21 agosto 2017

Hugo Pratt na Bahia

No início dos anos 2000 a professora de teatro aposentada, Lúcia Maria Dias dos Santos me procurou para falar sobre seu encontro com o quadrinista italiano Hugo Pratt. Falou que muitos jornalistas estiveram, na época, em  sua casa, em busca da história desse encontro, mas ela nunca revelou. Aproveitei para apresentá-la aos jornalistas do Correio da Bahia, jornal onde trabalhei por quase 10 anos. Ao jornalista Marcos Vita, Lúcia Di Sanctis (sugestão do nome dado por Pratt que ela adotou) contou o curto romance – mas intenso entre novembro a dezembro de 1965 com o italiano – foi publicado na edição de 08 de fevereiro de 2001, intitulado “Romance em Quadrinhos: professora diz ter vivido romance com Hugo Pratt, que esteve na Bahia nos anos 60”.


“Em 1965, Lúcia Di Sanctis tinha apenas 18 anos. O quadrinista Hugo Pratt, 38. ´Bonito, simpático, falador e amante da cultura negra, ele logo me conquistou. Um outro traço curioso é que só vestia roupas décor caqui. Passamos um mês de romance´, diz a professora baiana (...) Ela descobriu uma personagem com seu sobrenome e características físicas bastante semelhantes às suas numa HQ do italiano. Na ficção, a professora baiana seria a personagem Morgana `Dias dos Santos` Bantam. Morgana também é baiana e está sendo procurada pelo meio irmão, Tristan Bantam, de Londres. Os três episódio chama-se O Segredo de Tristan Bantan, Encontro na Bahia e Samba com tiro certeiro.


Em Sob o signo de Capricórnio, Tristan Bantam é levado à Bahia já por meio de um encantamento sobrenatural: ninguém menos que o orixá Ogum Ferreiro o convoca  até sua meia-irmã (negra e brasileira) Morgana, iniciada nas práticas do oculto junto com a “preta velha” e líder espiritual Boca Dourada.

“A professora apresentou duas fotos dela em 1965. Os traços angulosos do rosto e o cabelo curto da época a fazem muito parecida com o desenho da personagem de Pratt”. Era a primeira vez que Lucia revelava a história a um jornal.

Em sua passagem pelo Brasil Hugo Pratt revelou a Dominique Petitfaux no livro de entrevista com ele em O Desejo de ser Inútil (Relógio D´Água Editores, 2005): “Nos anos 1962-1966, o Brasil foi um país que contou muito para mim. Tinha ido lá uma primeira vez a partir da Argentina, em 1957, depois, em 1962,no caminho de Buenos Aires para Lisboa, durante uma longa escala no Rio, eu tinha circulado no Brasil (...) Foi por intermédio de Raimundo Lisboa que em Salvador da Bahia travei conhecimento com a cartomante Bouche Dorée, que me inspirou para uma das personagens de Corto Maltese, e com as irmãs Dos Santos, umas negras soberbas versadas em magia. As Dos Santos tornaram-se a minha família da Baía, e quando passo pelo Brasil, não deixo de as visitar. Com uma das meninas Dos Santos, uma mãe-de-santo, tive mesmo, em 1965, uma filha, uma bela mestiça, Victoriana Aureliana Gloriana.



Quando a reconheci oficialmente como minha filha, reconheci ao mesmo tempo os filhos ilegítimos das quatro irmãs, dando aos rapazes nomes de presidentes dos Estados Unidos. E eis como, em Salvador da Bahia, se pode hoje encontrar um Lincoln Pratt, um Wilson Pratt ou um Washington Pratt” (páginas 123 e 124).

Lucia nega que seja a mãe e diz desconhecer a existência da garota. Não existe registro do nome nos cartórios de Salvador. Mas como todos os aficionados por quadrinhos sabem, o espírito aventureiro de Pratt mistura muito a realidade e a ficção. Na entrevista para o livro ele confirmou que teve apenas seis filhos, três rapazes e três meninas. Na Bahia, na época, houve um atentado político contra um general e Pratt tornou-se suspeito, pois encontravam uma arma entre seus documentos. Depois de preso e explicado que era jornalista italiano do Corriere della Sera, foi solto. À noite, ao visitar o bordel local, encontrou-se com os policiais que o prenderam e tornaram-se amigos. Uma aventura e tanto... Para Hugo, sua filha “Victoriana vive no Brasil, é bailarina” (pagina 178).



2 comentários:

Unknown disse...

Boa noite!
Sou estudante de História e procurando por possíveis temas de tcc, encontrei a história da Lucia que foi barrada pela ditadura (1969) numa tentativa de criar um grupo de teatro negro aqui na Bahia. Pesquisando por ela, encontrei esse blog, e gostaria de saber como eu conseguir o contato dos filhos dela.
A qualquer ajuda, gratidão!
Att,

Ingrid Damasceno

Saviorock disse...

Oi Ingrid. Sou filho dela. Meu contato é saviorock@hotmail.com
Vi esta reportagem hj. Agora