16 outubro 2022

Pensar a desconstrução

 

Um dos mais influentes de todos os pensadores na passagem do século, o filósofo Jacques Derrida (1930/2004) refletiu sobre questões como a pena de morte, a clonagem, o ciberespaço, o fim da cultura do papel. Notório pela sua teoria da desconstrução e pela ampla defesa da liberdade, o pensamento do filósofo tem papel fundamental em diferentes combates contemporâneo, um deles sobre diferenças de gênero. Trata-se de pensar como as diferenças sexuais podem vir a ser concebidas além da oposição binária entre masculino e feminino. Para ele, a mulher representa a pluralidade que rompe com as certezas únicas, masculinas, e que abriu a possibilidade de várias configurações, específicas para cada instante, plural e ao mesmo tempo única a cada momento em que ela se apresenta. Não é o protagonista feminino contra o masculino, mas o fim da definição do feminino a partir do que não é o masculino. Faz uma profunda crítica às teorias freudianas. Assim Derrida desconstrói a ideia do feminino com tudo que não é masculino.

 


 

Ele deu uma contribuição fundamental para a filosofia com pretensões a um pensamento unificador, totalizante. Questionou diversos dogmas da tradição platônica. Ele propunha a desconstrução de certos aspectos tradicionais do pensamento metafísico. Segundo ele, nunca se sai totalmente da metafísica, apenas se busca uma forma de reverter e deslocar suas teses capitais. A isso, a partir de um certo momento, passou-se a chamar de desconstrução.

 

 

A problemática da hospitalidade foi uma das questões que ele refletiu, que se resumiria em como acolher o outro, o estrangeiro, enquanto outro, diferente. Como aceitar que o outro que chega de um país não-ocidental possa ter hábitos diferentes dos nossos? É nessa perspectiva que ele defendia a hospitalidade absoluta, que não impõe condições ao outro estrangeiro. Essa noção permite refletir sobre o aumento das restrições impostas aos estrangeiros na França e em outros países ocidentais. O tema dos sem-documentos também foi discutido em seus ensaios.

 

 

Resistência como estratégia afirmativa, um modo de defender a vida foi outra de suas questões analisadas. Uma vida que não fosse uma simples sobrevivência negativa, autodestrutiva. O que interessa, para ele, são as forças de resistência que permitem à vida persistir em intensidade. Para isso é preciso a solidariedade dos seres vivos, o bem, do planeta e não apenas do homem, depende dessa solidariedade fundamental, que talvez nos dê a todos uma longa e boa sobre-vida planetária. E nos diversos textos ele tratou da necessidade de se levar em conta o animal, algo de que a filosofia poucas vezes fez, preocupada com uma racionalidade de fundo antropocêntrico. Ele combateu o irracionalismo, defendendo a tradição iluminista. Luzes para ele não poderiam jamais excluir esses próximos do homem que são os animais.

 


 

As mulheres foram outras de suas preocupações. Em seu pensamento não se trata de inverter o modo viril, a troca de sinais, sem que o modelo hierárquico, patriarcal, seja de fato descontruído. Ele defendia uma igualdade de direitos a mais aperfeiçoada possível, do ponto de vista jurídico, político, administrativo, etc, uma diferença de comportamento entre os gêneros e, dentro destes, entre os indivíduos. O conceito de diferença aponta para essa singuaridade dos indivíduos e das culturas, tanto quanto para uma necessidade de justiça universal, que garanta a existência e o exercício dessas diferenças, sem oposição simples entre homem e mulher, branco e negro, civilizado e selvagem.

 

 

Casado por mais de 40 anos com a mesma mulher, Derrida defendeu o fum do modelo tradicional de casamento. Ele reconheceu que o modelo patriarcal está falindo, encontrando-se em plena desconstrução. Mas o amor é um grande acontecimento que nenhum cálculo racional explica-se e que reforça mais ainda as estruturas vitais, em vez de destruí-las. Um amor-amizade para além de toda tábua fixa de valores, de toda moral imposta. Os indivíduos são livres para decidir o que é melhor para cada um e para todos. Assim é a democracia.

 

 

Silviano Santiago, Leyla Perrone-Moisés e Haroldo de Campos foram três de nossos críticos que dialogaram intensivamente, em momentos distintos de suas carreiras, com Derrida. Um diálogo entre literatura e filosofia até as últimas conseqüências foi o que Derrida propôs reconhecendo que certos textos literários podem propor um tipo de pensamento que em algumas medidas vai mais longe do que determinados textos filosófico. Foi assim que ele dialogou com escritores como Shakespeare, Blanchot, Mallarmé e Hélène Cixous.

 

 

Entre os livros de filosofia publicados Brasil estão: “Papel Máquina”, coletânea de textos publicados em revistas e jornais franceses; “Filosofia em Tempo de Terror” com entrevista concedida por ele e pelo filósofo alemão Jurge Habermas sobre o 11 de setembro - “Expor a fragilidade da superpotência significa expor a fragilidade da ordem mundial”; “Desconstrução e Ética” é dedicado ao estudo do pensamento de Derrida; “Cenas Derridianas” onde o professor Luiz Fernando Medeiros de Carvalho dialoga com o filósofo em 13 textos, a maioria tendo como mote a literatura; e “Derrida-primeiros passos” que discute questões como diferenças, indecidíveis, rastro, segredos revelados e desconstrução. (Publicado inicialmente em 23 fevereiro 2012)

19 agosto 2022

Monstro que dorme em cada quadrinho: estereótipo (5)

 

Os estereótipos são manifestações das mais antigas em nossa cultura, estão nos contos de fadas, nas narrativas populares, nas canções da Idade Média. Provém dos rituais, dos mitos, das belas construções verdadeiramente originais (rupturas): comparações e metáforas, que, utilizadas pela primeira vez, caíram no gosto do popular (e da ideologia). À medida que são repetidas, tornaram-se frases feitas, que nos vem ao espírito ao primeiro pensamento, as quais é preciso evitar empregar e, sobretudo, esforçar-se por não crer nelas, ou pelo menos, desconfiar delas. É na leitura do discurso midiático (no seu pior e no seu melhor) que o semiólogo francês Roland Barthes (1915-1980) alerta: “em cada signo dorme este monstro: um estereótipo) (BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1988, p.15)

 


O pesquisador espanhol radicado na Colômbia, Jesús Martin-Barbero (2003) cita as histórias em quadrinhos norte americanas das primeiras décadas do século XX como exemplo, ao mesmo tempo, de ruptura e continuidade: “A ruptura, na ´marca registrada´ firmada pelos syndicates, que midiatizam o trabalho dos autores até estereotipar em último grau os personagens, simplificar ao máximo os argumentos e baratear o traço do desenho[...]. No entanto, há continuidade na produção de um folclore que busca no antigo o anonimato, a repetição e a interpretação ao inconsciente coletivo que ´vive´na figuro dos heróis e na linguagem de adágios e provérbios, nas facilidades de memorização e na transposição da narrativa para a cotidianidade que se vive (BARBERO, 2003, p.208).

 


O professor de História da Arte, argentino, radicado no México, Néstor García Canclini ao falar de culturas híbridas, denomina os quadrinhos “gênero impuro”, com a capacidade de transitar entre a imagem e a palavra, entre o erudito e o popular, reunindo características do artesanal e da produção de massa. O autor aponta para a necessidade de novos instrumentos que deem conta de fenômeno como as migrações, o desemprego e os mercados informais (CANCLINI, 2000).

 

As artes se relacionam umas com as outras, de uma forma desterritorializada, o que amplifica seu potencial de comunicação e conhecimento. E é dessa barreira “oblíqua”, enviesada, que as práticas culturais atuam no desenvolvimento político. Traduzidas em imagens, as lutas cotidianas ganham formas e podem germinar a partir de metáforas usuais, posturais e ações diferenciadas (CANCLINI, 2000).

 


Já o teórico indiano Home Bhabha (1998) a cultura deve ser interpretada como estratégia de sobrevivência. A partir dos discursos pós- coloniais marcados pela questão da diáspora, do exílio e dos deslocamentos, Bhabha discute a troca de experiências entre culturas diversas que, por diferentes motivos, passam a coexistir, desencadeando um movimento de construção e circulação de significados. O híbrido, não é algo concreto, mas é um processo, em constante estado de ajuste, simultaneamente negando e afirmando a semelhança com aquilo que o gerou.

 

É no século XX que se desenvolve a filosofia do bem estar, motivando-se os indivíduos a consumir o que se produz. Como consequência inevitável da era tecnológica surge um tipo de cultura que se chamará inicialmente cultura de massa. Segundo Morin, numa optica sociológica, o termo cultura aparece como resultado de uma mistura entre razão e emoção, que vai “estruturar”, “orientar”, “construir”, “operar”, “suprir”. Seu tempo de ação se estende entre o real e o imaginário, numa simbiose do instintivo com o representativo. Seu código ultrapassa o simples objetivo. O termo massa expressa uma ideia de multiplicação ou de difusão maciça.

 

Referências:

 

APPEL, John e Selma. Comics. Da imigração na America. São Paulo: Editora Perspectiva, 1994

 

BARBAREO, J.M. Dos meios às Mediações. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.

 

BARTHES, Roland. Mitologias. São Paulo: Difel, 1985

 

--------------, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1988

 

BHABHA, Home. O Local da Cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

 

CANCLINI. Nestor García. Culturas Híbridas: estratégia para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Editora da USP, 2000.

 

ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Perspectiva, 2001

 

FONSECA, Joaquim da. Caricatura. A imagem gráfica do humor. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999

 

HANDLIN, Oscar. Race and Nationality in American Life, Garden City, NY, 1957

 

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX. O espírito do tempo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977. (Texto publicado em 2011)

 

18 agosto 2022

Monstro que dorme em cada quadrinho: estereótipo (4)

 

Estereótipo é um conjunto de características presumidamente partilhadas por todos os membros de uma categoria social. Quando nossa primeira impressão sobre uma pessoa é orientada por um estereótipo, tendemos a deduzir coisas sobre a pessoa de maneira seletiva ou imprecisa, perpetuando, assim, nosso estereótipo inicial.

 

A mulher é um ícone de estereótipo trabalhado pela propaganda ao longo dos anos. Desde o início, foi retratada como mãe, dona de casa e sexo frágil. Nos quadrinhos de super-heróis a partir de 1930 a maioria dos personagens negros eram estereótipos de criminosos ou pessoas com sérios problemas sociais.

 

Hoje ainda permanece uma ideia de que as histórias em quadrinhos reproduzem todo o estereótipo da indústria cultural, constituindo mero artigo de entretenimento concebido em laboratórios de vendas de grandes companhias. Independentemente de qualquer mérito apresentado pelas críticas aos produtos de uma indústria cultural, o que preocupa é o desconhecimento das mais variadas expressões que a arte dos quadrinhos já conquistou, desde Winsor McCay (autor de enquadramentos que anteciparam em muitos anos as ousadias de Orson Welles) ao expressionismo de Mort Cinder de Alberto Breccia ou Corto Maltese, um personagem psicologicamente muito complexo resultado das experiências de viagem e da capacidade infinita inventiva de seu autor, o italiano Hugo Pratt.

 

O estereótipo mantém relação estreita com o conceito de estigma, que, originalmente, designa ferimento, cicatriz. Seus derivados, "estigmatizar", "estigmatização", têm o sentido de censurar, condenar, aviltar o nome, a reputação de alguém. No sentido usual, significa prejudicar, ou fazer um julgamento prematuro de alguém; julgar pela aparência. Embora seu caráter disfórico, a estigmatização é um processo comum tanto nas relações interpessoais quanto sociais e ocorre sempre que o individual passa a caracterizar o coletivo. Daí as generalizações estigmatizadas: "o nordestino", "o turco", entre outros, que caracterizam o discurso xenófobo, que há anos tenta transformar em ódio os males da sociedade, tais como o desemprego, a exclusão social, a delinquência, a droga, etc.

 

Empregado pelos diferentes meios de Comunicação de Massa, muitas vezes, numa enunciação passional revestida por figuras que resgatam antigos valores ou impõem outros, o estereótipo adquire status de mito e sua utilização revalida valores da cultura (ideologia).

 


 

A percepção de que a cultura de massas estava fundando uma constelação de “mitos modernos” permeia a obras de alguns teóricos (Eco, 2001: Morin, 1977; Barthes, 1985). Mais do que recriarem, a atmosfera das velhas heranças mitológicas, na eterna disputa do bem contra o mal, as HQS recriaram a própria definição do mito, reificando paradigmas cooptados do social, como grande apelo à sua sobrevivência. Como ilustra Morin: “Um gigantesco impulso do imaginário em direção ao real tende a propor mitos de auto-realização, heróis modelos, uma ideologia e receitas práticas para a vida privada. (…) E é porque a cultura de massa se torna o grande fornecedor dos mitos condutores do lazer, da felicidade, do amor, que nós podemos compreender o movimento que a impulsiona, não só do real para o imaginário, mas também do imaginário para o real. (MORIN, 1977, p.90).

 

Se partirmos da mitologia barthesiana, entenderemos as representações sociais nas HQs como um desvio do real, por meio de um recorte de uma realidade possível, na qual se abstrai o conteúdo. A intenção da significação está “de algum modo petrificada, purificada, eternizada, tornada ausente pela literalidade” (BARTHES, 1985, p.145), ou seja, destituindo os significantes de conotação histórica, “transformando a história em natureza” (idem, p.145).

 

O estereótipo pode não ser verdadeiro, mas é verossímil. E parte da naturalização das características encontradas no entorno social de seu tempo. Seja no Gato Felix (Pat Sullivan, 1923) que é tão ladino, noir e sinuoso quanto o Spirit (Will Eisner, 1940). Jogos de luzes e sobras e a máscara negra impregna de mistério estes dois anti-herois. Blondie (Chic Young, 1930) e Aninha, a órfã (Harold Gray, 1924) reciclam o mito da Cinderela: a jovem virtuosa que ascende socialmente pelas mãos do herói romântico. No primeiro caso, o mocinho regride ao renunciar à herança da família em nome do amor verdadeiro, e de forma platônica, no segundo, na historia da menina órfã quer cai nas garras do benfeitor milionário. Ambas surgem num momento de emergência dos valores burgueses, em meio à recessão americana dos anos 30.

 

Já no caso dos heróis, tidos como fantásticos, supremos, sublimados à última esfera, o sentido mitológico torna-se ainda mais latente. Ideologicamente comprometidos, atados a um conceito abrangente de nação, possuíam um patriotismo obstinado (denunciado pelas cores e símbolos de seu uniforme) apesar dos poderes advindos do contato com forças estranhas ao seu universo, sejam partículas radioativas, extraterrestres ou deuses de uma mitologia ancestral. Todos esses personagens deixam de ser puro entretenimento para deleite do público, para tornarem-se estrelas, donos de fama e evidência. Assim, os títulos (seja do Batman, Superman, Homem Aranha etc) passaram ao status de marcas, e a euforia consumista resultava em produtos híbridos (desenhos animados, séries de TV, filmes, trilhas sonoras, musicais, bonecos, álbuns de figurinhas, jogos de videogame, RPG, linha de produtos escolares, de higiene, beleza, em brindes nas redes de fast foot. As possibilidades são infinitas). As HQs eram então um viável empreendimento do star system. (Texto publicado em 2011)