25 novembro 2014

Cronologia dos personagens de desenho animado (1)



Desenho animado é tudo de bom. Muitos consideram diversão para crianças, mas na verdade, jovens e adultos se deliciam com um bom desenho animado. E cada geração tem seu personagem favorito. Esse trabalho começou a ser feito em 1980, sempre parando para dar lugar as outras atividades. Voltei a acrescentar no ano de 2004 e parei de vez. Listei alguns dos mais importantes e divertidos desenhos. A lista não está completa, nem poderia pois é muito desenho produzido em diversas partes do mundo. Mesmo assim, vale conferir alguns deles. Essa cronologia vai durar alguns meses, então se prepare e boa leitura.(Gutemberg Cruz)

1919 (EUA) – Gato Félix. O desenhista Otto Messmer cria o primeiro desenho animado a ter uma personalidade própria: Gato Félix. Até então, os desenhos se resumiam a uma série de corridas e
lutas. Mas Félix tinha um caráter distinto e seus próprios maneirismos – costumava andar com as mãos atrás das costas quando tinha de resolver um problema, uma mania do próprio Otto Messmer – e caráter. Ele pára, pensa, tentar achar a solução de um problema. As plateias da época tornaram Gato Félix um fenômeno de popularidade. Os filmes tinham, non-sense que encantava, onde os pontos de interrogação que pairavam sobre a cabeça do pensativo Félix se tornavam varas de pescar. Pat Sullivam o produtor, teve a esperteza de registrar o personagem e comercializar a sua imagem em até 200 produtos. Félix foi um ícone dos anos 20. Otto dirigiu 150 curtas preto-e-branco e desenhou Feliz até 1928, quando foi desbancado pelos desenhos falados, e o gato começou a perder terreno para o rato Mickey, de Walt Disney.

1929 (EUA) – Betty Boop. Ela foi criada como uma caricatura das selvagens garotas “flapper”,
jovens independentes que tentavam quebrar regras tradicionais, especialmente no comportamento, maneira de se vestir e liberdade sexual. Combinando inocência e ingenuidade com maturidade, Betty Boop tinha uma imagem de “menina-mulher”. Ela nasceu nos estúdios Fleischer. Eles começaram a trabalhar em uma nova série chamada “Talkartoons”, no episódio chamado Dizzy Dishes como uma cantora de cabaré. A série era representada por cachorros e essa pré-Betty aparecia com longas orelhas e um nariz preto ao lado de seu namorado, o cãozinho Bimbo, que trabalhava como garçom. Em agosto de 1932 com “Stopping the Show” ela fez um inesquecível topless. Seu desenhista era Grim Natwick que mais tarde foi o responsável por dar vida a Branca de Neves, na Disney. O desenhista Natwick que criou a personagem conta que sua ideia era fazer uma charmosa cadelinha de luxo com um belo par de pernas. Seu penteado foi inspirado no da cantora Helen Kane, muito popular nos anos 20. A cantora chegou a processar o Fleischer Studios e a Paramount Pictures, em 1934, alegando que a personagem era uma deliberada caricatura dela. Helen Kane, que então estava fora de moda, exigia US$ 250 mil de indenização. O processo foi um tanto surreal, girando principalmente em torno da frase “boop-oop-a-doop” (pronuncia-se bu-pu-pi-dú), que marcava a personagem e que teria sido usado antes por Heklen Kabne.

Um elemento chave para o sucesso da série, além do charme do desenho, era a trilha sonora. O jazz integrava suas pequenas aventuras. Sua sensualidade causou escândalo nos anos 30. Seus filmes chegaram a ser proibidos em Nova York. Hoje é reconhecida como a primeira personagem de desenhos animados feminina. A batalha judicial contra Helen Kane foi ganha, mas provocou a ira dos conservadores que exigiram mais pano em suas roupas e mais moral em suas histórias. Max Fleischer, dono dos estúdios não resistiu as pressão: a saia da personagem cresceu até ao joelho e o decote sumiu. Bimbo seu parceiro das primeiras aventuras, foi substituído por Pudjy, um inocente cachorro, parceiro para infantis aventuras domésticas. De cantora de night club em respeitável dona da casa Bebby Boo não resistiu, perdeu o charme e a série parou de ser produzida em 1939.

24 novembro 2014

Paixão pela palavra (4)



A canção O Que Será foi vetada pelos censores, segundo documento confidencial do extintoDepartamento Geral de Investigações Especiais (DGIE), órgão de inteligência da Secretaria de Segurança. Os militares acreditavam que a música era um claro exemplo deantagonismo à política militare de incentivo àrevolução para a mudança”, porque, segundo os censores, falava defuturo”, “custo de vida”, “liberdadeepolítica nacional”. No documento sobre a música de Chico, o então diretor do DGIE, delegado Antônio Malfitano alerta ao serviço de inteligência do Exército que as músicas do entãoúltimo discodo cantor, principalmente O Que Será, “estão sendo tocadas com insistência nos ônibus de Niterói e do Rio de Janeiro e em rádios comerciais”. Em folha anexa, também confidencial (datada de 26 de novembro de 1976), Malfitano reproduz a letra da música e, ao lado, suas interpretações.



Para o delegado, oantagonismo à política militarestá na primeira estrofe (que andam suspirando pelas alcovas/que andam sussurrando em versos e trovas...). a referência àpolítica nacionalestá nos versoso que não tem decência, nem nunca terá/ o que não tem censura, nem nunca terá/o que não faz sentido”. É na última estrofe que o diretor do DGIE identifica o incentivo ao que chama derevolução para mudança” (Que todos os avisos não vão evitar/porque todos os risos vão desafiar/porque todos os sinos irão repicar...). O delegado conclui que as três últimas frases da canção (o que não tem governo, nem nunca terá/o que não tem vergonha, nem nunca terá/ o que não tem juízo) sãoo motivo principal para a mudançado regime.

O amor entre mulheres está presente emBárbara”, da peça Calabar (1972) e emMar e Lua” (1980)
onde o tema é tratado com extrema sensibilidade e delicadeza. O amor urgente, reservado, proibido, “pois hoje é sabido/todo mundo conta/que uma andava tonta/grávida de lua/e a outra andava nua/ávida de mar...”. Na segunda estrofe da canção fala da exclusão social a que as duas moças foram submetidas: “E foram ficando marcadas/Ouvindo risadas, sentindo arrepios...”. Oamor proibidoé tratado com infinita delicadeza, sendo a atração que as duas moças reciprocamente sentiam metaforizada através de elementos da natureza (mar e lua), também o presumível suicídio das duas é poetizado. A crua realidade do afogamento no rio da cidade, aquilo que seria o fim (“...e foram correnteza abaixo/rolando no leito/engolindo água/boiando com as algas/arrastando folhas/ carregando flores/a se desmanchar”) transforma-se, sob o signo exatamente daqueles mesmos dois elementos aludidos: virando peixes, conchas, seixos, areia – “prateada areia/com lua cheia/e à beira-mar”.

EmCala a Boca, Bárbara” (1972), uma das mais intensas e delicadas canções eróticas da Literatura Brasileira, os elementos da natureza metaforizam o corpo feminino, e se apresenta uma mulher que é ao mesmo tempo amante e parceira de luta, a guerrilheira. Essa canção integra a peça de teatro Calabarem que Chico Buarque e Ruy Guerra empreendem uma reconsideração do pappel histórico dessa personagem, considerado como o traidor por excelência, na historiografia oficial. Quando a peça se inicia, Calabar morto e esquartejado, executado pelos portugueses que não apenas exigia que seu nome fosse apagado de qualquer registro onde pudesse figurar, como também proibia que seu nome fosse pronunciado. Mas restou sua mulher, Bárbara, que é quem canta a canção, e quem ele está intensamente presente. Ela nunca o chama, nessa canção, pelo nome: Calabar é o ele a que se refere. No entanto, é esse nome que se forma, com espantosa nitidez, como uma constelação, à força da repetição quase obsessiva do refrão: “Cala a boca Bárbara: CALABAR”. O nome de Calabar contém o nome de Bárbara: prisão de amantes apaixonados:

Ele sabe dos caminhos
Dessa minha terra
No meu corpo se escondeu
Minhas matas percorreu,
Os meus rios,
Os meus braços
Ele é o meu guerreiro
Nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai
Cala a boca,
Olha o fogo,
Cala a boca,
Olha a relva,
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Ele sabe dos segredos
Que ninguém ensina:
Onde guardo o meu prazer
Em que pântanos beber,
As vazantes,
As correntes,
Nos colchões de ferro
Ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas estranhas, quantos ais, ai
Cala a boca,
Olha a noite,
Cala a boca,
Olha o frio
Cala a boca, Bárbara....”.
           
É um poema em que o corpo feminino se sobrepõe a imagens da terra: rios, matas, vazantes, enchentes, selva, pântanos. Cada um desses termos pode ser submetido a uma dupla leitura, no registro paisagístico, e no registro erótico. Reagrupados de uma outra maneira (de um lado, matas, selva; de outro, pântanos, correntes vazantes), eles evocam toda uma geografia simbólica do corpo feminino, marcam inequívocas referências (por alusão e/ou analogia) ao sexo da mulher: pêlos, fenda e fonte de umidade.

Referências:

BLANNING, Tim. O Triunfo da Música: a ascensão dos compositores, dos músicos e de sua arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

FAOUR, Rodrigo. História sexual da MPB: a evolução do amor e do sexo na canção brasileira. Rio de Janeiro: Record, 2006.

GOFFMAN, Ken & Dan Joy. Contracultura através dos tempos: do mito de Prometeu à cultura digital. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. 

HOLLANDA, Chico Buarque de. Literatura Comentada. Seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico, exercícios por Adélia Bezerra de Meneses Boll. São Paulo: Abril Educação, 1980.

JULIANO, Carolina. Esses moços, pobres moços. Fim de Semana. Eu& 79. Valor. São Paulo: 1,2,3 e 4/11/2001.

MENESES, Adélia Bezerra de. Figura do Feminino na Canção de Chico Buarque. São Paulo: Ateliê e Boitempo Editorial, 2000.

MENESES, Adélia Bezerra de. Desenho Mágico: poesia e política em Chico Buarque. São Paulo: Ateliê Editorial (2ª edição), 2000.