11 janeiro 2019

Charge, libertinagem da imaginação




Absolutista na política, iluminista na filosofia, no século XVII, a razão (quando investe na seriedade como condição de credibilidade para os discursos sociais e as práticas que deles decorrem) destitui o humor da ordem dos saberes, como portador de discurso cômico sem razão, desprovido, portanto, de verdade. Exilado da cultura, banido da função de expressar o sujeito, o humor recupera, agora no traço da charge, essa sua antiga faculdade de produtor e portador da verdade.




Enquanto existirem o poder e o ser humano, a charge persistirá, independentemente do regime político vigente, seja a ditadura ou a democracia. Charge significa carga, bateria e só é possível na periodicidade de um jornal diário e de um contexto político. A charge é uma ferramenta que revela as fraquezas. Para o cartunista baiano Lage (1946-2006) nada pode apagar o sorriso provocado pela exposição de um político ao ridículo extremo. Tem o poder de catarse. Ele não acreditava nos políticos nem na honestidade deles. Na dinâmica social, o povo é o grande inimigo da ditadura.




A charge é um desenho de humor que estrutura sua linguagem como reflexão e crítica social. A proposta não é registrar o real, mas significá-lo. Registra a história, a partir do que a história, objetivamente, não registra. A charge, “essa libertinagem da imagem”, é um instrumento universal de crítica e sátira política limitado pelas especificidades culturais de cada país, ao contrário da caricatura e do cartum, sempre iguais, independentemente de origem. Dos três gêneros gráficos que se apropriam da realidade para expressá-la através do traço de humor, a charge é o mais sofisticado, pois conta e resume histórias reais de modo e maneiras convincentemente irreais.



O caráter de denúncia, revestido de ironia e humor, sempre marcou os traços de Lage. Em sua trajetória na imprensa baiana ele fez da pena o instrumento de crítica lúcida e afiada, traduzida na melhor literatura.




A charge é um tipo de texto que atrai o leitor, pois, enquanto imagem, é de rápida leitura, transmitindo múltiplas informações de forma condensada. Além da facilidade de leitura, o texto chárgico diferencia-se dos demais gêneros opinativos por fazer sua crítica usando constantemente o humor. Mas a charge não está isolada dos demais textos que aparecem no jornal. Ela contém a expressão de uma opinião sobre determinado acontecimento importante com muita probabilidade de aparecerem outros textos do jornal.




Os textos chárgicos transmitem informações utilizando o sistema pictórico e verbal. A charge assim é um texto visual humorístico que critica uma personagem, fato ou acontecimento político específico. Por focalizar uma realidade específica, ela se prende mais ao momento, tendo, portanto, uma limitação temporal.



Há charges compostas por um único quadro e outras compostas por mais de um. Nas charges com mais de um quadro, os primeiros funcionam como preparadores para o efeito humorístico ou surpreendente que é colocado no último. O humor surge do traço, do gag, da contraposição entre os códigos verbal e visual.




O humor é o principal fundamento de sua narrativa, o instrumento singular de sua linguagem, uma vez que é através dele que a charge transforma a noticia numa consciência sobre ele. Como charge se designa, sobretudo, imagens, cujo sentido está além dos limites da razão. Assim, a charge resume situações políticas que a sociedade vive como problemas, e os re-cria com os recursos gráficos que lhe são próprios. Essa economia de recursos que a caracteriza, isto é, o modo como sua linguagem se articula produtivamente, aponta para a negação da razão como doadora exclusiva de significado à realidade, e para a criticada linguagem textual como instrumento privilegiado de seu sentido. E a charge produzindo uma verdade independente da realidade, da razão. Ao incorporar o humor como linguagem produz uma verdade cujo sentido esta fora da realidade e além da razão.

10 janeiro 2019

Pérolas da MPB (3)


“Eu vim/Vim parar na beira do cais/Onde a estrada chegou ao fim/Onde o fim da tarde é lilás/Onde o mar arrebenta em mim/O lamento de tantos "ais".”(A Paz, Gilberto Gil e João Donato)



“Exagerado/Jogado aos teus pés/Eu sou mesmo exagerado/Adoro um amor inventado” (Exagerado, Cazuza, Ezequiel Neves e Leoni).



“Veja bem!/É o amor agitando o meu coração/Há um lado carente/Dizendo que sim/E essa vida dá gente/Gritando que não...” (Grito de Alerta, Gonzaguinha)




“Quando a mão tocar no tambor/Será pele sobre pele/Vida e morte para que se zele/Pelo orixá e pelo egum” (Serafim, Gilberto Gil)



“Rebento, a reação imediata/a cada sensação de abatimento/Rebento, o coração dizendo: Bata!/a cada bofetão do sofrimento/Rebento, esse trovão dentro da mata/e a imensidão do som nesse momento” (Rebento, Gilberto Gil)



“Pra cada braço uma força/De força não geme uma nota/A lata só cerca, não leva/A água na estrada morta/E a força nunca seca/Na vida que é tão tão pouca” (A Força que Nunca Seca, Chico César e Vanessa da Mata)



“O mundo é o mar/Maré de lembranças/Lembranças de tantas voltas que o mundo dá” (Memórias do Mar, Vevé Calazans e Jorge Portugal)



“Amores são águas doces/paixões são águas salgadas/queria que a vida fosse/essas águas misturadas” (Memórias das Águas, Roberto Mendes e Jorge Portugal)




“Onde eu nasci passa um rio/que passa no igual sem fim/igual sem fim minha terra/passava dentro de mim” (Onde eu Nasci passa um Rio, Caetano Veloso)



“Por você/Eu dançaria tango no teto/Eu limparia/Os trilhos do metrô/Eu iria a pé/Do Rio à Salvador...” (Por Você, Roberto Frejat, Guto Goffi e Mauro Santa Cecília)



Eu fico/Com a pureza/Da resposta das crianças/É a vida, é bonita/E é bonita...” (O Que É, o Que É?, Gonzaguinha)



“Não me salvo/Porque não me acho/Não me acalmo/Porque não me vejo/Percebo até/Mas desaconselho...” (Enquanto Durmo, C. Oyens e Zelia Duncan)



“Sexo é integração/Não é abuso/Não é serviço/Seu corpo forte e bonito/Não é só por isso/Pré-requisito/Pra minha satisfação” (Sexo, Christiaan Oyens e Zélia Duncan)



“Vou te contar os olhos já não podem ver/Coisas que só o coração pode entender/Fundamental é mesmo o amor é impossível ser feliz sozinho” (Wave, Tom Jobim)



 “Errar é útil/Sofrer é chato/Chorar é triste/Sorrir é rápido/Não ver é fácil/Trair é tátil/Olhar é móvel/Falar é mágico/Calar é tático/Desfazer é árduo/Esperar é sábio/Refazer é ótimo/Amar é profundo/E nele sempre cabem de vez/Todos os verbos do mundo” (Todos os Verbos. Marcelo Jeneci e Zélia Duncan)




“Meu coração, não sei por que/Bate feliz quando te vê/E os meus olhos ficam sorrindo/E pelas ruas vão te seguindo/Mas mesmo assim/Foges de mim” (Carinhoso. Pixinguinha)



 “A lua girou, girou/Traçou no céu um compasso/A lua girou, girou/Traçou no céu um compasso” (A Lua Girou, Milton Nascimento)

09 janeiro 2019

Pérolas da MPB (2)


“Por ser exato o amor não cabe em si/Por ser encantado o amor revela-se/Por ser amor/Invade/E fim” (Pétala, Djavan)



“Mas é preciso ter manha/É preciso ter graça/É preciso ter sonho sempre/Quem traz na pele essa marca/Possui a estranha mania/De ter fé na vida....” (Maria Maria, Milton Nascimento e Fernando Brant)



“Ah, se já perdemos a noção da hora/Se juntos já jogamos tudo fora/Me conta agora como hei de partir” (Eu te amo, Chico Buarque e Tom Jobim)




“Conhecer as manhas e as manhãs,/O sabor das massas e das maçãs,/É preciso amor pra poder pulsar,/É preciso paz pra poder sorrir,/É preciso a chuva para florir” (Tocando em Frente, Almir Sater e Renato Teixeira).



“Estamos meu bem por um triz pro dia nascer feliz/O mundo acordar e a gente dormir, dormir/Pro dia nascer feliz/Essa é a vida que eu quis/O mundo inteiro acordar e a gente dormir” (Pro Dia Nascer Feliz, Cazuza e Frejat)



“Tua tristeza é tão exata/E hoje em dia é tão bonito/Já estamos acostumados/A não termos mais nem isso./Os sonhos vêm/E os sonhos vão/O resto é imperfeito” (Há Tempos, Renato Russo).




“Como beber/Dessa bebida amarga/Tragar a dor/Engolir a labuta/Mesmo calada a boca/Resta o peito/Silêncio na cidade/Não se escuta/De que me vale/Ser filho da santa/Melhor seria/Ser filho da outra/Outra realidade/Menos morta/Tanta mentira/Tanta força bruta...” (Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil)



“O que será que me dá/Que me bole por dentro, será que me dá/Que brota à flor da pele, será que me dá/E que me sobe às faces e me faz corar/E que me salta aos olhos a me atraiçoar/E que me aperta o peito e me faz confessar/O que não tem mais jeito de dissimular/E que nem é direito ninguém recusar/E que me faz mendigo, me faz suplicar/O que não tem medida, nem nunca terá/O que não tem remédio, nem nunca terá/O que não tem receita” (O que Será. À Flor da Pele. Chico Buarque)



“Para um coração mesquinho/Contra a solidão agreste/Luiz Gonzaga é tiro certo/Pixinguinha é inconteste/Tome Noel, Cartola, Orestes/Caetano e João Gilberto” (Paratodos, Chico Buarque)



“Drão!/O amor da gente/É como um grão/Uma semente de ilusão/Tem que morrer pra germinar/Plantar nalgum lugar/Ressuscitar no chão” (Drão, Gilberto Gil)



“Mandacaru/Quando fulora na seca/É o siná que a chuva chega/No sertão/Toda menina que enjôa/Da boneca/É siná que o amor/Já chegou no coração...” (Xote das Meninas, Luiz Gonzaga e Zé Dantas)



“Tire suas mãos de mim,/eu não pertenço a você,/não é me dominando assim,/que você vai me entender,/eu posso estar sozinho,/mas eu sei muito bem aonde estou,/você pode até duvidar/acho que isso não é amor” (Será, de Villa Lobos e Renato Russo)



“Eu, tu e todos no mundo/No fundo, tememos por nosso futuro/ET e todos os santos, valei-nos/Livrai-nos desse tempo escuro” (Extra, Gilberto Gil)



 “Avião sem asa, fogueira sem brasa/Sou eu assim sem você/Futebol sem bola,/Piu-Piu sem Frajola/Sou eu assim sem você” (Fico Assim Sem Você, Abdullah e Cacá Moraes)



“Viver é um livro de esquecimento/Eu só quero lembrar de você até perder a memória” (Elevador. Ana Carolina)






08 janeiro 2019

Pérolas da MPB (1)


“Quando o verde dos teus olhos/Se espalhar na plantação/Eu te asseguro não chores não, viu/Que eu voltarei, viu/Meu coração” (Asa Branca, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) 




“Uma parte de mim é multidão/Outra parte estranheza e solidão”  (Traduzir-se. Fagner e Ferreira Gullar)



“Tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com a minha dor/Hoje pra você eu sou espinho/Espinho não machuca a flor” (A Flor e o Espinho, de Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Guilherme de Brito )



“O mundo passa por mim todos os dias/Enquanto eu passo pelo mundo uma vez/A natureza é perfeita/Não há quem possa duvidar/A noite é o dia que dorme/O dia é a noite ao despertar” (O Mundo é Assim, de Alvaiade, Velha Guarda da Portela)



“Quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo” (Reconvexo, Caetano veloso)


“Queixo-me às rosas/Mas que bobagem/As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/O perfume que roubam de ti, ai” (As Rosas Não Falam, Cartola)



 “Eu tenho tanto/Prá lhe falar/Mas com palavras/Não sei dizer/Como é grande/O meu amor/Por você...” (Como é Grande o meu Amor por Você, Roberto e Erasmo Carlos)



“Meu coração, não sei por que/Bate feliz quando te vê/E os meus olhos ficam sorrindo/E pelas ruas vão te seguindo/Mas mesmo assim/Foges de mim” (Carinhoso, de Pixinguinha)



“Tristeza, por favor vá embora/Minha alma que chora está vendo o meu fim/Fez do meu coração a sua moradia/Já é demais o meu penar/Quero voltar àquela vida de alegria/Quero de novo cantar” (Tristeza, Haroldo Lobo e Niltinho)



“Procurei/Em todas as mulheres/A felicidade/Mas eu não encontrei/E fiquei na saudade/Foi começando bem/Mas tudo teve um fim..” (Mulheres, Martinho da Vila).


 “Vem me fazer feliz/Porque eu te amo/Você deságua em mim/E eu oceano/E esqueço que amar/É quase uma dor...”(Oceano, Djavan).


“Nessa cidade todo mundo é d'Oxum/Homem, menino, menina, mulher/Toda gente irradia magia/Presente na água doce/Presente na água salgada/E toda cidade brilha” (É d´Oxum, Gerônimo e Vevé Calazans)



“Quando olhei a terra ardendo/Qua fogueira de São João/Eu preguntei a Deus do céu, uai/Por que tamanha judiação” (Asa Branca, Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)



“Brasil, meu Brasil brasileiro/Meu mulato inzoneiro/Vou cantar-te nos meus versos/O Brasil, samba que dá/Bamboleio que faz gingar/O Brasil do meu amor/Terra de Nosso Senhor/Brasil! Brasil!/Pra mim... Pra mim..” (Aquarela do Brasil, de Ary Barroso).


“É a sua vida que eu quero bordar na minha/Como se eu fosse o pano e você fosse a linha/E a agulha do real nas mãos da fantasia/Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia” (A Linha e o Linho, Gilberto Gil)




“O povo foge da ignorância/Apesar de viver tão perto dela/E sonham com melhores tempos idos/Contemplam essa vida numa cela/Esperam nova possibilidade/De ver esse mundo se acabar/A arca de Noé, o dirigível/Não voam nem se pode flutuar” (Admirável Gado Novo, Zé Ramalho)



“Ando por aí querendo te encontrar/Em cada esquina paro em cada olhar/Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar/Que o nosso amor pra sempre viva/Minha dádiva/Quero poder jurar que essa paixão jamais será//Palavras apenas/Palavras pequenas/Palavras” (Palavras ao Vento, Marisa Monte e Moraes Moreira)


07 janeiro 2019

Palavras ao vento


Adriana Falcão não para na minha estante. Seu Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento traz preciosidades poéticas, reflexivas, de boa leitura. A garota parece que aprisionou as palavras que o vento soprou para ela e, agora, está soltando, uma por uma, de A a Z. Selecionei algumas para o leitor apreciar o trabalho de Falcão:




Adolescente – Toda criatura que tem fogos de artifícios dentro dele



Aquário – Prisão de peixe que tem como desculpa ser vitrine.



Balé – Quando o corpo é lápis, espaço é papel e música é motivo.



Belo – Tudo que faz os olhos pensarem que são coração.



Carnaval – Oportunidade praticamente obrigatória de ser feliz com data marcada.



Contrato – Você isso, eu aquilo, com assinatura embaixo.



Defeito – Cada pedacinho que falta para se atingir a perfeição.



Demora – Quando o tempo emperra na impaciência da gente.



Efêmero – Quando o eterno passa logo.



Emoção – Um tempo que ainda não foi feito.



Flerte – Quando se joga “escravos de Jó” com os olhos.



Fronteira – Linhazinha imaginária que une uns e separa outros.



Gratificação – Um obrigado que vale dinheiro.



Harmonia – Quando os olhos, os ouvidos, a boca e o coração sorriem ao mesmo tempo.



Hipótese – Cada “e se” que existe no mundo.



Infância – O prefácio da pessoa.

 



Ingenuidade – Quando o saber ainda está nu.



Julgamento – Sentimento que periga transformar a vida em tribunal.



Justiça – Que está necessitando urgentemente de um transplante de córnea.



Letras – Cada uma das meninas do alfabeto quando elas não estão de mãos dadas.



Libélula – Inseto vestido para baile.



Melancolia – Valsa triste que toca dentro da gente de repente.


Muro – Poleiro de indecisos.



Noiva – Moça que geralmente usa branco por fora e vermelho por dentro.



Nunca – Palavra bastante corajosa, mas quase nunca cumprida.



Objetivo – Quando a vontade é seta, alvo.



Original – Anterior á xerox.



Página – Cada uma das pétalas de um livro

 


Palhaço -  Toda aquele que tem Carlitos na alma.



Quintal – Lugar que a saudade visita sempre que está mais bucólica.



Química – Coisa que deve ter acontecido entre Romeu e Julieta e continua sendo matéria de estudo.



Reflexo – Uma Lua que mora no mar.



Resposta – Frase luz que ilumina frase escuro.



Segredo – Aquilo que você está louco para contar.



Sexo – Quando o beijo é maior do que a boca.



 


Tanto – Um muito que ficou tonto.



Tudo – O dicionário completo.



Ui - “Ai”que ainda é arrepio.



Usurpar – Brincar de “é meu” sem ser criança.



Vaidoso – Para quem a vida é Avenida.



Vazio – Termo injusto com a palavra nada.



Xeque-mate – Quando só resta ao ser imitar o poeta e pedir um tano argentino.



Xumbregar – Capacidade de saber aproveitar bem um forró.



Zig-zag – O mesmo caminho entre dois bêbados.



Zureta – Como a cabeça da gente fica ao final de um dicionário inteiro.



Delícia de dicionário, não é verdade! Agora se você quer mais é bom ir buscar a obra em uma boa livraria. Boa sorte!

10 novembro 2018

Mr. Guache e seus Zeladores


Humor, aventura, lendas urbanas e folclore brasileiro no formato de história em quadrinhos. Assim é o álbum Zeladores. Produzida por Roberto d’Avila, com arte de Anderson Almeida (Mr. Guache) e roteiro de Nathan Cornes, Zeladores traz personagens míticos e seu universo lendário para o nosso tempo, os coloca no contexto urbano de São Paolo - cidade fictícia baseada na capital paulista – e brinca com o reconhecimento de lugares, pessoas e eventos reais em meio a acontecimentos bombásticos.

Os autores criaram suas versões para a história de personagens do folclore brasileiro, como Zé Pilintra, protagonista de Zeladores. Malandro, afrodescendente, habitante da noite e da boemia, é o mais humano dos seres do imaginário popular brasileiro. Acompanhado pelo melhor amigo – Opala 78, detetive paranormal – Zé Pilintra protege São Paolo de ameaças mágicas, agindo como um xerife do além. Nesta edição, ele enfrenta uma banda funk, reencontra o homem que o matou e visita a Caroxinha, o Barbarruiva e a Mulher de Branco, antes de ser invocado por uma bruxa e o Lobisomem verde dela. Isso tudo no primeiro terço da história.


A ficção propõe uma nova roupagem para as lendas e personalidades folclóricas brasileiras. Trazendo os mitos para o nosso tempo e os colocando no contexto urbano de São Paolo. O herói da história é a entidade sobrenatural Zé Pilintra, protetor da cidade de São Paolo (com "o" mesmo). Pilintra detém uma bengala que lhe dá força espiritual para cuidar da cidade.

Ramalho, um ex-traficante de escravos que adquiriu a imortalidade e, para variar, quer dominar o mundo, pretende libertar o deus Anhagá, aprisionado em um lugar desconhecido. Para localizá-lo e libertá-lo, Ramalho precisa da bengala. Ele já teve a bengala uma vez, quando conseguiu a façanha de matar Zé Pilintra, e agora ambos terão de se confrontar novamente para um tira-teima.

A história começa bem, mas perde o fôlego no meio. O leitor não se identifica com qualquer dos personagens, todos entidades sobrenaturais impiedosas, verdadeiros monstros. O que resgata o trabalho do simples pastiche são as citações à mitologia brasileira de fundo africano e indígena, que deve ser o que garantiu a simpatia da Secretaria da Cultura para aprovar o financiamento da obra. Essa história em quadrinhos foi contemplada pelo PROAC - programa de apoio a cultura da Secretaria do Estado de São Paulo - e publicada por uma editora especializada, a Devir Editora em 2010, mas também está disponível online para quem não pode adquirir a versão impressa.


O desenho de Mr. Guache (Anderson Almeida) é moderno e de cores vibrantes, com uma estilização forte e angulosa. O argumento, do espanhol Nathan Cornes, tem contornos míticos e cosmológicos de textura lovecraftiana.


07 novembro 2018

Gonçalo Jr revela a vida e o tempo do Deus da Sacanagem


A vida humana tem uma história que pode ser contada e pode servir de documento.  Pode servir de lente através da qual se vê e compreende o mundo todo. Contar histórias é algo intrínseco ao ser humano e faz parte da nossa vida. Depois de escrever sobre Benício, Alceu Penna, Flavio Colin, José Luis Salinas, Evaldo Braga, Assis Valente, Rubem Alves, Vadico e muitos outros, o jornalista, escritor e pesquisador baiano Gonçalo Junior se debruçou na trajetória do Deus da Sacanagem: a vida e o tempo de Carlos Zéfiro, obra lançada há poucos meses pela Editora Noir.


Zéfiro indiscutivelmente foi o mestre supremo das HQs pornográficas tupiniquins. Durante mais de quatro décadas ele foi uma das lendas mais intrigantes no mundo dos quadrinhos brasileiros. Em 1991 a revista Playboy fez o mito sair do anonimato. Carlos Zéfiro era o pseudônimo de Alcides de Aguiar Caminha (1921 - 1992), um discreto funcionário público carioca cujo currículo, além das cerca de 800 historinhas pornográficas escritas entre o final dos anos 40 e os anos 80, também ostentava alguns dos maiores clássicos do samba brasileiro – a maior parte dos quais composto em parceria com Nelson Cavaquinho. Zéfiro era o autor de quadrinhos que fizeram a educação sexual dos brasileiros nos anos 1950 e 1960. Nas suas revistas clandestinas, que ganharam o apelido de “catecismos” (por terem o mesmo formato dos livretos usados nas igrejas para o ensino de religião), havia sempre histórias picantes.

A escolha de um pseudônimo veio da necessidade, uma vez que seus quadrinhos eram repreendidos pela sociedade conservadora da época, porém fazia sucesso nas vendas às escondidas, sendo, por vezes, a única fonte de informação erótica de muitos jovens da época. A repressão só aumentou com a Ditadura Militar, época em que foi perseguido incansavelmente, mas nunca conseguiram o prender, afinal só foi revelado em 1991.


Carlos Zéfiro (o mestre dos quadrinhos pornôs brasileiros) soube como ninguém retratar o sexo como ele o é na vida real, sem falsos pudores, sem hipocrisia, com tesão, com poesia, não respeitando nenhum tabu e desvendando-nos todas as fantasias. Ele dizia-se honrado por fazer parte da história do Brasil. Mas não se importa muito. Afinal, "tudo na vida é muito efêmero. Hoje se está no apogeu, amanhã no ostracismo".

Em 1970, durante a ditadura militar, foi realizada em Brasília uma investigação para descobrir o autor daquelas obras pornográficas que chegou a prender por três dias o editor Hélio Brandão, amigo do artista, mas que terminou inconclusa. Em 1992 recebeu o prêmio HQMix, pela importância de sua obra. Após sua morte teve um trabalho publicado como homenagem póstuma em 1997 na capa e no encarte do cd "Barulhinho Bom" da cantora Marisa Monte.

Utilizando uma linguagem chula, Zéfiro permeou todo o imaginário popular. Por suas páginas, desfilaram as grandes musas da garotada: viúvas sedentas, desquitadas carentes, padres devassos, freiras pecaminosas, refletindo a realidade provinciana e reprimida do nosso velho Brasil.


Artista clandestino, desenhista lascivo, sacana naïf, lenda. Carlos Zéfiro colecionou muitas definições durante o período em que alimentou os sonhos eróticos de milhares de adolescentes, entre as décadas de 50 e 70. Para uns, os desenhos de traços simplórios de Zéfiro eram nada mais que perversão e projeções de uma mente doentia. Para outros, arte underground, "cult" total.

Para melhor compreender o fenômeno, é fundamental transportar à época em que esses quadrinhos foram produzidos, com governos autoritários e conservadores, bem como forte influência da Igreja Católica no comportamento da juventude. Naqueles tempos, onde a pornografia era proibida por lei e tudo tinha sabor de descoberta, representações visuais e explícitas do sexo eram praticamente inexistentes no Brasil, fazendo com que os adolescentes aliviassem suas tensões com compêndios de medicina, imagens de tribos indígenas ou quando muito com alguns romances mais picantes de Jorge Amado. As "casas de luz vermelha" eram verdadeiras instituições, onde o garoto era levado pelo pai para "ter sua primeira vez", no que era auxiliado pela prostituta, profissional e expert que lhe daria todo o suporte e conhecimentos básicos para não fazer feio na lua-de-mel, já que a noiva do cliente era "moça de família" e nunca transaria antes do casamento. Embora a "moral" e os "bons costumes" já fossem verdadeiras piadas, as pessoas ainda fingiam levá-los a sério, e em meio a este cenário deveras bizarro, a obra zefiriana surtiu como uma bomba atômica.

Vários foram os artistas que se dedicaram a estas publicações, mas devido à peculiaridade de seu trabalho e ao fato de ser o mais prolífico de todos, Zéfiro foi o único que se destacou, angariando uma legião de fãs e imitadores. Como desenhista, era medíocre: faltava-lhe conhecimento de anatomia, as imagens eram visivelmente decalcadas de outras fontes e, de um quadrinho para o outro, os personagens costumavam sofrer mudanças físicas inexplicáveis. Todavia, estes desenhos toscos tinham um charme especial e eram cheios de estilo, bastando uma rápida passada de olhos para reconhecer o autor, que supria as deficiências de seu traço com textos envolventes e ótimos roteiros.


As revistinhas de Zéfiro marcaram várias gerações e começou a sair do campo proibitivo e a ganhar status na área da sociologia. Duas obras regataram Zéfiro do mundo da subliteratura: O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro, uma análise de Otacílio d´Assunção, e A Arte Sacana de Carlos Zéfiro, edição organizada por Joaquim Marinho com textos de Roberto da Matta, Sérgio Augusto e Domingos Damasi. Agora com a obra de Gonçalo Junior há descobertas enriquecedoras numa narrativa fluente, prazerosa, tudo cuidadosamente reconstruído e explícito, como revela Franco de Rosa no prefácio.

São dez capítulos e um epílogo (Em busca da verdade) onde toda a obra de Zéfiro é lida com as mãos, “através dela, Gonçalo escancarou um universo da cultura brasileira do qual pouco sabíamos – porque, até agora, escondido por portas fechadas”, conta Ruy Costa. Vale a pena conferir!

A Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro
Gonçalo Junior
Formato: 14x21 cm, 384 páginas
Preço: R$ 59,90 (frete grátis para todo o Brasil): https://www.editoranoir.com/zefiro



04 outubro 2018

Produto caro no início do século 20, banana é hoje a mais barata e popular das frutas


Entre as frutas classificadas de “frescas”, a banana é a mais comercializada, são mais de 12,8 milhões de toneladas exportadas em 2004, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). De origem asiática, a banana sofreu o mesmo que o café: de insumo de luxo passou a ser artigo de massa. E não foi por acaso que esta fruta – não o caju ou o abacaxi – assumiu a liderança cultural e gastronômica no Brasil, que exporta não mais que 1,5% da sua produção, devido ao elevado consumo interno.


Existem mais de 300 variedades de banana, a maioria das variedades no nosso país é de origem africana - o próprio nome “banana” é africano. No entanto, a fruta chegou à África vinda da Ásia. O historiador Câmara Cascudo, na História da Alimentação no Brasil diz que “nenhuma fruta teve tão fulminante e decisiva popularidade. Foi a maior contribuição africana para a alimentação do Brasil, em volume, difusão e uso”.

Todavia, essa fruta tão saborosa, versátil e popular, tem mais significados pejorativos que virtuosos. “República das Bananas” é utilizado para caracterizar países pobres, inclusive o Brasil já foi muito chamado dessa maneira preconceituosa. A banana também é frequentemente relacionada com a América Latina, a exemplo de Carmen Miranda e das canções “Yes, nos temos bananas” e “Chiquita Bacana”, ambas de Braguinha e Alberto Ribeiro Quando alguém é incapaz, quieto ou inútil usa-se costumeiramente o termo “banana” para designá-lo. Quando algo custa muito pouco, diz-se que é a “preço de banana”. Mas, de onde vem esse contra-senso?


LOCALIZAÇÃO SOCIAL - De acordo com o Henrique Soares, professor de História da USP e autor de “Comida e Sociedade”, isso vem da localização social. Aqui, a banana é uma fruta de pobres, vinda da África, pelos escravos que já a consumiam com importância, e se manteve como alimento barato, ou seja, “a preço de banana”. “Ao contrário, nos países frios, antes dos meios de transporte contemporâneos, a banana era uma das mais exóticas frutas, quase inacessível”, explica o professor.

E assim, por ser um produto tipicamente de camadas subalternas nas regiões de origem, que a banana ganhou o status de luxo nos países da Europa. Mas há uma inversão na escala de valores. É como a trajetória do café, elucida Henrique Soares: depois de um tempo, com a popularização, o produto se torna banal.


BANANA NA BAHIA - A banana é um alimento energético, rico em carboidratos, sais minerais, como sódio, magnésio, fósforo e, especialmente, potássio. Apresenta predominância de vitamina A e C, contendo também as vitaminas B1, B2 e B6, contém pouca proteína e gordura. São mais de 2,7 milhões de toneladas de bananas produzidas por ano, só na área que inclui o Nordeste, o norte de Minas e o Espírito Santo. A fruta é a mais cultivada também no país. Não é por acaso. Além de atender a preferência dos brasileiros, a fruta também é a mais consumida no mundo. O cultivo de banana se espalha por mais de 6 milhões de hectares na área estudada. Representa 14,9% das áreas ocupadas pelas lavouras permanentes, e quase 40% da produção nacional de banana do país. O município de Bom Jesus da Lapa (BA), no vale do Baixo Médio São Francisco, se destaca ao produzir mais de 160 mil toneladas da fruta por ano.

A variedade do cultivo da banana-da-terra começou a ser cultivada como forma de garantir sombra para os pés de cacau. Com o declínio da cacauicultura, passou a funcionar como alternativa econômica para os produtores rurais. Hoje, além de conquistar espaço próprio no planejamento das lavouras, a banana ainda colabora na recuperação das terras exploradas pela cacauicultura. Isso porque favorece ao solo um grande volume de matéria vegetal, recompondo assim as características favoráveis para um plantio mais intensivo.


Assim a banana é uma das frutas mais consumidas no mundo sendo exploradas na maioria dos países tropicais. Pode ser consumida ao natural, como sobremesa, crua, assada, cozida ou frita. Doce ou salgada. Também é apreciada pelos atletas, pois o amido dá energia e o potássio evita câimbras. Quase não tem gordura, é indicada nas dietas baixas em colesterol. E serve para combater a anemia e asma. A banana está presente na mesa de ricos e pobres, exercendo ainda papel fundamental na fixação do homem no campo. Afinal, esta fruta é produzida o ano inteiro, garantindo alimento, emprego e renda para quem a ela se dedica.


25 setembro 2018

Impunidade, omissão, corrupção no Brasil


Uma educação voltada para a cidadania, que faça as pessoas se perceberem como parte de um coletivo, é uma forma de combater a corrupção. Onde a corrupção está presente, a sociedade em geral sofre. A corrupção debilita os sistemas judiciais e políticos, que deveriam trabalhar para o bem de todos, enfraquece a aplicação das leis e acaba por silenciar a voz do povo.

O desempenho da Justiça é comprometido pela sua morosidade, negligência das autoridades executivas, ardis de advogados chicaneiros e a vista grossa, complacente, das autoridades judiciais em tribunais abarrotados de processos civis e criminais. Uma reforma do Judiciário limitaria os casos de impunidade. E os retrocessos continuam.


Um deputado federal custa ao Brasil, mensalmente, R$ 179 mil, um deputado estadual, na Bahia, custa R$ 157 mil, e o Senado custa ao Brasil, por mês, 3 milhões, 72 mil e 433 reais. Já os magistrados (juízes, desembargadores, ministros) custam cada um, em média, R$ 47,7 mil por mês - incluindo salários, benefícios e auxílios. O custo de um magistrado é, portanto, quase 20 vezes a renda média do trabalhador brasileiro.


Pois esses dois poderes, Judiciário e Legislativo reivindicam reajustes que segundo eles, é constitucional. Os dois guardiões do equilíbrio de direitos e garantias, asseguram seus ganhos sempre no pico. É justo? O povo não concorda. Os maiores salários do Judiciário estão nos Tribunais de Justiça. Justiça para quem? Para eles.

O Brasil é um dos países que mais oferece possibilidade de apelação ou recursos, ao tempo em que assiste ao franco crescimento da criminalidade e dos índices de violência. O assunto está em discussão há alguns anos e um projeto de reforma do Código de Processo Penal tramita no Congresso Federal há década. Alguns consideram o Estatuto cada vez mais brando com os criminosos, outros defendem o recuo nas penas punitivas com a privação de liberdade. É preciso estabelecer também a súmula impeditiva de recursos. Isso irá prevenir o excesso de recursos que torna os processos muito lentos. Muitas vezes a lei admite brechas e os advogados usam todos os recursos permitidos a favor dos seus clientes.


A corrupção se tornou prática comum no Brasil. O quer se observa na política é que oposicionista e situacionista se corrompem em maior ou menor grau, quando no exercício do poder. Suas promessas de decoro no desempenho da representação popular chegaram a ser teatral. Eles próprios se imunizam contra acusações, parceiros de uma permissividade geral. O que se nota é que o corporativismo pesa, conforme mostraram os julgamentos de cassação de mandatos. Há uma solidariedade implícita entre eles, na certeza da impunidade. A única punição será pelo voto do eleitor. A impunidade no país tem contribuído para o grande aumento da criminalidade.


A cada dia cresce a crise ética que assola, em graus diversos, os três poderes. A maioria dos deputados rejeita qualquer reforma que reduza privilégios, vantagens e mordomias que compõem o ganho mensal de mais de R$100 mil de um dos melhores empregos do mundo. Há um novo modelo democrático no país, não se deixa escândalo sem resposta: apura-se o fato, encaminha-se à Justiça e fica por isso mesmo. Nada se pune nesse reino de mordomias, do sagrado privilégio da imunidade que cobre a cúpula dos três poderes.

Esse texto foi escrito e publicado há 10 anos, em 2008. As alterações foram atualizadas numericamente.



20 setembro 2018

Cordel ganha título de patrimônio imaterial do Brasil


A literatura de cordel foi reconhecida, por unanimidade, na última quarta-feira (19/09/2018) pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O gênero é ofício e meio de sobrevivência para inúmeros cidadãos brasileiros. Segundo o instituto, apesar de ter começado no Norte e no Nordeste do país, o cordel hoje é disseminado por todo o Brasil, principalmente por causa do processo de migração de populações. O cordel foi inserido na cultura brasileira ao final do século 19. O gênero resultou da conexão entre as tradições orais e escritas presentes na formação social brasileira e carrega vínculos com as culturas africana, indígena e europeia e árabe.

Histórico, moralista, biográfico, humorístico e até mesmo político são alguns temas que a literatura de cordel vem abordando desde o seu aparecimento até os dias atuais. Um dos poetas de cordel mais conceituado do Brasil foi o baiano Cuíca de Santo Amaro, justamente por causa de sua mordacidade – era um poeta satírico na linha de Gregório de Matos. Exibidos ao público em cordas estiradas no alto das barracas das feiras nordestinas – daí a expressão “literatura de cordel” -, os folhetos aparecem com as pequenas tipografias do interior e são consumidos principalmente por vaqueiros, lavradores e vendedores ambulantes.

Os mais variados temas são abordados pelos autores desses folhetos, desde pitorescas histórias, criadas pelo matuto (“A moça que dançou com uma caveira”), à crítica social (“O gozo da mocidade”), passando pela crendice popular (“A moça que sonhou com Padre Cícero e jogou no cavalo”). Também o fato político – real ou resultante da fantasia do povo – mereceu farta bibliografia.


O cordel ainda é o jornal por excelência do povo do interior, e o trovador é o seu repórter. Quando acontece um fato importante, ele tem de escrever o folheto rapidamente, mesmo que não dê lucro. Naqueles tempos, na zona rural, em lugares que nem o rádio alcançava, o povo só acreditava nos acontecimentos depois que lesse sobre eles nos versos do cordel. É famoso (e verídico) o caso do matuto que só acreditou que o homem foi à lua depois que leu os detalhes n um folheto popular. É a literatura de cordel refletindo a problemática social do homem nordestino.

O início da literatura de cordel está ligado à divulgação de histórias tradicionais, narrativas de velhas épocas que a memória popular foi conservando e transmitindo. São os chamados romances ou novelas de cavalaria, de amor, de narrativas de guerras, viagens ou conquistas marítimas. Mas ao mesmo tempo, ou quase ao mesmo tempo, também começaram a aparecer no mesmo tipo de poesia e de apresentação, a descrição de fatos recentes, de acontecimentos sociais que prendiam a atenção popular.


A expressão literatura de cordel surgiu no Brasil entre 1875 e 1880, utilizada pelo folclorista Silvio Romero para definir o conjunto de folhetos de feira. O folheto tem habitualmente de oito a 64 páginas, mede 11 x 16cm e já circulava pelo Nordeste em meados do século XIX. Entre 1893 e 1908 surge a literatura de cordel brasileira, com a publicação de folhetos de pres poetas paraibanos: Leandro Gomes de Barros, Francisco das Chagas Batista e João Martins de Athayde.

As capas dos cordéis antigos eram ilustradas com vinhetas nas tipografias do interior nordestino. É a partir da década de 30 que surgem nas capas de postais, retratos de Padre Cícero e Lampião. E as xilografias (arte de gravar em madeira) só começam a aparecer regularmente a partir da década de 40. Franklin Cerqueira Machado (Maxado), de Feira de Santana, e Francisco Silva (Minelvino), de Itabuna são os xilógrafos mais conhecidos na Bahia.


No início da publicação da literatura de cordel no País, muitos autores de folhetos eram também cantadores, que improvisavam versos, viajando pelas fazendas, vilarejos e cidades pequenas do sertão. Com a criação de imprensas particulares em casas e barracas de poetas, mudou o sistema de divulgação. O autor do folheto podia ficar num mesmo lugar a maior parte do tempo, porque suas obras eram vendidas por folheteiros ou revendedores empregados por ele.

De custo baixo, geralmente estes pequenos livros são vendidos pelos próprios autores. Fazem grande sucesso em estados como Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba e Bahia. Este sucesso ocorre em função do preço baixo, do tom humorístico de muitos deles e também por retratarem fatos da vida cotidiana da cidade ou da região. Os principais assuntos retratados nos livretos são festas, política, secas, disputas, brigas, milagres, vida dos cangaceiros, atos de heroísmo, milagres, morte de personalidades.


Em versos de 10 ou 12 sílabas, em rica variação de versos, a poética de cada folheto conta fatos do cotidiano, estórias de bichos, casos pitorescos, de amor, de Lampião, Padre Cícero, Conselheiro, de figuras públicas, acontecimentos colhidos dos jornais, rádio e tevês, enfim, toda a gama do rico universo do nordestino. Os próprios poetas populares classificam a literatura de cordel em cinco temas mais frequentes: romance, valentia (história de um valentão, que sempre acaba mal), gracejo (uma história engraçada), desafio e encantamento (histórias de reinos encantados, com fadas e bruxas). Geralmente, o próprio poeta popular é o editor e vendedor de suas historinhas, que são penduradas num cordão, enquanto o autor, acompanhado de viola, canta trechos de seus poemas.