12 março 2018

Théo, desenhista referência para uma geração


O baiano Djalma Ferreira, mais conhecido por Theo (1901-1980) nasceu em Salvador no dia 02 de julho de 1901. Começou a trabalhar como desenhista no jornal A Tarde em 1918 (há 100 anos), permanecendo até 1922. Em 1919 ele também ilustrava a seção de esportes do Diário de Notícias, em Salvador,   com o pseudônimo que o tornaria famosoThéo. Ainda em 1919 suas charges começaram a aparecer nas páginas de D.Quixote, no Rio de Janeiro. Seu aparecimento na imprensa coincidiu com a vibração política da sucessão presidencial de 1919, quando se defrontavam, de um lado, Rui Barbosa, do outro, Epitácio Pessoa.

 A primeira charge publicada nas páginas da D.Quixote, de Bastos Tigre foi em 1919. Theo enviou a caricatura da dupla de Rui (“um nome bem colocado”) e de Seabra (“um pronome mal colocado”),  bastava inverter a página da revista carioca para que surgisse cada um deles, perfeitamente identificado, embora com os traços comuns a um e outro. Sucesso imediato.



Antes de transferir-se definitivamente para o Rio de Janeiro, o que ocorreu em 1822, Theo habituara-se a enviar desenhos de políticos baianos em evidência à imprensa daquela cidade onde,  finalmente fixado, contribuiu com charges para grande número de publicações periódicas, como exemplos: Jornal do Brasil, O Malho,  O Globo, Careta, Suplemento Humorístico d´A Nação, Gazeta, de São Paulo, A Noite, Vamor Ler!, Revista da Semana. Colaborou eventualmente na Cigarra, de São Paulo. No Globo, pontificou durante muitos anos, com grande produçãonotadamente na seção A Bola do Dia, a seu tempo uma das mais populares do jornal. Foi publicada em O Globo por mais de 30 anos.

Chargista, cartunista e caricaturista, influenciou boa parte da geração que começou a trabalhar na imprensa brasileira a partir da década de 60. Suas caricaturas de Getúlio Vargas eram únicas, marca registrada de uma obra até hoje reconhecida como dos melhores trabalhos abrigados nas páginas do Globo.

Com as histórias em quadrinhos, principalmente na década de 1930, Théo tornou-se muito conhecido entre os leitores de O Tico Tico. Primeiro, ele criou para essa revista infantil o personagem Chico Farofa (1934). Seguiu-se Tinoco, Caçador de Feras (1938). Seus bonecos eram feitos com poucos traços, em estilo moderno e de grande expressividade.



Nunca estudou desenho. Sua grande fase de cartunista profissional aconteceu de maneira memorável na campanha presidencial de 1930. As sátiras que publicou em O Malho, naquele tempo, são indispensáveis para qualquer estudo da história da caricatura brasileira. O presidente Getúlio Vargas foi seu alvo predileto durante anos a fio, sempre implacavelmente caricaturado e criticado por ele.

Em 1923 entrou para o serviço púbico, trabalhando no Ministério da Agricultura e depois no Ministério do Trabalho. Consegue grande destaque como caricaturista político e muito embora nunca tenha tido curso especializado, “como acontece com a maioria dos seus  confrades brasileiros, nunca estudou desenho”, escreveu Herman Lima na sua História das Caricatura Brasileira. “Nos seus princípios, sofreu, mas sempre, curiosamente, por muito pouco tempo e logo se libertando de cada um deles em definitivo, a influência sucessiva de J.Carlos, Luis e Guevara, para firmar-se pouco a pouco a sua personalidade, assegurada, aliás, desde logo, pela segurança do traço e pela destreza do desenho que sempre o eximiram das incertezas do estreante. Àquelas qualidades alia-se ainda mais, uma extraordinária capacidade de apreensão do detalhe fisionômico decisivamente característico, que lhe permitia com o tempo tornar-se um dos nossos maiores caricaturistas políticos”.


Segundo o estudioso da caricatura brasileira, a grande fase de chargista “se apresentaria de maneira memorável na campanha presidencial de 1930” n´O Malho. No suplemento humorístico semanal do jornal A Nação Theo teve ocasião de publicar “algumas de suas charges mais brilhantes e ousadas, pela agilidade do lápis, fisgando em flagrantes coletivos de intensa movimentação, na página dupla central de publicação, em grupos do mais hilariante antagonismo, aqueles que, unidos na véspera, começava então a se entre devorar, mais ou menos cordialmente, na campanha da Constituinte de 1934”. Sua popularidade cresceu com sua grande secção de Bola do Dia, nos anos 1940 “que se tornou, na primeira página d´O Globo, uma verdadeira chispa diária do mais malicioso humorismo carioca ilustrado”.

“Theo é um dos as bravos e brilhantes dos nossos caricaturistas”, escrevia o jornalista R. Magalhães Júnior em sua crônica do Diário de Noticias. “Já foi seduzido, durante algum tempo, por jornais oficiosos, que lhe pagavam régio salário, mas quando compreendeu que estava apenas perdendo a liberdade de crítica, espontaneamente voltou-lhes as costas, vindo para a planície, readquirindo a desenvoltura que sempre estimou ter, colaborando de novo em folhas independente ou de oposição, criticando e protestando a seu modo contra escândalos, abusos e mentiras políticas. Com a morte de J.Carlos, o mestre da caricatura contemporânea em nosso país, teria Careta (revista humor) sofrido uma perda irreparável se não tem encontrado em Theo um continuador da obra daquele Grace artista”.


Herman Lima lamentou que o “traço do fixador da efígie definitiva de todos os nossos figurões da atualidade não se renove, substancialmente, como aconteceu no caso de J.Carlos, o certo é que seu lápis tem, a despeito disso, uma qualidade realmente notável, o desenho é limpo e extremamente  correto, na sua alegre vivacidade, o traço corre harmonioso e elegante, no recorte de corpo e feições. Há diversidade na concepção das charges, a composição resulta agradável, o conjunto, muito frequentemente, atinge o máximo de vigor plástico e de sentido satírico, não sendo difícil lembrar algumas páginas realmente admirável vizinhas das nossas obras primas do gênero,entre as melhores da caricatura brasileira”. Fora da sátira política, Theo igualmente demonstrou em inúmeras oportunidades uma verve tão aguda e espontânea como a de suas farpas contra os homens políticos.




09 março 2018

60 anos sem Assis Valente


No dia 10 de março, morria o compositor e cantor (além de desenhista), Assis Valente (1911-1958). Ele alcançou merecido sucesso na década de 1930 graças a Carmen Miranda que lançou várias de suas músicas como “Good-bye Boy”, “Camisa Listrada” e “O Mundo não se Acabou”. O auge da carreira de Assis Valente coincidiu com a época de ouro do rádio brasileiro, tendo no samba seu maior representante. Moreira da Silva, Carlos Galhardo, Nara Leão, Aurora Miranda, Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Luiz Gonzaga entre outros gravaram suas musicas.

Ele teve uma infância difícil, agravada com o fato de ter sido tirado dos pais. Foi criado por uma família na cidade de Alagoinhas, que o tratava como empregado, até se mudar para Salvador. Lá fez cursos de desenho e se especializou na fabricação de próteses dentárias, profissão que manteve até o fim da vida.


A primeira composição foi feita em 1932, o samba "Tem Francesa no Morro", logo gravado pela cantora Aracy Cortes. Mas foi na voz de Carmen Miranda que suas canções ficaram conhecidas. Depois de ver o show da cantora, Assis Valente não sossegou enquanto não se aproximou da estrela. Especialmente para ela, compôs, ainda em 1932, o samba "Good Bye, Boy", que virou sucesso.

BRASILIDADE - Valente foi um dos compositores que mais retrataram em suas canções a brasilidade, aproveitando para fazer crônicas alegres, com críticas leves aos acontecimentos da época. Criticava a influência estrangeira na cultura nacional como, por exemplo, nos sambas "Good Bye Boy" e "Tem Francesa no Morro", nos quais se utiliza de expressões das duas línguas para fazer uma sátira.

Nessa época, o governo federal, comandado por Getúlio Vargas, decidiu investir na cultura nacional e, em contrapartida, iniciava o processo de agravamento da censura. Na década de 50, as músicas de Assis Valente já não eram mais gravadas, coincidindo com o declínio das gravações do samba tradicional. No seu lugar, a bossa-nova aparecia como representante da MPB no Brasil e exterior.


Os desenhos de Assis Valente chegaram a ser publicados em revistas famosas da época, como a Fon-Fon, logo que ele chegou ao Rio, em 1927. O trabalho como protético também era elogiado, sendo considerado um dos melhores da cidade. O sócio José de Aguiar Dantas acabou a parceria no laboratório de próteses por causa da carreira artística de Valente, que o afastava das obrigações do negócio. Em 1938, o compositor abriu seu próprio laboratório.

Compositor de incontáveis sucessos (Cai Cai Balão, Para Onde irá o Samba, Boas Festas, Chegou a Hora, Pão Duro, Fez Bobagem) morreu em total miséria, pressionado por dívidas que se somaram a seus problemas existenciais, até o suicídio. Em seu derradeiro bilhete ele pedia à sua sociedade arrecadadora que pagasse seus débitos, dívidas de um homem que sempre viveu em condições que (no máximo) poderiam ser chamadas de modestas.


Aurora Miranda, Moreira da Silva, Francisco Alves, Bando da Lua, Elza Cabral, Irmãs Pagãs, Almirante, Mário Reis, Sônia Carvalho, Orlando Silva e Carlos Galhardo também incluíram Valente em seus repertórios. Galhardo foi o primeiro a gravar "Boas Festas", música natalina popularizada no Brasil pelos versos "Eu pensei que fosse filho de Papai Noel".

Ele cantou o amor alegre, o amor de carnaval, a festa, o riso das ruas, criticando e ironizando, dando um formidável testemunho de seu tempo, dando linguagem popular e espontâneo. Enfrentou permanentemente problemas que hoje são extremamente aflitivos no Brasil, e que só agora começou a ser discutidos, tanto a nível social como profissional: homossexualismo, raça, direitos autorais e muitos outros condutores diretos a total marginalização do ser humano e de profissional. Sua última composição, "Boneca de Pano", data de 1950, foi gravada pelo conjunto Quatro Ases e Um Coringa. Em 1956, a cantora Marlene tentou fazer um resgate de suas músicas com o disco "Marlene Apresenta Sucessos de Assis Valente". Dois anos depois, com 50 anos, o compositor acabou com a própria vida tomando veneno. Morreu em 10 de março de 1958.


08 março 2018

O povo quer justiça social (02)


Tem ainda a insegurança, o local do medo, em vez de esperança. E a vida não tem de ser assim. O espaço que coabitamos pode ser (consensualmente) bem estruturado. Nesse espaço em que muitas das coisas vitais para a vida de cada um de nós (transportes, escolas, hospitais, trabalho) são compartilhadas, podem nos ver uns aos outros como condições, mais que como obstáculos, para nosso bem estar, coletivo e individual.


Eles podem, dizem muitos. A pergunta é: eles o fariam?. Eles o farão?. As pessoas podem influenciar os assuntos que lhe digam respeito de duas maneiras: por meio da voz (exigir mudanças no tipo de coisa feita e na forma como ela é feita) ou por meio da saída (virar as costas para a coisa que não satisfaz e se mover completamente para outro lugar, a fim de buscar satisfação). Mas a possibilidade de se contrapor às pressões atuais por um lugar as vidas privadas e pública de motivações éticas e de avaliações morais depende ao mesmo tempo de mais autonomia para esses indivíduos e de uma partilha mais vigorosa das responsabilidades coletivas.

O dilema Estado versos indivíduo é como tirar leite das pedras. Cidadãos autônomos, moralmente auto sustentados e independentes (ou seja, rebeldes, incômodos e desagradáveis) numa comunidade política como Salvador onde o índice de analfabetismo é alto, é pedir demais. Enquanto isso, na batcaverna, eles fazem o que querem, o povo que se exploda.

A felicidade, em nossa cidade, é uma fuga da insatisfação. Nossa capacidade de afastamento do exigir mais do político e saber o que ele faz, é a medida da arbitrariedade dele e, assim, num mundo regido pela política e de sua insustentabilidade, a necessidade de mudança e a capacidade de mudar se induzem e definem mutuamente. Ou seja, é pura ilusão. Quanto mais facilmente possamos nos afastar da política, menos autoridade estamos inclinados a lhe conceder. E é isso o que eles querem. Atuar como se não existissem ninguém. O que eles fazem é só para satisfação própria.



O sociólogo baiano Antonio Risério em uma de suas colunas quinzenais publicadas no jornal A Tarde informou que a primeira profissão que vingou na Cidade da Bahia foi a de ladrão (Passeios Públicos. A Tarde 30/03/2013, p.2): “E o primeiro dos ‘dous ff’ de que falava Gregorio. Terra de gatunos, denunciava-se no século 18 (...). E hoje, para tudo quanto é lado que olho, diviso logo algum ilustre, poderoso e envernizado ladrão, proprietário de casas e de casos”.


O escritor Hélio Pólvora escrevendo sobre insegurança consentida (A Tarde 09/06/2013, p.2) afirmou: “Somos governados por uma minoria hábil na simulação de condutas democráticas”. Terceira maior cidade do país em população, Salvador sofre, há tempos, com uma crônica falta de recursos. Tem a pior arrecadação per capita entre as capitais dos estados brasileiros, Salvador cresceu de forma desordenada e desorganizada e nenhum gestor tentou mudar isso...


A prática de legislar em causa própria, ignorando as aspirações da sociedade, transformando o Poder Legislativo em uma casa de negócios, criou uma imagem negativa do Congresso Nacional perante a opinião pública. As eleições de Eduardo Alves e Renan Calheiros para a presidência da Câmara e do Senado são exemplos de distanciamento dos parlamentares brasileiros em relação à sociedade. Outra deterioração política foi a Comissão de Ética em que oito dos 15 membros titulares são acusados em 20 inquéritos e ações penais. E para presidir tal comissão um pastor, reu no STF e acusado de homofobia e racismo. Até quando a população vai aguentar isso? (Texto publicado no dia 19 de junho de 2013)


Já perdi a esperança
de ter na política o respeito
já que sei que não é direito
usufruir do dinheiro público
e a justiça ficar cega no que vê

pois faz conluio com o poder
e agora, em quem acreditar?
Siga seu caminho reto
respeite o próximo e vá direto
naquilo que tem fé e tenha certeza
que o que faz é uma proeza
de saber viver simples, com humildade
não pisar no outro e falar sempre a verdade
e se inspirar naquilo que acredita
vá em frente, amigo, a vida é bendita!



07 março 2018

O povo quer justiça social (01)




A classe política é malvista hoje no mundo afora. Não é segredo para ninguém que os políticos são poucos admirados. Os jovens não querem nem ouvir falar de partidos políticos, buscam outros caminhos. E se antes botas e fuzis davam ordem, hoje o regime democrático está assegurado. Mas isso só não basta, é preciso resolver a injustiça social.

Onde estão nossas instituições (Legislativo, Judiciário, Ministério Público)?. Essas instituições dão conta de muitas coisas, funcionam, às vezes, num mundo que parecem só deles e não têm raízes fortes na sociedade, nas pessoas.


O que se nota é que a estrutura do poder está presente e funciona às vezes mal, às vezes bem, mas o que lhe falta é o que Montesquieu (1689-1755) chamava o princípio de um regime, a adesão da sociedade ao valor que o sustenta. Falta povo nessa república, mesmo com o aumento gradativo da inclusão.

Com o advento da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) que propõe não gastar mais do que arrecada, é preciso uma lei de responsabilidade social, ou seja, leis de responsabilidade educacional e de saúde para os chefes do Executivo. Assim como a LRF se adequou a uma nova realidade fiscal em que o equilíbrio das contas, o planejamento e a transparência passaram a ser essenciais, o enfoque agora seria necessário para a educação e saúde, muito desprezadas.



Hannah Arendt, uma das observadoras mais perspicazes e uma das juízas mais críticas de nossa atual condição humana, escreveu de forma profusa e convincente sobre o “vazio do espaço público”. O que ela quis dizer é que em nossos tempos não há mais locais óbvios no corpo político a partir dos quais possam ser feitas intervenções eficazes e significativas para o modo como nossa vida coletiva é vivida.

As atividades de governo tendem hoje a ser fragmentadas, episódicas e inconsequentes. A política foi dividida numa coleção de acontecimentos, um sem relação com os outros, surgindo à atenção pública, sobretudo para apagar dela os acontecimentos de ontem. Os triunfos de hoje significam isolar a bagunça deixada pelos atos comemorados ontem. Toma-se uma coisa de cada vez e proibe-se todo pensamento sobre o que vem pela frente.


Escândalos e futilidades que invadem a atenção do público apresentam uma salutar qualidade de apagar os escândalos do passado e as futilidades da memória. Vale lembrar a longa greve dos professores e militares, o edital assinado e tido como não lido da secretaria de cultura, as dicas para não ser assaltado deixando um dinheirinho na bolsa para amenizar o ladrão da secretaria de segurança ou mesmo o concurso para jovens virgens, só para citar alguns exemplos.

Um governo que pratica e promove a política assim entendida gosta de seus cidadãos como eles são, com seus olhos inconstantes e a atenção à deriva, assim como seus discursos laudatórios de tempos em tempos sobre suas gloriosas herança e os antigos feitos na época da ditadura. Esse governo não desistiria desses cidadãos por nada, e fará todo possível para que eles permaneçam do jeito que são, ou melhor, da forma como são pressionados, empurrados, intimidados (com a benção, a conivência e a dedicada colaboração do governo) a se tornar.

Assim, trata-se de um governo que tudo desregula, de modo que nada pode ser sentido como duradouro e confiável, previsível, fidedigno, algo como que se pode contar. Um governo que remove os lugares em que as decisões são tomadas para outros onde as pessoas por elas afetadas não possam vê-las como decisões, mas apenas como destino cego. Um governo que quer que o jogo das forças do mercado defina o padrão de vida, de vida vivida como um jogo. Taí a Copa para alegrar a todos. Pão e circo para todos. (Texto publicado no dia 18 de junho de 2013)