19 agosto 2009

Tango, um sentimento triste que se baila (1)

Ao ouvir o som do tango surge sempre a imagem de glamour, sensualidade e determinação no olhar. Mas nem sempre foi assim. O início da dança mais famosa dos argentinos não passava de uma simulação de luta entre dois homens com faca em punho. A princípio era apenas um ritmo para dançar e suas origens nasceram do Tanguillo da Andaluzia (Espanha) e da Habanera, rumba cadenciada que se dançava em Havana, Cuba. Recebeu influências de ritmos africanos, candombe, de onde aliás se deriva o nome tango (em alguns dialetos africanos tango significa lugar fechado onde as pessoas se encontram). Inicialmente era considerado música de marginais, em que homens dançavam entre si nas ante-salas dos prostíbulos.


No final do século XIX, Buenos Aires era uma cidade em expansão. Sua população era de imigrantes espanhóis, italianos, alemães, húngaros, árabes e judeus. Cerca de 70% da população era composta por homens ávidos pelas promessas de fortuna e 25% de negros que dançavam no ritmo do candombe. E é neste cenário que dá início ao tango, praticado em bordéis e prostíbulos ao som de violino, flauta e violão. O bandoneón surgiu somente em 1900, substituindo a flauta.

Assim o tango nasceu como expressão folclórica das populações pobres, oriundas de todas aquelas origens, que se misturavam nos subúrbios da crescente Buenos Aires. Os imigrantes, na sua maioria gente pobre e com um fardo difícil, transmitiram nostalgia e um ar melancólico para as músicas. Talvez por isso os portugueses se identifiquem tanto com o tango. Dança multicultural que se identifica com o povo português, o folclore, os bairros pobres, a nostalgia, assemelhando-se ao fado.

A fase inicial era puramente dançante. O povo se encarregava de improvisar letras picantes e bem humoradas para as músicas mais conhecidas. O baile era corporal, provocador, com movimentos explícitos e letras obscenas: “duas sem tirar”, “gozo com tanto vento”, “a espiga de milho” (no sentido metafórico). O êxito desses espetáculos tornou-os mais frequentes. Eram organizados apenas por homens. Em público, apenas dançavam homens com homens. Naquele tempo era considerada obscena a dança entre homens e mulheres abraçados, sendo este um dos aspectos do tango que o manteve circunscrito aos bordéis.

Enquanto aguardavam a vez para entrar nos quartos das prostitutas, passavam o tempo bailando, homem com homem. Mais tarde, o tango se tornou uma dança tipicamente praticada nos bordéis, principalmente depois que a industrialização transformou as áreas dos subúrbios em fábricas transferindo a miséria e os bordéis para o centro da cidade. Nessa fase haviam letras com temática voltadas para esses ambientes. Eram letras francamente obscenas e violentas. As letras são escritas no peculiar dileto portenho, o lunfardo. Gíria usada por delinqüentes e gigolôs, mistura de espanhol, de dialetos italianos, de português, de idiomas indígenas. Tanto a música como a letra assumira tom acentuadamente melancólico, com temas obre os tropeços da vida e desenganos amorosos. A temática é ligada à boemia, com menção ao vinho, aos amores proibidos e às corridas de cavalos.

As pessoas ricas não podiam dançar o tango, porque dizia que os dançarinos ficavam muito juntinhos, fazendo passos sensuais e as outras danças da época eram mais comportadas. Por isso, o tango só era dançado nas áreas pobres de Buenos Aires. Dos subúrbios chegou ao centro de Buenos Aires, por volta de 1900. E as primeiras composições assinadas surgiram na década de 1910, no período conhecido como Velha Guarda. É nessa época que os emigrantes argentinos chegaram a Paris, levando consigo o tango. A sociedade parisiense da época ansiava por novidades e extravagâncias. O tango logo se transformou numa febre na capital francesa e, como Paris era o ícone cultural de todo mundo civilizado, depressa o tango alastrou ao resto da Europa.

O tango começou a ser exportado para o mundo por intermédio de marinheiros de diversas partes do mundo, encantados com suas incursões em terras pelas noites argentinas. A Argentina reabilitou o tango cantado, que a ditadura dos generais tentara erradicar, e redescobre a riqueza de suas origens e a filosofia que o acompanha. Até países como a Finlândia o tango tornou-se uma verdadeira instituição. Os mais conservadores e moralistas condenavam o tango (assim como já tinham condenado a valsa), por o considerarem uma dança imoral. Afinal, meter a perna entre as pernas de uma senhora era ofensivo e obsceno. A própria alta sociedade argentina desprezava o tango, que só passou a figurar nos salões da classe alta, graças ao efeito de ricochete provocado pelas notícias eu anunciavam o sucesso da dança em Paris.
A partir de 1917 a letra passou a ser parte essencial do tango e, consequentemente, surgiu os cantores de tango. “Mi Noches Tristes” é considerado o primeiro (ou pelo menos mais marcante nessa transição) tango-canção. De 1928 a 1935 Carlos Gardel reinou e atraiu multidões. Ele foi responsável pela popularização do tango, estrelando filmes musicais de tango produzido em Hollywood. A figura lendária de Gardel é o símbolo clássico do tango cantado. Seu parceiro, compositor e escritor de suas canções inesquecíveis como “Mi Buenos Aires Querido”, “El Dia que me Quieras” e “Volver”, foi Alfredo Le Pera, brasileiro.

Invadindo a cena da música para tirar o tango da marginalidade do “bas-fond”, Gardel cantou os caminhos e descaminhos do “Viejo Barrio”, “Mano a Mano”, “La Cumparsita”, “Caminito” e “Mi Buenos Aires Querido”. Com pinta de Rodolfo Valentino, o ator romântico do cinema mudo de então, Gardel gravou 500 discos, tendo ainda atuado no cinema, filmando nos anos 30 em estúdios da França e dos EUA. Só não acumulou fortuna porque foi também um perdulário, tão apaixonado pelo tango como por mulheres e corridas de cavalo.
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