04 abril 2016

De volta ao passado (1)



Desde bebê, minha mãe me tornou a rocha sobre a qual construir minha vida de jovem adulto. Foi elaque incentivou os estudos, pois meu pai era puro trabalho. Sua padaria era sua vida e, com o tempo, tornou-se o pão mais popular do bairro. Pela manhã, bem cedinho havia fila para comprar seu produto. Minha mãe, muitas vezes, escondida, pegava vários pães para distribuir aos necessitados. Diante do excesso de trabalho para manter na família numerosa meu pai era uma pessoa fria, distante e exigente. Um homem rude, afinal. Era a imagem que fazia dele, mas um trabalhador árduo, sistemático e emotivo, muito.


Assim, para não sair igual a ele, brutalizado pelo trabalho, procurei estudar o máximo possível (mesmo contra sua opinião que achava que quem estudava muito ficava louco ou mesmo suas indagações de que a História era um monte de bobagens, pois quem escrevia era o vitorioso, quem contaria a história do perdedor? onde está a verdade nisso tudo?, questionava) para investir em um único aspecto da vida – a profissão.

Quando esse aspecto ficava repentinamente ameaçado ou perdido, a dor vindo da infância ressurgia. Brinquedos? nem pensar..., não havia economia para esse objeto do desejo e luxo numa infância pobre. Enquanto sonhava em ter um trenzinho (do tipo Autorama) ou o famoso Forte Apache, fazia meus próprios brinquedos com latas de sardinha (e haja latinhas para o trenzinho) ou mesmo uma velha tábua com rodinhas de rolimã para fazer o patinete. Na minha infância brincava ainda de bolinhas de gude,  furapé, guerreou ou empinar arraia (pipa).

Como não tinha brinquedos de loja, o jeito era improvisar e a diversão era com todos os garotos derua, compartilhando tudo, lá no velho Corta Braço, hoje Pero Vaz, o quintal do bairro da Liberdade, tão pobre e esquecido pelas autoridades. Na adolescência conseguir juntar alguns trocados para a sessão da tarde nos cinemas São Jorge ou Liberdade, e, de vez em quando no cine Pax, na Baixa dos Sapateiros.


Antes das sessões dos seriados havia troca de gibis, e não faltava revista do Flecha Ligeira, Cavaleiro Negro, Fantasma, Roy Rogers, Tarzan, Popeye, Brucutu entre outros. Era uma felicidade total a troca de gibis. Os olhos brilhavam com aquelas aventuras dos heróis da nossa infância, do nosso imaginário. E como sonhava com aqueles gibis. Muitas vezes esquecia de toda aquela pobreza em volta para sonhar com esses mitos, esses deuses de nossa imaginação.

Foram essas pequenas ações que fazia esquecer as feridas, a da infância, suportável mesmo que seja permanentemente sentida. Não deixei que minha vida escorregasse por entre os dedos por ter nascido em uma família pobre, analfabeta e quase desajustada. Isso me fortaleceu para não repetir os erros dos meus pais. A “música da minha vida” passou a ser os estudos, seguida do trabalho. Ai é que foquei no jornalismo, na época, aventura, mas acima de tudo, participar da vida comunitária.

Dar sua parcela de contribuição na sociedade. E o jornalismo era o mais próximo. Meus colegas preferiram “profissões mais resistíveis ou respeitadas” como médico, engenheiro, arquiteto, odontólogo. Eu não, tinha decidido aquilo que mais queria, tanto é que no ginásio já produzia o jornal do colégio do IAPI, o Bicão (gíria da época) onde discutia os rumos da educação, fazia parte do grêmio e discutia com os professores os assuntos da sala de aula.

E era um custo ter um livro nas mãos, porque faltava dinheiro. Até hoje lembro a primeira vez que saí do distante bairro do Pero Vaz para conhecer no bairro de Nazaré a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Que felicidade ao ver aquele casarão belíssimo cheio de livros. Fiquei muito emocionado. Aquilo parecia até que tinha ido a Disneylândia, o paraíso das crianças endinheirada da época. Sim a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato foi minha Disneylândia. Ficava horas passeando com olhos aqueles livros encantadores. Sonhava em morar perto dali, era um desejo fortíssimo. E não é que, décadas depois, já esquecendo do fato, fui morar e ainda moro ali pertinho.






01 abril 2016

Manifestação cultural é a raiz do povo baiano



Quem conhece a Bahia e tem a oportunidade de presenciar suas manifestações culturais sabe como nosso Estado é rico. Berço da cultura brasileira, a Bahia recebeu as mais diversas influências, tornando-se um lugar único, onde cores, músicas, danças, folclore, história, lendas, crenças e vivências compõem a origem do povo baiano. Cada município, cada região possuem suas expressões culturais mais marcantes, e que quase sempre tem haver com a vida de fé e força da população nativa. Conhecer cada uma dessas revelações de cultura é o mesmo que mergulhar dentro de si mesmo, e o que é melhor, encontrar-se mais belo, criativo e encantador.
 
A festa do Bumba-meu-boi é uma tradição que se mantém desde o século XVIII. O enredo da festa resgata uma história típica das relações sociais e econômicas da região durante o período colonial, marcadas pela monocultura, criação extensiva de gado e escravidão. Em uma fazenda de gado, o escravo Francisco mata um boi de estimação de seu senhor para satisfazer o desejo de sua esposa grávida, a escrava Catirina, que deseja comer língua de boi. Quando descobre o sumiço do animal, o senhor fica furioso e, após investigar entre seus escravos e índios, descobre o autor do crime e obriga Francisco a trazer o boi de volta. Pajés e curandeiros são convocados para salvar o escravo e, quando o boi ressuscita urrando, todos participam de uma enorme festa para comemorar o milagre.

Na Bahia, esta manifestação cultural reina absoluta em quase toda parte do Estado. No entanto, Cachoeira, Camamu, Canavieiras, Conde, Cruz das Almas, Ibotirama, Juazeiro, Inhambupe, Jequié, Monte Santo, Santo Antônio de Jesus, São Félix, Prado, Jiquiriçá, Itacaré, Nova Viscosa e Porto Seguro são algumas das cidades que mais mantém viva esta que é uma das maiores heranças seculares da cultura popular baiana, onde um boi é a principal atração. O bailado, marcado por tambores, pandeiro, zabumba e maracás e entoado por cantigas, fazem o boi dançar freneticamente, esbanjando cores e vitalidade.
 
“SOU EU, SOU EU, SOU EU MACULELÊ, SOU EU...” - Outra grande expressão popular da cultura da Bahia é o maculelê. Trazida pelos africanos, esta dança era mais uma forma de luta contra os horrores da escravidão. Enquanto os negros dançavam com os cepos de cana no meio do canavial, cantavam músicas que evidenciavam o ódio ao cativeiro. Porém, eles as cantavam nos dialetos africanos para que os feitores não entendessem. O maculelê era uma maneira de esconder os perigos das porretadas desta dança. Aos golpes e investidas dos feitores, os negros se defendiam com largas cruzadas de pernas e fortes porretadas que atingiam principalmente a cabeça ou as pernas do agressor.

Além dos golpes, os escravos pulavam de um lado para o outro dificultando ainda mais que fossem pegos. Atualmente o maculelê é encenado com bastões de madeira. Essa dança de forte declaração dramática é praticada somente por homens que dançam em grupo, batendo os bastões no ritmo dos atabaques e ao som de cânticos em linguagem popular ou em dialetos africanos. A área de maior incidência do maculelê é a região de Santo Amaro, onde a dança é realizada em homenagem ao dia de Nossa Senhora da Purificação, padroeira do município, bem como no mês de maio durante os festejos pela Abolição da Escravatura, uma tradição mantida há mais de 100 anos na cidade.
 
“XÔ XUÁ, CADA MACACO NO SEU GALHO...” - Mas, se Santo Amaro abriga o maculelê, também resguarda com igual beleza o samba de roda. Forma mais popular e autêntica do samba brasileiro, o samba de roda é tido como a primeira forma do samba atual, era dançado pelos escravos nas senzalas durante suas poucas horas de descanso.Tradição milenar do recôncavo baiano, esta forte expressão popular é parte visceral de municípios como Cipó, Candeias e Cachoeira durante os festejos juninos e da Boa Morte. Em São Félix, Muritiba, Conceição do Almeida e Santo Amaro, o samba de roda é destaque na festa de Nossa Senhora da Purificação. São Francisco do Conde, Feira de Santana, Itacaré e Conceição do Almeida celebram o samba de raiz na festa de 2 de Julho. Acompanhado por atabaques, ganzá, reco-reco, viola e violão, o solista entoa
cantigas, seguido em coro pelo grupo a dançar. Ligado também ao culto de orixás e caboclos, à capoeira e às comidas à base de dendê, o samba de roda teve início por volta de 1860, como forma de preservação da cultura dos negros africanos escravizados no Brasil.

A influência portuguesa, além da língua falada e cantada, fica por conta da introdução da viola e do pandeiro. Essa manifestação concorre ao título de Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. Presente no trabalho de renomados compositores como Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso, esse misto de música, dança, poesia e festa se revela de duas formas especiais: o samba chula e o samba corrido. A chula, uma forma de poesia, é declamada pelo solista enquanto o grupo escuta atento, só se rendendo aos encantos da dança após o término do pronunciamento, quando um participante por vez adentra o meio da roda ao som da batucada regida por palmas. Já no corrido, o samba toma conta da roda ao mesmo tempo em que dois solistas e o coral se alternam no canto.