30 março 2016

Dez anos sem Ana Montenegro


Escritora, historiadora, advogada, poeta e militante política baiana, Ana Montenegro teve grande importância na comunidade. Há dez anos, neste mês de março, ela nos deixou, mas suas ações são lembradas até hoje.

Ana Montenegro nasceu em Quixadá, no Ceará, no dia 13 de abril de 1915. Quando pequena olhava para as terras do pai e só conseguia imaginar que os verdadeiros donos eram aqueles que ali labutavam. Enviada para um colégio de freiras, não cogitou crer nos santos - apesar da admiração pelo “moço de Nazaré” e pelo Sermão da Montanha (“dai de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede”). Assim cresceu a jovem com ideias socialistas. Foi morar, em seguida, no Rio de Janeiro. No México, prestou concurso para as Organizações não-governamentais e daí então seguiu palestrando sobre questões femininas e acabou vindo parar em Salvador, a trabalho, antes de se formar em Direito. Formada em História e bacharel em Direito, ela tem o título de Cidadã de Salvador pela atuação destacada que teve ao longo da sua vida em defesa das liberdades democráticas e os direitos humanos.

Veio morar na Bahia em 1979, depois de 15 anos no exterior, porque a filha, a fotógrafa Sônia Carmo, já morava aqui. E foi nesta terra que soube mais sobre a luta do Corta-Braço, Jacinta Passos (poetisa politizada) e as freiras do Convento do Desterro que no começo do século passado impressionaram Frei Caneca com suas atitudes sociais. Era 1947, tempos difíceis para a invasão do Corta-Braço. De noite as mulheres ficaram de fazer vigília para que a polícia não pegasse todo mundo desprevenido. Ana temeu pela sorte das semelhantes naquele escuro e aprendeu um pouco mais sobre a fibra feminina.  Foi aqui que Ana Montenegro guardou seu arquivo de pesquisa - pastas e mais pastas de coisas escritas à mão, conforme surgem as informações e observações. 

Ela fez o primeiro concurso público do Departamento de Administração do Serviço Público no começo da década de 40 e foi nomeada, trabalhando no serviço de previdência social no IAPI, a primeira instituição de previdência que surgiu no Brasil. Aqui ela ficou dois anos. Esteve em Cuba apoiando o então recém instalado governo de Fidel Castro, aprendeu sobre a revolução conversando com Che Guevara, escreveu para a revista Mulheres do Mundo Inteiro, distribuída em nível planetário pela Unesco, foi conferir de perto as guerrilhas da Guiné-Bissau na década de 70.

Ana Montenegro destacou-se por uma ativa participação da mulher, desde a redemocratização do país em 1945, após a ditadura de Getúlio Vargas. É uma das fundadoras da Federação de Mulheres do Brasil, e do extinto jornal Momento Feminino. Até 1964 participou da Frente Nacionalista Feminina, ocupando a Secretaria da Liga Feminina, do Estado da Guanabara (hoje Estado do Rio de Janeiro). No Rio, atuou na imprensa, principalmente os jornais Tribuna Popular e Novos Rumos. Foi casada, teve dois filhos. 

Primeira mulher exilada após o golpe de 1964, sem nunca abrir mão de suas bandeiras por igualdade   
social, foi perseguida, viveu por 15 anos exilada na Europa. Participou de congressos, seminários e delegações junto ao Conselho Econômico e Social da ONU e da UNESCO, de delegações da Europa, na África, no Oriente Médio e na América Latina. Ela sempre ocupou a linha de frente dos movimentos sociais (como a liga camponesa), anistia, pelo direito de moradia, contribuiu para que o povo conquistasse vitórias nas invasões (a exemplo de Corta Braço, hoje Pero Vaz), dentre outros. Funcionária pública, participou da criação da União dos Trabalhadores Públicos do Brasil, inimiga da guerra, foi para as ruas gritar contra a guerra da Coréia. Ela abraçou a causa do menor, falou, em prosa e versos, contra o racismo, em defesa da mulher, em defesa das riquezas nacionais. Guerreira, manifestou-se contra as aberrações praticadas pelo governo de nosso país contra o povo, e foi exilada. Combativa, foi membro do 1º Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, e braço armado na luta pelos Direitos Humanos (contra a violência e em defesa da cidadania). Libertadora, acredita que se nasce a cada dia.

Pertenceu desde 1945 à direção do Partido Comunista Brasileiro, onde desenvolveu um trabalho sério e respeitado, em defesa dos direitos humanos, pela valorização da participação da mulher nos movimentos sociais, pela elevação do nível de organização da classe operária brasileira. Foi membro do Conselho Nacional da Mulher e integrou o Conselho Municipal da Mulher. O conceito de feminismo da militante, que escreveu longos artigos para os jornais locais, deu palestras e lutou pelos direitos dos sem teto nas favelas e invasões, vai muito além das bandeiras comportamentais popularizadas a partir dos anos 60. Boa parte de seu arquivo particular está na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA que abriu um espaço, Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher. 

Tem vários livros publicados: Ser ou Não Ser Feminista (1981), Mulheres Participação nas Lutas Populares (1985), Tempo de Exílio (1988), Crônicas e Poemas (1995) e Uma História de Luta (sobre Marighela). Entre seus ensaios estão sobre Simon Bolivar, O Papel da Universidade, Esterilização, Contracepção e Efeitos Democráticos, O Papel da Advogada na Comunidade, Pelourinho, entre o Colorido das Paredes e a Injustiça Social, e Mulher e Constituinte. Devota de Jesus Cristo, no sentido filosófico, Ana Montenegro comoveu-se com os fatos que a cercam e, às vezes perdia a paciência com intolerância. Baixinha ela gostava de andar nas ruas da cidade de braços dados com os amigos, procurando ajudar a todos.  Já foi agraciada com medalhas do Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicação da Bahia, da OAB, entre outras. A Câmara Municipal de Salvador outorgou em agosto de 1993 a Medalha Maria Quitéria a Ana Montenegro pelo exemplo de vida da militante, sempre dedicada as lutas das mulheres de Salvador, principalmente num momento em que o Brasil vive uma crise ética e valores morais. A memória histórica das lutas populares - dos trabalhadores, dos negros, das mulheres - está, sempre presente no que escreve e em suas palestras e conferências. Sua poesia é a expressão de seus sentimentos de solidariedade a essas lutas.  Montenegro faleceu no dia 30 de março de 2006, aos 90 anos, de falência múltipla dos órgãos.(Esta biografia conta no livro Gente da Bahia. Volume 2. Editora P&A, 1998)


29 março 2016

Radiografia de uma terra decadente


Ela está no coração do Brasil, sintetiza antiguidade e modernidade e possui, de longe, o maior patrimônio cultural do país. Com 500 anos de história, os baianos resistiram aos costumes dos invasores europeus. Sentido estético exacerbado, exibicionismo, auto-suficiência (bem do signo de áries) e uma impávida certeza de que o caos daí decorrente será compensado por encantos que não se encontram em qualquer lugar do mundo. Em outras palavras, decadência – mas com elegância.

Esse é um diagnóstico que qualquer turista faz desde o momento em que enfrenta os inconvenientes do Aeroporto Dois de Julho (mudado para Luis Eduardo Magalhães) até a hora em que paga a última conta de restaurante na Barra ou Rio Vermelho.

Que fascínio é esse que vai bem além de belas igrejas, museus, mulheres, paisagens e gastronomia?. Mas, quem chega mais perto conhece o ridículo da obsessão do baiano pelo barulho (cada um quer tocar seu aparelho em alto volume como se fosse um trio elétrico, seja no carro, no bar ou em qualquer lugar, o espírito trio eletrizante parece ter enraizado, e tome-lhe som na estratosfera. Haja ouvidos!!!), a pobreza de urinar nas ruas e praças como se o privado fosse público (segundo os estudiosos, esse defeito veio desde os político na época imperial e o poeta Gregório de Mattos já denunciava em suas trovas), o falar alto e aberto em qualquer hora (Caetano Veloso já confirmava na música Tieta), o misturar o público com o privado, o apego a celulares (isso já é da modernidade insana) e as músicas sem qualidades (que muitos a defendem como se fosse cultura popular, ledo engano). Talvez esse apego aos gestos, mais do que ao  bom comportamento, faz de cada encontro um pequeno ritual erótico que transforma estrangeiros e visitantes em voyeurs, desejosos de fazer parte do jogo.

Fazer xixi na rua, jogar lixo pela janela, parar o carro no passeio, destruir o patrimônio público são maus hábitos do baiano. Para os antropólogos este desleixo da população com o bem público é porque tudo que é público é visto como terra de ninguém. O estado desrespeita o cidadão, começando com mau exemplo.

Atravessar pistas sem nem sequer esperar o sinal do semáforo, atender celular no trânsito, levar cachorros para fazer cocô na calçada e na praia, falar alto dentro do ônibus contando particularidades da vida privada de si ou do vizinho. A deseducação começa dentro de casa. O filho vê os pais desrespeitando as vias públicas, ou seja jogando lixo, atravessando as pistas longe dos semáforos, desrespeitando as regras de trânsito como beber e dirigir, estacionar nas calçadas, passar em fila duplas e outras atrocidades.


Salvador precisa ser repensada sob o ponto de vista econômico, urbano e social. Na década de 1940, foi criado o plano de Salvador urbanisticamente moderno. Hoje é necessário um programa para melhorar a qualidade de vida do soteropolitano.

Na Bahia, 56% dos domicílios foram considerados impróprios para se viver pela pesquisa de Indicadores do Desenvolvimento Sustentável (IDS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado com dados de 2008 e publicado em 2010. As estatísticas percentuais do Estado estão acima dos números nacionais, que trazem 43% dos  imóveis pesquisados como inadequados, totalizando cerca de 24,7 milhões de lares dentre os 57, 5 milhões de casas pesquisadas.

No estudo, só foram consideradas adequadas as residências com serviços de abastecimento de água por rede geral, esgoto para rede coletora ou fossa séptica, coleta de lixo direta ou indireta e com um máximo de duas pessoas por dormitório. A Bahia apresenta um grande  contingente de domicílios no meio rural, o que interfere na média do Estado. Os dados mostram que a Bahia enfrenta maiores problemas com esgoto.

Estamos na Bahia, a terra do orgulho e da autoestima, mas a educação que é um bom sinal, continua em baixa. É só olhar nas estatísticas. “A educação sozinha não faz mudança, mas nenhuma grande mudança se faz sem a educação”, disse o educador colombiano Bernardo Toro. Educação não é apenas atribuição das escolas. Educação é responsabilidade também da família e da sociedade na formulação e na validação dos valores básicos dos nossos jovens e das nossas crianças. (Texto de 2013)