24 julho 2022

As eternas canções da sétima arte (1)

 

Há 95 anos o cinema deixava de ser mudo para começar a falar. Em 1927, O Cantor de Jazz chegava às telas com a novidade. Graças aos irmãos Warner, os filmes já não tinham mais que ser mudos. Assim, o Cantor de Jazz passa a ser o primeiro filme da história a utilizar o invento do som no cinema, No ano seguinte, a técnica melhorou: enquanto o primeiro filme era composto, basicamente de canções, Lights of New York era composto inteiramente por diálogos.

 



Quem não assistiu, pelo menos ouviu falar de filmes como O Candelabro Italiano, Cantando na Chuva, A Noviça Rebelde, Cabaret, Luzes da Ribalta, Ases Indomáveis, entre tantos outros. Por trás de todos eles existem em comum canções inesquecíveis, que encantaram o público. Músicas que acompanham as imagens e ficam na mente das pessoas. O filme está assim ligado à sua trilha sonora. Na época do cinema mudo, a música não vinha da trilha magnética e sim do piano ou orquestra sempre presente no palco. Cada cinema tinha o seu pianista, que não tirava o olho da tela, acompanhando a ação da fita. A partir de 1927, com Al Jolson, começou a revolução nos telões. O primeiro filme falado (ou melhor, cantado) foi “O Cantor de Jaz”. Nos anos 30, a música de fundo do cinema passou a linguagem. E jamais parou de evoluir em todos os gêneros. Diretores exigentes têm seus compositores e músicos preferidos.

 


No início era a imagem, o movimento. A ausência da palavra concentrava a atenção do espectador no aspecto visual do comportamento. Havia gestos grandiosos, expressões dramáticas, closes. A música não vinha da trilha magnética, mas do piano ou orquestra sempre presente no palco do cinema. Cada cinema era obrigado a contratar um pianista, que ficava de olho na tela tecendo comentários musicais durante a ação.

 

No Brasil, gente famosa como Villa Lobos e Radamés Gnatalli tocaram em sala de exibição. Com a difusão do rádio, a partir de 1920, grandes empresas de eletricidade adquiriram praticamente todas as patentes de inventos ligados a gravação de sons. Em 1926, a Western Electric ofereceu a patente a várias companhias cinematográficas, e só a Warner, então à beira da falência, prontificou-se a comprá-la. Rapidamente, os irmãos Warner aprimoraram o sistema Vitaphone. Em outubro de 1926, rodaram seu primeiro filme com som, “Don Juan”, estrelado por John Barrymore, com fundo musical as cargo da Orquestra Filarmônica de Nova Iorque.

 


Encorajados pelo êxito da película, os Warner contrataram Al Jolson, cantor de origem russa que mais vendia discos nos Estados Unidos, pintaram-lhe o rosto de negro para ajustá-lo ao papel e com ele rodaram “O Cantor de Jazz”, em 1927. Surgia o primeiro filme falado. Mais cantado do que falado, “The Jazz Singer”, na verdade, só tinha uma fala de improviso com o cantor Al Jolson, entre um de seus maiores sucessos, “Mammy”: “Esperem um minuto, esperem um minuto. Vocês ainda não ouviram nada, gente; escutem só isso”. Um monólogo chiado que abalou a Hollywood de então, revolucionando a indústria de um dia para o outro. Foi um sucesso de bilheteria que rendeu à quase falida Warner Brothers nada menos que três milhões de dólares nos primeiros meses de exibição.

 

Os grandes produtores não aceitaram o som, pois já tinham em andamento superproduções do cinema mudo. O cinema falado não foi bem aceito. Cineasta e críticos acreditaram que ele teria vida curta. Em 1928, a Warner realizou mais dois filmes sonoros – Luzes de Nova Iorque, dirigido por Brian Foy, e The Singing Fool, protagonizado por Al Jolson – cujo êxito confirmou a grande aceitação popular do cinema falado.

21 julho 2022

Paixão pela palavra (4)

 

A canção O Que Será foi vetada pelos censores, segundo documento confidencial do extinto Departamento Geral de Investigações Especiais (DGIE), órgão de inteligência da Secretaria de Segurança. Os militares acreditavam que a música era um claro exemplo de “antagonismo à política militar” e de incentivo à “revolução para a mudança”, porque, segundo os censores, falava de “futuro”, “custo de vida”, “liberdade” e “política nacional”. No documento sobre a música de Chico, o então diretor do DGIE, delegado Antônio Malfitano alerta ao serviço de inteligência do Exército que as músicas do então “último disco” do cantor, principalmente O Que Será, “estão sendo tocadas com insistência nos ônibus de Niterói e do Rio de Janeiro e em rádios comerciais”. Em folha anexa, também confidencial (datada de 26 de novembro de 1976), Malfitano reproduz a letra da música e, ao lado, suas interpretações.


 

Para o delegado, o “antagonismo à política militar” está na primeira estrofe (que andam suspirando pelas alcovas/que andam sussurrando em versos e trovas...). Já a referência à “política nacional” está nos versos “o que não tem decência, nem nunca terá/ o que não tem censura, nem nunca terá/o que não faz sentido”. É na última estrofe que o diretor do DGIE identifica o incentivo ao que chama de “revolução para mudança” (Que todos os avisos não vão evitar/porque todos os risos vão desafiar/porque todos os sinos irão repicar...). O delegado conclui que as três últimas frases da canção (o que não tem governo, nem nunca terá/o que não tem vergonha, nem nunca terá/ o que não tem juízo) são “o motivo principal para a mudança” do regime.

 

O amor entre mulheres está presente em “Bárbara”, da peça Calabar (1972) e em “Mar e Lua” (1980) onde o tema é tratado com extrema sensibilidade e delicadeza. O amor urgente, reservado, proibido, “pois hoje é sabido/todo mundo conta/que uma andava tonta/grávida de lua/e a outra andava nua/ávida de mar...”. Na segunda estrofe da canção fala da exclusão social a que as duas moças foram submetidas: “E foram ficando marcadas/Ouvindo risadas, sentindo arrepios...”. O “amor proibido” é tratado com infinita delicadeza, sendo a atração que as duas moças reciprocamente sentiam metaforizada através de elementos da natureza (mar e lua), também o presumível suicídio das duas é poetizado. A crua realidade do afogamento no rio da cidade, aquilo que seria o fim (“...e foram correnteza abaixo/rolando no leito/engolindo água/boiando com as algas/arrastando folhas/ carregando flores/a se desmanchar”) transforma-se, sob o signo exatamente daqueles mesmos dois elementos aludidos: virando peixes, conchas, seixos, areia – “prateada areia/com lua cheia/e à beira-mar”.

 


Em “Cala a Boca, Bárbara” (1972), uma das mais intensas e delicadas canções eróticas da Literatura Brasileira, os elementos da natureza metaforizam o corpo feminino, e aí se apresenta uma mulher que é ao mesmo tempo amante e parceira de luta, a guerrilheira. Essa canção integra a peça de teatro Calabar – em que Chico Buarque e Ruy Guerra empreendem uma reconsideração do papel histórico dessa personagem, considerado como o traidor por excelência, na historiografia oficial. Quando a peça se inicia, Calabar já morto e esquartejado, executado pelos portugueses que não apenas exigia que seu nome fosse apagado de qualquer registro onde pudesse figurar, como também proibia que seu nome fosse pronunciado. Mas restou sua mulher, Bárbara, que é quem canta a canção, e quem ele está intensamente presente. Ela nunca o chama, nessa canção, pelo nome: Calabar é o ele a que se refere. No entanto, é esse nome que se forma, com espantosa nitidez, como uma constelação, à força da repetição quase obsessiva do refrão: “Cala a boca Bárbara: CALABAR”. O nome de Calabar contém o nome de Bárbara: prisão de amantes apaixonados:

 


“Ele sabe dos caminhos

Dessa minha terra

No meu corpo se escondeu

Minhas matas percorreu,

Os meus rios,

Os meus braços

Ele é o meu guerreiro

Nos colchões de terra

Nas bandeiras, bons lençóis

Nas trincheiras, quantos ais, ai

Cala a boca,

Olha o fogo,

Cala a boca,

Olha a relva,

Cala a boca, Bárbara

Cala a boca, Bárbara

Cala a boca, Bárbara

Cala a boca, Bárbara

Ele sabe dos segredos

Que ninguém ensina:

Onde guardo o meu prazer

Em que pântanos beber,

As vazantes,

As correntes,

Nos colchões de ferro

Ele é o meu parceiro

Nas campanhas, nos currais

Nas estranhas, quantos ais, ai

Cala a boca,

Olha a noite,

Cala a boca,

Olha o frio

Cala a boca, Bárbara....”.

          


É um poema em que o corpo feminino se sobrepõe a imagens da terra: rios, matas, vazantes, enchentes, selva, pântanos. Cada um desses termos pode ser submetido a uma dupla leitura, no registro paisagístico, e no registro erótico. Reagrupados de uma outra maneira (de um lado, matas, selva; de outro, pântanos, correntes vazantes), eles evocam toda uma geografia simbólica do corpo feminino, marcam inequívocas referências (por alusão e/ou analogia) ao sexo da mulher: pêlos, fenda e fonte de umidade.


 

Referências:

 

BLANNING, Tim. O Triunfo da Música: a ascensão dos compositores, dos músicos e de sua arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

 

 FAOUR, Rodrigo. História sexual da MPB: a evolução do amor e do sexo na canção brasileira. Rio de Janeiro: Record, 2006.

 

GOFFMAN, Ken & Dan Joy. Contracultura através dos tempos: do mito de Prometeu à cultura digital. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

 

 HOLLANDA, Chico Buarque de. Literatura Comentada. Seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico, exercícios por Adélia Bezerra de Meneses Boll. São Paulo: Abril Educação, 1980.

 

 JULIANO, Carolina. Esses moços, pobres moços. Fim de Semana. Eu& nº79. Valor. São Paulo: 1,2,3 e 4/11/2001.

 

 MENESES, Adélia Bezerra de. Figura do Feminino na Canção de Chico Buarque. São Paulo: Ateliê e Boitempo Editorial, 2000.

 

MENESES, Adélia Bezerra de. Desenho Mágico: poesia e política em Chico Buarque. São Paulo: Ateliê Editorial (2ª edição), 2000.

20 julho 2022

Paixão pela palavra (3)

 

A relação de poder à base do fenômeno da prostituição se evidencia em “Folhetim” (1977/8). Focaliza a figura da prostituta que oferece os seus encantos – “Se acaso me quiseres/sou dessas mulheres/que só dizem sim...” feita para uma personagem da “Ópera do Malandro” que inclui também “O Meu Amor” e “Geni e o Zepelim”. A mulher vai manipular o homem, ludibriando-o com meras verdades, e finalmente descartando-o: “E eu te farei as vontades/Direi meias verdades/Sempre à meia-luz/E te farei, vaidoso, supor/Que és o maior e que me possuis//Mas na manhã seguinte/Não conta até vinte/Te afasta de mim/Pois já não vales nada/És página virada/Descartada do meu folhetim”.

 


Mas a festa dionisíaca, a grande canção visionária e utópica, em que surge, com força e intensidade, o Eros do povo, uma explosão em que o erótico e o político convergem num mesmo movimento liberador cósmico está nesta canção: “O que será que será/ Que vive nas idéias desses amantes/ Que cantam os poetas mais delirantes/ Que juram os profetas embriagados/ Está na romaria dos mutilados/ Está na fantasia dos infelizes/ Está no dia-a-dia das meretrizes/ No plano dos bandidos, dos desvalidos/ Em todos os sentidos/Será que será...”

 

Chico Buarque capta o recado das vozes que sussurram na noite de uma realidade desconhecida, nas alcovas, no breu das tocas, nos botecos, nos mercados: as duas canções que recebem o nome de O Que Será (À Flor da Pele e À Flor da Terra) sugerem a convergência do erótico e do político, subordinados a um só princípio. O que será, que não tem descanso nem cansaço, esse inominável; que se recorta no avesso do princípio de realidade (limite, sentido, certeza, tamanho, governo, censura, decência, vergonha), realidade, que fica pairando como uma fantasmagoria castradora sobre a expansão da energia, ou, como chamá-lo?, libido, desejo, vontade de contato, amor. A poesia/música de Chico, esse artesão habilíssimo, capta a entranha sensível, e por isso é tão fina para o erótico, o social e o feminino.

 


A letra trata daqueles que estão fora da esfera do poder, excluídos da vida econômica. Tanto os amantes, poetas, profetas (seres que habitam o mundo da fantasia) como os marginais. Excluída da esfera da produção, alijada do mundo do poder: eis o lugar social da mulher na sociedade patriarcal:

 

“O que não têm decência, nem nunca terá

O que não tem censura, nem nunca terá

 


O que não faz sentido

O que será que será

Que todos os avisos não vão evitar

Porque todos os risos vão desafiar

Porque todos os sinos irão repicar

Porque todos os hinos irão consagrar

E todos os meninos irão desembestar

E todos os destinos irão se encontrar

E mesmo o Padre Eterno, que nunca foi lá

Olhando aquele inferno vai abençoar

 

O que não têm governo, nem nunca terá

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem juízo” (O Que Será – À Flor da Terra – 1976).

 


“Isso” de que ele fala e que canta, nunca é nomeado. Não tem nome, não tem vergonha, “o que será que será?”. A existência de proibições e/ou punições a algo que seria puramente natural torna-se aquilo de que se deve ter vergonha. Aquele “inferno” que é preciso coibir, refrear, ocultar, disfarçar. Como escreveu o escritor Bataille, o sexo, nos humanos, é erotismo e este é impossível sem as interdições e as transgressões.