10 março 2009

Felicidade hoje (2)

Hoje, o ideal de felicidade mudou. Casamentos se tornaram menos estáveis. Vivemos em um mundo dividido entre a cultura dos sentimentos (como o romantismo definiu) e a cultura das sensações. A sociedade agora é de tudo, menos de prazer. Enquanto o mundo (espetáculo, tv, cinema, publicidade) diz para gozar, o ser humano é obrigado aos exercícios físicos, check up diversas vezes, evitar colesterol, Alzheimer, câncer etc. Há uma neurose geral, um medo terrível onde o sujeito não pode usufruir nada sem culpa ou pecado.

Os diversos quadros de depressão, angústia, mal-estar, anorexia, bulimia e outras neuroses decorrentes da cultura do corpo e suas dietas e regimes, cirurgias plásticas e diminuição do estômago tem provocado a “cultura das sensações” no que se refere a educação dos sentidos. Hoje em dia as pessoas estão desencantando os sentimentos e reencantando o corpo. Hoje em dia nos unimos pelos prazeres que compartilhamos pelos acessórios que combinamos.

Em seu livro Tempo das Tribos, lançado em 1987, Michel Maffesoli postula que novas formas de socialização, assim como novas tribos urbanas, estão surgindo, com isso explicitando que o engajamento de corpo e alma foi substituído por uma participação passageira. A morte do indivíduo burguês coincidiu com o fim de uma moral totalitária, emergindo uma ética sem sanção ou obrigação, uma ética da estética com o experimentar junto. Nós nos unimos pelo que consumimos, seja moda, música, ou até pessoas. As festas Raves é um bom exemplo. Eles não compartilham uma ideologia, apenas uma forma de sentirem comum.

A hipótese da socialidade- para Maffesoli – baseia-se no fato de que se partilhar um hábito, uma ideologia ou um ideal é o que determina o estar junto hoje em dia. E aponta para o declínio do individualismo nas sociedades de massa, e postula que o que surge atualmente é um neotribalismo caracterizado pela fluidez, reuniões pontuais, ou melhor, por momentos de êxtase e, principalmente, pela identificação.

Na cultura de consumo que acontece nas grandes cidades os jovens mostram-se atentos à imagem que exibem. Eles não tratam as roupas e o corpo de forma ingênua ou desavisada. Mudam seus estilos, cabelos e roupas na tentativa de acompanhar o veloz fluxo de mercadorias e imagens que surgem para se sentir pertencentes. Há uma constante metamorfose que caracteriza a contemporaneidade.

Se antes o que garantia o projeto a longo prazo era a família, o trabalho, a religião e a política. Hoje você tem que ser capaz de mudar o tempo inteiro, fazendo projetos fragmentados. A tecnologia médica fez com que agente hoje sinta cada vez menos dor. Se há depressão o Prozac resolve. Mas as pessoas estão tristes por não exercer o afeto (e tome ectasy!). E se antes a cultura dos sentimentos se prolongou no futuro, ou seja, você não procurava realizar tudo que gostava na sua vida e seu filho continuava suas realizações. Agora, tudo o que a juventude quer é para já.


Hoje o que importa é a imagem. Vivemos sob uma nova cultura, que promete felicidade através de sensações corporais: a boa forma, a sensualidade, o estímulo da beleza, o êxtase das festas. Mas tudo isso é muito rápido e logo desaparece, gerando uma aplicação de uma angústia. Resultado: o uso de Prozace outros psicotrópicos. O uso e abuso de diversas drogas nos dias atuais pelos jovens é essa busca desenfreada pela felicidade, mesmo que momentânea.

O pragmatismo do conceito vence-quem-tem-mais-e-melhor desembocou numa ausência total de reflexão sobre o sentido da vida. É a paralisia da vontade, a cultura da impotência. A felicidade fica cada vez mais inatingível, na medida em que a forma física ideal vai se deteriorando com o tempo ou se não segue os preceitos exigidos. É preciso recuperar valores como a generosidade, o altruísmo, aprender a dividir, diminuir o sentimento de posse.

09 março 2009

Felicidade hoje (1)

O século XX tornou a felicidade uma obrigação. As pessoas devem ser felizes, sob pena de amargar o pior dos fracassos. E isso paradoxo que poderemos estudar, o do fardo que é a felicidade que virou dever. O ícone da modernidade, a carinha feliz amarela, a face sorridente captura perfeitamente a vontade de ter boas sensações, parece ordenar a felicidade. É a publicidade vendendo sonhos, e o sonho agora é em geral uma variação do tema felicidade. Ou mesmo a canção famosa “Don´t worry, be happy”.

E há expectativa (ou esperança) da felicidade (para alguns) encontrar no perfume Happy ou no prazer ilícito da droga ectasy. Assim, a busca da felicidade virou uma preocupação global, seja com roupas profundas ou superficiais, com tradições culturais ou religiosos. Mas, em todas as épocas e lugares, a felicidade poderá ser sempre objetivo final da humanidade. Será?
Se na antiguidade a felicidade era considerada um estado transcendente e quase divino, alcançável apenas por pouco. Hoje foi democratizada – está mais próxima do sentir-se bem do quedo bem propriamente dito. Estando ao alcance de todos, a felicidade é perseguida com um frenesi e gera o oposto – desconforto, descontentamento e até culpa.
Alguns pensadores sustentam que a felicidade deve satisfazer um critério objetivo. Outros afirmam que a felicidade é apenas o estado subjetivo de satisfação com a própria vida. Na face homérica a felicidade era igual a ventura. Na fase clássica, a felicidade era igual a virtude. Para o filósofo Aristóteles, a felicidade era a “atividade da alma que expressava a virtude”. A felicidade para Aristóteles envolvia as virtudes “intelectuais” divinas e não as práticas.
Na época medieval a felicidade era igual a Deus. Os cristãos era ensinados a sofrer em nome da virtude, pois assim seriam recompensados com a eterna bem-aventurança celestial. No Iluminismo a felicidade era igual ao prazer. Na época John Locke sugeria a idéia de que talvez existam tantas formas de felicidades quantos forem os tipos de desejo.

Helvétius considerou o século XVIII como o século da felicidade. A fome e a peste deram lugar a um período de vida mais longo e a população quase dobrou. Quanto mais se tenta alcançar a felicidade mais fugidia ela se revela. Algumas pesquisas mostram que os homens são ligeiramente mais felizes casados, ao passo que as mulheres estão mais satisfeitas quando solteiras.
“Um homem se ocupa com aquilo do qual espera obter felicidade, mas sua felicidade é o fato de estar ocupado” é a pérola do filósofo francês Alain (1868/1951). E nos tempos contemporâneos a felicidade é igual ao cãozinho amigo.
O consumo em massa de psicofármacos para dormir, emagrecer, trabalhar ou relaxar após uma festa movimenta por ano US$ 500 bilhões, segundo a Organização Mundial de Saúde. Hoje as pessoas têm que ser belas e jovens, enfrentar a competição, suportar tensões sem reagir, viver sem amparos trabalhistas que estão ruindo e com suportes familiares cada vez mais precários. Desse jeito, só à base de calmantes. É um traço social de desespero, que tende a se agravar.
Mais de 40 milhões de pessoas morreram na carnificina da Segunda Guerra Mundial e, em 1949, diante do primeiro teste bem sucedido com uma bomba atômica, realizada pela União Soviética, era um absurdo falar de felicidade. E foi nessa circunstância que Samuel Beckett criou seu teatro do absurdo:
Vladimir – Diga que você é, mesmo que não seja verdade.
Estragon – O que é que eu tenho de dizer?
Vladimir – Diga: eu sou feliz.
Estragon – Eu sou feliz.
Vladimir – Eu também.
Estragon – Eu também.
Vladimir – Nós somos felizes.
Estragon – Nós somos felizes (silêncio). E o que é que nós fazemos agora, agora que somos felizes?
Vladimir – Esperamos Godot.

06 março 2009

Poesia, poesia, poesia para melhorar o dia-a-dia

Viagem

Quero viajar não para ir a algum lugar
mas pelo prazer da viagem, do movimento
quero viver o mais variadamente possível
preencher nossas curiosidades nesse sangue agitado
subir as colinas espessas e banhadas de sol, a cada dia.
Quero conhecer a sua geografia
percorrer vales, picos e curvas
no terreno emocional e essencial
como uma extensão de meu corpo
num caso amoroso, prolongado e fogoso
para que nossas vidas sejam excitantes
e assim renovar nossos encantos.
Pequenos e cativantes detalhes
podemos explorar, decifrar e aprender
podemos viver
e tudo que começa terminará em mistério
seja afrodisíaco ou até muito sério
o que importa é viver.

Tempo

Ainda há tempo de amar
se a todo instante a vida mostra
sofrimento, violência e mal estar

Ainda há tempo de sonhar
se a esperança ainda dorme no canto
e até agora não quer acordar.

Ainda há tempo de aceitar
a diversidade da vida, o afago do amigo
nessa luta diária do caminhar

Ainda há tempo para ver
o mundo crescendo, o povo em paz e sem fome
a todo instante, do anoitecer ao amanhecer.

Ainda há tempo de refletir
passar tudo em volta, questionar e debater
chegar a uma conclusão segura e sem mentir.

Se o tempo há, ainda não sei
cabe a cada um de nós pensar e concluir
se ávida é para amar, sonhar, refletir ou apenas destruir....

Gostaria

Gostaria de inventar palavras
fortes como nossos abraços
e suaves como o vento nas noites de verão.

Gostaria de parar tempo
Para ele andar ao seu redor
e eu ficar lhe olhando a sorrir
e o brilho dos seus olhos
feito melodia a me seguir.

E nós dançando lentamente
em meio a tempestade constante
a chuva caindo em nossos corpos
como bálsamos a suavizar nossas mentes.

Saudade oceânica

Segui a estrela em busca do litoral
e em cada parada deixava uma foto, natural
uma a uma lançada às margens no esquecimento mental
desconstruía o que levaram
uma vida a alinhavar
finalmente aportei, no reencontro com o mar.

E na vastidão das águas um sentimento aumentou num instante
era a saudade que resumia, feito um oceano
e para além do olhar num horizonte gigantesco sem fim
parecia que havia um oceano de saudade em mim.

Entreguei ao mar e ao vento para você se reincorporar
o seu verdadeiro tamanho, a imensidão
e enquanto me olhava de um lugar a que o tempo,
a seu tempo me levará para conhecer
o que havia de tão profundo em meu coração.

Ondas rolam em meus pensamentos
não sei o que faço, estou tonto, em desalento
as fotos ficaram para trás, você sabe que algo é deixado
mas não sei se sou autorizado
a sonhar com a próxima estação.

O mar está subindo depressa
estou na mais completa solidão
um oceano navega em minha retina
de um tempo marcado como uma sina
por onde anda sua mão a guiar
agora tenho um oceano a navegar.

05 março 2009

Mulheres administram 46 municípios (11%) e fazem história na Bahia


Em cada período da história brasileira, a mulher, através de grupos de lideranças, tem participado nos movimentos contemporâneos, embora frequentemente sua presença seja omitida. Na Bahia, por exemplo, dos 417 municípios, 46 são administrados por mulheres, aproximadamente 11% das prefeituras baianas. Em 2008, o número de prefeitas eleitas cresceu 25% em relação a 2004, mas o número ainda é pequeno. Ainda assim a Bahia está acima da média nacional, que é de 9% de mulheres prefeitas.

Modelo para vários municípios do país, a experiência de Lauro de Freitas com a transparência e controle das contas públicas foi apresentada no Encontro Nacional de Prefeitos, em Brasília. A prefeita Moema Gramacho fez um resumo da metodologia aplicada pela Controladoria Geral do município e seus resultados. Um deles, a economia obtida com a implantação do pregão eletrônico, que já responde por 45% das contratações realizadas, empolgou os gestores que assistiram a apresentação. Jusmari Oliveira, em Barreiras, vai dar maior atenção à agricultura familiar e pretende massificar a agroindustrialização de produtos do município.

TRANSPARÊNCIA - Com 55,94% dos votos válidos, Irismá Santos da Silva Sousa foi eleita para governar pelos próximos quatro anos o município de Gandu. Ela promete um governo de transparência, participativo e como foco no social. Como médica, ela elegeu a saúde como uma das suas prioridades de governo. A meta é ampliar o número de unidades do Programa Saúde da Família (PSF), de três para dez. “Vamos investir muito na medicina preventiva”, assegura. “Nós temos a missão de promover a mudança de verdade em Gandu. Vamos trabalhar para que a nossa cidade tenha serviços públicos de qualidade. Para começar, vamos investir na atração de mais empresas para a cidade e na criação de projetos que possam gerar mais emprego e renda para nosso povo”, garantiu Irismá.

Domingas Souza da Paixão é o que podemos chamar de uma mulher de fibra e amor pelo próximo. Doméstica de profissão, negra e filha de lavradores da região de Governador Mangabeira foi eleita para administrar o município que possui uma população de 17.165 habitantes. Ela quer trabalhar para diminuir o desemprego, melhorar o sistema de habitacional e construir um mini-hospital para garantir um melhor tratamento de saúde para seu povo. Já a assistente social Valdice Castro foi eleita a primeira prefeita de Jacobina que sinalizou que “trabalhará pelo desenvolvimento do município”.

POTENCIAL - A primeira prefeita da cidade de Ibicoara, Sandra Vidal, foi eleita com 52% dos votos. O despertar para a política aconteceu durante o seu trabalho como assessora técnica da Federação dos Trabalhadores em Agricultura da Bahia nas comunidades rurais de Ibicoara. No contato direto com as pessoas percebeu que podia contribuir para melhorar a qualidade de vida da população. “O nosso projeto é aproveitar o potencial agrícola e turístico do município pra alavancar o desenvolvimento e a qualidade de vida dos 17 mil moradores de Ibicoara”, afirma a prefeita eleita do município que é o maior produtor de batata da Bahia. “Pretendemos implantar programas de assistência às mulheres, principalmente às grávidas que não possuem acesso ao pré-natal. Vamos cuidar das nossas crianças, dos jovens e dos idosos”, ressaltou Sandra.

Ana Lucia Aguiar Viana foi reeleita no município de Barra da Estiva. Entre suas prioridades estão as obras de urbanização, a construção do Estádio Municipal e da delegacia, entre outros. Segundo ela “o orçamento é realmente apertado e cada centavo deve ser bem investido para garantir os benefícios para a população”. O sucesso do trabalho desenvolvido na prefeitura foi o principal responsável pela reeleição de Tânia Portugal em São Sebastião do Passé com 55,5% dos votos válidos. Ela desenvolveu um governo com forte participação popular. Implantou o orçamento participativo, o Programa Saúde da Família, o Centro de Especialidades Odontológicas, a Farmácia Popular, o Samu 192, além de investir na educação, esporte e lazer para a população.

SUCESSO - Um outro exemplo do sucesso das mulheres na política vem de Matina, um pequeno e jovem município da região do semi-árido baiano. Lá a prefeita Olga Gentil se reelegeu com grande maioria dos votos. A primeira mulher a governar a cidade de pouco mais de 12 mil habitantes, conquistou sua vitória com o trabalho desenvolvido nos primeiros quatro anos de gestão, onde privilegiou ações nas áreas de educação, saúde e saneamento básico. Olga trabalha também pela atração de programas de incentivo à agricultura e pecuária, principais fontes de renda da população que vive em sua maioria n zona rural.

Caraíbas foi uma das quatro cidades a Bahia onde só mulheres concorreram à prefeitura. Ganhou Norma Suely Dias Coelho. Em Dias D´Ávila venceu Andreia Xavier Cajado Sampaio. Na pequena cidade de Baianópolis, Jandira Soares Silva Xavier foi reeleita devido ao seu trabalho social desenvolvido no município. O fenômeno das candidaturas exclusivamente femininas à prefeitura se repetiu em Madre de Deus onde Eranita de Brito Oliveira foi reeleita. A prefeitura de Madre de Deus é ocupada por mulheres há quase 10 anos.

Em Antônio Cardoso foi reeleita Maria Angelica Lopes de Carvalho. Em Banzaê, Jailma Dantas Gama Alves foi reeleita. Maria Angelica Juvenal Maia, de Candeias, também foi reeleita. Outras mulheres reeleitas: Francisca Alves Ribeiro (Carinhanha), Gilcina Lago de Carvalho (Catu), Maria de Fátima Aragão Sampaio (Dário Meira), Wanda Argollo Pinto (Itagi), Cecília Petrina de Carvalho (Itiuba) e Rita de Cassia Cerqueira dos Santos (Mortugaba). Apesar desse grande número de mulheres prefeitas na Bahia, estamos longe de presenciar um triunfo feminino na política baiana: foram 141 candidatas contra 1.137 candidatos a prefeitos. As mulheres foram 10,9% dos candidatos, apesar de serem 51,8% do eleitorado. Mesmo assim os passos foram dados e as mulheres caminham cada vez mais para a melhoria das localidades baianas.

04 março 2009

Sexo forte

O desejo feminino está presente durante o ano todo e não tem sequer limites fisiológicos – da ereção – que se impõe pesadamente ao homem. E é esta fraqueza masculina que, em matéria amorosa, faz da mulher o verdadeiro sexo forte. Isso justifica uma boa parte do mundo que a sexualidade feminina inspira a inúmeros autores licenciosos da antiguidade.

Nos animais há o ciclo repetitivo, regular e obrigatório (produz a ovulação e o cio) que substitui a moral sexual. Os humanos escaparam desta regulação obrigatória, tributária do relógio biológico, tornando-se necessário que a cultura substitua a natureza, codificando e organizando a sexualidade. E é a partir deste ponto de vista que alguns antropólogos disseram que “é o sexo que faz a sociedade” (Albert Ducros, La Frontière dês sexes, PUF, 1995). Assim, o sexo não é uma função e sim uma cultura. Ele se situa na junção do biológico com o cultural, no centro da oposição entre o inato e o adquirido, entre o que é dado pela natureza e o que é conquistado pela cultura.
Os interditos de uma sociedade para outra sugerem que toda codificação cultural de sexualidade repousa sobre o “pensar a diferença” entre o feminismo e o masculino, ou, em outros termos, sobre uma diferenciação sexual de funções e de tarefas entre o homem e diferenciação sexual de funções e de tarefas entre o homem e a mulher. Esta diferenciação biológica leva em geral a uma desvalorizada e subalterna do papel feminino. E o movimento ocidental de libertação sexual se empenhou em combater o peso deste diferencialismo.
A permanência da misoginia em certas culturas humanas deve ser atribuído a este “pensar a diferença” e também ao temor suscitado por uma sexualidade feminina vista como insaciável e sem limites fisiológicos determinados.
Um debate nas universidades sobre a oposição natureza versus cultura seria bastante edificante e a sociedade ganharia se fosse uma discussão ampla e pedagogicamente vulgarizada. Possibilitaria colocar sob uma perspectiva adequada certas querelas atuais, como, por exemplo, o estabelecimento de quotas (“discriminação positiva”) para favorecer a presença de mulheres na política.
Para alguns estudiosos, a caça que dá origem aos progressos da humanidade. É ele que – exclusiva do homem, por razões biológicas - teria feito dele o inventor da cultura e teria colocado a mulher na condição de sua dependente. Para outros, enquanto o homem caçava, as mulheres desenvolviam técnicas de colheita, de armazenamento, de fabricação dos primeiros recipientes, de cestas para transporte dos filhos, coisas todas que, por definição, estão na origem mesma da cultura.
Antropólogos citam exemplo de sociedades matriarcais, em que as mulheres que detêm o poder. Nas ilhas Trobriana, no Pacífico, a iniciativa sexual está na mão das mulheres. Também as mulheres estão na força de seis nações iroquesas do Canadá. Nas nações indígenas, as mulheres gozam de direitos e poderes que não se equivaliam aos de nenhuma outra parte do mundo. Nos terreiros de candomblés as mulheres estão na maioria.
Diferenciação baseada no sexo (a idéia da diferença) não conduz necessariamente a uma hierarquização de poderes em favor dos homens. Há exceções. Há o argumento evolucionista – o que uma evolução fez, uma outra pode vir a desfazer, em virtude de uma diferente definição de eficiência social.

No sistema cultural judaico-cristão, Eva aparece no Antigo Testamento, que começou a ser escrito em 1450 a.C., em que a primeira representação da divindade numa imagem de mulher foi substituída pela idéia patriarcal de um Deus como um pai autoritário e punitivo e que determinou serem as mulheres inferiores aos homens. No judaísmo o pecado original não era um erro carnal e sim um pecado de conhecimento e competição com Deus. O cristianismo é muito mais severo com as mulheres. “Não permito à mulher ensinar nem dominar o homem; que ela se mantenha, portanto, em silêncio. Foi Adão o primeiro a ser modelado. Eva, só depois. E não foi Adão o seduzido e sim a mulher e que, seduzida, caiu na transgressão” (Primeira Epístola a Timóteo, 2:2-14). Eva tenta Adão e, pelo caminho do pecado original, caímos na condição humana com todo o seu sofrimento. Parece ficção, mitologia, enredo de filme, mas a humanidade acreditou nessa narrativa.
Assim a cultura judaico-cristã considera o sofrimento uma virtude e o prazer, um pecado. Controlar os prazeres das pessoas é controlá-las. O prazer sexual, por pertencer à natureza humana e atingir a todos sem exceção, sempre foi visto como o mais perigoso de todos. É o mais controlado, portanto. A condenação da Igreja à prática carnal continua intensa, mas por baixo dos panos, esses sacerdotes estão em altas orgias (faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço). Olhe só o exemplo de um deles, o Marques de Sade, muito ligado a religiosidade e deu no que deu!

Direitos femininos negados

Durante os séculos, as mulheres foram humilhadas, menosprezadas, escravizadas e constantemente utilizadas como forma de prazer para os homens. Só no século XX que teve início a participação efetiva das mulheres na sociedade. Antes esse acesso era negado.

Na Antiguidade a mulher era considerada propriedade do pai até que passasse à condição de esposa, pertencendo a outro homem, ou de escrava, servindo ao senhor que pagou por ela. Na Mesopotâmia, na Grécia e em Roma a esposa reproduzia, a concubina oferecia prazer e companhia, e a prostituta vendia o corpo.
Mesmo inspirando a dramaturgia e a literatura lírica (Medeia, Electra, Afrodite, Helena de Tróia, Penélope e outras), as mulheres na famosa democracia grega não tinham nenhum direito. Era propriedade dos pais, depois dos maridos. Roma seguiu essa cartilha.
Simone de Beauvoir na foto ao lado
Na Idade Média as mulheres eram consideradas uma ameaça sexual. A Igreja Católica estabeleceu as supostas leis de Deus na terra e afirmou que as mulheres seriam instrumentos do demônio, que afastariam os homens da fé. O casamento foi uma concessão à fraqueza humana e o único objetivo do sexo seria a procriação.
No século XI a Igreja decreta a castidade absoluta para o clero. Pura mentira. Na verdade os sacerdotes mantinham suas concubinas abertas ou clandestinas, dependendo do grau de poder da batina que usava. E o meio de controlar o povo era a confissão. No século XII a Igreja cria a Santa Inquisição, a maior vergonha em sua história. Mulheres belas e inteligentes passaram a ser consideradas bruxas e queimadas na fogueira, um dos maiores genocídios da História, tudo promovido em “nome de Deus”.
O século XV é do Renascimento e o nu aparece nas artes (pinturas e esculturas). A Igreja continua com duas facetas morais: uma para o clero onde o Vaticano era uma orgia constante sob o domínio dos Bórgia, e a outra para os fiéis que podiam freqüentar os bordéis. No século XVI a Igreja Romana entrava em decadência e Lutero e Calvino protestaram com a Reforma. O clero passa a ter direito ao casamento e o sexo é considerado natural dentro do casamento. O Vaticano reage com a Contra Reforma e os chavões do tipo “vale mais a virgindade que o casamento” continuavam em voga, além da perseguição às bruxas e a arte considerada luxúria.
Leila Diniz libertária na foto
No século XVII, na França, as mulheres da elite, conhecidas como as Preciosas, emancipadas, lideraram um movimento de reivindicação da dignidade e direito à ascessão social. Mas veio o século XVIII e a ênfase foi para o afeto. A mulher passa a ser frágil e dependente do marido, cuida dos filhos e é submissa e religiosa. No século XIX a pregação é pela castidade onde a boa esposa, novo modelo de mulher, é uma reprimida. Surgem as histéricas e as frígidas. Mulheres que gostam muito de sexo passavam a ser conhecidas como ninfomaníaca. Era o vitorianismo (da rainha Vitória) ditando comportamento, extirpando os clitóris para tentar conter a ameaça. A Igreja e a Medicina se uniram para controlar a mulher.
No século XX despertou-se para a consciência (Freud) e a humanidade descobriu que a vida era curta. Foi o início da Revolução Sexual. A luta feminina começava a se fortalecer. Sabemos que foi em 1789 (há 220 anos), na Revolução Francesa, que as reivindicações da mulher tiveram início, mesmo ameaçadas pela guilhotina.
Vieram depois a escritora inglesa Mary Wollstonecraft, Mary Shelley, Glória Steinem, Kate Millett, Shere Hite, Camille Paglia, Simone de Beauvoir, Bety Friedman, Srojini Naidu, Leila Diniz.... A luta pela igualdade continua, apesar de ser uma promessa distante. Mas a onda conservadora deve ser varrida do mundo, e os progressistas continuam com a bandeira da liberdade para todos.

03 março 2009

Moda no século XX (2)

ANOS 60

Os adolescentes exigiram uma revolução na moda. Blue jeans, roupas sem, gravata e jaqueta de couro foram o uniforme da geração beat. A moda refletia as aspirações da juventude. A minissaia de Mary Quant entrou em sintonia com a década. A modelo Twiggy representou a garota da época, magra e com o frescor da juventude. Cabelo comprido, terninhos moderninhos, roupas coloridas, a moda ditada pelos Beatles passou a ser usada no mundo inteiro.

ANOS 70
A moda se diversificou com as roupas rasgadas ou retro. Moda punk ou o retro look (moda do passado) procuravam chocar a sociedade. Havia a obsessão pela magreza. O ícone era o modelo Jerry Hall. Os contornos do bom e mau gosto estavam, delineados na década.

ANOS 80
O corpo é modelado pelas academias de ginástica, e os músculos ficam à mostra. É o auge do culto ao corpo, com a aeróbica e sua estética. Madonna simboliza a mulher ideal. Vestidos cola
ntes de couro, as minissaias azuis, coletes, os jogging eram usado em todas as ocasiões, assim como roupas esportivas de moletoom, lycra, jérsei, de náilon, tac-til e neoprene.


ANOS 90
A dance music fez nascer grande variedade de roupas fáceis de usar, que iam desde os mínimos tops e bustiês até vestimentas bem folgadas, que facilitassem os movimentos. Roupas sintéticas invadem a noite de Nova Iorque, Londres e Paris. Lady Diana, Kate Mosseat é a heroína cyber Lara Croft são imagens da década.
ANOS 2000
O respeito e a valorização de raças, tipos físicos e culturas passaram a ser valores importantes no mundo da moda. A mulher da época é atuante, inteligente e bem real.
A modelo sudanesa Alek Wek serve para os padrões de beleza deste século. Nas novas roupas, as microfibras que, dobradas ou deformadas, não encontram resistência, vão estimular os prazeres sensoriais e agradar ao toque. É o tecido leve, flexível e com mobilidade.



02 março 2009

Moda no século XX (1)

Com a industrialização de roupas em grande escala, a moda se democratiza no século XX, deixa de ser encarada como atividade frívola, torna-se mais simples e se diferencia o traje masculino do feminino. A emancipação feminina desempenha papel fundamental na transformação da moda. E se antes mostrar o corpo era uma espécie de tabu, hoje o corpo é valorizado e os cuidados se acentuam com a febre da cultura física. Os padrões de beleza também evoluíram. Se no início do século as mulheres eram mais robustas, hoje elas ganharam nova silhueta. Vamos fazer essa viagem pelo tempo.

ANOS 1900
O Art Nouveau influenciou a moda. A linha em “S” da silhueta feminina consolida-se, sublinhando o busto realçado, os quadris arqueados e o ventre contraído. Uma silhueta antinatural (a vaidade exige sacrifícios com os torturantes corselets). A voluptuosa Lílian Russell era a beleza ideal.
ANOS 10
As saias se tornavam um pouco mais curtas, chegando a mostrar as pontas dos sapatos. Os vestidos da noite tinham decotes extravagantes e ricamente enfeitados. A bailarina Isadora Duncan inspirou e libertou a mulher nos anos 10. Lílian Gish e Mary Pickford eram imagens de pureza no cinema. Gloria Swanson representava o glamour e Theda Bara, a vamp, tornava-se o primeiro sex symbol do cinema.

ANOS 20
Coco Chanel se consagra. Seus vestidos exigiam um minucioso ajuste ao corpo da freguesa. Os vestidinhos pretos tornaram-se a peça-base de todos os guarda roupas elegantes. Josephine Baker, a vênus de ébano, se destaca. Clara Bow e Louise Brooks dão brilho ao cinema. E o item de beleza obrigatório era o batom, aplicado com os dedos. O look era cabelo curto, cigarro na mão, vestida com atitude masculina.
ANOS 30
A influência das estrelas de cinema, como Greta Garbo, Marlene Dietrich, Mãe West e Carole Lombard serviram de modelo para as mulheres da época. Eram mulheres cheia de mistério e glamour. O look agora é cabelos compridos com ondas e curvas, e a cor, platinum blonde.
ANOS 40

A Segunda Guerra Mundial exigiu novos posicionamentos da mulher. A mulher fatal européia foi substituída pela garota americana, as de suéter e pin ups. As mulheres eram mais atléticas, andavam de bicicletas e faziam atividades de trabalho ou do front. A atriz Veronika Lake teve seu cabelo copiado em todo o mundo enquanto Rita Hayorth devastou o mundo com o furacão no filme Gilda.
ANOS 50
As saias surgiram mais justas, com pregas. Chapéu grande tornara-se populares. Marilyn Monroe eternizou o look da década enquanto Audrey Hepburn redefiniu a elegância ao lado de Jacqueline Kennedy. Spray de cabelo, delineador, salto alto e sutiãs pontudos foram as heranças da época.

27 fevereiro 2009

Poesia, poesia, poesia para melhor o dia-a-dia

Pescador de sonhos
Sou um pescador de sonhos, um viajante dos sentidos, o amor veleja minha vida, solidão está perdida. Me entrego a todo instante, no prazer de ler, escrever, escreviver. Tudo além de mim, o mar nas ondas desse mar sem fim. Acho que estou apaixonado, sinos tocam em minha mente, coisas que para muitos, estou doente. Mas o que fazer, quando na vida o amor flechou você. É deixar o barco navegar, aproveitando o sol nascer de cada dia, beleza pura de se ver. Podes crer. Agora é tentar com tudo isso, sobreviver. O meu percurso nesse universo é feito de textos e versos, fragmentos, discernimento, aconselhamentos e outros elementos. Tudo misturado, entrelaçados, nesse caminho de grande saber, pois tudo pode acontecer, e até mesmo esquecer, que a vida passa por um fio, um rápido assobio e aí, ninguém vai dar um pio. É isso. O mundo é dos que sonham e toda a lenda é pura verdade.

Iguais e diferentes


Somos todos iguais e, ao mesmo tempo, diferentes
alguns fazem poesia, outros lamentos
e muitos poucos fazem coisas surpreendentes.
Diferimos uns dos outros pela estatura,
pela pele clara, morena ou mesmo escura
e até mesmo pela magreza ou por muita gordura.
E o sentimento de amor chega para todos
uns bem mais, outros muito pouco
mas quando chega deixa qualquer um torto.
Mas quando se ama faz qualquer loucura
uns para o bem, outros pela tessitura
é a imperfeição do amor mesmo com candura.

Decifro


Decifro o seu cheiro
em um silencio de fevereiro
os dedos aflitos de minha saudade
sobre o peito que se completa de pelos.
Decifro o seu olhar
em uma volta que o relógio dar
não ousar escolher o esquecimento
esqueço de mim seu olhar atento.
Decifrei o seu toque
nos dedos ocultos de meu bosque
e na paisagem imprópria e indecente
acorda as estrelas afastadas, indiferente.
Decifrei o seu paladar
degustando minha saliva de amar
abrindo todas as comportas fechadas
de meus poros, deixando-me acreditar.
Decifrei a sua audição
nos compassos de seu corpo, no seu coração
no som de seu molejo, no trajeto de seu ensejo
no primeiro olhar, primeiro beijo, primeiro toque, traição.


Sol na pele


Ela trazia a chama nos cabelos
e o vento no corpo inteiro.
Ela trazia o calor do sol na pele
e o gosto de sal exalando célere.
Ela trazia o brilho da luz no olhar,
manhãs iluminadas num simples piscar.
Ela trazia o cheiro perfumado no beijar
e o gosto doce e molhado de amar.
Seu sussurro na noite não chega a som,
mas, toca na minha pele uma brisa vã.
Há uma atmosfera no ar que me acalma,
e onde nossos corpos se agasalha.
E a noite vai passando docemente
nos lençóis da nossa cama lentamente.
E tudo dela fala: o cheiro, a cor, a brasa,
corpos saciados e só a boca se cala.
Ela sorri e faz gesto largo,
o quarto brilha e reluz, somos luz.
Agora está em mim e não se perde,
confidência suave e me aquece.
Parece um sonho sereno e disperso,
se for é sereno e não desperto.

Tatuagem


Quero tatuar na minha pele
todas as formas de seu corpo
que minha visão excita
meu paladar agita
meu tato transmita
minha audição incita
e meu cheiro infiltra.
Tudo isso circulando em corpo
como energia nos limites entre a cabeça e os pés
maremotos, incêndios, tempestade
quero estar agora no por do sol de fim de tarde.
De um céu transmutado de vermelho em abismo alaranjado
inflamado no caráter dionisíaco de sua nudez
e a minha flacidez se infla, se retesa em flecha
entre as formas arredondadas de seu corpo febril
e rios de energia escorrem entre montes-seios
até o vale-púbis sobre o branco colchão
e os corpos fundidos em corrosões
ondas de energias fagulham filosofia
é a vida, é a vida, é a vida
num êxtase de sensação desmedida.

26 fevereiro 2009

Reflexão em tempo de cólera

O ser humano bebe e fuma demais, consome sem critério, dirige rápido demais, assiste muita tevê e lê pouco, dorme tarde e acorda cansado e quase não reza. Multiplica seus bens, mas reduz seus valores. Fala demais, odeia frequentemente e raramente ama. Aprendeu a fazer tudo apressadamente, mas não aprendeu a esperar. Participa de várias reuniões, mas as relações são vazias. Se alimenta de fast-food e de digestão lenta. Armazena informações no computador, mas se comunica menos.

O ser humano faz muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Foi à Lua, mas tem dificuldade de encontrar com o vizinho. Conquistou o espaço, mas não o próprio. Aprendeu a sobreviver, mas não a viver. Adicionou amor à sua vida e não vida ao seu amor. Luta para limpar o ar, mas polui a alma. Planeja mais e realiza menos. Torna-se homem grande, mas de caráter pequeno.
O ser humano passa mais tempo no computador enviando e-mail, mas não tem tempo para um diálogo ou um simples abraço amigo. O avanço da ciência e tecnologia retrocedeu a busca de valores como ética, justiça, honestidade e solidariedade.
O encantamento com o corpo está forjando a outra linguagem da identidade. São as chamadas bio-identidades. A cultura hoje em dia não quer que você tenha uma forma definitiva. É exigido que você se mude o tempo todo, que você se mude enquanto consumidor de tecnologia médica e consumidor de modelos identitários. Quando você tem qualquer coisa que você acha que é algo que lhe torna fixo eles gritam “não crie hábitos”, “seja transgressor”, “se reinaugure todo o dia”, “se mude sempre”. Ninguém agüenta essa carga.
Na era de poucos valores, moral descartável, pílulas mágicas, acesso rápido e lenta reflexão, de música pouco conceitual, de tevê fútil e livro inútil, de nada que faz pensar, apenas transar, existem ainda aqueles humanos (poucos) que sabe que a vida não é tudo que se quer, mas amar tudo que se tem.
A vida é feita de jogo, de encenação, de astúcia, de ousadia e, principalmente, dos 'insignificantes' acontecimentos de cada dia. É preciso uma religação entre o indivíduo contemporâneo e seus ambientes social e natural e o estar-junto. Assim o comunicar é tocar, falar, fundir-se com o outro, pôr-se em relação, festejar, soltar-se, entregar-se a um vitalismo estruturador do social. Comunicar é viver na marcha de cada dia a pluralidade de pessoas de que cada um é constituído.
É preciso ver nas margens o essencial do que faz sociedade e descobrir a cultura brasileira — com todas as suas misturas, barroca, mestiça, e contradições. É preciso se despir dos preconceitos, das tradições e hierarquias para descobrir o que se faz e o que se pensa nessa outra escala do social esquecida, invisível. A visibilidade hoje é puramente estrutural.
Comunicar é passar de identificação em identificação, fora da noção de identidade imutável, na busca do prazer, da sinergia, da sintonia, da comunhão, da conjunção social, do estar-junto que permite viver intensamente o “fantástico do cotidiano”.
É preciso fazer parte daquilo de que fala. Deseja mostrar (não demonstrar), descrever (não prescrever), valorizar (não julgar), compreender (não necessariamente explicar), comunicar (não imperativamente informar), conectar-se.
É preciso estabelecer um dever-ser. Situação de religação que favorece as conexões, correspondências, interfaces, cruzamentos, conexidade tátil. Correspondências, conexão, religação, conexidade tátil: comunicação.
Abrace um amigo (a) ao lado e ouça o que ele (a) tem a dizer. Falar é bom, mas ouvir é bem melhor. Aperte a mão do vizinho com vontade e lhe deseje um bom dia de coração. Leia mais, olhe em volta e reflita os valores. Haja com razão e lute por uma sociedade mais fraterna, honesta, justa e pacífica. Faça a sua parte. Passe mais tempo com a pessoa que ama e beije bastante. Amar cura tudo.

19 fevereiro 2009

Preconceito, o autoritarismo social (2)

Há uma espécie de preconceito espontâneo em relação a tudo que é diferente ou desconhecido. É preciso "des-preconceituar", mesmo aquilo que pareça estranho ou esquisito ao "modus vivendi" oficial. É um erro achar que a religiosidade, o folclore e toda a cultura popular não devem mudar e que precisam ser protegidas e conservadas em seu estado original e puro. Pensando bem, a cultura do pobre é sua vida. A cultura e a religiosidade popular são dinâmicas e mudam constantemente. O protagonista da mudança é o próprio povo livre, consciente e resistente.

Preconceito é uma postura ou idéia pré-concebida, uma atitude de alienação a tudo aquilo que foge dos “padrões” de uma sociedade. As principais formas são: preconceito racial, social e sexual. O preconceito racial é caracterizado pela convicção da existência de indivíduos com características físicas hereditárias, determinados traços de caráter e inteligência e manifestações culturais superiores a outros pertencentes a etnias diferentes. O preconceito racial, ou racismo, é uma violação aos direitos humanos, visto que fora utilizado para justificar a escravidão, o domínio de alguns povos sobre outros e as atrocidades que ocorreram ao longo da história.

Nas sociedades, o preconceito é desenvolvido a partir da busca, por parte das pessoas preconceituosas, em tentar localizar naquelas vítimas do preconceito o que lhes “faltam” para serem semelhantes à grande maioria. Podemos citar o exemplo da civilização grega, onde o bárbaro (estrangeiro) era o que "transgredia" toda a lei e costumes da época. Atualmente, um exemplo claro de discriminação e preconceito social é a existência de favelas e condomínios fechados tão próximos fisicamente e tão longes socialmente. Outra forma de preconceito muito comum é o sexual, o qual é baseado na discriminação devido à orientação sexual de cada indivíduo.
O povo judeu, tradicionalmente perseguido na Europa do Leste, sofreu o anti-semitismo nazista, com um saldo de 6 milhões de mortes trágicas. Eis alguns preconceitos étnicos: “Todo cigano é ladrão”; "o judeu é perverso"; "os índios em geral são improdutivos e preguiçosos"; "todo negro é adepto de feitiçaria". Outros preconceitos: a mulher no volante e o velho vagaroso são ridicularizados e acabam excluídos.

Qualquer que seja a natureza do preconceito, há sempre alguém que se aproveita dele para seu próprio bem. Há também a crença da “inferioridade natural” da mulher, que corresponde à “superioridade natural” do homem. Considerado o “sexo frágil”, são muitos os estereótipos que se conhecem a respeito da mulher. O preconceito leva à discriminação, à marginalização e à violência, uma vez que é baseado unicamente nas aparências e na empatia.
Em um trabalho para o Departamento de Sociologia da UPB, “O preconceito contra os baianos”, Antonio Sérgio Alfredo Guimarães escreveu: “O preconceito contra os baianos, paraíbas e nordestinos é dos mais fortes e persistentes no Brasil contemporâneo, só rivalizado pelo preconceito racial. O estereótipo do baiano como o imigrante pobre, ignorante, servil, preguiçoso, beócio, sem espírito empreendedor, sem chances de se tornar alguém, pode nos levar a considerar que tal estereótipo se deve a sua condição de imigrante no sudeste do Brasil, sendo portanto produto do pós-guerra, quando as migrações internas no Brasil substituíram as migrações internacionais em termos de prover de mão-de-obra a nascente indústria do sudeste, principalmente São Paulo. Só em parte isso é verdade. E é tão mais verdade para os termos paraíba, no Rio de Janeiro, e nordestino, em São Paulo, que para baiano”.

“A verdade inteira começa ainda no Brasil Colônia, quando a Bahia era a capital brasileira e os baianos, seus habitantes, se arrogavam a ser os únicos habitantes civilizados da Terra de Santa Cruz. Nos conta Gilberto Freyre que, em reação a tal pretensão, baiano passou a denotar no Sul, principalmente no Rio Grande, um janota palavroso, maneiroso e efeminado, típico dos homens urbanos, especialmente do Norte. Leiamos o mestre: ´E o baiano da cidade, isto é, de Salvador, acabou por sua vez fazendo de sua condição de homem da capital do Brasil – por muitos anos a cidade por excelência do palanquim e de negros que gritavam para todo homem de sapato que descesse do navio ou nau: “Qué cadeira, sinhô?”- motivo de supervalorização de origem ou de situação regional. Era como se fosse Salvador a única região civilizada, urbana, polida, do Brasil; e o mais, mato rústico. A essa supervalorização de origem ou situação urbana ou metropolitana, o gaúcho reagiu a seu modo, desdenhando de quanto brasileiro do Norte se mostrasse incapaz de montar a cavalo com a destreza dos homens do extremo Sul; e associando essa incapacidade à condição de baiano. Ser baiano era ignorar a arte máscula da cavalaria. Era ser excessivamente civilizado: quase efeminado. Quase mulher. Quase sinhá. Era só saber viajar de palanquim, de rede, de cadeira, aos ombros dos escravos negros. De modo que baiano tornou-se, no Brasil, termo ao mesmo tempo de valorização e de desvalorização do indivíduo por circunstâncias regionais de origem e de formação social. E o mesmo se verificou com gaúcho.”(Freyre 1936: 369).

“Baiano, portanto, enquanto metonímia de gente do Norte, ou Nordeste, como passou a ser conhecida a região a partir dos 60 do século XX, era já uma criação do século XVIII, ao menos para os gaúchos. Mas não tinha, certamente, o caráter incontroversamente pejorativo que ganhou nesse século. Era, como nos diz Freyre, um termo de valorização e desvalorização, ao mesmo tempo, provavelmente mais de valorização que seu contrário, pois todos sabemos como, na sociedade de corte, eram malvistos os homens do interior”.

18 fevereiro 2009

Preconceito, o autoritarismo social (1)

O preconceito (pré-juízo) é uma forma de autoritarismo social de uma sociedade doente. Normalmente o preconceito é causado pela ignorância, isto é, o não conhecimento do outro que é diferente. O preconceito leva à discriminação, à marginalização e à violência. Estas atitudes vem acompanhadas por teorias justificativas. O racismo e o etnocentrismo defendem e praticam a superioridade de povos e raças. Trata-se de um conjunto de atitudes sem fundamento na experiência prática. São julgamentos dirigidos a pessoas que pertencem a grupos raciais, políticos, linguísticos, nacionais, religiosos, sociais, entre outros.

A civilização greco-romana rotulava de “bárbaros” todos os que estivessem fora dela, e seus herdeiros utilizam o termo “selvagem” com o mesmo sentido. E precisamente os “selvagens” manifestam características semelhantes. Os povos que sofreram o triste episódio do colonialismo foram saqueados, espoliados e muitas vezes extintos. Os civilizados europeus que se apossavam das riquezas e do trabalho desses povos indefesos justificavam seus atos pela “inegável inferioridade do homem de cor, sua natural indolência, e pela nobre missão de lhes transmitir os mais elevados valores do Ocidente”.

Os antropólogos chamam de etnocentrismo o conjunto de preconceitos e hostilidades sentidos por um grupo social ou elemento estranho – são “eles”. Nos EUA, a organização com laivos nazistas Ku Klux Klan tratou de manter vivo o ódio racial e estimulou todos os preconceitos. Na República da África do Sul, país de maioria negra dominada por uma minoria branca, o governo instituiu a singular política do Apartheid. Segundo elas, as comunidades branco e negra não deve misturar-ser, em hipótese alguma, e isso se justifica pelo desejo “louvável” de preservar a integridade das duas culturas.
Os preconceitos são adquiridos. Crianças, por exemplo, vão assimilando os preconceitos dos pais. A escola tem papel fundamental no sentido de reforçar ou neutralizar as idéias preconceituosas adquiridas em casa.
Quando o cantor e compositor Michael Jackson que teve a pele negra e ficou mulato em Thriller, clareou mais em Bad e apareceu completamente branco em Dangerous, o mal-estar que isso causou na mídia foi assustador. O cantor e compositor Arnaldo Antunes em seu artigo no Folha de S.Paulo (Riquezas são diferenças, 07/01/92) escreveu: “Brancos sempre puderam parecer mulatos, bronzear-se ao sol ou em lâmpadas específicas para esse fim, fazer permanente para endurecer os cabelos. Tudo isso visto com naturalidade e simpatia (...) Até mesmo aquela caricatura do Al Johnson era vista com graça. Agora, o negro Michael Jackson entregar seu corpo à transcendência da barreira racial desperta revolta, reações de protesto e aversão” (...).

“É que Michael Jackson é um Macunaíma ao avesso. Se o anti-herói de Mário de Andrade faz de si a parábola da gênese das diferenças raciais no espaço ficcional, Michael Jackson representa, em carne e osso, a abolição dessas fronteiras. Mas parece que, mais de cem anos depois, o Brasil ainda não está preparado para aceitar a Abolição”.

Os negros que estão condenando a mutação de Michael Jackson, insinuando ser ela fruto de inveja de uma suposta condição dos brancos, acabam na verdade chegando a um veredito semelhante ao do racismo branco que diz: `Como esse negro se atreve a usar a minha cor em sua pele?`. Michael Jackson continua cantando com o mesmo swing de quando tinha a pele preta, e dançando cada vez mais lindamente aquela dança que influenciou milhares de negros no mundo inteiro. Ele ostenta a pele clara como quem diz ´eu posso´. E canta: ´I´m not going to spend my life being a color´. E faz de seu corpo a prova de que a questão racial vai muito além da cor da pele. O corpo é para usar. O corpo é para ser usado. Michael Jackson está colocando seu corpo a serviço de um tempo em que a pessoa valha antes das raças, e o planeta antes das nações. Não se trata de extinguir as diferenças, mas de fundar radicalmente a possibilidade de trânsito entre elas. A miscigenação que se fez aqui (nesse país onde todos somos um pouco mulatos ou mamelucos), diacronicamente, durante séculos, faz-se sincronicamente nele. Michael Jackson é preto e é branco. Não fala em nome de uma raça ou casta, mas encarna em si a diferença. Não é mais americano porque é do mundo todo (...). O incômodo está justamente nesse exercício de liberdade. Ele não precisa explicar nada. As respostas estão em todas na sua cara. Ou naquelas caras tão diferente se transformando umas nas outras, no clip de Back or White”.

17 fevereiro 2009

Quero ficar em seu corpo feito tatuagem (5)

Tatuar o corpo significa introduzir pigmentos na derme. Quando isso acontece, a presença desse corpo estranho (o pigmento) é logo sentida pelo organismo. Daí o organismo tende a expulsá-la e o resultado é que, em vez de tatuagem, o que fica é uma cicatriz. Segundo os médicos, não existe tratamento 100% eficaz para a remoção de tatuagens quando se deseja ou necessita retirá-las. "As marcas permanecem sempre, mesmo quando é o organismo quem as rejeita", ressalta.

Os profissionais da medicina afirmam que para retirar as tatuagens são necessários métodos de abrasão (pequenas cirurgias) ou laser. Entretanto, a resposta depende da cor dos pigmentos da tatuagem e do processo utilizado para fazê-la. "Em geral, sempre fica alguma seqüela como cicatriz ou mancha. Alem do mais, as cirurgias são caras e demandam equipamentos específicos, muitas vezes não disponíveis", completa. E lembra que não existe método que possa ser considerado mais ou menos eficaz. "O resultado vai depender da característica do paciente. Cada caso deve ser estudado com cuidado e o profissional que realizará o procedimento irá decidir qual o melhor caminho de recomposição da pele".
Todos os vestígios nos levam a crer que a prática de marcar o corpo é tão antiga quanto à própria humanidade. Não se sabe ao certo quando a prática começou, um dos registros mais antigos foi detectado no famoso Homem do gelo, múmia com aproximadamente 5,3 mil de anos descoberta em 1991 nos Alpes.
Algumas linhas azuis marcadas em seu corpo podem ser o mais antigo vestígio de tatuagem já encontrado ou cicatrizes de algum tratamento medicinal adotado pelos povos da Idade da Pedra. Já as múmias egípcias femininas, como a Amunet, que teria vivido entre 2160 e 1994 a.C. apresentam traços e pontos escritos na região do abdome, indicando assim que a tatuagem, no Egito Antigo, poderia ter relação com cultos à fertilidade.
Além do uso em rituais, a tatuagem serviria também como identificação de grupos sociais, marcação de prisioneiros, ornamentação e até como camuflagem. Com o cristianismo a técnica caiu em desuso no Ocidente e foi proibida.
Tal tradição somente foi descoberta em 1769, quando o navegador inglês James Cook realizou uma expedição à Polinésia e registrou o costume em seu diário de bordo: “homens e mulheres pintam o corpo. Na língua deles, chamam isso de tatau. Injetam pigmento preto sob a pele de tal modo que o traço se torna indelével”. Após cem anos, Charles Darwin afirmaria que nação alguma desconhecia a arte da tatuagem, de fato a maioria dos povos do planeta praticavam ou havia praticado algum tipo de tatuagem.
Em 1891, surge à máquina elétrica de tatuar, com isso o hábito se espalhou ainda mais pela Europa e pelos Estados Unidos. Até o final do século XX, a pele desenhada, até então era quase uma exclusividade de marinheiros e presidiários, atualmente é uma das modas mais duradouras entre os jovens pertencentes as mais diferentes classes sociais.
Em Salvador, os tatuadores da península itapagipana fundaram em 1993 a Associação Movimento Unificado dos Tatuadores Itapaginanos (Amuti) realizando exposições para tentar a adesão de mais tatuadores do estado. O mais famoso tatuador da Bahia foi um maranhense criado no Rio de Janeiro, Luis Carlos Carvalho Souza, o Binga. Começou fazendo tatuagem nele mesmo quando era adolescente. Os amigos começaram a requisitá-lo e a demanda aumentou tanto que ele passou a cobrar por cada tatoo que imprimia no corpo da galera. Virou negócio e ele estudou, tomou cursos, participou de encontros para intercambiar conhecimentos com feras de fama internacional e abriu um atelier na Barra. Outro importante tatuador da cidade foi Salustio Anthony´s, o Urubu, muito conhecido por todos que frequentavam a praia da Terceira Ponte em Jaguaribe ou o Terceiro Piso do Shopping Barra.

16 fevereiro 2009

Quero ficar em seu corpo feito tatuagem (4)

A tatuagem é uma das formas de modificação do corpo mais conhecidas e cultuadas do mundo inteiro, difundida em diversas culturas. De forma simplificada, a tatuagem ou tattoo é um desenho permanente feito na pele humana, e é tecnicamente uma aplicação subcutânea obtida através de introdução de pigmentos por agulhas, um procedimento que durante muitos séculos foi irreversível, mas que atualmente pode ser retirada. A motivação para os colecionadores dessa arte é ser uma obra de valor eterno.

Há diversas provas arqueológicas que afirmam que tatuagens foram feitas no Egito entre 4000 e 2000 a.C. e também por nativos da Polinésia, Filipinas, Indonésia e Nova Zelândia. Tatuavam-se em rituais ligados a religião. No oriente em países como China e Japão, a tatuagem estava vinculada às divindades configuradas no símbolo. Os líbios tatuavam-se para a deusa Neit, os egípcios para Atargatis e na Síria para deuses diversos.

A Igreja Católica na Idade Média baniu a tatuagem da Europa (em 787, ela foi proibida pelo Papa), com o argumento de que era “coisa do demônio”, assim procedendo com a intenção de ocultar antigas culturas e costumes,introduzindo a sua doutrina de uma forma quase ditatorial. Qualquer cicatriz, má formação ou desenho na pele não era visto com bons olhos. No século XVIII, porém, a tatuagem se tornou bastante popular entre os marinheiros, particularmente aqueles que navegaram os mares do sul.
O termo tatuagem, pelo francês tatouage e, por sua vez, do inglês tattoo, tem sua origem em línguas polinésias (taitiano) na palavra tatau, e supõe-se que todos os povos circunvizinhos ao Oceano Pacífico possuíam a tradição da tatuagem além das dos Mares do Sul. Os tatuadores sempre recomendam o recobrimento do local da tatuagem recém-feita com plástico de embalar alimentos, pelo menos três dias. Deve-se lavar a região com sabonete neutro durante o banho, para retirar o excesso de pomada do curativo anterior. E ainda aplicar sempre uma nova fina camada.
É muito importante não deixar a tatuagem exposta ao sol, não ir à praia, piscinas, saunas durante a cicatrização, aproximadamente durante trinta dias. Existem medicamentos comprovadamente muito bem aceitos pela pele que auxiliam na cicatrização. Mas deve-se seguir à risca as recomendações do profissional que aplicou a tatuagem, pois a maior parte dos incidentes desagradáveis ocorrem durante o processo de cicatrização
Não existe um perfil definido ou uma justificativa para o uso de tatuagens e piercings. O que se sabe é que esses dois adornos do corpo conquistam a simpatia de um número crescente de pessoas, transformando-se, muitas vezes, na marca registrada de quem os usa. A atitude de tatuar o corpo ou de espalhar brincos em partes não convencionais pode até revelar uma personalidade destacada com um toque de rebeldia, determinação e jovialidade e, talvez , seja buscando isso mesmo que cada vez mais pessoas estão aderindo.
Segundo a psicóloga Sônia Cury, o fato de tatuar o corpo pode significar o desejo de traduzir alguma coisa que a pessoa não sabe expressar em palavras, um desejo oculto. Entretanto, essa também pode ser uma atitude sem segundas intenções, ditada apenas pelo modismo ou por um apelo estético.
O mesmo acontece com o uso do piercing. "É como escolher um corte de cabelo, ou decidir usar roupas de determinado estilo. Para a maioria das pessoas não há um significado expresso no ato de fazer piercing ou tatuagem", explica. Sônia acredita que o desejo de protestar ou simplesmente de se mostrar rebelde usando piercing ou tatuagem não se justifica mais dentro da sociedade permissiva em que vivemos. "O uso já está banalizado e as pessoas não precisam mais disso para provar coisa alguma", completa.

13 fevereiro 2009

Um vulcão, uma explosão, um tesão?

Numa rede de descanso (tem coisa mais baiana do que uma rede?), ouvindo os sambas de roda do Recôncavo na Rádio Educadora que lembro da menina sapeca de pé no chão e a cabeça nas nuvens. Uma guerreira, com certeza. Batalhadora, consciente, verdadeira, ativa, um girassol neste deserto. Com sua visualidade negro-africana, ela respira vida. Com uma tatuagem nas costas, sob o sol e a brisa da praia da Boca do Rio, ela desfila admirada por todos, solvendo o sorvete que tanto gosta.

Os caminhos nunca foram abertos serenamente para ela. Dificuldades e armadilhas foram superadas para aquela menina pobre que veio de Catolandia para seguir naquilo que acredita. E sob o fogo cruzado dos medos e ansiedades ela continua sem se corromper. Navega sob o peso do mundo. E foi de uma terra quente que ela deixou seus familiares em busca da carreira que tanto almejava. Partiu em direção a Salvador deixando para trás as luzes de rua da cidadezinha. E foi parar na Boca do Rio.
Cathy parece um desenho do Di Cavalcanti. Nasceu para ser admirada pelo resto do mundo. Morena cor de framboesa, ela lembra a cor daquele céu que vai mudando com o passar do tempo, parecendo estar pegando fogo, rubros de fogueira. Quente e ardente que deslumbrava como aurora da natureza. Talvez, por isso, gosta de sorvete. E o da Ribeira lhe cativou. Delicia-se com vários sabores enquanto os nativos admiram a morena toda prosa, fogosa, baiana legítima.
Essa morena ama a liberdade. Ama andar aos risos e riscos pelas praças e passeios da cidade. De Itapoan ao Rio Vermelho, da Ladeira da Barra ao Porto rumo ao Farol. Tudo lhe ilumina. Observadora, gosta de cortar caminho pela Ribeira num desejo irrepreensível de rua, de circular livremente, de conhecer pessoas.
Detesta hipocrisia, o que pensa fala assim, na lata. E haja palavras, sons, ruídos. A menina é brava. Namorado com ela tem que ter atitude, virtude, integridade, senão a validade é logo vencida. (“É só isso/não tem mais jeito/acabou, boa sorte”, como canta Vanessa da Mata). Essa garota aguerrida, garota tesão, garota festeira, tudo estirado numa esteira de um sol de verão. E haja sol para o belo corpo, escultural, fascinante, colossal. Será tudo um sonho ou isso é apenas um texto formal? Nada é o que parece ser. Tudo pode ser fantasia, um olhar sutil de viajar, um recorte da realidade, uma observação mais atenta de uma figura querida, barulhenta. De um doce amargo na gustação, de um olhar e de uma benção, de um cheiro caseiro, de um toque caligráfico em seu corpo, de um beijo no coração.
Ah palavras! Sempre ao nosso redor, sós, em busca de uma explicação. Mas para que explicar o que é visto se tudo é recoberto de um cisco, uma poeira no chão. Se tudo vai e vem como onda e desaparece na imensidão. E seu sorriso brejeiro ilumina essa doce solidão. E nada melhor do que recordar nesse sábado quente, com uma trilha sonora diferente. Esse doce sabor de recordação. Você parece saída de uma música de Alceu Valença (“Morena Tropicana”) de uma poema de Drummond em noite quente de verão ou mesmo no texto de Clarice Lispector em plena solidão. Você existe ou é imaginação?
Você é assim, essa mistura de arte abstrata, figurativa, surrealista e pop. É uma Bossa Nova incorporada na Jovem Guarda e mesclada no Tropicalismo. E assim como um sorvete de manga vou solvendo essa delícia em tom confessional, não é paixão, não é delírio nem mesmo o sonho de cair num abismo depois do perigo. É apenas uma recordação que sai feito um jato de vulcão. Talvez a viagem que mais parece com você seja isso, um vulcão. E vou parando aqui porque não pára de chover idéias em meu pensamento, um dilúvio de contentamento uma certeza de união, feito um céu negro carregado de estrelas. Sim, agora eu sei que você é a senhora dos raios e das ventanias, a guerreira Oiá-Iansã.
E assim, aonde ela passa ilumina a vida ao seu redor, espalha perfumes, conquista outras cores, amores e ganha nova música. É só abrir olhos e ouvidos para perceber tudo isso. Se perguntar pela vida, ela responde, sim.
CATHY
Há um fluxo intenso entre você e eu
aquela química, energia eficaz, me convenceu
Não há explicação nem o que falar
apenas é verdade, autenticidade no seu olhar
E o que dizer de sua escrita?
Palavras fortes, libertas, que grita!

Há em você toda essa doçura e selvageria
uma mistura barroca, afro baiana
que encanta, mas vai além do clichê
e o efeito em todo mundo não se explica, por quê?
E não adianta querer se perder em seu labirinto
tem que ter ética, transparência, força e instinto
nada de sair correndo sem senso e sem juízo
você é bela, guerreira, majestosa e com sorriso.

Mas bobo é aquele que só fica no visual
o que poucos sabem é que você é profundo astral
uma criança saída lá de Barreiras
e não venha com conversa fiada, besteira
você dá um chega prá lá, deixa de asneira.
Você é d´Oxum e é bom navegar
com a mente, o corpo, o sal e o mar
A sensação é de carícia, de satisfação
de amor, delícia, pura integração
pode ser no litoral, no campo ou no sertão
em qualquer ponto é uma questão de construção.
E na sua vida sofrida, precisa mudar todo dia
perseguir os sonhos e ver o futuro por cima do muro
mas o que a satisfaz é encarar a vida de frente
repleta de desertos, lutas e firmamentos
e no “acúmulo de azuis” de sua cor negra
o que transparece é uma mulher de múltipla faceta.
Cathy é:
Cativa
Autêntica
Tesão
Harmônica
Yansã.

12 fevereiro 2009

Quero ficar em seu corpo feito tatuagem (3)

Apesar de toda sua história, o conceito de origem independente se adequa a tatuagem, pois ela foi inventada várias vezes, em diferentes momentos e partes do Mundo, em todos os continentes, com maior ou menor variação de propósitos, técnicas e resultados. Os tipos de tatuagens:

Tradicional (tatuagem de marinheiro): São aqueles desenhos tradicionais, como uma âncora ou uma gaivota, aliás, os marinheiros foram os grandes divulgadores da tatuagem pelo mundo.
Sumi: técnica oriental que utiliza bambu au invés de agulha. Geralmente os desenhos são ricos em detalhes.
Realista: desenhos que imitam o mundo real, como mulheres, pássaros e personalidades.
Estilizada: como o próprio nome já diz, são desenhos estilizados.
Alto relevo: muito difundida entre os índios. A pele é dissecada formando desenhos com uma infinidade de cores, praticada principalmente por aborígenes, de origem africana.
Belfaro Pigmentação: a maquiagem definitiva, como delineador, batom, etc.
Celta: desenhos de origem celta com figuras entrelaçadas. Pode ser preta ou colorida.
Tribal: desenhos em preto ou coloridos com motivos tribais. Podem ser desenhos de tribos norte-americanas, haidas, maias, incas, astecas, geométricas ou abstratas.
Oriental: trabalhos grandes, geralmente de corpo inteiro, como um painel. Os desenhos são com motivos orientais, como samurais, gueixas e dragões.
Psicodélicas: trabalhos supercoloridos com desenhos totalmente senseless.
Religiosas: trabalhos com personagens bíblicos, como um santo, uma cruz, etc.
Bold line: desenhos das histórias em quadrinhos com traços bem largos e cores berrantes.
Branding: tatuagem marcada a ferro e fogo.
Como São Feitas
As tatuagens são feitas com pigmentos importados de origem mineral, principalmente, e com agulhas específicas para tatuar, sempre descartáveis e nunca reutilizadas (mesmo que seja na própria pessoa).
As máquinas elétricas, preferencialmente, devem ter a ponteira de aço inox cirúrgico e/ou descartáveis, devem ser limpas por ultra som e esterilizadas com estufa a uma temperatura igual ou superior à 170 º C por um período de pelo menos 3 horas. Os aparelhos de barbear utilizados para depilar o local da tatuagem não devem ser reaproveitados. O tatuador deve usar luvas e máscara para procedimentos, para evitar uma possível infecção ou até a contaminação por doenças como hepatite, AIDS, tuberculose, esporos patogênicos, bactérias e fungos. A limpeza do ambiente é fundamental afim de se evitar a contaminação cruzada. A arte é conseqüência de tudo que o tatuador aprendeu durante anos, este, deve ter pelo menos, a experiência de 5 anos.

11 fevereiro 2009

Quero ficar em seu corpo feito tatuagem (2)

A tatuagem é uma tradição milenar e desde os tempos antes de Cristo que o homem gosta de pintar o corpo para fazer parte de determinado bando, grupo social ou tribo. Os primitivos se tatuavam para marcar os fatos da vida biológica: nascimento, puberdade, reprodução e morte. Depois, para relatar os fatos da vida social: virar guerreiro, sacerdote ou rei; casar-se, celebrar a vida, identificar os prisioneiros, pedir proteção ao imponderável, garantir a vida do espírito durante e depois do corpo.

Muitos povos acreditavam que os desenhos davam proteção mágica contra doenças ou má sorte. Outros usavam (e ainda usam) a tatuagem para identificar o nível ou status do portador, ou o fato de que ele pertence a um determinado grupo (é o caso, por exemplo, da gangue de motociclistas Hell´s Angeles, nos Estados Unidos).
Existem restrições religiosas à prática da tatuagem (“Você não fará qualquer corte na sua carne por causa dos mortos ou tatuará qualquer marca sobre você. Levítico 19: 28). Com o advento do cristianismo ela foi proibida na Europa, mas persistiu em outras partes do mundo. Foi redescoberta pelos europeus na época das grandes navegações, quando eles entraram em contato com os índios americanos e com os polinésios. Marinheiros europeus (e mais tarde norte-americanos) começaram a se tatuar, e surgiram casas especializadas em portos de todo o mundo.
Em fins do século XVIII, quando a Europa chegou à Polinésia, alí, diante de uma sociedade sensual, o homem branco redescobriu o gosto de marcar o corpo. A tatuagem do Taiti, das Ilhas Samoa e de outros recantos do Pacífico e da Oceania seduziu um sem-número de marinheiros, que aos poucos fora,m retornando à Europa inteiramente tatuados. Os brancos adaptaram as técnicas primitivas, inseriram temas ocidentais, e já em meados do século XIX o mundo havia se transformado num vasto empreendimento tatuado.
A arte de desenhar e colorir o corpo com agulha e pigmentos variados foi introduzida na Europa em 1770 pelo capitão Cook. Os apaixonados pela tatuagem dizem que, em 1945, três homens tatuados mudaram o mundo: Churchill, que tinha uma âncora no branco direito, Stalin, com uma caveira no peito, e Roosevelt, com o brasão da família no bíceps.
No século XIX os prisioneiros que eram soltos nos Estados Unidos e os desertores do Exército britânico eram identificados por tatuagens. Mais tarde, prisioneiros na Sibéria ou em campos de concentração nazistas também eram marcados.
Na era Cristã, na clandestinidade, sob o jugo do poder pagão, os primeiros cristãos se reconheciam por uma série de sinais tatuados, com cruzes, as letras IHS, o peixe, as letras gregas. Na era moderna, a tatuagem passou por vários anos de marginalidade. Ela retorna a ser questão de relevância em nossa sociedade quando surge em artistas de música, cinema, e em pessoas comuns.
Deixando de ser um símbolo de marginalidade, e sim uma forma de expressão individual de arte e estética do corpo, a tatuagem não é mais tosca como as de cadeias, e sim um desenho de traços mais finos e cores variadas. E assim, a elite (pertencente à indústria das finanças, dos bens de consumo, das telecomunicações, da informática e do entretenimento) começou a colorir a pele. De executivos da Nike, empresários da Fiat, atletas, artistas de cinema e da música pop, estilistas e topo models são os novos porta-estandartes da tatuagens. De Gérard Depardieu a George Michael, de Julia Roberts a Britt Eklabd, de Sean Penn a Sean Connery, de Jodi Watley a Carré Otis, de Thierry Mugler a Jean Paul Gaultier, de Kim Basinger a Madonna, de Johnny Depp a Melanie Griffith. No Brasil temos Monique Evans, Beth Prado, Guilherme Karam, Evandro Mesquita, Supla, Marina, Alexandre Frota, Bruno Gagliasso, Deborsh Secco, Kelly Key e muitos outros
No Brasil, o precursor da tatuagem moderna foi um cidadão dinamarquês chamado Knud Harald Lucky Gregersen, conhecido popularmente como Lucky, ou Mr. Tattoo. Chegando por aqui em 1959, Lucky se estabeleceu em Santos, São Paulo, utilizando seu talento e suas técnicas de desenhista e pintor profissional. Lucky teve uma participação real no mundo da tatuagem brasileira. Os tatuadores chegam a dizer que por mais imperfeita que seja a tatuagem de Lucky, ela vale muito, pois foi graças ao dinamarquês que o Brasil entrou no mapa da tatuagem moderna. Lucky foi notícia em vários jornais, e em 1975 o jornal O Globo o considerou o único tatuador profissional da América do Sul, sendo sua morte noticiada no jornal A Tribuna de Santos do dia 18 de dezembro de 1983. Por um bom tempo Lucky continuou sendo o único, até que começaram a aparecer, aos poucos, os seus seguidores, que herdaram dele as técnicas e a arte de fazer tatuagem.