28 abril 2015

Olhar de quem veio de longe (02)



AMBIENTAL

O artista e ativista ambiental Frans Krajcberg já viajou por quase todo o País documentando cenas de
agressões à natureza. Em 2003 ele fez uma proposta ao governo baiano de construir um museu ecológico mas não recebeu resposta. A obra do ativista (cidadão baiano desde 2008) se restabeleceu no refúgio das baleias jubartes, onde vive desde 1971 e mantém o seu ateliê no Sítio Natura, no município de Nova Viçosa. Chegou ali o convite do amigo e arquiteto Zanine Caldas, que o ajudou a construir a habitação: uma casa, a sete metros do chão, no alto de um tronco de pequi com 2,60 metros de diâmetro. À época Zanine sonhava em transformar Nova Viçosa em uma capital cultural e a sua utopia chegou a reunir nomes como os de Chico Buarque, Oscar Niemeyer e Dorival Caymmi.

No sítio, uma área de 1,2 km², um resquício de Mata Atlântica e de manguezal, o artista plantou mais de dez mil mudas de espécies nativas. O litoral do município é procurado, anualmente, no inverno, por baleias-jubarte. No sítio, dois pavilhões projetados pelo arquiteto Jaime Cupertino, abrigam atualmente mais de trezentas obras do artista. Futuramente, com mais cinco construções projetadas, ali se constituirá o museu que levará o nome do artista.

POPULAR

Aos 39 anos de idade, Dimitri Ganzelevitch, francês nascido no Marrocos, com ascendência russa, abandonou sua residência em Portugal, onde comandava uma loja de confecções e duas galerias de arte, e veio morar no Brasil. Era 1975. Escolheu como lar o Centro Histórico de Salvador, na Bahia, onde deixou de lado as roupas e passou a trabalhar exclusivamente com o comércio de obras de arte, um universo do qual fazia parte desde os tempos de estudante em escolas de arte de Londres e Paris.

Inicialmente dedicando-se à arte acadêmica e erudita, foi na arte popular que Ganzelevitch descobriu “a riqueza da criação humana”, e se destacou entre os outros marchands de Salvador. Após um tempo frequentando a elite soteropolitana, lutando para se fixar em um mercado bastante incipiente, decidiu mergulhar de vez na cultura popular e se transformou numa espécie de garimpeiro de novos artistas. Hoje, possui uma das maiores coleções pessoais de arte popular do país. Entre obras de todos os cantos do mundo, frutos de constantes viagens, destacam-se peças de brasileiros anônimos ou praticamente desconhecidos. São quadros, esculturas, adornos, tapeçarias e móveis provenientes dos mais diversos pontos do país, ou simplesmente tábuas borradas de tinta, que em breve farão parte da Casa-Museu Solar Santo Antônio, projeto que Ganzelevitch elaborou para deixar de ser marchand e lidar com a arte apenas como colecionador.

MUSICÓLOGO

Hans-Joachim Koellreutter (1915 – 2005) foi um compositor, professor e musicólogo alemão.
Mudou-se para o Brasil em 1937 e tornou-se um dos nomes mais influentes na vida musical no País. Na década de 40 ajudou a fundar a Orquestra Sinfônica Brasileira, onde foi primeiro flautista. Naturalizou-se brasileiro em 1948. Participou da fundação da Escola Livre de Música de São Paulo em 1952 e da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (1954). Ganhou o prêmio Ford em 1962. A convite do Instituto Goethe, trabalhou na Alemanha, Itália e Índia, onde viveu entre 1965 e 1969. Neste país fundou a Escola de Música de Nova Deli. Retornou ao Brasil em 1975. Fixou-se desta vez em São Paulo. Foi diretor do Conservatório Dramático e Musical de Tatuí, em São Paulo e professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da USP. Em 1981 a cidade do Rio de Janeiro lhe oferece o título de cidadão carioca.

Koellreutter fundou em 1939 o grupo Música Viva. Além das técnicas tradicionais europeias, Koellreutter incorporou outras influências de todos os locais onde esteve. Na Índia, tomou conhecimento da música microtonal, que utilizou em várias de suas composições. Também soube misturar a tecnologia eletrônica, o serialismo e a harmonia acústica aprendida com Paul Hindemith às influencias da música brasileira, criando um estilo de composição próprio. No Japão e na Índia conheceu as filosofias orientais. O Zen budismo e o hinduísmo o influenciaram na criação daquilo que ele dizia ser uma "estética do impreciso e do paradoxal". Além de compositor, regente e flautista, Hans-Joachim Koellreutter foi antes de tudo um professor. Em 1941, contratado pelos pais de Tom Jobim, começou a lecionar piano e harmonia para o futuro criador da Bossa Nova que só tinha 13 anos. Foi seu primeiro professor de música. Além de Jobim, Koellreutter ensinou e influenciou, durante toda sua vida, uma legião de músicos populares e eruditos.


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27 abril 2015

Olhar de quem veio de longe (01)



A Bahia é singular, plural, positiva e negativa, preta, branca, cinza, multicor. Terra do samba de roda, pagode, arrocha, axé, rock, reggae, pop, música instrumental, carnaval, São João, natal, do profissional ao experimental. Mas a Bahia não pode esquecer que muitos dos seus filhos vieram de fora, a exemplo do antropólogo francês Pierre Verger, do artista plástico argentino Carybé, do músico suíço Walter Smetak, do escultor alemão Karl Heinz Hansen, do caricaturista português Raymundo Aguiar (K-Lunga), do educador português Agostinho da Silva, do artista plástico polonês Frans Krajcberg, do franco-marroquino Dimitri Ganzelevitch e tantos outros.

A Bahia é um estado d´alma. Cada um a carrega vida afora à sua maneira. Cada um tem a sua Bahia. Para uns são as festas populares sagradas e profanas, para outros, o perfume dos cacaueiros da infância ou do sabor das frutas tropicais. E outros ainda a terra da costa clara, banhada por um mar amigo que inspira canções. O lugar onde se está é onde o mundo nasce. O seu povo, plural na sua etnia e singular nas suas manifestações. Assim conhecer a Bahia é usar os sentidos. De corpo e da alma.


FATUMBI

O fotógrafo, etnólogo, antropólogo e babalaê Pierre Verger (1902-1996) desembarcou em Salvador em 1946 e fez reportagens sobre o candomblé, impressionando-se com a cultura dos descendentes dos africanos. Mais tarde, envolvido com os rituais afros, foi consagrado a Xangô e recebeu o título de babalaô Fatumbi – o renascido, na Africa, em 1952. Seu amor às coisas e gentes da Bahia foi amplamente documentado nas obras 50 Anos de Fotografia, Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos – dos Séculos XVII a XIX, Notícias da Bahia – 1950, Ewê – o uso das Plantas na Sociedade Iorubá, entre outras.


Etnólogo autodidata, ele conseguiu o título de doutor terceiro ciclo da Universidade de Sorbone e ensinou na Universidade de Badã na África. Foi professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Ufba. Toda sua obra de mais de cem livros e 65 mil negativos, uma biblioteca com quase três mil volumes, um catálogo de 3,5 mil plantas e mais de cem horas de gravações em iorubá, estão à disposição de estudiosos e pesquisadores na fundação que leva seu nome em sua casa, no Alto do Corrupio, Vasco da Gama.


DESENHANDO

O baiano Carybé (1911- 1997), que por acidente nasceu na Argentina, foi desenhista, gravador, pintor, ceramista, escultor, historiador, jornalista, pesquisador, escritor. Em 1938 aportou em Salvador. Deslumbrado, quis ficar. Não foi possível. Mas o desejo de pintar a magia do povo baiano, os rituais do candomblé e as belas paisagens da terra dos orixás falava alto em seu coração. Depois de ter viajado demoradamente pela América do Sul, desenhando e expondo, voltou em 1950 e fixou para sempre na Bahia.


Chegou de vez à terra da mestiçagem, do candomblé e das puxadas de rede que retratou em seus quadros. Aceitou um convite de Anísio Teixeira, no governo de Otávio Mangabeira, para desenhar a Bahia. Através da arte (desenho, aquarelas, aguadas, óleos, talhas, painéis, livros) e através da ação pessoal numa participação cotidiana e criadora na vida popular baiana, tornou-se um dos cidadãos mais eminente da urbe. Em sua obra, ele registrou de maneira expressiva os rituais do candomblé e valorizou as tradições trazidas da África pelos negros.


XILOGRAVURAS

O artista alemão - gravador, escultor, pintor, ilustrador, poeta, escritor, cineasta e professor -
naturalizado brasileiro Karl Heinz Hansen (1915-1978) chegou ao Brasil em 1950 e viveu em São Paulo. Em 1955 ele se mudou para Salvador. Em 1957, ilustra a publicação Flor de São Miguel, com textos de Jorge Amado, Vinicius de Moraes e de sua autoria. No ano seguinte realiza ilustrações para Navio Negreiro, de Castro Alves. Retorna à Alemanha em 1959, lá permanecendo até 1963, enquanto trabalha no ateliê de gravura fundado por ele mesmo no castelo Tittmoning. Vive na Etiópia entre 1963 e 1966, onde ajuda a estabelecer a Escola de Belas Artes da cidade de Addis Abeba. Retorna a Salvador e naturaliza-se, adotando o nome artístico de Hansen Bahia. Em 1959, retornou à Alemanha, onde ficou até 1967, quando foi para a Etiópia. Em 1966 ele voltou à Bahia, de onde não saiu mais, sempre retratando sua gente e vida.


Torna-se professor de artes gráficas da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1967. Muda-se para São Félix, Bahia, em 1970, e lá reside até seu falecimento, em 1978. Dois anos antes de sua morte, doa em testamento sua produção artística para a cidade de Cachoeira, Bahia, onde é criada a Fundação Hansen Bahia, que recebe seu acervo artístico de xilogravuras, matrizes, livros, pinturas, prensas e ferramentas de trabalho.Quando começou sua carreira de xilogravador quase no susto, o autodidata Hansen talvez não imaginasse que se tornaria um dos grandes mestres da técnica.

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24 abril 2015

Democracia sem povo pensante



Democracia, ao da letra, quer dizerpoder do povo, isto  É, soberania e governo do povo(demos). É o princípio de legitimidade que constitui a democracia. Como e em que medida transferir este poder das bases para a cúpula do sistema do poder constituído. Uma coisa é a titularidade, e outra coisa totalmente diferente é o exercício do poder. O povo soberano é titular do poder. De que forma o mesmo povo se torna também capacitado para exercer tal poder?.

Na democracia representativa o povo (demos) exerce o seu poder elegendo alguém  que irá governá-lo. Neste caso não é o povo que decide por si mesmo as saídas, buscando a solução que deve ser dada às questões a serem resolvidas, mas se limita a escolher alguém que vai decidir por ele. No entanto, a democracia representativa não apresenta mais condições satisfatórias, e por isso pedimosmais democracia, implicando, concretamente, doses cada vez maiores de democracia dirigida.

É essencial a distinção entre informação ecompetência cognitiva. Por exemplo, o fato de eu ter conhecimento geral a respeito da situação econômica, isso não me torna um economista, assim também, se eu possuísse algum conhecimento de física, isso não me transformaria num físico. De modo análogo, quando falamos de pessoalpolitizadas, precisamos distinguir entre quem é informado de política e quem é cognitivamente competente para resolver os problemas da política. No Ocidente os indivíduos informados e interessados em política representam entre 10 a 25% do universo populacional, ao passo que os competentes caem para níveis de 2 a 3%.


O cerne da questão é que qualquer maximização do conceito de democracia e qualquer aumento do dirigismo, exige que se aumente o número dos informados e aumente ao mesmo tempo a sua competência, o seu conhecimento e a sua capacidade de compreender a política. Se esta for a caminhada pode resultar em uma democracia potenciada, capaz de fazer mais e melhor do que antes.

O que acontece é que todo o sistema de educação que foi decaindo e amplamente desqualificado de 1968 para cá, e a tevê contribuiu para empobrecer drasticamente a informação e a formação do cidadão. O mundo que nos é proposto pela televisão desativa a nossa capacidade de abstração e, junto com ela, a nossa capacidade de compreender os problemas dos de maneira racional.

Nestas condições, quem invoca e promove um poder democrático que se autogoverna é um trapaceiro deveras sem escrúpulos. E no entanto, é o que está acontecendo. Enquanto a realidade se complica e as complexidades aumentam vertiginosamente, as mentalidades se tornam cada vez mais simplistas e nós estamos criando uma geração tevê que não cresce, um adulto que se configura durante a vida inteira como alguém que volta a ser criança.

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