22 fevereiro 2013

Tráfico de africanos no cotidiano baiano

Um panorama da história da escravidão entre diversas sociedades. Este é o panorama traçado pelo livro Terror e Aventura – Tráfico de Africanos e Cotidiano na Bahia (Corrupio, 124 pags), escrito pela antropóloga Goli Guerreiro em parceria com Elizabeth Rodrigues e ilustrado por Athos Sampaio. Desta vez os acontecimentos não são escritos pela visão dos dominadores, e sim pelos protagonistas da história. Em seis capítulos a obra aborda desde os primórdios da escravidão na história da humanidade até a abolição no Brasil.

“Acordei de um longo sono, a intensa luz quase me cega
É preciso revelar o que se nega
Se a vida é uma escola toda escola tem seu quadro
Quadro negro, formato quadrado
Nele reescrevo a minha história, faço um diário
Na minha lista negra só tem revolucionário
Marias guerreiras das periferias você tem que ver
Os guerreiros do passado e os atuais do MST
Os homossexuais que resistem com dignidade
Crioulos e indígenas que adentram as faculdades
Se o escuro é feio minha poesia é imunda
Das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda
E por falar em água, me vem na lembrança
O quadro negro na verdade tem a cor da esperança
Que caia um temporal sem pedir licença


A Lei 10.639, de 2003 que tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro Brasileira nas escolas agora tem uma ferramenta importante. A obra apresenta a contribuição do povo negro na formação político sócio econômica do Brasil. Poemas de Castro Alves, textos do sacerdote Mestre Didi, do historiador Ubiratan Castro e do rapper Jorge Hilton, da banda Simples Rap´ortagem estão no livro e mostra visões múltiplas sobre o tema. A Corrupio que tem uma marca de qualidade no mercado está de parabéns pelo lançamento, assim como as autoras, Goli e Elizabeth e o excelente trabalho do ilustrador Athos Sampaio. Um livro que merece ser lido e relido.


E faça desabar essas velhas crenças
Visões estúpidas, espalhadas pelo mundo
Que associou a cor preta a tudo que é imundo
O negro discrimina o próprio negro sim
Se aquele que apontas como negro não se acha assim
Cresceu aprendendo que ser negro é feio
Se é tudo de ruim quem é que quer andar no meio?
Quem escreveu a história do negro nesse país?
Basta ver a cor do giz
Os Reis Faraós do Egito hoje mumificados
Se tirassem suas faixas pudessem ser ressuscitados
Saberia dizer a cor da pele deles sem engano?
Quer uma pista: Egito é um país africano
Não adianta sabermos que não existe raça
Se o conceito predomina e representa ameaça
O hip-hop não nega a mestiçagem, porém
Sabe que ela não trouxe igualdade pra ninguém
“Tá vendo o que a herança racista ofereceu?
Se existia escravidão entre africanos antes dos europeus
Era com sentido diferente do que se viu
Não eram vendidos, não tinha caráter mercantil
As tribos guerreavam o grupo perdedor assume
Rendição por questão de honra, de costume
Se há uma cor do pecado ela chegou de mansinho
Espalhando discórdia e ambição pelo caminho
Sua ciência e religião assim disseram com toda calma
É inferior! Pode escravizar que não tem alma
A cor da paz cometeu holocausto aos judeus
Barbárie na inquisição em nome de Deus
Nas Américas, índios foram dizimados
Mas quem sobreviveu está criando um novo quadro
Se na prova der branco na memória
Vamos denegrir a sua mente com a nossa história
A luz do sol ofusca a visão
E a beleza da lua só é possível com a escuridão



Tráfico de africanos e cotidiano na Bahia é parte de um amplo projeto da Editora Corrupio, destinado à educação de crianças e jovens, e vem suprir a necessidade urgente de uma bibliografia adequada para atender escolas e professores no cumprimento da Lei 10.639 – que determina o ensino da História e Cultura da África, nas escolas do país.

“A luta pelas cotas não anula a luta pela melhora
Da qualidade de ensino público, tu ignora
Pelo contrário, quanto mais negros na academia
Muito mais força pra se lutar por um novo dia
Racismo, o que mais me causa espanto
Não se encara como problema do branco
Mas entre esses, há os que lutam pelo seu fim
“ah se todo branco fosse assim”
Branquitude, pouco se ouve falar
O que explica o privilégio que sua etnia pode conquistar?
Pra quem nasceu em berço de ouro é difícil entender
Que não é só porque seus pais fizeram por merecer
Foram anos de exploração no passado pra que um dia
A sociedade fosse estruturada a favor de uma minoria
Há os que não admitem cotas julgando serem injustas
Outros julgando serem esmolas, tudo isso me assusta
Pergunto quanto custa superar o engano?
Quanto custa ignorar os direitos humanos?
Muita coisa bonita garante a Constituição
Se esquecida ou ignorada precisa de afirmação
Pretos e brancos são iguais, e daí? Se a norma
Nem no cemitério são tratados da mesma forma
Entenda agora o que são ações afirmativas
Medidas pontuais, alternativas
Medidas passageiras que vem afirmar
Pra sociedade, que há, desigualdades, a reparar
“A escravidão é um tema delicado e tivemos cuidado especial para falar com jovens”, explica Goli Guerreiro. O tema complexo ganha abordagem instigante na introdução, com a apresentação de dois argumentos. Um deles é a ideia de que a escravidão existiu em várias civilizações, “mas com características muito diferentes”, como especificam Goli e Elizabeth. O outro pensamento provocador anunciado na introdução diz respeito à crença de que a escravidão racial tem origens ocidentais. “Este tipo de escravidão que atingiu povos negros surgiu no século 9, no mundo árabe. A noção de escravidão racial não é uma invenção do Ocidente”, afirma Goli Guerreiro.


“Dos que vivem abaixo da linha da pobreza
70% são negros, que beleza!
Do total de universitários brasileiros
97% são brancos e herdeiros
De uma política que patrocinou para embranquecer a raça
A vinda de 4 milhões de estrangeiros, o tempo passa!
Tudo isso, em 30 anos irmão
Foi o que se trouxe de negros, em 3 séculos de escravidão
Patrocínio com recurso público, o negativo
Para os escravos libertos nenhum tipo de incentivo
Nos mataram, exploraram e depois largaram a toa
Sem emprego, casa, comida, só disseram: vai, voa!
Sem asas e quem sobreviveu tá por um triz
Amontoados nas favelas de todo país
Quantos brancos moram lá? Cê conta no dedos
Agora entenda porque cotas para negros
Refrão
Eu quero bonecas, anjos, apresentadores pretos e pretas
Empresários, juízes, modelos, doutores pretos e pretas
Se querer é uma faceta
Eu quero, desejo, uma elite preta
Uma coisa é pedir outra é conquistar respeito
O fruto de uma conquista dá-se o nome de direito
Olhe pra minha cor, olhe pra nossa luta
Nem esmola nem favor se desigual é a disputa
Entre quem sempre teve privilégio de estudar
Com ensino de qualidade em escola particular
E querer comparar com ensino público e a situação
Tele-aula, aceleração
Vestibular pra faculdade pública o esquema é raro
Com cotas ou não só entra quem tem preparo
Não serão as cotas que terão o privilégio de inaugurar
A presenças de alunos educados pra manguear
Vestibular das particulares tomou a frente, foi mais ligeiro
Frequentemente só basta ter dinheiro
Quem concorrer pelas cotas vai se deparar legal
Com uma concorrência enorme mas não desleal
Desleal é a condição que o jovem negro encara
Fusca para ele, Ferrari para os de pele clara
Competirem com as mesmas regras, maldade
É isso que eles chamam de igualdade
Engraçada essa gente da estética
Ter instrução em excesso nunca foi sinal de ética
O mundo negro que era praticamente invisível na linha editorial brasileira (ou quando aparecia era simplesmente estereotipado) agora tem sua visibilidade destacada, importante para a reescrita da história das culturas africanas e afro-brasileiras em pauta no novo processo educacional do Brasil. O trabalho foi realizado por especialistas:

Goli Guerreiro é pós-doutora em antropologia pela UFBA, onde realizou pesquisa sobre culturas negras no mundo atlântico e desenvolveu a ideia de terceira diáspora. Ela também edita o blog www.terceiradiaspora.blogspot.com. Baiana de Salvador, é viajante e fotógrafa amadora, registra cenas do cotidiano em cidades atlânticas sobre as quais escreve e realiza mostras audiovisuais. Dedica-se à antropologia urbana desde 1987. Mestre e doutora pela USP, pesquisou a juventude identificada com o rock produzido no Brasil; publicou o livro Retratos de uma tribo urbana – rock brasileiro. O doutorado foi base para o seu segundo livro A trama dos tambores – a música afro-pop de Salvador. Atualmente é consultora editorial e curadora da Coleção Cidades da Bahia da Editora Corrupio.

Elizabeth Rodrigues é mestre em antropologia pela UFBA, coautora do livro Ogum, rei de muitas faces e outras histórias dos orixás, da Cia das Letras (2000) e coautora do livro Tutu no Murundu da Companhia das Letrinhas, a ser lançado em fevereiro de 2013. Autora de diversos contos publicados no Caderno Infantil da Folha de S. Paulo e do jornal A Tarde e da editora Publifolha e etc. Foi co-roteirista no documentário Marujada do programa Bahia Singular e Plural da TVE, Bahia, Irdeb em 2001.


Será mesmo a suposta elevação intelectual
Que garantirá a formação, de um bom profissional?
Não subestime a inteligência dos excluído desse milênio
A faculdade do crime só tem gênio
A elite é quem decide em âmbito nacional
Se nossa inteligência será usada para o bem ou para o mal
Tanto tempo buscando debate ninguém se importou
A cota de tolerância do meu povo já se esgotou
A Simples Rap´ortagem revela para o Brasil
Com cotas ou não vestibular é funil
Com cotas ou não vestibular é peneira
Quem concorrer pelas cotas mas não for bom vai levar rasteira
Que vença o melhor...chega a ser hilário
A prova é uma só os concorrentes que são vários
Quem se afirmou, como provar se é negro ou não?
De uma vez por toda pra se resolver a questão
O cassetete da PM tem dispositivo de elite
Nunca erra quem é negro, acredite!
Refrão
Cuidado quando alguém te incita
A ir a um show onde só tem gente bonita
Olhe sempre com reservas, pra mim o que interessa
É saber que gente bonita é essa
Analise os termos que deixaram pra gente
Entre pardo e mulato qual o mais indecente?
Qual o menos prejudicial?
Ter a identidade de mula ou de pardal
Mas pêra aê, veja que pirraça
Pardal não é aquele passarinho que não tem raça?
Que perambula pelas praças, dizem sem valor
Pássaro sem vocação pra cantor
Vira-lata, a mula é um animal
Mão de obra barata, estéril, irracional
Só serve para o trabalho mas não para produzir
E aí cumpade, tu se encaixa mesmo aqui?
Nem parda, nem mulata eu me defino politicamente
Sou negra, ou se quiser afro-descendente
Cuidado, que eu tô em pele de cordeiro
Do tipo que da coice, afro-brasileiro
Deveria ser executado com um tiro de bazuca
O criador do personagem “negra maluca”
Eu sou sério demais? Não vá se preocupar
Herdei da minha gente o talento pra contrariar
Contrariando, tu vai sim me ver sorrindo
Mas o hip-hop superou o discurso do “negro é lindo!”
A quem interessa? Eu digo a quem pensou
Que eu seria só mais um com vocação pra tambor
Se respeito é bom, não me leve a mal
Eis um empresário, uma pedagoga e um cientista social
Da Universidade Federal da Bahia
Detalhe, quem diria, na terra do “é só alegria!”
Se denegrir é tornar negro irmão
Vamos denegrir a faculdade de comunicação
De direito, medicina e muito mais
Vamos denegrir os órgãos oficiais
Refrão
A manchete da Simples Rap´ortagem estampa
Um novo quadro negro se levanta
Há muito a ser contado sobre os nossos ancestrais
Não deixar passar em branco, tarefa nossa rapaz
Se ligue, a muito a ser feito
O importante nego é fazer do nosso jeito” (Quadro Negro, de Jorge Hilton)
-------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

21 fevereiro 2013

Surf, skate e asa-delta nos esportes radicais

Uma grande tribo que reúne surfistas, skatistas, praticantes de vôo livre, bicicross, jet-ski erradicais de todas as tribos. A conexão entre os esportes radicais e algumas correntes da pop music é uma questão de afinidades culturais. Eventos conjuntos de skate e rap, surf e reggae, bike e rock acústico já fazem parte do cotidiano de disputas e demonstrações. Eles não usam roupas sóbrias e sim com cores vibrantes. Engana-se quem pensa que os radicais reinam só nas pistas. Alguns ex-praticantes do esporte de ação resolveram montar griffes ou trabalhar em publicações ou programas especializados nos esportes.

Há uma relação direta entre os esportes radicais e o prazer. Independente do resultado, a expressão de um surfista ou de um piloto de asa delta é, em geral, de satisfação pelo que está fazendo e sentindo. Surfistas, skatistas e outras tribos esportivas buscam obsessivamente o prazer. Mesmo os profissionais. Saem empolgados e felizes depois de uma boa manobra, vivem enturmados e não dispensam muitas companhias do sexo oposto durante as competições. As mulheres e garotões bronzeados que formam o público dos grandes eventos do surf chamam tanto a atenção como os próprios atletas.

Ao contrário do que muitos pensam, o consumo de drogas no meio é inexpressivo. O prazer de um salto no motocross, de uma gostosa manobra nas ondas ou no silêncio aéreo no vôo livre provoca sensações bem mais inebriantes. Os atletas radicais são os maiores consumidores de filmes, vídeos sobre surf, skate, motos e publicações especializadas. Basta conferir revistas como Surfing, Surfer, Fluir, Skatin, Overall, Trash, Transworld Skateboarding e outras.

Em Salvador, existem mais de 800 jovens que praticam o skate. Além da Associação Baiana de Skate, há o Grupo de Skate de Salvador, a União Incentivadora do Skate na Bahia, Associação de Resistência ao Skate e a União dos Skatistas de bairros diversos. Eminentemente jovem, o skate tem lugar cativo nas ruas de uma cidade cuja população adolescente se multiplica a cada dia.

Nas pistas improvisadas em parques e playgrounds, a exibição de pequenos acrobatas em suas bicicletas: saltam obstáculos, empinam bicicleta numa roda só, rodopiam no ar – é uma mistura de esporte com espetáculo circense que atrai pessoas e virou mania na cidade, principalmente na orla, onde existe uma pista de ciclismo. Lugar de surfista é mesmo na água. Nas ondas do mar é que ele mostra que, muito mais que moda surf é estilo de vida. Quem os vê, grupados num canto da praia, corpo bronzeado, roupas coloridas e palavreado estranho, sequer imagina as deliciosas sensações que eles experimentam quando deslizam sobre as ondas do mar.

Os surfistas, tal qual os skatistas, chamam a atenção pelo visual exótico e gírias próprias. O bodyboard, inicialmente, era o esporte das gatinhas dos surfistas que costumavam ficar na praia. Hoje, porém, seus adeptos já disputam o espaço nas areias de igual para igual. Para quem quer tirar os pés da terra, praticar vôo livre pode ser uma grande pedida para entrar na tribo do asa delta. Voar numa asa delta é a chance de marcar u, encontro com a liberdade num ponto qualquer do céu.

Batedores de cabeça

Fãs de heavy metal que agitavam a cabeça no ritmo da música, jogando os cabelos, geralmente compridos, para o ar. São os headbangers. Descendentes mais fiéis dos ensinamentos do movimento original – importado da Inglaterra no começo dos anos 80 – que ainda resiste no País. O visual: cabelo comprido, camisa preta e tênis de língua – marca poderosa nos domínios da tribo até pouco tempo. Eles gostam de ouvir o som do grupo Sepultura. Não só visualmente o metaleiro – ou headbander, como eles se autodenominam (e que significa bater a cabeça – pode ser na quina do palco – e com o som no último volume, claro) – mudou. Os adjetivos drogados e vagabundos não se aplicam mais aos metalóides. Eles são, na maior parte, adolescentes que sobrevivem como office boys, auxiliares de escritório trabalhando com o pai, e morando na periferia.

E eles estão mudando de visual. Os cabelos não precisam ser tão compridos nem o jeans tão rasgado. Importante mesmo é a música e o espírito do heavy metal. Sempre no último volume. O abandono do estereótipo visual aconteceu por imposição da própria sociedade. Muitos não conseguem emprego, por exemplo, por causa dos cabelos compridos, das roupas. “Os metaleiros podem mudar de aparência, mas não de preferência musical”, avalia um deles. O Camisa de Vênus foi um grupo que apresentou a nova tribo jovem em Salvador.

Tribos urbanas 4 (Reportagem publicada originalmente no jornal A Tarde, 16/06/1991. Texto de Gutemberg Cruz)
------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

20 fevereiro 2013

Música certa para geração aeróbica, darks e góticos

As tribos das noites dançantes garantem a música certa para as pistas das casas noturnas. Onde eles vão, levam uma turma junto. São as turmas dos disc-jockeys que garantem no movimento dos espaços no Rio Vermelho, Pituba e outros bairros de salvador. O ambiente acaba ficando parecido com clube prive, onde todo mundo se conhece e raramente aparece alguém diferente. Às vezes, o local não combina com o público, mas importante é a garantia de encontrar a música certa para dançar.

Os eletrônicos não têm ideologia própria, só gostam do mesmo som e do mesmo visual. O som é o eletrônico, o visual e cinto tacheado e botas pretas. Adeptos de danceterias cuja programação não dispensa o estilo musical belga new beat. Eles não se definem como um movimento.

Os rockabillies se comportam como se fossem personagens dos filmes de James Dean. Clones bem comportados do ator de Juventude Transviada, eles adoram o som do Stray Cats, Jerry Lee Lewis e Eddy Cochrane. Vestidos de rockers dos anos 50, os rockabillies não suportam o rock dos anos 90, pesado demais ou dançante estilo house. Usam topetes e gomalinas.

Curtidores da noite em geral, os darks, com seus trajes negros e pesados e seus gostos pelos ambientes apertados, vivem mesmo entre o pôr e o nascer do sol. Durante o dia, costumam ser ótimos estudantes. Seus autores preferidos são Rimbaud, Artaud e Sartre. Também do mesmo movimento, os góticos (pós-darks) vestem-se inteiramente de preto para demonstrar “luto pelo mundo” e usar maquilagem excessiva. O programa preferido dos góticos é procurar danceterias que possam acolhe-los com suas bandas prediletas: The Sistyer of Mercy, House of Love, Echo and the Bunnymen, Cabine C, Smarck entre outros.

Em outro estilo, a geração aeróbica veste basicamente collants coloridos bem justos, e é bem descontraída. O grosso da tribo vem da classe média e um símbolo de status pode ser um tênis reebooks novo em folha. Fazem o culto ao corpo e têm pavor a celulites ou barriguinhas indesejáveis. Mais comportamental do que musical, os adeptos da aeróbica só dançam ao som da mesma batida-acelerada cuja função é animar os passos e a coreografia usada nas academias da cidade.

Movimento rasta

Verde, vermelho e amarelo representam a bandeira da Jamaica, são as cores básicas do visual reggae. Elas simbolizam, dentro da religião rastafari, o retorno às raízes africanas. Os dradlocks, longos cachos de cabelo, símbolo bíblico da força masculina, hoje convivem com um novo look, um corte tipo militar, que desenha trilhas nas têmporas e até mesmo o contorno do mapa da África na parte de trás da cabeça, sempre completado por bonés confeccionados em tecidos e toucas de crochê imensas, usados noite e dia.

Os amantes do reggae comparecem a rigor, de tranças rasta, no Pelourinho. Ninguém consegue ficar parado. O incenso ajuda a manter o astral pós-zen, as mechas rastafaris surgem sob boinas e sacodem no som contagiante da Jamaica. Do Terreiro de Jesus até o Largo do Pelourinho a Terça do Reggae começou inicialmente como uma homenagem ao rei Bob Marley, um guerreiro na luta de resistência dos negros de todo o mundo contra a opressão e a discriminação.

Jimmy Cliff, Peter Tosh, Denis Brown, Black Uhuru, Gregory Isaac, Edson Gomes e Lazzo são alguns nomes do reggae que podem ser ouvidos no Bar do Cravo Rastafari, Pelourinho, ou no Bar do Reggae, no Maciel, os templos onde se cultua a música jamaicana. As tribos rastas invadem a noite baiana com, seu visual marcante, a beleza das roupas e das danças e forte alegria. Os efeitos penetrantes do baixo elétrico e bateria garantem de cara a integração rasta da nova curtição da noite baiana. Um efeito quase hipnótico. A penetração cada vez mais no nosso cenário musical pode ser comprovada pelos programas especiais nas emissoras de rádios e de novos artistas que divulgam esse gênero musical.

Tribos urbanas 3 (Reportagem publicada originalmente no jornal A Tarde, 16/06/1991. Texto de Gutemberg Cruz)

-------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

19 fevereiro 2013

Defensores da anarquia: Punks

Eles defendem a anarquia. O movimento punk surgiu por volta de 1976. Jovens inconformados se rebelaram contra a apatia que dominavam o rock desde o surgimento do gênero progressivo e começaram a formar suas próprias bandas. Pode ser apontado como a primeira tribo urbana a se insurgir contra a aldeia global, recorrendo a dois ou três acordes viscerais, um vocal geralmente gritado, cabelos espetados ou moicanos, e muita raiva. “Anarchy in the UK”, o primeiro sucesso do grupo que se sintetiza essa estética, os Sex Pistols, detona a anarquia nas terras da rainha da Inglaterra e espalha a revolta estética dos punks pelo mundo.

O punk é uma música simples, de poucos acordes e um vocal geralmente gritado. Os temas das músicas giram em torno de problemas sociais. Bandas como Ramones, Clash, Sex Pistols e Damned arregimentaram um grande número de fãs. No Brasil, só dois anos depois surgiram os primeiros bandos punks, na periferia de São Paulo e do Rio de Janeiro, entre jovens desempregados e sem perspectivas, “oprimidos pela selvageria urbana”, como os define o criador de Bob Cuspe, o mais famoso punk brasileiro, o cartunista paulista Angeli. Bandas como Os Inocentes, Ratos do Porão, Coquetel Molotow entre outros representam o movimento.

Na Bahia, os integrantes do movimento punk se reuniam todos os domingos pela tarde na Praça da Sé. E nos dias de semana faziam seu point na Praça da Piedade onde se juntaram para conversar e vender bottons. Jorge Luís Araújo, o Paquito, na época 15 anos, disse que se envolveu na turma através da música. Depois, com os shows dos Garotos Podres e outros punks. A família interfere, “mas não tem agressão física, só discórdia, crítica”. Ao contrário do que muita gente imagina, a maioria estuda de manhã e trabalha à noite e, como muitos deles moram em bairros distantes, escolheu a Piedade como local de reuniões que começam a partir das 19 horas. Idealistas, desejam um mundo igualitário, sem comandantes. Por isso, aproveitam o movimento da praça para espalhar panfletos nos quais fala a doutrina punk. Existe a gangue Verme do Sistema que são os garotos menos rotulados, não utilizam a indumentária (roupas pretas e cabelos a la moicanos) comum aos outros. Nas outras gangues os componentes são conhecidos pelos apelidos de Morcego, Olho Seco, Pobreza e Minério.

Cabeças Raspadas

Os skinheads ou carecas, também originários da Inglaterra, surgiram para fazer frente ao movimento hippie, desaparecido no começo dos anos 70. Dissidentes do movimento punk têm uma ideologia neonazista e pregam a violência. São rivais dos fãs do heavy metal. A reativação dos cabeças raspadas acontecia na esteira do movimento punk. Pregavam o nacionalismo puro, era,m acusados de neonazistas e se contrapunham aos próprios punks, chamados por eles de “vendidos ao sistema” e não-politizados. Os skinheads são do tipo que batem no peito e se orgulham de ser operários. Eles geralmente trabalham em indústrias ou construções. São machistas ao extremo e não gostam de quem usa o visual militar sem pertencer cão movimento. Estima-se que a na década de 90 em São Paulo – seu principal núcleo – existiam por volta de 500 skinheads.Cabeças raspadas – por máquina dois --, tatuagens, coturnos pretos, calças justas, suspensórios e camisas de algodão formavam o visual da tribo. A música tem um ritmo semelhante ao rock metaleiro. Antes, eles tinham uma bandeira na cidade: Bandeira de Combate. São fãs de hardcore, música executada com muita velocidade e peso. Eles não bebem, não fumam e abominam tóxicos. A terapia de contra-ataque aos grupos opositores ao seu radicalismo é a violência. Quase todos praticam musculação. “Não dá para dizer que a gente é pacifista quando se vive em uma sociedade violenta”, diz um dos carecas mais tradicionais da cidade.

Quem mais sofreu nas mãos dos carecas foram os grupos heavy metal e os darks, considerados por eles contestadores de botique. São poucas as garotas que se integraram à tradição de violência dos carecas. Todos são bastante jovens. A maioria mora no subúrbio e na Cidade Baixa. Eles se reuniam às sextas-feiras no QG improvisado num bar do Politeama de Cima. O bairro da Massaranduba tem um grande número desses adeptos, que muitas vezes ficam no Campo Grande aos domingos, em frente ao Teatro Castro Alves. Usam apelidos como Cafox, Dengue, Infortúnio entre outros para serem identificados em grupos. Eles vivem espalhados pela cidade, pregando as idéias de Hitler como herói e justificando as atrocidades atribuídas a ele como manipulação da imprensa sionista. Seu lema: “Tudo pela nossa Pátria, o Brasil. Abaixo os judeus, comunistas e homossexuais. Hitler era um grande homem”. Adotam uma filosofia nazista que preferem ocultar sob o nome de nacionalista.

Tribos urbanas 2 (Reportagem publicada originalmente no jornal A Tarde, 16/06/1991. Texto: Gutemberg Cruz)

-----------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

18 fevereiro 2013

Rock, reggae, funk, skate e surf movimentam as tribos urbanas

Filhos da sociedade industrial, onde sempre germina a contestação juvenil, punks, skinheads (carecas), metaleiros (headbangers), rastas, darks e muitas outras tribos continuam presentes nas grandes metrópoles. Mesmo com toda repressão social e familiar, eles marcaram os últimos anos do final do século XX com novas formas de expressar sua revolta contra um mundo difícil e culturalmente caótico. Usam métodos discutíveis, transformam-se, estão um pouco mais dispersos e hoje começam a ser assimilados por um sistema que transforma tudo em moda e comércio. Aqui, um pouco da trajetória, idéias e comportamento das tribos urbanas.

As tribos de Salvador estão se organizando, deixando os guetos e a clandestinidade, para respirar em novos espaços. Eles andam em bando e vivem à procura de seus iguais pela periferia e centro da cidade. São jovens em busca de uma identidade, alguma diversão que lhes dê um estilo de vida, um ideal. Som e manifesto. Música e comportamento. Uma maneira de se vestir, de pensar, eles querem é experimentar, mesmo que não tenha método, estrutura. As tribos essencialmente musicais invadiram alguns templos noturnos da cidade para a celebração de seus rituais. São dezenas de bandas que se espalham pelos cantos da cidade.

Muitos dos seus integrantes conciliam os estilos mais inusitados. O que antes não acontecia. É o chamado “crossover”. Reggae e rock, dance music e funk, tudo misturado no caldeirão da cultura pop. A comunhão cultural ser estendeu em Salvador e pode ser vista a qualquer hora nas ruas. Dê uma olhada em sua volta e tente identificar qual o estilo que certos garotos e garotas adotam. O cinto pode ser punk, as calças seguem o estilo trash, a camiseta traz a inscrição de um grupo hip hop (ou punk ou hard rock) e, enfeitando as cabeças, um boné, de preferência com a pala voltada para trás. Uma verdadeira salada visual. Através do som, da dança e da performance as tribos se revelam. Essas tribos dificilmente dividem o mesmo perímetro urbano em Salvador e trazem numa estética sempre importada. Ser componente de uma tribo musical é, às vezes, uma forma de suplantar a pobreza a que é confinado.

CALEIDOSCÓPIO – Punks, darks, metaleiros, yuppies, rasta. É a aldeia global padronizada e uniforme dos anos 70 que vai cedendo lugar às novas tribos urbanas, obrigadas a uma convivência nem sempre pacífica, de estilos e tendências de diversas épocas e origem que marcam a atual juventude das grandes metrópoles. Um passeio pelas ruas da cidade revela o caleidoscópio em que se transformaram as velhas turmas. São os cortes de cabelo à la moicanos identificando os punks, as roupas pretas aprontando um depressivo dark, as pulseiras com tachas e os longos cabelos mostrando um metaleiro de longe. Os músculos ressaltam os aeróbicos. Dos amplos salões dos blacks e os espaços apertados dos darks, dos escritórios clean e hitech dos jovens executivos (yuppies) às ruínas ocupadas pelos punks, o cenário pode mudar mas a procura é a mesma: fugir à padronização.

Contestação com muito barulho é a marca do grito adolescente dos metaleiros, os adeptos do rock pesado. Os cabelos compridos, o gosto pelas letras macabras e as pulseiras pontiagudas deram uma fama de violentos e mal humorados aos cultores dos decibéis e da velocidade como padrão musical. “O som do mais alto volume faz a cabeça de todo mundo”. A cabeça é, por sinal, o principal na dança dos metaleiros, conhecidos na Europa e nos EUA como head-bangers, por causa dos meneios de cabeça com que saúdam seus ídolos. Ainda na cabeça tem os violentos skinheads ou carecas cuja forma de protesto é a violência física. São os rambos da atualidade.

ALTERNATIVOS – Os darks vivem de preto, uma cor bem de acordo com sua curtição noturna. Enquanto os darks – cuja alcunha significa oculto, escuro, em inglês – prefere a noite, os aeróbicos, ao contrário, optam por uma saudável vida diurna. Tão solares quanto os aeróbicos, mas preferindo os movimentos sutis ao esforço dos exercícios, e a participação à força física, os alternativos se dividem entre as terapias orientalistas e hábitos naturalistas dos anos 70, e a vontade de mudar o mundo trazida dos 60. O Partido Verde, os defensores da natureza, o movimento ecológicos são os grupos que mais se destacam nesta tribo.

O sociólogo Michel Maffesoli, secretário geral do Centro de Pesquisas sobre o Imaginário e diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano na Universidade de Sorbone, reafirma suas teses sobre o fenômeno do tribalismo e a implosão da política na sociedade contemporânea em seu livro, “O Âmago das Aparências”. Para Maffesoli, “não vivemos mais na sociedade de consumo, mas numa sociedade de desperdício absoluto. Existe a massa, e dentro da massa as pequenas tribos que consomem conforme a moda, num processo acelerado de obsolescência planejada dos objetos”. Seu trabalho aponta a megalópole moderna como habitat desse novo tribalismo. “O mundo que se desenha pode ser um mundo sinestésico – um termo que pego emprestado da Medicina para falar de uma sociedade como um corpo que atinge seu equilíbrio interno, entre função e disfunção, entre ordem e desordem. Eu proponho esse conceito para o corpo social, essa é minha hipótese: na heterogeneidade total, alcançaremos o equilíbrio”. Autor de “Conhecimento Comum”, “O Tempo das Tribos” e “A Conquista do Presente”, entre outros livros, Michel Maffesoli propõe um saber “plural, interdisciplinar, dionisíaco, carnal, passional e orgiástico”, em oposição aos grandes sistemas explicativos como o marxismo e o freudismo.

Tribos urbanas 1 (Reportagem publicada originalmente no jornal A Tarde, 16/06/1991.Texto: Gutemberg Cruz)

-----------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

15 fevereiro 2013

O que há por trás das listras?

A roupa toda listrada já foi coisa de presidiário ou mafioso. Hoje é sinônimo de gente bem informada e cosmopolita . Na Idade Média, roupas listradas tinham conotação negativa e eram associadas a quem estava à margem da sociedade - prostitutas, serventes, criminosos. Nas pinturas medievais, o próprio diabo aparecia vestindo listras. Mas, nos dois últimos séculos, o padrão ganhou um significado positivo e de liberdade - principalmente por causa das bandeiras da França e dos Estados Unidos. É possível que os americanos tenham escolhido um tecido listrado (símbolo da escravidão) para exprimir a ideia do servo que rompe suas correntes e, assim, inverter o código das listras, sinal de privação de liberdades, estas se tornam, com a revolução americana, sinal de liberdade conquistada. Assim vestir-se em listras pode ser um meio de proclamar a adesão ao movimento das liberdades.

Dependendo do tipo físico, certas roupas são proibitivas. Pessoas obesas não devem usar roupas listradas na horizontal. Isso aumenta ainda mais seu tamanho, assim como as pessoas muito magras, não devem usar roupas com listras verticais, pois ficarão ainda mais magras. É fundamental usar roupas que sejam harmoniosas com as formas do corpo.

Há uma milenar fama dos tecidos listrados como "coisa do demo". Um ensaio do historiador e paleógrafo francês Michel Pastoureau, intitulado O Pano do Diabo faz uma viagem no tempo em busca de desvendar o significado das listras nas vestimentas da sociedade ocidental . Qual o motivo da roupa dos presidiários ter sido listrada, assim como a dos loucos e doentes contagiosos. Seria uma forma de diferenciar os que estavam à margem da sociedade?. As listras de alguma forma também foram relacionadas ao mar, nas roupas dos marinheiros e nos trajes para banhos de mar. O esporte, em geral, também se apoderou delas, seja nos uniformes ou em símbolos de marcas famosas.

As Sagradas Escrituras já não as recomendavam. Está no Levítico: "Não levarás sobre ti uma veste que seja feita de dois." Dois tons, bem entendido. A fama, portanto, não é antiga, é antiqüíssima. Os muçulmanos sempre usaram mantos listrados. Por esse motivo intriga a Igreja, avessa a qualquer parentesco com hábitos orientais. Os tecidos listrados eram usados - em vestimentas, cintos, fitas, capuzes e barretes - por judeus, heréticos, bufões, saltimbancos, carrascos, prostitutas, leprosos e outros excluídos da sociedade daquele tempo. Caim, Judas, Dalila e Salomé também haviam feito das listras um involuntário emblema de sua desonra.

Na obra, Pastoureau focaliza mais de 800 anos de história da humanidade, através das listras e de seus múltiplos significados. Na Idade Média, as listras eram reservadas aos loucos, aos leprosos, aos doentes contagiosos, aos banidos da sociedade. As listras foram olhadas com desprezo, isolando dos outros quem as vestia. Em uma cultura em que o visível tem uma importância primordial, todos sabem ler o sentido dessas barras. Prostitutas e saltimbancos na época medieval usavam roupas listradas reforçando o status marginal da estampa – representações do diabo eram frequentemente ilustradas com listras.

Até o século XV, as listras tinham caráter depreciativo e serviam para designar loucos, doentes contagiosos e banidos. Depois uma ambígua reviravolta passa a associar o listrado ao servilismo e também à proteção – aparecendo em roupas de criados, protegidos dos nobres. No século XIX, uma função higiênica e medicinal distingue os costumes listrados: roupas de banho, de crianças, pijamas – usos do vestiário que denotam assepsia, ao menos aparente. A reputação do pano listrado só mudaria substancialmente do final do século XVIII em diante, depois de representar, na França, a vitória do bem (burguês) contra o mal (aristocrático), o triunfo da marginalidade, e, no Novo Mundo, a implantação da democracia moderna.

No início do século passado, chegaram à moda com Gerald Murphy, eleito o homem mais elegante da classe de Yale em 1912. Ele teria sido o primeiro a usar listras, nos salões aristocráticos da Riviera francesa: a camiseta tradicional dos marinheiros. Nos anos 30 o pintor Pablo Picasso ajudou a celebrizar as listras nas rodas intelectuais, divulgando o look em suas temporadas de verão na França e na Espanha. Também nos anos 30, a grande costureira francesa Coco Chanel ajudou a celebrizar as listras entre o público feminino. Negativas nos uniformes dos campos de concentração nazistas e dos presidiários do cinema e dos quadrinhos, as listras expandiram-se positivamente por outros corpos: de crianças, banhistas, marujos e esportistas, seus mais benignos usuários. A semiologia das listras é infinita e encontrou no estudioso Pastoureau um trabalho de ampla visão.

As listras apareceram em figurinos de filmes que marcaram a história do cinema e fazem parte dos ciclos da moda, dos temas náuticos à alfaiataria risca-de-giz. Basta conhecer as roupas de Coco Chanel nos anos 20, ou as camisetas de marinheiro do estilista Jean Paul Gaultier . Nas histórias em quadrinhos os ladrões ou malfeitores ainda apresentam vestidos de listras berrantes e horizontais. Os personagens de Filochard na série Les Pieds Nickelés, os Irmãos Metralhas da Disney, os gêmeos Dupondt de Tintin, ou o Coringa, a outra moeda do Batman, entre outros. Até a figura da zebra, metáfora mais que repisada, tem caráter de exceção à regra, e os peixes que apresentam listras são os mais procurados porque são raros.
------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

14 fevereiro 2013

Oito jeitos de mudar o mundo

A Organização das Nações Unidas (ONU) em conjunto com 191 países, inclusive o Brasil, estabeleceu no ano 2000 os oito objetivos de desenvolvimento do milênio. A Declaração do Milênio foi aprovada pelas Nações Unidas em setembro de 2000. O Brasil, em conjunto com os países-membros da ONU, assinou o pacto e estabeleceu um compromisso compartilhado com a sustentabilidade do Planeta. Os Objetivos do Milênio é composto por oito macro-objetivos, a serem atingidos pelos países até o ano de 2015, através de ações concretas realizadas entre governo e sociedade. É o conteúdo da Semana Nacional pela Cidadania e Solidariedade.

As oito formas de mudar o mundo serão os parâmetros para que cada brasileiro faça algo na sua comunidade, no seu espaço de atuação e de vivência, doando-se um pouco mais num projeto nacional de solidariedade e ajudando a transformar a sociedade em que vive e melhorar a qualidade de vida de sua região São elas 1. Erradicar a extrema pobreza e a fome. 2. Atingir o ensino básico universal. 3. Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres. 4.Reduzir a mortalidade infantil. 5 Melhorar a saúde materna. Combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças. 7. Garantir a sustentabilidade ambiental, e 8.Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento.

O primeiro objetivo visa reduzir pela metade o número de pessoas que ganham menos de um dólar por dia e que passam fome. Pobreza extrema afeta cerca de um bilhão de seres humanos, e a fome, 815 milhões. O segundo objetivo é permitir que todas as crianças, meninos e meninas igualmente, terminem o ensino primário. A ONU calcula que há 115 milhões de crianças sem escolaridade nos países em desenvolvimento.

O terceiro é permitir que as meninas frequentem todos os níveis de escolarização, em número igual ao dos meninos. A igualdade entre sexos é um princípio assumido cada vez mais pelos países, apesar das importantes barreiras legais, econômicas, culturais e sociais com que a mulher ainda se defronta. O alvo do quarto objetivo é reduzir em dois terços o número de mortes de crianças com menos de cinco anos. A ONU calcula que 11 milhões de pessoas – 30 mil por dia – morrem antes de chegar a essa idade.

Um dos alvos do quinto objetivo é reduzir em três quartos o número de mulheres que morrem durante o parto. A cada ano, mais de 50 milhões de mulheres dão à luz sem ajuda. O parto tem sido a causa de morte de centenas de mulheres. As causas mais comuns das mortes são: 25% hemorragia (sangramento excessivo), 15% infecção, 13% abortos arriscados, 12% eclâmpsia (uma doença perigosa no final da gravidez, com pressão alta e convulsões) e 8% parto obstruído.

O sexto objetivo é interromper e começar a diminuir a propagação do vírus da imunideficiência humana (HIV, na sigla em inglês) e a incidência de malária e outras doenças graves até 2015. Garantir a sustentabilidade, ou seja, promover o desenvolvimento com o uso racional dos recursos naturais, assegurando a qualidade de vida da população e a sobrevivência das gerações futuras, é o grande alvo do sétimo objetivo de desenvolvimento do milênio. O Brasil possui 30% das florestas tropicais e 12% da cobertura florestal restante no mundo, 13,7% do total de água doce superficial do planeta e a maior biodiversidade da Terra. Assim, conseguir o desenvolvimento sustentável com a consequente redução das desigualdades sociais é uma questão de sobrevivência para o país e para toda a humanidade.

O último objetivo, o oitavo, está voltado para os governos do Norte e consistem em grandes aumentos na assistência de desenvolvimento, no alívio da dívida em países pobres em recursos e na criação de um sistema de comércio internacional justo. Quase 90% da dívida do terceiro mundo continua. Os países do Sul continuam a pagar $200 milhões de dólares por dia com o serviço da dívida. A maioria dos países ricos está longe de cumprir a sua promessa de assistência de 0,7 por cento da receita nacional. Se os países ricos honrassem a sua promessa, os $120 bilhões de dólares gerados por ano seriam suficientes para reduzir a pobreza pela metade. O sistema de comércio internacional continua a favorecer os países ricos e as empresas poderosas. As regras do comércio injusto roubam dos países pobres £1,3 bilhões de libras esterlinas a cada ano – 14 vezes o que eles recebem em assistência.

Criar uma consciência nacional entre os diversos segmentos da sociedade sobre o significado e a importância do alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até 2015, não é uma tarefa fácil, porém não impossível. Cada parcela da sociedade pode exercitar sua cidadania e solidariedade ao incentivar e desenvolver ações voluntárias em prol de iniciativas pontuais no bairro, na cidade, unindo-se na tarefa de contribuir para a mudança do mundo. O alcance de forma sustentável dos Objetivos do Milênio se dá pelas clássicas políticas e inclusão social: educação pública de qualidade; saúde pública de qualidade; assistência social como direito e não como favor; geração de trabalho e renda, todas complementadas por uma política pública ainda pouco valorizada no debate sobre o combate sustentável à pobreza: acesso à justiça ágil e de qualidade.

---------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

07 fevereiro 2013

Homenagem vai marcar vida e obra do baiano Manuel Querino

Para marcar os 90 anos de morte do baiano Manuel Querino será realizado no dia 14 de fevereiro, às 18h na Igreja da Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora às Portas do Carmo, missa solene em sua memoria. No dia 19 de fevereiro, a partir das 14h no auditório do Centro de Estudos Afro Orientais, diversas personalidades baianas (diretor do CEAO, prof. Jeferson Afonso Bacelar, diretora do Centro de Culturas Populares e Identitárias, profa Arany Santana, presidente do IGHB, profa Consuelo Pondé de Sena, presidente da SPD, Dr. Pedro do Nascimento, prior da Irmandade dos Homens Pretos, Dr. Ubirajara Santa Rosa) estarão debatendo sobre o pesquisador Manuel Querino. Em seguida, 16h15 nova mesa redonda sobre Manuel Querino e o negro no pensamento social brasileiro. Em tempos de discussão sobre inclusão social e a contribuição do negro na formação do povo brasileiro, Manuel Raimundo Querino emerge como figura de destaque no rol dos que cumpriram papel relevante na sociedade brasileira

Essa homenagem busca marcar de forma significativa a passagem de Manuel Raimundo Querino. Escritor, jornalista, historiador, político, desenhista, músico, pintor, professor do Liceu de Artes e Ofícios e do Colégio dos Órfãos de São Joaquim, sócio fundador do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, aluno fundador da Academia de Belas Artes da Bahia (hoje Escola de Belas Artes da UFBA), antropólogo autodidata, por fim um dos mais importantes pesquisadores da História da Bahia, Querino foi precursor dos estudos da contribuição africana para a formação da sociedade brasileira. Na mesa redonda, será discutida essa personalidade ímpar e multifacetada, ressaltando a sua importância no cenário intelectual da Bahia e do Brasil.

TRAJETÓRIA - Manuel Raimundo Querino nasceu no dia 28 de julho de 1851, em Santo Amaro da Purificação, Bahia. A sua infância foi atribulada, como de resto toda a sua vida. A epidemia de cólera de 1855, em Santo Amaro, matou-lhe os pais. Foi confiado então aos cuidados de um tutor, o professor Manoel Correia Garcia, que o iniciou nas primeiras letras. Tendo apenas o curso primário, Manuel Querino, aos 17 anos (1868), foi convocado como recruta no Exército, viajando pelos sertões de Pernambuco e Piauí, e aí se unindo a um contingente que se destinava ao Paraguai, não foi mandado para a frente de batalha por motivos de saúde. Foi para o Rio de Janeiro no mesmo ano, servindo no serviço burocrático no escritório do quartel. Em 1870, foi promovido a cabo de esquadra, e logo depois deu baixa no serviço militar.

Ao voltar para a Bahia, começou a trabalhar nas fainas modestas de pintor e decorador. Sobrava-lhe tempo, porém, para estudar francês e português, no Colégio 25 de Março e no Liceu de Artes e Ofícios, de que foi um dos fundadores. Em virtude de sua grande habilidade para o desenho, matriculou-se na Escola de Belas Artes, onde se distinguiu entre os alunos. Obteve o diploma de desenhista em 1882. Seguiu depois o curso de arquiteto, com aprovações distintas. Obteve várias medalhas em concursos e exposições promovidos pela Escola de Belas Artes e pelo Liceu de Artes e Ofícios.

DESENHO - Foi lente de desenho geométrico no Liceu de Artes e Ofícios e no Colégio dos órfãos de S. Joaquim. Em 1903, publicou Elementos de Desenho Geométrico, e logo depois Desenho Linear das Classes Elementares. Interessou-se pela política. Foi republicano, liberal, abolicionista. Com outros do grupo da Sociedade Libertadora Sete de Setembro, assinou o manifesto republicano de 1870. Fundou os periódicos "A Província" e "O Trabalho", onde defendeu os seus ideais republicanos e abolicionistas. Manuel Querino foi um dos mais ativos trabalhadores do grupo. Escreveu para a "Gazeta da Tarde" uma série de artigos sobre a extinção do elemento servil.

Tornou-se um verdadeiro líder das classes populares, em campanhas memoráveis pelas causas trabalhistas e operárias que o conduziram ao Conselho Municipal (hoje Câmara Municipal), como o primeiro conselheiro negro da história daquela Casa Legislativa. E assim foi toda a sua vida. No seu modesto cargo de 3°. Oficial da Secretaria da Agricultura, sofreu os mais incríveis vexames. Foi consecutivamente preterido em todas as ocasiões em que lhe era de justiça a promoção. Esqueciam-no os poderosos do momento. Secretários e chefes de serviço desinteressavam-se da sua sorte.
HISTÓRICO - Em paralelo ao exercício de suas atividades profissionais dedicou muito de seu tempo e energia a estudos históricos, em particular à pesquisa e ao registro das contribuições dos Africanos ao crescimento do Brasil. Ao concentrar sua atenção para os estudos de História, buscava reabilitar a participação da mão negra na construção da experiência civilizatória no Brasil, tendo em vista que até então nenhum estudioso de qualquer origem étnica havia feito estudos sob essa perspectiva. Manuel Raimundo Querino, faleceu em Salvador no dia 14 de Fevereiro de 1923, tendo dado uma inestimável contribuição aos diversos ramos da atividade a que se dedicou. Depois da sua morte, foi publicada a sua A arte culinária na Bahia.

Sem sombra de dúvida, foi no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia que Manuel Raimundo Querino mais exercitou o seu potencial enquanto pesquisador e historiador da cultura e da sociedade baiana. Ao publicar seus artigos na Revista do IGHB, pôde expor aos seus pares de agremiação e aos demais apreciadores do quanto se veiculava naquele respeitado periódico os resultados de sua laboriosa e profícua produção intelectual. Ao reeditar tais artigos, a Casa da Bahia reafirma a sua missão de promover a pesquisa das atividades da vida da gente baiana em suas mais diversas áreas, buscando resgatar o passado para o orgulho do presente e a esperança no porvir.
---------------------------------------------------------

Bom descanso para todos nesses dias de folia. Volto na quinta, dia 14, com muita força.
------------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

06 fevereiro 2013

Centenário de nascimento de Walter Smetak, o alquimista do som

No dia 12 de fevereiro comemora-se 100 anos de nascimento do músico, filósofo, artista plástico, poeta, professor, homem de teatro, e sobretudo inventor de instrumentos musicais, Anton Walter Smetak, suíço que adotou o Brasil em 1937, fixando-se na Bahia a partir de 1957

O músico e professor da Unicamp, Marco Antonio Scarassati lançou em 2009 o livro Walter Smetak o alquimista dos sons (Perspectiva). Dividido em duas partes, o livro aborda a princípio a época de formação do artista e suas fases de transição: desde a Europa ao Brasil, do fazer musical para sobrevivência em seus primeiros anos no país, ao trabalho puramente artístico. Na segunda parte, procura estabelecer uma tipologia para as obras do artista, classificando-as em instrumentos de inspiração primitiva, cinéticos e coletivos.

Sua herança, a “antimúsica”, como Smetak gostava de dizer, fruto de uma pesquisa desenvolvida através das esculturas sonoras que criou, continua desafiando e instigando as novas gerações. A banda mineira Uakti é cria assumida do experimentalismo contundente de Smetak. O artista ansiava “colocar toda a música numa única nota”. “Ele era o novo”, resume Tuzé de Abreu, flautista da Orquestra Sinfônica da Bahia, que conviveu quase uma década com o homem que se dedicou a investigar o silêncio, o som e suas relações essenciais com os homens.

Smetak influenciou músicos como o percussionista Bira Reis, o cantor e compositor Gereba, Aderbal Duarte, Sérgio Souto e muitos outros. Em 2009 foi exibido o documentário O Alquimista do Som, dirigido por Walter Lima, além de um ciclo de palestras. Apesar de toda essa badalação em torno do artista, necessário, a herança musical deixada por ele vive em constantes transferências desde a sua morte, sem que se encontre um lugar adequado para o seu acondicionamento. O acervo conta com 85 obras e já passou pela Escola de Música e Biblioteca Reitor Macedo, da UFBa; e pelo casarão 29 da Rua Gregório de Matos. Hoje deve estar no subsolo do Museu de Arte da Bahia, jogado em caixas. O acervo de Smetak estava em vias de ser tombado pelo ex-ministro Gilberto Gil, mas está ameaçado de desaparecer.

TRAJETÓRIA

Músico,, nasceu em 1913. Violoncelista, criador de música e de instrumentos-esculturais, a partir da combinação cabaça & cordas. Smetak foi também teórico, e expressou suas ideias cósmico-musicais em textos e entrevistas, num português aproximativo, entre poético e místico. No plano musical, caminhou com resolução para o microtonalismo. Ele acreditava que através da “consciência dos microtons” e da superação do emocional se chegará “à clareza da percepção da diversidade sonora”.

Teve a oportunidade de gravar com Pablo Casais, de acompanhar Carmen Miranda e produzir um grande acervo de textos e partituras musicais na sua improvisada oficina-laboratório no porão da Escola de Música da UFBa. Seu primeiro disco só veio a ser gravado em 1974. Produzido por Roberto Santana e Caetano Veloso, foi montado por Cae e Gil. Em 1980 grava o segundo disco, com os microtons Interregno.

Além de 150 instrumentos criados e fabricados por ele, com as formas mais inusitadas, Smetak escreveu 36 livros (muitos ainda inéditos), onde estão quatro peças de teatro e vários volumes de poesia, literatura, filosofia e teoria musical. Escreveu também muitas partituras. Insatisfeito com a tradição musical, ele foi buscar novos universos sonoros entre um tom e outro. A escala comum tem sete notas, do dó ao si. Ele trabalha apenas entre uma e outra, entre o dó e o ré. Nesse intervalo descobriu os microtons, os imperceptíveis sons entre os tons. A música dele ficava nesse espaço. O som do século XXI teve seu inventor na Bahia. As ideias do suíço-baiano fazia uma síntese da dialética erudito/pop, música/artes plásticas, oriente/ocidente. Para Smetak, quando o homem aprendera ouvir os microtons alcançará uma ampliação e aprofundamento de sua espiritualidade.

Ele faleceu em 30 de maio de 1984. Caetano Veloso cantou os versos “Smetak, Smetak e muzak e razão”, no seu Épico. Jorge Amado definiu como “misto de músico e escultor, de filósofo e profeta, uma das figuras mais extraordinárias da arte brasileira”. “Smetak deixou um patrimônio importante para o conjunto do País. Foi um dos maiores responsáveis pela revitalização da vida cultural da Bahia, com seu trabalho de vanguarda, sua aguçada inteligência e extraordinária capacidade criativa. Ele era um mestre de filosofia, de antroposofia, de eubiose, enfim, todas essas coisas. Musicalmente, eu diria que ele inovou a música brasileira com sua ousada plástica musical”, comentou Gilberto Gilda. Em vida, foi chamado de alquimista dos sons. (Muitas dessas informações estão no livro Gente da Bahia, volume 1 que lancei em 1997)
-----------------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras, 28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)