13 março 2015

Mercado cultural



Para muitos artistas e críticos, a Bahia vive hoje o simulacro de democratização. Se o artista precisada ajuda do governo mas não compatibiliza com seus discursos, ele precisa assinar o termo invisível da operação neutralizadora da crítica. Deve-se aceitar tudo a contragosto. Ou melhor, degustar mesmo com sabor amargo. Assim, o discurso que despolitiza os artistas dissolve sua adesão revolucionária de rebeldia em política de adesão e, assim, a política em imoral e a moral em arte. Fica o dito não dito,  etudo bem' na indústria cultural.

O autoritarismo político no mercado cultural transforma as ameaças em discurso adesivo e tudo vira um carnaval. Nesse procedimento formal e mecanismo de distinção denominado arte interage com a maioria sob as regras daquelas que costumavam ser os mais eficazes comunicadores: as indústrias culturais, hoje transformada em vazio.

Os artistas e escritores como Octavio Paz e Jorge Luis Borges que maios contribuíram para a independência e profissionalização do campo cultural fizeram da crítica ao Estado e ao mercado eixos de sua argumentação.

Hoje, a arte é uma prisão

Para que a arte possa ter autonomia absoluta é preciso estar reinserida em movimentos sociais amplos. Os experimentos dos projetos pessoais, soluções estilísticas, reflexões precisam articular com a história, a cultura popular, preocupações construtivistas, utopias de massas.

Hoje, a arte é uma prisãoescreveu em 1976 o arquiteto e artistas argentino Horacio Zabala. E ele afirma, com Foucault, que a prisão é umainvenção', uma técnica de identificação e enquadramento dos indivíduos, de seus gestos, sua atividade e sua energia. Como a prisão, esse mundo éum sistema fechado, isolado e separado, uma totalidade que limita a liberdade excluindo e negando, onde tudo sufoca, da qual não é possível subtrair-se mediantea própria imaginação forçada. (Horacio Zabala, Öggi, l'Arte è uma Carcere, em 2.Russo (ed), Ogio l'Arte é uma Carcere?, Bologn, II Mulino, 1982, pp.85-103). Frente à impossibilidade de construir atos, para evitar cair em ritos, a arte escolhe ser gesto.

A prisão como último laboratório. Não outras saídas senão a submissão ao mercado, a ironia transgressora, a busca marginal de obras solitárias e a recriação do passado. Temos no Brasil mais histórias da literatura que das artes visuais. Mais sobre literatura das elites que sobre manifestações equivalentes das camadas populares.

É preciso que artistas sejam capazes de articular movimentos e código culturais de diferentes procedências. Mostrar que é preciso fundir as heranças culturais de uma sociedade, a reflexão crítica sobre seu sentido contemporâneo e os requisitos comunicacionais da difusão maciça. 



Teatralização do poder

O estudioso argentino Néstor Garcia Canclini em sua obra Culturas Híbridas ao analisar a teatralização do poder informa que o patrimônio existe como força política na medida em que é teatralizada: em comemorações, monumentos e museus. A teatralização do patrimônio é o esforço para simular que uma origem, uma substância fundadora, em relação a qual deveríamos atuar hoje. Essa é a base das políticas culturais autoritárias. O mundo é um palco, mas o que deve ser representado está prescrito. As práticas e os objetos valiosos se encontram catalizados em um repertório fixo. Ser culto implica conhecer esse repertório de bens simbólicos e intervir corretamente nos rituais que a reproduzem.

A política autoritária é um teatro monótomo. As relações entre governo e povo consistem na encenação do que supõe ser o patrimônio definitivo da nação. Lugares e praças, palácios e igrejas, servem de palco para representar o destino nacional, traçado desde a origem dos tempos. Os políticos e os sacerdotes são os atores vicários desse drama.

Hoje sabemos que toda politica é feita, em parte, com recursos teatrais: as inaugurações do que não se sabe se vai ter fundos para funcionar, as promessas do que não se pode cumprir, p reconhecimento público dos direitos que serão negados em privado(p.163).

O estudioso não é contra as cerimônias comemorativas de acontecimentos fundadores mas aexcessiva ritualizaçãocom um único paradigma, usado dogmaticamentecondiciona seus praticantes para que se comportem de maneira uniforme em contextos idênticos e incapacita para agir quando as perguntas são diferentes e s elementos da ação estão articulados de outra maneira.

Políticas culturais menos eficazes são as que se aferram ao arcaico (pertence ao passado) e ignoram o emergente (novos valores), porque não conseguem articular a recuperação da densidade histórico com os significados recentes gerados pelas práticas inovadoras na produção e no consumo.

Em outro tempo havia o mito da originalidade, tanto na arte de elites quanto na popular. Desde o célebre texto de Benjamin de 1936 (Walter Benjamin, A Obra de Arte na Época de sua Reprodutividade Técnica) analisa-se com a reprodutividade técnica de pintura, da fotografia e do cinema atrofiaa auradas obras  artísticas, essamanifestação irrepetível de uma distânciaque é a existência de uma obra única, em um lugar, ao que se vai em peregrinação para contemplá-la. Quando os quadros de Berni, Szyslo ou Tomayo se multiplicam em livros, revistas e televisores, a imagem original é transformada em repetição em massa.  

O problema da autenticidade e unicidade da obra muda seu sentido. Advertimos então, com Benjamin, queo autênticoé uma invenção moderna e transitória:A imagem de uma Virgem medieval não era autêntica no tempo em que foi feita; foi se tornando ao longo dos séculos seguintes, e mais exuberantemente que nunca o século passado. De outro lado,torna-se evidente que a mudança atual não é efeito das novas tecnologias, mas uma tendência histórica global:Aproximar espacial e humanamente as coisas é uma aspiração das massas atuais.


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