20 março 2012

Personagens com identidade brasileira nos quadrinhos (2)

O português Rafael Bordalo Pinheiro criou em 1878 para O Psitt!! o personagem Fagundes com pescoço longo, alentadas suíças, cenho e sobrolho franidos, em concentração, personificando o político falastrão e medíocre, alusivo aos deputados brasileiros. Trata-se do porta-voz da mediocridade politica brasileira, Fagundes, uma espécie de barriga travestida de deputado, de governante, de fura vidas na politiquice. Mas o personagem de maior popularidade, nas brechas do campo para a cidade é o Zé Caipora, de Angelo Agostini, que seria por algum tempo o personagem característico do Brasil agrário. Surge na Revista Ilustrada, em 1884, reaparece no Don Quixote, em 1901, e, novamente, em O Malho, em 1904.

O italiano Voltolino traria do imaginário popular a figura do Saci, personagem porta-voz da Revista Caipira em São Paulo. Voltolino praticamente pôs em cena a morfologia social da cidade ao valer-se dos esquecidos mas efetivos representantes sociais: o tocador de realejo, o pequeno jornaleiro, a baiana com o tabuleiro de quitutes repleto de Lacta e Guaraná. De 1910 aos anos 20, Juó Bananére foi uma figura popular na cidade de São Paulo. Criação de Voltolino, a personagem já encarna a imagem do ítalo paulista: gorducho, baixo, com vastos bigodes, espalhafatoso. Desempenha funções distintas como tocador de realejo, barbeiro etc. Juá Bananére é um homem do povo, transparente em suas atitudes, que fala claramente muitas verdades, sem eufemismos, de modo incisivo e direto. O personagem (porta voz do Bexiga, ou melhor, da colônia italiana de São Paulo) exerceu influências nas publicações humorísticas, nos programas de rádio e na música popular.


No dia 11 de outubro de 1905 a editora O Malho lançava a revista Tico Tico, que viria a ser o marco inicial das publicações dedicadas às crianças no Brasil. Além de publicar os quadrinhos norte americano, a revista lançou muitos personagens genuinamente brasileiros como Chico Farófia e Tinoco o caçador de feras (Théo), Reco Reco, Bolão e Azeitona (Luis Sá), Pandareco, Pára-choque, Cachimbau (Max Yantok), Jujuba, Carrapicho e Lamparina Macaco e Faustina (Alfredo Storni), Bolinha e Bolonha (Nino Borges), Pernambuco o Marujo (Belmonte) etc. A tiragem inicial era de 21 mil exemplares. Com o sucesso, logo chegaria a 30 mil, na 11ª edição. A revista trazia já nos primeiros números quatro páginas em cores, sendo as demais com impressão monocromática, em tom de vermelho, azul ou verde, em vez de preto. Era uma publicação que reunia diversas expressões culturais, com ênfase na literatura, mas que abria um generoso espaço para os quadrinhos, arte que começava a se firmar no país. (J.Carlos),


O Tico-Tico (1905-1962) foi a única revista dedicada às crianças brasileiras, e lhes dava tudo: histórias, adivinhações, prêmios, páginas de armar e, principalmente, aventuras. Um dos personagens mais queridos da revista era tida como brasileiro, mas teve sua origem nos Estados Unidos. Chiquinho, seu cãozinho Jagunço e a garota Lili eram, na verdade, uma cópia de Buster Brown, Tige e Mary-Jane, de Richard Outcault, autor do também conhecido Yellow Kid, ou Garoto Amarelo. Com a Primeira Guerra Mundial, quando os quadrinhos norte-americanos deixaram de chegar ao Brasil, o personagem ganhou ainda mais brasilidade. Emprestaram seu

traço ao encapetado guri os desenhistas Luís Gomes Loureiro, Augusto Rocha, Paulo Affonso, Alfre

do Storni, seu filho Osvaldo Storni e Miguel Hochman.

Aliás, coube a Luís Gomes Loureiro a tarefa de adaptar Buster Brown para a realidade brasileira, situando-o no ambiente local e dando-lhe um lastro de cultura nacional. Um de seus grandes méritos foi a criação da personagem Benjamin, que acompanhava as aventuras do protagonista. Benjamin, que estreou em 1915, era um moleque negro inspirado num criado da casa de Loureiro. Nas palavras do próprio autor, em entrevista concedida à Revista da Semana, em 31 de março de 1945, o terrível infante tinha os plano mais demolidores para as molecagens da turma, o que levava Chiquinho a temer que as ideias do negrinho dessem na clássica surra de escova com que o pai coroava sempre as suas aventuras.


Chiquinho tornou-se um personagem muito querido dos leitores de O Tico-Tico. Uma prova inconteste de sua adaptação à realidade brasileira é que, mesmo depois da morte de Outcault e do desaparecimento de Buster Brown, ele continuou sendo produzido no país, tornando-se uma das marcas da revista.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Brotas), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929)

19 março 2012

Personagens com identidade brasileira nos quadrinhos (1)

O caráter de denúncia, revestido de ironia e humor, marcou os primeiros escritos de argutos observadores. No princípio, era a sátira escrita. E Gregório de Matos, o Boca do Inferno inaugurou no século XVII os retratos verbais deformados das autoridades da época. Mas desde a colônia, a crítica jocosa, assumida pelo povo no teatro, nas festividades populares, eram representação figurada e viva da caricatura burlesca de nossos governantes e costumes. E a veia cômica do Brasil completou com a anedota – uma caricatura oral – sublimando suas mazelas. E dessa oralidade jocosa da colonia chegou-se ao desenho satírico do papel impresso que proliferou no Império, constituindo-se o traço caricaturado numa das linguagens de maior aceitação do país. Assim, a construção de “personagens tipo” sempre foi de rigor na produção satírica, alter ego dos criadores, porta-vozes contundentes de suas mensagens, figurações representativas de nações e épocas. Artistas do lápis e da pena procuraram desenhar personagens que traduzissem representantes de segmentos sociais expressivos do país.


Essa busca de uma identidade brasileira tem parada obrigatória na caricatura. Coube a ela fixar imagens que recolocaram valores e códigos de nosso processo histórico, documentos que falam por toda uma época, registrando, iconograficamente, personagens nacionais marcantes.


Na Semana Ilustrada (1860-1876) o desenhista Henrique Fleuiss criou Dr. Semana, branco, solteirão que, a despeito de criticar a escravidão, morava com seu escravo, o Moleque. Bem trajado, frequentador da corte e informado da vida social, indignava-se com todos os desacertos do país – exceção à figura do Imperador, seu protetor. Já o piemontês Angelo Agostini, em O Cabrião (1866-1867), também apresenta personagem similar: branco, possuidor de escravos, aparência cuidada, próximo à de pintor romântico com a tradicional jaqueta, mas, portando cômico chapéu.


Agostini publicou no dia 30 de janeiro de 1869, Nhô-Quim, ou Impressões de uma Viagem à Corte, considerada a primeira história em quadrinhos brasileira e uma das mais antigas do mundo. Nhô Quim foi uma das primeiras armas para atacar a aristocracia da época. Ele era um caipira rico e atrapalhado enviado à Corte pela família. As histórias do personagem não poupavam críticas aos problemas sociais do País e alfinetavam de comerciantes a artistas.


Nhô Quim era um anarquista por vocação. Desajustado da vida cortesã, metia-se em confusões com toda espécie de gente: comerciantes, imigrantes, artistas, prostitutas, políticos e autoridades. Ele perdia tudo pelo caminho (chapéu, trem, roupas) e quase foi passado para trás por dois encartolados vigaristas que lhe empurraram falsas ações bancárias. Agostini fez nove páginas duplas, interrompendo sua publicação em 08 de janeiro de 1870, sem concluir as peripécias em que Nhô Quim estava metido. Dois anos depois, Cândido Aragones de Faria desenhou outras cinco páginas, imitando o estilo de Agostini, mas também suspendeu seu trabalho, em outubro de 1872, deixando mais um episódio sem concluir.


Nhô, aferética de sinhô, era o tratamento que os escravos davam aos senhores brancos. Nessa série, Agostini destacou-se pelo uso de recursos metalinguísticos ou de enquadramento inovadores para a época. Entre cada um dos episódios da série, o autor introduziu como que uma espécie de gancho, que deixava pressupor a continuidade no número seguinte do jornal. Essa modalidade narrativa funcionava muito bem como estratégia de marketing e como elemento de manutenção de uma clientela cativa de leitores, como já haviam descoberto os autores de folhetim alguns séculos antes e como descobririam os syndicates norte-americanos vários anos depois.


A segunda personagem fixa, Caipora, praticamente mantém a mesma temática de Nhô Quim. Personagem que precede o Jeca, Pedro Malazartes, Macunaíma e outros famosos da galeria de ladinos brasileiros. Seu tipo físico é do caboclo de pés descalços, barriga proeminente e notável às situações mais escabrosas. As Aventuras de Caipora ganharam as páginas da Revista Ilustrada em 1883. Interrompidas várias vezes, 35 capítulos foram republicados na revista Don Quixote, outros tantos inéditos sairiam em O Malho, até 15 de dezembro de 1906, quando as peripécias de Caipora desapareceram para sempre.


Aventureiro, cômico e romântico, Caipora tornou-se popular rapidamente. Suas peripécias pelo interior do País e pelas florestas alimentavam a imaginação dos leitores. O traço fino e realista de Agostini dava vida a boiadeiros, onças, sucuris, macacos e índios. Além de inaugurar um estilo que inspirou quadrinhos das décadas seguintes, Ângelo Agostini criou cenas em dois planos, referência do teatro medieval, e também abriu caminho para a sensualidade, criado a primeira heroína dos quadrinhos: a índia Inaiá, protetora e guia de Zé Caipora, que, com os seios à mostra, representa o mito das amazonas.


Todo esse talento de Agostini, que José do Patrocínio considerava “o mais brasileiros dos brasileiros”, ficou relativamente esquecido a partir de 1910. Com o resgate e a publicação das histórias de Nhô Quim e Zé Caipora, a nova geração pode revê o pioneirismo do ilustrador Ângelo Agostini. É bom lembrar que a nossa primeira história em quadrinhos de longa duração foi homenageado em elo dos Correios. A data inicial de sua publicação, 30 de janeiro, é hoje comemorada como o Dia do Quadrinho Nacional, e Angelo Agostini passou a ser, a partir de 1984, o nome do troféu que representa o mais importante prêmio concebido pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo.

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16 março 2012

Cronista do cotidiano, Cuíca de Santo Amaro

No dia 19 de março (segunda feira) comemora-se o 105 anos de nascimento de Cuíca de Santo Amaro. O autointitulado “trovador da Bahia” tem agora a sua história recuperada no documentário Cuíca de Santo Amaro – Ele, o Tal, dirigido por Josias Pires e Joel Almeida. O longa será exibido no festival É Tudo Verdade, evento que acontece entre 22 de março e 1º de abril, em São Paulo e Rio de Janeiro. Entre as décadas de 40 e 60 um cronista do cotidiano se destacava em Salvador. Mestre de trovador e repórter, Cuíca de Santo Amaro se celebrizou como um dos personagens mais importantes da história recente da cultura baiana. Seus versos virulentos assustavam poderosos e gente comum, e não havia segredo guardado a sete chaves que escapasse do seu faro para escândalo, que tornava público na cidade através de cordéis.


Amado por uns, odiado por outros, ele vestia um fraque bem passado, flor na lapela e chapéu-coco. Dessa forma ele desfilava pelas principais ruas de Salvador declamando seus versos de poeta trovador. Apesar de não ter estudado e não estar entre os melhores versificadores da literatura de cordel, Cuíca era a síntese do trovador repórter popular. Ele forneceu um relato picante e interessante do seu tempo, um retrato folclórico popular da vida baiana, através de centenas de folhetos, impressos semanalmente durante quase 25 anos. Muitos dos seus cordéis fazem denúncia contra abusos praticados contra o povo. Criticava não só políticos que julgava sem caráter, mas donos de estabelecimentos que cobravam, preços altos e repartições que forneciam serviços públicos de má qualidade.


Participou do filme “A Grande Feira”, dirigido por Roberto Pires, representando ele mesmo, e inspirou o personagem Dedé Cospe Rima de “O Pagador de Promessas”, dirigido por Anselmo Duarte e baseado na obra homônima de Dias Gomes. Inspirou personagens do escritor Jorge Amado (A morte de Quincas Berro D´Água, Tereza Batista Cansada de Guerra e Pastores da Noite). Tudo reflexo do reconhecimento que conquistou, na vida do povo de sua terra.


Com base em um escândalo que explodiu em Salvador em 1956 Cuíca anunciou em cordel: “A Bahia que era,/orgulho dos brasileiros,/antigamente gabava,/por todos os estrangeiros,/transformou-se por encanto,/em antro de marreteiros./Marreteiros granfinotes,/os quais vivem engravatados,/na arte da roubalheira,/já são eles inveterados,/mas não pela polícia,/dificilmente fechados./Porque muitas vezes,/são homens de posição,/que dão bronca no comércio,/depois ganham na questão,/ainda chamam a polícia,/para a sua proteção”.


Quando os jornais esqueciam um escândalo Cuíca entrava em ação. E uma das suas formas de atuação era que ele recebia dinheiro para elogiar, recebiam daqueles que queriam ser poupados (não sofrer na língua do poeta), dos que queriam desmoralizar alguém ou dos leitores que compravam suas revistinhas para saber da vida alheia e dos últimos acontecimentos. Pescadores que chegavam nos saveiros à Rampa do Mercado, baianas, marinheiros, todos ficavam sabendo do que acontecia na cidade, no país e no mundo através dos versos de Cuíca.


Ele contava com detalhes o último crime sensacional, o aumento do preço da carne seca e da farinha, o incidente dos bêbados e a última façanha dos cangaceiros. Ele era bem informado dos acontecimentos, sobretudo aqueles abafados pela polícia, jornais e rádios. Cuíca contava com a ajuda de muitas pessoas que o procurava para fazer denúncias. Cuíca se considerava um defensor e porta-voz dos mais pobres e investia com toda rudeza contra os responsáveis pelos péssimos serviços prestados ao povo de Salvador, denunciado negociatas, cambalhachos, manobras altistas e câmbio negro de produtos alimentícios.


Cuíca nasceu em Salvador em 19 de março de 1907. Ele ia muito a cidade de Santo Amaro da Purificação namorar e tocar violão. Foi lá, inclusive, que conheceu a mulher, Maria do Carmo Sampaio. A intimidade com os versos começou com a profissão de propagandista. Ele anunciava em versos as mais diferentes atividades comerciais da cidade. Vestido de cartola e fraque, gritava a quem passava pela Baixa dos Sapateiros uma grande liquidação ou um novo filme na cidade. Dessa forma, ele aprendeu com maestria a chamar a atenção do público.


O trovador morreu no dia 23 de janeiro de 1964, aos 56 anos. Por mais de 20 anos foi o cronista de Salvador, autor de mais de 400 folhetos de cordel, até hoje ele é um tipo maldito, mas atual. Sua função social foi importante, mas ele teve suas próprias regras éticas. Quem melhor difundiu sua função social foi Jorge Amado: “Não pense o visitante que ele seja apenas um tipo de rua, figura popular e risível. É bem mais que isso. É a voz do povo trabalhando que, não encontrando ressonância nos poetas modernos, e tendo sede de poesia, cria seu bardo pobre e semianalfabeto. Os poetas estão nos bares inventando sonetos de rimas milionárias ou quebrando a cabeça em ritmos novos para poemas exotéricos. Só Cuíca de Santo Amaro canta para o povo pobre. Quando o forasteiro passar por ele talvez a figura e a voz do trovador mereçam apenas um sorriso dos seus lábios civilizados. Mas, que importa? O povo não sorri do poeta. Ri e sofre com ele, combate e tem esperança!”.

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15 março 2012

Bahia fora do foco

Salvador nasceu primeiro mundo (463 anos), tornou-se o maior porto do hemisfério sul e plantou raízes emblemáticas na configuração do povo brasileiro. Hoje anda abandonada em seus pontos turísticos: Farol da Barra, Península de Itapagipe, Centro Histórico, Dique de Tororó, Parque do Abaeté, Comércio, Elevador Lacerda (sempre quebrado), Plano Inclinado Gonçalves (não funciona). Falta conexão da Capital com o Recôncavo.


Salvador é um presépio, armado na encosta da montanha, equilibrado nas ladeiras. Seus dois andares, separados por uma escarpa de 20 quilômetros de extensão e 80 metros de altura - Cidade Alta e Cidade Baixa, a primeira cheia de história, com seus sobradões coloniais e igrejas, a segunda com a magia do mar e do movimento do porto – fazem desta cidade uma das mais belas do Brasil. O seu povo, plural na sua etnia e singular nas suas manifestações. Salvador é singular porque é plural. A Bahia é plural na sua diversidade de religiões e singular na tolerância da coexistência das mesmas respeitando a opção dos indivíduos que as praticam. É muito comum na Bahia ser católico e adepto da umbanda ao mesmo tempo, independente de sua cor ou classe social. As próprias festas católicas têm também sua versão profana.



A cidade é, de fato, uma terra abençoada. O capricho da natureza é evidente no seu litoral de praias tranquilas recheadas de coqueiros. Salvador carrega a fama de possuir 365 igrejas, uma para cada dia do ano, no puro estilo barroco. Símbolos da cidade como o Elevador Lacerda, o Farol da Barra e o Pelourinho encantam os visitantes. Aqui foi o berço onde se proliferaram movimentos que modificaram padrões estéticos de alguns segmentos da arte produzida no Brasil. A Bahia impulsionou o surgimento de notáveis escritores, músicos, políticos, juristas e educadores.


MALTRATADA

O IBGE já informou que 33% da população local vive nos bolsões de miséria.


A velha Salvador, confusa e maltratada, precisa ouvir a maioria silenciosa da população sobre os problemas da desigualdade humana, infra estrutura precária, insegurança, transito caótico e surtos epidêmicos.


A terceira maior cidade do País, oitavo maior PIB, reduziu desemprego, teve renda real do trabalho ampliada mas continua com problemas gravíssimos e, agora, os cidadãos poderão definir o perfil dos representantes no Executivo e Legislativo municipais. Mas não acredito nisso. O povo parece estar cansado dos abusos políticos. A responsabilidade pelas mudanças retorna para a população que está cada vez mais desacreditada. O destino de nossa cidade está nas mãos dos cidadãos. As sociedades política e civil parecem distantes da maioria de vida urbana, resta o eleitorado marcar seu ponto.


DECLÍNIO


O golpe militar de 1964 esmagou muitos movimentos culturais iniciadas em décadas anteriores.


A repressão estudantil impediu a formação de novos líderes políticos. Continuamos com os descendentes e afilhados de ex-governadores das décadas de 50 e 60.


Assistimos à venda de nossos bancos.


Perdemos o cacau por falta de fiscalização fotossanitária


O metrô é pura promessa


No final dos anos 60 as terras e serviços públicos municipais foram privatizados.


Salvador hoje é uma cidade dominada pelos carteis imobiliários, dos transportes e do lixo. Resultado: cidade congestionada, travada, suja e violenta.


Perdemos as editoras Progresso e Civilização.


Faculdades privadas foram vendidas para grupos estrangeiros.


Na cultura popular e do lazer tudo vira axé e Carnaval de aluguel, dentro de currais móveis e camarotes de luxo. Hoje o interesse pela realização do Carnaval, que já foi popular, é mais de políticos e empresários que do povo.


A Bienal de Artes Plásticas da Bahia não houve em 2011.


O Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira (Muncab) foi aberto a duras penas.

O Museu Afro Brasileiro da UFBA foi sucateado.


A Bienal do Livro da Bahia sobrevive com altos e muitas baixas, principalmente com a falta de ampliação da presença de editoras de peso no País.


Há uma grande desconfiança com patrimônios, por intermédio de leis de incentivo (o recente edital de concurso da Secult dando vantagem para os militantes políticos é um exemplo).


Fortalecer os artistas emergentes nos salões regionais de artes plásticas recuperando a autoestima nas comunidades carentes é muito importante.


No cinema local a Secult precisa elaborar um plano de metas para o audiovisual, incentivar o curta metragem e atrair os mais jovens para a renovação do cenário local.


O empoderamento de artistas independentes no mercado fonográfico é um elemento importante. Mas vivemos as oscilações de produção e público. Eruditos, hip hop, pagode, rock, axé, reggae são projetados dia a dia. Mas a cidade precisa pensar sua internacionalização sem perder sua historicidade e dimensão cultural.


O movimento cultural iniciado na década de 1940 por Anísio Teixeira e Edgard Santos colocou a Bahia na vanguarda da educação e das artes no País. Hoje não se sabe o que temos. Vale ressaltar a Orquestra Juvenil Neogibá, Lazzo, Carlinhos Brown, Jau, Magary Lord, Vânia Abreu, Margareth, Gerônimo, Ivete e alguns poucos...


Houve a Geração Arco e Flexa, Geração Cadernos da Bahia, Geração Mapa. A geração que está aí é dispersa porque a Bahia “vive montada num trio elétrico permanentemente” (Fernando da Rocha Peres. A Tarde. 23/11/2011).


È preciso ouvir as vontades populares. Escutar os gemidos da Península Itapagipana, Sussuarana, Valéria, IAPI, Pero Vaz, Liberdade etc.


É preciso re-dinamizar o centro antigo da cidade, integrar e desenvolver os baianos do miolo e do subúrbio ferroviário. É preciso um moderno sistema de mobilidade urbana que incorpore toda a cidade nessa integração.


PARA MELHORAR


O que é preciso ser feito para melhorar Salvador?


  1. Requalificação urbana e ambiental nas praias

  2. Obras de iluminação, restauração de monumentos, igrejas, fontes e construção de um centro de referência no Pelourinho

  3. Reforma no Elevador Lacerda e nos planos inclinados Gonçalves, Pilar e da Liberdade

  4. Ações de requalificação, ampliação do estacionamento do Mercado Modelo

  5. Recuperação das calçadas do Farol de Itapuã, recuperação do entorno do Farol da Barra e melhorias na Lagoa do Abaeté.

  6. Reforma do Largo de Roma e recuperação urbanista da Orla entre a Ponta de Humaitá e a Ribeira

  7. Criar infra estrutura para turismo náutico na Baia de Todos os Santos

  8. Deixar as ruas limpas, sem lixo ou buracos.

  9. Incentivar os moradores de bairros antigos (Saúde, Ribeira etc) a melhorar as fachadas de suas casas com novas pinturas e restaurações

  10. Conservar o patrimônio histórico


A cidade sofre os efeitos de uma modernização conservadora e sem inclusão social.

Como esclarecimento: Não sou vinculado a qualquer partido político. Sou cidadão livre, graças a Deus.

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14 março 2012

Mallarmé

Há 170 anos nascia (domingo) o muso dos poetas brasileiros: Stéphane Mallarmé (18 de março de 1842/09 de setembro de 1898). O poeta francês nunca visitou o Brasil, mas exerceu uma grande influência entre os brasileiros. A geração do começo do século XX – a dos simbolistas como Maranhão Sobrinho, Alphonsus de Guimarães, Emiliano Perneta ignorou a parte revolucionária da poesia de Mallarmé, preferindo poemas parnaso-simbolistas das primeiras fases, como “Aparição”, tomando emprestado do mestre apenas as imagens metafísicas e a forma do soneto. Os poetas modernistas também leram o francês. Mário de Andrade citou em “Paulicéia Desvairada”, Guilherme de Almeida traduziu em “Brisa Marinha”, Manuel Bandeira homenageou num ensaio por ter feito da própria poesia o tema privilegiado de seus poemas. Mallarmé ainda influenciou Drummond de “Claro Enigma” e João Cabral de “Pedro do Sono” e “Psicologia da Composição”.



Brinde


Nada, esta espuma, virgem verso

A não designar mais que a copa;

Ao longe se afoga uma tropa

De sereias vária ao inverso.


Navegamos, ó meus fraternos

Amigos, eu já sobre a popa

Vós a proa em pompa que topa

A onda de raios e de invernos;


Uma embriaguez me faz arauto,

Sem medo ao jogo do mar alto,

Para erguer, de pé, este brinde



Solitude, recife, estrela

A não importa o que há no fim de

um branco afã de nossa vela.



Cansado do repouso amargo


Uma linha de azul fina e pálida traça

Um lago, sob o céu atrás da nuvem clara

Molha no vidro da água um dos cronos aduncos,

Junto a três grandes cílios de esmeralda, juncos.



Os concretistas beberam do Mallarmé inventor da poesia visual, que privilegia as interrupções, triturando a sintaxe, abolindo a pontuação. Que radicalizou o poema concebendo-o como objeto visual e não apenas para ser ouvido. Ele quebrou o verso, explodindo palavras e imagens no branco da página. Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos foram influenciados e lançaram até um livro com traduções de poemas como “A Tumba de Edgar Allan Poe”, “O Brinde” e “Um Lance de Dados”. A geração dos anos 70 também recebeu influências do poeta francês. Ana Cristina César, Paulo Leminski, Armando de Freitas Filhos e muitos outros.


O Acaso


Cai

a pluma

rítmico suspense do sinistro

nas espumas primordiais

de onde há pouco sobressaltara seu delírio a um cimo fenescido

pela neutralidade idêntica do abismo



Fosse


Seria

pior

não

mais nem menos

indiferentemente mas tanto quanto



A Vendedora de Roupas


O olho vivo com que vês

Até o seu conteúdo

Me aparta de minhas vestes

E como um deus vou desnudo





Ao reinventar a poesia como enigma, Mallarmé rompeu com o didatismo, passou a sonhar com leitores refinados e tornou-se poeta para poetas. “Eu procuro o poema como um mistério em que o leitor deve procurar a chave”. Sua marca está na obra de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro


POESIA


Toda alma que a gente traça

lenta, no ar, em resumidos

vários anéis de fumaça

noutros anéis abolidos


atesta qualquer cigarro

por pouco que separado

fique da cinza e do ssaro

seu claro beijo inflamado.


Assim o coro dos poemas

dos lábios voa sutil.

A realidade, não temas,

excluí-la, porque é vil.


A exatidão torna impura

tua vaga literatura.

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13 março 2012

Poesia na letra da canção (2)

Luiz Tatit é um dos defensores da ideia de que letra é letra, poema é poema. Assim como Arnaldo Antunes, ele mesmo um poeta e excelente letrista. Mas que a canção é um suporte pra poesia como bem disse Paulo Leminski já anos anos 70, isso é. Há poesia na letra das canções e ninguém há de negar. Há poemas que não se prestam à música, e há os que são feitos já com ritmo, com métrica, como se nascessem pra virar letras e ganham público além dos livros. Ouça Retrato de Artista Quando Coisas com Luiz Melodia. Só voz e cordas, é todo um poema.


Poetas e compositores expõem as diferenças entre o poema e a canção:


“O que o Chico Buarque diz não importa, ele é poeta sim. Muitas das letras dele têm qualidade superior a grande parte do que se encontra na literatura. Esta semana eu peguei um texto de Chico intitulado Canção que existe, que me lembrou muito Dante em A Divina Comédia. E se você ler este texto, classifica-o como poesia tranquilamente. A língua portuguesa tem tradição na fusão entre a poesia e a letra de uma música. Existem sutis diferenças entre as duas, claro, mas elas estão muito próximas. Não há uma regra definida para o que pode ou não ser poesia. Eu não aceito quando alguns professores de Português , estrategicamente, tentam fazer uma separação entre as duas áreas. A única coisa que eles conseguem dizer é que poesia é aquele texto que se sustenta na página. Para mim, este argumento não faz o menor sentido. Lógico que existem pontos característicos de cada um destes mistérios. Um pernambucano, João Cabral de Melo Neto, disse em Duas Águas que existem poesias para serem ditas em voz alta e em voz baixa. Ou seja, há diferenças entre música e poesia, mas a fronteira entre elas não é tão nítida. Quando eu faço um texto sabendo que este vai ser musicado, o processo de criação não é o mesmo. Por exemplo, Maria Betânia me pede uma letra, eu penso já na voz dela. Porém, ao mesmo tempo, eu posso fazer uma letra nem pensando em musicá-la e acaba acontecendo, como Mel, que só depois de pronta, foi trabalhada por Caetano Veloso. A poesia já tem um ritmo próprio. A história dos poemas prova isto, quando estes eram recitados por menestréis ou em jograis pelos povos mouros. Até hoje, percebendo o texto de Garcia Lorca, esta influência do canto popular está bem clara. Então, como a poesia tem um ritmo próprio, não há rigidez no que pode ou não ser musicado”. (Wally Salomão, poeta e letrista)



“Para mim, música e poesias são primas, parentes próximas. Têm uma relação forte, mas não são a mesma coisa. Às vezes, coincide de uma boa canção ter uma letra poética, mas não é sempre. Na música, antes de tudo, a letra deve ter ritmo. Por exemplo, o poema Tabacaria de Fernando Pessoa é genial, mas não para ser musicado, porque não tem ritmo. Por isso que é complicado dar melodia a um poema. Eu já fiz isto com Maracatu, que tem letra de Ascenso Ferreira e um poema de Maiakoviski adaptado por Augusto de Campos. Estes dois trabalhos tinham ritmo e se encaixavam em uma melodia. Considero, sim, que algumas letras minhas têm características de poesia. Por exemplo, Sino de Ouro que começa com estes versos: “ Hoje eu queria fazer um poema / com penas dos versos de chumbo que faço / e faria um poema voando tão leve / Um poema de éter, poema de pássaro”. Há músicas que resistem ao tempo, como Recomeçando das cinzas, Cambalhotas, Lava mágoas ou Gato da noite, que eu provavelmente fiz como um bate-bola com Carlos Drummond de Andrade. São canções cujas letras sobrevivem independentemente da música. Isto é bastante difícil hoje em dia na música popular. Muitas vezes, a melodia é belíssima, mas se você for parar para pensar, a letra é medíocre e não resiste fora da música. Eu, por ter tido esta formação literária e como comecei a escrever antes mesmo de compor, consigo na maioria das minhas letras alcançar um texto poético. Mas, às vezes, isto não acontece. Quando uma música minha não resiste ao tempo, eu sei porque. (Alceu Valença, cantor e compositor)


Poema e letra são fundamentalmente diferentes. Mas há uma possibilidade de essa diferença, sem deixar jamais de existir, ao mesmo tempo abolir-se. A poesia é uma potência, atualizada ou não, da letra. A letra, sem deixar de ser letra, pode ao mesmo tempo tornar-se poesia. O poema está só, a letra está acompanhada - e eventualmente pode ter a solidão, por paradoxal que pareça, como suplemento.


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