10 outubro 2014

Crise de identidade



Nesta sociedade tudo se desmonta rapidamente. Tudo é temporário. Nossas instituições, quadros de referências, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades auto-evidentes.


No passado tudo isso se fazia lentamente para ser novamente se enraizado. Agora as coisas todas tendem a permanecer em fluxo, voláteis. E em todos os aspectos a vida humana foi afetada quando se vive a cada momento sem que a perspectiva\ de longo prazo tenha mais sentido.

Jean Paul Sartre aconselhou seus discípulos a terem um projeto de vida, a decidir o que queriam ser e, a partir daí, implementar esse programa consistentemente, passo a passo, hora a hora. A ter identidade fixa. Hoje, nesse mundo fluído, tal decisão é suicídio.

Se na época da modernidade sólida (o passado recente), quem entrasse como aprendiz nas fábricas da Ford iria com toda probabilidade ter ali uma longa carreira, hoje em dia, quem trabalha para grandes corporações de computadores por um salário cem vezes maior não tem ideia do que poderá lhe acontecer dali a meio ano.  

Antes uma das maiores ameaças da existência humana era a fome e para neutralizá-la só mesmo o alimento. Os riscos de hoje são de outra ordem como por exemplo a deterioração das condições climáticas, os níveis de radiação e poluição, a diminuição das matérias-primas e fontes de energias não renováveis, os processos de globalização sem controle político ou ético.

Se a antiga condição de emprego poderia destruir a criatividade humana (habilidades), mas construía a vida humana que podia ser planejada. O patrão dependia do empregado e vice versa. Hoje nada disso existe. 

A maioria das pessoas não pode planejar seu futuro por muito tempo. E é dessa forma, a sociedade líquida, que o renomado sociólogo Zygmunt Bauman compreende a complexidade e diversidade da vida humana.

Identidade nacional

A busca de uma identidade nacional aconteceu na cultura brasileira durante o século XX. Poeta e artistas encontraram nossa originalidade na ideia de um brasileirismo afetivo e gentil. Isso é recorrente no luso tropicalismo de Gilberto Freyre com homem cordial de Sérgio Buarque de Hollanda, do macunaísmo de Mário de Andrade à civilização gasosa de Darcy Ribeiro, do populismo carinhoso de Jorge Amado aos malandros e heróis de Roberto da Matta.

A ditadura militar destruiu esse mito do estilo brasileiro. 

E começaram a desenvolver uma cultura de dublagem. 

Em vez de produzir, começavam a reproduzir. 

E descobriram que o inferno, além dos outros, somos nós mesmos. 

E aí é preciso se reinventar.

09 outubro 2014

Identidades: pensamentos filosóficos



Zygmunt Bauman desenvolveu a ideia da liquidez que desestabiliza as relações humanas.

Michel Maffesoli retoma a fluidez das identificações. 

Para o autor, passamos de uma lógica das identidades, no qual o indivíduo estava bem localizado, para uma logica das identificações.

Stuart Hall fez sua reflexão sobre as diásporas e sobre os deslocamentos do que seria o sujeito da modernidade tardia ou da pós modernidade.

Para Martin-Barbero, a pós-modernidade é uma nova maneira de estar no mundo e afeta o sentido do convívio social. 

Na sociedade na qual a linguagem multimídia impera, vivemos a simulação. A sociedade pós-moderna deseja viver o presente, fazer do hoje o mundo ideal. E
assim morrem as grandes utopias e, em seu lugar, entra a performance.

Ferdinand de Saussure argumentava que nós não somos em nenhum sentido, os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que nos expressamos na língua. 

A língua é um sistema social e não individual. Ela pré-existe a nós. Utilizamos a língua segundo padrões estabelecidos para nos posicionarmos de acordo com propostas pré-existentes.

De acordo com Michel Foucault, as sociedades modernas são formadas por uma rede de instituições disciplinares: a escola, a fábrica, a caserna. O sujeito é constituído por práticas disciplinares. A sociedade como um todo é constituída sobre o modelo carceral, formado pelas suas instâncias de vigilância, controle. O objetivo dessas práticas era a produção de corpos dóceis, a produção social da docilidade por meio das tecnologias do poder.

Jacques Derrida refletiu sobre questões como a pena de morte, a clonagem, o ciberespaço, o fim dacultura do papel. Notório pela sua teoria da desconstrução e pela ampla defesa da liberdade, ele propunha a desconstrução de certos aspectos tradicionais do pensamento metafísico.  

Para ele, nunca se sai totalmente da metafísica, apenas se busca uma forma de reverter e deslocar suas teses capitais. A isso, a partir de um certo momento, passou-se a chamar de desconstrução.


O gosto classifica e distingue, aproxima e afasta
aqueles que experimentam os bens culturais. Pierre Bourdieu mostra a maneira que as preferências culturais dos agentes são estruturadas.

As práticas culturais incentivadas por duas instâncias distinguem aquilo que será reconhecido como gosto legítimo burguês, de classe média ou popular. 

Para ele o gosto cultural é produto e fruto de um processo educativo, ambientado na família e na escola e não fruto de uma sensibilidade inata dos agentes sociais.

Ao longo de seus ensaios contundentes o sociólogo Michel Maffesoli sugere que a vida é feita de jogo, de encenação, de
astúcia, de ousadia e, principalmente, dos “insignificantes” acontecimentos de cada dia.

O cimento social é tudo aquilo que se faz sem a pretensão de mudar a existência ou inventar algo grandioso. 

Assim, a vida é uma experiência de tentativas e de erros, cuja surpreendente coerência só pode ser vista a posteriori.

08 outubro 2014

Sinfonia do cosmo




A Terra se recicla como nossos corpos. As árvores são seus pulmões. Os rios e as águas são sua circulação. O ar é seu hálito e a energia do céu e das estrelas é também a energia que anima seus membros e alimenta o marca passo de seu coração e a eletricidade de seu cérebro.

Seu corpo vive uma troca dinâmica com todos os corpos vivos, incluindo plantas e animais, e com terra, ar e água por intermédio de respiração, digestão, metabolismo e alimentação. Todos somos membros de um único corpo. Nosso corpo também é parte de um único campo de energia, como com o campo de energia universal. Nossa respiração é uma com a atmosfera do planeta Terra.

Somos todos um.

Todos os limites são conceituais, não baseados na realidade.

As fronteiras existentes entre as nações, por exemplo, são um conceito humano. Não há na natureza linha dividindo nações ou oceanos. A Terra é um organismo único e expressão do universo total. Cada acontecimento no espaço e no tempo é uma conspiração de todos os acontecimentos, e cada objeto é também o universo total como um instantâneo no espaço e no tempo.

Nosso corpo está em constante movimento, se alimentando e reinventando. O corpo não é uma
estrutura, é um processo. A versão deste ano do nosso corpo é um modelo reciclado do ano passado. No nível de moléculas e átomos, estamos constantemente se reinventando, o que significa que temos uma pele nova por mês, um novo esqueleto a cada três meses, um novo revestimento gástrico a cada quatro dias e um novo fígado a cada seis semanas. Nosso DNA, que contém memórias de milhões de anos, carbono, oxigênio e nitrogênio.

Tudo ao nosso redor existe por causa da nossa participação e interação com isso. No momento em que para de interagir com algo, que demonstre indiferença ou mesmo age automaticamente (seja uma relação, uma atividade ou um objeto), isso começa a se tornar menos relevante para nossa vida e a desaparece. Uma postura desapaixonada em relação a qualquer coisa na vida gira banalidade, tédio e, finalmente, morte emocional e mesmo física.

Para que haja transformação é preciso ter equilíbrio.

É preciso descobrir que nossa consciência é a consciência do universo, nossa mente é parte do universo. Somos capazes de suspender nosso diálogo interno e nesse silêncio escutar a mente do cosmo.

Nosso corpo é feito de 1 trilhão de células (mais que o número de estrelas e planetas na Via Láctea), cada uma das quais, estima-se, faz cerca de 6 trilhões de coisas por segundo, e toda célula sabe instintamente o que as outras células estão fazendo. Essa é a trágica, o mistério e a alquimia da existência.

Nas escrituras orientais acredita que On é o som primordial do universo – a origem de toda criação. A essência dessa ideia é que nomes, palavras têm poder, pois contêm nossas intenções, que movem nossas ações. Assim, tornar-se consciente das palavras que usamos é uma qualidade muito importante a encorajar em nosso eu super-humano.


Quando estamos consciente ou reflexivamente atentos a nossas palavras e intenções, nossas ações estarão alinhadas com o bem maior.

Há ritmos temporais fundamentais que governam a Terra e o universo. Entre eles estão ritmos circadianos, que são as batidas cíclicas que medem os processos bioquímicos, fisiológicos e comportamentais de todas as coisas vivas na Terra.

Também incluem ritmos sazonais que dizem respeito à revolução do planeta ao redor do Sol e os ritmos das marés, relativos aos complexos efeitos gravitacionais do Sol e da Lua (ritmos lunares) e de outros corpos celestes sobre nosso planeta e suas águas.

Há pelo menos cem ritmos citados pelas cronobiólogos. Combinados, eles compõem a pulsão que anima nosso cosmos que vive e respira, do movimento de estrelas e planetas e da sequência das estações à subida e descida dos oceanos e tudo mais na natureza. Todos esses ritmos estão entrelaçados em uma relação tão refinada que a única  explicação razoável para o seu funcionamento é a existência de uma inteligência mais profunda que a sustenta e coordena. Há um maestro para essa sinfonia do cosmos, e é o transcendente.