24 novembro 2015

Caiçara, o valentão de Cachoeira de São Félix


Quando se fala no mundo da capoeira nomes como Besouro, Bimba e Pastinha são logo lembrados. Mas na
Bahia existem muitos outros que lutaram com esse instrumento de resistência cultural. Um deles, pouco lembrados na história, mas na memória dos baianos, Caiçara que nasceu no dia 08 de maio de 1924 em Cachoeira de São Félix. Seu verdadeiro nome: Antonio Conceição Morais. Ele cresceu em meio às dificuldades e adversidades da localidade e logo percebeu que a roda de capoeira é o caminha que deveria seguir. Foi o que fez.

Adélia Maria da Conceição, sua mãe, deu inicio à sua formação religiosa, fazendo-lhe a cabeça (ele era filho de Logun Edé, orixá filho de Ogum com Oxossi) e ensinando os segredos da magia. Ele aprendeu rápido e, pouco a pouco foi ganhando notoriedade nas rodas das malandragem. E não demorou muito para se tornar um capoeira dos mais respeitados.

Ao entoar seus cânticos, todos paravam para ouvir. Em 1973 ele lançou o disco Academia de Capoeira Angola São Jorge dos Irmãos Unidos de Caiçara (gravado pela AMC – São Paulo), onde exemplifica diversos toques de berimbau e onde canta ladainhas e sambas. Contador de causos e histórias da capoeira, Caiçara estava sempre presente nas festas de largo de Salvador e outros festejos populares, com seu grupo folclórico Santa Bárbara, da qual era devoto, juntamente com São Jorge.

Assim, como devoto, muitas vezes vestia sua camisa de cores fortes em vermelho e verde que se tornaram as cores de sua academia. Era também defensor radical das tradições africanas e costumava distribuir bênçãos em Nagô, Ketu, Gêge e Angola, e emitia suas opiniões sobre os capoeiras do passado e suas considerações sobre os capoeiras atuais. Para os meninos de rua ele ensinava a capoeira como forma de resistência social e histórica.

Foi matador de boi em abatedouro e funcionário público, além de dar aulas de defesa pessoal à polícia, mas sempre teve problemas. Como ele mesmo descrevia em suas ladainhas, foi preso diversas vezes pelo seu envolvimento em brigas e confusões. Muitos afirmaram que a exemplo de tantos outros capoeiras, controlava algumas mulheres na zona no meretrício de Salvador.

Em Salvador ele estava sempre presente no Terreiro de jesus onde combinava com seus conhecidos sua fama de feiticeiro, para jogar búzios em sua casa no bairro de São Caetano. Lá ele reunia os demais capoeiras da época e confabulava suas crenças com voz firme e seu jeito irreverente e amedrontador.  Ao questionar sobre a eficácia da capoeira, o mestre resumia dizendo: !cada qual com seu cada qual”.

No dia 26 de agosto de 1997 ele foi acometido de um efisema pulmonar, depois de uma parada cardio-respiratória. Mas antes de ser levado para o hospital, reuniu seus filhos, pois queria ter todos ao seu lado. Capoeiras de todas as tendências e estilos estiveram no sepultamento. Uma roda em sua homenagem foi formada e cantada uma ladainha de sua autoria, deixando saudades naqueles que tiveram o privilégio de conhecer sua maestria.

23 novembro 2015

Dandara, a guerreira de Palmares


Todos os brasileiros, de alguma forma, já ouviu falar do líder negro Zumbi dos Palmares. Embora sua figura
e história sejam marcantes, é preciso não ocultar outras personagens de igual importância na luta contra a escravidão negra no Brasil. E a guerreira e esposa de Zumbi é uma delas. Há um ditado que diz que ao lado de um grande homem, sempre existe uma grande mulher. De fato a história do casal Zumbi e Dandara só reforça esta ideia.

Dandara, que quer dizer “a mais bela”, além de esposa de Zumbi, com o qual teve três filhos, foi uma das lideranças femininas negras que lutou contra o sistema escravocrata do século XVII. Não há registros do local do seu nascimento, tampouco da sua ascendência africana. Mas, relatos levam a crer que ela tenha nascido no país e estabeleceu-se no Quilombo dos Palmares ainda menina. Dandara não era apta só para os serviços domésticos da comunidade, ela plantava, trabalhava na produção de farinha de mandioca, caçava e também lutava capoeira.

O seu título de guerreira não é à toa: Dandara também sabia empunhar armas e quando adulta, passou a liderar os grupos femininos do exército negro palmarino. Ela foi uma das provas reais da inverdade de que a mulher é sexo frágil. Quando os primeiros negros se rebelaram contra a escravidão no Brasil e formaram o Quilombo de Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas, Dandara estava com Ganga-Zumba (Grande Senhor), o primeiro líder do quilombo e também tio de Zumbi. A guerreira negra participou de todos os ataques e defesas da resistência de Palmares.

VALENTIA - Na condição de líder, Dandara chegou a questionar os termos do tratado de paz assinado por Ganga-Zumba e pelo governo português. Posicionando-se contra o tratado, opôs-se ao Grande Senhor, ao lado de Zumbi. Sempre perseguindo o ideal de liberdade, ela não tinha limites quando estavam em jogo a segurança de Palmares e a eliminação do inimigo. Certa vez, chegando perto da cidade de Recife, depois de vencer várias batalhas, Dandara pediu a Zumbi que tomasse a cidade, provando sua valentia. Sua posição era compartilhada por outras lideranças palmarinas.

Para Dandara, a paz em troca de terras no Vale do Cacau, proposto pelo governo de Portugal, não era o bastante. Ela preferiu a guerra constante, pois via neste acordo, a destruição da República de Palmares e a volta à escravidão. (“É dando espinho, é dando amor, é dando/Dandara, Dandara, Dandara//Dando carinho, dor e flor, é dando/Dandara, Dandara, Dandara//É flor que brota em grota/em greta, em grota, em gruta/ingrata, o dedo espeta/e grita, berra, braba, forte, mata/Dandara/bonita, bárbara, felina, flor do gravatá//Vibra o punhal de prata!/vibra o punhal de prata!/vibra o punhal de prata!//E ainda assim tão terna/tão ternamente rara/a flor do gravatá/medra na pedra/na pedra se escancara//Dandara, Dandara, Dandara. Dandara, a Flor do Gravatá, letra de Gilberto Gil e Waly Salomão para o filme Quilombo, de 1983)

DEUSA - Dandara foi morta com outros quilombolas no dia 6 de fevereiro de 1694, após a destruição da Cerca Real dos Macacos, que fazia parte do Quilombo. Não se sabe como era seu rosto, nem como ela era fisicamente. No entanto, podemos compará-la a duas deusas do panteão africano: uma Obá ou Iansã, uma leoa defensora da liberdade. Dandara pode ser vista em cada pessoa que se identifica com suas origens, luta por liberdade e acredita em seus sonhos.

Portanto, neste mês de novembro, prestamos homenagem a todas as mulheres através de Dandara.Sejam
negras, brancas, de todas as etnias, crenças, lutas, belezas, sorrisos, tristezas, dores, amores, fica o desejo de que cada uma busque a guerreira que há em si mesma, não esquecendo jamais que a luta é diária e o sonho de respeito, igualdade, liberdade e dignidade é atemporal.

“Ela tem nome de mulher guerreira/E se veste de um jeito que só ela/Ela vive entre o aqui e o alheio/As meninas não gostam muito dela/Ela tem um tribal no tornozelo/E na nuca adormece uma serpente/O que faz ela ser quase um segredo/É ser ela assim tão transparente//Ela é livre e ser livre a faz brilhar/Ela é filha da terra, céu e mar/Dandara//Ela faz mechas claras nos cabelos/E caminha na areia pelo raso/Eu procuro saber os seus roteiros/Pra fingir que a encontro por acaso/Ela fala num celular vermelho/Com amigos e com seu namorado/Ela tem perto dela o mundo inteiro/E à volta outro mundo admirado//Ela é livre e ser livre a faz brilhar/Ela é filha da terra, céu e mar/Dandara//Ela tem nome de mulher guerreira/E se veste de um jeito que só ela/Ela vive entre o aqui e o alheio/As meninas não gostam muito dela/Ela tem um tribal no tornozelo/E na nuca adormece uma serpente/O que faz ela ser quase um segredo/É ser ela assim tão transparente//Ela é livre e ser livre a faz brilhar/Ela é filha da terra, céu e mar/Dandara”. Dandara, de Ivan Lins e Francisco Bosco)

20 novembro 2015

Nego Fugido, tesouro do patrimônio imaterial do município de Santo Amaro


Há quase um século, na pequena vila de pescadores de Acupe, distrito de Santo Amaro, no recôncavo
baiano, é apresentada todos os anos, uma manifestação que não existe igual em nenhum outro lugar do mundo: o Nego Fugido. A origem dessa expressão cultural ainda não se sabe quando teve início, mas o fato é que por suas características e estruturas dramáticas, o Nego Fugido é definido por antropólogos como sendo uma “ópera popular”, um “tesouro do patrimônio imaterial” de Santo Amaro.

As ruas de paralelepípedo do pequeno distrito santamarense se torna palco para a exibição de um grande espetáculo de teatro a céu aberto. A manifestação mexe com feridas históricas da gênese brasileira e impressiona pela atuação de seus protagonistas. A encenação recria e reconta as tentativas de fuga do negro para a tão sonhada liberdade contra o regime escravocrata que imperou no Brasil até 13 de maio 1888. Reza a lenda que para se livrarem da escravização, os homens se refugiavam nas matas e lá se vestiam com folhas de bananeira para se camuflar.

CIDADE MUNDIAL DA PAZ - “Esse é o nosso relato, a versão de uma comunidade de pescadores, remanescentes de escravos africanos de origem nagô”, explica Monilson dos Santos, diretor e membro do Grupo Nego Fugido. Por conta da tradicional manifestação libertária, Acupe será premiada em julho deste ano como a “Cidade Mundial da Paz” pela Fundazione Campana degli Cadutti, uma importante fundação italiana criada pelo papa Pio XII após a Segunda Guerra Mundial, com a missão de promover a paz por meio de ações sociais antiviolência em todo o mundo.

A iniciativa da premiação surgiu em 2007, quando o diretor de teatro baiano Paulo Dourado (que, na época, era coordenador de arte e cultura da Universidade Federal da Bahia) convidou o diretor do Teatro Potlach, da Itália, Pino di Buduo, para assistir a uma apresentação da obra. “Fiquei particularmente interessado pela autenticidade da apresentação, pelo lirismo e pelo teatro visceral do Nego Fugido, que é simples, mas ao mesmo tempo aborda diversos elementos da arte brasileira para falar de valores promotores da paz, através da libertação”, disse o italiano.

Em seguida, Pino apresentou o grupo aos diretores da fundação italiana, e o título vai possibilitar visibilidade tanto para a comunidade de Acupe quanto para as diferentes manifestações populares do recôncavo baiano. “Nós somos desassistidos das políticas públicas de cultura. A intenção, a partir deste prêmio honorífico, é alertar a sociedade para a importância de manter as nossas tradições culturais”, disse Monilson dos Santos.

LIBERDADE CONQUISTADA - O Nego Fugido lembra um Brasil escravocrata e cruel, num teatro de rua movimentado. Palco da colonização da Bahia, o recôncavo foi a região que concentrou a maior parte da
mão-de-obra escrava trazida da África para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar e nos engenhos. A representação do Nego Fugido mantém viva a história de Acupe, cujos integrantes do grupo teatral descendem de escravos negros. Através da encenação, os moradores de Acupe dão uma versão diferente à história oficial da libertação dos escravos: uma conquista dos negros e não uma concessão feita pela princesa Isabel.

A liberdade se apresenta à frente do escravo, que na tentativa de fuga é caçado e amarrado, para depois comprar a sua alforria, mas a palavra é descumprida e vem a revolta dos caçadores enganados e a execução sumária do rei e seus soldados. Surge então a fada madrinha, que a todos ressuscita e liberta, acalentando o sonho de esperança. As apresentações ocorrem nos domingos de Julho, mês fraco para a pescaria em Acupe e, ao mesmo tempo, de muita festa no Recôncavo. No passado, participavam somente pescadores, mas há alguns anos ganhou a participação de mulheres e crianças.

Assim as manifestações da cultura popular sobrevivem em Santo Amaro da Purificação. Com as cabeças pintadas com carvão, os lábios avermelhados com crepom molhado e saias de folhas, pessoas de Acupe lutam para ter êxito em manter de pé o Nego Fugido, folguedo tradicional da região de Santo Amaro que revive a época da perseguição feita aos habitantes dos quilombos pelos capitães-do-mato e pelos militares.

19 novembro 2015

Francisco Guarany, escultor baiano de carrancas


Um dos maiores e mais destacados escultores de carrancas do São Francisco, Francisco Biquiba Dy
Lafuente Guarany é um nome que soa familiar pelas margens, afluentes, cidades e, principalmente, barcaças do São Francisco por suas famosas carrancas. Ele é homenageado todo dia 02 de abril. Nesse dia a Câmara de Vereadores de Juazeiro instituiu o Dia Municipal da Carranca. Nascido no município de Santa Maria da Vitória no dia 02 de abril de 1882, Guarany foi um escultor primitivo de carrancas (figuras de proa das “barcas” que navegavam no Rio São Francisco até a década de 1950, com sua original tipologia ao antropomorfa),  que mais produziu dos 19 aos 97 anos de idade.

Essas carrancas constituem a mais importante manifestação coletiva da arte popular brasileira. São assuntos de extrema importância na história da cultura brasileira. Guarany sempre trabalhou sozinho, como marceneiro e carpinteiro. Por ser esse serviço escasso em Santa Maria, Guarany fazia de tudo: barris para transporte de água, dornas para guardar cachaça, móveis, madeiramento para telhados, etc. Ficou famoso pela produção de carrancas.

TRABALHO - Carranca é uma escultura de madeira que foi muito usada na proa das embarcações que navegavam no Rio São Francisco. Por ser muito feia, acreditava-se que ela espantava os maus espíritos. O vigor de sua escultura primitiva, marcado pelo fantástico, resulta de sua autenticidade. Ele criava uma fantasia em torno de muitas de suas carrancas, como a querer dar-lhes vida. Impregnou-se de sua funcionalidade e criou o seu estilo. O elemento plástico mais característico à sua escultura é o tratamento que dispensa à cabeleira das carrancas, espessa ou em relevo acentuado. A grandeza de Guarany está na uniformidade do seu trabalho.

Todas as suas peças apresentam um perfeito apuro técnico. De suas mãos e imaginação nasceram quase a totalidade das carrancas que durante anos enfeitaram as embarcações san franciscanas, cumprindo a misteriosa missão de afastar as “feras do mal”, e que hoje, recolhidas em ricas coleções e museus, são signos vivos de uma arte singular.

ORIGEM - Segundo Guarany, seu bisavô, José Dy Lafuente, espanhol de Barcelona, era um jesuíta ou frade de um convento em Salvador, de onde teve que fugir por ocasião de uma revolução, ou talvez da perseguição que Pombal moveu aos jesuítas. Ocultou-se então na casa de uma negra africana de Moçambique - Biquiba - com quem se uniu e refugiou-se no interior da Bahia, indo para Capim Grosso, atualmente Curaçá, às margens do São Francisco, próximo a Juazeiro, onde se tornou professor. Daquela união nasceu Plácido Biquiba Dy Lafuente que, recrutado aos 16 anos e transferido para Salvador, ali participou da Sabinada, obtendo o posto de Alferes sendo destacado para Juazeiro.

O mais velho dos filhos de Plácido e Maria foi Cornélio Biquiba Dy Lafuente, que se casou aos 21 anos, cerca de 1865 (evitando o recrutamento dos solteiros para a guerra do Paraguai), com Marcelina do Espírito Santo, neta de uma índia de Paraguaçu mudando-se de Barra, onde trabalhava com Cirillo Cavalcante, construindo barcas, para Porto, hoje Santa Maria da Vitória, ali continuando com a mesma profissão. Francisco, último dos seis filhos de Cornélio, foi apelidado de Guarany, por ser bisneto de índia. Passou então a assinar Francisco Biquiba Guarany ou Francisco Guarany, sendo conhecido por todos como Guarany.

RECONHECIMENTO - Em 1968, recebeu o diploma de membro correspondente da Academia Brasileira
de Belas Artes. Esculpiu carrancas até fins de 1979. Em 1972, foi convidado para proferir palestra em uma Faculdade de Economia de São Paulo, sobre o São Francisco e as carrancas, o que lhe deu grande prazer, pois muito se orgulhava de suas esculturas, especialmente das que fez por encomenda para o exterior e encontradas em vários museus.

Morreu aos 103 anos, em Santa Maria da Vitória, no dia 05 de maio de 1985, como o maior escultor primitivo brasileiro de todos os tempos. Com suas carrancas foi reconhecido pela imprensa de Paris, onde o Comité Internacional pour l' Étude des Figures de Proue - órgão sob o patrocínio da UNESCO, solicitou uma exposição de carrancas para inauguração do Museu Flutuante. O fato consagrou as carrancas internacionalmente. Confirmada pela carta da Presidente do Comité, Liliane Bedel, enviada a Guarany, felicitando-o pela realização da Exposição "Guarany - 80 anos de Carrancas".  No município onde ele nasceu, Santa Maria da Vitória, existe o Memorial Francisco Guarany que reúne artistas emergentes e funciona como escola de arte.