19 agosto 2019

Morto há 30 anos, o público ainda grita toca Raul


Faz 30 anos que Raul Seixas (28 de junho de 1945 – 21 de agosto de 1989) saiu de cena. Desde a morte do artista baiano, um dos pioneiros na busca de identidade nacional para o rock produzido no Brasil, a aura mitológica que envolve Raul ficou ainda mais forte. Mesmo depois de sua morte, seu legado se mantém vivo. O público ainda grita: toca Raul! Muitos eventos e homenagens já estão acontecendo pelo país com shows de covers, musical contando sua vida, biografias inéditas e disco. O legado musical do artista mantém viva a memória daquele que, sem dúvida, foi um dos maiores fenômenos musicais do nosso país


Nos 30 anos sem Raul será publicada a biografia “Raul Seixas por trás das canções” (Best Seller) do jornalista Carlos Minuano. O livro é uma das surpresas em torno da data. Para novembro, está previsto o lançamento de “Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida” (Todavia), escrito pelo jornalista Jotabê Medeiros, com revelações sobre períodos obscuros da carreira do cantor. Ainda sem data, está prevista também uma cinebiografia a ser dirigida por Paulo Morelli para a O2 Filmes. E haverá a edição em LP duplo do raro “Eu não sou hippie”, gravação de um show de 1974 na cidade mineira de Patrocínio. A iniciativa é da loja Record Collector junto com o 180 Selo Fonográfico.

Cantor, compositor e multi-instrumentista, ele conquistou uma legião de fãs e marcou gerações com sua irreverência e inteligência ao fazer música. Nasceu em 28 de junho de 1945. Aos 12 anos, sempre precoce, montou o primeiro grupo de rock de Salvador com aparelhos elétricos. Ainda na adolescência, fundou o fã club de Elvis Presley. O garoto de mente inquieta pensava em ser escritor, mas a criação literária ficou apenas em um livro, escrito aos sete anos de idade, com histórias em quadrinhos.

No começo dos anos 1970, ainda mordido por não ter conseguido estourar no Rio com os Panteras, sua banda de Salvador, Raul recebeu um convite para ser produtor na CBS, gravadora de Roberto Carlos. Lá, com o parceiro Mauro Motta, ele cuidava dos discos de um time de artistas que fariam muito sucesso com canções simples, pós-jovem guarda: Odair José, Diana, Márcio Greick, José Roberto, Paulo Gandhi, Monny e Balthazar. Nesta temporada do outro lado do balcão, Raul andava de terninho preto, cabelo penteado e óculos de grau.


Foi nesse período na gravadora que Raul realizou, sem que Evandro soubesse, o conceitual “Sessão das dez”, com o grupo Sociedade da Grã-Ordem Kavernista — irmandade formada por ele, Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada. O LP maldito foi recolhido logo após o lançamento, em julho de 1971. “Sessão das dez” foi a pirraça do produtor Raul, que em 1972 se lançou como artista solo nos festivais com “Let me sing, let me sing”.

Fez sua primeira grande aparição pública no Festival Internacional da Canção, em 1972, com o rock/baião “Let Me Sing My Rock And Roll”, depois de ter lançado como produtor na Bahia diversos artistas. Quatro anos antes (1968) já tinha gravado Rauzito e seus Panteras. Em 1971 grava com Mirim Batucada, Sérgio Sampaio e Edy Star, o enigmático “Sociedade da Gran Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez”. O reconhecimento do público chega com “Ouro de Tolo”, do primeiro LP solo, “Krig-Ha Bandolo!” (1793). Neste ano começou a espalhar a idéia de fundar uma Sociedade Alternativa, anárquica e espiritualista. O governo Geisel enxergou por trás desse projeto uma conspiração e expulsou-o do País. Nos EUA, tornou-se íntimo de John Lennon e Yoko Ono. No ano seguinte, o LP “Gita” estourou. Foi seu passaporte de retorno ao Brasil. É o início da melhor fase do cantor.


O final dos anos 70 e boa parte dos 80 serão marcados por alguns hits esporádicos, denunciando uma carreira afetada por problemas de saúde. O cantor volta aos palcos em 88 para uma turnê ao lado de Marcelo Nova, com quem gravou “A panela do diabo”. No dia 21 de agosto de 1988, morre em conseqüência de uma parada cardíaca.

Quando morreu, de pancreatite, Raul era um artista solitário, com a saúde e as finanças em frangalhos, relegado ao ostracismo, que o ex-Camisa de Vênus Marcelo Nova tentava reerguer em shows do LP conjunto “A panela do diabo”. Aos 44 anos, seus discos estavam, em boa parte, fora de catálogo, e a bibliografia sobre ele era escassa.

Da morte para cá, Raul tornou-se uma lenda. Inspirou dezenas de livros, até edição psicografada (como “Um roqueiro no além”, de Nelson Moraes). São obras que vão “dos lixos mais absurdos, viagem de cogumelo” a “trabalhos acadêmicos maçantes, mas muito sérios”, como diz Sylvio Passos, presidente do Raul Rock Clube (do qual o primeiro associado foi Raul). Amigo do cantor, Passos é guardião de sua memória e organizou o livro “Raul Seixas por ele mesmo” (1990).


Considerado o pai do rock brasileiro, Raul Seixas lançou 21 discos em 22 anos de carreira. Com sua música de letras anárquicas e sarcásticas ele desenhou a face avessa de um país sem caráter. Para isso usou como armas o non sense, a revolta, a loucura lúcida de um “maluco beleza” que ora pregava a revolução total ora filosofava sobre sua “sociedade alternativa”. Ele personifica como poucos a imagem do artista irreverente, rebelde e conquistou ao longo de sua carreira uma legião de admiradores que cresce a cada dia, tornando-o um mito. Se quando vivo Raul conheceu o sucesso, ganhando vários discos de ouro, tendo suas músicas freqüentado as paradas, lotado os locais onde se apresentou, depois de morto virou mania. Ele virou referência para o que se convencionou chamar de rock brasileiro.

As leituras de filosofia, esoterismo, história e misticismo entre muitas outras influencias assimiladas por Raul Seixas permite que a obra do artista trafegue em horizontes variados. Do baião ao rock, suas canções constituem um amálgama peculiar que o mantem como mito, bastante ousado até hoje, 30 anos após a morte.


Enquanto o mundo fervilhava no ritmo frenético de Elvis Presley, um menino da Bahia deu à luz ao Rock no Brasil. Um jovem sem limites que conquistou o coração e a mente de milhares de fãs, Raul Seixas foi um homem que virou mito. O documentário “O Início, O Fim e O Meio” desvenda por imagens raras de arquivo, encontro com familiares, conversas com artistas, produtores e amigos, a trajetória da lenda do rock brasileiro. Raul Seixas morreu jovem porque viveu intensamente e queria viver da sua obra e morreu por ela.


16 agosto 2019

Trajetória de Miguel Paiva no livro Memória do Traço


O cartunista Miguel Paiva lançou este ano pela Editora Chiado Books o livro Memória do Traço. Na obra, ele resgata charges marcantes, histórias hilárias, diversas de suas criações e personagens consagrados como Radical Chic, Gatão de Meia Idade e Capitão Eco. Na obra ilustrada, feita com o filho Vitor Paiva, que realizou mais de 20 entrevistas e editou o texto final, o cartunista e artista gráfico traça um panorama sobre a trajetória. As divertidas histórias são ilustradas com algumas das charges mais famosas do próprio autor. O livro recorda as diversas fases vividas pelo homenageado através de sua produção artística desde meados dos anos 1960 até hoje. Memória do Traço documenta não só os trabalhos de Miguel Paiva, mas também o encontro e convívio ao lado de personalidades como Ziraldo, Jaguar, Paulo Leminski, Paulo Freire, Umberto Eco, Quino e Rubem Braga, entre tantos outros.

Roteirista, cartunista, diretor de cinema e TV, compositor musical e escritor. Começou sua vida profissional aos 16 anos num jornal esportivo. Passou por muitos outros veículos de imprensa (fez parte da equipe do lendário jornal O Pasquim), mas ganhou destaque quando publicou, no Brasil e no exterior, os livros Sentimento Masculino e As Memórias de Casanova. Miguel Paiva também fez figurinos e cenários para espetáculos teatrais. São de sua autoria as famosas charges Radical Chic e Gatão de Meia Idade, ambos publicados no O Globo e já levados para TV e cinema. Em parceria com Luís Fernando Veríssimo, escreveu o projeto Aventuras do Detetive Ed Mort. Colaborou com Tiago Santiago na novela Amor e Revolução, do SBT.


Foi no Caderno I do Jornal do Brasil, um suplemento infantil colorido que ele criou seu primeiro personagem importante, a alcançar sucesso relevante com o grande público, e que abriria as portas profissionais na Itália: O Capitão Eco, primeiro personagem dos quadrinhos a falar de ecologia no Brasil. Era um super herói defensor da natureza, que lutava contra o malvado Dr. Polu e sua missão maligna de poluir o planeta. O sucesso do Capitão Eco na Italia abriu espaço para Miguel publicar seus quadrinhos no Corriere dei Picolli (Duda, o jogador de futebol) e na revista Alter Linus (o detetive Raymond Gross, Dona X).


Quando retornou ao Brasil publicou a HQ Happy Days, a pedido do jornalista Mino Carta que editava o Jornal da República. A historieta comentava o país por outro viés – falando não dos acontecimentos políticos em si, mas de seu efeito sobre as pessoas comuns. Também foi publicado na revista Istoé.


Radical Chic começou a ser publicada na Revista de Domingo do Jornal do Brasil em 1982. A personagem de cabelo vermelho e curtinho apresenta como temas principais a feminilidade, o sexo, o papel das mulheres na sociedade e as diferenças entre elas e os homens na maneira de reagir às situações cotidianas. Em 1984 surge o detetive Ed Mort, criado por Luis Fernando Veríssimo foi lançado em quadrinhos através dos traços de Miguel Paiva no jornal O Globo. O personagem também foi adaptado peça de teatro, especial de TV e para o cinema. Na Itália, as histórias de Ed Mort foram traduzidas em revistas e álbuns. 


Depois de fazer a Radical Chic durante dez anos, o carioca Miguel Paiva achou que estava na hora de expor um pouco o universo masculino. Assim nasceu o Gatão de Meia Idade. Versão masculina de Radical Chic, um profissional liberal, quarentão, descasado e com uma filha pré-adolescente. A vida das pessoas que preferem viver sozinhos serviu de inspiração para o humorista criar o personagem. As peripécias do descasado que vive tentando se relacionar bem com as mulheres foram publicadas diariamente no jornal O Estado de São Paulo, no Caderno 2, em 1994.

Paiva criou ainda as historinhas das personagens Chiquinha e Bebel, a Top Top Model. A atuação na televisão é outro mote de sua trajetória. Ele passou por emissoras como TVE, Rede Globo e Bandeirantes em funções que vão desde comentarista até autor, roteirista e diretor.




15 agosto 2019

Fotografia: 180 anos


Costuma-se considerar o dia 19 de agosto de 1839 como o dia de nascimento da fotografia, data em que a invenção do daguerreótipo (aparelho revelador, que usava chapa de cobre sensibilizada com prata e tratada com vapores de iodo) – depois de anunciada pública e oficialmente em Paris pelo astrônomo François Arago, secretário da Academia de Ciências francesa – foi revelada em seus detalhes técnicos, tornado possível a sua realização em qualquer parte do mundo. Mas, a descoberta da fotografia no Brasil faz 180 anos despercebida por brasileiros. Hercule Florence dizia ter tido ideia inicial em Campinas em agosto de 1832. Pesquisa comprovou o ocorrido 140 anos depois.

Sua invenção foi uma consequência direta do desenvolvimento científico. As teorias sobre a luz (de Aristóteles até os alquimistas), as observações sobre a decomposição fotoquímica das cores, a câmera “obscura” (descoberta por Leonardo da Vinte) até o daguerreotipo, a primeira câmara fotográfica, demonstram que a fotografia teve sua pré e proto-história imersas na ciência. Hoje a fotografia é parte indispensável da pesquisa científica. Um astrônomo usa-a para registrar a imagem de um corpo celeste distante milhares de anos-luz da Terra. O biólogo recorre a ela para documentar um objeto que deve ser ampliado 40 mil vezes para se tornar visível.


A história da fotografia, no século 19, se confunde com a própria história da ciência. A fotografia vinha então para aperfeiçoar dois instrumentos desenvolvidos para auxiliar o cientista: o microscópio e o telescópio. Os livros de anatomia, histologia ou astronomia substituíam as ilustrações feitas a nanquim pela fotografia.


Louis Jacques Mande Daguerre, um pintor já célebre e popular, decorador de teatros e inventor do diorama, havia chegado ao daguerreótipo há algum tempo, em 1837, graças às pesquisas iniciadas muito antes por Nicéphore Niépce, com quem Daguerre havia insistido em firmar uma sociedade no ano de 1829. Para Daguerre era bastante conveniente o entusiasmo de François Arago e sua disposição de conseguir que o governo francês adquirisse a patente do daguerreotipo, recompensando adequadamente seus inventores, já que, até esse momento (janeiro de 1839), ele ainda não havia encontrado uma solução satisfatória para a comercialização do novo invento.

Até 1976, muito pouca gente já tinha ouvido falar no nome de Hercules Florence, um pesquisador francês que viveu entre 1830 e 1879, na Vila de São Carlos, hoje Campinas. Um número ainda menor de pessoas ousaria supor que este homem seria o inventor da fotografia. Antoine Hercules Romuald Florence, utilizando-se de meios precários, realizou pela primeira vez na história – em 1833 – a fixação da imagem em papel sensível.

A intenção de Florence era a de criar uma forma de reprodução gráfica, tendo em vista a inexistência de uma tipografia na região. Só que, pesquisando a sensibilidade dos sais de prata aos raios solares, a potencialidade da amônia como fixador e a câmara obscura, ele chegou, antes dos reconhecidos e consagrados cientistas europeus, à fotografia, cuja denominação, photographie. Em 1976, uma pesquisa de Boris Kossoy tornou público invento e inventor. Depois então Hercules Florence passou definitivamente à história.


A comprovação do pioneirismo de Florence na Vila de São Carlos, hoje conhecida como Campinas (SP), demorou mais de 140 anos para ser feita e reconhecida internacionalmente. Em 1976, o fotógrafo e professor Boris Kossoy divulgou em um simpósio nos EUA a pesquisa que resultou na primeira edição de seu livro, "Hercule Florence - A descoberta da fotografia no Brasil", lançada em 1980. O feito em terras brasileiras passou a ser mencionado em novas publicações sobre a história da fotografia em todo o mundo ao longo das últimas décadas, mas mesmo assim ainda permanece desconhecido para a maioria dos brasileiros.

E na era moderna, não há vida sem fotografia. Sua foto está na carteira de identidade, de motorista, passaporte ou no crachá da empresa. Nosso relacionamento com a fotografia começa antes mesmo do nascimento, quando somos fotografados dentro da barriga materna por meio da ultra-manografia. Assim a vida contemporânea é uma longa sucessão de sessões de poses.



14 agosto 2019

Um município descoberto por escravo há 100 anos: Caculé


Localizada na região da Serra Geral, sudoeste do Estado, Caculé, com uma área de 688 km², é banhada pelos rios do Antônio, Paiol, Salto e Faca. O nome do município é de um escravo, Manoel Caculé. Dos vários escravos da fazenda, Caculé foi o único a permanecer na propriedade após a abolição da escravatura, passando a morar às margens de uma lagoa. Como referência para os viajantes e tropeiros, o lugar passou a ser conhecido por "Lagoa de Caculé", nome que passou assim a designar o acidente geográfico, depois povoado e, mais tarde, o município. A cidade é uma das poucas do país a reverenciar a importância da mão-de-obra escrava.


A agricultura, pecuária e silvicultura são as atividades que ocupam o maior contingente produtivo da região, cuja população é estimada em mais de 23 mil habitantes, que em sua maioria se dedica às atividades rurais em lavoura de subsistência. Além do plantio de milho, feijão e mandioca, Caculé se destaca pelos grandes canaviais: matéria prima da tradicional aguardente.


A terra ainda era desconhecida em 1854, quando encantou os olhos do negro e escravo Manoel Caculé, que fugindo da escravidão da comunidade de Jacaré, pertencente ao município de Ibiassucê, encontrou a beleza das águas, da terra e do verde, às margens de uma lagoa. Em busca de liberdade, plantou, colheu e comercializou, o que o permitiu a compra do direito de ser livre, junto à proprietária e fazendeira, Dona Rosa Prates. Assim como Manoel Caculé, quem passa pelo município, há de querer ficar ou retornar. O mesmo aconteceu com Dona Rosa, que deslumbrada com a beleza natural da região que lhe pertencia, resolveu fixar residência em Caculé, construindo uma casa, uma capela e, posteriormente, doou parte das terras ao Sagrado Coração de Jesus, que se tornou padroeiro do lugar.


Por conta do escravo Manoel Caculé, surgiu a origem do nome da cidade que conseguiu a emancipação política em 14 de agosto de 1919. Localizada na região da serra geral no sudoeste da Bahia, Caculé, com uma área de 688 km2 é banhada pelos rios do Antônio, Paiol, Salto e Faca. Limitando se ao norte com Caetité e Ibiassucê; ao sul com Condeúba e Jacaraci; ao leste com Rio do Antônio e Guajeru e ao oeste, com Licínio de Almeida e Pindaí.



13 agosto 2019

Não chore por Gerhard Shnobble


A história de Gerhard Shnobble (The Story of Gerhard Shnobble) foi publicada por Will Eisner em 05 de setembro de 1948. Trata-se de um conto de sete páginas que, com o tempo, se provaria a obra mais aclamada pelos críticos e mais republicada da série.

A história tinha todas as marcas de Eisner – narrativa forte, personagem memorável, experimentalismo formal, ângulos de câmara ousados e um final poderoso – e conseguiu fazer isso tendo Spirit apenas como presença incidental.


Na história, Gerhard Shnobble descobre aos oito anos que sabe voar – desde que acredite que pode. Seus pais, por meio de repressão e surras, tiram seu ânimo de exibir seu poder a outros, e ele literalmente apaga aquilo da cabeça.


Ele segue uma vida totalmente comum. Consegue ser promovido a vigia noturno de um banco. O banco é assaltado, e Shnobble é demitido, o que reforça sua sensação de isolamento e inutilidade. Totalmente derrotado, caminha pelas ruas de Nova York até que, no limite da depressão, ele se lembra do seu poder.

Determinado a provar ao mundo que é realmente especial, ele sobe de elevador até o topo de um arranha céu, do qual propõe jogar-se e então planar sobre as pessoas na rua. Mas acaba se tornando a pessoa errada no lugar errado na hora errada: os ladrões do banco estão encurralados no telhado do mesmo prédio, e Spirit, chamado ao local para detê-los, acaba enfrentando-os assim que Shnobble pula do prédio e começa a voar.

Mas é atingido por balas perdidas, e, em vez de fazer sucesso entre a multidão com seu voo, ele despenca no chão. Mais uma vítima de um crime sem sentido.

Eisner deixa bem clara sua intenção no final de conclusão da história onde um narrador diz: “Mas não chore por Gerhard Shnobble.

Melhor derramar uma lágrima por toda a espécie humana, pois nem uma só pessoa entre toda a multidão que viu seu corpo despencar soube, ou ao menos suspeitou, que naquele dia Gerhard Shnobble tinha voado”.


Apesar de toda a fantasia, essa fábula universal era profundamente pessoal para Eisner, fazendo-o voltar aos cortiços do Bronx, à necessidade (e incapacidade) de provar seu talento artístico, à falta de incentivo.

Spirit foi um dos sintomas da superação estética do conceito de super heroi tanto nos EUA como na Europa e na América Latina. (Texto de 2017)


CONSTRUÇÃO - Toda vez que leio ou releio essa obra, lembro de Construção, composição de Chico Buarque de 1971, o período dos exilados, pressões, torturas e morte. Mundo de “homens partidos”. Nessa obra pode-se decodificar não apenas o problema social do operário não qualificado, que se expõe à morte pela precariedade das condições de segurança no trabalho, mas de uma sociedade desintegrada e mutiladora, que isola os indivíduos.

Trata-se de um dos textos mais rigorosamente “construídos” do compositor, de estrito rigor formal e apuro técnico. É uma das canções mais engajadas de Chico. Daria uma excelente história de quadrinhos. Atenção quadrinistas, mãos à obra.



12 agosto 2019

Música e HQ na Bienal de Quadrinhos de Curitiba 2020


Elas trabalham os nossos sentidos. Enquanto o conteúdo da história em quadrinhos é absorvido por nossos olhos, o conteúdo de uma trilha sonora é absorvido por nossos ouvidos gerando diferentes sensações. A união de ambas as mídias é poderosa. O processo de elaboração da música e dos quadrinhos é semelhante. Na música tudo começa pela letra, que nada mais representa que o argumento nos quadrinhos. A música propriamente dita, é feita em uma partitura que pode ser associada com os desenhos. Passadas essas fases vem a escolha do ritmo e a distribuição dos quadros através das páginas, que são muito parecidas, afinal são esses dois itens que determinam a velocidade que será dada a ambas. Além disso, tanto uma quanto a outra são usadas para exprimir ideias, sentimentos e visões sobre determinados assuntos. É uma fonte que leva a mensagem dos autores para o público. A música utiliza o estimulo auditivo, os quadrinhos o estimulo visual.


A música será o fio condutor da Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Os debates, exposições, oficinas, festas, sessões de cinema, e da tradicional feira de gibis será realizada no período de 06 a 09 de agosto de 2020. Evento totalmente gratuito acontece em na área interna e externa do Museu Municipal de Arte, no Portão Cultural, em Curitiba.

Formação, divulgação, reconhecimento, acolhimento e troca. Estas são algumas das marcas da Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Em seus eventos, e em sua programação, a perspectiva histórica da cidade com os quadrinhos e com o público interessado é desdobrada em atividades, palestras, lançamentos e principalmente encontros transformadores.

A produção do chargista Alceu Chichorro (1896-1977) é considerada o marco zero do quadrinho curitibano. A Editora Grafipar, por sua vez, colocou Curitiba no mapa, competindo de igual para igual com editoras de Rio e São Paulo nos anos 1970 e 1980. A criação da Gibiteca de Curitiba, em 1982, foi a pedra fundamental para o aumento do envolvimento e do interesse pela chamada oitava arte. A Bienal de Quadrinhos, em suas edições diversas, foi o marco mais recente e consolidou uma realidade já existente, porém latente, ao projetar ideias, artistas e quadrinhos para além das fronteiras do estado e do país.


A relação de troca existente entre música e quadrinhos e muito grande. O número de personagens que saiu das páginas para os discos é grande. Alguns foram cantadas por vozes anônimas, outros tiveram seus nomes em gargantas famosas como a do vocalista do Queen, Fred Mercury, que interpretou Flash Gordon. Flash Gordon, nono álbum de estúdio da banda Queen, feito para a trilha sonora do filme homônimo lançado em 1980. Foi a primeira vez que a banda entrou em estúdio para produzir toda a trilha sonora de um filme para o cinema.

A clássica música de abertura da série Batman foi composta pelo trompetista, arranjador e compositor Neal Hefti e fez sucesso durante a década de 1960. A emblemática música, um surf-rock que transmite com perfeição o espírito da série com um Batman alegre, chegou a estar entre as quarenta mais vendidas.  Batman, o Cavaleiro das Trevas teve inúmeras visões para suas aventuras, desde Nelson Riddle que compôs sua trilha original até Danny Elfman e Prince. “Batman” – a série, gravado em 1966, teve a música composta e orquestrada por Nelson Riddle. Seu riff de guitarras, meio surf music, meio rockabilly, influenciou uma série de outras trilhas. A composição serviu de inspiração para diversos artistas e ganhou inúmeras versões, incluindo as feitas por bandas como The Who e The Kinks.


Kelly Sue DeConnick, responsável pela nova série de quadrinhos do Aquaman, e a experiente autora, que ganhou notoriedade com Bitch Planet e Capitã Marvel, explicou sua visão nada tradicional sobre o icônico herói da DC: "Eu penso em termos sonoros, então penso nas camadas das minhas obras como uma música", disse Kelly para a revista Entertainment Weekly. “Preety Deadly (HQ lançada em 2001 pela Image Comics) é Ennio Morricone (compositor italiano dos clássicos cinematográficos Três Homens em Conflito e Era uma Vez no Oeste), e Capitã Marvel é Tom Petty. Já Aquaman é Led Zeppelin. É grande, místico, é o vento batendo no rosto, um baixo pesado e vocais agudos”.

No Brasil e fora dele, música e quadrinhos sempre fizeram bons duetos, como artes complementares ou inspiradoras uma da outra. Desenhos invadem capas e encartes de discos e cds sem pedir licença e superstars da música se inspiram nos quadrinhos ou viram personagens de revistas. Um troca-troca que sempre esteve nos gibis. Na 6ª edição do maior evento de quadrinhos do sul do país, os projetos e atividades terão a música como referência, seja para as próprias criações musicais, de álbuns e canções, ou como inspiração para capas de discos. A música vibra e faz vibrar e este é outro atributo que a Bienal de Quadrinhos pretende aproveitar em sua edição de 2020. Em tempos em que o mundo se mostra mais sombrio, ríspido e silencioso, cantar, dançar e promover encontros e coros, como sempre fizemos, nos parece ser um caminho mais leve e oportuno. A música como celebração, enfim.


Quem está na curadoria da edição 2020 é o pintor, quadrinista e ilustrador Fabio Zimbres, e Mitie Taketani, proprietária da loja Itiban Comic Shop, reduto incentivador da nona arte em Curitiba há 30 anos. Fabio sempre teve um pé lá e outro cá: em 2006, publicou a graphic novel “Música Para Antropomorfos”, inspirada na banda de rock Mechanics. Convidados nacionais e internacionais que tenham envolvimento com música e HQs serão anunciados nos próximos meses. A Bienal de Quadrinhos 2020 terá patrocínio da Copel, e seguindo sua constante proposta de formação, diálogo e criação, pretende receber mais de 30 mil pessoas durante sua próxima edição.

10 agosto 2019

Primavera nos dentes: a história do Secos & Molhados (02)


Primavera nos dentes registra com riqueza de detalhes o período da formação clássica da banda – sem Ney e Conrad, João Ricardo levaria adiante Secos & Molhados por alguns poucos anos, sem o sucesso anterior. Para o livro, o autor conversou com jornalistas, músicos, produtores, além do trio central. Os três não se falam há muitos anos, mas, de acordo com Miguel De Almeida, todos o receberam de peito aberto para o livro.



Sobre o fim abrupto do Secos & Molhados (Ney e Conrad deixaram o grupo e João Ricardo ficou sabendo da saída deles, em agosto de 1974, pelos jornais) Miguel se lembra de uma conversa que teve, durante a confecção do livro, com o produtor André Midani. “Ele me disse que havia faltado uma espécie de Coronel Parker (que foi agente de Elvis Presley) para dizer que cada um deles parasse um mês, ficasse cada um em seu canto, namorasse. Eles faziam de dois a três shows por dia, corriam o Brasil para cima e para baixo, dormiam em carros. Ninguém aguenta isto. O sucesso os devorou”, avalia Miguel De Almeida.




O título escolhido por Almeida parece resumir a trajetória do grupo: “Primavera nos dentes” é uma canção que compõe o primeiro LP do Secos & Molhados, cuja letra é de autoria do jornalista português João Ricardo, um dos responsáveis pela criação do grupo, e de João Apolinário, seu pai, também jornalista e o pivô, mais tarde, da separação da turma. A letra da música tem muito a ver com a história de cada um de seus integrantes: João Ricardo, que segurou entre os dentes o sonho de lançar o grupo; Gérson Conrad, que não pulou do barco mesmo sendo chamado de “veado” por pintar o rosto (outros músicos, que chegaram a integrar a banda, não aguentaram a pressão); e Ney Matogrosso, que saiu do Mato Grosso (hoje do Sul) com o sonho de ser ator e acabou se tornando um dos maiores intérpretes do Brasil. Diz a canção: “Quem tem consciência para ter coragem/ Quem tem a força de saber que existe/ E no centro da própria engrenagem/ Inventa a contramola que resiste”.

 


Ironicamente, em plena ditadura militar, apoiada por quem defendia a moral e os bons costumes, não foi a dupla Dom & Ravel, com “Eu te amo, meu Brasil”, que ganhou o coração de homens, mulheres e crianças, mas um grupo ousado como Secos & Molhados. Os versos “Nos fios tensos da pauta de metal / As andorinhas gritam / Por falta de uma clave de sol” encerram-se junto com a música, conferindo-lhe força. A crítica à ditadura está latente nesta e em outras canções, como “Assim Assado”. Composta sem pretensão e considerada infantil, ela satiriza os militares com figura do Guarda Belo, vilão do desenho animado Manda-Chuva. A melodia contrapõe a agressividade da guitarra à batida leve e contagiante, pontuada pelas frases melódicas da ocarina.

 


Aspecto marcante do álbum é sua força poética, associada à sonoridade inovadora. Apropriando-se de elementos do folk e do rock internacional, as composições contrastam os violões de seis e 12 cordas de João e Gerson e as harmonias vocais de seus integrantes – Ney cantando uma oitava acima em relação aos demais. O grupo aproveita a tendência libertária, base rítmica e instrumentos eletrificados do rock, e acrescenta outras referências musicais. “O Vira” é resultado da parceria de João Ricardo com a cantora e compositora Luhli (1945) anterior à criação do grupo. Surge como um folk, misturando o gênero musical e coreográfico do folclore português com base rítmica e guitarras distorcidas do rock. Na segunda parte, é marcado pelo acordeom de Zé Rodrix. A música torna-se o hit do carnaval de 1974.



A maquiagem pesada, que se tornaria uma marca registrada da banda, surgiu logo no primeiro show, por obra do acaso. “O Ney, que interpretava um marinheiro na peça A Viagem, no próprio Ruth Escobar, chegou atrasado para o show usando a maquiagem do espetáculo”, lembra Gerson Conrad. “Luli, inspirada por uma peça em cartaz no Rio (Jardim das Borboletas), gostou e complementou com purpurina. Dez minutos antes de entrar, todos assumimos a maquiagem”. Não foi à toa que o produtor da tal peça carioca, Paulinho Mendonça, tornou-se um colaborador da banda, assinando o hit “Sangue Latino”.

 


O impacto na plateia foi instantâneo. O corpo desnudo, os trejeitos e a voz de contratenor de Ney, o aparato visual e a música, simples, porém sofisticada, causaram efeito arrasador nos presentes e a banda foi aplaudida de pé. A crítica relacionou a chamada “onda andrógina” da escrachada trupe de atores-bailarinos como o teatral Dzi Croquettes (de Lennie Dale, Paulette e Ciro Barcellos) e à estética glitter que ocorria na Inglaterra e nos Estados Unidos. O livro também comenta a estranha coincidência do lançamento da banda de rock and roll americana Kiss em 1974. Os quatro integrantes têm o rosto pintado em branco e preto e se aproxima muito o estilo utilizado por Ney Matogrosso.

 


Em junho de 1974, eles gravaram o segundo álbum em absoluto pé de guerra, lutando por maior participação artística e divisões mais justas. Menos roqueiro, superproduzido, o disco seguia de forma menos inspirada a fórmula do disco anterior. Durante as gravações, Ney e Gerson receberam o contrato da S&M para que dela fossem funcionários. “Foi a gota d’água”, segundo Conrad. Quando o novo disco seria lançado em aparição em rede nacional no Fantástico, Ney e Gerson anunciam que estão deixando o grupo. Era agosto de 1974 e, apesar do sucesso de faixas como “Flores Astrais” (regravada anos depois pelo RPM), e das boas vendas iniciais, o disco foi tido como natimorto pela própria gravadora. Todos os três partiram para carreiras-solo, todas com momentos brilhantes. Como já era esperado, a mais bem-sucedida foi a de Ney Matogrosso, que construiu trajetória como o maior showman do Brasil.



Depois de dois álbuns de repercussão velada, João Ricardo voltou a usar o nome Secos & Molhados no final de 1977, com Lili Rodrigues (de timbre vocal bastante próximo ao de Ney), Wander Taffo (guitarra), João Ascensão (baixo) e Gel Fernandes (bateria). A despeito do esquema promocional e de uma música incluída em trilha de novela global (a interrogativa “Que Fim Levaram Todas as Flores?”), o projeto não vingou. O violonista tentou por diversas vezes ressuscitar o grupo ao longo dos anos seguintes, mas o impacto nunca se repetiu.

 


Decerto, o Secos & Molhados criado por João em 1970 tinha muito a fazer. Mas deixou, de qualquer forma, uma marca musical e libertária sem precedentes na cultura brasileira. O brilho foi fugaz, mas intenso.

 


Direto Recado: “Como diz o velho ditado,/em boca fechada não entra mosquito./E também, não gera conflito/que possa deixá-los preocupados./Talvez, fosse melhor deixar que/vivesse o mito./Deixem uma só vez, o legado de lado/já não temos que ser,/nem Secos, nem Molhados/meus caros amigos./Esse é meu Direto Recado,/já não temos que ser,/nem Secos, nem Molhados” (Letra e música: Gerson Contad)

09 agosto 2019

Primavera nos dentes: a história do Secos & Molhados (01)


“Quem tem consciência pra se ter coragem/Quem tem a força de saber que existe/E no centro da própria engrenagem/Inventa contra a mola que resiste//Quem não vacila mesmo derrotado/Quem já perdido nunca desespera/E envolto em tempestade, decepado/Entre os dentes segura a primavera”. Trechos da música "Primavera nos dentes", composta pelos artistas João Ricardo e João Apolinário, gravada pelo grupo "Secos e Molhados", no homônimo álbum de estreia, lançado em 1973, início do período mais agudo da ditadura militar que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

 


Durante dois anos um grupo musical revolucionou a cultura e os costumes brasileiros. Combinava de forma inédita, antropofagia musical, androginia e desafiadora modernidade. A ousadia importunou a moral conservadora, o preconceito da classe artística e os interesses de gravadoras multinacionais. E bateu de frente com a censura da ditadura militar. Ninguém da intelectualidade musical da época falava sobre a banda,  porque eles incomodavam.



A história do grupo que marcou definitivamente a música brasileira e o comportamento do jovem que vivia à sombra da ditadura militar é contada pelo jornalista Miguel De Almeida no livro Primavera nos dentes: a história do Secos & Molhados (Três Estrelas). Nas quase 400 páginas da obra (sendo 32 de imagens), Miguel reconstrói os bastidores desse fenômeno da MPB cujos recordes ainda hoje custam a ser superados. “Acho que essa história nunca chegou a ser escrita por várias razões. Há, por parte da chamada elite da música brasileira, um silêncio sobre os Secos & Molhados”, diz o autor.

 


Em 1973 o Brasil era um lugar cheio de problemas. Havia uma ditadura militar no comando do país, “cuja força das armas legitimava a instituição a prender e desaparecer com quem julgasse elemento perigoso”. “A polícia adorava amedrontar os jovens”. “Não bastasse a violência policial nas ruas, havia ainda a Censura Federal a pesar sobre todas as cabeças inquietas”. É nesse ambiente que João Ricardo, Ney Matogrosso e Gerson Conrad colocava na mesa temas como a antropofagia musical, androginia e o lúdico da cultura. Tudo isso apoiado em versos de Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Solano Trindade e Fernando Pessoa.



A iconografia do Secos & Molhados, com gestos e figurinos, destoava naquele momento no cenário musical e se tornava logo um fato comportamental. Jovens, crianças e mulheres foram as primeiras a pular nas canções do grupo. O prosaico nome de Secos & Molhados surgiu antes do aparecimento de grandes supermercados. Na época a existência de pequenos armazens onde se vendia de tudo eram chamados de secos e molhados. No início daquela década o cenário musical do Rio e São Paulo estava tomado por bandas de rock com nomes Made in Brazil, Joelho de Porco, O Terço, A Bolha, Casa das Máquinas, Som Nosso de Cada Dia, Vímana etc.

 


A estreia oficial da formação histórica do Secos & Molhados aconteceu no dia 10 de dezembro de 1972, como também o lançamento de Ney Matogrosso no cenário musical brasileiro. Foi quando o público descobriu a voz de castrato de um hippie muito magro e de olho escandidos.



O ano de 1973 marcaria a explosão do Secos & Molhados e a consolidação da indústria fonográfica como expressão de grande púbico. As belas canções em arranjos contemporâneos, a voz de Ney, a postura andrógena, desembocaram naquilo que a  florescente indústria cultural brasileira buscava: a junção ainda inédita de modernidade e apelo popular.

 


Saídos do anonimato, foram catapultados ao maior sucesso da música popular brasileira: 1 milhão de copias vendidas do primeiro disco (Roberto Carlos, o cantor com mais discos vendidos na época, alcançaria um número em torno de 300 mil) além de outro recorde: apresentou parra 20 mil pessoas no Maracanãzinho, no Rio em fevereiro de 1974.



A capa do primeiro disco do grupo é impactante. O fotógrafo Antônio Carlos Rodrigues criou a imagem de uma mesa pronta para a ceia com os produtos de mercadinhos chamados de “secos e molhados” e as quatro cabeças dos músicos maquiadas, servidas, uma em cada prato. Grupo que uniu a poesia de Oswald de Andrade com a de Vinicius de Moraes, obteve um sucesso fenomenal com destaque à performance de Ney e interferiu no comportamento da sociedade daquele momento.

08 agosto 2019

Muritiba comemora 100 anos de emancipação


Hoje, dia 08 de agosto, a terra natal do poeta Castro Alves e uma das cidades históricas do Recôncavo baiano, Muritiba completa 100 anos de emancipação política. A história da cidade remonta ao ano de 1559, quando exploradores portugueses e jesuítas começaram a colonizar a região de Cachoeira e São Félix, escalando a serra que margeia o Rio Paraguaçu. Os colonizadores fundaram um povoado no alto da serra, iniciando a construção de dois templos e conventos. A 08 de agosto de 1919 o distrito de São Felix com o nome de Muritiba tornava-se independente. A Lei nº1.349 foi aprovada na Assembleia Legislativa da Bahia.



Muritiba foi fundada como arraial de Cachoeira por ordem de Dom Antônio Barreiras, em 1575. No ano de 1640 foi inaugurado um novo templo dedicado a São Pedro, no local onde se encontra a atual Igreja Matriz de Muritiba. Em 1705, D. João VI autorizava a criação de 20 freguesias que receberiam o nome de São Pedro do Monte de Muritiba. Localizado num planalto, o município tinha no passado como uma das principais atividades econômicas o beneficiamento do fumo em folha.



NOME - Sobre o nome do município, há duas versões. Anfilófio Brito acha que a denominação vem de Buritiba (buri - espécie de palmeira; tiba - grande quantidade), cujo desempenho lingüístico local alterou para Muritiba. Já Teodoro Sampaio afirma ser Muritiba uma corruptela de ma-qui-tiba, cuja significação seria sítio das moscas. 



Com uma população de mais de 30 mil habitantes, Muritiba tem uma área de 53 km2 e fica distante de Salvador a 114 km. A rodovia de acesso é BR-101. Entre os patrimônios naturais da localidade constam a Fonte da Caixinha Gravatá de Baixo Minadouro, a Fonte do Caquende, a Fonte dos Padres. Vale conhecer também a Casa da Fazenda Dendê Zona, construída em meados do século XIX, e a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim (do final do século XVIII).

07 agosto 2019

Shakespeare, virtuoso das palavras


O mais famoso dramaturgo e poeta inglês de todos os tempos. Um virtuoso das palavras e dos sons. William Shakespeare (1564/1616) foi um inventor de palavras em uma escala ímpar na literatura inglesa. Havia 150 mil palavras na língua inglesa em sua época, das quais ele usou cerca de 20 mil, assim suas invenções totalizam mais de 10% de seu vocabulário. Criou palavras transformando substantivos em verbos e vice-versa, ou acrescentando-lhes sufixos.

 


Há 314 exemplos de uso do prefixo “um” (equivalente ao nosso prefixo “in”). Acrescentou também o prefixo “out”. Muitos desses neologismos não pegaram. Há 322 palavras que apenas Shakespeare usou. Outros foram logo incorporando ao vocabulário. Alguns foram rejeitados na época, mas depois redescobertas. Se ele apenas se divertia com as palavras inventadas outras vezes ele usou palavras curtas para conduzir a trama e produzir ação, como na tensa e concisa cena do assassinato de Macbeth ou mesmo da beleza de A Fênix e a Tartaruga.



A Inglaterra dominava o mundo, a época era musical e o teatro refletia esse amor pela música. A música era usada para sinalizar tragédias ou aumentar a tensão, marcar as mudanças nos personagens ou o tom da ação. Sonho de uma Noite de Verão, Um Conto de Inverno e A Tempestade são peças musicais.

 


Shakespeare escreveu 39 peças (entre históricas, comédias e tragédias) que chegaram até nós e colaborou em muitas outras. Escreveu também muitos poemas e centenas de sonetos. Durante sua vida, as peças já eram encenadas tanto na Inglaterra como em outros países. De lá para cá foram traduzidas para todos os idiomas conhecidos e encenadas ao redor do mundo. As 103 canções que pontilharam suas peças receberam arranjos de inúmeros compositores, suas obras inspiraram mais de 300 filmes e milhares de adaptações para a televisão, além de terem fornecido material ou ideias para a maioria dos dramaturgos profissionais.

 


Ele compôs suas peças durante o reinado de Elizabeth I (1558/1603) e de James I que a sucedeu. Em 1592 ele já fazia sucesso como ator e dramaturgo. Mas eram suas poesias – e não suas peças – que eram aclamadas pelo público. Em virtude da peste, os teatros permaneceram fechados entre 1592 e 12594, impossibilitando seu contato com o público. Vênus e Adônis, O Rapto de Lucrécias, dois poemas, e Sonetos tornaram-se famosos por explorar todos os aspectos do amor e trouxeram-lhe reconhecimento como poeta.

 


Segundo os especialistas, Shakespeare raramente demonstrava com clareza suas opiniões, preferindo deixar pistas e indícios, insinuar e sugerir, a declarar abertamente suas crenças. Seu evangelho é a moderação em todas as coisas. Sua preferência, a tolerância. Ele aceitava as pessoas como elas eram, imperfeitas, inseguras, fracas e falíveis ou voluntariosas e tolas, muitas vezes desesperadas e, mesmo assim, sempre interessantes, em geral dignas de amor ou comoventes.



“Muitas vezes, nossos remédios estão dentro de nós”. “Melhor um tolo espirituoso do que um espírito tolo”. “A gratidão é o único tesouro dos humildes”. “Somos o tecido de que são feitos os sonhos”. “As mais belas jóias, sem defeito, com o uso o encanto perdem”. São algumas das citações de Shakespeare. Seus textos são animados com palavras e frases que ele retirava de ruas, invenções verbais. Elas se tornaram parte do idioma, às vezes da fala cotidiana. Ele espalhou milhares de confetes verbais sobre o nosso discurso. “Morrer – dormir – Dormir! Talvez sonhar”, “o resto é silêncio”, “o destino me chama”, etc.



Shakespeare foi um homem de tantas palavras que muitas vezes as usamos de maneira quase inconsciente suas citações. “Ser ou não ser, eis a questão” (Hamlet), “Quanto um tempo se estende numa palavra breve”. “Quanto longos invernos e quatro pródigas primaveras. Findam numa palavra: tal o respirar dos reis” (Ricardo II), “a vida...é uma história contada por um tolo, cheia de som e fúria, significando nada” (Macbeth).



Para o crítico norte americano Harold Bloon, a arte de Shakespeare é tão infinita que nos contém e há de continuar abraçando os que vierem depois de nós. As suas peças nos leem de maneira definitiva. E não é à toa, portanto, que depois de Jesus, Hamlet é a figura mais citada no Ocidente. (Texto de 2006)






06 agosto 2019

Miguel Calmon comemora 95 anos de emancipação


Localizado ao norte da Chapada Diamantina, a 368 km de Salvador, o município de Miguel Calmon esbanja exuberantes belezas naturais que fazem do local uma excelente opção de turismo e lazer.  A região é farta em canyons e cachoeiras, ou seja, um “prato cheio” para os amantes do turismo de aventura. A cidade também abriga o Parque das Sete Passagens, um verdadeiro oásis em pleno semi-árido. Nesta terça, 06 de agosto, Miguel Calmon comemora 95 anos de autonomia política.



O Parque é embelezado por dezenas de serras verdejantes, entrecortadas por vales, um espetáculo da natureza que vale a pena desde a aventura em chegar até a forma selvagem e pouco explorada em que este se encontra. Com mais de 2.820 hectares, o parque alia a riqueza da fauna e da flora da região com uma estrutura de área para camping, quiosques, churrasqueiras, espaço para piqueniques e uma bica. Dentro do espaço, o visitante encontra mais de 15 cachoeiras, de diversos tamanhos e formatos, propícias para quem curte roteiros de ecoturismo e turismo de aventura. Macaco guariba, guigó, quati, tamanduá-mirim, gavião, beija-flor, nambu, codorna, seriema, irara, macaco prego do papo amarelo, espécie ameaçada de extinção, são algumas das muitas espécies que compõem a fauna do parque, que tem como ave símbolo da região a bela e misteriosa araponga.



Outra atração turística da localidade: Mocambo, próximo à gruta localizada no distrito de Itapura estão guardados os tesouros arqueológicos deixados pelos povos primitivos que habitaram essa região. As relíquias pré-históricas estão registradas nas pinturas rupestres feitas sobre as formações rochosas.

 

A culinária local é baseada nos pratos típicos da região, como cuscuz, beiju, banana assada, avoador, sequilho, biscoito de leite, aipim, galinha caipira com pirão, maxixe com nata, cabeça de carneiro, cozido de bode, feijão tropeiro, quiabada, carne do sol com pirão de leite, buchada e mocotó. Assim, o município de Miguel Calmon se apresenta com forte atrativo turístico na área de eventos com uma tradicional festa de São João que atrai um grande número de turistas de todos os estados e a Cavalgada, considerada uma das maiores do Estado.



Até princípio do século XX, Miguel Calmon era uma simples fazenda. Hoje, é uma cidade que preserva boa parte do seu patrimônio histórico, inclusive cerâmicas fabricadas pelos primeiros habitantes da região, os índios Payayazes, do grupo dos Cariris, uma tribo pacífica que vivia na região entre Jacobina e o Vale do Paraguaçu ocupando um belo pedaço da Bahia. Os silvícolas da região tinham como principal atividade a cerâmica.



A atual Miguel Calmon originou-se da Fazenda Canabrava, uma área de 170 léguas que começou a ser vendida em partes, a partir de 1810. Em 1812, as primeiras famílias vindas de Jacobina chegaram para habitar a região e, aproveitando a boa qualidade das terras, fizeram o cultivo de milho, feijão, mandioca, café e, posteriormente, cana-de-açúcar e gado.



Miguel Calmon localiza-se na microrregião da encosta da Chapada Diamantina, incluída totalmente no polígono da seca. Faz limites, ao sul, com o Rio Jacuípe que a separa de Piritiba, ao Norte, Jacobina e ao Oeste, Morro do Chapéu e Jacobina.