Mostrando postagens classificadas por data para a consulta João Gilberto. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta João Gilberto. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

06 agosto 2022

Decifrando a transa (1972) de Caetano Veloso

 

Gravado integralmente em Londres, Transa (1972) é o terceiro disco solo de Caetano Veloso e um dos melhores do artista. Ele reuniu os amigos Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza para o trabalho de gravação, uma mistura de línguas, ritmos e sonoridades inspiradas nas sete faixas. Transa, transe e trânsito estão relacionados com o experimentalismo e as tranças litero-musicais do poeta Gregório de Matos (Triste Bahia), do compositor popular Monsueto (Mora na Filosofia), na homenagem aos Beatles (You Don´t Know Me – Você Não Me Conhece), João Gilberto (em um trecho de Saudosismo), Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Zé do Norte (“os óio da cobra verde”), Edu Lobo (“laia, ladaia, sabatana Ave-Maria”), entre outras preciosidades em seu processo de criação.

 


Se o LP anterior tinha tons sombrios da cinzenta paisagem londrina (Caetano Veloso, 1971), onde a capa traz um close do rosto do artista com fisionomia fechada e um espesso agasalho de pele e a vasta cabeleira em um exílio forçado, o disco de 1972 é o retorno, onde o Caetano múltiplo pede para ser decifrado. Você não me conhece, ele assume na primeira faixa.

 


A sensual "You don´t know me" abre o disco com um excelente arranjo acústico e um Caetano sutil e interpretativo. A música incidental cantada por Gal Costa (Saudosismo) foi gravada originalmente por Caetano no compacto duplo com os Mutantes. “Por que não me mostra (o que está) atrás do muro?”, ele pede cantando.

 


You don’t know me/Bet you’ll never get to know me/You don’t know me at all/Feel so lonely/The world is spinning round slowly/There’s nothing you can show me/From behind the wall//"Nasci lá na Bahia/De mucama com feitor/O meu pai dormia em cama/Minha mãe no pisador"//"Laia ladaia sabadana Ave Maria/Laia ladaia sabadana Ave Maria"//"Eu agradeço ao povo brasileiro/Norte, Centro, Sul inteiro/Onde reinou o baião"

 


Em seguida, o bilingüismo de "Nine out of ten" (Nove em Cada Dez) é acompanhado por uma levada meio samba, meio nordestina com uma sonoridade repleta de ecos, lembrando um show ao vivo. “A minha melhor música em inglês. É histórica. É a primeira vez que uma música brasileira toca alguns compassos de reggae, uma vinheta no começo e no fim. Muito antes de John Lennon, de Mick Jagger e até de Paul MacCartney. Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley e The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70”, revelava Caetano na época. A música reflete a expansão do eu, o encontro do poeta com o prazer de viver, livre (“I´m alive”)

 


Walk down Portobello road to the sound of reggae/I’m alive/The age of gold, yes the age of/The age of old/The age of gold/The age of music is past/I hear them talk as I walk yes I hear them talk/I hear they say/Expect the final blast/Walk down Portobello road to the sound of reggae/I’m alive//I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo/Feel the sound of music banging in my belly/Know that one day I must die/I’m alive//I’m alive and vivo muito vivo, vivo, vivo/In the Eletric Cinema or on the telly, telly, telly/Nine out of ten movie stars make me cry/I’m alive/And nine out of ten film stars make me cry/I’m alive

 


E o baiano explora composições antigas como a bela "Mora na filosofia" (de Monsueto Menezes e Arnaldo Passos) carregado de tristeza e terminando como uma catarse, ou mesmo a impactante "Triste Bahia" onde mistura Gregório de Mattos com o samba de roda e jingadas de capoeira.. Há uma sonoridade crescente dos instrumentos afro-brasileiros, a começar pelo som do berimbau.

 

Triste Bahia, oh, quão dessemelhante…/Estás e estou do nosso antigo estado/Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado/Rico te vejo eu, já tu a mim abundante/Triste Bahia, oh, quão dessemelhante/A ti tocou-te a máquina mercante/Quem tua larga barra tem entrado/A mim vem me trocando e tem trocado/Tanto negócio e tanto negociante//Triste, oh, quão dessemelhante, triste/Pastinha já foi à África/Pastinha já foi à África/Pra mostrar capoeira do Brasil/Eu já vivo tão cansado/De viver aqui na Terra//Minha mãe, eu vou pra lua/Eu mais a minha mulher/Vamos fazer um ranchinho/Tudo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua/E seja o que Deus quiser//Triste, oh, quão dessemelhante/ê, ô, galo canta/O galo cantou, camará/ê, cocorocô, ê cocorocô, camará/ê, vamo-nos embora, ê vamo-nos embora camará/ê, pelo mundo afora, ê pelo mundo afora camará/ê, triste Bahia, ê, triste Bahia, camará/Bandeira branca enfiada em pau forte…//Afoxé leî, leî, leô…/Bandeira branca, bandeira branca enfiada em pau forte…/O vapor da cachoeira não navega mais no mar…/Triste Recôncavo, oh, quão dessemelhante/Maria pegue o mato é hora…/Arriba a saia e vamo-nos embora…/Pé dentro, pé fora, quem tiver pé pequeno vai embora…//Oh, virgem mãe puríssima…/Bandeira branca enfiada em pau forte…/Trago no peito a estrela do norte/Bandeira branca enfiada em pau forte…/Bandeira…”.

 

Segue a canção “It's a Long Way” que faz referências explícitas aos Beatles. Começa lenta, termina como começou, mas da metade até quase o fim vai crescendo e agregando aos versos da canção alguns outros versos de músicas antigas. Lembrando os Beatles naquela canção “The Long And Winding Road” (no LP Let it Be) ele canta “It´s a Long Way” (É Um Longo Caminho) com um registro de voz que passa por vários estágios, de alegria e tristeza, onipotência e fragilidade. (Acordei esta manhã cantando uma uma velha canção dos Beatles). Há sutilezas na pronuncia da palavra “long” onde se pode entender “lone” (só) e “London”, lugar do exílio. E a composição agrupa baião, rock, bossa nova numa versatilidade apaixonante. A música é toda baiana, no ritmo cadenciado, bom de se ouvir na rede. Haja balanço.

 

Woke up this morning/Singing an old, old Beatles song/We’re not that strong, my lord/You know we ain’t that strong/I hear my voice among others/In the break of day/Hey, brothers/Say, brothers/It’s a long, long, long, long… way//Os óio da cobra verde/Hoje foi que arreparei/Se arreparasse há mais tempo/Não amava quem amei//It’s a long, long, long, long… way//Arrenego de quem diz/Que o nosso amor se acabou/Ele agora está mais firme/Do que quando começou//It’s a long road, it’s a long, long, long, long…/It’s a long road, it’s a long and widing road…/Long and widing… road/It’s a long road, it’s a long, long, long, long…//A água com areia brinca na beira do mar/A água passa e a areia fica no lugar//It’s a hard… hard, long way//E se não tivesse o amor/E se não tivesse essa dor/E se não tivesse sofrer/E se não tivesse chorar/E se não tivesse o amor//No Abaeté tem uma lagoa escura/Arrodeada de areia branca…/Woke up this morning…

 

Há levadas experimentais como "Neolithic Man" que não perde o ar brasileiro e a poética atemporal em torno do olhar (“você não me verá/você não verá”), do conflito entre o ver e o não-ver.

 

I’m the silence that’s suddenly heard/After the passing of a car/I’m the silence that’s suddenly heard/After the passing of a car/I’m the silence that’s suddenly heard/After the passing of a car/Spaces grow wide about me/Spaces grow wide about me/If you look from your window at the morning star/You won’t see me…/You’ll only see…/That you can’t see very far/God spoke to me/You’re my son/And my eyes swept the horizon/Away/Que tem vovó pelanca só/Que tem vovó pelanca/You won’t see me…/Spaces grow wide about me

 

O disco se encerra com “Nostalgia (That's What Rock'n'Roll is All About)”, homenagem ao rock-blues curto, de duas estrofes rápidas, com o detalhe de Gal Costa imitar gaita na primeira e, na segunda, a gaita "real" ser tocada por Angela Ro Ro. E na composição ele revela valores contrário à ideologia burguesa como o acordar tarde, roupas extravagantes, movimento hippie e o comportamento marginal.

 


You sing about waking up in the morning/But you’re never up before noon/You look completely different from those straights/Who walked around on the moon/The clothes you wear/Would suit and old times baloons/You’re allways nowhere/But you’ll realize pretty soon/That’s all that you care/Isn’t worth a twelve bar tune//You won’t believe you’re just one more flower/Among so many flowers that sprout/You just feel faintly pround when you hear they shout/Very loud: "you’re not allowed in here, get out"/That’s what rock’n’roll is all about/That’s what rock’n’roll is all about/I mean, that’s what rock’n’roll was all about.

 


O que se observa nesse trabalho é a mistura de nosso ritmo com a sonoridade estrangeira, numa fusão de qualidade e profundidade pouco realizada antes dele. Em seu processo criativo ele utilizou da estética da inclusão, o uso da repetição (para o fluir do som) e transformar essa expressão artística (a música) como uma linguagem que permite transportar o ser ao infinito. Há nesse disco um trabalho afinado e identificado com experiências renovadoras do som. Para ouvir e re-ouvir sempre.

04 agosto 2022

Caetano Veloso: 80 anos de vida (02)

 

“Caetano Veloso é, certamente, uma das mais 'inexplicáveis' personalidades brasileiras. Não apenas por ser um artista polêmico e camaleônico, cuja força sempre esteve na capacidade de escapar às classificações e desautomatizar chaves convencionais de interpretação, mas também por se tratar de alguém que não cansou de se auto explicar ao longo dos seus quarenta nos de vida artística (iniciada em 1965), a ponto de parecer esgotar tudo o que de novo se poderia dizer a seu respeito. Ao mesmo tempo, continua a atrair para si a atenção de um público imenso – dentro e fora do país -, mantendo-se como um foco de controvérsias a exigir sempre novas explicações. Quer dizer: a 'explicação', aqui, não e dispensável ou redundante. Na verdade, ao atacar a autonomia formal da canção, incluindo uma série de elementos no seu interior – encenação, ruídos, referências visuais, cultura de consumo -, o tropicalismo deu ao discurso conceitual um papel construtivo, transformando a música brasileira em um campo de cruzamento onde as coisas estão todas postas em estado de explicação”, escreveu o arquiteto e ensaista Guilherme Wisnik no livro Caetano Veloso. Folha Explica, 2005.

 


Nos anos 70 compôs músicas de sucesso como Tigresa, Odara, Leãozinho e Sampa.

 

Nos anos 1980, Caetano Veloso continuou gravando e produzindo discos, como "Outras Palavras", "Cores, Nomes", "Uns" e "Velô". Em 1986, comandou, ao lado de Chico Buarque, o programa de televisão "Chico & Caetano", onde cantavam e recebiam convidados.

 


Nos anos 1990, voltou a fazer sucesso com o disco "Circuladô", cuja faixa-título era baseada num poema de Haroldo de Campos. Logo em seguida, "Tropicália 2" refez a parceria entre Caetano e Gil.

 


“...Caetano Emmanuel Viana Telles Veloso é o mais imaginativo, versátil e polêmico poeta-compositor no Brasil contemporâneo. Apesar deste compositor der talento versátil conhecer bem as tradições musicais populares, o que mais distingue sua carreira é a experimentação, a inovação e a adaptação criativa de diversos modelos musico-poéticos, muitos deles estrangeiro (…). As primeiras ambições musicais de Caetano ligam-se a objetivos poéticos. Referindo-se ao seus primeiros anos de compositor, ele revela: 'De minha parte, tentava fazer uma poesia como a de Lorca, partindo dos samba de roda de Santo Amaro, tratando-as à maneira de Caymmi, revisto por João Gilberto'. Estas intenções iniciais se expandem quando, em 1965, o jovem compositor se muda para São Paulo e começa a discutir ativamente a expressão musical justamente com outros artistas que estavam surgindo”, escreveu o professor Charles A. Perrone no livro Letras e Letras da MPB (Elo Editora, 1988).

 

Em 1997, saiu o primeiro livro de Caetano, "Verdade Tropical" (Editora Companhia das Letras), um relato pessoal sobre sua visão de mundo. Seu disco "Livro", de 1998, ganhou o prêmio Grammy em 2000, na categoria World Music. Em 2002, Caetano publicaria outro livro sobre a Tropicália: Tropicália – uma história de música e revolução no Brasil.

 


Caetano é um sebastianista joãogilbertiano

 

“Caetano é polêmico, como todos os que retiram da palavra o fundamento estruturador de existências radicais. É importante, como os que escapam do senso comum e investem na afirmação do direito à diferença. Caetano, a cada passo, se realimenta o impulso revitalizador (e sempre atual) que o projeta como liderança natural, consciente e responsável, não se deixando capturar como produto massificado e manipulado. Sem a arrogância dos impostores, tem oferecido, ao longo de quase três décadas, criações que o tornam, simultaneamente, um poeta planetário e brasileiro. Raros são os que conseguem, de fato, harmonizar angulações diversas”, escreveu Ivo Lucchesi e Gilda Korff Dieguez no livro Caetano. Por que não/ Uma viagem entre a aurora e a sombra (Leviatã Publicações, 1993).

 

Ainda na apresentação da extensa obra (400 páginas), eles concluem: “Ser Caetano hoje, portanto, em meio à grandeza de tantos contemporâneos, é tarefa para quem soube ir fundo, retornar à superfície e, por fim, poder dizer: eu sou eu e minha vontade; eu sou os outros na minha verdade. Afinal, um ser-palavra que fundou uma dicção e se move na contradi (c) ção, ocupando a interdi (c) ção dos tempos brasileiros”.

21 fevereiro 2022

Super heróis brasileiros estão de volta

 

A década de 1960 foi muito movimentada. Os hippies surgiram com seu flower power e depois de um apogeu, em Woodstock, sumiram inteiramente. Ainda na moda, dominava batas, colares, brincos, estampados. Era o psicodelismo. Todos se abriram aos filósofos orientais, às aventuras sentimentais, ao exotismo de outras geografias, à vida no campo. Os quadrinhos se liberam com o movimento underground. Aparecem heroínas – Barbarella, Valentina -, reflexo dos movimentos feministas. Ziraldo lança o gibi Pererê, a primeira a refletir toda a euforia de uma época, com personagens tipicamente brasileiros. Henfil cria Os Fradinhos. Mauricio de Sousa cria os personagens Mônica, Cascão e Chico Bento. O maior mito do cinema novo, Glauber Rocha torna-se símbolo de sucesso do cinema brasileiro no exterior com os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.

 


A bossa nova viajou muito bem para os EUA, onde todo mundo dançava o twist. O destaque era para o talento elegantíssimo de Tom Jobim e o canto de João Gilberto. Depois, surgiram os Beatles marcando o início da fase iê-iê-iê e da fama mundial, e Londres virou a swinging city. No comando da Jovem Guarda, Roberto e Erasmo Carlos arrebatam as paradas com versões de rock estrangeiros, doces baladas e novos padrões de comportamento jovem. Armados de guitarras e discursos inflamados, Caetano Veloso e Gilberto Gil semeiam a polêmica nos festivais de MPB, colhem prestígio e inventam a Tropicália. Foi o período do protesto. Profeta do protesto, o cantor popular Bob Dylan estoura nas paradas com a composição Blowin´in the Wind (Soprando no Vento) e torna-se um hino do movimento pelos direitos civis. Jimi Hendrix reinventou a guitarra elétrica e trouxe o blues para a era da eletrônica. O explosivo grupo de rock Rolling Stones cantou os sonhos de revolta de uma geração. Andy Warhol, James Rosenquist e Roy Lichtenstein anunciam a pop art, arte adequada para a sociedade de consumo.

 


Os empresários José Sidekerskis, Victor Chiodi, Heli Otávio de Lacerda, Cláudio de Souza, Arthur de Oliveira e Miguel Penteado criaram, em 1959 a editora Continental, que tempos depois seria rebatizada de editora Outubro (a partir de 1961). Sediada num pequeno prédio de no bairro paulistano da Moóca, a Outubro só publicava quadrinhos de autores nacionais. Nas suas publicações se consagraram grandes nomes das HQ como Flávio Colin, Júlio Shimamoto, Aylton Thomaz, Inácio Justo, Getúlio Delphim, Gedeone Malagola, Sérgio Lima, Juarez Odilon, Nico Rosso, Lyrio Aragão, Luís Saidenberg, Gutemberg Monteiro e tantos outros, sob a direção artística de Jayme Cortez. A editora acabou em 1966. Mas continuou, com nova direção, com o nome mudado para Taika. Os quadrinhos clássicos brasileiros estão sendo editados pela Criativo junto com o selo GRRR!. Entre os heróis estão: Homem Lua, Pele de Cobra, Fantastic, Pabeyma, a Espiã de Vênus, Aba Larga, Patrulheiro Fantasma.  Tem ainda heróis brasileiros publicados pela editora em outra série como Homem Fera, Superargo, Fantar, Gato, Carrasco, Fikom, entre outros.

 


Em 1968 o jovem Fernando Ikoma começou a publicar pela Editora Edrel, de São Paulo, a ESPIÃ DE VÊNUS – Série de ficção científica que conta a ação de Sibele, uma agente do planeta Vênus em missão na Terra. Sibele, que teve poucas HQs publicadas, duas em revista própria (ambas presentes na edição lançada pela Criativo) e mais algumas distribuídas em revistas diversas da editora Edrel.

 


A contracultura foi um movimento forte na década de 60, consolidando os roadie-movies, filmes ambientados na estrada, geralmente de conteúdo maduro, com questionamentos sócio-políticos ou existenciais. E foi nesse clima que nasceu o PELE DE COBRA, um ex-militar que larga tudo para viver na estrada, dormindo em pousadas decadentes ou mesmo ao luar, tendo por única companhia sua potente moto. Trajando uma vistosa jaqueta de couro de ofídeo, Criado por Eugenio Colonnese, Rivaldo Amorim de Macêdo em 1967 e publicado pela GEP (Gráfica Editora Penteado). Seu nome deve-se à sua jaqueta de couro de cobra que ele sempre usa em suas HQs. Em vez de máscara e superpoderes, o Pele de Cobra era um motoqueiro sem destino, acostumado a acampar nas terras inabitadas que circundavam as rodovias. Com o fim da GEP, o herói foi cancelado, permanecendo no limbo por mais de 30 anos. Em 2001 a editora Ópera Graphica trouxe de volta o Pele de Cobra e diversos heróis de Colonesse num álbum chamado "A última missão". Desenhado por Watson Portela e escrito por Franco de Rosa, a trama girava em torno do Cobra e de vários heróis dos anos 60, muito deles à beira da aposentadoria e decadentes. Era um quadrinho avançado que antecedeu em mais de uma década o seriado Carga Pesada, da rede Globo, que abordava temas e situações semelhantes.

 


O paulistano Gedeone Malagola lançou O HOMEM LUA no formato de tiras diárias em 25 fevereiro de 1965 no jornal paulistano Diário Popular, em uma única aventura de 24 capítulos. Inspirado no herói norte-americano Fantasma (The Phantom), o misterioso Homem Lua mora na metrópole paulistana, mas possui uma base de atuação escondida na floresta amazônica, onde é conhecido e respeitado por todas as tribos indígenas da região. Sem limites geográficos, o herói também combate ameaças em outros países e continentes, graças ao seu velocíssimo Jato Lua. Em 1967 é lançao o primeiro número do personagem em revista própria. O herói teve 12 HQs completas produzidas nos anos 60, além da primeira aventura, publicada em tiras. Depois disso, Gedeone nunca mais retomou o personagem.

 


Também estreando em tiras diárias no Jornal Paulista, em 1964 estava o super herói PABEYMA, com desenhos de Carlos Cunha. O novo visual do personagem veio, em 1968, quando passou a ser publicado como gibi mensal da editora Edrel (SP), desenhado por Paulo Fukue e escrita por Wilson Cunha, Nelson Ciabattari e Cunha. Suas aventuras se passavam em um mundo de criaturas evoluídas, de animais como pássaros, repteis, cavalos, etc. O herói não usava máscara, mas um uniforme verde e amarelo. Ele emerge numa tribo indígena brasileira, sendo chamado pelos índios de Pabeyma, que em tupi guarani significa imortal, aquele que dorme na caverna. A saga ocorre no futuro da Terra. O herói-diplomata, ser genético criado artificialmente, mas impregnado da alma tupi-guarani, vai até o planeta Marte resolver uns problemas desencadeados pela vaidade de uma orgulhosa rainha. As intenções pacíficas de Pabeyma fracassam e ele é obrigado a lutar contra um imenso eunuc e até mesmo contra sua majestade – o que nosso herói não sabia era que, de acordo com as leis de Marte, aquele que vencesse a rainha em combate, era obrigado a desposá-la em matrimônio.

 


ABA LARGA representa um movimento no Sul do Brasil, integrando um conturbado momento político brasileiro ligado a Leonel Brizola, que apoiava a nacionalização da HQ, através da Cooperativa Editora de Trabalhos de Porto Alegre (CETPA). A CETPA pretendeu implantar no Brasil um modelo de distribuição de HQ’s e outros formatos a ela ligados na época – como álbuns de figurinhas e revistas infantis – para todo o Brasil, nos moldes dos grandes syndicates norte-americanos. Criação de Getulio Delphim, em 1962. “Os Abas Largas” era como denominavam a Polícia Montada do popular 1º Regimento de Cavalaria da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, nos pampas gaúchos em virtude do chapéu que servia de cobertura no uniforme. Teve somente três edições. Os Abas Largas foram inspirados na Polícia Real Montada do Canadá, policiais de renome e fama internacional.

 


O quadrinhista Rubens Cordeiro (o Rubão) introduziu no segundo número da revista Pele de Cobra, um misterioso personagem, o PATRULHEIRO FANTASMA, em 1967. Tratava-se do espírito de um policial rodoviário que patrulhava as estradas brasileiras, sobretudo a noite, ajudando pessoas em dificuldades, em particular caminhoneiros vítimas de assaltos. Foi uma HQ curta de apenas cinco páginas, mas que serviu para despertar a curiosidade dos leitores.

 

 


CAPITÃO GUITARRA  também conhecido como Golden Guitar, criado por Rubens Cordeiro (arte-final) em 1967. O lápis da maioria das histórias era de Apa (Benedito Aparecido da Silva). Na identidade secreta, Capitão Guitarra era o cantor pop Renato Fortuna, calcado em Roberto Carlos, sucesso da época da Jovem Guarda. Vestido um uniforme azul e vermelho, o herói combatia bandidos como o Cabeleira e o Violinista a bordo de seu carrão Abarth, levando a tiracolo uma guitarra dourada que disparava dardos tranquilizantes, gás lacrimogêneo e outros truques especiais. Seus amigos eram os músicos da banda Os Taiobas: Beto, Bolão e Bolha. Sua namorada era Verinha. Mesmo com um visual descolado, a revista não passou do quarto número.

 

No final dos anos 80 e o casal Ataíde Braz e Neide Harue resolveu produzir a saga de SKORPION. Num futuro próximo (2030), o mundo está moralmente devastado, corporações multinacionais corruptas controlam tudo no planeta. Cidades decadentes e hiper violentas abrigam gangs de degenerados, viciados numa nova droga que invadiu o mercado: a droga da eterna juventude. Por ela muitos matam e muitos morrem. É neste cenário pós-apocalíptico que surge Skorpion, uma jovem justiceira empenhada em destruir o sistema corrupto vigente. Tal qual uma ninja high-tech, ela patrulha a cidade em uma velocíssima moto, como uma verdadeira máquina de guerra urbana.