18 julho 2018

Um silêncio que grita: Bergman


O cineasta sueco Ingmar Bergman faria no mês de julho de 2018, 100 anos. Sua carreira foi extensa e prolífica, apesar de ter se tornado conhecido mundialmente pelo seu trabalho como diretor de cinema, ele era um homem do teatro, além de exímio escritor. Seus filmes são embebidos em imagens poderosas, violentas, de homens e mulheres lutando para encontrar um sentido em um mundo de confusão e anarquia. Infância, amor e morte sempre foram questões tratadas em sua obra, ora metafísicas ora existenciais. Ao longo dos 60 filmes que realizou, entre produções para cinema e TV (sem falar do teatro), Bergman produziu filmes que vão desde a juventude (Monika e o Desejo, 1952), a morte (O Sétimo Selo, 1957) ou mesmo a política (O Ovo da Serpente, 1979).


Seus enquadramentos trabalhados, os ângulos insólitos, as tomadas de nuvens, lagos e bosques não são jogos gratuitos da câmera. Ele integra à psicologia de seus personagens no instante preciso em que quer exprimir um sentimento preciso. Cineasta do instante, da solidão, das tensões amorosas e da incomunicabilidade, seus filmes são intimistas, profundos e autorais.

Os vigorosos filmes do cineasta sueco das décadas de 50 e 60, incluindo “O Sétimo Selo”, “Persona” e “Vergonha” eram envolvidos em temas teológicos, na luta de seres humanos em chegar a um acordo com a morte em um mundo atormentado em que a religião parecia alternadamente remota, poderosa e instável.


“Gritos e Sussurros” pareceu marcar uma passagem para Bergman, uma transição dolorosa e difícil para uma aceitação de que Deus desaparecera. “Cenas de um Casamento” marcou uma vívida mudança em sua mente, a alma humana. “Fanny e Alexandre” faz um acerto de contas com a Suécia e a tumultuada infância do diretor, criado segundo as rígidas regras de seu pai, um pastor protestante.

O que Bergman, apaixonado pelo teatro, fez foi traduzir em imagens suas inquietações acerca da vida e da morte, de Deus, do tempo e do desejo, da solidão, dos traumas de infância e da inconstância do amor materno.


Ele começou expressionista, descobriu a metalinguagem nos anos 1960 e nos 70 transferiu-se para a televisão. Quem não lembra do cavaleiro que joga xadrez com a morte em “O Sétimo Selo”, o incesto que se faz presente em “Através de um Espelho”, o professor que atravessa planos da realidade e da imaginação para se purgar de uma vida sem amor em “Morangos Silvestre”. Tormentos do sexo e o silencio de Deus são temas recorrentes em seus filmes.

No dia 30 de julho de 2007 o escritor, dramaturgo e produtor sueco Ingmar Bergman morreu calma e docemente, aos 89 anos. O travelling recua ao nascer do sol, a cidade desperta. A câmera busca um rosto em close, e vai silenciosamente se aproximando para os olhos tomados de angústia. E um grito de silêncio se espalha no ar.


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