02 janeiro 2012

Origem do Mundo segundo lenda africana

Todas as religiões do mundo tentam explicar os grandes mistérios da humanidade: De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? Reza uma história africana, originária de Ketu, que no início de tudo havia o Orum, o espaço infinito, e lá vivia o deus supremo Olorum. Certo dia, Olorum criou uma imensa massa de água, de onde nasceu o primeiro orixá: Oxalá, o único capaz de dar vida. Olorum mandou Oxalá partir e criar o aiyê, o mundo. Só que Oxalá não fez as oferendas necessárias para a viagem e enfrentou sérios problemas no caminho.


Quem acabou criando o mundo foi Odudua, sua porção feminina. Para consolar Oxalá, o deus supremo lhe deu outra missão: a de inventar os seres que habitariam o aiyê. Assim Oxalá usou a água branca e a lama marrom para criar peixes azuis, árvores verdes e homens de todas as cores. Foram justamente os homens que, mais tarde, imaginaram formas de adorar e representar a saga de deuses como Oxalá, Odudua, Olorum e tantos outros.


O sopro sagrado de Olorum


Quando Olorum, o senhor do infinito, fez o universo com o seu hálito sagrado, criou junto um punhado de seres imateriais com a finalidade de povoá-lo. Estes seres, os orixás, foram dotados de poderes fantásticos, como o domínio sobre o fogo, a água, a terra, o ar, os animais e as plantas e também o masculino e o feminino.


No princípio, eram muitas as divindades africanas, tantas que a comparamos às cores da exuberante África. Ainda hoje, os adeptos das religiões afro-brasileiras continuam adorando um pequeno grupo destas divindades, que representam todos os elementos essenciais à natureza e à vida humana.

Os povos africanos produziram uma infinidade de mitos sobre a criação do mundo e as forças espirituais. Isso porque a necessidade de explicar o mundo em que vivemos é praticamente tão antiga quanto a própria humanidade.


Ossaim, o malabarista das folhas


Certo dia, Ifá, o senhor das adivinhações veio ao mundo e foi morar em um campo muito verde. Ele pretendia limpar o terreno e, para isso, adquiriu um escravo. O que Ifá não esperava era que o servo se recusasse a arrancar as ervas, por saber o poder de cura de cada uma delas. Muito impressionado com o conhecimento do escravo, Ifá leu nos búzios que o criado era, na verdade, Ossaim, a divindade das plantas medicinais. Ifá e Ossaim passaram a trabalhar juntos. Ossaim ensinava a Ifá como preparar banhos de folhas e remédios para curar doenças e trazer sorte, sucesso e felicidade.


Os outros orixás ficaram muito enciumados com os poderes da dupla e almejaram, no seu íntimo, possuir as folhas da magia. Um plano maquiavélico foi pensado: Iansã, a divindade dos ventos, agitou a saia, provocando um tremendo vendaval. Ossaim, por sua vez, perdeu o equilíbrio e deixou cair a cabaça onde guardava suas ervas mágicas. O vento espalhou a coleção de folhas.


Oxalá, o pai de todos os orixás, agarrou as folhas brancas como algodão. Já Ogum, o deus da guerra, pegou no ar uma folha em forma de espada. Xangô e Iansã se apoderaram das vermelhas: a folha-de-fogo e a dormideira-vermelha. Oxum preferiu as folhas perfumadas e Iemanjá escolheu o olho de santa-luzia. Mas Ossaim conseguiu pegar o igbó, a planta que guarda o segredo de todas as outras e de suas misturas curativas. Portanto, o mistério e o poder das plantas continuam preservados para sempre.


No tabuleiro de Iansã


Orixá das cores vermelha e branca, Iansã é a regente do vento e dos temporais. Segundo uma antiga história da África, Xangô, marido de Iansã, certa vez a enviou para uma aventura especial na terra dos baribas. A missão era buscar um preparado que lhe daria o poder de cuspir fogo. Só que a guerreira, ousada como ela só, ao invés de obedecer ao marido, bebeu a alquimia mágica, adquirindo para si a capacidade de soltar labaredas de fogo pela boca.


Mais tarde, os africanos inventaram cerimônias que saudavam divindades como Iansã através do fogo. E, para isso, usavam o àkàrà, um algodão embebido em azeite de dendê, num ritual que lembra muito o preparo de um alimento bastante conhecido até os dias que correm: o acarajé. Na verdade, o acarajé que abastece o tabuleiro das baianas é o alimento sagrado de Iansã, também conhecida como Oyá.


O quitute tornou-se símbolo da culinária da Bahia e patrimônio cultural brasileiro. E, assim como ele, diversos elementos da tradição africana fazem parte do nosso cotidiano. Em sons, movimentos e cores, a arte encontrou na religião de origem africana seu sentido, sua essência, sua identidade.


A porção humana dos orixás


Obá, a orixá guerreira, disputava o amor de Xangô com Iansã e Oxum. Obá sentia o corpo arder de ciúme ao ver seu amado tratar Oxum com gestos de atenção e carinho e passou a imaginar que sua rival colocava algum tempero especial na comida para enfeitiçar Xangô.


Certo dia, Obá foi à cozinha disposta a descobrir o segredo de Oxum. Percebendo o ciúme de Obá, Oxum resolveu pregar uma peça na guerreira e mentiu. Disse que seu ingrediente era, na verdade, um pedaço de sua orelha. Obá então pôs uma tasca da própria orelha na comida e serviu para Xangô, que rejeitou o prato. Foi quando Obá se deu conta que caíra em uma armadilha e desde este dia, cobre as orelhas quando dança na presença de Oxum.


Os sentimentos humanos sempre estiveram presentes na mitologia dos orixás e na tradição oral africana. Sentimentos que mais tarde viriam contar outras histórias, que compõem uma literatura tipicamente feita por negros no Brasil.

A espada justa de Ogum


Ogum é um orixá benfeitor, capaz de salvar muitas vidas, mas também destruidor de reinos. Há quem diga que um belo dia Ogum chegou em uma aldeia onde ninguém falava com ele. Sempre que se dirigia a um habitante do lugar, só recebia um grande vazio como resposta.


Pensando que todos estavam zombando dele, Ogum ficou furioso e destruiu cada pedacinho da aldeia. Logo em seguida, descobriu que aqueles moradores permaneceram calados porque faziam voto de silêncio e se arrependeu amargamente por haver empregado as suas forças numa ação bélica.


Desde então, o deus da guerra jurou ser mais cauteloso e proteger os mais fracos, sobretudo aqueles que estiverem sofrendo algum tipo de perseguição arbitrária. Tanto no orum, o universo, como no aiyê, a terra, a luta dos negros contra as injustiças é encarada por corajosos guerreiros espirituais e de carne e osso.


Omolu dança só


Há muitos e muitos anos, um episódio interessante percorre a África inteira. É sobre uma grande festa, que reunia uma lista de ilustres convidados - Oxum, Iemanjá, Oxalá, Xangô, Oxossi, Ossaim, Obá, Logunedé, Iansã, Nanã, Ogum e Oxumaré. Todos os orixás estavam lá. Na verdade, quase todos, porque faltava o Omolu.


Omolu ficou do lado de fora com vergonha das marcas que a varíola lhe deixara no rosto. Ao saber disso, Ogum correu até a floresta e teceu uma roupa de palha, o ofilá, para que o irmão participasse da festa. Omolu entrou, mas ninguém quis dançar com ele. Mesmo cobertas, suas feridas causavam repulsa nos orixás. A corajosa Iansã foi a única que o chamou para uma dança. E como Iansã é a orixá dos ventos, sem querer, mandou a roupa de Omolu pelos ares!


Qual não foi a surpresa quando, livre do ofilá, surgiu um homem lindo, sem defeito algum. Ao ver a beleza de Omolu, os orixás femininos suspiraram e os masculinos se morderam de inveja. Omo

lu ofereceu à Iansã uma recompensa, mas, a partir daquele dia, passou a dançar sempre sozinho nas festividades.

FONTES:

http://www.acordacultura.org.br

http://bravoafrobrasil.blogspot.com

Banho de folhas sagradas

para 2012

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

29 dezembro 2011

Deus segundo Spinoza

Para reflexão:

Einstein quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”.


Deus segundo Spinoza


“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.

Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.


Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.

Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.


Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau.

O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.


Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?


Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.


Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?

Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?


Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.


Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.

Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.


Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar.

Ninguém leva um registro.

Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.

Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse.

Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada,

terás aproveitado da oportunidade que te dei.

E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?


Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.

Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias

teu cachorro, quando tomas banho no mar.


Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?

Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.

Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.

Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.


Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui,

que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres?

Para que tantas explicações?

Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti.


Baruch Spinoza.


As sábias palavras são de Baruch Espinoza - nascido em 1632 em Amsterdã, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677, foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Era de família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. Acredite, essas palavras foram ditas em pleno Século XVII. Continuam verdadeiras e atuais até a data de hoje. (Lucia Carvalho, amiga, leitora do blog)

Lúcia,

Luz forte e verdadeira

palavras de amor sempre certeira

e o que dizer do olhar

essa luz derradeira

que nunca escurece só ilumina

essa menina...

é assim pura felicidade

mas sofreu na pele

angustia e privacidade

e nunca reclamou da vida

esperou com cautela e sem ansiedade


Essa é a Lucia que conheço

e quem sabe a mereço

de paz no coração

é a Lúcia que transcrevo

para todos do blog com emoção


Paz, felicidade, amor, sonho, saúde, paciência, transparência, ética, luz para todos:

Lucia, Claudia, Jacira, Alessandra, Neide, Ana Clara, Fernanda, Deusdete, Deusdalma, Adinalva, Patricia, Debora, Rita, Sonia, Zete, Manuela, Samara, Gilka, Catilene, Cathy, Joilma, Elis, Marcia, Augusta, Andrelina, Leni, Renata, Helena, Gabriela, Lorena e tantas meninas dos olhos, do coração, de nossas mentes e corpos, de nossas vidas.

E para não dizer que só falei de flores, vai aí os espinhos: Odemar, Jayme, Andre, Jesser, Joelson, Tuninho, Fabiano, Alisson, Zelito, Antonio, Luis, Geraldo, José Geraldo, Lourival, Cedraz, Nildão...2012 está chegando aí gente.....

Descoberta silenciosa do mar

O primeiro contato é de encantamento. Ao folhear cada página a sensação é de crescente bem estar, um maravilhado que não tem como descrever em palavras. “Ondas”, livro de Suzy Lee é como um poema, que permite que a imaginação de cada pessoa escreva uma história. Assim, uma menina, gaivotas e o mar formam uma história de descobertas e aventura. Com poucos traços a carvão, a coreana Suzy Lee ilustrou em azul, preto e branco o ruído das águas, o bater de asas das gaivotas, o vento que balança o vestido da menina e a conversa silenciosa que se estabelece ao longo da narrativa. Na história, a garotinha encontra o mar pela primeira vez e Lee ilustra as diversas etapas da relação que se estabelece, aos poucos, com o mar: curiosidade, desconfiança, enfrentamento, desapontamento, susto, desdém, contentamento e confiança.


Para a autora, a descoberta do “prazer universal” de se divertir a beira-mar suscita uma série de sensações, recriadas em imagens pela artista. Ela maneja delicadamente um azul intenso, capaz de dar fluência à leitura deste livro sem palavras em que até mesmo a divisão das páginas serve de resumo para conduzir a narrativa. “Sempre que visito o mar, em qualquer lugar do mundo, vejo adultos e crianças se divertindo enquanto brincam com as ondas, sem distinção entre eles. Sempre tive o desejo de fazer um livro sobre este prazer universal, e quis mostrar tal encantamento através de imagens poderosas, que dizem mais que palavras”, diz ela.

Sobre a divisão física do livro destacando dois planos narrativos, de um lado da página, a segurança, da terra firme; de outro, o mar e seus mistérios, ela informa: “Duas páginas distintas representam também mundos de realidades e fantasias diferentes. Quando a menina cruza a divisão do livro, ela é absorvida para o centro físico do objeto e então emerge dele como uma Alice quando sai do espelho (em Alice no país do espelho). A dobra entre as duas páginas do livro é um dos temas que me interessam. Além disso, Onda é um tipo de sequência do meu livro anterior, Espelho (Edizioni Coraini, 2003), no qual abordei o mesmo assunto: nele, a menina acha seu amigo refletido na página dupla”.

O livro-imagem vendeu 100 mil exemplares em apenas um ano. Sucesso dos verões (e outras estações) em diversos países, foi publicado inicialmente nos Estados Unidos e já ganhou outras versões pelo mundo e finalmente desaguou no Brasil pela conceituada Cosac Naify, uma editora de qualidade. Suzy Lee ganhou com Onda os prêmios de Melhor Livro Ilustrado (lista The New York Times), Melhor Livro do Ano de 2008 (álbum infantil, pela Publishers Weekly) e Melhor Livro Infantil de 2008 (Wall Street Journal)

Crianças e adultos podem até construir a história de Onda de formas diferentes, vão se assemelhar na magia do encontro com o mar – o barulho das ondas, a imensidão azul, pegadas na areia. O mar representa o desconhecido, que espanta e atrai com seu poder e beleza. A garota traz com ela o gosto do novo, a necessidade de experimentar para conhecer e aprender. É assim, entre o rugir das ondas - que às vezes se lançam mais furiosas à praia - e a proteção das gaivotas, que a menina estabelece sua comunicação com o mar. Respeitar a natureza pode ser um dos ensinamentos com gosto de poesia do livro-imagem. Saber que, como a garotinha de Onda, todos vamos crescer e enfrentar desafios, é outro. Importa mais lançar nas páginas coração e mente para escrever sua própria história e descobrir que amizades nascem também de diferenças. É assim que a menina, inicialmente tímida e assustada, experimenta as delícias da água salgada e fria. O mar a recebe e também a expulsa, mas, no final, revela sua grandeza com os presentes jogados na areia.


Contar uma história sem palavras e ser capaz de criar uma narrativa que pode ser lida inúmeras vezes, descobrindo detalhes novos em cada experiência. E essa palavra – experiência – é apropriada para definir o que é ler Onda, da coreana Suzy Lee. A artista mostra como uma menina que vai pela primeira vez à praia, encara o mar. Com formato horizontal, as páginas abertas formam um horizonte de 60 cm. À esquerda, estão a areia, a menina e algumas gaivotas. À direita, o mar. A garotinha chega à praia com a mãe, e se aproxima lentamente do mar, foge, grita, encara e flerta co ele. Aos poucos, ganha coragem para por os pés na água. Começa a brincar até que uma onda maior a assusta. Ela sai correndo e mostra a língua – acha que está segura na areia. Mas a onda arrebenta numa das ilustrações mais bonitas do volume. Depois que o susto passa, o azul do mar invade o céu e, de repente, a infância está resumida numa imagem. A menina nunca tinha visto a água antes. No início, ficou furiosa com o mar, depois assustada. Mas aí começou a brincar com a onda. Depois de tanto o que acontecia, acabou gostando da onda. Ficou amiga dela. A história é uma história de amizade. Mas sem uma palavra.


O poeta pergunta: "A onda anda?/ aonde anda/ a onda?. O outro responde, "no alto de sua crista". Enquanto isso o artista canta: "O mar quando quebra na praia, é bonito, é bonito". Para que outras palavras se Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Dorival Caymmi já emprestam as suas ao mar? Ao longa das imagens deste livro a menina conversa, brinca e até "tira uma onda" na praia. Se os poetas dedicarem seus versos ao mar, aqui é a menina que ouvirá a poesia que vem de suas marolas.

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28 dezembro 2011

Pós-modernismo: estilo e subversão

Os anos 70 assistiram ao fim das chamadas grandes doutrinas, que tudo explicavam e rotulavam. As generalizações já não cabiam mais nesse caos criativo de um mundo em que tudo se cria, recria, copia e se cola. Gosto estético e ideologias à parte, é inevitável que a forma como vivemos a arte e o mundo hoje é fruto desse movimento que ousou dessacralizar os cânones. Tirou da arte formal a forna, deu forma de arte a objetos banais, fez do ordinário o extraordinário. De torradeiras a projetos arquitetônicos, de poltronas a capas de discos, de esculturas a figurinos de cinema e videoclipes.


Tudo ao mesmo tempo agora


Fenômeno artístico, arquitetônico, comportamental, filosófico, conhecido como pós-moderno ajudou a sacudir o século XX: Tudo ao mesmo tempo agora. Um mundo em que a arquitetura rui em função de uma forma que não serve mais. A pintura tem sua saciabilidade violada pela cópia xerox e pela bricolagem pura e simples. A moda que a tudo incorpora, digere e devolve em camadas de tecidos e ideias. A música que se apodera de melodias, tendências e recria um novo om. O cinema que a tudo absorve e a tudo espelha. Isso tudo é pós-moderno. E tudo, como definiu Karl Marx, é sólido mas desmancha no ar.


Tudo é sólido mas desmancha no ar


Uma das característica do pós moderno é a reação à ortodoxia do modernismo, à visão única do mundo. É a celebração da diversidade, da arquitetura do prazer, colorida e até kitsch. É levar a ironia às últimas consequências. O que dizer de uma simples, mas inusitada poltrona – Bel Air Chair, criada por Peter Shire – da Memphis, de 1982, onde arte e utilidade se encontram.


Copiam, recriam ideias, adicionam outras novas. Bricolagem


Em 1979 a cantora Grace Jones desfilou com o Vestido de Grávida Construtivista (ela posou de mãe e musa pós-moderna) que inspiram os figurinos Lady Gaga nos dias atuais. Hoje utilizam objetos simples, copiam, recriam ideias, adicionam outras novas. Bricolagem. Pode-se chamar de plágio. Há quem chame de canibalismo. Nossos modernistas de 22 talvez chamassem de antropofagia.


É brincar com a arte e subvertê-la. A brincadeira com o valor da arte, de compra, de venda, do dinheiro e do consumismo também era uma das maiores fontes de inspiração e crítica pós moderna. Aí é que entra o famoso Dollar Sign (cifrão) de Andy Warhol.


E o que dizer do longa de Ridley Scott, o melancólico Blade Runner que completa 30 anos em 2012 e é a síntese do pós-moderno. Na saga do caçador de androides Dick Deckard, estão o niilismo, a dúvida, o caos, o néon, e, sobretudo, a distopia que reinariam na Los Angeles de 2019. A Piazza d´Italia (1979), em plena New Orleans, é uma ode ao kitsch e, ao mesmo tempo, uma crítica ao estilo pastiche tão propagado pelos filósofos do pós-modernismo com Jean Baudrillard.


Niilismo, a dúvida, o caos, o néon, e, sobretudo, a distopia


O termo "pós-modernidade" é de ampla definição e foi cunhado pelo famoso historiador britânico Arnold Joseph Toynbee (1889-1975) na década de 1940, quando escrevia os seus doze volumes intitulados Um Estudo da História. Toynbee era um filósofo católico, porém influenciado pelo hinduísmo. Segundo Toynbee, a pós-modernidade se caracteriza especialmente pela decadência da cultura ocidental, do cristianismo e de tudo o que é absoluto. Resumindo, no pós-modernismo, morre o cristianismo e sua única verdade absoluta (Jesus Cristo) e tudo passa a ser relativo.


A simulação cria um perfeito simulacro da realidade


Alguns filósofos franceses também debruçaram-se sobre o tema da pós-modernidade, entre eles, Jean-François Lyotard, Michel Maffesoli e Jean Baudrillard. Para Baudrillard, nos tempos pós-modernos ocorrerá o "domínio do simulacro" onde será possível a substituição do mundo real por uma versão simulada tão eficaz quanto a realidade. Em outras palavras, a simulação cria um perfeito simulacro da realidade, como um sonho tão vívido que, ao "acordarmos", não conseguimos distinguir entre ilusão e verdade. O filme Matrix é um bom exemplo disso.


Um dos primeiros pensadores a desenvolver uma teoria abrangente e coerente sobre a pós-modernidade foi o filósofo francês Jean-François Lyotard com o seu livro “A Condição Pós-Moderna”, lançado em 1979. Outros pensadores associados à ideia de pós-moderno são Michel Foucault, Jacques Derrida e Jean Baudrillard.


Gilles Lipovetsky acredita na hipermodernidade


Para o intelectual marxista Fredric Jameson, o pós-modernismo representa uma nova fase do capitalismo, em que uma série de transformações tecnológicas impactou na ascensão de novas formas de relação de consumo e de movimentações do capital financeiro. Já o filósofo Gilles Lipovetsky acredita que, em vez de pós-modernidade, o que estamos vivenciando é justamente uma exacerbação dos valores da Era Moderna. A esse fenômeno ele deu o nome de “hipermodernidade”.


Para Jair Ferreira dos Santos em O que é pós-moderno (Ed. Brasiliense, 1987) pós-modernismo é o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção, se encerra o modernismo (1900-1950). Ele nasce com a arquitetura e a computação nos anos 50. Toma corpo com a arte Pop nos anos 60. Cresce ao entrar pela filosofia, durante os anos 70, como crítica da cultura ocidental. E amadurece hoje, alastrando-se na moda, no cinema, na música e no cotidiano programado pela tecnociência (ciência + tecnologia invadindo o cotidiano com desde alimentos processados até microcomputadores), sem que ninguém saiba se é decadência ou renascimento cultural.

Em sua origem, pós-modernismo significava a perda da historicidade e o fim da "grande narrativa" - o que no campo estético significou o fim de uma tradição de mudança e ruptura, o apagamento da fronteira entre alta cultura e da cultura de massa e a prática da apropriação e da citação de obras do passado. A obra de Frederic Jameson, "Pós-Modernismo" (1991), enumera como ícones desse movimento:


na arte, Andy Warhol e a pop art, o fotorrealismo e o neo-expressionismo;


na música, John Cage, mas também a síntese dos estilos clássico e "popular" que se vê em compositores como Philip Glass e Terry Riley e, também, o punk rock e a new wave";


no cinema, Godard;


na literatura, William Burroughs, Thomas Pynchon e Ishmael Reed, de um lado, "e o nouveau roman francês e sua sucessão", do outro.


Na arquitetura, entretanto, seus problemas teóricos são mais consistentemente articulados e as modificações da produção estética são mais visíveis.


O pós-modernismo afirma que a linguagem não pode expressar verdades a respeito do mundo de um modo objetivo. "A linguagem, por sua própria natureza, dá forma ao que pensamos. Visto que a linguagem é uma criação cultural, o significado é, em última análise, uma construção social." Os valores do pós-modernismo não são pessoais, mas sociais, da cultura. O verdadeiro significado das palavras é parte de um sistema fechado de uma cultura, que não faz sentido para uma outra cultura. (Este artigo é dedicado a Sonia Elizabeth, a paulista mais baiana que conheço, com olhos construtivista e espírito crítico realista

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27 dezembro 2011

O mar da vida (2)

“O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”. Há um registro de poesia popular no pior momento da seca de 1887, na Paraíba que diz: “É-me preciso mudar/ Da terra que amo e moro/Terra que muito adoro,/ A minha pátria natal/Magino na beira-mar,/ Me entristece o coração,/Lagadiço, lameirão,/Pois a fome não é peca,/Nesta tão terrível seca,/ Foge, povo do sertão!” Os compositores Sá e Guarabira profetizaram: Vão mexer no rio São Francisco. “O homem chega já desfaz a natureza/Tira gente põe represa, diz que tudo vai mudar /O São Francisco lá pra cima da Bahia/ Diz que dia menos dia, vai subir bem devagar/E passo a passo, vai cumprindo a profecia/ Do beato que dizia que o sertão ia alagar/O sertão vai virar mar/ Dói no coração/ o medo que algum dia/O mar também vire sertão”.


A água potável é um recurso finito, que se reparte desigualmente pela superfície terrestre. Em seu ciclo natural a água é um recurso renovável, mas suas reservas não são ilimitadas. Diversos especialistas têm alertado que, se o consumo continuar crescendo como nas últimas décadas, todas as águas superficiais do planeta estarão comprometidas daqui a alguns anos. A carência de água é resultado da combinação de efeitos naturais, demográficos, sócio-econômicos e até culturais. Chuvas escassas, alto crescimento demográfico, desperdício e poluição de mananciais se combinam para gerar uma situação denominada de “estresse hídrico”.


A escassez de água em áreas do mundo, especialmente no Oriente Médio, tem feito surgir tensões geopolíticas geradas por conta da disputa pelo domínio e utilização de fontes de água, especialmente rios, quando estes atravessam regiões de vários Estados. Um dos pontos da explosiva Questão Palestina diz respeito à utilização das fontes hídricas existentes na Cisjordânia, região localizada junto ao baixo vale do rio Jordão. Síria, Iraque e Turquia há muito tempo vêm tendo desavenças sérias no que diz respeito à utilização das águas dos rios Tigre e Eufrates, que têm suas nascentes em território turco mas, que cruzam áreas dos outros dois países. Muitos especialistas já chegam a afirmar que os eventuais conflitos que ocorrerem no Oriente Médio ao longo do século XXI serão causados cada vez mais pela água e cada vez menos pelo petróleo.


Apesar de 75% da superfície do planeta ser recoberta por massas líquidas, a água doce não representa mais que 3% desse total. O problema é que apenas um terço da água (presente nos rios, lagos, lençóis freáticos superficiais e atmosfera) é acessível. O restante está imobilizado nas geleiras, calotas polares e lençóis freáticos profundos. Atualmente cerca de 50% das terras emersas já enfrentam um estado de penúria em água. De cada cinco seres humanos, um está privado de água de boa qualidade para consumo e cerca de metade dos habitantes do planeta não dispõe de uma rede de abastecimento satisfatória. Ao longo do século XX, a população mundial foi multiplicada por três, as superfícies irrigadas por seis e o consumo global de água por sete. Ao mesmo tempo, nas últimas cinco décadas, a poluição dos mananciais reduziu as reservas hídricas em um terço.


Os recursos disponíveis atualmente poderiam ser utilizados de forma mais eficaz se fossem reduzidas a poluição, desenvolvidos processos de reciclagem das águas, houvesse uma melhor conservação das redes de distribuição, fosse evitado o desperdício e aceleradas as pesquisas sobre culturas agrícolas menos exigentes à água e mais tolerantes ao sal. A dessalinização da água do mar só é realizada em poucos países e, mesmo assim, as quantidades obtidas não cobrem as grandes necessidades.


Quatro grandes bacias hidrográficas – Amazônica, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná - são responsáveis por 85% de nossa produção hídrica. Apesar do Brasil possuir abundância de águas superficiais, esses recursos hídricos não estão distribuídos eqüitativamente pelo território. A aparente abundância de água no Brasil tem sustentado uma cultura de desperdícios, enquanto legitima a carência de investimentos em programas de uso e proteção de mananciais.


O Brasil celebrou em janeiro deste ano uma década de sanção da Lei das Águas, que criou a Política Nacional de Recursos Hídricos. Um dos poucos centros dessa lei – inspirada no modelo francês, que permite a administração participativa e descentralizada dos recursos hídricos – estabelece que a gestão deve ser realizada por bacia hidrográfica e que a água passa a ter valor econômico. Na opinião de especialistas no tema, mesmo com a vigência por dez nos da Lei das Águas, atualmente a gestão dos recursos hídricos no Brasil ainda é incipiente. Uma das principais falhas apontadas se refere à pequena participação pública nos comitês de bacias.


“E não há melhor resposta/ que o espetáculo da vida:/vê-la desfiar seu fio,/ que também se chama vida,/ver a fábrica que ela mesma,/ teimosamente, se fabrica,/vê-la brotar como há pouco/ em nova vida explodida;/mesmo quando é assim pequena/ a explosão , como a ocorrida;/mesmo quando é uma explosão/ como a de pouco, franzina;/mesmo quando é uma explosão/ de uma vida severina” (Morte e Vida Severina:auto de Natal pernambucano,de João Cabral de Melo Neto)

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

26 dezembro 2011

O mar da vida

A vida começou no mar, o local das nossas origens. O mar, o oceano, as águas salgadas, os rios doces que nos separam e nos unem para fora e para dentro de nossas identidades múltiplas e únicas. Não dá para esquecer o mar de Fernando Pessoa (“Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!”), dos jangadeiros do nordeste, de Caymmi (“O mar quando quebra na praia/É bonito, é bonito”), o mar dos navegadores portugueses, o mar de Castro Alves e de Gonçalves Dias, o mar de João Bosco (“Sou caçador de tesouros/Nas minas do mar”), o mar de Chico Buarque (“Sei que há léguas a nos separar/Tanto mar, tanto mar”), e de Tom Jobim (“O resto é mar, é tudo que não sei contar/São coisas lindas que eu tenho pra te dar”), o mar morte de Jorge Amado e o vivo de Gabriela, cravo e canela e o mar mito da origem e da consumação, o mar de Camões.


A superfície do planeta Terra é recoberta por uma imensa massa líquida (cerca de 71%) que alguns chamam de oceano mundial, tradicionalmente dividido em entidades geográficas menores - o Pacífico, o Atlântico, o Índico, o Ártico. Cada um deles engloba diversas porções menores, os mares, delimitados normalmente por ilhas ou por recortes do litoral. Os oceanos desempenham papel crucial no equilíbrio natural da Terra, especialmente por atuarem como reguladores térmicos. As influências oceânicas diretas sobre as áreas continentais, de maneira geral, não chegam além dos 100 quilômetros da costa. Contudo, é justamente nas áreas distantes até cerca 60 quilômetros do litoral que se concentra perto de 75% da população mundial. Tudo o que ocorre nos oceanos, inclusive as diversas formas de poluição, interessa direta ou indiretamente à maioria da humanidade.


Os oceanos são locais de passagem, de contatos comerciais e culturais e também fontes de recursos bastante diversificados. A tradicional atividade pesqueira e a extração do petróleo têm se verificado de forma cada vez mais intensa. Em função da importância econômica dessas riquezas, a exploração dos espaços marítimos constitui, cada vez mais, objeto de competição internacional. Em várias regiões do mundo ocorrem disputas de soberania sobre áreas oceânicas. Gregos e turcos, há décadas, discutem a soberania sobre espaços marítimos do Mar Egeu, que abriga sob a plataforma continental importantes jazidas petrolíferas. Ilhas oceânicas também são focos de disputa: a China e outros quatro países do Sudeste Asiático disputam a posse de alguns arquipélagos do Mar da China Meridional. As Ilhas Curilas são, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, foco de controvérsias entre Rússia e Japão. O arquipélago das Malvinas (ou Falkland) foi o epicentro da guerra que envolveu a Grã Bretanha e a Argentina, em 1982.


Durante muito tempo o homem acreditou que os oceanos pudessem ser uma espécie de "lixeira" do planeta. As imensas massas líquidas dos oceanos seriam capazes de "digerir" a sujeira e o lixo lançados por cidades e indústrias. No último século, contudo, o desenvolvimento urbano-industrial e o acelerado crescimento demográfico geraram quantidades extraordinárias de dejetos orgânicos e inorgânicos. A continuidade do lançamento de dejetos nos oceanos poderá comprometê-los seriamente, como fonte de alimentos e área de lazer para as gerações futuras.


A ação do homem sobre a natureza muitas vezes tem sido nefasta, causando problemas graves não só para o meio ambiente mas também para as próprias sociedades humanas. Um dos maiores desastres ambientais e humanos que se tem notícia vem se verificando nas últimas décadas na Ásia Central, mais especificamente nas regiões próximas do mar de Aral. Esse mar, que na verdade é um lago, abrange terras do Casaquistão e do Usbequistão, duas repúblicas que, até 1991, faziam parte da extinta União Soviética. Em língua turca, o Aral é comparado à uma ilha: “uma ilha de água num mar de desertos”. O recuo da superfície do mar foi deixando em seu leito seco milhares de hectares de áreas desérticas, recobertas por sais que os ventos dispersam por uma vasta região. A água residual do mar, assim como aquela do curso inferior dos rios tiveram seu teor de sal aumentado assim como a carga de resíduos químicos e bacteriológicos fruto da utilização abusiva de adubos, pesticidas e desfolhantes químicos.


À catástrofe ambiental, aliou-se a decadência econômica e social da região que já figurava como uma das mais pobres de toda a ex-URSS. Mais de um milhão de pessoas já estão ou estarão expostas à ameaças de poluição tóxica, resultantes de uma múltipla contaminação química em seus corpos. Dentre os habitantes da região, as mulheres e as crianças são as mais afetadas. Nos últimos 20 anos houve um aumento brutal de doenças que atacam os rins, o fígado, especialmente câncer, como também um incremento desmesurado de doenças artríticas e bronquite crônica. A independência das repúblicas da antiga Ásia Central soviética em 1991, acendeu esperanças de melhora da situação. Os programas de assistência colocados em prática, especialmente por organizações internacionais, todavia, surtiram pouco efeito. Contudo sua presença tem possibilitado alertar a opinião pública internacional para a situação dramática vivida pelas populações atingidas pela catástrofe, vítimas de políticas econômicas absurdas postas em prática por governos autoritários.


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