13 novembro 2012

O negro nas histórias em quadrinhos (07)

A questão racial sempre foi um problema nos EUA. No início do século XX a questão racial adquiriu melhor contorno a partir do credo democrático idealizado pelo presidente americano Theodore Roosevelt (governou o país de 1901 a 1909) quando construiu um nacionalismo cívico – baseado na construção de uma masculinidade americana, onde valores não nacionais e não brancos foram caracterizados como fracos ou efeminados.

Após décadas de descontentamento com a situação, os negros estadunidenses reagiram contra a posição de inferioridade e exclusão a que as leis dos brancos os condenavam. A partir da década de 1950 eles se ergueram contra a discriminação e a segregação racial que sofriam em seu país. Foi neste panorama que surgiu o Movimento pelos Direitos Civis. Martin Luther King, Malcolm X (Black Power), Bobby Seale, Huey Newton (Black Panthers) foram nomes importantes.

Nas HQs o negro apareceu como coadjuvantes passageiros em histórias de personagens já estabelecidos ou então atuava como personagens regulares e tinha uma função cômica. Se voltarmos ao tempo, em 1830, o teatro americano de variedades onde alternadamente eram apresentados dança, música, esquetes cômicos e atos variados por atores brancos com a cara pintada de negro. O espetáculo chamado ministrel show tentava personificar de forma caricatural os negros estadunidense. Assim, os negros eram retratados como ignorantes, preguiçosos, superticiosos e musicais. Esse espetáculo sobreviveu até 1910 interpretado por atores profissionais e continuou de forma amadora até 1950.

Esses artistas brancos pintados de preto se tornara muito popular realçando, exagerando ou ridicularizando os estereótipos da população negra. Esse tipo de personagem teve ampla circulação na cultura popular norte americana ao longo do século XIX. O homem negro era um objeto de riso, diminuindo-lhe a masculinidade e a dignidade. Essa caricatura do homem negro continuaria no século XX a partir de outras mídias, como o cinema.

A editora EC Comics (revolucionou os quadrinhos nos anos 50 com suas revistas de terror e ficção científica), publicou duas histórias que focavam de maneira extremamente ousada o tema do racismo nos Estados Unidos. Na história “In Gratitude”, escrita por Al Feldstein, desenhada por Wally Wood (revista Shock SuspenStories #11 de 1953), um veterano da Guerra da Coreia chamado Joe Norris, ao voltar para sua cidade no interior dos EUA, questiona seus conterrâneos pelo fato de eles se recusarem a enterrar um amigo de Norris, que morreu na guerra no cemitério da cidade. Tal enterro é proibido única e exclusivamente porque o amigo de Norris, apesar de também ter defendido o país na Guerra da Coreia, era negro.

A outra história (revista Weird Fantasy #18 de 1953) intitulada “Judgement Day”, com roteiro de Al Feldstein e arte de Joe Orlando, relata a ida de um astronauta terráqueo chamado Tarlton a um planeta chamado Cybrinia. O objetivo de Tarlton é verificar se o tal planeta é socialmente avançado o bastante para entrar na Federação Galáctica da Terra.

Ao chegar em Cybrinia usando um traje espacial que lhe cobre todo o corpo, inclusive o rosto, Tarlton percebe que o planeta é habitado por robôs, que se dividem em duas castas: os laranjas dominam todas as formas de riqueza e os azuis são relegados apenas a serviços braçais.

Tarlton questiona as lideranças laranjas sobre esses fatos e lhe diz que enquanto essa segregação ocorrer em Cybrinia o planeta não estará apto a ingressar na Federação Galáctica, tendo em vista que em nenhum planeta-membro ocorre discriminação. Ao retornar à sua nave, no último quadrinho, o nosso astronauta retira o seu capacete e vemos que Tarlton é um homem negro!

O prêmio que a EC Comics ganhou por tanta ousadia nos temas e pela qualidade revolucionária de suas HQ’s foi uma brutal perseguição executada por “puritanos” preocupados com a “má influência” que os gibis poderiam causar, perseguição essa que praticamente acabou com a editora.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (Barris em frente a Biblioteca Pública) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

12 novembro 2012

O negro nas histórias em quadrinhos (06)

Lothar, criado por Lee Falk para as aventuras de Mandrake em 1934. Lothar possui o mérito de ser o primeiro personagem negro de destaque numa história em quadrinhos norte-americana, antes dele, os poucos negros que apareciam nos quadrinhos eram personagens secundários ou não mais do que meros figurantes. No entanto, nos primeiros anos da tira, Lothar era mais um estereótipo impregnado da visão racista dominante na época: as falas do personagem eram caracterizadas por um inglês truncado, vestia uma túnica feita de pele de leopardo e usava um chapéu turco.

Inicialmente, Lothar era o ajudante e guarda-costas de Mandrake. Antes de conhecer o mágico, Lothar era o príncipe de um conjunto de tribos africanas, mas abdicou do trono para trabalhar para o amigo. Ele abriu mão do trono real para se tornar um mero empregado! Bastante inverossímil! Não é à toa que os quadrinhos de Mandrake tenham sido tachados de racistas e de fazerem uma defesa do imperialismo e do neocolonialismo.

Desde que as tiras de Mandrake passaram a ser desenhadas por Fred Fredericks (1965), as histórias foram aos poucos se tornando mais “politicamente corretas”. A principal razão para isso foi o amadurecimento de grande parte do público, que passou a tolerar menos estereótipos racistas. Assim, embora tenha continuado a ser os “músculos” da dupla (enquanto Mandrake continuou a ser o “cérebro”), Lothar passou a falar de maneira articulada e ganhou um par romântico à altura: Karma, uma bela princesa africana que também segue a carreira de modelo.

Até então, a presença feminina nas tiras se resumia à Narda, uma princesa europeia com quem Mandrake viveu décadas e uma série de belas mulheres (todas brancas ou asiáticas, nenhuma delas negra) que eventualmente flertaram com o mágico.

Antes Mandrake tratava o rei africano com uma cortesia que apenas salientava ainda mais a distância entre o servo e seu amo: atualmente, a relação é de igualdade. De início, Falk parecia abordar com mais frequência o mistério, o fantástico e a aventura.

A década de 50 trouxe a Falk uma certa tendência ao gênero policial. Em fins dos anos 60 e década de 70, os ingredientes da ficção científica já estavam totalmente inseridos na história, com Mandrake visitando outras galáxias e sendo também visitados por seres extraterrenos.

Will Eisner, um dos maiores autores de quadrinhos de todos os tempos, deu ao seu personagem Ebany White traços grotescos e um sotaque sulista recorrentes em várias representações gráficas dos negros americanos, até as primeiras décadas do século XX. Note-se que Ebony era o assistente de Spirit, o herói da série e tinha, portanto um papel de destaque que não era comum se atribuir a um negro. Sobre os críticos que reclamavam do estereótipo, Eisner se defendia dizendo que era assim que eram representados na época e não se concebia proceder de outra forma.

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09 novembro 2012

O negro nas histórias em quadrinhos (05)

Vale lembrar que uma série de álbuns foram lançados visando narrar episódios da história do Brasil sob um novo prisma para resgatar a importância da participação dos negros nesses acontecimentos. São eles: a saga de Zumbi, feita pelo sociólogo Clóvis Moura e ilustrada por Alvaro Moya (1955). O personagem Zumbi foi retomado outra s vezes por diversos artistas como a dupla Krisnas e Allam Alex (2003) e Antonio Cedraz (2009).

Zumbi, a Saga de Palmares tem roteiro de Antonio Krisnas e desenhos de Allan Alex. A ideia do livro é popularizar a história de Zumbi, da escravidão negra no Brasil e do surgimento do quilombo de Palmares, por meio de imagem sequenciada. Nos quadrinhos, Zumbi aparece como um guerreiro musculoso e invencível, ao estilo dos super-heróis. Para o autor do livro, essa caracterização e o dinamismo das cenas de combate desenhadas por Allan Alex deverão atrair principalmente o público jovem, entre 12 e 18 anos, já fã dos quadrinhos.

Em Resistência e Coragem, Xaxado pega carona no redemoinho do Saci e vai parar no ano de 1696, no qual encontra um guerreiro que segue em direção ao Quilombo dos Palmares para lutar ao lado do herói Zumbi. O álbum com os personagens da Turma do Xaxado, série infantil que completa dez anos de criação, teve boa aceitação no mercado.

Ativista dos direitos humanos e dos negros, o cartunista Mauricio Pestana, já tem mais de 30 anos de carreira. Começou no Pasquim, como assistente de Henfil e espalhou seu trabalho por escolas e ONGs publicando livros como Manual de Sobrevivência do Negro no Brasil. Negro ele próprio, vê pouco espaço para as pessoas de pele escura nos meios de comunicação. Ele publicou álbuns sobre a Revolta da Chibata e sobre a Revolta dos Búzios.

Em 2010 o cartunista Mauricio Pestana lançou a cartilha Revolta dos Malês – A saga dos muçulmanos baianos. O objetivo da cartilha, distribuída gratuitamente, é dar subsídios para que seja aplicada a Lei Federal de n.10.639, de 2003 que prevê a inclusão da temática afro brasileira nos currículos escolares. O álbum, Revolta dos Búzios, do quadrinista Mauricio Pestana publicado em 2007 conta a revolta dos alfaiantes da comunidade negra de Salvador.

A Revolta dos Búzios é relatada a história do maior movimento de revolta e rebelião urbana e popular do Brasil Colonial. Uma revolta daqueles que sonhavam com uma república democrática no Brasil com o fim da escravidão e das desigualdades entre brancos e negros. Este projeto da Escola Olodum, braço educacional do Olodum, encabeçou reivindicações de reconhecimento e valorização dos heróis e personagens negros participantes de movimentos e organizações de luta histórica pelo reconhecimento da história e direitos afro-brasileiros: inclusão do nome de personagens/heróis negros desta revolta, como de outros, no Livro dos Heróis, no Panteão da Pátria em Brasília

Em 2008 sai o álbum Chibata, visão quadrinizada da Revolta da Chibata. A quadrinização das divindades do candomblé na revista Orixas é um trabalho de Alex Mir e Caio Majedo.

o álbum Chibata! (Conrad Editora) traz a envolvente história da dupla cearense Olinto Gadelha (roteiro) e Hemeterio (arte), toda em preto e branco. O leitor é convidado a reviver os dias de tensão na baía de Guanabara e o drama que acompanhou João Cândido até sua morte, em 1969, aos 89 anos de idade. O traço ora caricatural ora artístico encontra berço no uso inteligente do contraste e do enquadramento cinematográfico com uma grande riqueza de detalhes.

São trabalhos que demonstram que a presença do negro nos quadrinhos brasileiros já ganha novos contornos.

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08 novembro 2012

O negro nas histórias em quadrinhos (04)

O quadrinista Laerte criou uma série com uma protagonista negra: Suriá, a Menina do Circo, criada para o suplemento infantil do jornal Folha de S.Paulo entre 1997 e 1998. Narra as aventuras de uma trapezista mirim às voltas com animais, reais e de fantasia, em seu cotidiano de circo.

Os pais de Suriá são malabaristas e a filha, que nasceu e vive dentro de um circo, também segue o mesmo caminho. Como a companhia está sempre em movimento, se apresentando em várias cidades, Suriá vive trocando de amigos e a convivência com os artistas e os animais do circo acaba sendo muito intensa.

Da mesma graça de cartunistas de Laerte, Angeli criou a adolescente negra Tantra, as voltas com conflitos emocionais dessa fase da vida mas não reflete questões de etnia ou preconceitos. Luke e Tantra são ligadas em som e retratam um universo de adolescentes da classe média paulistana. Uma delas é alta, magra e não tem bunda nem peito; a outra é bunduda e peituda, mas muito baixinha. Criaram uma webcam, em que jogam suas intimidades na rede e são vistas por gente dos quatro cantos do mundo.

Já a dupla Black Little Skots são dois rapazes negros que criam, propositalmente, situações em que o racismo e os estereótipos são explorados de forma provocativa.

No ano 2000 surge a menina Luana, criada por iniciativa de Aroldo Macedo, um dos criadores da revista Raça,voltado ao público negro. A personagem venceu como projeto voltado para crianças negras com intenção de lhes elevar a autoestima e combater o preconceito.

Garota simpática e ativa, Luana é praticante de capoeira, líder de uma turma de crianças que entre uma aventura e outra aborda temas da cultura afro brasileira. As histórias são roteirizadas por Dejair da Mata e desenhadas por Mingo de Souza.

No final de 2008 o baiano Flávio Luiz lança o álbum Au, o Capoeirista tendo um negro como protagonista. Humor e aventura de forma bem equilibrada, aborda vários elementos da cidade de Salvador como música e culinária. Exímio lutador, Au vale-se de sua astucia e inteligencia para solucionar os problemas. A história, ambientada em Salvador, é repleta de aventura, humor, consciência ecológica e mostra o cotidiano do capoeirista mirim Aú e seu inseparável amigo, o macaquinho Licuri.

O adolescente investiga o desaparecimento de uma garota francesa sequestrada no Pelourinho ao presenciar o início de um incêndio. A investigação do capoeirista Au o leva à ilha particular do misterioso Armando Confuzionni. A partir daí o leitor vai encontrar muita ação pelas ladeiras do Pelô e outros pontos da cidade, além de uma eletrizante perseguição de jetskis nas águas da Baía de Todos os Santos.
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07 novembro 2012

O negro nas histórias em quadrinhos (03)

Na Turma da Mônica, de Maurício de Sousa tem Jeremias cuja participação nas aventuras são raras. Jeremias, com seu eterno bonezinho, brinca, briga e às vezes corre da Mônica. Como todo mundo da rua. Tem ainda o Pelezinho e Ronaldinho Gaucho. Os dois últimos tiveram revista própria por serem celebridades esportivas. Pelezinho foi criado em 1976 para publicação em tiras diárias nos jornais. Vieram também produtos de merchandising e em 77 a revista Pelezinho, lançada pela Editora Abril. Circulou até 1982. Ronaldinho chegou aos quadrinhos em 2006.

Nos seus 25 anos de carreira, Henfil trabalhou nos mais importantes jornais do país e criou cerca de 30 personagens. Nesse rol estão Preto-que-ri, um negro que jamais se ofendia com as piadas e denunciava o racismo. Provocativo, sarcástico e contundente, mas talentoso e sincero, Henfil criou Preto que ri onde explorou o racismo, algo que, em tese não existia entre os brasileiros, mas que se revelava nos pequenos detalhes e nas sutilezas dos relacionamentos.

Com seus traços básicos, seu riso fácil, a pequena Graúna se sobrepõe em sua obra, uma figura feminina leve e fina, mas de forte presença; contrapondo-se ao corpulento e ingênuo Zeferino ou ao intelectualizado e cínico Orelana, numa trindade de excepcional apelo cômico. Nota-se facilmente que a Graúna é a personagem mais humana de Henfil. Graúna era uma espécie de voz ajuizada do grupo, e seu desenho era feito de forma simples e ligeira, traço econômico característico de seu autor: a avezinha mais parecia um ponto de exclamação, do qual saíam duas perninhas e os grandes olhos.

Nordestina típica e estereotipada, Graúna vivia com fome, além de sempre criticar o "Sul Maravilha" com questionamentos políticos que seus companheiros nunca sabiam responder. Se não era alienada, Graúna entretanto estava tão envolvida em seus próprios problemas (como chocar os ovos), que não tinha como levar a termo suas revoltas. Fazendo contraponto à ironia do bode Francisco Orelana, era sem dúvida o desenho mais marcante do cartunista, morto em 1988.

Dono de um cemitério atípico, o Cabôco Mamadô só enterrava pessoas que estavam vivas. Henfil utilizava-se dele para criticar pessoas que, segundo seu entendimento, haviam colaborado dealguma forma com a ditadura.

Também para denunciar uma condição social de exclusão, Edgar Vasques criou em 1970 a série Rango, um miserável que vivia no lixo e tinha como companheiros de infortúnio um garoto negro e um personagem sul americano. As tiras de Rango exploravam as mazelas da população menos favorecida e atacava os responsáveis pela condução da economia do País, que vivia sob uma forte ditadura militar.

Criada no bojo da ditadura e da censura à imprensa, é uma das tiras mais duradouras do humor brasileiro. “Duradoura como a miséria e a fome, meus primeiros assuntos”, informa Vasques. Quinze livros depois, com publicações na França, México e Dinamarca, Rango trata de tudo: corrupção, costumes, ecologia , política, economia etc. Boia fria, sempre mal digerido pela grande mídia, Rango itinerou pelas mais variadas publicações inteligentes, e atualmente aparece no mensário Extra Classe, de Porto Alegre.

Em 1996 o cartunista e escritor baiano Luis Augusto Gouveia começou a publicar suas tiras diárias Fala Menino! no jornal A Tarde. Winnie, Martin, Guiga, Edinho, Diogo fazem parte da tirinha Fala Menino!. Os personagens possuem necessidades especiais, mas os traços de Luis Augusto não caem no arquétipo da cartilha contra o preconceito. Mesmo com limitações físicas, as crianças não permitem que isso impeçam de realizar as ações típicas da infância como as brincadeiras, as paqueras, os sonhos. Tudo isso com uma dose de humor e otimismo. Uma turminha que tem que lidar com os dilemas da infância, dialogando com o mundo dos adultos de um jeito muito especial. Winnie e Martin são filhos de diplomata, conhecem o mundo todo e tem tudo que o dinheiro pode comprar), totalmente independentemente da cor de suas peles.

Winnie, na definição do autor, com apenas seis anos, é uma lutadora pela liberdade de (sua) expressão. Seria bastante socialista se não fosse tão egocentrista. Mas, o fato é que a Winnie nasceu pra reclamar. Martin, o “ce-dê-efe”, filho de um importante diplomata e já morou em vários lugares do mundo, por isso aprendeu a falar diversos idiomas. Saca tudo de informática e Internet. Guiga, o irmão adotivo do Rafael é conciliador e tranquilão, joga capoeira e futebol.

Ao colocar luz sobre a infância e juventude da garotada, Luis Augusto desmistifica e dá dignidade ao personagem. Em termos de inclusão e exclusão, Augusto mostra como as crianças ouvem o som do mundo, sente os perfumes, o calor do toque, do abraço amigo e sugere a inclusão, onde todos se tratam de igual para igual. Se seus personagens possuem limitação visual e/ou auditiva, são crianças felizes e com capacidade de sentir o mundo. O objetivo é falar sobre diferenças e deficiências. As crianças não nascem com preconceito, mas vão adquirindo no decorrer da vida, então o artista trabalhar na infância para ter uma sociedade melhor.

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06 novembro 2012

O negro nas histórias em quadrinhos (02)

No Brasil a escassez de personagens negros é lamentável. Podemos citar Benjamin (Luis Loureiro), Lamparina (J. Carlos), Azeitona (Luis Sá), Pererê (Ziraldo), Preto que ri (Henfil) e alguns outros. No estudo do pesquisador Nobu Chinen na Universidade de São Paulo, a primeira aparição de um negro nos quadrinhos brasileiros foi em As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, criado pelo ítalo brasileiro Ângelo Agostini em 1869, Logo na primeira vinheta aparece um personagem negro, o Benedito.

Gibi, etimologicamente, significa menino negro. É também o mascote que batizou uma publicação que fez sucesso na editora Globo e se tornou sinônimo de revista em quadrinhos, É bom não confundir esse Gibi com o Giby, o primeiro personagem negro do quadrinho brasileiro criado por J.Carlos em 1907.

Gibi, criado por J. Carlos em 1907 para a revista O Tico Tico é o primeiro personagem negro dos quadrinhos brasileiros. Ele era o criado na casa de Juquinha, personagem principal da série. A revista O Tico Tico, desde o seu primeiro número de 11 de outubro de 1905, publicava as aventuras de Chiquinho e seu cão Jagunço, em histórias decalcadas por ilustradores brasileiros das páginas do personagem americano Buster Brown e o cachorro Tige, criado por Richard Felton Outcault, em 1902 para o jornal The New York Herald.

Luis Loureiro, um dos artistas responsáveis por recriar os desenhos, criou um novo personagem para acompanhar Chiquinho: Benjamin (1915), que se destaca como o primeiro negros dos quadrinhos a fazer sucesso entre o público leitor. Benjamin, que estreou em 1915, era um moleque negro inspirado num criado da casa de Loureiro. Nas palavras do próprio autor, em entrevista concedida à Revista da Semana, em 31 de março de 1945, o terrível infante tinha os plano mais demolidores para as molecagens da turma, o que levava Chiquinho a temer que as ideias do negrinho dessem na clássica surra de escova com que o pai coroava sempre as suas aventuras.

Levei para os quadrinhos um Benjamin que morou na minha casa durante muito tempo. Era um pretinho muito vivo, de seus oito anos, que trabalhava como menino de recado. Benjamin estava sempre dando palpites sobre as aventuras de Chiquinho. E que costumava dar palpites na vida do Chiquinho. E eu doido para botar o Benjamin na história. Um dia, botei”, conta o desenhista Luis Gomes Loureiro.

As aventuras de Chiquinho transcorriam em ambiente doméstico. Nunca o personagem teve o comportamento de seu inspirador americano, Richard Felton Outcault, que era ácido, crítico e contestador. Chiquinho era criança bastante ingênua, como ingênuo era o Rio de seu tempo. Suas aventuras eram, na verdade, travessuras, como foram as de seu próprio desenhista, Loureiro. Tanto Gibi quanto Benjamin seguiu o padrão estereotipado da época com olhos saltados e lábios grossos.

Em 1931, Luis criou o trio de amigos Reco Reco, Bolão e Azeitona. Publicados durante 30 anos na revista O Tico Tico, Azeitona carrega nos traços lábios grossos, olhos saltados, nariz grande e largo. Mas seus dois companheiros Reco Reco e Bolão não mereceram tratamento melhor. Um é gordo e o outro, magrelo com esparsos fios de cabelo, com seu inconfundível traço sinuoso. O talentoso artista cearense destacou-se pela originalidade de seu traço e pela graciosidade de suas criaturas. Além de publicar inúmeras ilustrações e desenhar capas para O Tico-Tico, criou outros personagens, como o papagaio Faísca, o detetive Pinga-Fogo e a negrinha Maria Fumaça. O professor Waldomiro Vergueiro lembrou muito bem queos personagens de Luis foram também muito utilizados em publicidade; aqueles que viveram sua infância durante a década de 60 podem provavelmente lembrar-se desses personagens em figurinhas que envolviam os chicletes.

Lamparina é outro personagem negro que teve origem nas páginas d´O Tico Tico, criado em 1928 por J. Carlos. Personagem cômico-infantil, Lamparina surgiu anônima e como mera figurante, na série “O grande vôo do Bahu”. Lamparina, que muitos pensam ser um garoto, é na verdade uma menina impúbere de cerca de 10 anos que, vinda de uma ilha distante, integra-se oficialmente ao elenco de O Tico-Tico em 25 de abril de 1928. A concepção nos dias de hoje seria inadmissível. Lamparina, por exemplo, "contava as travessuras de uma negrinha do morro, sempre pregando peça nos adultos. Trabalhava numa linha muito firme, que era a característica do trabalho de J. Carlos. Lamparina é um dos pontos altos do quadrinho brasileiro" (Cavalcanti, 1977).

Jerônimo, o Herói do Sertão foi o nome de uma radionovela brasileira de bastante sucesso e que recebeu adaptações para a televisão, cinema e histórias em quadrinhos. Criada em 1953 por Moysés Weltman para a Rádio Nacional, bastante influenciada pelo faroeste americano, a radionovela ficou 14 anos no ar. Em 1957, Jerônimo ganhou uma revista em quadrinhos pela Rio Gráfica Editora escrita pelo próprio Moysés Weltman e desenhada por artistas como Edmundo Rodrigues e Flavio Colin. Foram 92 gibis mensais e cinco almanaques especiais. O personagem era auxiliado pelo Moleque Saci. O estereótipo antigo do negrinho gente boa, valente e engraçado como ele só.

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05 novembro 2012

O negro nas histórias em quadrinhos (01)

De 1º de fevereiro de 2013 até 1º de março de 2014 os afro americanos no mundo dos quadrinhos e o impacto da sua excelência criativo serão mostrados na exposição Milestones: African Americans in Comics, Pop Culture and Beyond no Geppi´s Entertainment Museum (GEM), sob a curadoria de Michael Davis, co-fundador do Milestone Media. A editora Milestone surgiu na década de 1990 com a proposta de lançar revistas de personagens negros e latinos.

Com um foco significativo sobre os criadores negros e sua arte, a exposição reunirá peritos, ensaístas, cineastas e criadores de dentro e fora do mundo dos quadrinhos para explorar os sucessos, fracassos e expectativas para o futuro deste componente vital da indústria do entretenimento norte-americana.

“Essa exposição trará provas irrefutáveis da profunda contribuição dos afro-americanos para os quadrinhos e do papel vital que super-heróis negros tem desempenhado na formação de sua narrativa “, disse Axel Alonso, editor-chefe da Marvel Comics.

“Se os quadrinhos são a mitologia moderna, então a participação e representação negra é crucial. Essa exposição irá documentar esses sonhos em papel ao longo dos anos”, disse o cineasta e escritor de histórias em quadrinhos Reggie Hudlin.

Os negros em suas primeiras aparições nos quadrinhos ou eram coadjuvantes passageiros ou atuavam como personagens fixos e humorísticos. Mas sempre representados de forma estereotipada.

LATINOS - A presença de personagens negros nos quadrinhos latino americanos é pouco representativa. Na Argentina dois personagens merecem destaque. O Negro Raúl, de Arturo Lantieri, criado em 1916, é uma espécie de malandro que vive querendo se dar bem, mas no final sempre leva a pior, numa critica do autor à própria sociedade da época.

Fulú, de Carlos Trillo e Eduardo Risso, é uma escrava de extrema beleza e sensualidade, sempre castigada por provocar o desejo dos homens e o ciúme dos senhores brancos. A série se passa no Brasil, para onde Fulú foi trazida após ser capturada na África e faz referência ao Quilombo dos Palmares. Outros personagens negros nos quadrinhos argentinos são estereotipados, subalternos e de pouca relevância nas tramas.

O personagem mais popular do México é Memín Pinguín, criado na década de 1940 por Alberto Cabrera. Pinguín era um personagem secundário até 1963, quando foi lançada a revista com o mesmo nome do personagem, reformulado sob os traços de Sixto Valência e que fez grande sucesso. Em 2005 o serviço do correio mexicano homenageou o personagem estampando-o em uma série de selos.

Os selos foram criticados pelo governo dos EUA provocando uma declaração do presidente George W.Bush que considerava o personagem extremamente estereotipado e, em tempos politicamente corretos, absurdamente ofensivo. Os mexicanos (cuja população negra tem representatividade mínima) tiveram de responder que se tratava de um personagem de grande sucesso, querido pelo público e que, ao contrário das acusações, era um exemplo de herói de ficção e que a reação se devia a um desconhecimento das peculiaridades e gostos da população mexicana e, portanto, um desrespeito à sua cultura.
O Brasil se originou da colonização portuguesa de caráter escravocrata. Foi o último no mundo a abolir a escravidão dos africanos e seus descendentes. O fenômeno do racismo e a instituição da escravidão deixaram marcas na nação brasileira que persistem até nossos tempos. A população fenotipicamente escura apresenta os piores índices de desenvolvimento social quando comparadas com a população de pele branca.

Os negros sofrem cotidianamente um processo de discriminação que tem como base uma ideologia que relaciona fatores biológicos com aspectos morais que os inferiorizam enquanto grupo social. Por causa de todo o processo discriminatório, os negros apresentam a sua identidade social deteriorada. A ideologia da negritude é a contrapartida dos negros organizados para combater o racismo.

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