06 abril 2009

Sertanejo é retratado nos 40 contos de “seo” Nenenzinho, de Valente

O semi-árido baiano ocupa 360 mil quilômetros quadrados, representando 64% da área territorial do estado da Bahia e 51,7% de toda a região semi-árida do Nordeste. Em suas vastas dimensões vive mais de 45% da população baiana, totalizando 6 milhões de habitantes residentes nas regiões rural e urbana de 258 municípios que apresentam os menores Índices de Desenvolvimento Humano do país (IDH). A área onde atualmente está erguida a sede de Conceição do Coité, nascida das entradas que penetravam o sertão baiano, foi inicialmente a sede de uma fazenda, que se tornou uma crescente povoação. O município, que no início chamava-se Nossa Senhora da Conceição do Coité, fica a 210 quilômetros de Salvador, tendo uma população estimada em 58.358 habitantes. A cidade é considerada o terceiro maior produtor baiano de sisal e mandioca, destacando-se também na pecuária, mineração e artesanato.

E foi nessa pequena localidade, no povoado de Valente que nasceu João José de Oliveira, conhecido como Nenenzinho. Sua paixão pela terra e os animais fez com que ele desenvolvesse diversas atividades rurais, recebendo medalhas e homenagens pelo trabalho. O resultado disso tudo foi o vereador mais votado do distrito de Valente (Conceição do Coité) e, mais tarde, prefeito do município de Valente (1993/1996 e 2001/2004). Agora, “seo Nenenzinho” lança o livro Contando 40 contos. O lançamento vai acontecer nesta segunda-feira, dia 06 de abril, a partir das 18h no Clube Espanhol, em Salvador.

Segundo o ex-governado do Estado da Bahia, Roberto Santos, no prefácio, trata-se de “um livro escrito com o coração”. “A começar pela história da vida do próprio autor, quando, de um começo de vida muito difícil, progrediu até tornar-se proprietário de extensas áreas de terra e de importantes rebanhos de pecuária bovina, ovina e caprina. Não esconde ele, porém, as lutas enfrentadas nas primeiras décadas de sua existência, ao escolher para título da apresentação do livro, de sua própria autoria, as seguintes palavras: ´De pobreza ninguém me ensina nada´.”.

DIVISÃO - Dividido em sete partes, a primeira intitulada Bonifácio com oito contos. Tiro ao alvo, A mula preta, Convenção do sisal, É no encher do úbere ou no secar do leite, Festa de barraca, Manha em burro, Mulher mata mesmo e Tempo de vacinar. A segunda parte o tema predominante é a morte com personagens populares como Antonio do Inferno (e sua história fantástica) e Tio Moura (contador de façanhas e de estórias de almas do outro mundo). Do coração é a terceira parte, voltada para os contos de amor; de mãe, de filha, de Dingo e Lindika, de pai, entre outros.

Os contos relacionados ao trabalho são completados com histórias sobre as lidas com o gado, importante fonte de receita para os habitantes da região. A fama das cobras justificando as mortes constantes do gado, a predadora muçurana, o dente de Arnor, o gago Sinhozinho Cordoeiro e o garoto Luiz. Relembra a simplicidade e beleza das mulheres, os carrapatos de fulano, entre outros são registrados na quinta parte dedicada a mulher. A figura de Celino Gaia às voltas com a estiagem, a raça Santa Inês, dos conselhos de fazendeiros: Terra é massapê, Cavalo é Mangalarga Marchador, Boi é Nelore, Jumento é Pêga, Bode é Anglo Nubiano, Carneiro é Dorper, Cachorro é Pinscher, Galinha é Legorne, Trator é Caterpillar, Caminhão é Mercedes, Madeira é Aroeira, Manga é Espada. E mulher é Mariá. “Tudo tem que saber fazer e usar, não saia dessa”, ensina.

RECOMENDAÇÃO - Em deveres do capataz ele recomenda: Não deixar para amanhã o que deve fazer hoje. Não emprestar nada dos pertences da fazenda, nem tomar nada emprestado, salvo em situações especiais; Prestar colaboração a seus colegas sem esquecer suas obrigações; Advertir a seu patrão de tudo que pense trazer resultados a fazenda; Tudo fazer para que a fazenda renda um pouco mais. A sétima e última parte dos contos são dedicados a Expovalente, ao morto-vivo de Ichu, e o inocente Tomotinho.

A linguagem é simples com boas doses de humor, retratando figuras conhecidas da região do sisal. Nas crônicas há frases antológicas e criativas. Seo Nenenzinho escreveu os 40 contos com o coração, fotografando as diversas peculiaridades do nosso sertanejo. A leitura é agradável e aconselhável para todos. Contando 40 Contos conta com edição e projeto gráfico de Luís Guilherme Pontes Tavares, ilustrações de Antonio Cedraz, com capa e tratamento de imagens de Sérgio Alexandre Pontes Tavares. Vale a pena conferir.
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03 abril 2009

Poder da Igreja de banir as mulheres (5)

A religião confina a sexualidade à zona do secreto, criando a culpabilidade, a proibição. A essa zona onde a proibição dá ao ato proibido uma claridade opaca, ao mesmo tempo “sinistra e divina”, claridade lúgubre que é as da “obscenidade” e do “crime”, e também a da religião. Por outro lado, a medicina, na época, provava com dados estatísticos e argumentos materialistas que as mulheres foram destinadas pela Natureza ao exercício da função reprodutiva, e acenava para quem seguisse seu destino natural, promovendo a mulher-mãe e o exercício da maternidade a uma função não só natural, mas de ordem moral e política.


Nascida na sociedade judaica patriarcal da Palestina, a Bíblia denota uma sinistra associação das mulheres à tentação do pecado. Servas que tinham como principal função a procriação, elas atuavam um papel social secundário. Representam apenas 10% dos três mil nomes citados no livro sagrado, como apontou a pesquisadora norte-americana Elisabeth Cady Stanton, que em 1892 escreveu A Bíblia da Mulher. “Há cerca de 200 mulheres mencionadas pelo nome, além de outras 100 anônimas”, contabiliza a historiadora e pastora metodista Margarida Ribeiro. Pior: elas são frequentemente associadas a ações ruins, como no caso de Eva, a responsável pelo “pecado original”. Sara, a mulher de Abraão, é estéril e sofre de inveja da escrava Hagar, escolhida para conceber o filho que dará prosseguimento à linhagem.


Por séculos a leitura das escrituras sagradas foi exclusivamente dos líderes cristãos, o que permitiu que a experiência de Jesus Cristo (que quebrou o tratamento discriminatório das mulheres com seu discurso libertador, de amor e de igualdade) na Terra sofresse adaptações nem sempre fiéis à realidade. Nenhuma distorção parece ter influenciado tanto a sexualidade cristã como a da história de Maria Madalena. Personagem feminina mais citada no Novo Testamento (seu nome aparece 12 vezes), ela foi a única pessoa a testemunhar a morte e a ressurreição de Cristo, segundo os quatro evangelhos. Apesar dessa exclusividade, a personagem ficou marcada como se tivesse sido uma prostituta arrependida, possivelmente uma confusão com outras Marias mencionadas. A Bíblia conta que Jesus andava, sem preconceitos, com prostitutas, mendigos e leprosos, e que expurgou do corpo de Madalena c”sete demônios”. Esse mistério pode ter dado origem à interpretação errada. O fato é que, no ano de 591 d.C., o papa Gregório determinou que Madalena e a prostituta era a mesma pessoa. O mito vigorou por 13 séculos até que, em 1969, o papa Paulo VI desfez a confusão.


A grande influência do catolicismo como o conhecemos vem do discurso de São Paulo, um celibatário convicto. Líder de origem judaica ortodoxa que perseguia e torturava cristãos, Saulo de Tarso converteu-se ao cristianismo – e adotou o nome de Paulo – depois de uma visão milagrosa de Jesus. Passou, então, a ser o maior divulgador da doutrina fora de Jerusalém, inclusive em Roma. Depois dele, Santo Agostinho (354-386) associou o ato sexual ao pecado, discurso logo encampado em 392 pelo papa Siríco. Voraz defensor da virgindade, Siríco era o chefe supremo da Igreja quando o Império Romano assumiu o cristianismo como religião oficial, no século 4.


Rechaçado por São Paulo, o casamento dos padres da Igreja Cristã ocidental foi oficialmente proibido no século 16, quase ao mesmo tempo em que o padre alemão Martinho Lutero rompia com os católicos e dava origem ao protestantismo. A vida sexual ativa da comunidade eclesial,. Graças a Lutero, tornou-se um dos grandes diferenciais dos cristãos protestantes. O radicalismo de impor o celibato como obrigação – e não opção – aos padres diocesanos virou um fardo tão pesado para humanos de carne e osso que deu origem aos escândalos de pedofilia e assédio sexual dentro da Igreja Católica.





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A um amigo...*


Depois de uma temporada de calor em nossa cidade, Salvador, hoje pela manhã, bem cedo, choveu e a terra agradeceu para gerar bons frutos. Hoje também é o dia do meu aniversário e recebo esta pérola da bela a talentosa Cathy, uma guerreira que sabe muito bem o que quer. Ela tem foco, criatividade, personalidade (muito raro nos dias atuais). Suas palavras são bálsamos, para ficar à flor da pele, por isso divido com todos.



Quando penso em ti, penso em mim também. Por quê? Porque já faz um tempo que você é boa parte de mim.
Quando sinto você, sinto um menino, pulsando no corpo de um homem que muito já viveu, e que por isso mesmo, quer ser sempre menino para viver ainda mais. Para viver melhor.
Quando amo você, amo feito sorvete refrescante em dias escaldantes de Verão soteropolitano.
Quando olho pra você, vejo alguém que apesar dos medos, escolhe sempre a ousadia de ser feliz.
Quando olho pra você, admiro alguém que prefere a loucura à realidade. Sábia decisão!
Quando olho pra você, meu anjo pornográfico, de sorriso faceiro, de jeito maneiro, de alma infantil, de coração febril, percebo um homem que, apesar das grades, ferros e camisas-de -força diárias, luta incansavelmente pela liberdade.
E não é uma liberdade qualquer: é a liberdade de ser você mesmo! Está aí a razão maior pela qual carrego você em mim por toda parte: desejo você, meu amigo, como quem deseja a liberdade.
Você é essa coisa que chamam de “esperança”. E quantas vezes tenho recorrido a ti para reabastecer meu coração de esperança...
Quando penso em você, penso em alguém que nunca ensinou covardias ao seu próprio coração. Alguém que sangra. Alguém que não se nega. Alguém que renasce sempre dos livros que lê.
Preciso lhe dizer: você é um ariano torto, que parece viver sempre por um segundo. Um ser sem estação definida. Ora outono, ora inverno, quase sempre primavera e verão.
Você é estado líquido. Água forte, que lava, inunda, transborda.
Você é estado líquido sim! Uma mistura de lágrimas, sangue, gozo e saliva.
Você tem coração de rio, mas sua alma é de mar.
Esse mar que tantos já se banharam, e que eu, hoje, feliz, me ponho a banhar... (*Cathy Rodriguez)

02 abril 2009

Poder da Igreja de banir as mulheres (4)

Uma importante reflexão sobre os diversos fundamentalismos presentes na sociedade moderna e suas conseqüências na vida das mulheres está no livro da teóloga feminista Nancy Cardoso Pereira, “Palavras...se feitas de carne – leitura feminista e crítica dos fundamentalismos”. O fundamentalismo religioso tem como resultado o impedimento do fortalecimento do Estado democrático e o exercício da cidadania plena de todas as pessoas, em especial das mulheres. As igrejas deixam pouca ou nenhuma margem de diálogos aos seus/suas fiéis para tomarem decisões em relação às questões morais, que envolvem a obrigatoriedade do celibato, a vivência da sexualidade, a autonomia no controle cada reprodução, a indissolubilidade do casamento, entre outros.

O livro aborda, além do religioso, os aspectos econômicos, políticos e geopolíticos das ações fundamentadas na tradição e suas conseqüências nas formatações de poder na sociedade contemporânea. A obra também fez a relação entre tais conseqüências e a luta feminista, travada por mulheres que brigam, por exemplo, por direitos sexuais e reprodutivos, barrados nas argumentações do fundamentalismo. No livro Nancy Pereira diz como o fundamentalismo está presente na espinha dorsal do império norte-americano e no próprio cristianismo ocidental, que chegou ao Brasil através dos colonizadores. A teóloga também discute a relação incestuosa entre o cristianismo e o modelo de civilização ocidental construído nos alicerces do capitalismo.

“Cinco mulheres morrem no Brasil a cada dia em abortos clandestinos (pelo menos). Na América Latina são 46 a cada dia. No mundo todo, a cada dia, morrem 500 mulheres. Morrem de abandono e medo. Morem porque ousam decidir. Morrem pela redução de argumentos éticos. Morrem pelas trocas de poder e influência entre Estado e Igrejas. Como se já não bastassem a fome,m o desemprego, a doença e o desespero de sobreviver. Morrem deste igrejismo estreito e repressivo incapaz do diálogo com as vivências concretas das mulheres. Morrem desse igrejismo disfarçado em políticas públicas do Estado. A igreja diz que é pecado. O Estado diz que é crime”. Para ela “o fundamentalismo é a expressão majoritária do cristianismo: sexista, autoritário, elitista e moralista” (...) “A religião é uma das linguagens primárias com maior capacidade de mostrar e esconder, de negar a pertença da voz no balbucio da prece, de dissimular o ordinário no extraordinário das revelações”.

Ao longo dos séculos, a teologia vem contribuindo no reforço do amor como vocação das mulheres. “As culturas modernas formataram o feminino como uma predisposição natural para o amor e seus afazeres. Assim, as mulheres estão encurraladas na sensibilidade sem escolha e assimiladas num imaginário caótico e irracional, enquanto os homens ocupam o lugar supostamente confortável do sexo sem amor” (...) “A mulher participa da linguagem amorosa como vítima, como sedutora ou como impossibilidade (...) Assim, entre assexuadas ou corriqueiras (como as esposas/mães), o cristianismo disputa com o mito do amor romântico no ocidente o controle dos discursos sobre as mulheres. Permanecer numa posição inacessível continua sendo uma das tarefas que a cultura ocidental cristã designa para as mulheres. Presas nos discursos do amor (materno, romântico, aos pobres, ao sagrado, à família, etc) ou nos modelos da sensualidade devoradora as mulheres são mantidas numa passividade necessária para a manutenção da hegemonia masculina”.

E é o que observamos nos capítulos a seguir como a música, poesia, literatura, cinema, quadrinhos apresentam a mulher seja no erotismo ou na pornografia. Nos meios de comunicação de massa (no imaginário musical, da telenovela e da propaganda, entre outros) o mito feminino é mostrado como imagem controladora. É preciso uma leitura crítica e criativa sobre esse discurso para desvendar os comprometimentos e as armadilhas da linguagem religiosa que participa no reforço da miséria amorosa em que se encontram homens e mulheres e sua relação com os mecanismos de expropriação e opressão.

Os símbolos e imagens, metáforas e relações que habitam no imaginário popular a partir das tradições bíblicas é uma mescla entre homens e mulheres cheios de ordenações e danações em seus corpos pecadores e mortais, uma visão simplificada e que continua nos dias atuais. É preciso desenvolver uma reflexão maior sobre tudo isso.

01 abril 2009

Poder da Igreja de banir as mulheres (3)

No século XI as modalidades de administração do sacramento de penitência elaboraram-se lentamente. Os padres deviam ajudar os pecadores a purgar-se inteiramente, devendo, para tanto, submetê-los à tortura, forçá-los à confissão. No limiar do segundo milênio, na época em que o bispo Burchard de Worms trabalhava, um acontecimento de importância considerável produziu-se na Europa: a modificação das relações entre masculino e feminino. “A Igreja decidiu colocar a sexualidade sob seu estrito controle. Estava, então, dominada pelo espírito monástico. A maior parte de seus dirigentes, e os mais empreendedores, eram ex-monges. Os monges acreditavam-se anjos. Como estes, pretendiam não ter sexo e vangloriavam-se de sua virgindade, professando o horror à mácula sexual. Por conseguinte, a Igreja dividiu os homens em dois grupos”.

“Aos servidores de Deus, proíbe servir-se de seu sexo; permite-o aos outros nas condições draconianas que decretou. Restavam as mulheres, o perigo, já que tudo giravam em torno delas. A Igreja decidiu subjuga-las. Com esse fim, definiu claramente os pecados de que as mulheres, por sua constituição, tornavam-se culpadas. No momento em que Burchard compunha a listas dessas faltas específicas, a autoridade eclesiástica acentuava seu esforço para reger a instituição matrimonial. Impor uma moral do casamento, dirigir a consciência das mulheres: mesmo projeto, mesmo combate. Ele foi longo. Acabou por transferir aos padres o poder dos pais de entregar a mão de sua filha a um genro, e por interpor um confessor entre o marido e sua esposa”, escreveu Georges Duboy no terceiro volume da trilogia Damas do século XII – “Eva e os Padres”.
É pelo casamento que a mulher desse tempo tem acesso à existência social. Antes, ela não é nada: “mesquinha”, esse termo que nos ficou designava a moça no século XII. No ritual do casamento, em seus gestos, em suas fórmulas, exprimiam-se claramente as obrigações da mulher. O casamento, garantia da ordem social, subordina a mulher ao robusto poder masculino.
O texto da Bíblia, no começo do livro do Gêneses, vem reforçar a convicção de que a mulher, auxiliar, foi colocada junto ao homem apenas para ser “conhecida”, tornar-se dama e sobretudo mãe, um receptáculo, uma matriz preparada para a germinação da semente masculina, de que não tem nenhuma outra função que não a de ser fecundada, de que sem esse papel o mundo teria muito facilmente passado sem ela. É pensamento da época: o homem é a imagem de Deus, a mulher não é mais do que o simulacro. Assim, mais próximo de Deus, o homem é mais perfeito; detém o poder sobre a mulher assim como sobre todas as outras criaturas; sua sabedoria confere-lhe mais dignidade; é também mais terno, pelo amor que tem por aquela que ele tem a missão de dirigir.
E é no século XII que a expansão das práticas da penitência interna torna mais urgente a pergunta: o que é o pecado? Onde ele está? Na mulher mais que no homem, respondem os eruditos: lede a Bíblia. Deus criou o homem à sua imagem, a mulher, de uma parte mínima do corpo do homem, como uma impressão sua ou, antes, um reflexo. Apenas o homem está em situação de agir. A mulher, passiva, tem os movimentos comandados pelos de seu companheiro. Essa é a ordem, primordial. Essas certezas são apoiadas na leitura do texto bíblico. Elas dão sustentação à ação dos padres para afastar do mal a sociedade leiga.
Como são os homens que dominam e agem, os reformadores preocupam-se antes de mais nada em ajudá-los, considerando-os, de agora em diante, como estando claramente divididos em duas categorias, a dos religiosos, assexuados, e a dos sexuados. Para eles, na origem de toda transgressão da lei divina encontra-se o sexo. O pecado capital é o da carne.
A grande maioria das religiões, sempre preocupada com a elevação da alma, nunca soube muito bem o que fazer com o corpo. A preocupação do sexo é a manutenção da vida carnal. Nada a ver com a sublimação proposta pela religião, o sexo valoriza o instante ao invés da eternidade, o físico ao invés do espiritual, o imperfeito ao invés do perfeito. As sociedades matriarcais sempre encaram melhor essa contradição do sexo. A Terra, afinal, é útero (dela nasce a vida) e sepulcro (a ela retornam os mortos). Daí o sexo ser interdito para várias religiões e a arte erótica sempre ter sido razão de polêmica. Além de tentar provocar excitação sexual, a arte erótica tenta reproduzir, em imagens, os objetos do desejo humano. Ou reproduzir, meramente, o ato sexual. A religião confina a sexualidade à zona do secreto, criando a culpabilidade, a proibição. A essa zona onde a proibição dá ao ato proibido uma claridade opaca, ao mesmo tempo “sinistra e divina”, claridade lúgubre que é a da “obscenidade” e do “crime”, e também a da religião.

31 março 2009

Poder da Igreja de banir as mulheres (2)

As práticas de controle da sexualidade produziram violências que ainda hoje se reproduzem em sociedades africanas e entre os muçulmanos, como a extirpação do clitóris na mulher, que teriam seu contraponto nas práticas sadomasoquistas até os dias de hoje. Em 1997 uma somaliana fugitiva denuncia a mutilação feminina. Em 28 países africanos, na Índia e em alguns países asiáticos, quando as meninas começam a apresentar os atributos femininos, os pais exigem e as mães executam a extirpação do clitóris e, às vezes, até dos lábios da vagina, usando tesouras, lâminas e mesmo pedaços de vidro.

Numa cerimônia banhada em sangue e dor, costuram tudo, deixando uma pequena abertura para a saída da urina e da menstruação. A tortura acompanha a vida destas mulheres. Nada sensibiliza os pais que exigem a mutilação como garantia de pureza, enquanto os maridos a exigem como garantia de felicidade da esposa. As mães compactuam com o crime e repetem, o que lhes ensinaram: é um ato religioso, que faz parte da cultura do povo e que lhes foi transmitido pelas mães e avós, como o único meio de garantir o bom comportamento das meninas e impedir que elas fiquem livres.
“O rito de passagem, iniciático e religioso, serve de véu para encobrir o verdadeiro motivo do ato cruel, bárbaro, macabro. As sociedades ocidentais e orientais foram contaminadas por uma máxima que elas repetem incessantemente: a superioridade do macho sobre a fêmea, que se manifesta no âmbito biológico, intelectual, social e religioso; foram contaminados ainda pelo postulado fundamental, aceito pelos pensamentos greco-romano e judaico-cristão: o desejo e o prazer femininos são animalescos e a sexualidade da mulher, comandada pelos sentidos, deve ser domada, porque é perniciosa para a sociedade e para o homem”, informa a professora Maria Nazareth Alvim de Barros.
Segundo a historiadora britânica Geraldine Brooks, o costume da circuncisão feminina se originou na África Central na Idade da Pedra, seguindo para o norte do continente africano. No Ocidente, a circuncisão era utilizada como processo terapêutico até os anos 50. Médicos britânicos e norte-americanos praticavam a clitoridectomia e a castração feminina (retirada dos ovários) para enfrentar melancolia e ninfomania. Até o século 19, acreditava-se que as mesmas práticas “curavam” histeria, masturbação, lesbianismo e epilepsia.
Fatores culturais não devem servir de pretexto para violações aos direitos humanos, segundo a advogada norte americana Layli Miller, que obteve asilo nos EUA para uma africana que fugiu de Togo a fim de evitar a mutilação genital: Fauziya Kassindja. Entre as formas de discriminação contra as mulheres, a advogada cita o tráfico de mulheres, a violência doméstica e o “horror killings” (assassinatos motivados por ofendas à “honra”). “Crimes de honra também são um problema no Brasil. Parecem diferentes do que ocorre no Paquistão, onde uma mulher pode ser morta por se recusar a casar-se com o homem indicado por seu pai, mas traduzem a mesma idéia: a honra de um homem é um pretexto para assassinatos. Por exemplo, se ele descobre que a mulher o trai, ele a mata e não necessariamente é enviado à prisão. Isso também é crime de honra”. A cultura judaica-cristã atribuiu a idéia de culpa relacionada ao sexo e a circuncisão masculina (corte no pênis) indica o ingresso da criança no seio da comunidade.
A partir do século X, a Igreja se empenha em aprimorar seus instrumentos de controle e dominação. Dois séculos mais tarde, ao instituir a confissão, vê-se em condições de reger o íntimo. Para o bispo Étienne de Fougères, a mulher é portadora de mal. Ele repete com vigor no “Livre dês manières” (Livro das maneiras), composto entre 1174 e 1178. Escreveu-o em língua romântica, dirigido, portanto, aos membros da corte, aos cavaleiros e às damas. Trata-se de um longo poema – 336 estrofes, 1.344 versos -, sob forma de um sermão. Uma coleção de seis sermões, cada um deles referente a uma categoria social, sublinhando seus defeitos específicos e propondo-lhe um modelo de conduta. Esse homem de Igreja julga, define as infrações a fim de as reprimir, baseando-se na autoridade de seus antecessores (Marbode, o bispo Burchard de Worms, entre outros), e deste modo assentar solidamente, pouco a pouco, as regras de uma moral.

30 março 2009

Poder da Igreja de banir as mulheres (1)

Em um filme de aventura intitulado “O Vôo da Fênix” um grupo de pessoas está perdida no deserto. Em um momento de alta tensão um deles pergunta a um outro se ele é religioso. A resposta: “A espiritualidade não é religião. A religião divide as pessoas. A crença em alguma coisa une”. A religião em geral busca dirigir-se a todos os homens sem distinção, para lhes oferecer os “meios de salvação”, e não explicações (metafísicas) sobre a verdade pura e a natureza profunda das coisas – apesar de essas explicações serem oferecidas indiretamente e simbolicamente.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844/1900) em sua obra “Humano, demasiado humano” afirma que os sacerdotes até hoje vivem da anestesia dos males humanos. E na vantagem de ter religião ele escreveu: “Existem pessoas sóbrias e eficientes, às quais a religião está pregada como uma orla da humanidade superior: estas fazem muito bem em permanecer religiosas, pois isso os embeleza – Todos os homens que não entendem de um ofício qualquer das armas - a boca e a pena contam como armas – se tornam servis: para eles a religião cristã é útil, pois nela o servilismo toma o aspecto de uma virtude cristã e fica espantosa – é muito vazia e monótona se tornam facilmente religiosas: isto é compreensível e perdoável, mas elas não têm o direito de exigir religiosidade daqueles para quem a vida não transcorre cotidianamente vazia e monótona”.
“Podemos continuar a consumir nossas comodidades, a minimizar perigos, a ignorar o misterioso e o desconhecido, e a desencorajar a criatividade, até o mundo ficar tão seguro para nós que nos tornaríamos ´inextirpáveis, como a pulga´. Ou podemos nos empenhar por nos tornarmos algo mais que ´humanos, demasiadamente humanos´, e aspirar ao Ubermensch (super-homem). O último homem é o burguês consumado, o utilitário satisfeito, o pamonha absoluto”.
“A igreja se mete nessa história porque tem seus próprios interesses. Os funcionários de todas as religiões vivem da figura de Deus. Essas pessoas quer acreditam nisso, têm que continuar acreditando, porque é Deus que dá a comida, a roupa, o prestígio e o poder para eles, no sentido exato da palavra. Quanto mais pobre e sem cultura, mais a pessoa é dependente da religião” (Elsimar Coutinho, médico, em entrevista a revista Ana Magazine nº01, 2006).

A história da humanidade tem sido a história de personagens masculinos, sejam eles guerreiros, sacerdotes, heróis ou artistas. A influência da tradição sempre foi reforçada e, em certa medida, continua sendo até hoje pela religião, instituição de marcado caráter conservador. Com o passar do tempo a mulher transformou-se, ela mesma, num agente de reprodução do sistema, cooptada pela ideologia paternalista, que tem como premissa a legitimidade da autoridade masculina sobre o conjunto da sociedade. De todos os milhares de mitos da criação imaginados por povos de todos os lugares, as histórias da criação e de Adão e Eva, que abrem o Gênese, dupla narrativa produzida há muito tempo por obscuros semitas foi a que triunfou nas três principais religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo.
Em seu livro sobre “A Assustadora História da Maldade”, Oliver Thomson traz uma profunda compreensão das complexas relações entre as crenças de uma sociedade e seu comportamento. A idéia dominante e provocativa do autor é que a moralidade está sujeita aos costumes e aos caprichos dos ricos e poderosos, como em qualquer outro aspecto da vida humana. Para a maioria de nós, todo código ético propõe a virtude e condena o mal. Entretanto, muitos crimes foram e são cometidos em nome do que se supõe ser a virtude, caminho para o poder ou o prestígio, em todos os períodos históricos. O genocídio fez parte da ética fascista, o infanticídio, de espartana. Os jesuítas praticavam a tortura, os puritanos queimavam as bruxas, os membros do IRA e do ETA crêem na validade do assassinato. O que faz com que o conceito do bem (e, portanto, o do mal) mude conforme a época, o povo e o contexto sócio econômico?
Todos os períodos da História abrigaram seus próprios dissidentes. Sociedade alguma jamais foi inteiramente normalizada, mesmo tendo cada uma estabelecido suas normas. Houve agnósticos em plena Idade Média cristã, libertinos no século 19, pornocratas na Inglaterra calvinista, despreocupados pacifistas às vésperas da Grande Guerra, puritanos declarados em maio de 68, etc. As grandes evoluções da moral sexual nunca envolveram a coletividade como um todo. Elas tiveram apenas uma significação majoritária, global, antropológica. Ficar de acordo com os valores dominantes em seu tempo ou se confrontar com eles, aceitar o peso do holismo ou oferecer-lhe resistência, esta margem permanece sempre em aberto. E remete cada homem a sua irredutível liberdade. A pressão coletiva é sempre poderosa, mas nunca o é de forma absoluta. Nos artigos a seguir vamos conhecer o poder da Igreja em esconder certas “verdades” em benefício próprio. E o povo que vai pastar. É a sua mensagem.

27 março 2009

Dez momentos do lançamento de Bahia, um estado d´alma

Na última quinta-feira, dia 26, no Espaço Cultural Unibanco Cinema Glauber Rocha (Galeria do Livro), foi lançado meu quinto livro "Bahia, um estado d´alma". O livro já está à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 e Cinema Glauber Rocha) e Pérola Negra (Canela). Eis dez momentos fotográficos do lançamento.




































































26 março 2009

Passeio gastronômico na cozinha baiana

Hoje, a partir das 18h30, estarei esperando os amigos (as) para o lançamento de meu quinto livro “Bahia, um estado d´alma” no Espaço Cultural Unibanco (Galeria do Livro) Cinema Glauber Rocha, na Praça Castro Alves. Conto com a presença de todos para um rápido papo e um coquetel especial oferecido pela nossa querida Andréa Siamenghi. Com exclusividade, um capítulo do livro sobre gastronomia:


“No tabuleiro da baiana tem:/vatapá, oi, caruru,/mugunzá, tem umbu pra Ioió./Se eu pedi você me dá/o seu coração, seu amor de Iaiá./No coração da baiana tem:/sedução,oi,cangerê,/ilusão, oi,candomblé pra você.//Juro por Deus, pelo Senhor do Bonfim/quero você, baianinha,/inteirinha pra mim./E depois, o que será de nós dois?/seu amor é tão fugaz, enganador./Tudo já fiz,/fui até um cangerê pra ser feliz/meus trapinhos juntar com você./E depois, vai ser mais uma ilusão./No amor quem governa é o coração” (No Tabuleiro da Baiana, de Ary Barroso)

Do Recôncavo até a Chapada Diamantina, da região sisaleira até o Sul do Estado, da Serra Geral ao Oeste o visitante tem a oportunidade de conhecer a verdadeira culinária baiana. Trata-se de um passeio gastronômico pelo que há de mais típico na cozinha da Bahia: moqueca de tucunaré com cortado de palmito, galinha caipira ao molho de cansanção, pingolete (godó de banana), ensopado de mandacaru, fritada de mamão verde, ensopado de jaca, malamba (fubá com galinha) e moqueca de maturi são alguns exemplos do que o turista tem para degustação. Da cozinha saem pratos do sertão nordestino. A buchada de carneiro (bucho recheado com miúdos) e a galinhada caipira (cozida em pedaços na própria gordura, com pirão e coentro) estão entre as atrações.

Carne-de-sol com macaxeira (mandioca), jerimum (abóbora) e batata-doce. A famosa manteiga de garrafa (líquida, na temperatura ambiente, conservada na garrafa) é tempero importante. Baião-de-dois é o nome do acompanhamento contendo feijão-de-corda cozido junto com arroz podem-se provar pratos como frigideira de camarão, moqueca de peixe acompanhada com arroz de coco e pirão e carne-seca com quiabo. Como se sabe, a culinária baiana é vigorosa e apimentada. Siri-mole frito, acarajé, bobó de camarão com vatapá e moqueca de siri-mole.


O azeite de dendê é ingrediente fundamental, praticado em Salvador e na região costeira situada dentro de sua faixa da influência. Seguindo-se em direção ao interior, já a partir de Feira de Santana e até para além do Rio São Francisco, o azeite de dendê praticamente desaparece, e a cozinha adquire consistência e sabores sertanejos: carne de sol com pirão de leite, feijão verde com manteiga de garrafa, entre outros.

NORTE - Nossa viagem começa pelo litoral norte com o beiju feito na hora com queijo e côco de Cardeal da Silva, ou os doces caseiros de leite, de côco, mamão e carambola, além do bolo de goma e aimpim. Jandaíra, Catu, Entre Rios, Ouriçangas, Pojuca, Sátiro Dias e Esplanada possuem comidas especiais de dar água na boca. Saindo do litoral norte e entrando na região metropolitana temos os peixes fritos de Camaçari, Candeias, Lauro de Freitas, São Francisco do Conde, Dias D´Ávila, Madre de Deus. Em Itaparica pode-se deliciar com os petiscos como moqueca de peixe e de camarão, ensopados de ostra, aratu, polvo, lula e sarnambi. E Vera Cruz tem doces típicos como a cocada sabor da ilha, servida na casca do coco.

Da região metropolitana seguimos para o Nordeste baiano. Grande produtor de beiju, farinha de mandioca e derivados da goma, Conceição do Coité, a capital do sisal conquistou muitos visitantes com esses produtos. Em Cipó tem doces de conserva de todo tipo. Já na capital do bode, Uauá o que não pode faltar é a buchada, viuvinha, arrumadinho, carne de sol e tripa de porco. Em Cansanção tem o legítimo ensopado de galinha caipira acompanhada de farofa caipira, pirão de muncanã e molho de cansanção (planta símbolo da cidade). Na sobremesa doce de cachixa de oricuri e o aperitivo pode ser pau-de-rato ou verga de quati. Em Santa Brígida o prato típico é a buchada de carneiro ou o bode assado. Serrinha oferece pão, doce, patê, pudim, musse, quibi, tudo feito com o caju, com sabor especialíssimo. É provar e gostar. Em Araci as bebidas são afrodisíacas. E em Fátima tem doce de bufu (feito com a raiz do umbuzeiro) e o cuscuz com mocotó.

No Paraguaçu o que mais se come é carne do sol, de bode (Rui Barbosa) ou mesmo a famosa feijoada de Iaçu. Se o assunto é mel de abelha, cachaça temperada (capim santo, alecrim, cidreira e jatobá), bode e carneiro defumado, tucunaré de vários tipos, caldo de peracuca (tipo de peixe da região) vai encontrar em Marcionílio Souza.


RECÔNCAVO - No Recôncavo vamos conhecer na festejada Santo Amaro da Purificação, berço do samba, e a sua maniçoba, ou a frigideira de marisco de Salinas da Margarida, a moqueca de fruta pão de Saubara. Maniçoba faz a delícia dos moradores de Governador Mangabeira. Mutuípe é conhecida pelo escaldado de pitu com pirão. Galinha caipira com andu ou pirão é a pedida no município de Laje. A rica variedade de frutas como o bacupari, a guabiraba e ouricuri estão em destaques em Amargosa, assim como o cuscus de inhame. Nazaré das Farinhas apresenta muitos doces caseiros (tomate, goiaba, caju e carambola). Já São Felipe, produtor de cana de açúcar tem rapadura, açúcar mascavo e melado de qualidade.

Saindo do Recôncavo e entrando na região do São Francisco, o visitante pode degustar de uma rapadura de Casa Nova ou beber um caldo de cana e se deliciar com a melancia e acerola, fruta da localidade. Barra, a princesa do São Francisco, uma das mais antigas povoações do Brasil apresenta sua culinária típica baseada no peixe (a cidade é banhada pelos rios Grande e São Francisco), principalmente a moqueca de surubim e doces deliciosos como o de muriti. Em Itaquara a pedida é malamba (fubá com galinha), e o doce de leite com rapadura.

“Bahia, terra do coco babaçu/Bahia, que tem muqueca e umbú/Baiana tem mandinga/Baiana tem feitiço/Eu sou da Bahia/E mereço um sacrifício/Quem da Bahia tiver saudade/Pega o pandeiro e cai no choro/Roda o tundá, bota a chinela/Cai num desafio/Integrando o coro/Terra do jongo e do batuque/A batucar nas noites de Reis/Eu, pra Bahia, hei de voltar/Juro por Deus/E não tem talvez” (Bahia, de Ary Barroso).

25 março 2009

Dia 26 (amanhã) no Espaço Unibanco de Cinema tem lançamento: Bahia, um estado d´alma

Para comemorar os 460 anos de fundação da cidade de Salvador, o jornalista e pesquisador Gutemberg Cruz lança nesta quinta-feira (dia 26) no Espaço Cultural Unibanco (Galeria do Livro) Cinema Glauber Rocha (Praça Castro Alves) a partir das 18h30min o livro “Bahia, um estado d´alma”. Capa e contra capa com ilustração do artista gráfico Wilton Bernardo. O livro está à venda nas livrarias: LDM (Livraria Multicampi, Piedade), Galeria do Livro (Espaço Cultural Unibanco na Praça Castro Alves e Boulevard 161, Itaigara) e Pérola Negra (Canela). A jornalista Cathyanne Rodriguez no prefácio informa: “A Bahia é um estado d’alma. (...). Não faz diferença que o baiano more em Paris ou Grécia, num casarão vitoriano ou num apartamento modernista, a Bahia o habita. Assim, a Bahia é onipresente. Cada um a carrega vida afora à sua maneira. Cada um tem a sua Bahia.. É assim que Gutemberg Cruz inicia sua obra: com emoção e simplicidade. E isso é recorrente ao longo de cada capítulo. Mesmo aquele que nunca foi a Bahia, sente-se caminhando por entre as descrições sensoriais do autor. Mais do que puro e simplesmente ler um livro, passeia-se pelo barroco, pelos becos escuros, pelos mistérios, encantos, sons, cheiros, imagens, sensações e emoções da Bahia”.

(Na foto, Gutemberg e a jornalista Cathyanne)
“Além de conhecer a Bahia, o autor presenteia o leitor ainda com o desvendamento de mitos, lendas e curiosidades desta terra. Uma das lendas que corre mundo afora é de que Salvador possui 365 igrejas, uma para cada dia do ano. O autor, sabiamente não desmitifica isso dando o número exato de igrejas, ele faz melhor: elucida a razão pela qual a capital baiana ostenta tantas basílicas e templos religiosos. Segundo ele, a disposição dos baianos para a festa, as transgressões e o caráter lascivo foram motivos suficientes para que nossos colonizadores erguessem tantas igrejas: para que as pessoas confessassem seus pecados. E tome igreja em cada esquina!”

ABENÇOADA - “A Bahia é, de fato, uma terra abençoada. O capricho da natureza é evidente no seu litoral de praias tranqüilas recheadas de coqueiros. Salvador carrega a fama de possuir 365 igrejas, uma para cada dia do ano, no puro estilo barroco. Símbolos da cidade como o Elevador Lacerda, o Farol da Barra e o Pelourinho encantam os visitantes. Aqui foi o berço onde se proliferaram movimentos que modificaram padrões estéticos de alguns segmentos da arte produzida no Brasil. A Bahia impulsionou o surgimento de notáveis escritores, músicos, políticos, juristas e educadores”.

“A fusão dos sons dos atabaques dos candomblés e o ritmo do samba-reggae, que costumam invadir as noites, transformam a capital da Bahia numa cidade diferente. Mais do que encantadora malemolência e jingado do povo baiano, chamam a atenção dos visitantes o sincretismo religioso e a beleza da cidade velha, que reúne um dos principais acervos culturais do país. São obras e monumentos do período renascentista, sacro, barroco, rococó e neo-clássico, distribuídos em pelo menos 166 igrejas e dezenas de museus. As estreitas ruas das íngremes ladeiras do Centro Histórico de Salvador, onde está localizado o Pelourinho, faz as pessoas retornarem ao passado. Casarões se perfilam por quarteirões inteiros, relatando, séculos depois, o fausto de uma época marcada pela riqueza e o rigor no trato com a população negra. Hoje os moradores do Pelourinho se destacam pela busca de uma cidadania outrora negada, e entidades como o Olodum se fortalecem dia a dia”.

PLURALIDADE - “A formação geográfica de Salvador, de forma triangular e cercada pelo mar em dois lados, concede condições privilegiadas para se aproveitar o sol, enquanto uma breve brisa sopra constantemente, tornando o clima muito agradável. Capital da pluralidade misturando novo e antigo na alegria de uma gente que soube guardar herança cultural de três raças e mescla-las numa só, criando esta identidade tão peculiar, que distingue o baiano de todos os outros povos dopais continente Brasil. Durante debate sobre conceito de Nação com teóricos do Partido Comunista da União Soviética, em Moscou, o dirigente comunista baiano Armênio Guedes, solicitado a dar sua opinião sobre o Brasil, respondeu, segundo Jorge Amado em “Navegação de Cabotagem”: “Se o Brasil é uma nação eu não sei. Conheço pouco de Brasil. Mas que a Bahia é uma nação, é, sem a menor dúvida”.

"A cidade mais antiga do Brasil, que completa 460 anos de vida, reúne praias belíssimas como a de Itapuã e a de São Tomé de Paripe, e parques de beleza natural como de Pituaçu, Abaeté e São Bartolomeu. O cidadão de Salvador nunca perde de vista a identidade. No simples sorriso que recepciona os visitantes ou na amistosa saudação aos íntimos (“diga aí, meu rei!”), no mergulho na Baía de Todos os Santos ou na subida da Colina Sagrada e na ritualística celebração, de bermuda e camiseta na Fonte Nova em dia de Ba Vi este povo exala o charme maior da cidade. O soteropolitano que recebe os turistas com um largo sorriso sabe que sua cidade é de Oxum, deus das águas doces, da malemolência, do dengo e dos mistérios. Assim é a Bahia, “terra da felicidade”, “cidade mãe” porque é acolhedora, cidade do sol, sempre sorrindo, do samba de roda, do som saliente, sabores sortidos e suculentos, e rica em tradições. Uma terra ao mesmo tempo singular e plural”.

No passeio pela Bahia, Gutemberg mostra a identidade visual de muitos municípios como Porto Seguro, a cidade monumento, Caravelas e o Arquipélago de Abrolhos, Ilhéus a terra dos romances de Amado, Itacaré ótima para o surf, Canavieiras a capital do caranguejo, Valença terra do camarão, Mucugê e o cemitério bizantino, Abaíra e sua boa cachaça, Iraquara cidade das grutas, Lençóis a capital do diamante, Paulo Afonso a terra dos esportes radicais, Juazeiro a capital da irrigação, Tucano e suas águas minerais, Monte Santo a terra dos peregrinos, Barreiras a capital da soja e Bom Jesus da Lapa a cidade santuário, da fé.

24 março 2009

Bahia, um estado d´alma será lançado dia 26 (quinta) de março

O jornalista e pesquisador Gutemberg Cruz estará lançando no próximo dia 26 de março, às 18h30, no Espaço Unibanco de Cinema (Galeria do Livro) na Praça Castro Alves, em Salvador, o livro “Bahia, um estado d´alma”. O lançamento comemora os 460 anos de fundação da cidade de Salvador. A capa e contra capa do livro conta com ilustração do artista gráfico Wilton Bernardo. No obra Gutemberg escreve sobre a “terra de todas as belezas” que começou como capital do Atlântico Sul, faz referência para os navegadores, os cheiros, temperos e aromas exóticos, o ritmo no sangue dos baianos (um povo que canta e dança), os diversos preceitos na religiosidade, a Bahia de Oxum, de corpo e alma, feminina. Em seguida ele descreve as comidas tentadoras do Sul da Bahia, a cultura popular e manifestação folclórica, faz um panorama da cultura popular numa Bahia singular/plural, mostra as trilhas da Chapada Diamantina, as relíquias de guerra, fé e grãos que destacam o oeste e sertão, a Baía de Todos os Santos ao Recôncavo e o turismo no litoral baiano. Eis a abertura da obra:
(Na foto, Lúcia e Gutemberg)
A Bahia é um estado d´alma. Nem o tempo nem o exílio podem destruir. Não faz diferença que o baiano more em Paris ou Grécia, num casarão vitoriano ou num apartamento modernista, a Bahia o habita. Assim, a Bahia é onipresente. Cada um a carrega vida afora à sua maneira. Cada um tem a sua Bahia. Para uns são as festas populares sagradas e profanas, e para outros, o perfume dos cacaueiros da infância ou o sabor das frutas tropicais. O lugar onde se está é onde o mundo nasce.
A Bahia é, de fato, uma terra abençoada. O capricho da natureza é evidente no seu litoral de praias tranqüilas recheadas de coqueiros. Salvador carrega a fama de possuir 365 igrejas, uma para cada dia do ano, no puro estilo barroco. Símbolos da cidade como o Elevador Lacerda, o Farol da Barra e o Pelourinho encantam os visitantes. Aqui foi o berço onde se proliferaram movimentos que modificaram padrões estéticos de alguns segmentos da arte produzida no Brasil. A Bahia impulsionou o surgimento de notáveis escritores, músicos, políticos, juristas e educadores.
A fusão dos sons dos atabaques dos candomblés e o ritmo do samba-reggae, que costumam invadir as noites, transformam a capital da Bahia numa cidade diferente. Mais do que encantadora malemolência e jingado do povo baiano, chamam a atenção dos visitantes o sincretismo religioso e a beleza da cidade velha, que reúne um dos principais acervos culturais do país. São obras e monumentos do período renascentista, sacro, barroco, rococó e neo-clássico, distribuídos em pelo menos 166 igrejas e dezenas de museus. As estreitas ruas das íngremes ladeiras do Centro Histórico de Salvador, onde está localizado o Pelourinho, faz as pessoas retornarem ao passado. Casarões se perfilam por quarteirões inteiros, relatando, séculos depois, o fausto de uma época marcada pela riqueza e o rigor no trato com a população negra. Hoje os moradores do Pelourinho se destacam pela busca de uma cidadania outrora negada, e entidades como o Olodum se fortalecem dia a dia.
A formação geográfica de Salvador, de forma triangular e cercada pelo mar em dois lados, concede condições privilegiadas para se aproveitar o sol, enquanto uma breve brisa sopra constantemente, tornando o clima muito agradável. Capital da pluralidade misturando novo e antigo na alegria de uma gente que soube guardar herança cultural de três raças e mescla-las numa só, criando esta identidade tão peculiar, que distingue o baiano de todos os outros povos dopais continente Brasil. Durante debate sobre conceito de Nação com teóricos do Partido Comunista da União Soviética, em Moscou, o dirigente comunista baiano Armênio Guedes, solicitado a dar sua opinião sobre o Brasil, respondeu, segundo Jorge Amado em “Navegação de Cabotagem”: “Se o Brasil é uma nação eu não sei. Conheço pouco de Brasil. Mas que a Bahia é uma nação, é, sem a menor dúvida”.

A cidade mais antiga do Brasil, que completa 460 anos de vida, reúne praias belíssimas como a de Itapuã e a de São Tomé de Paripe, e parques de beleza natural como de Pituaçu, Abaeté e São Bartolomeu. O cidadão de Salvador nunca perde de vista a identidade. No simples sorriso que recepciona os visitantes ou na amistosa saudação aos íntimos (“diga aí, meu rei!”), no mergulho na Baía de Todos os Santos ou na subida da Colina Sagrada e na ritualística celebração, de bermuda e camiseta na Fonte Nova em dia de Ba Vi este povo exala o charme maior da cidade. O soteropolitano que recebe os turistas com um largo sorriso sabe que sua cidade é de Oxum, deus das águas doces, da malemolência, do dengo e dos mistérios. Assim é a Bahia, “terra da felicidade”, “cidade mãe” porque é acolhedora, cidade do sol, sempre sorrindo, do samba de roda, do som saliente, sabores sortidos e suculentos, e rica em tradições. Uma terra ao mesmo tempo singular e plural.

O livro está à venda nas livrarias: LDM (Livraria Multicampi, Piedade), Galeria do Livro (Espaço Cultural Unibanco na Praça Castro Alves e Boulevard 161, Itaigara) e Pérola Negra (Canela).
Lançamento:

Livro: Bahia, um estado d ´alma
Dia: 26 de março
Horário: 18h30
Local: Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha (Galeria do Livro) na Praça Castro Alves, Salvador, Bahia.

23 março 2009

A invenção do Nordeste (3)

Durval Muniz de Albuquerque Jr informa ainda que no Sul, a partir da década de 20, pensa-se a identidade nacional dividida em pólos antagônicos. São Paulo, Pernambuco e Bahia são tomados como células iniciais do tecido nacional. O discurso histórico centra-se na história dessas três áreas, para construir a história do Brasil. “O Brasil seria um país cindido entre a inteligência do Sul, mais bem aparelhada em seus conceitos de realidade; e, de outro lado, o ´nortista´, fantasioso, imaginoso e sensitivo, delirante e compadecido. Razão e sentimento, dilema em que se cindia a identidade nacional, representada pela divisão entre suas duas regiões”. E assim ele apresenta o pensamento de Menotti del Picchia, Mario e Oswald de Andrade, Amadeu Amaral, entre outros. Para o estudioso, o Nordeste, espaço da saudade, da tradição, foi também inventado pelo romance, pela música, pela poesia, pela pintura, pelo teatro etc.

O Nordeste como o lugar da tradição é sempre tematizado como uma região rural, onde as cidades aparecem, como símbolo da decadência, do pecado, do desvirtuamento da pureza e d inocência camponesa. Embora muito antigo, o fenômeno urbano e metropolitano no Nordeste é praticamente ignorado por sua produção artística e literária. Sendo o local de uma das primeiras manifestações industriais no país, a indústria é vista com desconfiança, como um corpo estranho numa “região agrícola”. “Olhar o Nordeste da cidade grande é como olhar do lado averso de um binóculo. Tudo longe, muito embaraçado”. Em algumas formulações, o Nordeste aparece como o mundo “primitivo”, em oposição à degenerescência do mundo “civilizado”.

Para o doutorado em História na Unicamp, e professor das universidades federais do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, os romances der Graciliano Ramos e Jorge Amado. Da década de 30, a poesia de João Cabral de Melo etc, a pintura de caráter social, da década de 40, e o Cinema Novo, do final dos anos 50 e início dos anos 60, tomarão o Nordeste como o exemplo privilegiado da miséria, da fome, do atraso, do subdesenvolvimento, da alienação do país. “Tomando acriticamente o recorte espacial Nordeste, esta produção artística ´de esquerda´ termina por reforçar uma série de imagens e enunciados ligados à região que emergiram com o discurso da seca, já no final do século passado. Vindo ao encontro, em grande parte, da imagem de espaço-vítima, espoliado; espaço da carência, construído pelo discurso de suas oligarquias. Eles lançam mão de uma verdadeira mitologia do Nordeste, já fabricada pelos discursos anteriores, e a submete a uma leitura ´marxista´que a inverte de sentido, mantendo-a, no entanto, presa à mesma lógica e questões. Do Nordeste pelo direito, passamos a vê-lo pelo avesso, em que as mesmas linhas compõem o tecido, só quer, no avesso, aparecem seus nós, seus cortes, suas emendas, seu rosto menos arrumado, embora constituinte também da própria malha imagético-discursiva chamada Nordeste”.


Ele aborda a questão das contradições de uma literatura presa a um dispositivo de poder e às sua lógica vivido pelo povo brasileiro. “Na literatura realista, o significado e o significante ficam unidos por ligações inseparáveis. Nesta, a linguagem denotativa impõe um sentido como verdadeiro, enquanto o autor impõe um sentido ao leitor, que tende a participar pouco da construção do sentido da obra. Ela não é uma prosa dialógica, mas monológica, em que as identidades dos personagens são sempre fichadas, em que não se permite a afirmação da negação, que é excluída numa síntese dialética ou conciliada por um trabalho de harmonização pelo uso da linguagem simbólica”.

O Nordeste destes romances é o Nordeste artesanal, no qual o industrial é visto como dramático e feio. Um Nordeste mais dos marginais, dos malandros, dos trabalhadores informais e autônomos. Um Nordeste da fuga do trabalho rotineiro e da disciplina industrial.

Em sua conclusão, Durval Muniz escreveu que o Nordeste é uma invenção recente na história brasileira, se gestou no cruzamento de uma série de práticas regionalizantes, motivadas pelas condições particulares com que se defrontam, as províncias do Norte, no momento em que o dispositivo da nacionalidade, que passa a funcionar entre nós, após a Independência, coloca como tarefa, para os grupos dirigentes do país, a necessidade de se construir a nação. “O Nordeste é, portanto, filho da modernidade, mas é filho reacionário, maquinaria imagético-discursiva gestada para conter o processo de desterritorialização por que passavam os grupos sociais desta área, provocada pela subordinação a outra área do país que se modernizava rapidamente: o Sul”.

“O Nordeste, na verdade, está em toda parte desta região, do pais, e em lugar nenhum, porque ele é uma cristalização de estereótipos que são subjetivados como característicos do ser nordestino e do Nordeste. Estereótipos que são operativos, positivos, que instituem uma verdade que se impõem de tal forma, que oblitera a multiplicidade das imagens e das falas regionais, em nome de um feixe limitado de imagens e falas-clichês, que são repetidas ad nausem, seja pelos meios de comunicação, pelas artes, seja pelos próprios habitantes de outras áreas do país e da própria região”.

Assim a obra de Muniz questiona esta representação regional e a prisão dos discursos a este dispositivo de força que a sustentou e a sustenta. “É preciso fugir do discurso da súplica ou da denúncia da miséria; é preciso novas vozes e novos olhares que compliquem esta região, que mostrem suas segmentações, as cumplicidades sociais dos vencedores com a situação presente deste espaço. Se o Nordeste foi inventado para ser este espaço de barragem da mudança, da modernidade, é preciso destruí-lo para poder dar lugar a novas espacialidades de poder e de saber”.

20 março 2009

A invenção do Nordeste (2)

Para Durval Muniz de Albuquerque, a região Nordeste surge na “paisagem imaginária” do país, no final da primeira década do século XX, substituindo a antiga diversão regional do país entre Norte e Sul, e foi fundada na saudade e na tradição. Surgiu da construção de uma totalidade político-cultural como reação à sensação de perda de espaços econômicos e políticos por parte de produtores tradicionais de açúcar e algodão, dos comerciantes e intelectuais a eles ligados. Assim, lança-se mão de topos, símbolos, de tipos, de feitos para construir um todo que reagisse à ameaça de dissolução, numa totalidade maior, agora não dominada por eles: a nação.


A questão da influência do meio era a grande arma política do discurso regionalista nortista, desde que a seca foi descoberta em 1877, como um tema que mobilizava, que emocionava, que podia servir de argumento para exigir recursos financeiros, construção de obras, cargos no Estado etc. O discurso da seca e sua “indústria” passam a ser a “atividade” mais constante e lucrativa nas províncias e depois nos Estados do Norte, diante da decadência de suas atividades econômicas principais: a produção de açúcar e algodão.

Assim, o Nordeste surge como a parte do Norte sujeita às estiagem e, por essa razão, merecedora de especial atenção do poder público federal. O Nordeste é, em grande medida, filho das secas; produto imagético-discursivo de toda uma série de imagens e textos, produzidos a respeito deste fenômeno, desde que a grande seca de 1877. Veio colocá-la como o problema mais importante desta área.

A seca de 1877/79, a primeira a ter grande repercussão nacional pela imprensa e a atingir setores médios dos proprietários de terra, trouxe um volume considerável de recursos para as “últimas do flagelo” e fez com que as bancadas “nortistas” no Parlamento descobrissem a poderosa arma que tinha nas mãos, para reclamar tratamento igual ao dado ao “Sul”. A seca tornou-se a partir daí o problema de todas as províncias e, depois, dos Estados do Norte.

Para o estudioso Durval, que possui pós-doutorado pela Universidade de Barcelona, a produção sociológica de Gilberto Freyre, bem como a dos chamados “romancistas de trinta”, têm no trabalho com a memória a principal matéria. Eles vão tentar construir o Nordeste pela rememoração de suas infâncias, em que predominavam formas de relações sociais agora ameaçadas. Eles resgatam a própria narrativa como manifestação cultural tradicional e popular, ameaçada pelo mundo moderno, e a tomam como expressão regional. Enquanto em São Paulos os modernistas procuravam romper com a narrativa tradicional, assumindo a própria crise do romance no mundo moderno, no Nordeste o movimento regionalista e tradicionalista volta-se para resgatar as narrativas populares, a memória como único lugar de vida para este homem moderno dilacerado entre máquinas, a narrativa como o lugar de reencontro do homem consigo mesmo, de um espaço com sua identidade ameaçada.

Em seus estudos ele mostra que até nas músicas de Luiz Gonzaga, no trabalho teatral e literário de Ariano Suassuna o Nordeste parece estar sempre no passado, na memória. Para ele, “este Nordeste é uma máquina imagético-discursiva que combate a autonomia,m a inventividade e apóia a rotina e a submissão, mesmo que esta rotina não seja o objetivo explícito, consciente de seus autores, ela é uma maquinaria discursiva que tenta evitar que os homens se apropriem de sua história, que a façam, mas sim que vivam uma história pronta, já feita pelos outros, pelos antigos; que se ache ´natural´ viver da mesma forma as mesmas injustiças, misérias e discriminações. Se o passado é melhor que o presente e ele é a melhor promessa do futuro, caberia a todos se baterem pela voltados antigos territórios esfacelados pela história”.

Para Gilberto Freyre, o ponto de vista regional devia nortear os estudos de sociologia e história, porque a noção de região é aproximada à do meio ou local, habitat, um espaço da natureza sem o qual era impossível pensar a sociedade. A região é vista como a unidade última do espaço. Um espaço genético fundante de qualquer atividade humana. Freyre é também um dos fundadores do discurso que tenta modificar a negatividade das condições ecológicas do Brasil e, principalmente, do Nordeste. Sua visão é oposta à de Paulo Prado, por exemplo, para quem o meio era responsável pela tendência de o brasileiro ser teimoso, taciturno, triste, desconfiado, anulado. Para Prado, a tropicalidade nos condenava ao fracasso como nação, para Freyre ela nos singularizava como civilização, nos dava identidade, nos dava caráter próprio.

19 março 2009

A invenção do Nordeste (1)

Vivemos um momento de desidentificação com a memória nacional e regional. O livro de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, “A Invenção do Nordeste e outras artes” (Cortez Editora, 2006) é uma boa prova disso. O trabalho de pesquisa para a realização do doutorado em História na Unicamp, defendido em 1994 apresenta o surgimento de um recorte espacial, de um lugar imaginário e real no mapa do Brasil, que todos nós conhecemos profundamente, não importa de que maneira, mas que nunca pudemos imaginar com uma existência tão recente. E falar do Nordeste é inventariar os muitos estereótipos e mitos que emergiram com o próprio espaço físico reconhecido no mapa composto por alguns estados e cidades. É mobilizar todo o universo de imagens negativas e positivas, socialmente reconhecidas e consagradas, que criaram a própria idéia de Nordeste.


Um trabalho de pesquisa aprofundado que desconstrói foucaltianamente os discursos que deram visibilidade e que tornaram dizível a região nordestina. O que o livro interroga não é apenas por que o Nordeste e o nordestino são discriminados, marginalizados e estereotipados pela produção cultural do país e pelos habitantes de outras áreas, mas ele investiga por que há quase 90 anos dizemos que somos discriminados com tanta seriedade e indignação. Como, por meio de nossas práticas discursivas, reproduzimos um dispositivo de poder que nos reserva o lugar de pedintes lamurientos.


“Nós, os nordestinos, costumamos nos colocar como os constantemente derrotados, como o outro lado do poder do Sul, que nos oprime, discrimina e explora. Ora, não existe esta exterioridade às relações de poder que circulam no país, porque nós também estamos no poder, por isso devemos suspeitar que somos agentes de nossa própria discriminação, opressão ou exploração. Elas não são impostas de fora, elas passam por nós.


Longe de sermos seu outro lado, ponto de barragem, somos ponto de apoio, de flexão. A resistência que podemos exercer é dentro desta própria rede de poder, não fora dela, com seu desabamento completo”, escreveu no prefácio.
“O Nordeste é tomado, neste texto, como invenção, pela repetição regular de determinados enunciados, que são tidos como definidores de caráter da região e de seu povo, que falam de sua verdade mais interior”. As fontes utilizadas foram desde o discurso acadêmicos, passando pela publicação em jornais de artigos ligados ao campo cultural, à produção literária e poética de romanistas e poetas nordestinos ou não, até músicas, filmes, peças teatrais, que tomaram o Nordeste por tema e o constituíram como objeto de conhecimento e de arte.



Divididos em três capítulos, o primeiro, Geografia em Ruínas acompanha as transformações históricas que possibilitaram a emergência da idéia de Nordeste, desde a emergência do dispositivo das nacionalidades, passando por uma mudança na sensibilidade social em relação ao espaço, à mudança da relação entre olhar e espaço trazido pela modernidade e pela sociabilidade burguesa, urbana e de massas.



O segundo capítulo, Espaços da Saudade, aborda esta invenção regional, o surgimento do Nordeste como um novo recorte espacial no país, rompendo com a antiga dualidade Norte/Sul. A seca, o cangaço. O messianismo, as lutas de parentela pelo controle dos Estados, são temas que fundarão a própria idéia de Nordeste, uma área de poder que começa a ser demarcada, com fronteiras que servirão de trincheiras para a defesa dos privilégios ameaçados.



No terceiro capítulo, Territórios da Revolta, é abordado uma série de reelaboração da idéia de Nordeste, feitas por autores e artistas ligados ao discurso de esquerda. Nordeste gestado, a partir dos anos 30, por meio de uma operação de inversão das imagens e enunciados consagrados pela leitura conservadora e tradicionalista que dera origem à região. Obras como as de Jorge Amado, Graciliano Ramos, Portinari, João Cabral de Melo Neto produzem Nordestes vistos pelo avesso, Nordeste como região da miséria e da injustiça social. Estes Nordestes, construídos pelo avesso, ficam presos, no entanto, aos mesmos temas, imagens e enunciados consagrados e cristalizados pelos discursos tradicionalistas.





18 março 2009

Os oceanos em questão

Os oceanos tem papel importante na história da Terra. Foi dentro dele que a vida começou. Serviram de principal via para expansão dos horizontes da humanidade com o advento das grandes navegações. Os oceanos são o envoltório líquido que encobre o planeta Terra em 71% da sua superfície. E todos os organismos vivos são constituídos na maior proporção em peso de água.


Por recobrirem a maior parte da superfície terrestre, absorvem, redistribuem para a atmosfera ou refletem de volta para o espaço a maior parte da radiação solar, energia recebida do Sol pela Terra. Dessa forma, são também os principais responsáveis, com a atmosfera, que é nosso envoltório gasoso, pelo controle do clima.

Mares e oceanos foram utilizados pelo homem desde o início da nossa civilização primeiro como fonte de alimentos pela pesca artesanal ou coleta de moluscos e algas, depois como fonte de matérias-primas como sal, bromo, magnésio, calcário e, principalmente, como meio de transporte. Hoje o oceano é uma grande fonte de matérias para a indústria der alimentos e farmacêutico.

Fonte da vida e da morte, cenário da história, o mar sempre foi objeto de guerras e disputas. A história das grandes armadas, quase sempre às voltas com grandes batalhas, é mais ou menos conhecida, envolvendo Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda. O mar ainda tem se oferecido à contemplação e à inspiração artística, o que resultou na produção de valiosos monumentos históricos. Dois bons exemplos para ilustrar: Camões imortalizou os feitos singulares dos lusíadas. Suangue no mar de Camões, sal de lágrimas no mar de Fernando Pessoa.


VIDA - Oceanos são grandes extensões de água salgada que ocupam as depressões da superfície terrestre. Eles são importantes para o planeta, neles se originou a vida. Os oceanos são os grandes produtores de oxigênio (as microalgas oceânicas), regulam a temperatura da Terra, interferem na dinâmica atmosférica, caracterizam tipos climáticos. Além disso, a maior parte da população mundial mora junto ao litoral.

São cinco oceanos: Antártico, Atlântico, Pacífico, Ártico e Índico. O oceano Atlântico é considerado o mais importante por ser usado para a navegação e comércio de produtos entre a Europa e a América, principalmente a do Norte. O Pacífico é o maior dos oceanos, com 175 milhões de quilômetros quadrados.

Grande conhecedor das coisas do mar, Jacques Cousteau preocupou-se com a sua transformação em esgoto universal. Navios, petroleiros e plataformas a partir das quais se perfuram poços de petróleo inundam os mares e oceanos com seus detritos. Baleeiros e caçadores exterminam exterminam aos poucos várias espécies de fauna marinha. As indústrias lançam ao mar resíduos contendo chumbo, mercúrio, cádmio e outros elementos nocivos à fauna e flora marinhas – e, também, aos banhistas. Inventos (pulmão aquático ou aqualung), cientista, oceanógrafo, cineasta (O Mundo em Silêncio, O Mundo sem Sol), Cousteau dedicou mais der 40 anos à pesquisa submarina.

ESGOTADOS - Ninguém ignora que os recursos minerais existentes na superfície da Terra estão quase esgotados. Os governos tenderam a ver o mar como a solução para a carência futura, tentando assenhorear-se das riquezas nele contidas: na massa líquida, no assoalho dos oceanos (manganês) e em seu substrato sólido (petróleo, gás, etc).
Um número crescente de países estende o limite de seu mar territorial até 200 milhas da costa. Outras nações, interessadas em continuar explorando as riquezas contidas nesta faixa, não reconhecem esses limites. O debate em torno do mar territorial de 200 milhas tem feito com que não se levem em conta os recursos contidos no “mar de ninguém” e as discussões travadas a seu propósito.

O esgotamento das reservas terrestres de petróleo, gás e outros minérios, junto com o crescente temor de que as atividades agrícolas não bastam para as futuras necessidades de alimento, tem levado cada governo a tomar medidas para a proteção de seu litoral. A questão é saber quanto podemos subtrair do mar sem prejuízo de estoques existentes.

Há milhares de anos a Chapada Diamantina era uma praia e parte da região ficava no fundo do mar. O mais interessante é que os diamantes surgiram da ação da água sobre as rochas. Hoje os solos são arenosos e pouco profundos, e há uma grande quantidade de nascentes de diversos rios, o que ajuda na formação de cachoeiras e quedas d´água.

Desde a Antiguidade o peixe constitui o principal recurso natural extraído dos oceanos. Mas os peixes se distribuem de uma forma desigual por eles. Nas áreas em que os nutrientes das plantas são abundantes e é possível a fotossíntese, os mares chegam a produzir, num ano, até 60 quilos de peixes por 100 metros quadrados. Já em outras regiões, os nutrientes de que as plantas necessitam localizam-se abaixo da zona em que existe luz na quantidade requerida para a fotossíntese. Aí, as possibilidades de vida marinha são quase nulas.

17 março 2009

Sertão excludente

Sertão é uma região geográfica caracterizada pela presença de clima semi-árido, vegetação de caatinga, irregularidade de chuvas, solos secos e rios intermitentes ou temporários. O sertão nordestino compreende as áreas mais secas e distantes do litoral leste do Brasil, situadas nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Apenas no Ceará e no Rio Grande do Norte o sertão chega até o litoral. O chamado Polígono das Secas totaliza 936.933km2. Na linguagem popular, costuma-se chamar de sertão bravo as áreas mais secas da caatinga, e altos sertões as faixas de montanhas e colinas.

A relação entre o sertão e a civilização é sempre encarada como excludente. É um espaço visto como repositório de uma cultura folclórica, tradicional, base para o estabelecimento da cultura nacional. Para Euclides da Cunha e Monteiro lobato, a civilização devia, no entanto, ser levada ao sertão, resgatando essa cultura e essas populações que aí vivem

“Os Sertões” de Euclides da Cunha, publicado em 1906, é tido pelos críticos como o início da procura pelo verdadeiro país, pelo seu povo, tendo posto por terra a ilusão de nos proclamarmos uma nação européia e mostrando a importância de sermos americanos. Com ele, teríamos iniciado a busca da nossa origem, do nosso passado, da nossa gente, da nossa terra, dos nossos costumes e tradições. Teríamos ficado conhecendo, com ele, a influência do ambiente sobre o nosso caráter e a nossa raça em formação.

O sertão aparece como o lugar onde a nacionalidade se esconde, livre das influências estrangeiras. O sertão é muito mais que um recorte territorial preciso; é uma imagem-força que procura conjugar elementos geográficos, linguísticos, culturais, modos de vida, bem como fatos históricos de interiorização como as bandeiras, as entradas, a mineração, a garimpagem, o cangaço, o latifúndio, o messianismo, as pequenas cidades, as secas, os êxodos etc. O sertão surge como a colagem dessas imagens, sempre vistas como exóticas, distantes da civilização litorânea. É uma idéia que remete ao interior, à alma, à essência do país, onde estariam escondidas suas raízes.

Para Monteiro Lobato (Urupês é um bom exemplo), o verdadeiro Brasil, o que queria mostrar, era o Brasil do interior, não era o Brasil artificial, macaqueado do estrangeiro. Era o Brasil do campo, não o das grandes cidades. “O Brasil não era um São Paulo, enxerto do garfo italiano,. Nem o Rio artificial português. O Brasil está no interior, onde o sertanejo vestido de couro vasqueja nas coxilhas onde se domam potros. Está nas caatingas estorricadas pela seca...”

Enquanto muitos escritores continuavam preso à imagem tradicional de que o homem sábio se encontre na cidade ou no litoral, é só com Guimarães Rosa que o sertão vai irromper como discurso sábio na ficção brasileira. Rosa explora o sertão de maneira poética, comparando a paisagem seca e quase desértica aos sentimentos e às relações humanas. “O sertão é o sonho, o sertão é dentro da gente”, disse ele. Guimarães Rosa faz um verdadeiro tratado em sua obra Grande Serão: Veredas, mostrando a diversidade do sertão que vai de Minas Gerais a Bahia, passando pelo Centro-Oeste do país. João Cabral de Melo Neto, como Guimarães Rosa, pode ser visto como quem iniciou o processo de “desregionalização da região”, ou seja, fazendo emergir o caráter de construção discursiva, de invenção pela linguagem, do regional; fazendo emergir a percepção da região como formada por diversas camadas de imagens e enuciados, como fruto de visões e leituras diferenciadas, denunciando a textualidade que a construiu anteriormente.
OCUPAÇÃO - A colonização foi, antes de tudo, a aventura da conquista e ocupação do sertão. Para os colonizadores portugueses, as terras americanas significavam um imenso vazio a ser preenchido com seus interesses, concepções e valores. Eles conquistaram o sertão: formando cidades e vilas, plantando canaviais, extraindo metais preciosos ou criando gado. Impunham a autoridade do rei, difundiam a fé cristã e transformavam índios e negros africanos em escravos. Buscavam construir o Novo Mundo à semelhança do Velho Mundo, de onde vieram.

Durante todo o século 16 o domínio português restringiu-se a uma estreita faixa litorânea e pouco se interessou pela conquista do interior, pelo sertão seco. Afinal, não tinha notícias de nenhuma riquezas da região que tivesse valor para o comércio colonial. Foi somente em meados do século 17, especialmente durante o período da ocupação holandesa, que teve início de forma mais enfática a ocupação do sertão nordestino por meio da pecuária.
As sucessivas secas enfraqueceram o processo de ocupação do sertão. Os anos de bons invernos acabaram permitindo um renascimento agropastoril, o renascimento das cidades, o aumento do comércio e certa prosperidade econômica. Diversas vezes, nos períodos mais intensos de uma seca, comunidades indígenas foram obrigadas a se vender para os conquistadores em troca simplesmente de comida.

Os projetos de irrigação, a reforma agrária, os projetos de colonização, o apoio aos pequenos e médios produtores rurais, a diversificação de culturas e a lavoura seca não passaram de tentações malogradas de superação do atraso e da miséria do sertão seco. Sem esperança de mudar a história das suas cidades, os nordestinos buscaram em outras paragens a solução para a sobrevivência das suas famílias. Foi nos sertões que permaneceu inalterado o poder pessoal dos coronéis, petrificado durante o populismo e pela migração de milhões de nordestinos para o Sul.


No regime republicano a elite política nordestina aceitou uma posição subserviente diante do poder central. A redemocratização de 1945, mantendo no poder grupos políticos surgidos em 1930, não alterou a posição do Nordeste em relação ao governo central. Nessa republica populista o coronelismo viveu a sua época dourada, associando domínio politico com a utilização de vastos recursos públicos para fins privados. Foi o florescimento da indústria da seca. E até o momento nada se resolveu que a questão essencial para enfrentar e conviver com a seca. O latifúndio improdutivo e o monopólio da água pelos poderosos da região impediram qualquer transformação sócio-econômica.