23 abril 2015

Na teia da tevê a falta de capacidade de compreender

A passagem da civilização oral para a palavra escrita é que desenvolve a civilização. Até a invenção da imprensa a cultura de qualquer sociedade fica amplamente baseada na transmissão oral. Até o fim do século XV, o fato de ler, e ter algo para ler, foi um privilégio de pouquíssimo erudito. É com a imprensa de Gutenberg que a transmissão escrita da cultura se torna potencialmente acessível a todos.


Entre o fim do século XVIII e começo do século XIX a reprodução mediante a imprensa foi lento mas constante, alcançando o seu ponto alto com o advento do jornal que é impresso todos os dias. Mais tarde veio a invenção do telegrafo, do telefone e do radio, todos elementos portadores de comunicação linguística.

A virada começa com a chegada da televisão que vai modificar a natureza da comunicação, deslocando-a do contexto da palavra (seja impressa ou transmitida pelo radio) para o contexto da imagem. Uma diferença radical. Afinal, a palavra é um símbolo totalmente resolvido naquilo que significa, naquilo que faz entender. A palavra leva alguém a compreender somente quando for entendida, ou seja, quando conhecemos a língua a que pertença. a imagem é pura e simples representação visual. Para entender uma imagem é suficiente vê-la. Por isso, a televisão não pode ser tratado por analogia, isto é, como se fosse uma continuação e uma ampliação dos instrumentos de comunicação que a precederam. A tevê não é um acréscimo, mas antes de mais nada, uma substituição que derruba a relação entre o ver e o entender.

Antes nós tomávamos conhecimento tanto do mundo como dos seus acontecimentos mediante a narração oral ou escrita. Hoje podemos vê-los com os nossos olhos e a narração é quase apenas em função das imagens que aparecem no vídeo.

As palavras que articulam a .linguagem humana são símbolos que evocam tambémrepresentações,isto é, evocam na mente configurações, imagens de coisas visíveis. Isso acontece somente com os nomes próprios e com as palavras concretas. Quase todo o nosso vocabulário cognitivo e teórico consiste em palavras abstratas que não tem nenhuma correspondência exata das coisas visíveis e cujo significado não pode ser referido nem traduzido em imagem.

A palavra cidade, por exemplo, corresponde ainda a algo visível. Mas nação, Estado, povo soberano, burocracia, e assim por diante, não representam nada visual, são conceitos abstratos, elaborados por processos mentais dedutivos. Assim toda nossa capacidade de criar e gerir o habitat politico econômico em que vivemos, tem o seu eixo exclusivo em um pensar mediante conceitos que são entidades invisíveis e inexistentes.

Todo o saber do homo sapiens se desenvolve de um mundus intelligibilis (de conceitos e de concepções mentais) que não é nosso sentido. Por isso a tevê inverte o progredir do sensível para o inteligível, virando-o em um piscar de olhos para o retorno ao puro e simples ver. A tevê produz e apaga os conceitos, atrofia nossa capacidade de compreender.

Uma prova disso é que o ser humano que está em rápida queda, quer se trate de leitor de livros como também do leitor de jornais. A imagem, por si, não oferece quase nenhuma inteligibilidade. A imagem deve ser explicada, e a explicação da imagem que é dada no vídeo é constitucionalmente insuficiente.

Os noticiários da tevê dão ao espectador a sensação que aquilo que se é verdadeiro, e que os eventos são vistos por eles tais como acontecem. Mas na realidade não é assim. A tevê pode mentir, e falsificar a verdade, exatamente como qualquer outro instrumento de comunicação. A diferença está no fato que aforça de veracidadecontida na imagem torna a sua mentira mais eficaz e por isso mesmo mais perigosa.

A televisão privilegia a emotivização da política, isto é, uma política relacionada ou reduzida a pencas de emoções. Narra avalanches de histórias lacrimosas e peripécias tocantes. Afinal, a cultura da imagem gerada pela primazia do visual é portadora de mensagemquentesque, justamente esquentam os nossos sentimentos, excitam nossos sentidos e, em suma, apaixonam.

Apaixonar implica envolver, fazer participar, criar sinergias, simpáticas. Apaixonar-se é bom, mas fora do lugar, é mau. O saber é logos, não é pathos. E para governar a cidade politica é necessário o logos. Na cultura escrita oaquecimentonão pode passar disso. E por mais que a palavra possa inflamar (por exemplo, no radio), a palavra é de fato menos aquecedora do que a imagem. Portanto, a cultura da imagem quebra o equilíbrio delicado entre paixões e racionalidade. A racionalidade do homo sapiens está retrocedendo. E a politica emotiva, emotizada e aquecida pelo vídeo levanta e atiça problemas sem fornecer qualquer ideia de como resolvê-los. E desse nincho os agrava ainda mais.

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