15 fevereiro 2017

1967/2017: Aconteceu há 50 anos (03)



Um grande impacto de rajada de tiros e discursos numa alegoria do caos está presente no filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Reflexão amarga sobre a derrota da esquerda, seu fluxo narrativo obedece aos delírios do protagonista (um jornalista de classe média envolvido com um político populista), ferido mortalmente. Na enxurrada de recordações do protagonista podem-se ver as contradições de um país de terceiro mundo e da pequena burguesia urbana, dividida entre o sonho revolucionário romântico e os desejos mesquinhos da realidade.

A trama do filme de Glauber Rocha, Terra em Transe é uma alegoria política, um texto que faz uso de elementos históricos muito próprios do Brasil e da América Latina como um todo, especialmente porque não se nega a mostrar as diferenças sociais, a larga oferta de posturas político-ideológicas, o embate quase infantil entre povo e poder, o uso da força militar ou do assassinato político. Através de todos esses fatos observados no Terceiro Mundo, Glauber Rocha nos mostra a crônica de uma ascensão ao poder e sua subsequente derrocada.

A política é um negócio sujo em Eldorado. O país fictício tem governantes corruptos no poder, partidários e aliados assassinos, fracos e extremistas — à direita e à esquerda — o que não facilita em nada a vida do povo, que não sabe para qual lado seguir; é facilmente enganado por palavras de consolo e de “estou anotando tudo, tudinho!” e festeja a chegada de um líder populista como se esta fosse a resposta para todos os problemas imediatos pelos quais passam: a falta de terra, a falta de
emprego, a falta de comida.

Em A Chinesa, num certo momento, Anne Wiazemski (a personagem universitária que quer destruir as universidades) explica a Juliet Berto (a camponesa que não entende nada de marxismo-leninismo) qual a importância da política na ação de um grupo revolucionário. Ao que a outra pergunta: "quer dizer então que a França de 1967 se assemelha a esses pratos sujos?" Em uma ocasião seguinte, Wiazemski explica a Guillaume (ator revolucionário brecthiano, Jean-Pierre Léaud) o que é lutar em duas frentes: lutar política e esteticamente.

Em A Chinesa, Godard nos dá várias definições de sua profissão de fé. Para além de todas considerações de previsão e análise sociológica a respeito desse filme, A Chinesa é, antes de qualquer coisa, o filme em que Godard mais claramente expõe o seu projeto e sua ideia do que seja fazer cinema.


Catherine Deneuve começa sua carreira como heroína ingênua do cinema francês. Aos poucos, vai se transformando numa deusa loira sofisticada, uma mulher independente que escolhe cada filme que vai fazer. 

Em “A Bela da Tarde” (1967) de Luis Buñuel ela faz o papel de pura e perversa, até fundir num novo modelo de mulher que, desde então, sempre acompanharia a atriz.
 
Libertária do ponto de vista sexual, provocativa em política, conservadora na religião. Pasolini queria captar o discurso do povo e não fazer um discurso sobre o povo. 

Seus filmes mostram a disposição de encontrar essa força primitiva que viria dos estratos populares, livre de contaminação da cultura de elite. Forças primais, as forças da saúde – o sexo, a fome, o riso, o prazer em todas as suas formas, mesmo as mais escatológicas. Contra o racionalismo pragmático, a magia e a força do irracional e do mito em Édipo-Rei (1967)

A peça "O Rei da Vela" é encenada no Teatro Oficina, em São Paulo, e revoluciona o teatro brasileiro. O diretor José Celso Martinez Correa resgata o vigor e a
ousadia do texto de Oswald de Andrade, que permanecia atual mesmo tendo sido escrito na primeira metade da década de 1930. O experimentalismo do espetáculo mesclava linguagem de circo e de chanchada e inaugurou o chamado teatro de agressão. Essa marca da obra atraiu e chocou as plateias de classe média, que durante mais de um ano lotaram o Oficina.

Ainda em 1967 um livro quebrou os cânones, valorizando a macrovisão histórica e apontando tendências universais: John Kenneth Galbraith lançou O Novo Estado Industrial alertando para uma característica crucial do capitalismo contemporâneo, a separação entre propriedade e gestão. Ele redescobriu e denunciou, as armadilhas do poder coletivo e os fantasmas da organização.






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