13 abril 2012

Música & Poesia para alimentar o dia

A moeda de um lado só (Paulinho Moska)


Vem, vamos a lugar nenhum

Deixemos nossas roupas no chão

Esqueçamos nossos nomes e nossa prisão


Sim, aceitei entrar no teu mar

Sem saber onde as ondas vão dar

Navegar só se for por paixão


Ainda não encontrei a moeda de um lado só

Que me pedistes como prova de amor

Duvidando de minhas canções


Sim, prometo sempre o impossível

Pois não quero te dar algo que já conheças

E antes que me esqueças

Escrevo pra dizer que esperes por mim

Por mim, por mim, por mimmmmm, por mim


Ainda não encontrei a moeda de um lado só

Que me pedistes como prova de amor

Duvidando de minhas canções


Sim, prometo sempre o impossível

Pois não quero te dar algo que já conheças

E antes que me esqueças

Escrevo pra dizer que esperes por mim

Por mim, por mim, por mimmmmm, por mim



Um contra o outro (Deolinda)


Anda, desliga o cabo,

que liga a vida, a esse jogo,

joga comigo, um jogo novo,

com duas vidas, um contra o outro.


Já não basta,

esta luta contra o tempo,

este tempo que perdemos,

a tentar vencer alguém.


Ao fim ao cabo,

o que é dado como um ganho,

vai-se a ver desperdiçamos,

sem nada dar a ninguém.


Anda, faz uma pausa,

encosta o carro,

sai da corrida,

larga essa guerra,

que a tua meta,

está deste lado,

da tua vida.


Muda de nível,

sai do estado invisível,

põe o modo compatível,

com a minha condição,

que a tua vida,

é real e repetida,

dá-te mais que o impossível,

se me deres a tua mão.


Sai de casa e vem comigo para a rua,

vem, q'essa vida que tens,

por mais vidas que tu ganhes,

é a tua que,

mais perde se não vens.


Sai de casa e vem comigo para a rua,

vem, q'essa vida que tens,

por mais vidas que tu ganhes,

é a tua que,

mais perde se não vens.


Anda, mostra o que vales,

tu nesse jogo,

vales tão pouco,

troca de vício,

por outro novo,

que o desafio,

é corpo a corpo.


Escolhe a arma,

a estratégia que não falhe,

o lado forte da batalha,

põe no máximo o poder.


Dou-te a vantagem, tu com tudo, eu sem nada,

que mesmo assim, desarmada, vou-te ensinar a perder.


Sai de casa e vem comigo para a rua,

vem, q'essa vida que tens,

por mais vidas que tu ganhes,

é a tua que,

mais perde se não vens.


Sai de casa e vem comigo para a rua,

vem, q'essa vida que tens,

por mais vidas que tu ganhes,

é a tua que,

mais perde se não vens.


Sai de casa e vem comigo para a rua,

vem, q'essa vida que tens,

por mais vidas que tu ganhes,

é a tua que,

mais perde se não vens.


Sai de casa e vem comigo para a rua,

vem, q'essa vida que tens,

por mais vidas que tu ganhes,

é a tua que,

mais perde se não vens.


Sai de casa e vem comigo para a rua,

vem, q'essa vida que tens,

por mais vidas que tu ganhes,

é a tua que,

mais perde se não vens.




Eu´s porões (Jorge Papapá)


Carrego muitos segredos

desde a ponta dos dedos

à mais profunda emoção

... Nem o meu insuspeito coração

conhece bem os meus temores

nem o motivo das minhas dores

são verdadeiras paixões.

Acontece que os vulcões

que trago no corpo aflito

são os olhos, são os gritos

de um prisioneiro milenar.

Desde muito pequenino

até quando fiquei moço

agora já velho ainda ouço

esse imenso borbulhar.

São pegadas do destino

que passeiam no meu peito

e os meus olhos não tem jeito

de como fotografar.

Fato é que eu só sei andar

da boca do poço pra fora

mas aos meus porões por hora

eu não sei como chegar.

--------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

12 abril 2012

Monteiro Lobato e o mundo infantil (3)

NOVO MUNDO


A indústria editorial brasileira sempre optou por histórias de origem europeia, mais próximas da origem cultural dos editores quanto das elites. Esse predomínio estende-se ao longo da colônia e do império. Chegou porém o momento, já para o fim da chamada República Velha, em que a acumulação de capital proporcionada pela fase de ouro o café, juntamente com o espírito nacionalista em formação, criou as condições para uma obra revolucionária: a de Monteiro Lobato.


Foi Lobato quem, pela primeira vez, criou não apenas uma história, mas todo um mundo: o Sítio do Picapau Amarelo, povoado por criaturas cheias de verdades e fantasias. Ele construiu sua obra infantil nas décadas de 20 e 30.


Nas décadas de 70 e 80, se desenharia um novo quadro, com o importante apoio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Essa instituição incentivou novos autores brasileiros, pesquisou a bibliografia brasileira existente, instituiu concursos e prêmios, promoveu programas de intercâmbio e treinamento e divulgou no Brasil o melhor da literatura infantil estrangeira.


É a época de Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Ziraldo, Sylvia Orthof, Ligia Bojunga Nunes, Joel Rufino dos Santos, Wander Pirolli e tantos outros. Como Monteiro Lobato, esses autores e outros mais estão mostrando através do seu fazer literário que escrever para crianças pode ser uma ótima aventura, pode levar ao aprofundamento das questões humanas.


Após o sucesso comercial e literário de Urupês, Monteiro Lobato empenhou-se para tornar realidade um antigo projeto: editar. Com o espírito pioneiro que o acompanharia até os últimos dias, enfrentou o problema do livro de maneira diferente e inovou. Para o editor Monteiro Lobato, o livro era uma mercadoria como outra, como um alimento, uma roupa, e sua comercialização deveria ser estendida a todos os lugares para que o livro fosse um bem acessível a todos.

Lobato procurou uma fisionomia gráfica própria para os livros, diferenciando-os dos modelos franceses e portugueses, valorizando os capistas e desenhistas nacionais. Ele pôs ao alcance do grande público, a preços acessíveis, um certo requinte que somente era encontrado em edições restritas. Como ótimo editor, ele tinha enorme talento publicitário. Mas a crise de energia elétrica resultante da inesperada seca que assolou São Paulo, a partir do final de 1924, acarretou a falência da próspera editora, que não estava estruturada para suportar os riscos do seu pioneirismo.


Monteiro Lobato foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional e, por sua contribuição revolucionária à indústria e comércio do livro, ocupa hoje o seu nome o lugar de patrono, sendo o Dia Nacional do Livro Infantil ligado à sua memória. É, por outro lado, dos escritores de maior venda no Brasil. A criança foi a causa maior de Lobato.


No fim da vida, arrependeu-se de não ter escrito mais para elas, como pretendia no dia em que escrevera ao amigo Godofredo Rangel: “Ando com ideias de entrar por esse caminho: livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para as crianças, um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoé. Ainda acabo fazendo livro onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim, morar como morei no Robinson e no Os Filhos do Capitão Grant”. Em seus livros, Lobato dialogou com as crianças.


-----------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

11 abril 2012

Monteiro Lobato e o mundo infantil (2)

A obra mais importante de Monteiro Lobato, porém, foi a série de histórias que escreveu para crianças, iniciada com a publicação de “Reinações de Narizinho”, em 1921. Antes dessa publicação, não existiam nos livros para crianças, escritos no Brasil, características da obra literária. Pioneiro do abrasileiramento da linguagem, criticava abertamente as traduções portuguesas então correntes no Brasil. Além de tornar a linguagem mais coloquial e, portanto, mais acessível às crianças, ousou criar neologismos, fazer inúmeros jogos de palavras, sem duvidar da capacidade de reflexão de seus pequenos leitores.


Ele foi o primeiro escritor a tratar a literatura infanto-juvenil com seriedade. Seus livros não são apenas divertidos. Eles procuram informar e educar os jovens leitores. Outra novidade foi a discussão de temas políticos e sociais que empolgavam o mundo naquele tempo e a valorização da cultura popular, uma das vertentes do modernismo a qual ele antecipou.


Ao lado dessas inovações, está o fato de que Monteiro Lobato criou um mundo mágico. Nele, reina o faz-de-conta, através do qual convivem personagens do mundo real, ou seja, os habitantes do Sítio do Picapau Amarelo, e todos os heróis do mundo das maravilhas, renovados por seu talento. Seus personagens apresentados em Reinações de Narizinho e protagonistas alternados de todos os 23 títulos que compõe sua obra são marcos na literatura brasileira.


Tia Nastácia é a ama negra comum nas fazendas brasileiras do princípio do século. Inculta e boníssima, dá vida com suas mãos aos dois mais originais personagens da obra lobatiana, Emília e Visconde. Boneca que se transforma aos poucos em gente, Emília é a própria juventude de espírito e é através dela que o autor manifesta suas ideias mais polêmicas. Visconde, um sabugo de milho de cartola, é uma crítica viva à nobreza e ao saber “bolorento”.


Dona Benta é a avó ideal. Culta como poucas, é aberta a todas as novidades vividas pelos netos. É quem forma e informa, dando lições de coisas e de comportamento. Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, e Pedrinho, seu primo e companheiro de aventuras, são bons exemplos da infância sadia de todos os tempos. Alegres, criativos, honestos, corajosos e amigos, têm as virtudes das crianças felizes. Ávidas de conhecimento e de aventuras, descobrem o mundo através da palavra de Dona Benta, do afeto da tia Nastácia e principalmente de sua própria experiência, que re-elabora as informações recebidas nesse universo idealizado.


Monteiro Lobato foi um homem comprometido com o seu tempo, absolutamente consciente do momento histórico em que viveu. Jogando com personagens tão predominantemente o mundo da fantasia, questiona todo o tempo a realidade. Usa o maravilhoso para romper as estruturas estratificadas do real e levar a criança, em que via a única esperança da humanidade, à busca de novas soluções.


Com Lobato, os pequenos leitores adquirem consciência crítica e conhecimento de inúmeros problemas concretos do País e da humanidade em geral. Ele desmistifica a moral tradicional e prega a verdade individual: instaura portanto a liberdade. “O segredo é um só, liberdade”. Tornou-se o escritor de literatura infantil mais lido em português e espanhol. A saga termina com Os 12 Trabalhos de Hércules: 39 histórias (sendo 32 originais e sete adaptações), cerca de 500 páginas, um milhão de exemplares vendidos.


Criou o universo do Picapau Amarelo em que milhões de crianças passaram a viver na imaginação. Comprometido com o homem brasileiro, amado pelas crianças, incompreendido por muitos, foi uma consciência dividida entre as exigências de seu povo e a atualização dos modelos literários.

----------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

10 abril 2012

Monteiro Lobato e o mundo infantil (1)

No dia 18 de abril de 1882, José Bento Monteiro Lobato (1882/1948) completa 130 anos de nascimento. Escritor respeitado por seus contos e pelo romance “Urupês”, Lobato é antes de tudo amado pelas crianças brasileiras como seu maior e mais conhecido autor. Por escolha, já que se desencantara dos adultos, decidiu-se a escrever só para crianças e, com o Sítio do Picapau Amarelo, criou um universo próprio, um mundo de encantamento que vai tomando forma ao longo dos numerosos títulos que compõem sua vasta obra.

Na história da literatura brasileira e, em especial, da literatura infantil, cabe a Monteiro Lobato posição de relevo. Ele abriu um caminho, criou uma série de tipos no cenário da história infantil e trabalhou de modo pessoal e original nesse campo, desvendando uma trilha nova.


E é sempre tempo de ler e conhecer Lobato. Aquele que não o conhece ainda, faça uma visita à Biblioteca Monteiro Lobato (no bairro de Nazaré) onde o visitante poderá ler textos informativos sobre a vida e obra do autor de Narizinho Arrebitado. 18 de abril é o Dia Nacional do Livro Infantil e, apesar do aumento da produção de autores brasileiros para crianças e jovens, principalmente a partir da década de 70, a figura de Monteiro Lobato continua a ter lugar de destaque.


Trata-se do mais importante escritor do gênero infanto-juvenil, não apenas porque produziu uma obra ampla e coerente, como porque criou um riquíssimo universo ficcional que influenciou as gerações seguintes.


Em toda a sua obra, Lobato revela-se, principalmente, um escritor preocupado com a natureza: um ecologista, numa época em que o termo nem era conhecido. Sua defesa do verde nacional teve início em 1914e continua mais atual do que nunca. Passados 93 anos, os protestos do escritor contra as queimadas em sítios e fazendas, a que nomeou “uma velha praga”, identificam-se com a emergente preocupação ecológica de nossos dias.


Defendeu o binômio saúde-educação como único caminho para a recuperação do caipira. Depois, uma passagem pelos Estados Unidos o convenceu de que os alicerces da prosperidade econômica eram o ferro e o petróleo. A partir daí, iniciou violentas críticas ao governo brasileiro que acabaram por levá-lo à prisão durante a ditadura de Getúlio Vargas.


CARREIRA

Monteiro Lobato nasceu em 1882, numa fazenda de Taubaté, Estado de São Paulo. Em 1904, formou-se em Direito, chegando a se tornar promotor público, cargo que abandonou em 1911 para administrar a fazenda que herdara do avô. Sua carreira literária começou em 1918 com um artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo. Nesse artigo “Urupês”, Lobato lançou um dos mais famosos personagens da literatura brasileira: Jeca Tatu, símbolo do caipira brasileiro e que serviria de ponto de partida para as críticas do autor o subdesenvolvimento do país e à inércia das autoridades.


Fazendeiro, escritor, pintor, editor, bacharel, homem público, misto de conservador e revolucionário, 125 anos depois e seu nascimento, continuam indefinidos os contornos da vasta, variada, polêmica e quase sempre esplêndida obra de Lobato. Homem de ação, reflexão e criação. Procurou petróleo, lutou por ele – antes da Petrobrás virar realidade.


Foi perseguido. Lutou pelo saneamento rural, pela indústria do aço, pela reforma ortográfica. Foi perseguido – por políticos e politiqueiros, por gramáticos e gramatiqueiros, e pela ditadura. A defesa da tese da existência do petróleo do País foi uma luta pelo qual passou seis meses na prisão, em 1941.

----------------------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

09 abril 2012

Francisco Guarany, escultor baiano

Um dos maiores e mais destacados escultores de carrancas do São Francisco, Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany é um nome que soa familiar pelas margens, afluentes, cidades e, principalmente, barcaças do São Francisco por suas famosas carrancas. Nascido no município de Santa Maria da Vitória no dia 02 de abril de 1882, Guarany foi um escultor primitivo de carrancas (figuras de proa das “barcas” que navegavam no Rio São Francisco até a década de 1950, com sua original tipologia ao antropomorfa), que mais produziu dos 19 aos 97 anos de idade.


Essas carrancas constituem a mais importante manifestação coletiva da arte popular brasileira. São assuntos de extrema importância na história da cultura brasileira. Guarany sempre trabalhou sozinho, como marceneiro e carpinteiro. Por ser esse serviço escasso em Santa Maria, Guarany fazia de tudo: barris para transporte de água, dornas para guardar cachaça, móveis, madeiramento para telhados, etc. Ficou famoso pela produção de carrancas.

TRABALHO - Carranca é uma escultura de madeira que foi muito usada na proa das embarcações que navegavam no Rio São Francisco. Por ser muito feia, acreditava-se que ela espantava os maus espíritos. O vigor de sua escultura primitiva, marcado pelo fantástico, resulta de sua autenticidade. Ele criava uma fantasia em torno de muitas de suas carrancas, como a querer dar-lhes vida. Impregnou-se de sua funcionalidade e criou o seu estilo. O elemento plástico mais característico à sua escultura é o tratamento que dispensa à cabeleira das carrancas, espessa ou em relevo acentuado. A grandeza de Guarany está na uniformidade do seu trabalho.


Todas as suas peças apresentam um perfeito apuro técnico. De suas mãos e imaginação nasceram quase a totalidade das carrancas que durante anos enfeitaram as embarcações san franciscanas, cumprindo a misteriosa missão de afastar as “feras do mal”, e que hoje, recolhidas em ricas coleções e museus, são signos vivos de uma arte singular.

ORIGEM - Segundo Guarany, seu bisavô, José Dy Lafuente, espanhol de Barcelona, era um jesuíta ou frade de um convento em Salvador, de onde teve que fugir por ocasião de uma revolução, ou talvez da perseguição que Pombal moveu aos jesuítas. Ocultou-se então na casa de uma negra africana de Moçambique - Biquiba - com quem se uniu e refugiou-se no interior da Bahia, indo para Capim Grosso, atualmente Curaçá, às margens do São Francisco, próximo a Juazeiro, onde se tornou professor. Daquela união nasceu Plácido Biquiba Dy Lafuente que, recrutado aos 16 anos e transferido para Salvador, ali participou da Sabinada, obtendo o posto de Alferes sendo destacado para Juazeiro.


O mais velho dos filhos de Plácido e Maria foi Cornélio Biquiba Dy Lafuente, que se casou aos 21 anos, cerca de 1865 (evitando o recrutamento dos solteiros para a guerra do Paraguai), com Marcelina do Espírito Santo, neta de uma índia de Paraguaçu mudando-se de Barra, onde trabalhava com Cirillo Cavalcante, construindo barcas, para Porto, hoje Santa Maria da Vitória, ali continuando com a mesma profissão. Francisco, último dos seis filhos de Cornélio, foi apelidado de Guarany, por ser bisneto de índia. Passou então a assinar Francisco Biquiba Guarany ou Francisco Guarany, sendo conhecido por todos como Guarany.

RECONHECIMENTO - Em 1968, recebeu o diploma de membro correspondente da Academia Brasileira de Belas Artes. Esculpiu carrancas até fins de 1979. Em 1972, foi convidado para proferir palestra em uma Faculdade de Economia de São Paulo, sobre o São Francisco e as carrancas, o que lhe deu grande prazer, pois muito se orgulhava de suas esculturas, especialmente das que fez por encomenda para o exterior e encontradas em vários museus.


Morreu aos 103 anos, em Santa Maria da Vitória, no dia 05 de maio de 1985, como o maior escultor primitivo brasileiro de todos os tempos. Com suas carrancas foi reconhecido pela imprensa de Paris, onde o Comité Internacional pour l' Étude des Figures de Proue - órgão sob o patrocínio da UNESCO, solicitou uma exposição de carrancas para inauguração do Museu Flutuante. O fato consagrou as carrancas internacionalmente. Confirmada pela carta da Presidente do Comité, Liliane Bedel, enviada a Guarany, felicitando-o pela realização da Exposição "Guarany - 80 anos de Carrancas". No município onde ele nasceu, Santa Maria da Vitória, existe o Memorial Francisco Guarany que reúne artistas emergentes e funciona como escola de arte


------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

04 abril 2012

Florisvaldo Mattos: 80 anos

O escritor, poeta e jornalista Florisvaldo Mattos completa 80 anos no dia 08 de abril. O texto a seguir está no meu livro Gente da Bahia, volume dois: Nasceu em Uruçuca, antiga Água Preta do Mocambo, em 08 de abril de 1932 (há 80 anos), onde aprendeu as primeiras letras e completou o curso primário no Grupo Escolar Carneiro Ribeiro. Mudando-se com a família para Itabuna, aí cursou o secundário no Ginásio da Divina Providência. Iniciado em Ilhéus, conclui o curso colegial no Colégio da Bahia, em Salvador, onde se diplomou pela Faculdade de Direito da então Universidade da Bahia, em 1858, quando ingressa no jornalismo, como integrante da equipe fundadora do Jornal da Bahia. Passou depois ao Diário de Notícias, da cadeia dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, em ambos inicialmente como extensão da militância cultural de uma parcela do grupo nuclear da chamada Geração Mapa, que girava em torno da revista Mapa, com Glauber Rocha, João Carlos Teixeira Gomes, Paulo Gil Soares, Fernando Rocha, Antônio Guerra Lima e outros que optaram pelo jornalismo. “Sou personagem de palco e platéia do grande momento que foi a marcha da Universidade da Bahia para sua firmação e consolidação, nos anos 50, desenvolvendo e criando escolas, principalmente as escolas de arte. Por este caminho estrelado é que fui me encontrando com o pessoal que logo se afirmaria como os integrantes da chamada Geração Mapa”.


Neste campo atuou ainda no vespertino Estado da Bahia e dirigiu na Bahia por 14 anos a sucursal do Jornal do Brasil do Rio de Janeiro, do qual era correspondente. Desde maio de 1990, integra a redação do jornal A Tarde, a convite do jornalista Jorge Calmon para dirigir o suplemento A Tarde Cultural que, em 1995, viria a receber o prêmio de divulgação cultural, conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte. No âmbito das atividades literárias, começou a publicar poemas seus em jornais do interior, como A Voz de Itabuna e Diário da Tarde, este de Ilhéus. Em Salvador, publicou inicialmente nas revistas Única e Ângulos, esta da Faculdade de Direito, de cuja equipe editorial participou, com João Eurico Matta e Nemésio Salles. No Jornal da Bahia e Diário de Notícias, de com Glauber Rocha, Paulo Gil e Inácio Alencar compôs a equipe editorial do SDN, suplemento dominical de expressão na década de 60. Em 1962 estava incluído na Antologia da novíssima poesia brasileira, editada pelos Cadernos Brasileiros, no Rio de Janeiro.


Fez ainda Mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia em 1972. No período de 1987 a 1989 foi presidente da Fundação Cultural do Estado, e em 1995 tomou posse na Cadeira nº 31 da Academia de Letras da Bahia. Florisvaldo Mattos publicou em 1974 o ensaio A Comunicação na Revolução dos Alfaiates; A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (recebendo por essa obra o Prêmio Copene de Cultura e Arte); e Estação de Prosa & Diversos (coletânea de ensaios, um conto e uma peça teatral).


Os poemas escritos nesses anos foram publicados em Reverdor, seu livro de estréia (1965), pelas Edições Macunaíma, que depois editariam os poemas de Fábula Civil (1975) e a plaqueta Dois Poemas para Glauber Rocha, em cooperação com o poeta Fernando da Rocha Peres. “Os poemas deste livro - escritos de 1995 a 1963 - foram escolhidos pelo autor, para publicação, tendo em vista uma unidade temática de base agrária”, escreveu no seu primeiro livro. Tal escolha fez com que Florisvaldo passasse a ser visto como um poeta do campo. “Foi este vínculo primeiro do poeta com a região grapiúna, suas roças adubadas com o sangue dos homens de aluguel e os sonhos desfeitos, que deu à sua voz o selo de compromisso com o Homem. Num momento em que o engajamento partidário foi o caminho encontrado por muitos escritores e artistas, o engajamento telúrico de Florisvaldo Mattos traçou a arquitetura do seu humanismo inteiro - sem rótulos ou partidos. Hoje, passadas as águas do tempo de apogeu dos vagões, podemos constatar que a procura da poesia foi a ambição maior de Florisvaldo Mattos. Não se desviava deste caminho, mesmo quando o abrigo acolhedor de uma opção partidária apontava possíveis atalhos”, comentou Cid Seixas.


Os temas líricos que se diversificam em Fábula Civil ganham novas direções em A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (lançado pela Fundação Casa de Jorge Amado/Copene, em 1996), mas, de um modo geral, fugindo sempre das confissões subjetivas, o poeta - como afirmou João Carlos Teixeira Gomes - se compraz com o espetáculo variado do mundo, celebra as viagens que fez pelos caminhos distantes, seu sentimento de hispanidade, a memória dos amigos desaparecidos, as experiências de leitura e suas afeições literárias, breves reminiscências de infância e outras vivências pessoais, sua paixão pelo jazz, num universo temático que busca sempre depurar-se, evitando transbordamentos emocionais. Tudo isto, em suma, dentro de estruturas formais construídas com rigor, que refletem a eficácia da sua linguagem poética, plena de poderosas metáforas e imagens dinâmicas.


Alta poesia - continua João Carlos -, em suma, de requintada fatura, de um dos poetas mais importantes da sua geração, na Bahia ou no Brasil. Pela riqueza de certos processos metafóricos um construtor de verdadeiros prodígios verbais”. Para Jorge Amado, Florisvaldo Matos faz “poesia madura, ardente e sumarenta, invenção e experiência”. Os poetas que marcou Florisvaldo em sua trajetória foram os brasileiros Raimundo Correia, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Jorge de Lima, Joaquim Cardoso e o baiano Sosígenes Costa, que conheceu pessoalmente em Ilhéus, além dos poetas latino -americanos Neruda, César Vallejo, Rubén Dario, Nicolás Guillén, e os espanhóis Antônio Machado, Lorca, Miguel Hernandez e Vicente Aleixandre. Florisvaldo Mattos faz a defesa da consciência formal na construção do poema, citando uma frase de Ezra Pound, segundo a qual “a técnica é a prova de sinceridade do poeta”. Em 2011 ele publicou o livro Poesia reunidas e inéditos.


----------------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

03 abril 2012

Felicidade ao alcance de todos

A busca da felicidade é a única (ou mais importante) razão de viver para os seres humanos? Na sociedade contemporânea o “dever de ser feliz” se tornou um dogma – que pode não se constituir na salvação essencial de uma pessoa. Pode ser apenas evento indireto, fugaz, resultado de valores como amor, amizade, trabalho, arte, ou seja, os eixos da atividade humana.


Para alcançar felicidade, é preciso renunciar ao ego e à ânsia pelas coisas deste mundo. Para os budistas, estamos presos à lei de causa e efeito. Já os cristãos afirmam que sem a fé, a razão não leva ao caminho da bem-aventurança. Os hedonistas acham que o fundamento da vida moral é o prazer enquanto os liberais afirmam que cada um deve buscar a satisfação de todos os seus apetites e, dessa forma, estará automaticamente em busca da felicidade dos demais. E os freudianos acreditam que o princípio do prazer nos impele a ser feliz, mas a sociedade bloqueia. Então, vamos adequar nossos impulsos sexuais à vida civilizada e fingir que felicidade é possível. E você, o que pensa da felicidade?


Nos dias de hoje, a publicidade é um dos alto-falante dos desejos em voga, e a busca do bem-estar prende as pessoas a um círculo da corrida do consumo. A vontade de possuir coisas não vem mais do prazer e do conforto que proporcionam, mas da necessidade de ser amado, respeitado e reconhecido pelos outros como alguém que tem valor. Isso é o que o filósofo alemão Hegel chamou de “desejo de reconhecimento”. Já o filósofo francês Philippe van den Bosch tenta responder à pergunta “como viver para ser feliz?” no livro “A Filosofia e a Felicidade”. A resposta: desejar menos e gastar menos. Nessa alternativa à roda do trabalhar-consumir são eliminados os excessos de posses e atividades que produzam cansaço extremo, incompatíveis com valores ecológicos e éticos.


Muita gente está reavaliando suas vidas e percebem que importante não é a fortuna, o poder e o status, mas os relacionamentos, os laços comunitários, o significado e o propósito da vida. Não é muito fácil quebrar esse ciclo e, na prática, chegar à simplicidade. Trocar tudo pela teoria e a prática da vida simples. A pressão social é forte. A cultura narcisista impõe a ostentação – é preciso ser não apenas rico mas também jovem e feliz o tempo inteiro. Daí o grande mercado de auto-ajuda, das drogas, cirurgias plásticas e academias.


O escritor francês Pascal Bruckner (A Euforia Perpétua) disserta sobre a “obrigação de ser feliz” na atual sociedade hedonista. Para ele “felicidade é uma palavra velha, prostituída, adulterada, tão envenenada que gostaríamos de bani-la de todas as línguas”. E se justifica: “Não se trata de ser contra a felicidade, mas, sim, contra a transformação desse sentimento em verdadeiro entorpecente coletivo ao qual todos devem se entregar, em suas modalidades químicas, espirituais, psicológicas, informáticas, religiosas”.


Para outras a forma mais prática de alimentar a alma de felicidade está na arte, pois toda arte é criação divina. Todo verdadeiro artista ouve um sussurro em seu ouvido, vindo do mundo das ideias antes de começar a sua obra. A nossa aproximação com a arte, seja na música, no cinema, nas pinturas ou esculturas, e até em um local isolado através da literatura, onde estão escritas as ideias sussurradas no ouvido do escritor, faz com que nossa alma se aproxime do criador. Como o nosso pensamento vem do mundo das idéias, nossa alma se sente cheia de amor e próxima de seu mundo livre e eterno. A forma mais prática de ser feliz, é apenas pensar, pensar apenas em coisas boas. Passe o dia pensando, mesmo que esteja em uma camisa de força, nada pode lhe proibir.


Outros acham que a felicidade é capacidade de contemplação. Quanto mais se desenvolve a nossa faculdade de contemplar, mais se desenvolvem as nossas possibilidades de felicidade, e não por acidente, mas justamente em virtude da natureza da contemplação. Esta é preciosa por ela mesma, de modo que a felicidade, poderíamos dizer, é uma espécie de contemplação.



Para o filósofo Aristóteles, felicidade é um estado permanente que não parece ter sido feito, aqui na terra, para o homem. Na terra, tudo vive num fluxo contínuo que não permite que coisa alguma assuma uma forma constante. Tudo muda à nossa volta. Nós próprios também mudamos e ninguém pode estar certo de amar amanhã aquilo que hoje ama. É por isso que todos os nossos projetos de felicidade nesta vida são quimeras.


Já o filósofo Jean-Jacques Rousseau viu poucos homens felizes, talvez nenhum, mas viu muitas vezes corações contentes e de todos os objetos que lhe impressionaram foi esse o que mais lhe satisfez. A felicidade, para ele, não tem sinais exteriores. Para conhecer seria necessário ler no coração do homem feliz, mas a alegria lê-se nos olhos, no porte, no sotaque, no modo de andar, e parece comunicar-se a quem dela se apercebe. “Existirá algum prazer mais doce do que ver um povo entregar-se à alegria num dia festivo, e todos os corações desabrocharem aos raios expansivos do prazer que passa, rápida mas intensamente, através das nuvens da vida?”.perguntou. Todo mundo está atrás da mesma coisa: apenas um pouco de felicidade a cada dia. Mas é preciso que a cabeça esteja vazia de pensamentos para que os olhos possam ver. Pense nisso!

--------------------------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

02 abril 2012

Personagens com identidade brasileira nos quadrinhos (11)

Luis Augusto começou a publica suas tiras diárias Fala Menino a partir de 1996 no jornal A Tarde. Ao colocar luz sobre a infância e juventude da garotada, Luis Augusto desmistifica e dá dignidade ao personagem. Em termos de inclusão e exclusão, Augusto mostra como as crianças ouvem o som do mundo, sente os perfumes, o calor do toque, do abraço amigo e sugere a inclusão, onde todos se tratam de igual para igual. Se seus personagens possuem limitação visual e/ou auditiva, são crianças felizes e com capacidade de sentir o mundo. O objetivo é falar sobre diferenças e deficiências. As crianças não nascem com preconceito, mas vão adquirindo no decorrer da vida, então o artista trabalhar na infância para ter uma sociedade melhor.


A tira de quadrinhos Fala Menino, do ilustrador Luís Augusto, discute o relacionamento do mundo adulto com a infância apresentando a diversidade do universo infantil e contribuindo para que a criança tenha voz atuante na sociedade. É uma das mais premiadas. A turma do Fala Menino é formada por 26 amigos. Alguns chamam a atenção pelas características quase nunca presentes em histórias em quadrinhos como Rafael que é deficiente visual, Bruninho com síndrome de Down, e Caio, um cadeirante. A maneira de tratar temas tão delicados funciona como um alerta para pais, educadores e adultos de uma maneira geral aprenderem a lidar com assuntos que fazem parte da vida de qualquer criança. As histórias que Lucas nos conta são sobre o relacionamento do mundo adulto com a infância. Ele nos fala de diferenças físicas ou sociais, de superação de limites, de inclusão, de responsabilidade social com a naturalidade das lições que apenas a infância sabe dar.


Em 1998 o quadrinhista Antonio Cedraz vem publicando no jornal A Tarde as tiras A Turma do Xaxado. Trata-se de um mergulho sobre as lendas e sobre a dura realidade do sertão, sem descuidar da crítica social. Xaxado agrada igualmente a criança e o adulto. Diverte, ensina e chama à reflexão.

Da simplicidade do traço à criatividade da narrativa, Xaxado retrata a vida rural com todas as suas lendas e mistérios. São aventuras de um garoto, neto de um famoso cangaceiro que vivia com o bando de Lampião, às voltas com problemas do dia a dia, junto com seus pais e amigos. A Turma do Xaxado reúne personagens tipicamente brasileiros e já recebeu diversos prêmios. Todo o trabalho tem um bom acabamento visual das personagens, com precisão no traço e originalidade temática. Através de um enredo fluente, falando de um cotidiano em que se misturam o real e o simbólico, o objetivo e o subjetivo, o autor constrói uma atmosfera da qual é difícil ficar alheio. Através de Xaxado penetramos no universo gráfico de Cedraz, o imaginário infantil cria asas e viaja na mente de todos nós.


Em 2003, a Coleção Cabeça Oca, do goiano Christie Queiroz foi lançada. A série de tiras do personagem impulsionou novas publicações do setor como Ozzy, de Angeli. Entre 2003 e 2005, Marcelo Cassaro, lança pela, Mythos Dungeon Crawler, desenhada por Daniel HDR e republicações de Holy Avenger, sob o título de Holy Avenger Reloaded. Os Guerreiros da Tempestade formam um grupo de super-heróis brasileiros criados por Anísio Serrazul e começaram a ser publicados pela ND Comics no início de 2005. Tendo como diretor comercial o também roteirista Fábio Azevedo, o título segue a linha estética dos comics americanos.


Em 2008, a Turma da Mônica ganha uma versão adolescente em estilo mangá: Turma da Mônica Jovem pela Panini Comics. Maurício de Souza está sempre em sintonia com seu público. Desde que lançou a personagem Tina que ele tinha vontade de dialogar mais com o público adolescente. Com a Turma da Mônica Jovem, ele apresenta a turma oito anos mais velha. Cada personagem passou por transformações individuais.


Mônica não é mais baixinha ou gorducha, mas continua líder da turma e dentucinha. Uma romântica incorrigível. E aposentou o vestidinho vermelho. Magali preocupa-se com a qualidade da sua alimentação, adora gatos e pratica esportes. Cascão usa brinco na orelha, toma banho “de vez em quando”, pratica esporte, sendo o skate um dos seus preferidos, junto com a moda street que ele adotou. Cebolinha virou um rapaz moderno, com óculos e cabelo estilosos, após fazer um tratamento com uma fonoaudióloga, não troca mais as letras e prefere ser chamado de Cebola.


O destaque dos desenhos é outra mudança da nova publicação. Mais próximos dos mangas (história em quadrinhos japonês), as histórias são cheias de ação, magia, aventura e humor com pitadas de romance. Hoje em dia, do ponto de vista das grandes tiragens há predominância das histórias em quadrinhos da Turma da Mônica, que fazem sucesso em outros lugares do planeta, mas conta-se com uma nova geração de quadrinistas, muitos que se projetam no cenário internacional.


A Turma do Arrepio foi criada por César Sandoval, lançada em 1989 e publicada pela Editora Globo até 1993. Ao todo, a coleção possui quarenta e três revistinhas e um almanaque. Em 1995, a Rede Manchete exibiu um seriado de 45 minutos, às 17h, baseado nos quadrinhos da Turma do Arrepio, o seriado teve dois elencos diferentes. Em 2009, A Turma do Arrepio voltou a ser editada, desta vez pela editora As Américas. Personagens principais: Medeia (bruxinha atrapalhada com suas magias), Tuty, a múmia( tinha mania de consertar tudo com esparadrapos, e mania de limpeza, pois tinha alergia a pó), Stein, pequeno Frankenstein (inventor da turma, sempre às voltas com novos equipamentos e fórmulas malucas), Draky, vampiro (intelectual), Luby, lobisomem (vivia sendo confundido com um cachorro), Belfedo, o morcego (adorava pregar peças em todos), e Epitáfio, o zumbi (porteiro do prédio).


Flávio Luiz fez charge e ilustrações para o Correio da Bahia, Bahia Hoje, publicou a revista Jayne Mastodonte (uma aventureira musculosa), tiras (Rota 66, sobre um cacto e uma caveira de bisão em algum lugar da estrada mais americana, e Job um lutador, um cão dálmata, atrapalhado com seus próprios limites, que ele busca a todo custo vencer, se envolvendo nas mais variadas modalidades esportivas), e tem um álbum Au da Bahia, o capoeirista lançado em 2008. Aú o capoeirista teve suas duas mil cópias lançadas em Salvador, Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo. A edição de luxo, em capa dura, contou com o apoio de um mecenas baiano que o patrocinou através da Lei Rouanet. Batizado como o movimento da capoeira, Aú vai conquistar um público leitor carente de personagem baiano. Com desenhos cheios de movimento (traço limpo e dinâmico), diagramação elaborada, trama cativante, Aú tem tudo para agradar baianos, romanos, gregos e americanos, mas o espírito baiano está ali, centrado nos personagens, no ambiente. Flávio canta sua aldeia e mostra ao mundo.



Exposição de Humor Gráfico


Continua aberta a visitação pública até domingo, dia 08, a exposição de Humor Gráfico no foyer do TCA. Com seleção das obras a cargo de Nivaldo Lariú, a mostra consta de trabalhos dos artistas Café, Caó, Cau Gomez, Cedraz, Flávio Luiz, Hector, Hoisel, Lage, Mineu, Setúbal, Simanca, Valtério, Wilton Bernardo e instalação de Tuti Minervino. Vale a pena conferir. Salvador está precisando dessas doses de bom humor. Excelente mostra!



-----------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)