes e construção de um centro de referência no Pelourinho

  3. Reforma no Elevador Lacerda e nos planos inclinados Gonçalves, Pilar e da Liberdade

  4. Ações de requalificação, ampliação do estacionamento do Mercado Modelo

  5. Recuperação das calçadas do Farol de Itapuã, recuperação do entorno do Farol da Barra e melhorias na Lagoa do Abaeté.

  6. Reforma do Largo de Roma e recuperação urbanista da Orla entre a Ponta de Humaitá e a Ribeira

  7. Criar infra estrutura para turismo náutico na Baia de Todos os Santos

  8. Deixar as ruas limpas, sem lixo ou buracos.

  9. Incentivar os moradores de bairros antigos (Saúde, Ribeira etc) a melhorar as fachadas de suas casas com novas pinturas e restaurações



POBREZA – A Bahia é um estado com grandes dimensões (564 mil km2), representando 36% do Nordeste. Do seu território, 66% se caracterizam como semiárido, o equivalente a 43% de todo o semiárido do Nordeste. Quase 30% da população baianas está na área rural, respondendo por 14% da população rural do Brasil, sendo que 32, 9% encontram-se em condição de extrema pobreza, frente a 11,1% da população urbana. Temos, ainda, 59,5% dos municípios com até 20 mil habitantes. Os dados são do diretor geral da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI), Geraldo Reis (A Tarde, 30/09/2011). Para ele, grande parte da pobreza na Bahia, além do aspecto da renda, está associado a outras dimensões, como falta de água, baixa escolaridade, analfabetismo e a reduzida produtividade da agricultura familiar.


CORDIALIDADE – Tem uma definição do Sérgio Buarque de Holanda em relação à cordialidade do Brasileiro. Há o lado iluminado da questão da cordialidade, da coisa do coração. E na Bahia temos isso. Mas para que o futuro seja o mais iluminado possível, a gente tem de definir melhor nossa vocação e cuidar da educação de forma séria, profunda, e que possa contemplar a questão da exclusão e da opressão.

ASSUSTADO – O filósofo José Arthur Giannotti, professor emérito da Universidade de São Paulo em uma entrevista a revista Cult (n.162, outubro 2011) afirmou: “Você vai a Nova York e vê uma produção intelectual que transborda nas ruas. Já nossas ruas têm sobretudo buracos: buracos na terra e buracos de pensamento. A cidade não tem plano nenhum, tudo cresce de maneira desordenada. Passei uma semana em Salvador e fiquei assustado com a desintegração urbana”.


CULTURA – Salvador tem uma vida cultural relativamente intensa, apesar da falta de verbas para as políticas públicas de cultura. Nos bairros populares o movimento hip hop se fortalece, as variações do samba de roda esquenta os finais de semana, o jazz aquece o Museu de Arte Moderna, nos guetos o rock and roll corre solto já que a axe music está em todos os espaços. Os poetas da Praça da Piedade travam diálogos com os cordelistas do Mercado Modelo. Os artistas plásticos usam e abusam das cores e formas nas diversas instalações vanguardistas. Os escritores reforçam nas palavras o poder de atingirem o grande público, apesar da parca distribuição, e os quadrinhos procuram cada vez mais mostrar seus valores na mídia que continua a olhar o estrangeiro com mais valor. Tudo isso esforço dos próprios artistas. O Estado precisa apoiar mais o florescimento dos trabalhos locais. Mas apoiar de verdade e não espalhar por quatro cantos esse apoio invisível. Até quando a cidade vai ficar nessa falta de atenção aos valores locais. Entra governante sai governante e tudo fica distante no império de dantes....


ESTAGNOU - “A Bahia perdeu muito da sua capacidade criativa e inovadora nas áreas da literatura, teatro, música, artes visuais, lazer e do entretenimento. Quando se perde essa capacidade de fazer coisas novas em todas essas áreas, você passa a viver do antigo, não que este seja ruim, mas não se estabelece ponte com o presente e com o futuro. A Bahia precisa inovar. O teatro feito hoje é o mesmo dos anos 1980. Na música, ainda estamos na última invenção, que foi o samba reggae. Nada de novo de lá para cá. A Bahia estagnou. Mais, estamos voltando para trás” (João Jorge, presidente do Olodum. Muito, revista semanal do grupo A Tarde. 13;11;2011)


“A Bahia está invisível e precisa de ações imediatas para se reinventar no cenário nacional”, pontua o diretor teatral, professor, roteirista, cenógrafo, dramaturgo Paulo Dourado (A Tarde, 17/10/2011)


“Salvador é uma cidade ágrafa. Ágrafa/ Sim, nem sequer analfabeta. Fala-se muito em Salvador. Fala-se o tempo todo. As contas de telefone são astronômicas. O tempo perdido com bate papo é incalculável. O baiano jamais vai direto ao assunto. Liga para pedir uma pequena informação e até chegar lá já passou a limpo os atrasos da amizade” (Ildásio Tavares. Nossos colonizadores africanos. Edufba, 2009, p.54)


“A cidade do Salvador, que eu chamo de Salvadores, é um lugar hoje inabitável e, infelizmente, as autoridades municipais, estaduais e federais não estão olhando para esta morte urbana das cidades (…) Salvador, hoje, é uma cidade medíocre porque vive em, função de ser uma cidade festeira e um balneário. A Bahia gira em torno do Carnaval, a Bahia está montada num trio elétrico permanentemente” (Fernando da Rocha Peres, poeta)


“A Bahia tem uma redoma que impede as coisas de chegarem, as pessoas de saírem” (Ducca Rios, artista plástico, cartunista, designer, quadrinista e músico. Muito. A Tarde.14/03/2010, p.7)


“Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína. Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano” (Caetano Veloso. Fora de Ordem)

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

Dinheiro mal gerido

Má qualidade de gestão se estende a praticamente todas as áreas.


A sociedade paga impostos escorchantes, mas a contrapartida do governo,m que é a oferta de serviços. Vem com muita lentidão, quando vem, e com qualidade inferior à esperada.


Na democracia, todos os poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) respondem ao povo, o mínimo que se espera é que sejam fornecidas informações a respeito do serviço pelo qual determinado poder presta à população. Parece que esse quesito foi esquecido..


“Uma justiça lenta e cara diminui em grande parte a eficácia dos textos legislativos. Qual é o indivíduo que não está disposto a aceitar uma soma de ilegalidades equivalentes à soma dos sacrifícios a fazer ou dos desgostos a suportar para obter judicialmente a sua reparação? Pergunta o advogado francês Jean Cruet no livro A Vida do Direito e a Inutilidade das Leis, de 1908 e tão atual no Brasil... Não como um cidadão não ter sua dignidade e cidadania aviltadas quando se discute umas ação judicial por 15, 16 anos no Judiciário, quando a mesma poderia ter sido resolvida, em pouco tempo, como acontece na maioria dos países desenvolvidos. Uma justiça que anda a passos de tartaruga e é mal aparelhada propicia a ilicitude e estimula o mau caratismo.


Pergunta que não ofende: Existe algum órgão de classe que ousa manifestar ou propor mudanças para agilizar o andamento processual no país?


Walter Fanganiello Maierovitch, juiz de direito aposentado do hoje extinto Tribunal de Alçada Criminal, e diretor do Instituto Giovanni Falcone responde: “No dia em que o país se conscientizar, ele caminha. Existe no Brasil uma aparência de Justiça. Lenta e que não funciona. Temos um sistema que se mostra imperfeito e ninguém quer cuidar de melhorá-lo”.


Vale lembrar Rui Barbosa: “A justiça tardia na verdade é uma injustiça”


E ainda existe o foro privilegiado, “uma esperteza que os políticos conceberam para se proteger. Um escudo para que as acusações formuladas contra eles jamais tenham consequências... É absurdo um sistema judiciário que conta com quatro graus de jurisdição! Deveriam ser apenas duas instâncias, como é no mundo inteiro. Essas instâncias favorecem o excesso de recursos”.


Projetos demoram para sair do papel. E o atraso na execução dos programas de investimento é enorme.


Quem vigia o vigilante/. A ministra Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça ao anunciar que no Poder Judiciário há “bandidos de toga”. Verdades ofendem mas a corregedora do CNJ teve o apoio quase unânime da sociedade. Há imbricação de suas fronteiras: a judicialização da política e a politização da Justiça. Mas a sociedade despertou, por meio de seus núcleos organizados; a emergência de novos polos de poder; a promoção da cidadania; vácuo proporcionado pela ausência de legislação infra constitucional (dispositivos da Constituição de 1988 não foram regulamentados) entre outros. Assim fica difícil o sistema judiciário tornar-se imune às pressões políticas.


Nossas eleições municipais se aproximam e há escassez de propostas ousadas sobre como uma prefeitura consegue ser indutora de desenvolvimento econômico, estimulando o empreendedorismo dos jovens. Falta ideias na maior parte dos políticos. O interesse maior é ganhar a eleição. O foco/ nenhum.


Cerca de 75% dos brasileiros, ou seja 143 milhões dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). Os outros 25%, ou 47 milhões de cidadãos são capazes de pagar por planos/seguros de saúde privados., Tanto uns quanto outros enfrentam problemas. São bastante conhecidas as reclamações dos pacientes quanto a saúde no Brasil. De quem é a culpa por tantas desventuras/ Políticos, respondam por favor...


Na época do governo Sarney o Brasil era uma espécie de chanchada. Hoje está bem melhor. Mas convivemos com taxas intoleráveis de desigualdade, saúde pública desumana, escolas públicas ruins, vida nas cidades violenta e insegura. O patrimonialismo persiste como traço definidos da política em todos os níveis.


Levantamento feito pelo jornal Estado de S.Paulo (11/12/2011) e, folhas de pagamento dos Tribunais de Justiça revela que norma constitucional de limitar salários ao rendimento de um ministro do Supremo (R$26,7 mil) é amplamente descumprido; há casos de contracheques que superam R$100 mil. “Em setembro deste ano, por exemplo, 120 desembargadores receberam mais do que R$ 40 mil e 23 mais de R$ 050 mil. Um deles ganhou R$ 642.962,66; outro recebeu R$ 81.796,65”.


“Alguma coisa está fora da arte, fora da nova ordem mundial” (Caetano Veloso)

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21 dezembro 2011

O que é que a música baiana tem? (7)

“A Bahia continua usando mais o quadril, região lateral do corpo humano, que vai da cintura até a parte superior da coxa, do que neurônio, célula essencial ao tecido nervoso. Na verdade, todo o Brasil. É que na Bahia, o quadril parece ter vida própria e de intensidade tão extrema que as duas atividades culturais mais espetaculares do Estado são o Carnaval e o São João, que, de diferentes, têm entre si, quadril com Banda ou quadril com bomba”, escreveu Aninha Franco em sua coluna semanal na revista Muito publicado aos domingos pelo jornal A Tarde.


A deputada estadual Luiza Maia (PT) é autora do Projeto de Lei n.19.203/2011 que tramita na Assembleia Legislativa que prevê não pagar com recursos públicos apresentações de grupos de pagode que, com músicas e danças, possam denegrir a figura feminina os fazer apologia à violência. A iniciativa tem apoio de toda bancada feminina.


Na opinião da deputada Luiza Maia, algumas letras de pagode e outros gêneros abreviam a mulher apenas a “peito, bunda e genitália”. “Não sou a favor de nenhuma censura a qualquer que seja o gênero musical. Mas o poder público não pode financiar a reprodução do preconceito e violência contra as mulheres, como a lógica de que para vender um pneu de carro é preciso associá-lo a uma bunda de mulher”, contesta numa reportagem publicada no jornal A Tarde (05/07/2011)


“È preciso, sim, um mecanismo de controle sobre o machismo no imaginário popular”, concorda Ana Vaneska Almeida, do coletivo da Guerreiras Sem Teto. “A mulher precisa ser respeitada e o estado não pode aceitar uma coisas dessas”, diz Maia referindo-se à apresentação ao vivo, com apoio oficial, de bandas responsáveis por repertórios de qualidade duvidosa.



“Esse projeto vem no sentido de a gente abrir uma campanha pra educar, inclusive, alguns dos nossos artistas. A mulher é um ser humano que precisa ser respeitado e não dá pra o governo pagar, com o dinheiro público, a quem faça um tipo de apologia à violência, à desqualificação e constrangimento da mulher”, afirmou.


Referências:

ABREU, Márcia. Cultura letrada: Literatura e leitura. São Paulo: Editora UNESP, 2006.

ALCÂNTARA, Débora. Quebrança geral. Polêmica. Projeto de lei coloca na berlinda o pagode que incentiva a violência e o machismo. Salvador: A Tarde. Caderno 2. 05 de julho de 2011, p.1.

ALMEIDA, Tereza Virgínia de. No balanço malicioso do lundu. Festas e Batuques do Brasil. Revista História Biblioteca Nacional no bolso. Rio de Janeiro: Editora Sabin, 2009, p.42 a 49.

ARAUJO, Paulo César de. Eu não sou cachorro não: música popular cafona e ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2007.

____________________. Roberto Carlos em detalhes. Rio de Janeiro: Planeta, 2006.

BLACKING, John. Music, culture and experiece. Chicago, EUA: Chicago University Press, 1995.

BRASIL, Hebe Machado. A Música na Cidade do Salvador: 1549-1900. Salvador: Prefeitura Municipal do Salvador, 1969.

BRITO, Hagamenon. Letra sacana é uma coisa, pornográfica é outra. Salvador: Correio, 31 de janeiro de 2010, p.27.

CANCLINE, Néstor Garcia. Culturas híbridas. São Paulo: Edusp, 1998.

CONNOR, Steven. Teoria e valor cultural. São Paulo: Loyola, 1994.

FRANCO, Aninha. Entre o quadril e o neurônio. Salvador: Muito. Jornal A Tarde, 03 de julho de 2011, p.41.

LEME, Mônica Neve. Que “tchan” é esse?: indústria e produção musical no Brasil dos anos 90. São Paulo: Annablume, 2003.

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1975.

ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e industria cultural. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1999.

ROCHA, Nélson. Cerco ao pagode. Salvador. Tribuna da Bahia. Cidades. 07 de junho de 2011, p.11.

SA, Simone Pereira de. Mediações musicais através dos telefones celulares. In: FREIRE FILHO, João; JANOTTI JÚNIOR, Jeder (Org.). Comunicação & música popular massiva. Salvador: EdUFBA, 2006.

SANDRONI, Carlos. Feitiço decente: transformações no samba (1917-1933). Rio de Janeiro: EdUFRJ, 2001.

SODRÉ, Muniz; PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

TATIT, Luiz. O século da canção. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004.

TROTTA, Felipe. Critérios de qualidade na música popular: o caso do samba brasileiro. In: Dez Anos a Mil. Mídia e Música Popular Massiva em Tempos de Internet. Maceió/Recife, 2011: http://www.dezanosamil.com.br/LivroCompleto.pdf

VERGER, Pierre. Noticias da Bahia de 1850. Salvador: Corrupio, 1981.

VIANA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: EdUFRJ/Zahar, 1995.

----------------------. Paradas do Sucesso Periférico. In: Revista Sexta-feira, nº8, 2006. Editora 34. Disponível em: http://www.overmundo.com.br/banco/paradas-do-sucesso-periferico. Acesso em 04 de julho de 2010.

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Um salto no abismo: A Pele que Habito


A pele é o maior e mais visível órgão do corpo humano. Sua riqueza e sua complexidade biológicas só são excedidas pelas do cérebro e do sistema imunológico. Pele é o primeiro elemento, depois da alma, de que dispomos para exercer nosso desejo. E a nossa casca, no filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, vira uma espécie de roupa de látex. Estamos falando de A Pele que Habito, ambíguo, sadomasoquista, excitante, repulsivo.

Perdoar seu inimigo, prendê-lo, torturá-lo e manipulá-lo pode transcender o simples desejo. É libertário. Cuidado com o que você odeia, pois pode desejar mais tarde. É no pântano da psique que você pode colher uma flor...amaldiçoada.


Há uma delicada operação de costurar retalhos, reconstruir uma pessoa, um amor, uma obsessão. Tudo feito sob medida. O cineasta utiliza o tema que para ele é essencial: a não conformidade com os gêneros sexuais. E o que assistimos é um desatino, um salto no abismo. Vale a pena assistir.

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20 dezembro 2011

O que é que a música baiana tem? (6)

A participação corporal-erótico – através da dança se torna um importante critério de valoração para determinadas práticas musicais. O professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, Felipe Trotta em seu estudo “Critérios de qualidade na música popular: o caso do samba brasileiro” escreveu: “(...) o sexo é um assunto central, que aparece na música popular de diferentes maneiras e com legitimidade variada. Se a sensualidade ritmica da dança – ou da possibilidade da dança – pode funcionar como um critério positivo de valorização, a referência mais direta a simulações ao ato sexual ou a apelos textuais, visuais ou sonoros a posições eróticas quase sempre veem acompanhadas de violenta repreensão moral. O território da ética é um domínio fortemente presente no âmbito das valorações estéticas, configurando-se como um modo de ser próprio das estratégias de valoração. O belo e o bom são dois modos valorativos que desde a filosofia grega de Platão e Aristóteles apontava lado a lado para uma ´qualidade positiva das coisas, em termos morais, sociais e perceptivos`(SODRÉ; PAIVA, 2002, p.18). Se a música pode ser entendia como uma forma de compartilhar pensamentos e ações (BLACKING, 1995, p.236), materializados em visões de mundo, modelos de comportamento, códigos sociais, sentimentos e tensões emocionais, as implicações éticas são inerentes a qualquer prática musical” (p.127).


Mais adiante ele analisa a legitimidade estética na música de Roberto Carlos e a valorização de sua obra relacionada a um tipo de construção idealizada do amor do casal, vivenciado cotidianamente na prática sexual. “A afirmação de uma sexualidade efetiva na canção popular, contudo, manifesta-se num terreno delicado de negociações morais. Consciente deste limiar entre o ético e o estético, o compositor Erasmo Carlos, principal parceiro de Roberto em dezenas de sucessos, faz o seguinte comentário para um dos grandes sucessos da dupla, sugestivamente intitulado Cavalgada: ´Cavalgada é a narração de um ato sexual e nós temos consciência de que fomos muito felizes na escolha das palavras. Em vez de dizer `Vou trepar nessa mulher a noite inteira`, nos fizemos uma coisa de bom gosto para dizer a mesma coisa`(Apud ARAUJO 2006, p.381)”


“A fronteira do `bom gosto` é um determinante subjetivo para aferição da qualidade musical de uma canção ou de uma obra e a percepção de que este limite foi ultrapassado pode gerar sérias dificuldades de consagração legitimada. Uma das estratégias para driblar essa barreira é o humor. Narrativas de encontros sexuais aparecem em várias músicas de duplo sentido, com graus diversos de humor, presentes nas modas de viola do interior paulista, nas emboladas do nordeste, no forró, no samba e no próprio rock. Protegidos pela esfera da ironia, alguns artistas conseguem avaliações menos depreciativas e ocupam lugares hierárquicos variados no universo da música popular brasileira. Tais posições de legitimidade, apesar de instáveis, provocam reações oscilantes entre o desprezo, o riso e o consumo massivo, mas não são rejeitadas ferozmente como aquelas que abordam a temática sexual de forma mais explícita, como o É o Tchan”.(p.129)

Ao longo das décadas, as letras têm se aproximado da estética pornô. Há a exploração da representação da periguete, da mulher livre, dona de seu corpo e de seus desejos. A banda de pagode Black Style, liderada pelo cantor Robysão traz em suas composições letras que ordena “pererecas” para frente e para trás, “tchecas” ralando no chão, e “canhões” vazando. Em 2010 foi a vez de “Me dá a patinha”. Para o crítico musical Hagamenon Brito, “letras com duplo sentido, sacaninhas, fazem parte do samba desde que o samba é samba, desde que os negros davam umbigadas no terreiro e o batuque comia solto (…) Mas letra sacana é uma coisa, pornográfica é outra. Além de fazerem músicas ruins do ponto de vista de ritmo e do instrumental, grupo de pagode como Black Style soam pornográficas em letras como Me dá a patinha (…). Junto com a má educação, a mídia e a sociedade expandiram a vulgaridade a partir dos anos 90”.


No Carnaval 2010 a polêmica foi com a composição “Lobo Mau”, do até então pouco conhecido grupo O Back, formado por Piskuila, Keno e Bombado. A música pegou e a fantasia de Chapeuzinho foi a mais vista nas ruas. Apesar do sucesso, alguns artistas torceram o nariz para a versão em pagode da velha historinha infantil considerando pedofilia. O vocalista do Parangolé, Léo Santana fez sucesso em 2010, com “Rebolation”. No ano seguinte ele repetiu a fórmula da letra fácil pensada para dançar e com coreografia, a “Tchubirabiron”.


Duplo sentido é o que não falta. “Chupeta” traz os seguintes versos: “Toma negona, toma chupeta/toma negona, na boca e na bochecha/ Gugu dada, gugu dada/se você pedir painho vai te dar”, do cantor e percussionista Marcio Victor, do Psirico. Nas suas composições, a sacanagem está sempre ao lado do humor. Exemplo disso é outro sucesso, “Liga da Justiça”, feito em parceria com J.Telles, que brinca com caso amoroso entre o Super Homem e a Mulher Maravilha: “Foge, foge, Mulher Maravilha/Foge, foge, com Superman”.


Caetano Veloso fez referências elogiosas aos novos grupos de pagode baiano Psirico, Pretobom, Parangolé e Fantasmão chamando-os de “pretos da nova geração”. Eles começam e trabalham suas composições no período pré-carnavalesco, espalham seus CDs em todas as praças e barracas da cidade, na distribuição pirata que atinge logo o povão. O cantor Léo Santana no comando do Parangolé gritou para a multidão nos seis dias de folia em 2009: “Favela ê, favela/eu sou favela/respeitem o povo da favela”. O ex-percussionista da banda de Caetano Veloso, Márcio Victor sempre atento à linguagem que vem da periferia, comanda a banda Psirico.


O Fantasmão, liderada pelo vocalista Eddye começou a se destacar em 2008 misturando rap, reggae, samba, rock and roll e axé que ele denominou de groove arrastado, por ser mais cadenciado. Em seu canto: “Sou filho de preto, quero respeito/quem mora no gueto não é ladrão não” (Conceitos), ou “Mais não esqueça que a verdadeira voz do gueto é de vocês/quem lembra do quilombo/sabe o que a gente fez/lá o nego também tinha o seu valor”( Sou da ralé).

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19 dezembro 2011

O que é que a música baiana tem? (5)

Houve uma crescente diversificação e segmentação do mercado musical nos anos 80, em parte, impulsionada pelo avanço tecnológico. A partir dos anos 90, a ampliação do consumo de aparelho de CD (CD players) nas camadas de media e baixa renda vai se tornando realidade. E a industria procurou suprir essa demanda apostando, entre outros, em produtos que se inseriam no arcabouço “axé music”, que não necessitavam de investimentos na produção, pois já chegavam praticamente prontos para a distribuição. Essa produção estava, quase sempre, associada ao carnaval soteropolitano.


“Unindo coreografias de fortíssimo apelo sexual, letras maliciosas recheadas de duplo sentido a uma fórmula musical que alguns artistas e estudiosos afirmam trazer elementos do samba de roda tradicional baiano, o É o Tchan ganhou. Ao mesmo tempo, uma enorme popularidade (…) Esta utilização de letras ´chulas´ e de coreografias sensuais de seus bailarinos rebolantes (duas moças e um rapaz) fez com que a crítica passasse a chamar sua música pejorativamente de ´bunda music´(numa clara alusão às nádegas de suas bailarinas, principalmente da jovem Carla Perez), priorizando, portanto, apenas um dos elementos cênicos do show do grupo” (p.25).


A música de consumo é um produto industrial que não mira a nenhuma intenção de arte, e sim à satisfação das demandas do mercado. Esse tipo de música, epidérmica, imediata, transitória e vulgar é produzida por uma industria da canção para vir ao encontro de algumas tendências que esta individua (e cultiva) no mercado.


Nos anos 90 a Bahia estava dominada por um espírito de cultura oficializado e mercadológico. O governo da época uniu o turismo e cultura, decisivo na tendência de comercialização cultural da Bahia. Por depender do Estado, a maior parte dos artistas se orientou pelas diretrizes da situação, por meio do Fazcultura, programa de isenção final atrelado a bancos, industria e comercio. O experimentalismo nas artes ficou marginalizada e aconteceu o nivelamento e a decadência cultural da Bahia. Hoje há uma separação entre turismo e cultura, bem como o direcionamento dado às cidades do interior.


O surgimento da música popular enquanto tal tem a ver com tecnologia (TATIT, 2004; SANDRONI, 2001). Atravessada por um poderoso aparato industrial e destinada a um consumo extensivo, a música popular tornou-se um bem de consumo comercializado internacionalmente, com diversas consequências sociais e simbólicas. Para a estudiosa SA (2006), o desenvolvimento das tecnologias de gravação e reprodução de som apresentou uma ampliação no grau de circulação da música no mundo e a formação progressiva de novos modelos de escuta.


No seu estudo “Critérios de qualidade na música popular: o caso do samba brasileiro”, o professor da UFPE, Felipe Trotta analisou a forma que esses novos padrões de escuta alteraram as estratégias de construção de valor na música. “Se os critérios legítimos de qualidade musical foram desenvolvidos a partir da experiência musical da sala de concerto, esses critérios passam a ser pressionados pela popularização dos fonógrafos e, posteriormente, dos aparelhos de rádio. Novos modelos de escuta e de circulação musical que provocam tensões e mudanças nos critérios estabelecidos (…). A partir de um determinado momento – em torno dos anos 1940 e 1950 – surge a possibilidade tecnológica de manipulação do som através da sua produção eletrônica trazendo consequências sobre o volume sonoro e sobre o próprio timbre. Neste ponto, a tecnologia fornece novos critérios de valorar música, estabelecendo pontos de escuta e significação estreitamente ligados a ele, sempre associados à novidade, atualidade e modernidade. Guitarras distorcidas, loops, teclados sintéticos e o advento de uma ´música eletrônica´, são os exemplos desse processo de desenvolvimento de sonoridades cujo público principal foi sempre constituído majoritariamente de jovens. Aliás, é exatamente a partir de meados da década de 1950 que a cultura de massa `inventa´o jovem, moldando um conjunto de significações, simbologias, mitos e canções internacionais que pudesse servir de elo identitário a partir da faixa etária (MORIN, 1975). E o som desse universo é elétrico” (p.124 e 125).


Assim, o som alto e distorcido molda uma experiência musical fortemente energizada e cujo público potencial é formado por jovens, dotados de altas doses de energia física resultando em outro critério de valoração musical: a participação corporal. “Se o padrão de experiência musical da cultura legítima é a neutralidade corporal, representada pela sala de concerto para agrande maioria das práticas musicais industrializadas tal experiência demanda diretamente algum tipo de canto e dança, instaurando o ´clima´do evento e fornecendo novos ingredientes para avaliação estético e musical (…) A experiência corporal assume estágio valorativo, contrariando a tradição da fruição estética descorporificada da música erudita

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15 dezembro 2011

O que é que a música baiana tem? (4)

PERIFERIA

Em um artigo (Paradas de Sucesso Periférico), o estudioso de música Hermano Vianna escreveu que “cada vez mais, a periferia toma conta de tudo. Não é mais o centro que inclui a periferia. A periferia agora inclui o centro. E o centro, excluído de festa, se transforma na periferia da periferia”. Para o crítico musical, as periferias das cidades inventam com velocidade impressionante novos circuitos culturais, e novas soluções econômicas – por mais precárias ou informais que sejam – para dar sustentabilidade para essas invenções. Os circuitos festivos proliferam na informalidade. Os camelôs e intermediários se aliaram aos músicos com contratos de exclusividade e uma nova indústria fonográfica central está nascendo.


Essas festas colocam o povo para dançar e as músicas não são as mais tocadas no radio nem aparecem em programas de televisão e não são lançadas pelas grandes gravadoras. Estão no mercado informal, nos camelôs. Um mercado que pouco a pouco se espalha por toda a cidade. Seja o lambadão cuiabano, o funk carioca, o arrocha baiano, o foro de Manaus ou o reggae do Maranhão. A periferia, com essa tecnologia, inventou culturas digitalizadas que conseguiu desenvolver por si próprio seus projetos de lazer.

Pistas importantes foram oferecidas por Nestor Garcia Canclini (1998) e Renato Ortiz (1999): a de que a formação cultural brasileira é eminentemente híbrida e portanto nossa cultura popular também. Nosso capitalismo, por ser incipiente, fez com que nossa indústria cultural tenha se forjado de maneira ímpar, num processo de hibridização muito profundo, com campos de produção pouco autônomos e a contraditória interpenetração de seus agentes.


Essa música emergente é hibrida, incorpora várias matrizes culturais, com uma grande ênfase na cultura popular. Essa cultura popular mantem em uso diversas formulas culturais (musicais, corporais, de linguagem oral, literárias, hábitos de comer e vestir, etc). Afinal, a música é um importante meio para que essa cultura continue tendo vigência e mantenha sua disputa na sociedade.


O gosto pela música, sua associação com festas populares e a relação de entrega e envolvimento que as pessoas têm com ela. São alguns dos elementos para a construção da identidade musical da terra. Música e dança constituem uma parte importante do cotidiano dos escravos. E o ciclo de festas na Bahia oitocentista era numeroso e, segundo Verger, pelo calendário litúrgico, começava em 04 de dezembro com a Festa de Santa Bárbara, e terminava, ao fim de dezenas de eventos, a 15 de agosto, com a Festa de Nossa Senhora da Boa Morte (1981, p.73-93).

Usar a criatividade e a capacidade de improvisar era um exercício frequente. As bandas de barbeiros (negros livre ou libertos que “cultivavam a música de orelha, nas horas vagas. BRASIL, 1969, p.86), por exemplo, eram conhecidas, tanto pelo seu instrumental variado e improvisado, quanto pela qualidade e versatilidade de seus executantes.


Do ponto de vista dos intelectuais da época, as canções e histórias que o povo cantavam e contava eram primitivas, ingênuas, sem rebuscamento, mas cheias de verdade e sentimento. Para a pesquisadora Márcia Abreu, “o popular propicia, ainda hoje, algum encanto, mas a ele é reservado um lugar bem delimitado: o lugar do folclórico, do exótico, do primitivo. Nas aulas de literatura pouco ou nada se estuda sobre as composições regionais. Elas têm mais chance nos estudos sociológicos e antropológicos” (2006, p.34).

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

O que é que a música baiana tem? (3)

CONSUMO

A música de consumo, que chamamos de “digestiva” é produzida por uma industria para vir ao encontro de algumas tendências que esta individua (e cultiva) no mercado. Trata-se de uma música voltada para a satisfação de exigências, que por definição são banais, epidérmicas, imediatas, transitórias e vulgares. O mau habito musical está voltado exclusivamente para o comércio. Assim a música de consumo é um produto industrial que não tem nenhuma intenção artística, e sim à satisfação das demandas do mercado.


Quem está atento a música popular conhece os ótimos frutos (com textos de nível poético, melodias originais) desse movimento musical. Quando os “iletrados” tomaram o poder (ou seja adquiriram aparelhos que facilitaram a gravação de música) começaram a compor suas canções, mobilizando pessoas para escrever a letra e colocar o ritmo já saturado do mercado. Quando eles puseram em circulação os primeiros discos ou enfrentaram uma audiência de massa em algumas manifestações populares, conseguiram agradar aqueles que estavam sem nenhum recurso.


O fato é que hoje, passados dez ou doze anos, podemos apontar em nosso país um filão ativo de autores e cantores que fazem canções de modo diferente dos outros. E esse novo filão da música, partindo da sátira de costumes, da reexumação dos cantos da malandragem, chegou, por um lado a restituir ao grande público uma canção civil, encharcada de problemas, e a seu modo, de novos valores. E o que a juventude de hoje encontrou encarna seus problemas: as ânsias pelo amor não correspondido, o despeito pelo amor contrariado, a violência verbal entre outros atingiu os jovens de perto, e tornou-se o encontro fugaz enquanto o ritmo entranha pelo corpo.

A dança é uma ginástica coreografada com funções eróticas (mas ao mesmo tempo a recusa de um erotismo indiferenciado, a opção erótica reservada a um só, e portanto uma inequívoca declaração de moralidade, um diferenciar-se da genérica imoralidade dos adultos). Assim há um choque catártico provocado pelo intenso berro, qualidade técnica de um ditado canoro novo e apreciado como tal, evasão de um mundo construído pelos adultos graças à legalização, e a idealização e intensificação de um mundo ideal e sexual que correspondem a todas as expectativas do seu público. A canção é a padronização rítmica, repetitivos.


Essas canções não refletem a realidade, estiliza-a, contenta-se em pôr em cena autômatos. Por isso pode até intimidar jovens incapazes de igualar as performances “dançantes sexuais” daqueles atletas masculinos ou femininos. Tais performance está condenado à estratégia do exagero: é preciso surpreender o espectador. Os produtos, movidos exclusivamente pelo gosto do lucro, não recusa certas facilidades musicais (palavras chaves como na publicidade) para um efeito gerador de ansiedade.

O verdadeiro crime são a mediocridade e o fato de terminar sempre com as mesmas acrobacias sexuais, acrescidas de uma frase tão pedante quanto oca. O apetite das imagens eróticas pelos adolescentes (fenômeno presente em todas as épocas) é correlacionado a uma total ignorância das coisas do amor: erudição imensa acompanhada de desconhecimento crasso. A empolgação linguística calcada em obscenidades é típica dos virgens. Há precocidades lexicais que são crepúsculos libidinosos. Em certos meios, a regressão machista encorajada pela tradição coexiste com a pornografia, pelo menos é a língua que ela fala. É o caso da “ralé de subúrbio” e de sua misoginia agressiva misturando os bairros nobres, em que adolescentes chamam-se umas às outras de cachorras, vadias. A vulgaridade de certo léxico sexual, ao entrar na língua comum, termina se degastando e mergulhando no kitsch. Segue-se o marketing de provocação, e muitos sonham em ser proibidos para se beneficiar da auréola de maldito.


E o que se ouve é música para um público que deseja felicidade de escapar através da expressão à opressão, mas também à pobreza de espírito, ao estereótipo da perversão padronizada. Quanto mais a palavra se descontrai, mais ela empobrece, produz frieza e glaciação. Tudo se passa como se o sexo tivesse sido liberado pelo preço da extinção do desejo e nos leva da repressão à depressão. Assim se explica o fato de nossa época liberada ser também a que lota as prisões com delinquentes sexuais.



Ao tratar de música e de valor estético estamos em terreno movediço e variável. O que se considera música hoje não é o que se considerava no século XVIII. A avaliação estética e o porto musical variam conforme a época, o grupo social, a formação cultural, fazendo que diferentes pessoas apreciem de modo distinto as canções, romances, poesias e filmes. Muitos, entretanto, tomam algumas produções e algumas formas de lidar com elas como as únicas válidas. Há compositores excelentes e compositores medíocres, boas e más canções.


Julgar e hierarquizar um tipo de música empregando um único critério não é o mais correto, é preciso compreender cada obra dentro do sistema de valores em que foi criada. Não se trata de esquivar de qualquer forma de julgamento ou hierarquia, até porque os grupos culturais avaliam suas próprias produções e decidem que há algumas mais bem realizadas que outras. O que parece inadequado, entretanto, é avaliar todas as composições segundo os critérios pertinentes à criação erudita. Abandonando esta forma de agir, ficará claro que não há composições boas ou ruins para todos, pois nem todos compartilham dos mesmos critérios de avaliação.


É preciso garantir espaço para a diversidade de criações, que se garanta o espaço do outro. Com isso há o favorecimento do encontro com a alteridade (alteridade de temas, de modos de se expressar, de critérios de avaliação). Cada povo, ou cada grupo, tem um jeito próprio de fazer isso e uma maneira peculiar de apreciar essas produções. Alargar o conhecimento da própria cultura e o interesse pela cultura alheia pode ser um bom motivo para se ouvir música. Não há obras boas ou ruins em definitivo. O que há são escolhas – e o poder daqueles que as fazem. Música não é apenas uma questão de gosto: é uma questão política.

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14 dezembro 2011

O que é que a música baiana tem? (2)

Um dos divulgadores do lundu em Portugal e que causou furor na corte portuguesa foi o mulato brasileiro, filho de um português com uma angolana: Domingos Caldas Barbosa, apelidado de Lereno Selinuntino. Ele cantava lundus e modinhas com temas picantes, maliciosos e humorísticos acompanhado de sua viola de arama. O lundu se consolida como um gênero de música popular de caráter malicioso, humorístico e de crítica social a partir do século XIX nas ruas, tabernas, festas populares, teatro de costumes e também nos salões aristocráticos


Os gêneros musicais como polca, lundus, maxixes e modinhas ocupavam um lugar de aguda inferiorização no cenário musical brasileiro, numa primeira fase da fonografia, anterior à popularização do rádio. Apesar de compostos, tocados e consumidos também por setores das elites urbanas, formavam um conjunto de musicas para as quais havia pouca seriedade, algum desconforto e, com frequência, violenta repressão.


“Num processo contínuo de tensas negociações culturais, a música popular vai aos poucos saindo de uma posição altamente marginal para o centro da indústria de massa do período que, apesar de sabidamente incipiente (ORTIZ, 1999), iniciava sua implantação tentacular na sociedade brasileira. Protagonista deste processo, o samba irá se afirmar como uma ´coisa nossa´ entre as décadas de 1920 e 1940, consolidando-se aos poucos como uma espécie de patrimônio cultural nacional. Com poderoso apoio do rádio e do governo federal, o gênero torna-se elemento central de uma identidade nacional (republicana e urbana) em construção (TATIT, 2004, VIANNA, 1995)”, revela o professor Felipe Trotta em seu trabalho “Critérios de qualidade na música popular: o caso do samba brasileiro.


Para o estudioso, “o processo de legitimação do samba na sociedade brasileira não chegou a atingir sua plenitude. Fortemente vinculado ao seu contexto de formação, o gênero vem lutando desde suas origens contra uma latente rejeição ligada, entre outras coisas, à questão étnica. Como prática musical criada por uma população de baixa renda das periferias da cidade do Rio de Janeiro, majoritariamente constituída por negros e mulatos, o estereotipo racista que legitimou séculos de escravidão permanecia à época de sua nacionalização (e até hoje) bastante presente no imaginário compartilhado da população, impedindo voos mais altos nas lutas por legitimidade (p.130/131).


E num depoimento contundente, o sambista carioca Moacyr Luz fornece detalhes sobre esse papel hierárquico inferiorizado – até hoje – do samba e do sambista: “É uma coisa assim; o jazz é elegante, o samba é deselegante; o tropicalismo é moderno, o samba é antiquadro; a bossa nova é fina, o samba é escrachado; a MPB do Chico Buarque e do Caetano é intelectual, o samba é intuitivo. Qualquer comparação que for se tratar sempre o samba é levado a uma categoria menor. É curioso isso!. Você diz assim ´eu sou compositor´ é uma coisa. E de repente vem uma coisa assim: ´Ah, você é sambista!´, essa palavra ela vem cercada de preconceito. É impressionante isso!”, depoimento pessoal ao autor em 4/4/2005 (p.133).


Trotta conclui: “A imensa rede de argumentações positivas e negativas sobre as práticas musicais oferece um panorama sobre o terreno pedregoso das avaliações estéticas. Porém, uma coisa é certa: julgar é inevitável. Afinal, o que Steven Connor classifica como o ´imperativo do valor´ nos impele a uma ´orientação irredutível para o melhor e uma repulsa ao pior´(1994, p.12), estabelecendo um conjunto de disposições estéticas e étnicas que moldam nossa vida social. E são exatamente esses julgamentos que fazem do campo da cultura não uma seara transparente e agradável de experiência coletiva, mas um território de conflitos agudos, negociações de divergências e agressões simbólicas (e, algumas vezes, físicas). A tensão entre o campo ideológico dos critérios legítimos e a trincheira tão antagônica dos outros critérios aqui discutidos é um pequeno exemplo desta arena de embates que pode ser muito dura, mas é, sem dúvida, fascinante” (p.134)

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13 dezembro 2011

O que é que a música baiana tem? (1)

A Bahia é extensa e não há como definir um rumo linear para a música popular. De forte apelo popular, ela não possui uma voz única. Temos samba, reggae, samba reggae, afoxé, axe, pop, rock, pagode, arrocha, forró, funk, erudita, sertaneja, instrumental, experimental, e muitas outras. Os meios de comunicação não disseminam de forma democrática, com igualdade de oportunidades os diversos gêneros sonoros que povoam nosso território. Afinal, há uma engrenagem financeira imediatista ao mercado. Muitas músicas são financiadas (o chamado jabá) para tocar nas mídias. E o circuito se autoalimenta, já que ele condiciona o ouvido da maioria da população a um único tipo de música e abordagem. De vez em quando, dentro desse cenário viciado, há algumas exceções, independentes espalham-se em ritmo avassalador e se destaca.


Nas épocas de grandes festas (carnaval e festejo junino) o foco único passou a concentrar-se nos chamados produtos descartáveis, de fôlego curto, vendas altas e mediatas. E fora do foco estão programadores/produtores/intérpretes que privilegiam timbres e texturas. Mas o mercado econômico privilegia os reality shows e sua rasa casta de celebridades com a internet e suas redes sociais possibilitando ao artista um acesso direto ao fã. O resultado é uma perda técnica com músicas compelidas em iPods e MP3 e uma massificação descaracterizadora onde sobrevive quem fala direto ao povo – seja no contexto sexual ou na violência gramatical. E salve-se quem puder.


As práticas musicais populares, no século XVII, por se difundirem e preservarem por meio da oralidade, não possuem registros grafados e, portanto, se perderam na “boca do povo”. Naquela época havia uma dança, praticada pelos mestiços, repleta de gestos sensuais, cuja trilha sonora eram os batuques dos negros. Essa dança era chamada de lundu. O poeta baiano Gregório de Mattos Guerra, conhecido como “Boca do Inferno” costumava usar o artifício de cantar na forma de versos em que o significado resultaria do cruzamento do duplo sentido das palavras. Ele enfrentou a moral católica e críticos mais contundentes e pagou por suas ousadias. Preso e deportado para Angola (Luanda) só retornou tempos depois co uma condição – não escrever aquele tipos de poemas. A obra de Mattos se identificava com o popular, era explícita no linguajar utilizado em muitos de seus poemas.


A primeira música gravada no Brasil, em 1902, foi o lundu “Isto é bom”, de autoria de Xisto Bahia (1841-1894), interpretado pelo cantor Baiano (1870-1944). Mas, algumas décadas antes do advento da indústria fonográfica, o lundu exerceu papel importante no teatro de revista e popularizou-se como atração humorística, executada ao violão pelos palhaços do circo.


O lundu se distingue por expressar-se por meio do ritmo sincopado, originário da cultura africana, pelo tom humorístico das letras, além da malícia e da sensualidade. Ao longo do período que vai da segunda metade do século XVIII ao início do século XX, passou por transformações significativas no que diz respeito à temática.


A origem da palavra lundu vem de calundu, dança ritual africana as vezes também chamada de lundu. O termo está relacionado aos batuques dos negros, e é compreendido inicialmente como dança: uma combinação entre a umbigada africana e o fandango europeu. O ritmo da dança, mais tarde, vai dar origem ao lundu-canção.


Para Tereza Virgínia de Almeida, em seu estudo “No balanço malicioso do lundu”, “o humor dos lundus advém, em parte, das cenas transgressoras e maliciosas que apresentam, em estrofes sempre marcadas pela leveza e pela graciosidade. O surpreendente e curioso é que estas formas consigam trazer à tona questões complexas como a escravidão e a violência, temas que encontram no tom humorístico o viés possível de visibilidade ainda no século XVIII” (p.s47, 48).

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