24 agosto 2011

Território da alma humana (1)

Depois de embalar duas grandes guerras, o século XX conheceu uma nova onda de colonização. Não mais horizontal ou geográfica, mas verticalmente, penetrando os territórios da alma humana. A industrialização do espírito, segundo Edgar Morin (2009, p.13), por meio do avanço tecnológico, se voltou para a organização do interior do homem, soterrando-o sob camadas de mercadorias culturais.


“...as palavras e imagens saíam aos borbotões dos teletipos, das rotativas, das películas, das fitas magnéticas, das antenas de rádio e de televisão; tudo que roda, navega, voa transporta jornais e revistas; não há uma molécula de ar que não vibre com as mensagens que um aparelho ou um gesto tornem logo audíveis e visíveis (…) Através delas, opera-se esse progresso ininterrupto da técnica, não mais unicamente votado à organização exterior, mas penetrando no domínio interior do homem e aí derramando mercadorias culturais. Não há dúvida de que o livro, o jornal eram mercadorias, mas a cultura e a vida privada nunca haviam entrado a tal ponto no circuito comercial e industrial, nunca os murmúrios do mundo – antigamente suspiros de fantasmas, cochichos de fadas, anões e duendes, palavras de gênios e de deuses, hoje em dia músicas, palavras, filmes levados através de ondas – não haviam sido ao mesmo tempo fabricadas industrialmente e vendidas comercialmente. Essas novas mercadorias são as mais humanas de todas, pois vendem a varejo os ectoplasmas da humanidade, os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma” (MORIN, 2009, p.13-14)

E desde a infância, o cidadão médio dessa sociedade de massa é inserido em uma sede de informações que mescla os mais diversos conteúdos, que são cuidadosamente elaborados para integrar diferentes categorias de consumidores aos meios de comunicação. E esse caráter emigra da imprensa para os outros meios. A maior parte das mercadorias que alimenta essa sociedade de massa associa palavras rápidas e sucintas a imagens suntuosas, fascinantes e dinâmicas.


As invenções técnicas foram necessárias para que a cultura industrial se tornasse possível. O crescimento de todo sistema industrial exigiu o máximo consumo para um público variado. E essa variedade é, ao mesmo tempo, sistematizada, homogeneizada. Asim a diversidade dos conteúdos foi homogeneizada. A maioria dos filmes, por exemplo, sincretiza temas múltiplos no seio dos grandes gêneros: num filme de aventura haverá amor e comicidade e num filme de amor haverá aventura e comicidade, assim como num filme cômico, haverá amor e aventura. Essa linguagem homogeneizada exprime esses temas.

O radio tende ao sincretismo variando a série de canções e programas, mas o conjunto é homogeneizado no estilo da apresentação radiofônica. A grande imprensa, a revista ilustrada tendem ao sincretismo se esforçando por satisfazer toda gama de interesse.


Informa Morin: “No começo do século XX, as barreiras das classes sociais, das idades, do nível de educação delimitavam as zonas respectivas de cultura. A imprensa de opinião se diferençava grandemente da imprensa de informação, a imprensa burguesa da imprensa popular, a imprensa séria da imprensa fácil. A literatura popular era solidamente estruturada segundo os modelos melodramáticos ou rocambulescos. A literatura infantil era rosa ou verde, romances para crianças quietas ou para imaginações viajantes. O cinema nascente era um espetáculo estrangeiro. Essas barreiras não estão abolidas. Novas estratificações foram formadas: uma imprensa feminina e uma imprensa infantil se desenvolvem depois de cinquenta anos e criam para si públicos específicos” (p.37). E conclui: “A cultura de massa é, portanto, o produto de uma dialética produção-consumo, no centro de uma dialética global que é a da sociedade em sua totalidade” (p.47).


Para concluir esse espírito do tempo onde a cultura de massa é um embrião de religião da salvação terrestre, mas falta-lhe a promessa da imortalidade, o sagrado e o divino, para realizar-se como religião, Morin assim afirma: “A contradição – a vitalidade e a fraqueza – da cultura de massa é a de desenvolver processos religiosos sobre o que há de mais profano, processos mitológicos sobre o que há de mais empírico. E inversamente: processos empíricos e profanos sobre a ideia-mãe das religiões modernas: a salvação individual”.


Assim a união entre o imaginário e o real é muito mais íntima do que nos mitos religiosos ou feéricos. O imaginário não se projeta no céu, fixa-se na terra. Os deuses (e os demônios) estão entre nós, são de nossa origem, são como nós mortais. Só não há resposta para as contradições da existência, estas estão em movimento, e esse movimento pode criar respostas, também em movimento.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

23 agosto 2011

Erudito, popular e de massa (2)

Cultura popular diz respeito ao povo, origens, tradições, raízes, ao folclore, à resistência de trabalhadores, proletários, oprimidos e à construção de identidades operárias. É massivo tudo que padroniza diferenças e, consequentemente, neutraliza ou desagrega o espaço das manifestações populares. É erudito tudo que não é contaminado pelos processos de reprodutibilidade técnica, tudo o que consegue ser absolutamente original, aurático. Os novos autores amplia o aspecto da reflexão e qualifica o conceito, atribuindo-lhe a capacidade de articular massivo e popular, tanto por meio de tradições seculares (comedia de arte italiana) quanto por outras tradições que a própria modernidade engendrou (pop art). Mas deve-se tomar cuidado para que a insistência na imbricação conflituosa entre popular e massivo não venha significar nova forma de exclusão.

Apesar da internet e de toda a tecnologia do século XXI, os quadrinhos, surgidos nos idos de 1890, permanecem atuais graças a sua capacidade de renovação e atualização. Seja na publicação de tirinhas ou nos gibis, os quadrinhos são tão importantes que até merecem um dia especial: 30 de janeiro. Qual a receita desse sucesso? O fato de serem facilmente encontrados nas bancas, livrarias, por seu tamanho e pelo tipo de papel, atraentes ao leitor. Acrescente-se a isso o formato, que pode ser carregado em qualquer bolso e sem necessidade de cuidados extras, geralmente dispensados aos livros. A tecnologia, que antigamente assustava os editores e quadrinistas, hoje é uma grande aliada desse tipo de produção. Os motivos para a continuidade do sucesso dos quadrinhos são variados: vão desde a qualidade da produção ao profissionalismo, passando pela maior distribuição, segmentação, e, é claro, pela diversidade de gibis.


Com a elevação dos padrões artísticos das HQs, a crítica pode melhor exercer o seu papel de explicar e tornar acessível ao publico leitor as publicações no mercado e concorrer para aprimorar o gosto dos leitores. A necessidade da crítica quadrinhográfica se impõe a partir do momento em que as técnicas se tornam mais sofisticadas, a sensibilidade de argumentistas e desenhistas se refina, e o uso de símbolos se intensifica na representatividade do mundo moderno. A crítica, concorrendo para melhorar o nível do público, implica na melhoria do nível dos próprios quadrinhos. O círculo se fecha e as revistas em quadrinhos reencontram seu caminho e sua destinação estético informacional (CRUZ, 1975).


Visto pelo leitor, o quadrinho é uma aventura que vai desde a distração nas horas de folga à formação da personalidade. Para essa aventura é que o crítico deve convidar o publico leitor, mas respeitando-o realmente, sem o forçar a nada, expondo-lhes os dados do problema. Deve-se ressaltar mais o aspecto estético informacional (texto/imagem), da revista e não como fazem alguns dos críticos que se limitam a elogiar os quadrinhos que melhor funcionam como divertimento. Devemos deixar-nos conduzir pelas imagens que narram uma história, mas compreendendo o significado exato dessas imagens.

Referências:

CANCLINI, Nestor Garcia. “Ni folklorico ni masivo: ¿que es lo popular?”. Dia-Logos (de la communicacion). Lima, Peru: nº 17, junio/1987.

CRUZ, Gutemberg. A crítica quadrinhográfica. Salvador. A Coisa, suplemento da Tribuna da Bahia, 14 de novembro de 1975, p.3.

ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1979.

ECO, Umberto; Super-Homem de massa. São Paulo: Perspectiva, 1991.

MARTIN-BARBERO. J. De los medios a las mediaciones. México: Gustavo Gile, 1987.

RAMOS, J.M.O. Televisão, publicidade e cultura de massa. Petrópolis: Vozes, 1995.

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Os mitos estão de volta em A Turma do Xaxado: Lendas e Mistérios volume 2


Após o enorme sucesso de "A Turma do Xaxado: Lendas e Mistérios volume 1", a turminha está novamente envolta em mistérios fantásticos com os personagens do folclore brasileiro que já fazem parte da imaginação do nosso povo. São histórias transmitidas de pai para filho há várias gerações, contadas através do talento mágico de Antonio Cedraz.


O folclore brasileiro é recheado de figuras incríveis, com suas histórias maravilhosas e poderes mágicos, e que são tão fantásticas quanto as fadas, os duendes, magos, bruxas, sereias, dragões e elfos das culturas de outros países. As personagens aqui apresentadas são baseadas em entidades do folclore, são parte desta nossa cultura brasileira, tão desconhecida de muitos de nós.


No álbum, Lendas e Mistérios volume 2, Xaxado e sua turma contracena com a Comadre Florzinha, Lobisomem, Homem do Saco (Papa-Figo), Boitatá, Cabeça de Cuia, Iara e Anão dos Trilhos.

Na ocasião será lançado também o livro Crie a História. Neste livro o leitor vai encontrar histórias com os "balões" em branco para que cada um escreva a sua história do jeito que quiser, do jeito que a imaginação mandar.

O lançamento de Lendas e Mistérios vol.2 e Crie a História acontece na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato,

no dia 27 de agosto (sábado), a partir das 10 horas. (Fonte: Ascom do Autor)

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

22 agosto 2011

Erudito, popular e de massa (1)

No seu livro Apocalípticos e Integrados (1979), Umberto Eco retoma essa discussão, mostrando que o conflito continua. Eco fala que para os apocalíticos a “cultura de massa é a anticultura”. Afinal, se a cultura é algo produzido por uma aristocracia superior, qualquer cultura produzida por todos e para todos é uma ofensa. E como a cultura de massas na sociedade é um fenômeno irreversível, a sua influência também o é. Já os integrados são uma resposta a isso. Eles pensam que a televisão, os quadrinhos, o rádio, cinema, romances populares e outros colocam a cultura ao alcance de todos, possibilitando uma ampliação da informação cultural.


O autor salienta que podemos estar diante das duas faces de um mesmo problema e não de dois conceitos opostos. Para o autor italiano, esse mundo da cultura de massa, que alguns tentam recusar e outros o aceitam e o valorizam, é na verdade, também o nosso mundo. Um mundo que tem sua origem quando as classes subalternas podem começar a acessar os bens culturais, com a chance de produzir esses bens graças a processo industriais.


Depois de Gutemberg (e sua Bíblia), a indústria cultural é uma realidade. Eco acredita que esse mundo da comunicação de massa, queira o virtuoso crítico ou não, é o nosso mundo. Ao falarmos de valores, as condições objetivas das comunicações chegam até nós pela existência do rádio, jornais, filmes, tevê e de qualquer nova forma de comunicação visual ou auditiva – podemos acrescentar ao seu discurso, então, as HQs, a Internet e os games. É impossível fugir a essas condições. O problema é que os quadrinhos são a parte esquecida dos estudos culturais. Apesar do esforço, principalmente por parte de estudiosos franceses e italianos da década de 70, os estudos, ensaios e livro sobre HQ não chegam nem de perto do que se produz sobre cinema, música, literatura e outras formas de manifestação cultural.


As tradições teóricas que enfatizam separações entre cultura erudita, popular ou de massa tendem a construir modelos que adotam os referenciais da cultura erudita, culta ou letrada como únicos legítimos na definição do que deve – ou não – ser incorporado ao campo cultural. Essa postura ou ignora a existência de um grau de diversidade nas manifestações culturais e não as incorpora como objetos da reflexão cultural, ou passa a qualificá-la por meio das ausências como, por exemplo, as estéticas, de linguagem, conteúdo, consistência.


O objetivo em uma ou outra postura, é negar a estas manifestações o estatuto de fato cultural e considerar cultura como sinônimo de erudição. Uma das mais tradicionais e sólidas representantes dessa tendência teórica está localizada na Escola de Frankfurt. Para os frankfurtianos a construção da teoria de massa como cultura, pela afirmação do conceito de indústria cultural e pela constatação da impossibilidade de existência de tradições, cultura popular, obra de arte e espaço para o autentico no mundo moderno.


Outras abordagens sobre cultura nas sociedades modernas mostram que a dicotomia deve ser discutida. Da cultura erudita (travestida em cultura de proposta) e da cultura de massa (em cultura de entretenimento) localizam-se, na análise de Umberto Eco (1987, 1991), outras formas de percepção. A especificidade analítica desse referencial teórico preconiza que a cultura de massa ou os produtos culturais industrializados devem ser observados e questionados em sua configuração interior e avaliados como elementos de sensibilização de um público receptor, estereotipado e divido entre homens de cultura e homens de massa.


No balanço entre apocalipticos e integrados, as ausências ou precariedades estéticas, de linguagem, de conteúdo e consistência são detectadas e comparadas aos referenciais eruditos por meio de cuidadosa desconstrução interna dos produtos culturais. O fascínio (que Eco deixa claro possuir) pelos quadrinhos, música, folhetim, radio, cinema e televisão, não impede que estes sejam vistos, neste momento, como mensagens – de melhor ou pior gosto – e como estruturas de consolação ou evasão, mediadoras da relação entre parceiros médios. Localizados em espaço cultural reservado às obviedades, repetições e ao kitsch, as mensagens permanecem à disposição da massa e são acessíveis, também, ao seguimento culto da sociedade que deseja, eventualmente, escapar.


Em seus trabalhos iniciais, Eco revela-se de forma marcante a separação entre os diferentes segmentos culturais. Em seus trabalhos posteriores Eco relativiza a noção de consolação e constrói um referencial em que existe espaço para a reflexão positiva e bem humorada sobre inúmeros produtos serializados, resultantes da produção cultural industrializada.


Outras tentativas de superação da fragmentação entre popular e massivo está nos trabalhos de autores como Nestor Garcia Cancline, Jesús Martin-Barbero e José Mario Ortiz Ramos em suas pesquisas ligadas ao campo audiovisual e, genericamente, à produção cultural industrializado no Brasil e na América Latina – que caminha nessa direção, trabalhando as possíveis articulações entre cultura popular e cultura de massa. O popular deve ser encarado tanto como algo que nos interpela desde o massivo e estabelece imbricação conflituosa no massivo, quanto como um modo de atuar nele (MATIN-BARBERO, 1987, p. 248 e 250; CANCLINI, 1987, p.10), ou ainda, popular e massivo constituem-se em elementos de configuração da cultura popular de massa (RAMOS, 1995, p. 257).

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Fundação Pedro Calmon lança prêmios de publicação e humor gráfico

Inscrições no período de 22 de agosto a 22 de setembro de 2011


No dia 17 de agosto, às 9h30, durante a IV Feira do Livro: Festival Literário e Cultural de Feira de Santana, a Fundação Pedro Calmon/SecultBA lançou dois prêmios: Prêmio Hera de Publicação e Prêmio de Humor Gráfico: o fim e a continuidade do livro. As inscrições são gratuitas e estarão abertas no período de 22 de agosto a 22 de setembro de 2011, de segunda a sexta-feira, no horário das 9h às 17h. Ao todo serão investidos R$ 35 mil (trinta e cinco mil reais) para as premiações.


O Prêmio Hera contemplará com 10 mil reais o melhor livro de autor baiano publicado de janeiro a dezembro de 2010, em qualquer gênero e, com 5 mil cada, as duas melhores dissertações sobre literatura defendidas (mas não publicadas em livro) no mesmo ano. O prêmio total disponibilizado para este Edital será de R$20 mil (vinte mil reais).


Já o Prêmio de Humor Gráfico vai contemplar os três melhores trabalhos nos gêneros cartum, HQ, charge, tira ou caricatura, com o tema “O fim e a continuidade do livro”. O primeiro colocado receberá 7 mil reais, o segundo, 5 mil, e o terceiro, 3 mil, além de integrar uma exposição com os 30 melhores trabalhos, na X Bienal do Livro da Bahia. O prêmio total disponibilizado para este Edital será de R$15 mil (quinze mil reais).


Elaborados pela Diretoria do Livro e da Leitura (DLL), os dois prêmios têm, por um lado, o objetivo de fomentar a produção editorial no Estado e, por outro, refletir sobre a condição do livro em nossa época, caracterizada por instituir novas tecnologias e sepultar a tradição. Os folhetos com o regulamento dos dois prêmios estarão disponíveis nos estandes da Fundação Pedro Calmon.


As obras deverão ser protocoladas diretamente na sede da Fundação Pedro Calmon, Av. Sete de Setembro, 282, Edf. Brasilgás, Sala 605, Centro, Salvador, 40.060-001, ou por via postal com Aviso de Recebimento (AR). Os interessados poderão verificar o edital completo nos endereços: www.fpc.ba.gov.br ou http://leituraelivro.blogspot.com As dúvidas sobre o processo de inscrição poderão ser esclarecidas através do endereço eletrônico: dll.fpc@fpc.ba.gov.br (Fonte: Ascom da Fundação Pedro Calmon – SecultBA (71) 3116-6918/ 6919/ 6676. ascom.fpc@fpc.ba.gov.br, http://www.fpc.ba.gov.br)


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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

19 agosto 2011

Arte africana de André Diniz

Depois de passar alguns anos publicando fanzines, o carioca André Diniz lançou no ano 2000 sua própria editora, a Nona Arte conquistando mais de 14 prêmios. Foi roteirista para diversos desenhistas como Laudo (A Inconfidência Mineira), Antonio Eder (Chalaça, 7 Vidas, A Guerra dos Farrapos, A Independência do Brasil), José Aguiar (Revolta de Canudos, Ato 5), entre outros.

Editado pela Conrad em 2009, o álbum 7 Vidas narra o retorno do autor a vidas passadas com o auxílio da terapia de regressão. O relato de Diniz faz o leitor viajar a diferentes épocas, culturas e lugares diversos, da Itália da Idade Média, Peru do Século XIX, e Brasil do século XXI e conta com os desenhos de Antonio Eder. O desenho simples, mas extremamente expressivo de Eder casa perfeitamente com o roteiro realista e espontâneo de Diniz. Arte em preto e branco com jogos de câmera, enquadramentos e angulações interessantes.


Nos meses que fez terapia e depois resolveu contar numa narrativa gráfica ele não abordou sob a ótica mestiça ou religiosa. Narrou apenas o que viu deixando a interpretação para o leitor. Diniz não se deixou levar pelo discurso doutrinário. As ideias básicas do espiritismo kardecistas estão ali apenas como elementos narrativos ou ambientação, sem o objetivo de convencer o leitor a acreditar nisto ou naquilo. O relato é quase poético pela simplicidade e sinceridade do autor.


O álbum de estreia desse grande roteirista foi Fawcett (sobre o explorador americano que se perdeu nas selvas do Mato Grosso e influenciou a criação do Indiana Jones) com desenhos de Flávio Colin, lhe rendendo o prêmio Ângelo Agostini.


Em parceria com o fotógrafo Maurício Hora, André Diniz lançou recentemente a graphic novel Morro da Favela (Editora Leya/Barba Negra). O álbum conta a história de Maurício Hora, morador do Morro da Providência (RJ), sua ligação com a fotografia e como essa arte mudou sua vida. Assim, Diniz retratou em preto e branco o cotidiano e as memórias de Maurício na sua comunidade.


Nascido e crescido no Morro da Previdência, no Rio de Janeiro, o primeiro a ser ocupado na cidade, em 1897, pelos combatentes do Exército brasileiro que derrotaram Antônio Conselheiro e a população de Canudos. Mauricio desejou não seguir os caminhos do pai, apontador do jogo do bicho e um dos introdutores do tráfico de drogas no morro. Mesmo que sua trajetória fosse permeada por visitas ao presídio, abusos da polícia e tratamento diferenciado dos amigos e colegas do morro, ele teve certeza de que seu futuro seria diferente. Desde cedo conseguiu trabalho de ourives, arranjou sua primeira máquina fotográfica. Uma Pentax, para exercer o ofício que namorava desde quando foi apresentado ao laboratório fotográfico de seu tio.


Com uma técnica inspirada na xilogravura e na arte africana, traços estilizados e peculiares, feitos diretamente no computador através de um tablet, Morro da Favela confirma Andre Diniz como um dos mais importantes quadrinistas na prolífera produção recente do país.


O Morro da Providência, considerada a primeira favela do país, é apresentada por Diniz no dia a dia do aglomerado urbano e termina por revelar a história desse fotógrafo brasileiro. O morro já chamou “da Favela”, mas recebeu de volta o nome original, “da Providência!, depois que o outro apelido se espalhou pela cidade e passou a denominar todas as comunidades do relevo carioca, sem distinção.


Mais outra obra de Diniz: O conhecido poeta dos escravos, Castro Alves tem seu texto original adaptado por André Diniz no álbum A Cachoeira de Paulo Afonso, lançamento de uma editora que estreia no mercado de quadrinhos, a carioca Pallas. O poema faz parte do livro Os escravos, publicado em 1876. A Cachoeira de Paulo Afonso é um conjunto de imensa quedas d´água do Rio São Francisco. Com quedas de até 80 metros de altura, o enorme tamanho da natureza serviu de inspiração ao poeta que retrata a fuga desesperada de um casal de negros perseguidos.


E já está para ser lançado Mwindo, primeiro trabalho com roteiro de outra pessoa, Jacqueline Martins. Trata-se de uma lenda que fala de um rei africano que proíbe as sete mulheres grávidas de darem à luz à meninos. As seis primeiras parem meninas, todas ao mesmo tempo. Da sétima esposa, nasce Mwindo, um garoto que sai por seu dedo indicador. O rei tenta matá-lo. Mesmo recém-nascido, Mwindo, lidera uma guerra contra seu pai, passando para o mundo subterrâneo, matando e ressuscitando pessoas.

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18 agosto 2011

Humor gráfico na Bahia (4)

O lápis irreverente de Manoel Paraguassu é pouco lembrado hoje em dia. Bastante malicioso, não perdoava um defeito. Com rara felicidade, o artista traçou os perfis de pessoas destacadas na política, no comércio e nas industrias da nossa terra. Fino e espirituoso, marcou época na caricatura da Bahia publicando nas revistas A Renascença, A Fita, Única e nos jornais A Tarde, Diário da Bahia, O Imparcial e Diário de Notícias.


Ele reafirmou, pelo seu traço e sua verve, o seu primado de caricaturista magistral. Não lisonjeou nem adulou seus modelos. Foi comedido, mas não lhes perdoou o lado cômico ou mesmo levemente ridículo. Um dia, porém, o rapaz feio de óculos, que era uma caricatura viva, resolveu trocar o lápis pelo pincel, o cartão pela tela e fazer-se pintor.


Especialista em portrait-charge (caricatura individualizada de personagens célebres), foi nesse gênero que obteve os primeiros triunfos de sua carreira. Viveu vários anos entregue à caricatura e através dela se mostrou um dos desenhistas mais interessantes do Brasil. Simpatizante dos esportes, foi um dos fundadores da Associação Bahiana de Cronistas Desportivos. O Clube Bahiano de Tênis também o conta entre os seus idealizadores. Criou um semanário intitulado O Atleta. Fundou também a revista de cinema Tom Mix em 1919. Nas edições da revista A Luva de 1926, Paraguassu apresentava em uma página inteira “Os Nossos Foti-Bolescos”, caricaturas dos jogadores do Ypiranga, Vitória, Bahiano de Tênis, Associação Atlética da Bahia, entre outros.

Com atuação em quase todas as áreas, Sinézio Alves foi pintor, escultor, caricaturista e cenógrafo. Gritar contra as injustiças, as trapaças e as falcatruas foi sua bandeira. Sofrendo os rigores da censura do Estado Novo, aprendera a adotar subterfúgios para driblá-la. Como caricaturista, incomodou interventores, governadores, prefeitos, os figurões da política e da sociedade. Mas também reverenciou, com sutil ironia, poetas, pintores, cordelistas e romancistas. A irreverência de seu traço percorreu os jornais baianos A Tarde, Diário da Bahia, Diário de Notícias, O Imparcial, A Crítica e a Fôia dos Rocêro. Seu nome também está ligado ao carnaval, tendo sido o criador do Galo Vermelho, além de vencer diversos concursos de decoração carnavalescas de vários clubes.

Fundadora e diretora do Núcleo de Pesquisa da Literatura de Cordel da Fundação Cultural da Bahia, Edilene Matos analisando a obra de Sinézio Alves na literatura de Cordel declarou: “Em se tratando do processo de ilustração de folhetos, na Bahia, a presença do desenhista e caricaturista Sinézio Alves é marcante, desde os tempos idos da Tipografia Moderna, de Delor Gramacho, na década de 1940, quando conheceu os poetas populares Galdino Silva, Cuíca de Santo Amaro, Rodolfo Coelho Cavalcante, Permínio Valter Lírio, Heráclito Amorim, Augusto Ferraluso e passou a ser o desenhista das capas dos seus folhetos. Raros são os livrinhos de cordel que não trazem a sua assinatura, mesmo depois do advento da xilogravura em nosso estado. É bem possível que a grande atuação desse artista tenha retardado a penetração dos tacos de xilo nas capas dos nossos folhetos”. E concluiu: “Pode-se afirmar quer Sinézio Alves é, sem dúvida alguma, um referencial significativo na trajetória do desenho e caricatura populares no estado da Bahia”.

Ensaísta e poeta, Fernando Diniz foi um caricaturista de tipos. Suas caricaturas estão inteiramente ligadas ao universo cultural baiano, notadamente o literário, mas por vezes fixando vultos da política e do jornalismo, das artes e do magistério, em charges e portraits-charges características, não raro também incursionando nas esferas nacional e internacional, ou ainda captando cenas e flagrantes da vida cotidiana, quase todos acompanhados dos respectivos textos rimados (ou epigramas). Em seu trabalho destaca-se a crítica corretiva, ainda que corrosiva, da sociedade ou do indivíduo, coexistindo o traço e o verso chistosos, que se completam.


O interesse pelos livros começou nos “bancos secundários, no velho Ginásio da Bahia, pela década de 30, com o tímido rabiscar de perfis facetos de mestre e condiscípulos”. E foi justamente um professor de matemática a primeira “vítima” de Fernando Diniz. Publicou caricaturas nas revistas América, Única, Festa, nos jornais O Tacape, A Tarde, além de participar em diversas exposições na Bahia e em outros países.


Referências:


CRUZ, Gutemberg. O traço dos mestres. Salvador: Gráfica e Editora Arembepe, 1993.

CRUZ, Gutemberg. Feras do Humor Baiano. Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 1997

MATTAR, Denise (curadora). Traço, Humor e Cia. São Paulo: Fundação Armando Alvares Penteado, Museu de Arte Brasileira, 2003.

SALIBA, Elias Thomé. Raízes do Riso. A representação humorística na história brasileira: da Belle Époque aos primeiros tempos do Rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

17 agosto 2011

Humor gráfico na Bahia (3)

Existe uma geração que praticamente desconhece o trabalho de nossos desenhistas. Por esse motivo em 1993 lancei o livro O Traço dos Mestres para contar um pouco da história do humor gráfico na Bahia. Em 1997 lancei outro, Feras do Humor Baiano já abordando outros desenhistas. Mesmo assim, o que se escreveu sobre o assunto na Bahia é raro, escasso e desprezado. Nomes como Manoel Paraguassu, K-Lunga, Nicolay Tischenko, Sinésio Alves, Fernando Diniz e muitos outros fixaram em seus traços usos e costumes sociais e políticos. Ao longo da história, o crítico do lápis sempre esteve presente. Assim, pode-se conhecer a história de qualquer país através do desenho de humor, da caricatura, da charge. Impiedosos ou amenos, os cartunistas com três ou quatro riscos numa folha em branco são capazes de retratar toda uma época.

O mestre Raymundo Aguiar (foto), ou K-Lunga (como assinava seus desenhos), é um exemplo. Até hoje somente a sua

pintura foi considerada. Sua obra gráfica, de interesse ilimitado, permanece em segundo plano, cercada por um silêncio constrangedor. Ele se dedicou ao desenho, charge, caricatura, gravura, xilogravura e pintura, distinguindo-se em técnicas como gravura a água-forte, a água-tinta, pastel, óleo e xilogravura.

Sua obra de desenhista, além do valor intrínseco, é importante por ter registrado, de forma autêntica, acontecimentos sociais e políticos de sua época. Os desenhos de K-Lunga caracterizam-se pela maneira irônica de mostrar a sociedade burguesa: sua elegância e esnobismo eram os pontos ressaltados. Suas charges políticas têm caráter chistoso, movimentado e retratam legítimos quadros de costumes dos bastidores da democracia brasileira.


A irreverência brincalhona de suas caricaturas resultou em sua detenção por 36 horas. Desde o governador Antonio Moniz até Antonio Balbino foram alvos de suas críticas. Uma de suas charges mais ousadas e contundentes, As Transformações, provocou o empastelamento do jornal A Hora, dirigido por Artur Ferreira, de oposição cerrada ao governador Antonio Moniz.

O trabalho desse português meio franzino e de talento singular, a despeito do delegado Pedro Gordilho tê-lo chamado de “fazedor de bonecos”, começou a incomodar os donos do poder. De modo geral, emprestou o valor de seu lápis aos maiores jornais e revist

as locais. Como caricaturista, trabalhou nos jornais A Tarde, O Imparcial, Jornal de Notícias, A Noite e nas revistas A Luva, A Fita, A Garota, A Farra, Melindrosa, revista da Bahia, Única e A Renascença.

Pintor, chargista e publicitário, Nicolay Tischenko (foto) ajudou, com suas charges, a perceber as ambiguidades da condição humana, as contradições disfarçadas, os anseios e insatisfações. Seu traço vivo, forte, fixou nossos tipos, usos e costumes sociais e políticos, dando às suas figuras um “décor” próprio. Seus desenhos foram publicados de 1958 a 1975 no jornal a Tarde. Seu traço era marcado pela sensibilidade europeia e, naquela época, foi uma grande sensação no mercado. A repercussão das charges publicadas em A Tarde incentivou o desenhista a reuni-las no livro Charges.


No início (1958) ele não entendia o coloquialismo do nosso idioma, mas seu traço forte se destacava logo nas charges que foram publicadas no jornal A Tarde. O russo Tischenko aos poucos foi conhecendo nossa cultura, nossa política e idioma. Preferiu a charge à caricatura, pois inspirava mais o riso do que o temor. Afinal, a caricatura individualizava o ataque, abrindo o flanco a retaliações diretas. A charge política é uma forma de combate que além de fazer rir, deve levar o leitor à reflexão, ainda que sob a ótica da descontração e do entretenimento.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

16 agosto 2011

Humor gráfico na Bahia (2)

Na Bahia o desenho de humor é desprezado como forma artística. Os humoristas não são considerados sérios. Ainda que se empenhem, de lança em riste. Quixotes modernos contra as forças do poder, são considerados garotos divertidos. Mas eles continuam trabalhando e ferindo, fazendo ver, falando com milhares de pessoas de cada vez, fazendo rir e refletir. Para um povo acostumado à imagem e à comunicação rápida, uma população que lê pouco, o desenho de humor é informação. Afinal, o humor é uma forma de retratar a realidade social. Uma linguagem crítica, mesmo quando parece descompromissada.


Em nossa terra alguns artistas usaram o desenho para comentários sobre a política, a moda e a vida social. O principal elemento desses desenhos, quase sempre contendo duras críticas sociais, era a caricatura. Nos jornais humorísticos da época, quase sempre com o formato tabloide, eram contadas histórias através de desenhos, impressas apenas num dos lados e, geralmente numeradas – o que era útil para o caso de ser uma série vital para um colecionador do século XIX. Os desenhistas H. Odilon, J.Cardoso, Gavarni e Fortunato Soares dos Santos eram os mais destacados.


São de autoria de H.Odilon as charges políticas de Bahia Ilustrada do nº01 ao nº26, em 1867. A partir do nº27, J.Cardoso começa a trabalhar como chargista, ao lado de H. Odilon. Quanto a Gavarnio, ilustrou o jornal O Faísca, de 1885 a maio de 1886, enquanto Fortunato Soares dos Santos, aluno de desenho de Cañisares, na antiga Academia de Belas Artes, é responsável pelas charges políticas dos periódicos O Faísca, em 1886, e A Malagueta nos anos de 1897 e 1898. Em 22 de outubro de 1885 começou a circular o periódico ilustrado e humorístico O Faísca, de Alexandre Fernandes, que durou até o número 79, em 1887. O desenhista Gavarni publicou a partir do número quatro desse jornal (18886) uma história com desenhos em sequencia: Entrevista de S.M. com os índios corôados. Trata-se do encontro do branco com os índios guaranys. As legendas de fina ironia e profundo sarcasmo. Gavarni elaborou narrativas por meio de sequência de imagens acompanhando discurso verbal.


A partir do número 56 os desenhos sequenciados foram feitos por Fortunato. E desta vez as personagens lembram recortes em negrito, contrastando com os desenhos claros. No número 68 desse humorístico (Ano II, 1887), numa pequena historieta, um garoto anunciava numa tabuleta: Attenção!!! No próximo As Aventuras de Caipira, typo muito conhecido em sua casa delle. E no Faisca nº69 as duas páginas centrais aparecia a HQ do Zé Caipira com seis cenas sequenciadas. A narrativa é povoada por figuras colhidas em gestos espontâneos e momentâneo, que é tanto atributo das personagens em movimento quanto é qualidade de recurso gráfico do autor. As personagens em movimento, detidas numa fração de tempo, tal como no instantâneo fotográfico, são surpreendidas nas expressões da face e do corpo.

A historieta prossegue nos números 70, 71, 72 e 74. Os números 75, 76 e 77 não apresentam historietas. No número 78, uma historieta de Zé Caipira saindo do hospital em sete cenas sequenciadas que conta como Zé fugiu do hospital, assustado com a morte do companheiro numa operação. A narrativa quadrinizada continua no número 79 do jornal onde, em sete cenas, mostra a sua ida ao Rio Vermelho num pequeno bonde, sua queda até a decisão: “O meio mais seguro é ir a pé”.


Fortunato continuou a desenhar no humorístico A Malagueta (jornal de caricaturas) que teve seu primeiro número editado em 15 de dezembro de 1897 e terminou em 23 de dezembro de 1898. No segundo número, de 31 de dezembro de 1897, Fortunato publica a historieta Scenas de Natal na Bahia, satirizando a missa do galo e outros momentos natalinos comemorados na Bahia. Nessa época todas as histórias em imagens sequenciadas traziam textos sem balões. Esses desenhistas exerceram grande influência em muitos artistas da época, ajudando a estabelecer a Bahia como um dos centros criativos do humorismo.


As publicações ilustradas criaram um vasto repertório iconográfico, até hoje carente de melhores avaliações, cuja difusão levou vantagem sobre as outras formas de expressão visual da época. Essas publicações foram mais pródigas do que as “belas artes” na elaboração e divulgação das imagens do cotidiano do país e da vida corrente. É bom lembrar que desde o dia28 de julho de 1831 já circulava em Salvador, O Pereira, jornal humorístico que durou até abril de 1832, com 26 números. Reapareceu em 1835 a 1836. A partir daí surgiram O Pereirinha, A ronda dos Capadócios, O Diabo a Quatro, O Diabo Coxo, O Mequetrefe, A Mutuca, O Patusco entre outros. No período de 1880 a 1900 a Bahia já publicava mais de 50 periódicos humorísticos de pequeno formato e curta duração. Entre eles estão O Satanaz, A troça, O Neto do Diabo, O Papagaio, Foia dos Rocêro e D. Ratão. Satíricos, audaciosos, irreverentes. Assim eram os jornais de outrora.

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15 agosto 2011

Humor gráfico na Bahia (1)

A produção humorística brasileira foi disseminada na produção literária. O caráter de denúncia, revestido de ironia e humor, marcou os primeiros escritos de argutos observadores que fizeram da pena o instrumento de crítica lúcida e afiada, traduzida na melhor literatura. Antes de aparecer graficamente, a caricatura brasileira já se apresentava verbalmente com o baiano Frei Vicente do Salvador (1564-c.1639), que satirizava a máquina burocrática que entravava a administração do país desde o início da colonização. Ele alertou para um estado do Brasil “tão pouco estável, que como não haver cem anos (…) que se começou a povoar, já que se ham despovoando alguns lugares (…) sendo a terra tam grande e fértil (…) nem poristo vae em augmento, antes em diminuição” (sic).


Gregório de Mattos Guerra (1633-1696), o Boca do Inferno, também ironizou verbalmente a nobreza contemporânea. O poeta talvez tenha inaugurado o portrait-chartge entre nós com os retratos verbais deformados das autoridades da época, a exemplo daquele do Governador Antonio Luís de Câmara Countinho, caricaturado com seu “nariz de embono/com tal sacada,/que entra na escada/duas horas primeiro que seu dono”. Lulu Parola foi outro importante crítico de nossa sociedade.


O século XIX viu nascer as revistas humorísticas, estimuladas pelos avanços nas técnicas de imprensa e reprodução que possibilitaram o aumento nas tiragens e o consequente aumento do público leitor. Esta associação entre humor e imprensa, especialmente destacada nos países europeus, também ocorreu nos principais centros urbanos brasileiros, embora tenha sido um pouco mais tardia, já que os processos de modernização da imprensa no Brasil foram mais lentos e concentraram-se nas três últimas décadas do século XIX.


Reprimida em determinados momentos políticos, indesejada como elementos de sátira, a caricatura, o desenho de humor surgido com a chegada da Família Real já revelava grandes artistas. O humor gráfico sempre teve força na vida baiana, ao dar as mais variadas interpretações à nossa realidade. Desde que a imprensa foi instalada no Brasil, a caricatura, que antes era divulgada em pranchas (semelhantes aos atuais posters), constituiu-se num elemento importante nas disputas sociais e políticas.


A importância do desenho humorístico na imprensa, seja como documento histórico, como fonte de informação social e política, como fenômeno estético e como forma de expressão artística e literária, é inegável. O humor gráfico exige de seu criador um mínimo de destreza de traço e um mínimo de julgamento estético. Exige muita síntese, tanto de traços, por causa do impacto visual que deve provocar, quanto de significado, que tem que ser necessariamente claro para que a mensagem passe a todos os leitores.


Os caricaturistas e chargistas são responsáveis pelas entrelinhas da história oficial impressa, traçadas no dia a dia com a atualidade de um editorial e a potência de uma bomba. Uma parte importante do pensamento brasileiro está no traço desses humoristas. Afinal, a caricatura, a charge, o desenho de humor, mesmo sendo uma área frequentemente esquecida, são sempre um indício seguro do pensamento e cultura de uma época. O desenho de humor é uma parte narrativa e descritiva da arte do nosso tempo. Ele é necessário para a crítica social, para fixar os novos hábitos e costumes e para demonstrar com vigor mais imediato as novas ideias.

A pouca importância dada à obra gráfica vem do preconceito que muitos estudiosos de arte alimentam em relação ao desenho e à gravura, pois esses estudiosos só valorizam obras de parede, em vistosas molduras a óleo. As obras gráficas, muitas delas de autênticos valores sociais e culturais, ficam no esquecimento total. O que muitos não sabem é que a maioria dos grandes nomes da pintura realizou-se primeiro no desenho, na gravura.


A crítica jocosa, assumida pelo povo, não se faz esperar, expressa desde a Colônia no teatro, nas festividades populares, nos festejos de Judas, nos bumba meu boi, representações figurada e vida da caricatura burlesca de nossos governantes e costumes. E o “País do Carnaval” se delineou traduzido nos inúmeros clubes carnavalescos que vestiam nas ruas seus préstitos repletos de simbologia, anunciando significativamente a arte da caricatura. Completando a latência da veia cômica da Bahia, vicejou a anedota (uma caricatura oral), a caricatura “daqueles que não sabem desenhar”.


A tradição da representação humorística já vinha do jornalismo satírico da Regência e dos folhetins cômicos do Segundo Reinado e ganha maior força e se aprofunda com o desenvolvimento da imprensa e com a proliferação das revistas ilustradas e do reclame publicitário no inicio da República. Surgem em seguida as revistas fartamente ilustradas. E a expansão da caricatura e das páginas de humor esteve na razão direta de mudança editoriais e iniciativas gráficas pioneiras. Nas duas primeiras décadas do século XX também a publicidade, o teatro de revista e as primeiras produções cinematográficas pareciam estreitamente vinculadas.


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