27 abril 2015

Olhar de quem veio de longe (01)



A Bahia é singular, plural, positiva e negativa, preta, branca, cinza, multicor. Terra do samba de roda, pagode, arrocha, axé, rock, reggae, pop, música instrumental, carnaval, São João, natal, do profissional ao experimental. Mas a Bahia não pode esquecer que muitos dos seus filhos vieram de fora, a exemplo do antropólogo francês Pierre Verger, do artista plástico argentino Carybé, do músico suíço Walter Smetak, do escultor alemão Karl Heinz Hansen, do caricaturista português Raymundo Aguiar (K-Lunga), do educador português Agostinho da Silva, do artista plástico polonês Frans Krajcberg, do franco-marroquino Dimitri Ganzelevitch e tantos outros.

A Bahia é um estado d´alma. Cada um a carrega vida afora à sua maneira. Cada um tem a sua Bahia. Para uns são as festas populares sagradas e profanas, para outros, o perfume dos cacaueiros da infância ou do sabor das frutas tropicais. E outros ainda a terra da costa clara, banhada por um mar amigo que inspira canções. O lugar onde se está é onde o mundo nasce. O seu povo, plural na sua etnia e singular nas suas manifestações. Assim conhecer a Bahia é usar os sentidos. De corpo e da alma.


FATUMBI

O fotógrafo, etnólogo, antropólogo e babalaê Pierre Verger (1902-1996) desembarcou em Salvador em 1946 e fez reportagens sobre o candomblé, impressionando-se com a cultura dos descendentes dos africanos. Mais tarde, envolvido com os rituais afros, foi consagrado a Xangô e recebeu o título de babalaô Fatumbi – o renascido, na Africa, em 1952. Seu amor às coisas e gentes da Bahia foi amplamente documentado nas obras 50 Anos de Fotografia, Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos – dos Séculos XVII a XIX, Notícias da Bahia – 1950, Ewê – o uso das Plantas na Sociedade Iorubá, entre outras.


Etnólogo autodidata, ele conseguiu o título de doutor terceiro ciclo da Universidade de Sorbone e ensinou na Universidade de Badã na África. Foi professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba. Toda sua obra de mais de cem livros e 65 mil negativos, uma biblioteca com quase três mil volumes, um catálogo de 3,5 mil plantas e mais de cem horas de gravações em iorubá, estão à disposição de estudiosos e pesquisadores na fundação que leva seu nome em sua casa, no Alto do Corrupio, Vasco da Gama.


DESENHANDO

O baiano Carybé (1911- 1997), que por acidente nasceu na Argentina, foi desenhista, gravador, pintor, ceramista, escultor, historiador, jornalista, pesquisador, escritor. Em 1938 aportou em Salvador. Deslumbrado, quis ficar. Não foi possível. Mas o desejo de pintar a magia do povo baiano, os rituais do candomblé e as belas paisagens da terra dos orixás falava alto em seu coração. Depois de ter viajado demoradamente pela América do Sul, desenhando e expondo, voltou em 1950 e fixou para sempre na Bahia.


Chegou de vez à terra da mestiçagem, do candomblé e das puxadas de rede que retratou em seus quadros. Aceitou um convite de Anísio Teixeira, no governo de Otávio Mangabeira, para desenhar a Bahia. Através da arte (desenho, aquarelas, aguadas, óleos, talhas, painéis, livros) e através da ação pessoal numa participação cotidiana e criadora na vida popular baiana, tornou-se um dos cidadãos mais eminente da urbe. Em sua obra, ele registrou de maneira expressiva os rituais do candomblé e valorizou as tradições trazidas da África pelos negros.


XILOGRAVURAS

O artista alemão - gravador, escultor, pintor, ilustrador, poeta, escritor, cineasta e professor -
naturalizado brasileiro Karl Heinz Hansen (1915-1978) chegou ao Brasil em 1950 e viveu em São Paulo. Em 1955 ele se mudou para Salvador. Em 1957, ilustra a publicação Flor de São Miguel, com textos de Jorge Amado, Vinicius de Moraes e de sua autoria. No ano seguinte realiza ilustrações para Navio Negreiro, de Castro Alves. Retorna à Alemanha em 1959, lá permanecendo até 1963, enquanto trabalha no ateliê de gravura fundado por ele mesmo no castelo Tittmoning. Vive na Etiópia entre 1963 e 1966, onde ajuda a estabelecer a Escola de Belas Artes da cidade de Addis Abeba. Retorna a Salvador e naturaliza-se, adotando o nome artístico de Hansen Bahia. Em 1959, retornou à Alemanha, onde ficou até 1967, quando foi para a Etiópia. Em 1966 ele voltou à Bahia, de onde não saiu mais, sempre retratando sua gente e vida.


Torna-se professor de artes gráficas da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1967. Muda-se para São Félix, Bahia, em 1970, e lá reside até seu falecimento, em 1978. Dois anos antes de sua morte, doa em testamento sua produção artística para a cidade de Cachoeira, Bahia, onde é criada a Fundação Hansen Bahia, que recebe seu acervo artístico de xilogravuras, matrizes, livros, pinturas, prensas e ferramentas de trabalho.Quando começou sua carreira de xilogravador quase no susto, o autodidata Hansen talvez não imaginasse que se tornaria um dos grandes mestres da técnica.

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