17 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (9)

O que pode esta língua (2)


Brilhante exercício cerebral e, ao mesmo tempo, uma homenagem à língua, “O Quereres” desenvolve o potencial contrastivo de forma extraordinário. A associação entre língua, na condição de código identificador e organizador da cultura, e erotização, processo de subversão do código em aliança com o sujeito, artífice do discurso, está exposto nos versos de “Língua” (1984): “gosto de sentir a minha língua roçar/a língua de Luís de Camões”. É intencional a ambiguidade, o duplo sentido conferido à palavra língua: código cultural e objeto de sensualidade, de expressão erótica, por onde escoa a face narcísica e redutora do eu. A intermediação das duas esferas é dada pelo verbo “roçar”, como se dois corpos, sob o impulso do desejo, se tocassem, deflagrando a partir daí a cena erótica. Na continuação da canção ele pergunta: “o que quer/o que pode esta língua?”. Pode e quer o que com ela pudermos realizar: liberdade ou escravidão, autonomia ou dependência. Enfim, tornamo-nos sujeitos ou objetos da língua. Ela é o somatório de tudo o que somos e do que abdicamos de ser. A língua está à espera da transgressão, ato de ousadia de quem põe o código a serviço da vontade criadora.

Com a mudança geral nos comportamentos, atitudes e valores decorrentes dos anos 60, surgiram imagens novas sobre a mulher, como por exemplo “a da capa voadora, domadora de leões” (Super-mulher, de Jorge Mautner), ou a Barbarella, de Jorge Ben, entre outras. Tais transformações provocaram a perplexidade como registra Caetano Veloso em “Pecado Original” 

“Todo dia, toda noite, toda hora,
Toda madrugada, momento e manhã
Todo mundo, todos os segundos do minuto
Vive a eternidade da maçã
Tempo da serpente nossa irmã
Sonho de ter uma vida sã.
Quando a gente volta o rosto para o céu
E diz olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro, não
A gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo
Todo beijo, todo medo, todo corpo
Em movimento está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto, todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu
O que fazer com o que Deus nos deu?
O que foi que nos aconteceu?
Quando a gente volta o rosto para o céu
E diz olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro, não
A gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo
Todo homem, todo lobisomem
Sabe a imensidão da fome que tem de viver
Todo homem sabe que essa fome é mesmo grande
E até maior que o medo de morrer
Mas a gente nunca sabe mesmo o que é que quer uma mulher”

O arquiteto e ensaísta Guilherme Wisnik no seu livro Caetano Veloso (da série Folha Explica), o escritor enfrenta o desafio de apresentar Caetano Veloso, considerado uma das mais inexplicáveis personalidades brasileiras -- não apenas por ser um artista polêmico e camaleônico, mas também por se tratar de alguém que não cansou de se auto-explicar ao longo dos seus 40 anos de vida artística. No quarto capítulo dedicado aos discos Transa, Qualquer Coisa, Jóia, Bicho. Muito Cinema Transcendental (Sempre Teso o Arco da Promessa) ele informa: “Toda a política mais afiada, presente no modo como Caetano lê o mundo e o tensiona, passa por uma análise político-econômica das estruturas sociais, ou pelo alinhamento artístico a alguma ´causa´ derivada de injunções ideológico-partidárias, mas por uma estética das relações humanas, cujo motor é essencialmente erótico. Um eros espontâneo e natural – em tudo contrário a uma concepção exótica do sexo e da libido – que se mostra, também, como um éthos, isto é, uma instância de valor capaz de medir conceitos como desenvolvimento e subdesenvolvimento através dos critérios de elegância, originalidade, saúde criativa, competência, dever de grandeza”.

“Cê”, corruptela de “você” que nomeia o disco de Caetano Veloso de 2006 traz imagens corpóreas e sensuais presentes em vários momentos, como na faixa “Deusa urbana”, uma balada que fala em “sexo heterodoxo, lapso de desejo”, ou ainda em “Homem” onde afirma não invejar nas mulheres a maternidade ou a lactação, nem a adiposidade ou a menstruação, mas apenas “a longevidade e os orgasmos múltiplos”. “Eu sou o homem/pele solta sobre o músculo” (...) “Só tenho inveja da longevidade e/dos orgasmos múltiplos”. Em “Outro”, o compositor brinca com o erotismo: “feliz e mau como um pau duro/acendendo-se no escuro”. Tem ainda “Odeio”, música em que todos os prazeres são possíveis (e consumados), porém insatisfatórios (“era o fim, é o fim, mas o fim é demais também”). 

Durante os ensaios para a turnê de "Cê", Caetano compôs "Amor mais que discreto", inspirada em "Ilusão à toa", de Johnny Alf. Nas entrevistas aos jornais, Caetano informou que a letra “fala de um relacionamento entre dois homens, um mais velho e outro mais novo, o que se liga exatamente com a questão de liberação sexual”. Essa abordagem do sexo – como gozo ou frustração – estão presentes também no CD do show e consta a canção que só era apresentada em show. A delicada “Amor Mais que Discreto” nos leva a imaginar um amor improvável, encantamento que não se consume. Eis a letra:

Talvez haja entre nós o mais total interdito
Mas você é bonito o bastante
Complexo o bastante
Bom o bastante
Pra tornar-se ao menos por um instante
O amante do amante
Que antes de te conhecer
Eu não cheguei a ser
Eu sou um velho
Mas somos dois meninos
Nossos destinos são mutuamente interessantes
Um instante, alguns instantes
O grande espelho
E aí a minha vida ia fazer mais sentido
E a sua talvez mais que a minha,
Talvez bem mais que a minha
Os livros, filmes, filhos ganhariam colorido
Se um dia afinal
eu chegasse a ver que você vinha
E isso é tanto que pinta no meu canto
Mas pode dispensar a fantasia
O sonho em branco e preto
Amor mais que discreto
Que é já uma alegria
Até mesmo sem ter o seu passado, seu tempo
O seu antes, seu agora, seu depois
Sem ser remotamente
Sequer imaginado
Por qualquer de nós dois
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

16 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (8)

O que pode esta língua (1)





   
Os professores Ivo Lucchesi e Gilda Korff Dieguez analisam a obra de Caetano Veloso no livro “Caetano. Por que não? (uma viagem entre a aurora e a sombra). “Ninguém sabe mesmo o que quer uma mulher”, já cantou Caetano Veloso. A temática da sedução, o processo contínuo do desejo se materializa na constância do verso “a tua presença”, que perpassa a totalidade do texto apoiado numa estrutura musical de tons e semitons. O desejo detonado pelo olhar (tudo decorre da constatação da presença) é capaz de absorver os sentidos:

“A tua presença
entra pelos sete buracos da minha cabeça
a tua presença
pelos olhos, boca, narinas e orelhas
a tua presença
paralisa meu momento em que tudo começa
a tua presença
desintegra e atualiza a minha presença
a tua presença
envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas
a tua presença
é branca, verde, vermelha, azul e amarela
a tua presença
é negra, negra, negra, negra, negra, negra, negra, negra
negra
a tua presença
transborda pelas portas e pelas janelas
a tua presença
silencia os automóveis e as motocicletas
a tua presença
se espalha no campo derrubando as cercas
a tua presença
é tudo o que se come, tudo o que reza
a tua presença
coagula o jorro da noite sangrenta
a tua presença
é a coisa mais bonita em toda a natureza
a tua presença
mantém sempre teso o arco da promessa
a tua presença”.

A inalterabilidade da melodia sugere um estado de torpor, capaz de imobilizar o próprio corpo e, assim, eternizar a duração do prazer, que, levado ao ponto máximo, paralisa também a palavra. A música se encerra com a repetição enfática de “morena”: (...) “a tua presença/mantém sempre teso o circo da promessa/a tua presença/morena, morena, morena, morena, morena, morena, morena” (1971).
   
“De Noite na Cama” (1974), como o título já evoca, põe em cena a questão do desejo. A rima interna cama/ama sugere que o desejo é de ordem espacial, e, conseqüentemente, determina o ato cuja realização depende do espaço, entendido como instância de expressão do sujeito, e não como “lugar”: “de noite na cama eu fico pensando/se você me ama e quando/se você me ama eu fico pensando/de noite na cama e quando (...)”.

Em “Nosso Estranho Amor” (1986) ele mostra a intensa vivência de um querer capaz de não asfixiar um desejo. Que estranho sentimento é esse cuja origem renega a limitada interação entre os dois – eis a indagação proposta. Ou, por outra, a sobrevivência do amor passaria pela inevitabilidade das traições, a fim de retirar delas o ciúme que iria realimentá-lo: “não quero sugar todo o seu leite/nem quero você enfeite do meu ser/apenas te peço que respeite/o meu louco querer//não importa com quem você se deite/que você se deleite seja com quem for/apenas te peço que aceite/o meu estranho amor///ah! mãeinha/deixe o ciúme chegar/deixa o ciúme passar/e sigamos juntos/ah! neguinha/deixa eu gostar de você/pra lá do meu coração/não me diga nunca não (...)”.    

Já na música “O Quereres” (1984) ele não deseja seguidores, pois queres sempre abrir caminhos sem ter de repartir a vontade. Não se trata de egoísmo, mas de uma estratégia que lhe preserva a liberdade e o impeça de ceder à tentação das concessões, a inevitável consequência dos envolvimentos. Não se fixando, não descambará em mesmices; daí “O (singular) Quereres (plural)”. Apostar no deslocamento é para o eu algo vital, visceral. A chave de sua liberdade:

“onde queres revolver sou coqueiro
e onde queres dinheiro sou paixão
onde queres descanso sou desejo
e onde sou só desejo queres não
e onde não queres nada nada falta
e onde voas bem alta eu sou o chão
e onde pisas o chão minha alma salta
e ganha liberdade na amplidão (...)”.

São as contradições que estruturam a relação eu/outro. Conceder implica aceitar o jogo de dominação, cujo desfecho é o jugo de um sobre o outro: (...) “onde queres família eu sou maluco/e onde queres romântico, burguês/onde queres Leblon sou Pernambuco/e onde queres eunuco, garanhão/e onde queres o sim e o não, talvez/e onde vês eu não vislumbro razão/onde queres cowboy eu sou chinês (...)”.

A luta pelo “infinito desejo” não aceita o confinamento do papel institucionalizado. Quem renuncia a quê? Eis a questão: “e vê só que cilada o amor me armou/eu te quero (e não queres) como sou/não te quero (e não queres) como és”. O que nasce como antítese, na qual os termos são inconciliáveis, termina em conflito insolúvel: (...) “e eu querendo querer-te sem ter fim/e, querendo-te, aprender o total/do querer que há e do que não há em mim”.
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

15 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (7)

Direito ao prazer





Luiz Gonzaga Júnior (1945/1991), o Gonzaguinha foi compositor engajado politicamente, que manifestou em suas letras preocupações sociais e mesmo palavras de ordem contra a política brasileira. Mas suas músicas românticas como Grito de Alerta e Começaria Tudo Outra Vez marcaram época e inovaram a forma de abordar, na canção popular, o amor feminino. Assim, ele emocionou os românticos sem deixar de ser combativo e intransigente com os direitos artísticos e humanos. Ele cantou o amor do ponto de vista feminino como só ele e Chico Buarque sabem fazer, chamando a atenção das mulheres para o direito ao prazer, como em Avassaladora no disco de 1999, Luizinho de Gonzagão Gonzaga Gonzaguinha:

“Avassaladora
senta no seu colo
lambe o pescoço
morde a orelha
enfia a língüa
por entre seus dentes
tomando toda a sua boca
ela é louca
muito louca e,
ele adora sua mão
apertando o que deseja
com calor e com carinho
ensinando o caminho
da loucura
e acabando com
seu medo de não poder
e o macho se solta
se larga, se acaba na
mão da rainha
com todo prazer.
e o macho desmonta
no grito de gozo
na mão da rainha
e desmaia
de tanto prazer”.

Ou mesmo a sensual Infinito Desejo, sucesso na voz de Maria Bethânia:

“Ah, infinito delírio chamado desejo
Essa fome de afagos e beijos
Essa sede incessante de amor
Ah, essa luta de corpos suados
Ardentes e apaixonados
Gemendo na ânsia de tanto se dar
Ah, de repente o tempo estanca
Na dor do prazer que explode
É a vida, é a vida, é a vida, e é bem mais
Esse teu rosto sorrindo
Espelho do meu no vulcão da alegria
Te amo, te quero, meu bem não me deixe jamais
E eu sinto a menina brotando da coisa linda
Que é ser tão mulher
Oh santa madura inocência
O quanto foi bom e pra sempre será
E o que mais importa é manter essa chama
Até quando eu não mais puder”.

Em versos dramáticos ou irônicos Gonzaguinha se expôs, mostrou todas as suas faces numa música feita para ouvir e pensar com esta Sangrando, do disco de 1980, De Volta ao Começo

“Quando eu soltar a minha voz
Por favor entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca
Peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando

Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremer nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça
E emoção

E se eu chorar
E o sol molhar o meu sorriso
Não se espante , cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar

Quando eu soltar a minha voz
    Por favor, entenda
    É apenas o meu jeito de dizer
O que é amar’

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14 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (6)

Paixão pela palavra (4)



A canção O Que Será foi vetada pelos censores, segundo documento confidencial do extinto Departamento Geral de Investigações Especiais (DGIE), órgão de inteligência da Secretaria de Segurança. Os militares acreditavam que a música era um claro exemplo de “antagonismo à política militar” e de incentivo à “revolução para a mudança”, porque, segundo os censores, falava de “futuro”, “custo de vida”, “liberdade” e “política nacional”. No documento sobre a música de Chico, o então diretor do DGIE, delegado Antônio Malfitano alerta ao serviço de inteligência do Exército que as músicas do então “último disco” do cantor, principalmente O Que Será, “estão sendo tocadas com insistência nos ônibus de Niterói e do Rio de Janeiro e em rádios comerciais”. Em folha anexa, também confidencial (datada de 26 de novembro de 1976), Malfitano reproduz a letra da música e, ao lado, suas interpretações.

Para o delegado, o “antagonismo à política militar” está na primeira estrofe (que andam suspirando pelas alcovas/que andam sussurrando em versos e trovas...). Já a referência à “política nacional” está nos versos “o que não tem decência, nem nunca terá/ o que não tem censura, nem nunca terá/o que não faz sentido”. É na última estrofe que o diretor do DGIE identifica o incentivo ao que chama de “revolução para mudança” (Que todos os avisos não vão evitar/porque todos os risos vão desafiar/porque todos os sinos irão repicar...). O delegado conclui que as três últimas frases da canção (o que não tem governo, nem nunca terá/o que não tem vergonha, nem nunca terá/ o que não tem juízo) são “o motivo principal para a mudança” do regime.

O amor entre mulheres está presente em “Bárbara”, da peça Calabar (1972) e em “Mar e Lua” (1980) onde o tema é tratado com extrema sensibilidade e delicadeza. O amor urgente, reservado, proibido, “pois hoje é sabido/todo mundo conta/que uma andava tonta/grávida de lua/e a outra andava nua/ávida de mar...”. Na segunda estrofe da canção fala da exclusão social a que as duas moças foram submetidas: “E foram ficando marcadas/Ouvindo risadas, sentindo arrepios...”. O “amor proibido” é tratado com infinita delicadeza, sendo a atração que as duas moças reciprocamente sentiam metaforizada através de elementos da natureza (mar e lua), também o presumível suicídio das duas é poetizado. A crua realidade do afogamento no rio da cidade, aquilo que seria o fim (“...e foram correnteza abaixo/rolando no leito/engolindo água/boiando com as algas/arrastando folhas/ carregando flores/a se desmanchar”) transforma-se, sob o signo exatamente daqueles mesmos dois elementos aludidos: virando peixes, conchas, seixos, areia – “prateada areia/com lua cheia/e à beira-mar”.

Em “Cala a Boca, Bárbara” (1972), uma das mais intensas e delicadas canções eróticas da Literatura Brasileira, os elementos da natureza metaforizam o corpo feminino, e aí se apresenta uma mulher que é ao mesmo tempo amante e parceira de luta, a guerrilheira. Essa canção integra a peça de teatro Calabar – em que Chico Buarque e Ruy Guerra empreendem uma reconsideração do pappel histórico dessa personagem, considerado como o traidor por excelência, na historiografia oficial. Quando a peça se inicia, Calabar já morto e esquartejado, executado pelos portugueses que não apenas exigia que seu nome fosse apagado de qualquer registro onde pudesse figurar, como também proibia que seu nome fosse pronunciado. Mas restou sua mulher, Bárbara, que é quem canta a canção, e quem ele está intensamente presente. Ela nunca o chama, nessa canção, pelo nome: Calabar é o ele a que se refere. No entanto, é esse nome que se forma, com espantosa nitidez, como uma constelação, à força da repetição quase obsessiva do refrão: “Cala a boca Bárbara: CALABAR”. O nome de Calabar contém o nome de Bárbara: prisão de amantes apaixonados:

“Ele sabe dos caminhos
Dessa minha terra
No meu corpo se escondeu
Minhas matas percorreu,
Os meus rios,
Os meus braços
Ele é o meu guerreiro
Nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai
Cala a boca,
Olha o fogo,
Cala a boca,
Olha a relva,
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Ele sabe dos segredos
Que ninguém ensina:
Onde guardo o meu prazer
Em que pântanos beber,
As vazantes,
As correntes,
Nos colchões de ferro
Ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas estranhas, quantos ais, ai
Cala a boca,
Olha a noite,
Cala a boca,
Olha o frio
Cala a boca, Bárbara....”.
   
É um poema em que o corpo feminino se sobrepõe a imagens da terra: rios, matas, vazantes, enchentes, selva, pântanos. Cada um desses termos pode ser submetido a uma dupla leitura, no registro paisagístico, e no registro erótico. Reagrupados de uma outra maneira (de um lado, matas, selva; de outro, pântanos, correntes vazantes), eles evocam toda uma geografia simbólica do corpo feminino, marcam inequívocas referências (por alusão e/ou analogia) ao sexo da mulher: pêlos, fenda e fonte de umidade.


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11 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (5)



Paixão pela palavra (3)

A relação de poder à base do fenômeno da prostituição se evidencia em “Folhetim” (1977/8). Focaliza a figura da prostituta que oferece os seus encantos – “Se acaso me quiseres/sou dessas mulheres/que só dizem sim...” feita para uma personagem da “Ópera do Malandro” que inclui também “O Meu Amor” e “Geni e o Zepelim”. A mulher vai manipular o homem, ludibriando-o com meras verdades, e finalmente descartando-o: “E eu te farei as vontades/Direi meias verdades/Sempre à meia-luz/E te farei, vaidoso, supor/Que és o maior e que me possuis//Mas na manhã seguinte/Não conta até vinte/Te afasta de mim/Pois já não vales nada/És página virada/Descartada do meu folhetim”.

Mas a festa dionisíaca, a grande canção visionária e utópica, em que surge, com força e intensidade, o Eros do povo, uma explosão em que o erótico e o político convergem num mesmo movimento liberador cósmico está nesta canção: “O que será que será/ Que vive nas idéias desses amantes/ Que cantam os poetas mais delirantes/ Que juram os profetas embriagados/ Está na romaria dos mutilados/ Está na fantasia dos infelizes/ Está no dia-a-dia das meretrizes/ No plano dos bandidos, dos desvalidos/ Em todos os sentidos/Será que será...”

Chico Buarque capta o recado das vozes que sussurram na noite de uma realidade desconhecida, nas alcovas, no breu das tocas, nos botecos, nos mercados: as duas canções que recebem o nome de O Que Será (À Flor da Pele e À Flor da Terra) sugerem a convergência do erótico e do político, subordinados a um só princípio. O que será, que não tem descanso nem cansaço, esse inominável; que se recorta no avesso do princípio de realidade (limite, sentido, certeza, tamanho, governo, censura, decência, vergonha), realidade, que fica pairando como uma fantasmagoria castradora sobre a expansão da energia, ou, como chamá-lo?, libido, desejo, vontade de contato, amor. A poesia/música de Chico, esse artesão habilíssimo, capta a entranha sensível, e por isso é tão fina para o erótico, o social e o feminino. 

A letra trata daqueles que estão fora da esfera do poder, excluídos da vida econômica. Tanto os amantes, poetas, profetas (seres que habitam o mundo da fantasia) como os marginais. Excluída da esfera da produção, alijada do mundo do poder: eis o lugar social da mulher na sociedade patriarcal:

“O que não têm decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos irão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno, que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar
O que não têm governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo” (O Que Será – À Flor da Terra – 1976).
   
“Isso” de que ele fala e que canta, nunca é nomeado. Não tem nome, não tem vergonha, “o que será que será?”. A existência de proibições e/ou punições a algo que seria puramente natural torna-se aquilo de que se deve ter vergonha. Aquele “inferno” que é preciso coibir, refrear, ocultar, disfarçar. Como escreveu o escritor Bataille, o sexo, nos humanos, é erotismo e este é impossível sem as interdições e as transgressões.

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10 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (4)

Paixão pela palavra (2)


E Chico faz um convite ao abandono de uma atitude repressiva (a volta ao útero materno: o “regaço”), e o apelo erótico contido no brincar no fogo. Contra a repressão da procura da segurança – que, no limite, é a atração por Tânatos – a proposta vital (apesar dos riscos) de Eros, é este “Bom Conselho” (1972) que dá o poeta: “Deixe esse regaço/Brinque com o meu fogo/Venha se queimar”.

Feita para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, a canção “O Que Será” tem três versões, que marcam passagens diferentes da trama: “Abertura”, “À Flor da Pele” e “À Flor da Terra”. Cantada no filme por Simone, a versão “À Flor da Terra” alcançou grande sucesso na gravação de Chico Buarque e Milton Nascimento, que abre o elepê “Meus Caros Amigos”. Mais tarde Chico cantou no disco de Milton, “À Flor da Pele”. 

As canções de Chico Buarque tematizam a mulher e seu desejo. Ele sempre foi reconhecido como um dos poetas que mais sensivelmente captam o feminino e o exprimem, traduzindo-o em palavras e música. Um estudo temático das letras que modulam o feminino é a proposta do livro da professora Adélia Bezerra de Menezes, “Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque”.

“Dentro da fêmea Deus pôs/Lagos e grutas, canais,/Carnes e curvas e cós/Seduções e pecados infernais/Em nome dela, depois/Criou perfumes, cristais/O campo de girassóis/E as noites de paz” (Tororó, 1988). São imagens de alta intensidade sensorial. Ou mesmo à explicitez ousada de “O Meu Amor” (1977): “O meu amor/Tem um jeito manso que é só seu/De me deixar maluca/Quando me roça a nuca/E quase me machuca com a barba malfeita/E de pousar as coxas entre as minhas coxas/Quando ele se deita, ai”.

Uma disputa entre duas mulheres que amam o mesmo homem as exibe medindo o grau de envolvimento amoroso pelo critério exclusivo do prazer físico proporcionado pelo amado. Canta uma delas:

“O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele inteira fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh’alma se sentir beijada, ai”.

E a outra:

“O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai”.

Mas as duas mulheres se encontram no refrão:
‘‘Eu sou sua menina, viu?
E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha
Do bem que ele me faz”.
   
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09 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (3)




Paixão pela palavra (1)

No seu primeiro estudo da obra do poeta, Adélia Bezerra de Meneses (“Desenho Mágico: poesia e política em Chico Buarque) informa que “Chico revela uma paixão pela palavra, que ele trata quase sensorialmente; pela palavra que, nele, é instrumento de magia. Pois Chico é um alquimista verbal (...). Para ele, a palavra guarda sempre um valor de música: vira canção. E na canção – palavra cantada – mais do que na poesia, ela é corpo: modulada pela voz humana, portanto carregada de marcas corporais; carregada de valor significante. A canção é isso: ligação de sema e soma  (sema = signo; soma= corpo) no belo trocadilho que o grego oferece”.
   
Esse poder de lidar com as palavras foi um dos motivos de ele ter sido tão visado pela censura nos anos 70: a ausência de liberdade em “Apesar de Você” (1970), a existência alienada em “Deus lhe Pague” (1971), o desejo reprimido em “Quando o Carnaval Chegar” (1972) e, de parceria com Gilberto Gil, “Cálice”, o limite da repressão e da censura levará ao silencio: Cálice/Cale-se (1973) foram algumas das mais significativas canções proibidas. Com a “desrepressão” política, a partir de 1979, há uma liberalização no nível da censura moral, e começa a haver o tratamento de temas até pouco tempo tabus no âmbito da canção popular: a prostituição (“Viver do Amor”, “Mambordel”), a bissexualidade (“Geni”), o amor lésbico (“Mar e Lua”) etc.

Na canção “Festa Imodesta”, Caetano Veloso faz uma homenagem a Chico, o compositor popular que malandramente utiliza a “linguagem da fresta” para dar o seu recado (“Numa festa imodesta como esta/vamos homenagear(...)/tudo aquilo que o malandro pronuncia/que o otário silencia/toda festa que se dá ou não se dá/passa pela fresta da cesta e resta a vida”). Nesse contexto de repressão, se instaura toda uma semântica de repressão: boca calada, realidade morta, mentira, força bruta, palavra presa na garganta, peito calado (Calice); amor reprimido, grito contido, gente falando de lado e olhando pro chão (Apesar de Você); alegria adiada, abafada (Quando o Carnaval Chegar).

Esse artesão habilíssimo lê as entranhas dos homens e, sensível, capta o erótico, o social e o feminino. Seu poder de lidar com a palavra faz dele um instrumento de desvendar a realidade, de romper o silêncio. O canto do amor físico, da “paixão dos sentidos” -- o amor enquanto linguagem do corpo, mostrado a propósito de uma disputa entre duas mulheres que amam o mesmo homem e medem o grau de envolvimento amoroso pelo critério do prazer (O Meu Amor) ou a proposta de uma explosiva liberação erótico-política na grande canção utópica “O Que Será” (“...não tem certeza, nem nunca terá/O que não tem conserto, nem nunca terá/O que não tem tamanho”). Tudo que é recalcado, reprimido, emerge à flor da terra, da pele. E o coração reerotizado que se deixa emocionar vitalmente, se deixa apaixonar é a proposta presente em “O Que Será – À Flor da Pele”:

“O que será que me dá
que me bole por dentro,
será que me dá
que brota à flor da pele,
será que me dá
e que me sobe às faces
e me faz corar(...)
o que me aperta o peito
e me faz confessar
o que não tem mais jeito de dissimular
e que nem é direito ninguém recusar
e que me faz mendigo,
me faz suplicar,
o que não tem medida,
nem nunca terá
o que não tem remédio,
nem nunca terá
o que não tem receita”
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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

08 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (2)




O goliardo desapareceu no século XIII, mas seus ideais não saíram dos conventos e dos mosteiros, de imediato. Alguns de seus admiradores foram recolhendo e guardando secretamente tudo o que era obra goliarda. A primeira delas foi localizada em Munique, Alemanha. Os manuscritos datavam do século XII e procedia da Abadia Beuron, daí a denominação Burana. Carmina Burana é Canções dos Beurens, Bávaros, naturais da Baviera. A obra abrange diversos estilos, misturando textos sacros com cantos de amor. Pesquisador e apaixonado pelo Carmina dos goliardos, Carl Orff foi extraindo de vários daqueles textos latinos medievais algumas poesias e compondo a cantata cênica, Carmina Burana. 

Como uma antologia, Carmina Burana apresenta tudo o que o mundo cristão entre os séculos XI e XII fora capaz de exprimir. Aquela época não foi secionada como a nossa nem inibida pelos nossos tabus. Assim, os autores anônimos dessas “saturnálias” (festas cheias de orgias dedicadas ao deus Saturno) escritas não temiam espalhar a chama incandescida pelo contato de uma melodia litúrgica e uma blasfêmia. Nesse sentido, a coleção original restaura para nós um tempo onde o bem não existe sem o mal, o sacro sem o profano e a fé sem maldições e dúvidas: a oscilação onde se encontra a grandeza da Humanidade.

Seja qual for nossa opinião sobre as letras e músicas dos cantores atualmente, a capacidade deles de sensibilizar seu público é inegável. Mas estamos no século da modernidade líquida como estudou o polonês Zygmunt Bauman onde estamos condenados a mudar obstinadamente, carregando e reprocessando incertezas

“A estreitas associação entre música e sexo é tão velha quanto o tempo. Então vários outros marcos ao longo do caminho, uma das primeiras óperas de todos os tempos – L´incoronazione di Poppea, de Monteverdi (1642) – é uma obra extremamente erótica. O mesmo ocorre com as óperas de Mozart, embora poucos diretores modernos pareçam perceber isso. Tanto o texto como a música de As Bodas de Fígaro, por exemplo, deixam claro que ´o dia maluco´ se encerrará com várias cópulas: Fígaro e Suzana, Querubin e Barbarina, o conde e a condessa, até Bártolo e Marcelina.

O primeiro ato de As Vásquírias (a segunda parte da tetralogia do Anel) se encerra com Siegmund e Sieglinde, irmão e irmã, prestes a fazer sexo. Ou mesmo a depressão pós coito no segundo ato de Tristão e Isolda, de Wagner

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A Fonte das Mulheres



A pequena aldeia, assombrada pela seca, o desemprego e a corrupção das autoridades locais - que atrasam a instalação da água encanada e da eletricidade - sobrecarrega de trabalho pesado suas mulheres. Sempre levando baldes nas costas, ladeira acima, ladeira abaixo, várias delas, grávidas, perdem os filhos. Depois de um novo aborto de uma delas, a jovem Leila (a atriz Leila Bekhti, de "O profeta"), uma das raras mulheres que sabe ler, lidera uma greve de sexo, procurando forçar os homens locais a se mexerem para resolver os problemas do povoado.

Muitos dos maridos não aceitam a “rebeldia” feminina, já que estão acostumados com uma estrutura tradicionalmente patriarcal, que leva em conta também os preceitos islâmicos. E aqueles que se mostram tolerantes passam a ser hostilizados pelos mais velhos do grupo. Usando canções e muitas cores para retratar esse embate que, de forma microscópica, retrata questões de diversos países do mundo, o filme é uma ótima oportunidade para saber do assunto sem, necessariamente, se encarar um pesado drama.

Não estou escrevendo sobre o longo período de estiagem da Bahia (algo bem parecido acontece) mas sim sobre o filme do diretor romeno Radu Mihaileanu ("O concerto", "Trem da vida"), A Fonte das Mulheres. Coproduzido pela França, Bélgica e Itália, o filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2011. A trama que evoca a peça grega "Lisístrata", de Aristófanes, tem outros desdobramentos. Um deles é como se dividem as reações masculinas ao inusitado protesto, num contexto nitidamente machista e conservador.

Como era de se esperar, as autoridades religiosas intervêm, o que dá margem a uma animada discussão sobre aquilo que está ou não previsto no Alcorão. Como em qualquer religião, tudo depende das interpretações, que viajam ao sabor da conveniência de quem se habituou a ser sempre amo e senhor e não quer ver o fim desse estado de coisas.

Mesmo entre as mulheres, as opiniões se dividem. Ainda que tratando de temas sérios, o tom grave é quebrado pelo formato musical. Usando canções, injeta-se um bem-vindo humor em inúmeras situações. A fita ainda lança uma luz diferente sobre a cultura muçulmana, quebrando o molde monolítico que o fundamentalismo procura fazer crer que seja a sua única voz e expressão. Diante das sucessivas rebeliões recentes no mundo árabe (Egito, Tunísia, Síria), o filme ganha ainda mais interesse e atualidade.

Através do bom humor e do questionamento de suas tradições, “A Fonte das Mulheres” em momento algum desrespeita os costumes, apenas os questiona. E o cineasta Radu Mihaileanu  mantém a qualidade da sua filmografia. Vale a pena conferir!

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

07 maio 2012

Música & sexo, uma relação muito estreita (1)

Certas músicas produzem melancolia e tristeza, outras despertam alegria, outras, ainda, entusiasmo. A música, portanto, é criadora de estados de alma, os quais fazem nascer ideias correlatas em nossas mentes. A arte e a música dos primeiros povos civilizados estavam relacionadas à religião ou ao Estado. Os filósofos gregos davam à música um importante papel na educação e formação dos jovens. Aristóteles prevenia que “pelo ritmo e pela melodia nasce uma grande variedade de sentimentos” e que “a música pode ajudar na formação do caráter”. Em seu diálogo República, Platão adverte que a música forma ou deforma os caracteres de modo tanto mais profundo e perigoso quanto mais inadvertido. A maior parte das pessoas não percebe que a música tem o poder de mudar o coração dos homens, e que assim, pouco a pouco, molda a sua mentalidade. Mudando as mentalidades, a música termina por transformar os costumes, o que determina a mudança das leis e das próprias instituições.

Uma das principais funções da música nas sociedades primitivas era deliberar os rituais de sexo e fertilidade. Segundo Darwin, a fala humana não antecedeu a música, mas derivou dela. O canto, para Darwin, era um dos meios de atração e “galanteio” com vistas ao acasalamento e a fala não teria vindo depois, como um desenvolvimento disciplinado daquela linguagem sexual, aplicada à comunicação entre as pessoas. Assim, a música seria o código de comunicação por excelência, e a fala não passaria de um derivado desse código, sua versão amenizada para fins de organização social.

Platão insiste no poder insinuante da música de agir sem ser percebida, a ponto de conseguir destruir ou revolucionar uma sociedade. Toda arte utiliza símbolos para exprimir idéias. A música é uma arte e exprime idéias através de símbolos sonoros. Esta capacidade de transmitir idéias que levou todos os movimentos históricos a se exprimirem com músicas. A Revolução Francesa, por exemplo, exprimiu seus ideais na “Marselhesa”.

No período da Idade Média, a música religiosa e erudita predominava sobre a música profana e popular. Com o entusiasmo pelas Cruzadas e aventuras dos cavaleiros andantes e guerreiros, o povo criava e cantava suas próprias canções. Surge o canto popular como meio de diversão. Assim, a música popular desvinculou-se da música religiosa e seus ideais da poesia, da pintura e de outras artes. Surgia, então, a música profana, a que opõe-se à religiosa, não possui qualidades sacras, feitas para ser ouvida fora da igreja. Seus temas são o amor, a natureza, os costumes e o povo. Surgia daí os trovadores e menestréis (ou jograis). Os trovadores pertencem à nobreza e dedicavam à música e à poesia enquanto que os menestréis eram cantores ambulantes e contadores de histórias.

No final do século XI surgem os menestréis, os trovadores, os jograis que vão dando forma as primeiras músicas, tidas como profanas, uma vez que fugiam ao estilo religioso. Nesse período atuavam os goliardos, homens eruditos com formação artística adquirida nos conventos, principalmente na literatura e na música. Ao deixar os conventos, passaram a peregrinar pelos quatro cantos da Europa, explorando seus vastos conhecimentos, criando canções, geralmente dedicadas ao amor, à bebida e ao jogo.

Suas obras eram conhecidas como Carmina, plural neutro da palavra latina Carmen (em latim, significa canção, poema). Pelo teor pagão, obsceno, imoral, provocativo de suas obras, os goliardos não poderiam passar impunes ante os olhares da burguesia feudal, da elite dominante. As críticas contundentes, cheias de libertinagem dificilmente seriam esquecidas pela Igreja que desde o início do século XIII começara uma rigorosa perseguição a eles, considerando-os, muitas vezes, sem julgamento.

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04 maio 2012

Pastinha, o menino que virou Mestre de capoeira



Era uma vez....um menino mulatinho, esperto e miúdo nascido no Pelô que, depois de muito brincar e brigar na rua, tornou-se o maior de todos os mestres da Capoeira Angola da Bahia. O nome desse menino virou lenda, mundo afora, mas a história de Mestre Pastinha é real e está contada, tintin por tintin no livro Pastinha, o menino que virou Mestre de capoeira, escrito pelo jornalista José de Jesus Barreto e ilustrado pelo artista Cau Gomez.

Vicente Ferreira Pastinha foi o maior capoeirista do país. Nasceu no dia cinco de abril de 1889, e morreu em 13 de novembro de 1981, cansado, cego e doente. Mas o seu saber continua forte, no corpo e no aprendizado de seus discípulos, muitos famosos como Jorge Amado, Carybé, e outros que se dedicaram à capoeira para dar continuidade à obra do velho mestre, iniciada em uma academia no Largo do Pelourinho, em Salvador, em 1935.

Pastinha costumava dizer que nascera predestinado a uma missão: lutar capoeira. “Guardião da capoeira de Angola”, como o intitulava Jorge Amado, “elemento conservador e esteio da genuína luta/dança dos escravos” na observação de Carybé, ou simples personagens das ladeiras históricas e da vida sofrida do Maciel e Pelourinho.

Mestre Pastinha aprendeu capoeira com seu vizinho, Benedito, aos oito anos de idade. Foi marinheiro, alfaiate, marceneiro,pedreiro, carpinteiro em sobretudo, capoeirista. Ele tirou literalmente a capoeira da lama na época em que “era vergonha andar de berimbau na mão”.

Barreto já havia escrito o livro Pastinha, o Grande Mestre da Capoeira Angola, da série Gente da Bahia, editado pela Assembleia Legislativa, em parceria com Otto Freitas. O livro fez sucesso. Não havia nada escrito sobre Pastinha. Agora a editora Solisluna lança essa obra belíssima dirigida ao público infanto juvenil.

Barretinho conta a trajetória do pequeno garoto a vadiar pelas ruas do Pelô, jogando bolinha de gude, empinando arraia e brigando com outros meninos. Como era mirradinho, sempre levava o pior mas não baixava a cabeça diante das provocações dos garotos mais velhos. O ex-escravo Benedito lhe ensinou a jogar capoeira. “Aprendi que o bom capoeirista fica no canto, quieto, calado...porque, na capoeira, a surpresa é fundamento”.

Na época a capoeira era considerada uma atividade de marginais, mas com muita dificuldade Pastinha seguiu em frente, formou seus primeiros alunos, liderou suas rodas e até ensinou mulheres como Maria Homem, Julia Fogareira e muitas outras.

Ricamente ilustrada pelo premiado Cau Gomez que fez uma verdadeira obra prima, o livro conta o significado dessa perfeita coordenação de movimentos do corpo que o capoeirista executa, da ginga, do jogo, da sonoridade do berimbau dos golpes da luta – meia lua, bananeira, aú, cabeçada, rabo de arraia e muitos outros.

As ilustrações criativas de Gomez, o texto encantado de Barreto e a edição primorosa da Solisluna fazem dessa obra uma pérola que vale a pena conferir: Pastinha, o menino que virou Mestre de capoeira!

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03 maio 2012

Fanzineiros do século passado


Seguindo à risca a ideia do “faça você mesmo” (do it yourself), os fanzines sobrevivem graças ao caráter mutante, híbrido. Folha de papel A4 dobrada ao meio, pesquisa (revista, jornais), tesoura, cola, lápis, caneta, grampeador, pincel, tinta e muita força de vontade. Tudo pronto leve até a xérox mais próxima, rode umas cópias em preto e branco e pronto! O ritual dessas publicações artesanais entre os anos 1960 a 1990 representaram a maneira mais rápida, prática e descolada de fazer circular conteúdos de cenas alternativas e marginais (à margem) da sociedade.

Primeiro eles foram reproduzidos em copiadoras ou impressoras e distribuídos de mão em mão, uma correria. Hoje vem por meio de arquivos digitalizados em PDF e enviados via e-mail ou postado em algum site ou blog. Na época em que não existiam myspaces, soundclouds, os fanzines e bandas independentes eram unha e carne: um dependia do outro. A banda para divulgar seu trabalho e os zaines para rechear suas páginas. Relação de amor e ódio, tapas e beijos.

Para os leitores mais novos, é bom lembrar que no dia 25 de setembro de 1968, a Bahia começou a participar do movimento fanzineiro de estudo das histórias em quadrinhos com a fundação do Clube da Editora Juvenil, assim denominado em homenagem aos primeiros gibis juvenis. Junto com alguns jovens resolvemos difundir o hábito de ler e analisar os quadrinhos no Brasil. Lançamos nossas pesquisas no fanzine Na Era dos Quadrinhos. Foram publicados 37 números: de julho de 1970 a julho de 1973, na sua primeira fase em mimeógrafo. Foi com o Na Era que surgiram as primeiras manifestações conscientes no sentido de se construir HQ autenticamente nacional - e popular. Depois, o quadrinho baiano tomou fôlego com o surgimento do tablóide A Coisa, do jornal Tribuna da Bahia. A Coisa foi um seguimento natural do Na Era e tinha como meta principal “uma maior valorização do autor brasileiro e em particular baiano”. “Pretendemos também – dizia o editorial -, divulgar e abrir novas perspectivas aos humoristas e desenhistas que ainda não tiveram oportunidade de publicar seus trabalhos”. Em pouco tempo o suplemento revelou novos cartunistas e desenhistas de quadrinhos.

ORIGEM

O fanzine tem origem no início do século XX. Irmão mais novo (e mais rebelde) da imprensa, é co-autor de transformações culturais das décadas de 1920 (que sedimentaram a indústria dos quadrinhos) e 1970 (quando foi porta-voz do punk). Ganhou popularidade entre os anos 70, 80 e 90 graças a uma série de ações que se desenvolveram na cena cultural brasileira. A demanda era a mesma suprida hoje por blogs, redes sociais e outras plataformas virtuais de comunicação: expor o que se passa na cabeça e conhecer pessoas. Enfim, conectar-se.

Vinculado, adaptado, transmutado, o zine não morreu, reinventou-se. Livre (especialmente da obrigação de gerar lucro) o veículo goza do privilégio de poder ser mutante, híbrido, múltiplo.

O jornalista Márcio Sno editou, colaborou com diversos fanzines nos anos 1990 (os fanzines Aaah!!, Don´t Worry!, Ejaculação Precoce, Lady Die! - todos de cultura underground geral) e fez ilustrações para inúmeras bandas e fanzines. A partir de 2000 coordenou diversas oficinas de fanzines e em 2007 lançou a cartilha Fanzines de Papel, referência para pesquisas na área de comunicação.

Para mostrar o universo dos fanzineiros brasileiros, que faziam de tudo (até burlar leis) para fazer circular determinada informação ou simplesmente por estarem fartos de tudo que era padronizado, Marcio Sno produziu o documentário Fanzineiros do Século Passado.

DOCUMENTÁRIO

A primeira parte do documentário em seu primeiro capítulo mostra as dificuldades para botar o bloco na rua e a rede social analógica. O foco desse capítulo ficou nos contatos via carta (que constituiu uma sólida rede social analógica), nos flyers que divulgavam fanzines por todo o mundo, a montagem artesanal, e as dificuldades para colocar os zines pra circular.

O documentário era pra ser uma obra única, mas à medida que Márcio foi entrevistando os editores percebeu que esse universo das edições independentes comporta várias nuanças, sendo praticamente impossível abordar todos os seus aspectos de forma consistente numa única produção. A divisão em capítulos foi a solução. O segundo volume do documentário é parte de uma trilogia que se pretende abrangente sobre o fandom brasileiro.

O segundo capítulo de Fanzineiros do século passado se apresenta no formato de fanzine + DVD (com os dois capítulos + erros de gravações + trailer), tudo isso ao preço de R$8,00. Um presente para os aficionados e pesquisadores de fanzines e uma excelente oportunidade de conhecer essa gente que faz da editoração um objeto de prazer.

O capítulo dois intitulado O fanzine a serviço do rock, os fanzineiros deste século e os estímulos para a produção impressa conta com a participação de 49 personalidades do universo independente e alternativo, entre eles Henrique Magalhães, Marcatti, Gualberto Costa,. Rodrigo Knoeller, Edgar Guimarães, Wendell Sacramento e Rodrigo Okuyama. Mostra a relação dos zines com o rock com trilhas das bandas dos anos 90: Mukeka de Rato, Sex Noise, Os Cabeloduro, Grangrena Gasosa, Dead Fish e Concreteness. Um registro importante, inédito e com qualidade. Vale a pena conhecer!

Para adquirir o documentário, escreva a
Márcio Sno: marciosno@gmail.com
Mais detalhes da obra acesse:

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