25 abril 2011

30 anos sem Glauber: O homem é mais forte que a morte (01)

Ele era capaz das mais apaixonadas adesões e das mais enfáticas críticas a amigos e inimigos.

Fazia filmes ao mesmo tempo reflexivos, políticos e formalmente inovadores.

Dava declarações sinceras sobre tudo, sem a preocupação de agradar a ninguém, a não ser à sua integridade intelectual.

Era um sujeito anacrônico.

Para ele, era preciso, urgente,desenvolver o conhecimento da cultura brasileira, vasculhar as raízes, revolver o passado, por mais trabalho que desse.


Num 22 de agosto, há 30 anos, ele morria sem ter completado sua obra, mas deixando atrás de si uma marca profunda de sua viagem pelo horizonte social do País.


Ideias na cabeça nunca lhe faltaram: o que tinha faltado, muitas vezes, era a câmara na mão. E as mão, desocupadas, pareciam embaralhar-lhe, muitas vezes, as ideias na cabeça. O remédio, portanto, era botar sempre uma câmara nas mãos desse que foi, no mínimo, a figura mais instigante do cinema brasileiro: Glauber Rocha.


O inventor do Cinema Nova, de Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e de Cabeças Cortadas morreu aos 42 anos. Em seu último filme, A Idade da Terra, numa narração lida por ele mesmo, Glauber diz: “O homem é mais forte que a morte”. Enfant terrible do cinema brasileiro, gênio segundo muitos. Indiscutivelmente, o maior mito do cinema novo.


Glauber era um artista, radical, livre e longe das ponderações e conciliações dos políticos. Escreveu sobre o cinema brasileiro com suas dores e contorções. Nas ruas aprendeu o diabo e Deus naqueles chãos de febre, necessidade e sonho, entre livre atiradores, pedintes, passantes, tiros a êsmo e desempregados crônicos – era o cinema nacional.


Considerado o mais amado e odiado cineasta brasileiro, era visto pela ditadura militar, que se instalou no país em 1964, como um elemento subversivo. Ao longo de sua carreira, fez 11 longas e seis curtas, tendo a luta pela liberdade como tema recorrente. Liderou o movimento do Cinema Novo, que buscava quebrar radicalmente com o estilo cinematográfico norte-americano, notadamente a narrativa clássica hollywoodiana.

Glauber Rocha já foi biografado, de modo competente. Mesmo assim, o produtor musical e jornalista Nelson Motta avalia que há mais a dizer e lança, pela Objetiva, “A Primavera do Dragão”, sobre a juventude do cineasta. Às véspera dos 30 anos de sua morte, grande parte de sua obra está restaurada e acessível ao público.

PRIMEIRO CONTATO

Glauber de Andrade Rocha nasceu no dia 14 de março de 1939, em Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia. Na época, a fazenda de seu avô em Cafarnaum não existia mais. Ela havia servido de esconderijo a jagunços e pistoleiros, o que deu origem a histórias fantásticas que povoaram a infância do menino. Estudante em Salvador, ele fundou e presidiu o cineclube Clube Western. Foi o primeiro contato com o cinema.


Em Salvador, participou em programas de rádio, grupos de teatro e cinema amadores, e até do movimento estudantil. Em 1952, aos treze anos, participa como crítico de cinema do programa “Cinema em Close-Up”, na Rádio Sociedade da Bahia. Frequenta as matinês, lê histórias em quadrinhos e desenha caricaturas. No ano seguinte, Glauber ingressa no Círculo de Estudo, Pensamento e Ação (CEPA), dirigido pelo professor Germano Machado. Escreve o balé “Sefanu” e frequenta ativamente o Clube de Cinema, animado pelo crítico Walter da Silveira.

Em 1955, dirige as encenações do grupo “Jogralescas Teatralizações Poética”, idealizado pelo poeta Fernando Rocha Peres, combinando poesia e teatro. No ano de 1956, Glauber, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Luis Paulino, Zé Telles, Fernando da Rocha Peres, Fred Castro entre outros, fundam a Cooperativa Cinematográfica Yemanjá. Como Palavra de Ordem, pixam nos muros da cidade: “Você acredita em Cinema na Bahia!”. Glauber colabora no filme “Um dia na Rampa”, curta-metragem de Luiz Paulino dos Santos rodado no Mercado Modelo de Salvador. Chamado por Ariovaldo Matos, Glauber participa do jornal de esquerda “O Momento”. Colabora nas revistas culturais Mapa e Ângulos e no semanário “Sete Dias”.


Em 1958, Glauber inicia sua carreira jornalística como repórter de polícia do Jornal da Bahia. Em seguida, publica artigos sobre cinema e assume a direção do Suplemento Literário. Escreve ainda na página Artes e Letras, do suplemento dominical do Diário de Notícias, de Salvador, e para o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Nessa época também se emprega como funcionário público da Prefeitura de Salvador.


Antes de estrear na realização de uma longa-metragem (Barravento, 1961), Glauber Rocha realizou vários curtas-metragens, ao mesmo tempo que se dedicava ao cineclubismo e fundava uma produtora cinematográfica. Em 1958, filma seu primeiro curta, “Pátio”, com Solon Barreto e Helena Ignez. Esse curta metragem prenunciava o seu compromisso com uma nova linguagem e o introduzia no mundo mítico do cinema mítico até ´para ele: “Cinema para mim é algo sagrado. Eu sei que nem todo mundo pensa assim, mas, para mim, cinema é realmente algo sagrado. Mas é preciso entender que cinema é pintura em movimento com som. O cinema baseado na estrutura do diálogo é o anticinema”. Em O Pátio ele revelava sua preocupação com a pesquisa da linguagem.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

20 abril 2011

Sangue, a força vital da vida

Todas as células do nosso organismo têm necessidade, para manter-se em vida e desempenhar as suas funções, de receber oxigênio e materiais nutritivos. A tarefa de transportar a elas esses elementos cabe ao sangue, o qual, por sua vez, recebe das células as substâncias de rejeição. Para realizar esse refornecimento, o sangue tem necessidade de circular continuamente: os canais dentro dos quais o sangue circula são os vasos sanguíneos, enquanto o coração é a bomba que dá ao sangue o seu impulso para circulação. Coração e vasos constituem, no seu conjunto, o aparelho circulatório.


“Tum, tum, tum, bate coração...”. O coração bate mais rápido, porque ele é que faz o sangue circular. Mas o que é sangue? É um tecido. No corpo de um adulto circulam, em média, cinco litros de sangue, variando de acordo com o peso. O sangue é formado por uma parte líquida (plasma), constituída por água, sais, vitaminas e fatores de coagulação, na qual estão misturados as partes sólidas; hemácias, leucócitos e plaquetas. Os globos vermelhos, brancos e plaquetas são como as peças de um carro. Cada um tem uma função definida. Os glóbulos vermelhos levam oxigênio. Os brancos combatem infecções, ou seja, vírus e bactérias que atacam o corpo. E as plaquetas ficam responsáveis por parar os sangramentos, como quando alguém faz um corte na mão, ou seja, ajuda na coagulação do sangue.


O Brasil necessita diariamente de 5.500 bolsas de sangue. O ato de doar sangue representa a única forma de muitas pessoas continuarem vivendo, pois ainda não existe substituto para o sangue. É essencial que as pessoas saudáveis façam da doação de sangue um ato voluntário e contínuo. Doamos sangue porque alguém dele precisa. Pela facilidade e segurança com a qual pode ser retirado, associado ao enorme benefício para quem dele necessita, doar sangue é considerado um gesto simples de pessoas dispostas a ajudar o próximo, contribuir para a cura de enfermos. Quando doado para aquele que não conhecemos pode ser considerado um ato de profundo humanismo e respeito ao próximo.

O doador de sangue deverá ser voluntário, estar com boa saúde, alimentado, descansado. Deverá ser de maior (por questões legais) e acima de 50 kg. Deverá ser respeitado um intervalo desde a última doação de três meses para a mulher e dois meses para o homem. Pacientes de grupos de risco, que tiveram hepatite, malária ou portadores de Doenças de Chagas são considerados inaptos definitivamente a doação. Toda ênfase é na proteção ao paciente. O ato de doar é simples e dura menos de dez minutos. Todo material utilizado é descartável e não poderia ser hoje de outra forma: bolsas plásticas estéreis em sistema fechado e inviolável até o momento do uso.


Para a religião africana tudo o que a natureza produz é sangue, é o Axé. Utiliza-se vários tipos de sangue para formar o Axé, visando ampliar, acumular e distribuir o mesmo, que é essencial para existência humana. Divide-se em três categorias que são: vermelho, o preto e o branco. Sangue vermelho é encontrado no fluxo menstrual, no sangue humano e animal. No reino vegetal, o azeite-de-dendê e o mel extraído das flores são os melhores exemplos. Já no reino mineral encontra-se presente nos metais como cobre e o bronze. Este sangue está relacionado ao fogo, movimento, coisas quentes, razão pela qual os orixás que exigem uma quantidade maior desses elementos dominam exatamente esses aspectos da natureza, como Exu, Xangô e Iansã.

O sangue preto no reino mineral é encontrado no carvão e no ferro. A cor verde e azul são variações da cor preta, por isso suas fontes são encontradas nas folhas e cascas de árvores. No reino animal, o sangue preto é encontrado principalmente nas cinzas dos animais. A associação do preto é com a terra e esta força da natureza responde entre outros os orixás Ogum, Oxossi, Ossain e Obaluaê.


O sangue branco é encontrado no sêmen, saliva, hálito, secreções e no plasma. Isto no reino animal, como o caracol por exemplo. No lado vegetal o sumo das plantas leitosas e bebidas alcoólicas extraídas de palmeiras e outros vegetais. Na parte mineral há a prata, chumbo e o sal, sem esquecer que nessa cor tem a água e o ar.


O sangue é de importância vital por estar ligada a fertilidade, concepção, ao nascimento, enfim todos os ciclos da vida. Ninguém vive sem sangue, e sem ele não há vida. Segundo a Umbanda, existem cinco tipos de sangue na natureza. O sangue verde (o sumo das folhas), sangue amarelo (o sal, o néctar das frutas e a seiva das árvores – dos troncos), sangue branco (a água), sangue negro (o petróleo, o magma) e o vermelho (dos animais). Assim, o nosso planeta não pode viver sem sangue.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

19 abril 2011

Acorda jornalismo baiano (2)

Ser jornalista é tentar ser uma testemunha do seu tempo. Ser um profissional constantemente atualizado, preocupado com a questão da formação e da qualificação. É ter consciência da questão ética.


A informação é a base da sociedade democrática. Para se manter, a empresa de mídia deve satisfazer os anseios do público, e este demanda informação de qualidade, correta, isenta, abrangente.


Os grandes veículos continuam a demitir profissionais todos os dias. Hoje o profissional está obrigado a produzir em larga escala, com custos menores e no mais curto espaço de tempo. O que se chama de mimetismo midiático. Há um verdadeiro jogo de espelhos. Um veículo divulga uma notícia, o outro reutiliza o material do concorrente, o outro realimenta e todos publicam a mesma notícia. Assim os diferentes meios de comunicação se auto estimulam, uns divulgando trabalhos de outros. Na rede da internet é assim (é só olhar os blogs, twitter, sites...) e já chegou nas redações de radios, jornais e tevês. Não há nada de novo na informação.


Vivemos um tempo em que qualquer pessoa pode produzir “conteúdo jornalístico”. Há uma crescente participação da sociedade na elaboração de conteúdos jornalísticos. Mas, a abundância de informação que abarrotam a internet deixa dúvida no cidadão: “em quem é que eu vou confiar/”. A diferença é: por seu método, sua independência e seu discurso, subordinado ao direito à informação a que se dirige, o jornalismo gera credibilidade. Mais que os outros discursos que o circundam, a democracia não tem como prescindir da instituição da imprensa, do jornalista.

“Uma imprensa livre, pluralista e investigativa é imprescindível para um País como o nosso (…) Devemos preferir o som das vozes críticas da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”, disse a presidenta Dilma Rousseff no evento comemorativo de um jornal. Para o professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, Carlos Alberto Di Franco, “a imprensa, de fato, desempenha importante papel na recuperação da ética na vida pública; Certos políticos, no entanto, não costumam perder o sono com rotineiro descumprimento da palavra empenhada. Afinal, para muitos deles, infelizmente, a política é a arte do engodo. Além disso, contam com a amnésia coletiva. Ao jornalismo cabe assumir o papel de memória da cidadania. Precisamos falar do futuro, dos projetos e dos planos de governo. Mas devemos também falar do passado, das coerências e das ambiguidades. Para certos políticos, imprensa boa é a que fala bem. Jornalismo que apura e opina com isenção incomoda e deve ser amordaçado. Não é a visão da presidente da República. Felizmente. Dilma Rousseff demonstrou clara percepção da importância da imprensa ao reiterar seu ´compromisso inabalável com a garantia plena das liberdades democráticas, entre elas a liberdade de imprensa e de opinião´.”(A Tarde, 10/03/2011, p.2).

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18 abril 2011

Acorda jornalismo baiano (1)

Os meios se transformam, se modernizam, ganham agilidade e capacidade de mostrar a notícia em todo esplendor com cores, movimentos, sons e textos. Os meios são muitos e diferentes, mas o jornalismo não, deve ser exercido cotidianamente com os olhos voltados para a sociedade à qual serve. O desenvolvimento de uma sociedade está inteiramente ligada à qualidade do jornalismo que ela produz. A sociedade do século XXI não pode mais ser dividida em Nordeste, Sudeste, ricos, pobres. É necessário mostrar o que a sociedade precisa saber e não apenas o entretenimento do cotidiano. Devemos ter espaços para espairecer, mas também, com consistência, noticiar, reportagens e artigos que mostrem onde estamos e quais as opções de futuro.


O jornalismo do século XXI deve ser plural, democrático, e estar presente na cobertura local de cada comunidade, e ser feita por profissionais que vejam além das obviedades dos interesses menores, ser um parceiro ativo na construção de futuros onde a vida seja um bem maior. Se as agências de publicidade detêm o poder de financiar a informação, o jornalismo precisa construir conhecimento que tenha uma relação direta com as necessidades do assunto, e isso pode ser feito com pluralismo de fontes e de opiniões.


Antes de serem vendidos aos leitores, os jornais (e outras mídias) são primeiro vendidos às agências de publicidade, que são os instrumentos fundamentais de financiamento da imprensa. Assim, nossa imprensa é prisioneira do mercado, dos anúncios, das agências de publicidade, das grandes empresas privadas, ou seja, do dinheiro. Assim a imprensa está subordinada a critérios de empresa (lucro, custo-benefício), presa a seus interesses, de rabo preso com as elites dominantes.


Os jornais estão perdendo leitores. Será a rede da internet? O problema está na incapacidade da imprensa hoje dialogar com o jovem real. Falta ousadia, qualidade. Basta que o profissional vá as ruas e olhe a comunidade e descobra a vida como ela realmente é vivida. O que acontece hoje é que os donos de jornais desempregam os profissionais para contratar estagiários (muitos, de outras áreas). O custo é bem menor e a exploração, maior.


O profissional da imprensa precisa descobrir histórias que valem a pena ser contadas. Para ser lido com prazer. É preciso criar prioridades estratégicas com revalorização da reportagem, revigorar o jornalismo analítico. É preciso mais apuração, menos frivolidade, mais consistência. É preciso reservar espaço para a boa notícia seja ela de um exemplo de boas práticas ou mesmo de denúncia. É preciso não perder a capacidade de sonhar e coragem de investir. É preciso cuidar mais do conteúdo, aquele trabalho de garimpagem, esquecido. Acorda jornalismo baiano!

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

15 abril 2011

Quadrinhos underground: a busca de novos valores (2)

O caminho aberto pela revista MAD, por uma nova geração de desenhistas e pelas próprias modificações na estrutura da sociedade norte americana permitiu o surgimento dos underground comics, com Robert Crumb como seu principal expoente. Vendida de mão em mão ou livrarias de amigos essas publicações abordam uma temática mais atual, com um estilo de desenho mais livre. No Brasil, a revista O Grilo, publicando alguns exemplos de underground comics, facilitou o surgimento de edições brasileiras no gênero. (Texto de Gutemberg Cruz. Publicado na Tribuna da Bahia. 2o. Caderno. 23 de janeiro de 1979, p. 09).




NOSSO QUADRINHO UDIGRUDI


A partir do Tropicalismo (1967/8) surge um novo caminho para o grafismo brasileiro e que alcançou o público através de edições marginais como Flor do Mal, Verbo, Bondinho, Roling Stones, Folha de Rosto, Ruído, Vapor, Isso e Feto.


A vida cultural brasileira no período posterior a 68/69, o controle das informações, a despolitização gradativa e segura das paixões e das ambições, os novos condicionamentos, as novas formas de rebeldia, a falta de mercado, o desinteresse dos editores por publicações feitas aqui foram e são ainda problemas que nossos desenhistas enfrentam, tudo isso – e mais algumas coisas – deu origem ao chamado quadrinho marginal.


Por volta de 1971/2, uma nova perspectiva editorial abriu-se na HQ brasileira: os desenhistas, cansados de tanto esperar pelas respostas das editoras e/ou não concordando com as colocações das mesmas, resolveram partir para o financiamento de seus próprios trabalhos. O desenhista, após editar sua revista, via-se obrigado a sair em campo para veicular e conseguir, no mínimo, pagar os custos gráficos.


Este tipo de técnica menos sofisticada permitiu uma proliferação e uma circulação à margem do sistema editorial. Como consequência de iniciativas marginais, as produções tornaram-se irregulares, sem periodicidade certa, programação definitiva para os números seguintes, distribuição precária – venda; muitas vezes, de mão em mão, colaboradores inconstantes e cobertura publicitária insuficiente, ocorrendo como em outros exemplos, mortes prematuras, silêncio e pressões externas.


A gênese desse tipo de publicação marginal está na incapacidade dos mecanismos tradicionais de edição e comercialização da revista – editoras, distribuidoras e bancas de jornais – absorveram capacidade de produção e principalmente de consumo de larga parcela do público leitor. Seu crescimento e principalmente sua vitalidade deram-se à margem desses e de outras instituições. Com o surgimento de cooperativas de desenhistas essas edições se transformaram numa experiência mais estável.


O GRILO


12 de outubro de 1971. Uma data importante para o mercado editorial de quadrinhos no Brasil. Uma data de renovação. Sem publicidade alguma, aparecia nas bancas de jornais uma publicação diferente, formato jornal, dobrada em formato revista. O Grilo. Ponto de partida para as revistas underground brasileiras.


Trazendo em suas páginas artistas como Gore, Crumb, Corben, Wolinski, entre outros. O Grilo fez florescer o udigrudi nacional. Por volta de 1972 os grêmios da Universidade de São Paulo lançaram Balão, uma revista contra os bandidões das historietas. Entre todas as experiências de criação independente no campo dos quadrinhos, o Balão mostrou os resultados mais inteligentes e inovadores.

E os quadrinhos marginais espalharam-se por todo o País. No Rio surgiram A Esperança no Porvir, Cordelurbano e O Bicho. A última desponta como a mais séria experiência editorial na esfera dos quadrinhos nacionais, tendo em vista o real aparecimento das possibilidades produtoras dos nossos artistas. Em Porto Alegre surgiu Araruta. Em Curitiba a revista Apesar de Você. Em Natal foi lançada a revista Cabramacho. Em Recife O Outro e em Minas, a revista Uai, título que “mais que uma pergunta e uma expressão mineira é esperança de melhores dias”. Como não passou do número zero, deitou sementes para o Almanaque do Humordaz.


NOVOS TÍTULOS


Chega o ano de 1976 e com ele novas publicações marginais. Como a maioria das revistas desse tipo, o quadrinho udigrudi é difícil de conseguir: só é encontrada em postos ambulantes, escolas, viadutos e por aí a fora.

Na cidade de Natal, Enoch Domingos juntamente com J. Medeiros, Emanuel Amaral, entre outros, lançaram Maturi, a menor revista de quadrinhos do mundo. Em Curitiba, começa a circular Casa de Tolerância com trabalhos de Cortiano, Solda, Miran etc. Destacando-se os trabalhos de Jô Oliveira, Duarte, Caco e Bravo, é lançada em Brasília a revista Risco. No Rio, aparecem duas novas publicações: Virus e Roleta.


Em São Paulo, que ficou um período sem atividades devido à paralisação da revista Balão, volta agora à luta. Os diretórios acadêmicos de Comunicações e Artes Plásticas da Faap, tendo à frente Dagomir Marquezi, com o objetivo de “mostrar quadrinhos realizados em países dominados por Patópolis ou se libertando de Gothan City” lançam a revista Boca. Os lançamentos de revistas udigrudi no ano passado foram: A Mosca, do Rio; Meia Sola, de Belo Horizonte; Quadreca, em São Paulo; Na Era dos Quadrinhos, em Salvador. E já está para ser lançada a revista Lixo.


As experiências são vastas, incontáveis, devendo estar na casa de dezenas de milhares de revistas vendidas de mão em mão em todo o País. É impossível contar essa produção. Mais importante controlá-la totalmente,


De futuro ignorado, o certo é que Risco, Vírus, A Mosca, Boca, Roleta, Na Era e dezena de outras têm para a cultura brasileira de hoje, a mesma importância que os saudosos A Manha de Aparício Torelly, O Barão de Itareré, o Pif Paf de Millôr Fernandes, Dr Macarra de Carlos Estêvão e Aba Larga de uma cooperativa gaúcha. Sem dúvida, os anos 70 estão sendo férteis para o quadrinho marginal. Pelo menos dez novos títulos – Maturi, Vírus, Risco, Boca, A Mosca, Roleta, Casa de Tolerância, Meia Sola, Quadreca e Na Era – vieram juntar-se à cada vez mais numerosa trupe de underground que aparece nas universidades e outros locais.

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14 abril 2011

Quadrinhos underground: a busca de novos valores (1)

O caminho aberto pela revista MAD, por uma nova geração de desenhistas e pelas próprias modificações na estrutura da sociedade norte americana permitiu o surgimento dos underground comics, com Robert Crumb como seu principal expoente. Vendida de mão em mão ou livrarias de amigos essas publicações abordam uma temática mais atual, com um estilo de desenho mais livre. No Brasil, a revista O Grilo, publicando alguns exemplos de underground comics, facilitou o surgimento de edições brasileiras no gênero. (Texto de Gutemberg Cruz. Publicado na Tribuna da Bahia. 2o. Caderno. 23 de janeiro de 1979, p. 09).


Os movimentos de contracultura dos anos 60 despertaram a atenção, nos Estados Unidos, para um tipo de quadrinhos que, tendo profundas raízes históricas, veio então a ser identificado como consequência de uma época de contestação generalizada. De fantástico, selvagem ou visionário, esses quadrinhos passaram a chamar-se “underground” (subterrâneo).


Diferente de tudo aquilo que caracterizava o “quadrinho digestivo” (Donald, Zorro, Batman, Super Homem) que os sindicatos norte-americanos devassaram para o mundo, com os chavões tipo bem versus mau, happy end, etc, o novo estilo gráfico, marginal e corriqueiramente conhecido como “udigrudi” (corruptela brasileira de underground), começa a investir violentamente em uma nova linguagem. Encontrando dificilmente saída pelos canais competentes (vendagem comercial), com frequentes problemas de censura, já que fazem da não repressão sua pedra-de-toque, estas historietas manifestam um voluntário desprezo pela sociedade de consumo.


E a necessidade de lutar com todas as forças para retomar o espírito crítico/criativo que se tornou gradativamente raro na HQ, levou alguns dos nossos desenhistas a se reunirem e lançar suas próprias publicações. Apesar das dificuldades provocadas não só pela censura como pelas precárias condições financeiras de seus donos, esse tipo de publicação começou a dar bons frutos. Nos últimos cinco anos, no rastro do precursor “Grilo” , o número dessas publicações multiplicou-se Vírus, Risco, Boca, A Mosca, Maturi, Roleta, entre outras. Quinzenais, mensais ou bimestrais, tem muitas vezes uma tiragem pequena que não ultrapassa a faixa dos cinco mil exemplares.


QUADRINHO PENSANTE


O quadrinho subterrâneo, marginal, clandestino, paralelo ou underground, embora varie ainda a sua conceituação definidora, tem se manifestado como a participação de resistência a um poder mais forte ou como a contestação que nega valores aceitos e estabelecida com irreverente agressividade.


Desde há alguns anos em vias de alteração, a HQ mundial acabou por transformar-se. Embora o “quadinho pensante” norte-americano (Pogo, Peanuts) tenha sido a sua manifestação mais visível e a que mais chamou a atenção, mas sem dúvida também a mais importante dessa evolução, e se a sua influência se fez sentir em todo o mundo, ao mesmo tempo como fermento e como revelador, não poderemos esquecer a considerável contribuição de Feiffer, Copy, Kelly, entre outros, nessa definição do novo rosto do quadrinho contemporâneo, nem o decisivo papel desempenhado pelas diversas tendências do que se denominou quadrinho underground, free quadrinho, etc.


A introdução do Código dos Comics nos Estados Unidos em 1954, submeteu a uma regulamentação severa aos livros de quadrinhos a cores dependente de produção de massa. A partir de Mad, cujo novo formato foi um franco sucesso, os quadrinhos americanos submeteram à censura e se transformaram em revistas preto e branco a preços mais elevado. Em 1965, a passagem para off set rendeu possível independência financeira às publicações militantes contra a ordem estabelecida. Os quadrinhos underground que vão surgindo, combinam a sátira com um retrato sem disfarces do sexo, da violência e dos costumes políticos. A partir de Zap (1968) a nova geração de desenhistas tem publicações de existência independente. Robert Crumb foi seu principal expoente. Na França o underground surgiu a partir dos anos 70 e suas principais revistas são: L´Echo des Savanes, Mormoil, Métal Hurlant, Circus, etc.


O fenômeno do atual underground, especialmente nos Estados Unidos, onde já existe até um sindicato deste tipo de historieta, não contesta um opressor eventual de tempo de guerra, mas o complexo do sistema social que cumulativamente sedimentou conceitos que se impõem com imensa força de coerção. Inicialmente mimeografado, ou mesmo distribuído em cópia única, com um estilo de desenho mais livre, abordando uma temática mais atual e mais ousada, o underground comics logo deixou de ser underground e passou a fazer parte da estrutura normal das HQs; e se ainda não alcançou as páginas dos grandes jornais, pelo menos foi parar em revistas especiais, cada vez mais sofisticadas e bem impressas, e Fritz the Cat de Robert Crumb, já virou desenho animado em longa metragem.


O MERGULHO PARA DENTRO E A SAÍDA PARA FORA

O quadrinho subterrâneo diverge radicalmente quer na forma, na técnica, no conteúdo, quer talvez em todas os três. Por conseguinte, é livre para olhar o mundo exterior sem pestanejar e para o mundo interior em moldes complexos e místicos. È livre para ser poético e para ser obscuro. É livre até mesmo para ensandecer.


Normalmente sua publicação é feita fora dos circuitos comerciais. São publicações de pequenos orçamentos, simples, livres, abertas, abordando temas insólitos e desesperados e realizando uma profunda análise reflexiva sobre a natureza do homem e seus valores. Suscita posições, debates violentos, balança o leitor passivo que lê quadrinhos apenas como catarse, lazer. Estão sempre à margem das grandes produtoras, dos financiamentos oficiais. Utilizam uma linguagem moderna, antiacadêmica, totalmente revolucionária.


Possuindo muitas formas, algumas delas estão sendo absorvidas pela revista em quadrinhos comercial. Mas a importância real da HQ underground encontra-se em suas obras. Imprevisível, complexo e, acima de tudo pessoal, o que está acontecendo em quadrinhos atualmente são essas obras, abertas. Uma visão do homem moderno.


Na evolução das artes há sempre duas tendências que se correspondem, uma centrípeta, à procura de uma essência, de uma pureza formal e/ou poética, outra centrífuga, espetacular, a que não repugna incorporar técnicas e materiais de artes próximas, que só se realiza plenamente no momento/ato em que é consumida. Daí a diferença que vai entre McCay (O Pequeno Nemo) e Crumb (Fritz, o Gato). Sem ser a única diferença entre o apolíneo e o dionisíaco, é antes aquele entre o mergulho para dentro e o saída para fora.



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