17 abril 2015

“Tudo está na palavra”, disse Neruda



Ler é estimulante. Tal como as pessoas, os livros podem ser intrigantes, melancólicos, assustadores, e
por vezes, complicados. Os livros partilham sentimentos e pensamentos, feitios e interesses. 

Os livros colocam-nos em outros tempos, outros lugares, outras culturas. Os livros ajudam-nos a sonhar, fazem-nos pensar. "Um país se faz com homens e livros", dizia o escritor Monteiro Lobato. 

Talvez por isso, Castro Alves foi tão enfático ao proclamar no seu poema O livro e a América: "Oh bendito o que semeia/ livros, livros à mão cheia/ E manda o povo pensar! O livro caindo n`alma/ É germe - que faz a palma/ É chuva - que faz o mar".

O livro, segundo o dicionarista Antonio Houaiss é um instrumento por excelência da tradição – transmissão da posse e do conhecimento. Mas o que vemos hoje parece paradoxo: as crianças, no ensino primário, são introduzidas no mundo da televisão, do cinema, circo, teatro e até da internet, e depois no mundo dos livros. 

“Livro – disse o padre Antônio Vieira – é um mundo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Muitas vezes o livro causa aversão aos alunos quando as primeiras leituras são obrigatórias.

Para incentivar o hábito de leitura é preciso que os pais tenham esse hábito, que os filhos convivam com o livro em sua própria casa. A falta de hábito de leitura significa que o jovem não domina as práticas da leitura e não entende o conteúdo de um texto. Há uma sutil diferença entre a informação (obtida por meio dos jornais, revistas, TV, rádio e Internet) e a formação baseada nos livros e nas salas de aula. Afinal, somos uma
civilização escrita. “Somos instrumento fundador de humanidade, as línguas, em particular as grandes línguas de cultura, transitaram de um léxico máximo de 40 mil palavras no fim do século 18 para um léxico mínimo de 400 mil palavras nos meados do século XX”, disse Antonio Houaiss, demonstrando a imensa riqueza que guardamos em palavras.

“... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... Amo tanto as palavras ... As inesperadas ... As que
avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... Vocábulos amados ... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... Persigo algumas palavras ... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ...”

“Tudo está na palavra ... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra
se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos
perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram”.

O poeta Pablo Neruda (Confesso que Vivi – Memórias) discorre sobre as palavras e, por meio delas, apresenta os temas recorrentes em sua escrita: palavras do mar, do ar, da terra. Palavras táteis, olfativas, auditivas, visuais, palatáveis. Palavras líricas, épicas e dramáticas: palavras do opressor e do oprimido. Palavras iguais incrustadas de maneira diferente na frase, no verso, discurso do poeta, do trabalhador, do colonizador e do colonizado. E ele confessa, com esse idioma (corrente, expressivo, sonoro) herdado dos colonizadores, que recolhe lembranças.

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