17 abril 2018

A arte de Ruy Carvalho


Artista plástico autodidata cumpre a missão como pode: pinta quadros, faz charges, esculturas, cenários, instalações, desenhos na areia da praia, com regador, para fotografar do alto. Desde que saiu de Juazeiro, fez carreira em Salvador e já expôs em Portugal, França, Alemanha, Rio de Janeiro entre outras.  Ruy Carvalho não pára, elétrico e falante, ele circula em diversos lugares. Vamos conhecer sua trajetória.


Como foi que você começou nas artes gráficas?

RUY – Desde menino, bem antes de entrar na escola, desenhava carros, eletrodomésticos e personagens de HQ. Lembro-me que aprendi a ler desenhando logotipos de liquidificador, rádio e embalagens. As imagens eram fascinantes. Aos 14 anos fiz capas de livros de poetas juazeirenses e a Codevasf encomendou-me uma cartilha para orientar colonos e tive a idéia de criar o trabalho em quadrinhos.


Você nasceu em Juazeiro e veio com quantos anos para Salvador?

R – Eu só aparecia em Salvador nas férias colegiais ou quando tinha um evento de família. Passei a morar em Salvador em 1982 com 20 anos e fui contratado para criar layouts numa editora que confeccionava os catálogos telefônicos da Telebanhia. A partir daí, conheci gente ligada à propaganda e publicidade.


Com quantos anos você começou a trabalhar com cartum, caricatura e quadrinhos?

R – Sempre fiz charges e cartuns, em 1988 um grande amigo ilustrador e chargista Carlos Rezende insistia que eu participasse do Primeiro Salão de Humor da Casa de Cultura Laura Alvin, no Rio e ganhei menção honrosa.... No mesmo ano realizamos duas exposições de humor em Salvador.


E onde foram publicados?

R – TV Aratu, Band-BA, Revista Vogue, Casa Claudia, jornal A Tarde, Bahia Hoje, Jornal da Bahia, Tribuna da Bahia.

Quais são suas principais influências ?

R – Ziraldo, Jack Davis, Roy Lichtenstein e Marie Severin.


Você foi um dos primeiros artistas gráficos a fazer caricatura na tevê. Fale desse período e qual foi o programa?

R – Comecei a trabalhar na TV aratu em 1989, onde desenhava diariamente ao vivo caricaturas dos convidados do programa Bom Dia Bahia, apresentado por Hermano Henning. Devido à aceitação do público, a emissora escalou-me para a mesma atividade no Programa Opinião que ia ao ar somente às quintas feiras com apenas um convidado conhecido nacionalmente. Dentre os convidados de ambos os programas, desenhei as caricaturas de Luiz Carlos Prestes, Luiza Erundina, Lula, João Saldanha, Waldir Pires, Fernando Sabino, Gilberto Gil, Geraldo Azevedo, Paulo Maluf, Fernando Gabeira entre outros.

Você já publicou tiras diárias nos jornais, quais?

R – Minhas tiras foram publicadas semanalmente no jornal A Tarde. No Bahia Hoje é que as charges eram publicadas diariamente.


De todos os seus trabalhos, há algum de que você mais se orgulha?

R – Tem vários, mas em especial as ilustrações que fiz para a RevistaVogue. Fiz desenhos mostrando a Bahia de maneira dinâmica e feliz.

Você já expôs seus trabalhos em varias partes do mundo. Conte um pouco dessa experiência

R – Sempre gostei de arte e suas vertentes. Mesmo ilustrando charges e cartuns, sempre pintei telas e outros suportes como grafite e mosaicos. Meus trabalhos já participaram do Salão de Arte do Aeroporto de Munique, na Alemanha, foi um dos classificados no concurso de cartum do jornal Yomiuri Shumbum, no Japão. Tenho trabalhos nos EUA, Europa e Ásia de clientes que encomendam e levam para seus respectivos lugares.


Você já aderiu as novas ferramentas tecnológicas, o desenho digital

R – Em 1991 comecei meus primeiros passos em computação gráfica na TV Globo-SP ilustrando para o Globo Esporte, Globo Rural, Globo Comunidade e mapas para a meteorologia do JN. Embora goste de usar lápis e pincel, utilizo os programas photoshop e illustrator o que facilita muito no desenvolvimento de uma idéia. Ziraldo me disse o seguinte: “Você pode dominar o ecoline, fazer trabalhos incríveis, mas aquele degradeé só mesmo o photoshop pra lhe dar o resultado”.


Como você define o humor?

R – Um compromisso com a via.

O que você mais gosta de fazer: cartum, charge, caricatura ou quadrinhos ?

R – Todos juntos, contido, os quadrinhos têm seu lugar.


O que você gosta de ler nos quadrinhos ?

R – Mafalda, Huk ilustrado por Marire Severin, os desenhos de Roger Dahi, Asterix, Mortadelo & Salaminho, as tiras de Fernando Gonzales, Moebius, Frank Miller e os mais recentes mangás.


O que lhe inspira quando está no processo de criação?

R – DEUS. Sempre converso com DEUS antes de criar qualquer coisa.


Quem são hoje os bons chargistas e caricaturistas na sua opinião?

R – Cauh Gomez, Amarildo, Cárcamo, Carlos Rezende, Leonardo Rodriguez, Fernando Gonzalez. Dalcio, Sebastian Kruger, Aroeira.


Você acha que a charge ainda tem hoje a força critica de antes ?

R – Não. Veja você que, hoje temos a internet e ainda assim a charge não tem a força que tinha antes. Uma ou outra charge se destaca para o grande público. A charge é bem vista no meio de jornalistas, artista e organizadores de eventos ligados a humor.

E agora quais são seus projetos para o futuro?

R – Montar a próxima exposição e editar meu livro.

16 abril 2018

Cau Gomez: 30 anos de pura essência humorística


O cartunista e artista plástico Cláudio Antônio Gomez, o conhecido Cau Gomez começou sua carreira em 1988, no Diário de Minas. São 30 anos de artes gráficas. De lá para cá já ilustrou diversos veículos de imprensa. Conquistou mais de 60 prêmios em diversos festivais e salões de humor no Brasil e exterior. Apaixonado pela fusão das linguagens do cartum e das artes plásticas, suas influências são amplas, indo de artistas plásticos clássicos aos mestres das histórias em quadrinhos. Hoje domina diversas técnicas. A experimentação é seu forte. Sua técnica é expressionista, cores poderosas e pinceladas soltas que foge ao lugar comum. A qualidade de seus traços gestuais, suas pinceladas, sua textura tem força e é pura essência. Quem ver seus trabalhos se transforma. Assim é Cau Gomez, um rapaz simples, mas que revela um traço sofisticado, imprimindo ao riso do brasileiro as tintas do cidadão que luta no dia a dia para sobreviver nesse circo chamado Brasil. Traço inquieto e irreverente que sempre consegue uma solução genial diante do caos do emaranhado de ideias. Quem acompanha a trajetória de Cau, percebe que ele é um artista completo, domina o cartum, a charge, a caricatura e artes plásticas sem perder a linha. Vamos conversar com o rapaz:

           
Fale um pouco como você iniciou sua carreira.

CAU GOMEZ - Fui trabalhar precocemente para ajudar no orçamento familiar e comecei profissionalmente aos 15 anos, na redação do jornal Diário de Minas, em Belo Horizonte, no ano de 1988. Tive muita sorte nessa época. Conheci jornalistas tarimbados, que ampliaram a minha criatividade e me abriram as portas do jornalismo. Não posso me esquecer de citar Sulamita Esteliam e Sebastião Martins, ambos empenhados em realizar uma revolução editorial e gráfica na imprensa mineira. Passei um bom tempo de aprendizado numa autêntica ponte entre a vida estudantil, a ilustração editorial e o fluxo frenético diário de produção de reportagens, notícias internacionais e manchetes. Eu produzia muito, e cheguei a perder a conta das ilustrações que desenhava diariamente. Ganhei dinâmica e velocidade no traço por conta do horário de fechamento das páginas.

Seu trabalho tem um toque bem pessoal, um misto de cartum com artes plásticas, confere?

CG - Sim. Mas procuro não ter muitas fronteiras entre os estilos e as técnicas, está tudo conectado dentro de uma coerência e matriz criativa. É algo que vem através das minhas buscas dentro das pesquisas que fiz ao longo da minha trajetória de três décadas nas artes. Considero que a essência artística deve ser preservada em qualquer formato ou plataforma.


Você é um artista que trabalha com diferentes linguagens: caricatura, desenho, pintura… Qual o critério que utiliza no seu processo criativo em relação ao uso dos diferentes meios de expressão artística? Quais são suas principais influências?

CG - Tenho influências em vários artistas que dominam espectros diferentes nas artes. Posso citar desde a força criativa e inquietante presentes nos trabalhos dos gênios da pintura clássica como Amedeo Modigliani, Toulouse Lautrec, Picasso, Rembrandt, Goya, Georg Grosz, Portinari, e a moderna Anita Malfatti entre outros, passando por outros que estabeleceram vínculos perpétuos com a sátira gráfica, como Honorè Daumier, Rafael Bordalo Pinheiro. Sigo admirador confesso dos desenhos viscerais do Luiz Trimano, Carlos Nine e Hermenegildo Sábat. Dos ingleses Ralph Steadman e Gerard Scarfe, absorvi o desenho cortante e o humor ácido. Dos caricaturistas franceses: Mulatier, Ricord e Morshoisne, a persistência e o apuro técnico na busca pela distorção perfeita nos rostos dos personagens caricaturados. No Brasil, Paulo e Chico Caruso, Loredano e o mestre de todos, Ziraldo, me ensinaram a dosar o estilo e me indicaram o quão longe o desenho de humor pode fincar bandeiras e quebrar barreiras.

Porém, não posso omitir as minhas profundas influências nascidas nos traços e nas histórias em quadrinhos de autores consagrados comoWalt Disney, Maurício de Sousa, Ziraldo, Stan Lee e outros fantásticos desenhistas da Marvel e DC Comics.


Quem você admira nas artes gráficas brasileiras?

CG - Além dos brasileiros que citei antes, Mário Vale, Miran, Zélio, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Dálcio, Quinho, Duke, Rodrigo Rosa, Simanca, Marcelo Lélis e algum outro grande artista que, certamente, eu tenha esquecido de mencionar são excelentes nomes, cujas obras mantêm um excelente nível de composição gráfica e artística.

E na estrangeira?

CG - Admiro muito os estilos dos cartunistas e ilustradores oriundos das escolas latinas e europeias. Mas observo, com entusiasmo, há muito tempo, o surgimento de virtuosos artistas iranianos, turcos e chineses. Hoje o número de talentosos é expressivo. Fica difícil apontar uma região.

Como você entrou para o mercado das artes gráficas?

CG - Acredito que o próprio mercado sinaliza e demonstra interesse por novidades gráficas. É cíclico. O esgotamento natural no uso de uma linguagem gráfica também é outro sinal. Foi assim, nesse contexto, que realizei o meu primeiro grande contato profissional na editora Abril, muito bem sucedido, e entrei na redação da revista Playboy, em 1992. Logo de cara recebi um sinal verde do responsável pela direção de Arte da revista, Carlos Grassetti, e a encomenda para a elaboração de várias caricaturas. Essa colaboração durou sete anos e recebi um prêmio Abril de Jornalismo, em 1994, na categoria ilustração/caricatura – o primeiro deste tipo para a revista.


O que mudou no trabalho do cartunista com a evolução da internet?

CG - No início foi muito positivo com o encurtamento das distâncias. Tudo ficou muito instantâneo. Pouco tempo depois, coma chegada das redes sociais, mudou tudo. E para pior! O cartunista, chargista ou ilustrador não conseguiu manter os seus postos de trabalho nas publicações e teve de se transferir para um esquema informal na busca por novos clientes e admiradores na internet e suas redes sociais.


Quais são as técnicas que você domina?

CG - Caricatura, charge política, cartum, ilustrações para HQs, editoriais e infanto-juvenil. Utilizo as tintas acrílica, guache, lápis grafite, bastão aquarelado e menos frequentemente a tinta óleo nas pinturas em telas. Ainda pratico eventualmente e me interesso muito pelas técnicas de graffitti com o uso de spray. Adiciono na minha cartela de ferramentas o meu desktop contendo os softwaresphotoshop e illustrator para acabamento e arte-final das minhas imagens.

O trabalho na redação de um jornal diário é mais fácil ou mais difícil do que numa revista como a Playboy, por exemplo?

CG - É tudo muito parecido e uma correria medonha para atender ao bendito deadline. Mas há diferença basicamente no prazo. As revistas, de uma maneira geral, permitem mais tempo para a maturação de um layout e entrega da arte-final. Depende muito da organização do diretor de arte. Na redação de jornal é corriqueira a solicitação de ilustrações para a publicação na edição do dia seguinte. É uma coisa de louco!


Sua arte é politizada. Como você analisa o papel do artista em relação à interlocução com questões que envolvem política e direitos humanos, por exemplo?

CG - É vital pra mim poder imprimir em desenhos de humor toda a indignação que sinto ao me deparar com absurdos políticos e injustiças sociais e humanitárias aqui no Brasil e outras partes do mundo. Por ter vivido numa infância sem muitos recursos financeiros e vindo de uma família simples de trabalhadores, vi logo cedo que desenhar para mim se transformaria em uma arma natural de combate e de despertar crítico.


Como você vê a questão de determinados temas:  O cartum deve se curvar ao "politicamente correto"? Qual é o limite do humor?

CG - Sou contra este tipo de condicionamento aos limites do politicamente correto.
O cartum ou qualquer outra atividade criativa ligada à comunicação não pode se submeter às diversas imposições e regras ultrapassadas do mercado. Isso seria uma espécie de engessamento das ideias.

Seu trabalho já lhe levou a correr o mundo. Qual é sua melhor memória dessas viagens?

CG - Outro dia fiquei pensando que, na verdade, os meus desenhos é que viajam mais do que eu, possuem robusta e invejável quantidade de milhas acumuladas, já cruzaram montanhas e oceanos. Atravessaram continentes e me possibilitaram, muitas vezes,  à distância, acompanhá-los. Me lembro da minha primeira vez na Grécia, onde cheguei ao hotel e encontrei um dos meus cartuns premiados, estampado em formato pôster imenso no corredor principal da entrada de um suntuoso hotel, na ilha de Rhodes. Isso é memorável e não tem preço que pague!


Quem você admira no cartum baiano?

CG - Atualmente gosto muito dos trabalhos de humor gráfico do Nildão, Café, Setúbal, Bruno Aziz, Marlon Tenório, Cath Gomes e o Simanca.

Quantos prêmios você já ganhou e tem algum especial?

CG - Costumo não contar as premiações, mas acho que já ultrapassei a conta dos 60 prêmios. O prêmio Imprensa, em 1992, no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, o mais importante do país, foi o mais significativo. Eu era um iniciante e havia publicado o meu desenho na contracapa do jornal “O Cometa Itabirano”, um audacioso jornal alternativo, muito presente na imprensa combativa mineira e com reconhecimento nacional.

Quais os principais desafios que um artista visual precisa superar para ter seu trabalho valorizado pelo mercado?

CG - O artista tem de ter autoconfiança e ser pertinaz na produção das suas obras. Isto é fundamental para todos, iniciantes e veteranos. Apostar sempre na originalidade das suas ideias e na qualidade do próprio desenho para mostrá-los em qualquer plataforma. E, decididamente, resistir ao vício dos baixos cachês oferecidos. Além disso, precisa ler muito para ter uma boa formação cultural, histórica, filosófica e senso crítico da realidade. Conhecer outros países, culturas e modos de vida também e necessário.


Você já ilustrou o livro sobre Pastinha, Billy Jackson. Fale sobre essas publicações e outras que você participou.

CG - Apesar de não ser o primeiro livro ilustrado por mim, “Pastinha, o menino que virou Mestre de Capoeira”- de José de Jesus Barreto e publicação da editora soteropolitana Solisluna, abriu uma possibilidade fantástica e me deu visibilidade como coautor e ilustrador infanto-juvenil na condição de finalista ao Prêmio Jabuti, em 2012. Na sequência, fiz mais alguns livros logo depois: “ Odia em que os gatos aprenderam a tocar jazz”, pela CEPE, Companhia Editora de Pernambuco, que trouxe desenvoltura memorável na composição e técnica do meu desenho.


Já o álbum de HQ – Billy Jackson, é um projeto que se viabilizou graças a perseverante parceria minha com o escritor Victor Mascarenhas e a editora RV Cultura e Arte. Foi um trabalho que despendeu muita energia de todos, e onde tivemos pouquíssimo tempo para entregar a arte-final na gráfica. Acredito que foi um desafio muito bem sucedido e que superamos as expectativas.


O que você tem feito, Cau? Está publicando regularmente em algum veículo ou só frilando? Pretende publicar algum livro, revista, algo assim?

CG - Publico periodicamente na revista Courrier International, em Paris e na versão brasileira do jornal Le Monde Diplomatique, além de ilustrar algumas revistas nacionais.Recentemente fui convidado pelo Museu Nacional da Imprensa, em Portugal,para desenvolver trabalho pioneiro de dois meses numa “Residência Artística de Cartoon e Artes Gráficas” na Casa Wolinski, espaço destinado à pesquisa e avanço da linguagem do cartoon e da caricatura na imprensa. Pude desenvolver trabalhos inéditos, ministrei oficinas e palestras de humor e abri meu portfólio a vários interessados, na maioria estudantes das escolas de ensino técnico e superior de artes, na cidade do Porto. Tenho a intenção de publicar um livro sobre os meus 30 anos de carreira, mas ainda está em fase de planejamento.


Fale de seus novos projetos para 2018... Sua carreira começou em 1988 no Diário de Minas. De lá pra cá são 30 anos de atividade profissional.

CG - Não gosto de revelar os meus projetos, pois sou mineiro supersticioso. Mas penso sempre que já passou da hora de produzir uma coletânea com os meus principais trabalhos de humor gráfico, caricatura, charge, cartum, ilustrações e pintura. Passa também pela minha cabeça um desejo antigo de publicar um livro autoral.
Os 30 anos determinam uma passagem definitiva de amadurecimento profissional. Contudo, sigo saudoso de um período artístico laboratorial, muito proativo, onde outrora busquei intensamente as experimentações no desenho, no uso das tintas, sem medo de cometer erros.


Que balanço você faria de sua trajetória e o que mais destacaria nesse seu tempo na Bahia?

CG – Costumo pegar emprestada a frase de Gilberto Gil e dizer que a Bahia me deu “régua e compasso”, me fez mais ligado às minhas origens africanas e expandiu o meu universo como artista. Sou muito agradecido. Morar por tanto tempo no nordeste, em Salvador, uma cidade banhada pelo oceano Atlântico, me fez navegar mais longe e entender a complicada geopolítica brasileira.


13 abril 2018

Um cartunista refinado no jogo de ideias: Caó


Cartunista, animador e músico Caó Cruz Alves iniciou profissionalmente como cartunista nos anos 70. Começa a publicar em 1977 a tira O Porco com Cauda de Pavão. No ano seguinte reúne em coletânea. Realizou exposições individuais e coletivas, publicou na revista Pau de Sebo e editou durante muito tempo o fanzine La Tanajura. Seus desenhos têm participado de exposições e festivais pelo Brasil e exterior. Começou a carreira de animação com o filme Coisinha, que venceu o prêmio do Juri Popular no Festival 5 Minutos em 97, no ano seguinte venceu o primeiro prêmio do festival com a animação “Ouviram Alonzanfan” e ainda produziu “Voto Roberfino”  e “Dançando na Europa”.

Formou-se através de oficinas de cinema e animação no Brasil. Durante oito na os morou em Paris onde aprimorou seus conhecimentos no campo da animação e quadrinhos na escola vinculada ao National Board of Canadá. Como cartunista seus trabalhos têm sido publicados em livros, jornais, revistas de circulação regional, nacional e internacional e em exposições individuais e coletivas. Ganhou vários prêmios com seus filmes de animações em diversos festivais no Brasil, em como tidas exibições de seus filmes no exterior. Em seu trabalho, Caó explora os efeitos estéticos do social. Seu humor é refinado, usando e abusando da sutileza de jogos de ideias. Vamos conhecer a sua trajetoria e o que pensa a respeito das artes gráficas:


Para começar, conte como entrou no mundo dos quadrinhos, como leitor e profissional? Quais os sentimentos pessoais e decisões profissionais que te levaram a essa escolha?

CAÓ - Desenho desde pequeno influenciado por minha mãe que era costureira e prendada nas artes. Ajudava a fazer os moldes em papel de embrulho, então adquiri habilidades em usar o lápis, a régua e a tesoura. Nas sobras do papel pintava e bordava, ou seja desenhava. Na escola continuava desenhando, mas nunca me considerei um bom desenhista apesar das professoras e colegas elogiarem bastante. Algo era diferente, apesar dos elogios as pessoas riam. Eu desconfiava que o motivo era por ser mal feito. No final dos anos 1960 meus irmãos me apresentaram o jornal o Pasquim, nesse momento caiu a ficha e a partir daí comecei a considerar que meu desenho era de cartunista. A pergunta era: como me tornar um profissional? No ginásio meus desenhos chamou atenção do professor de francês que me contratou para reproduzir as ilustrações das páginas do livro em cartaz/painel para ilustrar as aulas de francês. Através desses desenhos, comecei a ser conhecido em outras turmas do colégio e ganhar dinheiro. Desde cedo aprendi a gostar de ler e devorar tudo que aparecia em casa, desde os quadrinhos, às revistas de fotonovela, Manchete, Cruzeiro, Fatos e Fotos, os cordéis e  os Almanaques anuais distribuídos nas farmácias. Na adolescência, entedi que para ser desenhista e criador era uma obrigação ler todos os livros publicados no planeta. Como isso era impossível optei pelos clássicos, então ia para as bibliotecas e devorava Tostoy, Dostoiévski, Proust, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, entre outros da literatura nacional e universal. A prática da leitura é um fator importante para a formação de cartunista.

Há algum desenhista, roteirista ou qualquer outro artista que lhe inspira ou inspirou?

CC - Sim vários: Luis Sá, Millor Fernandes, Jaguar, Ziraldo, Lage, Siné, Wolinski, Spielberg, Walt Disney,  Claire Bretecher, Avoine, Sampé, Reiser, B. KLIBAN, Quino, Charles Schuz, entre outros.


 Qual a conduta que um profissional de quadrinhos deva seguir?

CC - Após as influências, respeitar o seu próprio estilo.

Uma das qualidades que mais chama a atenção no seu trabalho é o seu traço cartunistico, humor e lirismo poético. Como você desenvolveu sua técnica de desenho? Você cursou alguma escola de desenho ou é autodidata mesmo?


CC - Autodidata mesmo.

Um de seus primeiros trabalhos foi o Porco com cauda de pavão. Fale um pouco dele

CC - O Porco com Cauda de Pavão foi criado em 1977, em forma de tiras de quadrinho nas páginas do jornal A Tarde. Dois anos depois saiu em forma de livro apresentado pelo jornalista e critico de quadrinhos Gutemberg Cruz. O personagem com seu universo de personagens fantásticos “grosseiros e elegantes” foi um sucesso na época. O livro é considerado pioneiro em publicação no gênero quadrinhos na Bahia. Atualmente, O Porco com Cauda de Pavão e os personagens que convivem com ele foram adaptados para o mundo do circo e serão apresentados ao publico em forma de série animada e musical. Não posso falar mais detalhes sobre isso.


Você ficou conhecido por produzir desenhos animados. Como começou essa atividade?

CC - Assistir seus próprios desenhos se movimentando é um sonho de todos desenhistas. Desde pequeno venho fazendo experiências em caixa de papelão e papel celofane, lâmpada e lente. Era uma tentativa de fazer um projetor de cinema. Os resultados nunca foram satisfatórios, mas serviram para quando adquiri uma câmera e projetor super-8 nos meados da década 1970. Inspirado também nas experiências do animador escocês radicado no Canadá, Mac Laren, aproveitava os filmes mal revelados para desenhar na própria película. Os resultados eram cheios de surpresas e psicodélicos. Alguns anos depois fui trabalhar na equipe de Chico Liberato no filme Eram Opostos. Nos anos 1980, morando em Paris, fiz alguns cursos de animação onde pude realizar várias experiências. Em 1997 fiz meu primeiro filme de animação chamado Coisinha. Em 1998 fiz Ouviram Alonzanfan que acabou ganhando o primeiro lugar no festival A Imagem em Cinco Minutos. A partir daí comecei a montar meu estúdio de animação, ampliando meus conhecimentos nessa área e investindo em equipamentos. Já fiz cerca de 40 filmes curtas e muitos prêmios nos festivais e mostras pelo Brasil. Recentemente concluí uma serie de 26 episódios em animação chamada Natureza do Homem. Essa série é patrocinada pela Ancine e TVE.


Na sua opinião, qual a razão de os quadrinhos nacionais, fora os infantis e alguns outros não conseguirem vingar comercialmente no nosso mercado?

CC - Acho que isso se deve a falta de investimentos das editoras e distribuidoras nacionais em quadrinhos nacionais.

Para o artista nacional, qual o caminho para arranjar trabalho nas editoras estrangeiras?

CC - Primeiramente ter uma boa ideia. Transformar a ideia em projeto, em seguida apresentar nos eventos, festivais, salões e mostras internacionais do gênero. É necessário fazer um investimento, desde ao conteúdo apresentado, ao deslocamento, hospedagem, falar outra língua, etc. A internet pode facilitar bastante alguns passos preliminares para chegar ao conhecimento nas editoras.


Como você vê o mercado nacional hoje? Tem futuro?

CC -  Ainda caminhando em passos lentos, mas tem futuro, sim.

Como foi a experiência de morar por um período de tempo na Europa (durante oito anos morou em Paris). Teve contato com os artistas de lá?

CC - Foi uma experiência muito enriquecedora, apesar do frio, deu para aprimorar meu estilo de desenhar sem tremer. Participei de varias exposições, festivais, mostras de quadrinhos e animações a exemplo de Angouleme, Epinal, Saint Just-Le-Martel, Annecy, Lilly, etc. Isso me permitiu conhecer muitos artistas consagrados.


Seus trabalhos foram publicados em diversos países...

CC - Tenho trabalhos espalhados por aí...


Já ganhou vários prêmios...quantos?

CC - Vários prêmios... quantos? Perdi a conta. O mais importante para mim foi o de Tókyo (Japão) organizado pelo jornal YiomiuryShimbun, em 1983.


O que você tem lido nos últimos tempos?

CC - Tenho lido muitos livros, principalmente bibiografias... A História de Vincent Van, de Barbara Stok,  as Cartas de Van Gogh a Seu irmão Théo, Lampião o Mata Sete, de Pedro Morais, Diário de um Louco, de Salvador Dali, Felini par Felini, de Federico Felini, entre outros.

Tem algum título ou personagem favorito?

CC - Charles Chaplin


Quais seus desenhistas prediletos (cartunistas, chargistas, caricaturistas e quadrinistas) ?

CC - Jaguar, Sampé, David levine, Steinberg, Millor Fernandes, Ziraldo, Copy, Juarez Machado, André Fraçois, TomiUngerer, Charles schulz, Desclozeaux, Quino, entre outros.

Como está seu trabalho em animação com o avanço da tecnologia computadorizada?

CC - Sem nenhuma dúvidas, a tecnologia digital de informática tem facilitado imensamente a produção de meu trabalho em animacão. O grande desafio é ficar atento para não se deixar cair nas "armadilhas" dos recursos que o programa oferece  e descaracterizar seu trabalho de forma pasteurizada.


Que conselhos você dá pra quem quer trabalhar com cartuns ou HQs?

CC - Ler e desenhar bastante

Quais os projetos em que você está trabalhando atualmente e quais seus planos para o futuro?

CC - Além da série de animação, Natureza do Homem, tenho ilustradoe criado projeto gráfico para muitos livros infantis e para adulto. Acabei de fazer um livro de cartuns intitulado Almofadas com Pelos de Gatos, com 64 páginas de desenhos inéditos. O livro é dirigido a um publico de todas as idades e cidadão do mundo, será lançado em breve de forma alternativa como sempre caracterizou meu trabalho.