16 junho 2011

Balada de um Homem Solitário (13)

Em voltas com o eu


Ele seguia seu caminho cabisbaixo. Ia só, enigmático. Procurava entre curvas e estradas tortas o caminho de si, do seu outro eu,m do eu interior que havia deixado longe. A ansiedade tornava-se maior quando pensava nisso. Vivia agora recompondo, aos poucos, o passado distante do seu mundo, um mundo diferente deste, puro, alegre, passivo e belo. Voltava ao seu mundo exterior onde objetos transpassavam à sua frente e ele seguia sem nada ver, mesmo nas poças de sangue que afogavam corpos tristes.

Ruídos e gemidos cortavam o ar e ele nada ouvia, nem os assobios de um velho cantador que antes era ouvido com lembranças. O céu estava azul, e no ar, um vento trazia de longe um aroma agradável que balançava as folhas das árvores do parque por onde ela passa agora, mas nada sente. Está solitário, mudo, cego e surdo a todos e tudo o que está em volta. É ele sim, estava assim quando não era completo, com seu outro eu. Aquilo fazia falta, nada existia para ele sem aquela parte. Ele agora sentia-se como uma árvore sem raiz, uma via sem ser feliz, um amor sem ter o que se diz...

Longe, muito longe da visão dos olhos, um pensamento estava imerso em saudade e o mundo todo reconhecia sua própria face. E ele continuava a andar não prestando a atenção as pessoas que passava,m por perto. Andava...ansiava chegar para poder unir-se ao outro eu. No local por demais distante, não sabendo onde, guardou seu eu interior, temeroso da humanidade. Era preciso andar muito para encontrá-lo. Guardou, lembra-se bem, há muito tempo, e agora volta para restituí-lo. E esse eu,. Esse ponto em que deixou num canto do infinito, espera-o.

Volta a sonhar as realidades passadas no sonho, ver seus dedos um desprendimento de si mesmo, seu braço no braço seu e a vida o abraça entre carícias, a outra sua face, um sorriso que se completa com o seu outro eu, a um só sorriso....sonhando, o tempo parou e o riso tornou-se mais vivo e dissipou ser e ele voltou ao seu mundo virtual onde se encontra entre a multidão que se dispersa, indiferente. E ele, imerso naquela massa, tornou-se ilha, isolou-se no imenso mar de nós mesmo. Tentava olhar e conversar, mas nada via, e nem sentia o som de sua voz. Não adianta conversar com alguém, pois os seus problemas eram os de todos. E cada um daquele ser fechava-se inteiramente, sem querer ouvir ver.

Muitos atiram-se do alto do sonho espatifando-se na realidade, mas ele procurava aproximar-se do seu eu que vagava solitário à procura da couraça para desenvolver a vida interior no exterior do mundo. Súbito, começou a sentir o pulsar mais forte, o sangue fluir mais velozmente. Seus olhos tornaram-se brilhante, parecia enxergar mais vivamente, os ouvidos tornaram-se apurados e ele ouvia o leve sopro da brisa derrubar as folhas secas. O corpo transformou-se. Então, respirou mais fundo e percebeu que seu eu estava próximo. Já sentia vida. Ao olhar o mundo, notou que era imenso, parado, procurou ao lado a estrada que antes seguia, não viu mais. Reconheceu que o passado foi enterrado longe e não seria importante relembrá-lo. Agora, já completo, continuou o caminho neste ciclo da vida. Seu sorriso estava largo, seus passos mais seguros, sua rota mais certa....

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Estamos publicando um folhetim com 16 capítulos dessa história escrita em 1975

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).
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Final de junho até final de agosto o blog vai ser invadido pelos quadrinhos. Aguardem!!!

15 junho 2011

Balada de um Homem Solitário (12)

Competição


O ano findara. Concluindo o segundo grau, chegou a hora de fazer o Vestibular, o momento de conflito em que se tem que ser frio quanto a um futuro incerto....O começo da certeza de que não se poderá mesmo transformar o mundo.

“As horas que antecedem o Vestibular são como passarinhos. Quando a gente começa a admirar seu voo solto e descontraído no espaço, eles desaparecem”. Assim, muitos dos vestibulandos, inclusive eu, justificara a falta de preparação ou interesse por esse tipo de seleção.

Fui envolvido na seleção, nessa luta desigual a que assistimos, de milhares de jovens que disputam as poucas vagas, sendo a própria negação da validade desse tipo de seleção, e circunstâncias as mais diversas contribuem para aprovar ou reprovar estudantes, a começar pelo estado emocional e a sorte nos testes de múltiplas respostas. Fiquei com o olhar vago, longe, olhando os gestos na hora da prova que eram todos iguais: dedos revolvendo cabelos, bocas mordendo lápis ou roendo unhas, mãos escorando cabeças, olhos perdendo-se em um ponto qualquer da sala. E foi assim que meus olhos se encontraram com nos de uma garota ao lado, mas fomos logo repreendidos pelo fiscal. Os mais nervosos sentiam-se mal, desmaiavam....Poucos eram os que demonstravam sinais de relaxamento ou descontração.

Aquilo para mim era absurdo e, por isso mesmo, fazia alheio à minha vontade. A seleção era – e ainda é – orientada exclusivamente pelos números de lugares disponíveis nas faculdades, o que já eram poucas. Para mim o certo seria verificar conhecimentos do candidato em níveis antecipadamente fixados para que o mesmo fizesse jus a continuidade dos estudos, já em nível superior.

O fato foi que passei, juntamente com Álvaro – este fez no Rio de Janeiro, pois iria participar das Olimpíadas no exterior -, raspamos os cabelos e fizemos novas amizades. Álvaro seguiu seu curso de História e eu, Comunicação, dando continuidade à minha vida de fotógrafo, vida cesta que era como uma fotografia, parada no tempo e espaço. Só externo. Os sussurros e as vozes apelativas de “você tem de ser alguém”, pressupondo já um fracasso antecipado, a caída do abismo, foi ficando para trás, as novas amizades, o novo colégio, tudo aquilo já estava na rotina.

Comecei a conhecer em mim alguma coisa, levando-me a compreender porque era assim e, portanto, amando-me e amando o próximo. Conheci o mal e procurava afastar-me o mais possível dele, mas no mundo quem não resistir ao mal, este o leva, pois a maioria é feita por maldade, ódio, vingança, condicionou-se a isso. Conheci o bom e a ele juntei-me,. Mas, algumas coisas minha ficaram montadas em mim, como a perseguir-me e até tento tirá-las, arrancar, nem que isso custe a minha vida.

Vida...haverá alguém que realmente vivesse? Muitos vegetam, outros balbuciam vi...mas ver eles não veem. Dotados de olhos, eles não enxergam que estão à beira do abismo. Dotados de nariz, eles não cheiram, e de ouvidos não ouvem. Eles movimentam apenas um movimento que perdeu de humano e se tornou mecânico.

Os pensamentos vinham à minha mente descontrolado, aquilo precisava ter um fim naquele momento. Resolvi ligar o velho toca fitas. A música entrou no recinto, quebrou o silêncio e mudou meus pensamentos. Parece até que a música falava por mim ou tomava a minha forma. Mas infelizmente já não podia escutá-la sozinho, lá vem um colega perguntar o nome da música, não sei porque tem de saber o nome de tudo. Digo-lhe que é qualquer coisa de aproveitável, o que não o convenceu, pois achou o nome bem estranho. Então tive de mudar o nome para “Roda Viva”. Ele aceitou imediatamente, o que foi ótimo para mim, assim não poderia ouvir a música.

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14 junho 2011

Balada de um Homem Solitário (11)

Competição


O ano findara. Concluindo o segundo grau, chegou a hora de fazer o Vestibular, o momento de conflito em que se tem que ser frio quanto a um futuro incerto....O começo da certeza de que não se poderá mesmo transformar o mundo.

“As horas que antecedem o Vestibular são como passarinhos. Quando a gente começa a admirar seu voo solto e descontraído no espaço, eles desaparecem”. Assim, muitos dos vestibulandos, inclusive eu, justificara a falta de preparação ou interesse por esse tipo de seleção.

Fui envolvido na seleção, nessa luta desigual a que assistimos, de milhares de jovens que disputam as poucas vagas, sendo a própria negação da validade desse tipo de seleção, e circunstâncias as mais diversas contribuem para aprovar ou reprovar estudantes, a começar pelo estado emocional e a sorte nos testes de múltiplas respostas. Fiquei com o olhar vago, longe, olhando os gestos na hora da prova que eram todos iguais: dedos revolvendo cabelos, bocas mordendo lápis ou roendo unhas, mãos escorando cabeças, olhos perdendo-se em um ponto qualquer da sala. E foi assim que meus olhos se encontraram com nos de uma garota ao lado, mas fomos logo repreendidos pelo fiscal. Os mais nervosos sentiam-se mal, desmaiavam....Poucos eram os que demonstravam sinais de relaxamento ou descontração.

Aquilo para mim era absurdo e, por isso mesmo, fazia alheio à minha vontade. A seleção era – e ainda é – orientada exclusivamente pelos números de lugares disponíveis nas faculdades, o que já eram poucas. Para mim o certo seria verificar conhecimentos do candidato em níveis antecipadamente fixados para que o mesmo fizesse jus a continuidade dos estudos, já em nível superior.

O fato foi que passei, juntamente com Álvaro – este fez no Rio de Janeiro, pois iria participar das Olimpíadas no exterior -, raspamos os cabelos e fizemos novas amizades. Álvaro seguiu seu curso de História e eu, Comunicação, dando continuidade à minha vida de fotógrafo, vida cesta que era como uma fotografia, parada no tempo e espaço. Só externo. Os sussurros e as vozes apelativas de “você tem de ser alguém”, pressupondo já um fracasso antecipado, a caída do abismo, foi ficando para trás, as novas amizades, o novo colégio, tudo aquilo já estava na rotina.

Comecei a conhecer em mim alguma coisa, levando-me a compreender porque era assim e, portanto, amando-me e amando o próximo. Conheci o mal e procurava afastar-me o mais possível dele, mas no mundo quem não resistir ao mal, este o leva, pois a maioria é feita por maldade, ódio, vingança, condicionou-se a isso. Conheci o bom e a ele juntei-me,. Mas, algumas coisas minha ficaram montadas em mim, como a perseguir-me e até tento tirá-las, arrancar, nem que isso custe a minha vida.

Vida...haverá alguém que realmente vivesse? Muitos vegetam, outros balbuciam vi...mas ver eles não veem. Dotados de olhos, eles não enxergam que estão à beira do abismo. Dotados de nariz, eles não cheiram, e de ouvidos não ouvem. Eles movimentam apenas um movimento que perdeu de humano e se tornou mecânico.

Os pensamentos vinham à minha mente descontrolado, aquilo precisava ter um fim naquele momento. Resolvi ligar o velho toca fitas. A música entrou no recinto, quebrou o silêncio e mudou meus pensamentos. Parece até que a música falava por mim ou tomava a minha forma. Mas infelizmente já não podia escutá-la sozinho, lá vem um colega perguntar o nome da música, não sei porque tem de saber o nome de tudo. Digo-lhe que é qualquer coisa de aproveitável, o que não o convenceu, pois achou o nome bem estranho. Então tive de mudar o nome para “Roda Viva”. Ele aceitou imediatamente, o que foi ótimo para mim, assim não poderia ouvir a música.

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13 junho 2011

Balada de um Homem Solitário (10)


Um lugar ao sol


Ao voltar para Salvador, bem perto do cais, vejo encaminhar-se para mim um cara, que não me pareceu desconhecido. Conhecia, fosse donde fosse, mas onde, diabo de memória. Aproximou-se de mim e falou:

-- Aposto que não me conhece, senhor Augusto?

-- Não me lembro...desculpe-me....

-- Sou Marcos, aquele do colégio...

Recuei espantado...”impossível de acreditar”, pensei alto, “mas como foi que ficoui desse jeito rapaz?”, exclamei mais espantado ainda...

-- Não é preciso contar-lhe nada – disse ele enfim -, o senhor pode adivinhar. Lembra-se daquelas minhas conquistas?

-- Sim, lembro-me, mas me diga o que lhe aconteceu?

-- Você não sabe da minha história... Aqui abandonado pelo meu pai, pessoa de recursos e que vivia aqui, no bairro da Graça quando ainda engatinhava. Minha mãe, de família humilde, buscou proteção junto aos parentes de meu pai, na ocasião, residente em Ilhéus. Tudo lhe foi negado. Ela resolveu então regressar a Salvador, passando a morar num terreno de invasão, nos Alagados, no bairro do Uruguai. Fui dado para criar a uma tria que morava na Ladeira da Praça, irmã de meu pai que, aos cinco anos, me matriculou na escola. Depois ingressei no colégio, quando o conheci, mas, por falta de recursos e orientação, abandonei os estudos. Minha tia ameaçava-me constantemente. Um dia, resolvi abandona-la e passei a residir nos Alagados, em uma casa de tábuas de caixotes. E foi aí que conheci uns amigos que me levaram, ao Maciel, o local das prostitutas. Ah!, conheci Teresa, uma mulher que viveu comigo...

-- Durante esse período – continuou Marcos -, conheci diversos marginais. Mas como a vida é dura, resolvi trabalhar em uma casa de tecidos na Cidade Baixa. Depois, Tereza me abandonou e passei noites em farras e bebidas, perdendo o emprego. Tornei-me marginal. Inicialmente acompanhava ladrões e ficava à espreita para avisá-los da aproximação der pessoas, na bandeira, como dizem. Mas essa vida não me agradava. Procurava sair daquele submundo, mas cada vez mais me atolava nele. Procurava algum ponto da vida e encontrava o desencontro. Aspirava a poluição e via minha trajetória. Vasculhava o passado e não via o meu futuro. O tempo foi passando e compreendi que não podia retornar. Procuro a compreensão e não compreendo. Sei que chorei, sem sofrer. Hoje sofro sem chorar. Perdi o equilíbrio emocional. Procurei em vão emprego, muitos me prometiam hoje, amanhã e o tempo foi passando, sem uma definição. Devido a uma série de incidentes que me foram desgostando, tomei uma atitude, iria me destruir, suicidar-me do Elevador Lacerda, mas quando estava decidido, encontrei você.

Ouvi aquilo de um só sopro, estupefato, só consegui articular isso:

- Vou te ajudar!

Um sorriso lhe abriu os lábios.

-- Não é o primeiro que me promete, e não sei se será o último que não me fará nada...

-- Creio que devia s considerar-me. A nossa amizade não morreu...

-- O que eu quero, senhor Augusto, é um diálogo. Quero uma ajuda. Não me envergonho do que fui e nem do que sou. Quero ser gente. Quero trabalhar e um lar...

-- Não se preocupe, farei tudo por você. Vamos à minha casa, você pode tomar um banho, mudar de roupa, almoçar comigo, depois conversaremos.

Por mais que tentasse ficar alegre, almocei triste. A imagem reminescente de criança alegre, aquilo tudo foi como bola de sabão, que estourou com um simples sopro. Mais tarde, consegui um emprego de logotipo no jornal e o amigo, aos poucos, conseguiu estabilizar-se em um lugar ao sol. Voltou em paz com a sociedade e consigo próprio.

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10 junho 2011

Balada de um Homem Solitário (9)

Itaparica


Acordei tarde e cheguei atrasado na redação do jornal. Minha pauta estava em cima da mesa da casa, teria que ir bater umas fotos no Pelourinho, pois o governo pretendia restaurar algumas casas antigas que pareciam querer desabar. Fui rápido para o local, chegando lá várias mulheres sentadas no batente chamavam os homens que passavam. Elas sorriam, achando fácil a vida. São mulheres quentes, estão sempre a olhar-se no espelho, a pintar-se exageradamente. Depilam-se nas partes mais secretas, estendem as mamas flácidas, solicitam o desejo dos seus amantes com gritinhos trêmulos. Bebem e dançam no meio dos jovens, fazendo amor. Todos as troçam e as chamam de loucas, apesar de satisfazer-se com as mesmas. Entretanto, elas estão satisfeitas consigo próprias, nadam num mar de delícias angustiantes.

Os que consideram ridículas, pensem se não valerá mais deixar correr a vida agradavelmente nessa loucura. É verdade que não lhes importa a desonra que a sua conduta lhes traz aos olhos dos outros. Não a sentem ou, então, não lhes dão atenção. A vergonha, a infâmia e o insulto são males quando se sentem,. O mesmo não acontece quando se apanha com uma pedra na cabeça. Não existe mal, quando não se sente. Pode o povo inteiro assobiar, não importa, se a ti próprio lhe aplaudires. E só a loucura te permite isso. Muitos acham a loucura uma resposta para a verdade. O primeiro que se manifestou sobre a loucura, elogiando-a por sinal, foi o holandês, Erasmo de Roterdan.

Como estava ganhando razoavelmente bem, mudei para um quarto ao lado, não ocupando mais o quarto do amigo Álvaro, apesar da insistência deste em afirmar que gastaria dinheiro à toa; mas o rapaz lia muito sobre vultos históricos, até altas horas da noite, e eu cansado do trabalho, tinha que dormir com luz acessa, uma tortura para mim, apesar de nunca ter dito isso ao Álvaro, confirmando até que gostava, para não contrariá-lo do seu gosto pela leitura noturna.

Na hora do almoço, todos os companheiros dos quartos vizinhos desciam e almoçavam juntos, na sala do térreo. Na hora da janta, muitas vezes chegava cansado e nem vontade tinha para descer. Algumas vezes, a mulher do pensionato, uma solteirona ou viúva,. Não sei bem, levava-me a sopa, ao que ficava muito agradecido, dizendo-lhe para não se preocupar muito comigo.

No fim da tarde, a mulher bateu à porta do quartinho, e como cochilava e não dava resposta, ela entrou cautelosamente e colocou, à beira da cama, uma xícara de café com leite. Eu, que a vira entrar, conservei-me, por cansaço ou por gosto, deitado de olhos fechados, não deixando perceber que estava acordado. A mulher lançou um olhar pra mim, cuja cabeça apoiava sobre o braço e o peito, e mostrava todo o meu vigor.

Surpreendida pela formosura dos negros cabelos, deteve-se um pouco examinando o belo rapaz, acima dos olhos cerrados, as espessas sobrancelhas sobre a pele torneada do sol, uma boca bem delineada e o pescoço grosso, mas esguio. Aquilo a excitava, e pensou no tempo em que levada pelo capricho, se deixou amar por um rapaz desconhecido.

Quase toda a tardinha, ocorria aquilo, isto é, quando me encontrava no quarto, e logo após a demorada observação, ela saía apressada como se não tivesse um minuto a perder. Uma noite, quando todos dormiam, não aguentou mais e foi ao meu quarto. Impressinou-a tanto a minha enorme nudez que teve o ímpeto de retroceder. Eu, como era normal, ia dormir sem nenhuma coberta, nada tinha para cobrir o que estava descoberto.

“Perdão”, se desculpou, “eu não sabia que você esta aqui, ou melhor, vim apanhar a xícara que esqueci”, mas abaixou o tom de voz para não acordar ninguém. “Vem cá”, disse, ela obedeceu. Deteve-se junto da cama, suando frio, enquanto lhe acariciava os tornozelos com, a polpa dos dedos e depois a barriga das pernas, as coxas....murmurando baixinho palavras doces. Beijei-a nos olhos, na boca, no pescoço. Minhas mãos tornaram-se ágeis e firmes. Deslizando-as por entre as coxas, e num movimento brusco retirei a pequena peça, despojando-a da sua intimidade. Percorria com os lábios aqueles contornos tão arredondados, de carnes acetinadas, fina e tão polida.

“Me apalpa”, disse ela baixinho e nervosa, “assim, assim”. Depois tudo seguiu um ritmo quente e novo, nascido naquele instante. Eu ansiava que essa operação não terminasse nunca. Houve a agonia dos corpos, a posse, a união, o prazer inconcebível....


***

O trajeto que leva do pensionato à redação do jornal estava tornando-se tão familiar que percorria quase sem ver. Muitas vezes, quando o trabalho era relativamente fácil, voltava mais cedo e passava na casa de Ana, agora que seus pais sabem que namoro a sua filha. Ficamos no seu quarto ouvindo na sua pequena vitrola, as músicas de Mozart, Bethoven. Ana adorava música erudita, tinha até um piano e estudava musica desde pequena. Seus pais faziam tudo por ela.

Ajoelhando-se no assoalho, fiquei acomodado sobre a cama e pedi que tocasse uma música. “Qual?”, perguntou-me. “A que gosta mais de tocar”, respondi. Ela tocava uma de Stravinski. A mão deslizava suavemente sobre as teclas do piano, a música penetrava-me. Aquilo fascinava-me, pois tinha privilégio de ouvir Ana tocar, só Na a. Quando voltei a mim, não por ter perdido a lucidez, e sim por ter penetrado numa outra dimensão, aproximei-me dela e quando ia toca-lhe os cabelos, afastei-me depressa. Compreendi que não seria honesto interrompê-la.

Outra vez abracei meus joelhos e fiquei escutando, só escutando....”Toque mais uma, você toca divino”, afirmei. “Ou você tem maus ouvidos para dizer isso, ou não entende nada de música”, disse-me ela. “Não importa o não entendimento, importa entender você, sua música....”.

-- Os poetas – murmurou Ana – vivem num conflito entre o sonho e a realidade. Oferecem alento e voz aos nossos sonhos.

-- É...a estrela tem a sua luz – confirmei -, assim como a flor a sua fragrância....

-- O poeta a sua harmonia – retrucou ela -, e o homem, os seus desejos...

-- E o amor, onde entra? – perguntei maliciosamente.

-- Em tudo!

O tempo passou e começou a escurecer, só um pouco de luz caia no meu rosto. Quando dávamos fé, já era noite. Ana era meiga e suave como a música. Ouvia sempre.

***

Era noite calma e profunda. No céu distante, infinitas estrelas palpitavam e eu estava pensando na minha solidão. De repente, senti que alguém empurrava a porta bem devagar. A princípio, tive medo, pois aquela hora não era de se esperar visitas. Estava tão absorto nas estrelas que me doeu fundo aquela volta à realidade, em noite de insônia. Virei-me e o que vi: o meu sonho num corpo de mulher. Vestia-se apenas com uma manta de cambraia fina,m onde apareciam nítidos os bicos dos seios. Era a mulher do pensionato que ficou sendo minha amante. Acariciei os seus cabelos, o colo aveludado, o ombro polido. E tudo foi como num sonho....

***

O trabalho de sábado passado foi mais atraente. A reportagem fotográfica consistia em ir à ilha de Itaparica recolher fotos sobre todos os aspectos do local, para uma publicação na edição dominical. Pegamos a lancha, eu e Marcelo, o repórter que iria fazer a matéria sobre a ilha, enquanto fotografava tudo. Ele era um rapaz magro, com os cabelos negros e nariz aquilino. Temerário ardor brilhava-lhes nos olhos. O espesso bigode e a barba comprida, não aparada desde muito tempo, davam-lhe um aspecto sério que não concordava com ele.

Alto e desengonçado, tinha exatamente a minha altura. Os cabelos caiam-lhe inamistosos, só realçando uma boca fina e contraída, dando em conjunto, um aspecto repulsivo. Suas mãos, para completar, bem longas, finas e cobertas de pelos negros, onde terminavam com dedos finos como garras. Na redação era mais conhecido como Carcará, pelo seu aspecto.

Voltando a lancha, Marcelo estava absorto em seus pensamentos e, ao mesmo tempo, sorrindo embaraçado, pelo fato das ondas baterem constantemente no casco da lancha, m olhando-lhe de surpresa e interrompendo seus pensamentos.

Paras a proa, avistava-se terra – uma nesga de terra que gradualmente se aproximava. Suas elevações se iam tornando m ais nítidas; a princípio, pareciam nuas e desoladas, mas posteriormente viu-se que as encostas estavam cobertas de arvorezinhas, de uma cor embalsamada, sem dúvida alguma, laranjeira.

Ao longo da praia, agora mais claramente discernível, cresciam altas árvores e uma vegetação extensa. Eram coqueiros para todos os lados. À medida que se aproximavam, um aroma como eu jamais conhecera, veio envolver-me. Nessa praia, os coqueiros erguiam para o alto, contra o céu limpo, e outras árvores desconhecidas por mim, e com troncos, ainda mais vigoroso, subiam do solo fecundo. Fazia alguns ângulos e clic!, a foto, clic!, mais outra. Se pudesse, ficaria para ver o pôr do sol, mas a reportagem teria que ser entregue antes das 18 horas

Marcelo e eu saltamos e começamos a observar tudo ao redor. Marcelo perguntava às pessoas e anotava tudo. Eu, por minha vez, procurava melhores ângulos para aquele lugar um pouco e tão perto, afastado da civilização barulhenta. O forte de São Lourenço e sua igreja, Ponta de Areia e outros lugares pitorescos. Ao voltar, fiquei parado a contemplar o mar batendo nas pedras, as espumas brancas e o barulho gostoso da água.

Lá longe, uma jangada deslizava lentamente por sobre o verde , no alto um azul, tão azul e o vento acariciando de leve o meu rosto. Respirei fundo, sentindo a maresia e uma imensa saudade de mim mesmo. Dos tempos de peladas na hora da arraia, dos jogos de bolinhas de gude, do furapé, arraia, pião, de tempos passados...

No domingo seguinte o chefe de reportagem elogiou nossos trabalhos e, devido a grande aceitação por parte dos leitores, passamos a visitar outras cidades a fim de colher novas reportagens, mostrando aos leitores os diversos povos, costumes, tradições e riquezas de vários municípios afastados da cidade. Santo Amaro, Cachoeira, Feira de Santana. Nesta última, passei na casa de meus pais parta ver se os mesmos estavam passando bem e encontrei minha mãe lamentando o silêncio de algumas semanas não ter-lhes escrito. Defendi falando sobre a falta de tempo, o que não a convenceu, mas serviu para confortá-la.


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09 junho 2011

Balada de um Homem Solitáriuo (8)

A descoberta

Foi numa tarde, parado em frente a uma loja de artigos esportivos, vi uma bela moça. Lancei um olhar, um pouco sonhador, angustiado e levemente excitado, para contemplar o rosto. Fiquei surpreendido pela formosura dos negros cabelos e pela beleza quase infantil de fisionomia despreocupada. Os olhos dela eram evidentemente sem segredo, sem malícia, mas com vivacidade. A bela moça de quem o sonhara tantas noites maravilhosas, estava ali, diante de mim, vivinha da silva, bem materializada.

Olhei mais uma vez, duvidando da minha visão e vi mais, notei sua alva pele que parecia ser macia, a boca vermelho-vivo e um pescoço esguio. Tudo me agradava bastante. Fiquei assim contemplando e, aos poucos, fui me aproximando quando alguém saiu por trás da porta da loja. Era um rapaz quase da minha idade, com um par de raquetes e uma bola na mão.

Conversou animado, rapidamente e saíram daquele local. Fiquei simplesmente olhando, passivamente, tudo aquilo foi tão rápido. O rapaz que o acompanhara era alto e forte, tinha cabelos negros e ondulados e uma fisionomia aberta, quase semelhante a da moça. Parece que era irmão dela, pensei, mas tenho certeza que a perdi....para sempre. E vim a descobrir que pobreza é não ser amado, e miséria é deixar de ser amado.

Aquilo deixou algumas marcas que logo se foram apagando, pois quando voltava a sonhar, sonhava na realidade e via que a mulher é toda interioridade, acolhedora e calorosa. E ele, o homem, se revelava pelo que fazia. Ele atingia o mundo exterior fazendo, agindo. Ele dava o presente, ao passo que a mulher se revelava recebendo, acolhendo, interiorizando.

Cada homem e cada mulher descobrem o seu modo humano e próprio de aparecer diante do outro. Cada um sabe que aparece ao outro de uma forma especial e única. Ele não é ela, e ela não é ele, mas ambos sentem, nas suas diferenciações tão profundas a unidade, para onde marcham. Mas um não sabe como é que o outro vê sua forma e seu semblante, compreende suas atitudes e seus gestos, ouve a sua voz e percebe um todo indivisível.

Estava indo de encontro a Álvaro, pensativo, quando este me mostrou a badalação do momento: a eleição do novo presidente dos Estados Unidos – Nixon – que logo de início aproveitou uma ocasião para anunciar que as tropas norte-americanas seriam retiradas do Vietnã, uma guerra que se prolongou desde muito tempo. Enquanto o vasto noticiário tomava conta do jornal, as notas nacionais ficaram restritas aos rodapés das páginas.

-- Para mim – opinou Álvaro – acho que John Kennedy foi um dos melhores políticos dos Estados Unidos. Era um moralista radical, preocupado com a vida pobre das minorias étnicas.

-- Mas foi incapaz – retruquei – contudo, de questionar a ordem das coisas.

--Mas deixando a política de lado....há dias que não vejo no colégio, que lhe aconteceu?

-- Nada, Augusto, foi aborrecimento...

-- Olhe, sei muito bem quem você é, e esta resposta não justifica.

-- Ta legal, foi por causa de uma garota, sabe, a Dina...ando amarrado na menina.

-- Mas é isso a causa das suas faltas? Isso não resolve, rapaz. Quer um conselho, vá direto ao assunto, diga-lhe que está afim dela e pronto!

-- Você já está assim, é? Antes, chateava-se com as malandragens da turma, agora caiu nessa, hein?

-- Nada disso, Álvaro. A turma só falava neste assunto. Enchia! E sabe, também gostei de uma menina...Lembra-se daquele dia que cheguei atrasado?

-- Sei, apesar de seus casos amorosos serem desconhecidos por mim, conheço essa garota, sua sereia, não é verdade? Conheço-a de vista.

-- Não brinque comigo, rapaz....

-- É verdade, ainda hoje, quando vinha para cá, vi numa loja de disco lá na praça.

-- Então, tchau! Tenho esperança de revê-la.

E apressando meus passos, corri para o lugar indicado, encontrando-a na saída da loja. Álvaro não mentia.

--Que prazer eu sinto em vê-la! – e quase instintivamente, beijei-a de lkeve na testa.

-- Mas quem deu licença, moço? – perguntou-me.

-- Como?

-- Eu disse que você podia me beijar?

-- Não, mas também não disse o contrário. Desculpe, perdi a cabeça.

-- Pois eu não perdi a minha. Sabe, a última vez que o vi...

-- Nos sonhos – interrompi.

-- Não!, de verdade. Você estava parado, com um olhar vago, tão distante. Acompanhava meu irmão e não me aproximei porque estávamos com pressa.

-- Quer dizer que aquele rapaz era seu irmão?

-- Era não, é, por quê?

-- Ufa! Pensei que fosse seu namorado. E pelo susto que você me deu, passamos a namorar de verdade, antes que algum bicão chegue primeiro.

-- Certo, biquinho – aconchegando-se a mim o mais possível e, ao falar-me, inclinou-se de tal forma que seu seio pousou completamente em meu braço. Sentia-lhe perfeitamente o contorno puro e firme, e o seu suave calor.

Depois de um papo amigável e um acerto de conversa, voltei para casa radiante,. E pedindo tudo de bom para Álvaro, pois foi ele que me apontou o caminho. Meu pai, durante a sobremesa, deu-me a notícia de que ganhou as eleições para deputado, em Feira de Santana.

-- No momento em aceitei concorrer a uma vaga para a Câmara Federal – dizia-me -, por determinação unânime do Movimento Democrático Brasileiro, estava ciente da responsabilidade que assumia em defesa de uma luta nacionalista, que tem a finalidade de protestar contra essa política sócio econômica emanada do atual governo brasileiro. E diante dessas circunstâncias, teremos que morar em Feira de Santana.

Fiquei paralisado, tudo começava a conseguir aqui, iria por água abaixo, e isso aparentemente apresou a decisão que tomei de não acompanhar meus pais. Os mesmos insistiram, mas consegui convencê-los, pois teria que concluir o curso colegial. Sabia que a condição financeira de meus pais não era boa, ou melhor, nunca foi boa. O único jeito foi ficar morando com Álvaro, cuja condição era mais avantajada do que a minha, num dos pensionatos e ter que trabalhar como fotógrafo em um dos jornais da cidade. Estava com esses pensamentos na mente, quando meu pai ligou o rádio.

-- ...o boing DCF JAL, com mais de 90 passageiros, que se destinava à Índia, explodiu nas proximidades de Nova Delhi, matando a quase totalidade dfios seus ocupantes. Entre os passageiros do boing, encontrava-se a atriz Leila Diniz.

-- Leila Diniz?! – exclamei assustado.

-- Conhece a moça, meu filho? – pergunto minha mãe, inocentem ente.

-- Não, não...ah! sim, só de vista....

-- Sabe-se – continuo a notícia radiofônica – que sobreviveram cinco pessoas do desastre e, daqui a poucos minutos, estaremos divulgando se a atriz está entre os sobreviventes.

Esqueci todos os meus problemas, só existia erse...eu estava deveras nervoso, aqueles minutos pareciam horas... e na minha mente, Leila apareceu... ela tinha como personalidade um temperamento e uma atitude que fazia a própria imagem de mulher moderna, de mulher brasileira. Sem nunca ter feitio discursos ou pregações, era a principal figura do movimento pela libertação da mulher brasileira. Não aconselhou mulher alguma a ter o mesmo conceito de amor que ela tinha. Apenas deu o exemplo de que nenhum ser humano, seja homem ou mulher, deve ser escravo por livre iniciativa.

A musa do Pasquim detestava a mentira, fazia e dizia as coisas que gostava de dizer e fazer, abertamente, sem subterfúgios. E costumava dizer: “Eu só quero que o amor seja mais simples, honesto e sem os tabus e fantasias que as pessoas lhe dão. Digo que me tornei isso inconscientemente mas, agora, estou plenamente convicta das coisas que faço e defendo”. Por fim, chegou a notícia que eu não queria receber.

-- Interrompemos nossa programação musical para comunicar que a atriz Leila Diniz não está entre os sobreviventes do boing...

Mulher ídolo, “Mãos Vazias”, um filme; mulher liberdade, “Um Asilo Muito Louco”, outro filme; companheira, “Tem Banana na Banda”; amiga, “Os Paqueras”; amante, “Fome de Amor”; livre, “Todas as Mulheres do Mundo”; terna, “O Mundo Alegre de Helô”; corajosa...no avião, um lugar vazio. Um voo perdido....Lágrimas rolaram em minha face. Nesta noite eu chorei.

Não demorou muito para eu conseguir o emprego, e um mês depois, já recebia meu salário. Já fava para fazer algumas coisas. Morando no pensionato, todas as tardes, ao voltar do trabalho, chegava cansado e era saudado pelos companheiros do quarto com obscenidades cordiais, coisa comum no grupo. E logo depois da janta, estávamos jogando baralho; a noite, cada um procurava o seu caminho para divertir-se. No domingo, vestia a velha camisa número seis, e calçava depois o quichute para ir jogar nossa pelada num dos campos, perto da praia de Itapuã.

Aproximava-se o dia da grande corrida. Os rapazes, selecionados, já estavam preparados desde muito tempo. Desisti de participar devido aos meus atrasos nos treinos, pois com o trabalho todos os dias, não tinha mais ânimo para coisa alguma.

Chegou finalmente o dia, milhares de repórteres e fotógrafos de todas as localidades estavam presentes. Eu,munido de minha máquina, iria documentar também tudo para o jornal. Estava sentado ao lado de Ana e do grupo de fotógrafos, e enrouqueci de tanto gritar, enquanto as camisas de diversas cores entravam no campo, misturando-se na grama verde. Os atletas estão agachados sobre a pista do estádio. É uma competição nacional de importância, pois o vencedor iria disputar no exterior, nas olimpíadas. Nas primeiras fileiras, os paulistas e cariocas, confiantes, certos da vitória. Um pouco mais atrás, baianos, mineiros, pernambucanos e gaúchos. Álvaro representava a Bahia.

O juiz segurou tenso o cronômetro em uma das mãos, um revólver na outra, braço direito erguido. Tiro seco, partida nervosa, o público gritando os nomes dos atletas. No fim da primeira reta, um paulista puxa a fila. Sai da curva oposta, perde terreno para o gaúcho, louro, mais forte. Abre grande vantagem sobre Álvaro que parece guardar-se para o empate final. Metade da segunda reta, o paulista bem mais próximo, torcida em delírio. Gritei no alto das arquibancadas “vamos Álvaro, estamos com você”. A este pedido, a turma da torcida da Bahia começou a gritar “Álvaro” Álvaro!”. Estavam os atletas na última curva, emparelhados, corpos colados, suando e respirando forte. Reta final, a fita cortada, ganhou Álvaro, um palmo sobre o gaúcho e mais atrás, o paulista. A torcida aplaudindo, invadiu o estádio, carregando o vencedor.

Clic! Não escapava um gesto do vencedor, tirava fotos e mais fotos. Dina, ofegante, não podia se conter, correu em direção ao campeão abraçando-o e beijando-lhe à boca. Mais tarde, a sala estava intransitável. Dirigentes, jornalistas, torcedores e amigos, amontoados junto a uma longa mesa onde Álvaro procurava atender a todos. Os cabelos à black power, meio desalinhados. O olhar um pouco desconfiado. A cada frase que dizia, quase sempre curta, ele evitava erguer a cabeça, fugindo das luzes dos flashes e dos projetores acessos para as câmaras de televisão.

No dia seguinte, em primeira página, lá estava Álvaro, carregado pela multidão, e em uma das mãos, a taça de vencedor. Estávamos batendo papo, ele continuou como antes, simples e calmo, nada o afetou. Depois de tantos treinos, mudou apenas as características físicas. Era um homem de estatura mediana, largos ombros, de membros robustos, de feições enérgicas. Tinha uma cabeça enorme, a pele escura e os olhos muito negros. A sua fisionomia exprimia a audácia e o orgulho.

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Estamos publicando um folhetim com 17 capítulos dessa história escrita em 1975

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

07 junho 2011

Balada de um Homem Solitário (07)

Realização

Cresci, e no limiar da adolescência conheci pessoas reais, gente de verdade. Enfim, suspirei, restam pessoas que não vivem por trás de máscaras, por trás de cortinas de fumaça que poluem a mente, o cérebro. A adolescência havia tirado a doçura da minha voz e tornou-me silencioso e definitivamente solitário, mas por outro lado, tinha restituído a expressão intensa que tive nos olhos ao nascer. Estava percorrendo um caminho complexo, mas preciso: o caminho de meu corpo. Estava conhecendo-me.

Conhecer não é só elaboração da mente, é um gesto de crescimento com o outro. O homem só se descobre como homem na medida que entra em contato com a mulher. Nessa fase, conheci a mulher e isto tornou uma prova decisiva em minha vida, a partir daquele dia, pois, antes, sonhava, coisa natural na adolescência, mil coisas sobre a mulher e era sempre tão diferente.

Muitas vezes continuava o sonho, tentando ir além...procurando a mulher ideal e, a cada noite, ia fazendo a peça imaginária, mas nunca chegava o dia de encontrá-la...e não chegou ainda. Talvez a minha felicidade tenha passado bem perto de mim e eu, na minha cegueira, não a vi. Talvez mês,mo me tenha falado e eu não tenha ouvido por causa do barulho das tempestades que começara a se desencadear dentro de mim. Será que estou pedindo mais do que a natureza pode me dar? Amor, simplesmente amor. Anjo ou demônio, virgem ou prostituta, rica ou pobre, feia ou bonita, tua a quem tanto imagino conhecer, mas não a conheço e amo, aproxima-te, abraça-me, entrega-me o teu amor pois o meu horizonte será apenas os teus olhos.

Lembro-me perfeitamente do meu primeiro contato com a mulher...estava zangado pelas ruas, já passava das 2l horas. Estava aborrecido por alguma coisa qualquer e, sem perceber, entrei numa ruela escura. Uma mão suave agarrou-me e pediu para eu seguir. A mão pertencia a um braço, o qual correspondia a um ombro fazendo parte de um corpo, um corpo de mulher. A obscuridade era total. Orientava-me apenas pelo ruído de seus passos, segui não sei porquê, mas estava realmente chateado e obediente.

Caminhávamos pela estreita rua que se estendia num a extensão de casas e muros, tão estreita e escura e agora começava a subir, suave, a princípio, depois mais abrupta, foi-se estreitando e empinando cada vez mais, até se transformar numa simples viela. Caminhávamos colados um ao outro, e sua mão descansava docemente na minha. Entramos numa casa que logo de início não deu para perceber se era antiga, mas pelo ruído que a porta fez ao abrir, logo percebi que não era nova.

Esperava que ela acendesse uma vela ou uma luz, mas, em vez disso, enlaçou-me docemente. Senti os seus lábios aproximando-se dos meus, esperando-os tão perto que eu percebia o seu calor na minha boca, a leve carícia do hálito.... Seu vestido caiu ao chão, ficando uma camisa fina de cambraia que também seguiu o exemplo do vestido, desprendendo-se, caindo sobre seus quadris, cujo contorno arredondado a deteve um pouco, descendo logo em seguida e enrodilhando-se circularmente em volta dos seus pés. Ficou nua, inteiramente nua. Fiquei deslumbrado, não pela sua nudez pois nada via naquela escuridão, mas contemplava-a com minhas mãos, suas formas que me diziam tudo.

Despi rápido e nervosamente, e deitando-me logo em seguida ao lado dela. Esta inclinou-se para mim e enlaçou-me estreitamente nos braços. A frescura daquela pele macia incendiava-me. A cabeça encostada no meu ombro, os dedos alisando mansinhos os cabelos do peito. Do meu peito de homem. Novamente ela beijou-me os olhos, depois deitou a cabeça no meu peito nu de adolescente...Ela sentiu que meu coração batia aceleradamente, e notou que era a minha primeira experiência.

A palavra não era necessária, bastava os gestos. Ela não largava a minha boca. Seus lábios mordiam os meus lábios, seus dentes batiam nos meus dentes e os nossos hálitos se confundiam inteiramente. No instante seguinte,. Perdemo-nos um ou outro, tornamo-nos um único ser, entrelaçamo-nos em uma unidade amorosa que mergulhava cada vez mais fundo n a insondável fonte do amor.

Na minha memória, lembro claramente essa noite, embora hoje, ocorrido um bom tempo, ainda conserve a mesma vida em mim e é como jamais tivesse experimentado qualquer outra coisa. Através da escuridão cheio de calor, ouvia sussurros com sua voz inesquecível, doce e um pouco trêmula. Passou quase toda a noite aplacando-nos. Exaustos, afinal, adormecemos em estreito abraço, creio que ao mesmo tempo. Entretanto, não acordamos ao mesmo tempo. Acordei mais cedo com uma sensação de felicidade que a princípio não soube explicar. Depois lembrei-me e, a luz um tanto opressiva da manhã, filtrada pelas altas vidraças, via-a deitada ao meu lado, nua, o rosto expressivo, bonito. Eu a estava vendo pela primeira vez. Talvez não fosse inteiramente como a imaginava: não tão jovem, nem tão bela. Ao mesmo tempo compreendi que não formara nenhuma imagem precisa dela, por mais que a minha fantasia se tivesse entretido com ela.

Suas pernas eram divinamente belas com formas tão bem delineadas que eu nada tinha com o que as comparasse, pois jamais vira um corpo de mulher, mas estava certo do que era estupendo. O corpo de todas as mulheres deve ser maravilhoso, pensei comigo.

A propósito, eu não era um belo homem. Deitado ali, olhei o meu corpo anguloso e nada vi de atrativo. Nunca o tinha visto ainda – pelo menos, devidamente – como estava vendo agora, quando o usara para o fim a que fora destinado, e assim, pela primeira vez, ele existiu realmente. No entanto, apesar de toda a minha magreza, tinha uma construção robusta e, posteriormente, me transformei no latagão em que agora me vejo.


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Estamos publicando um folhetim com 17 capítulos dessa história escrita em 1975

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Balada de um Homem Solitário (6)

Caminho do sol nascente: um sonho


O vento sussurrava gemidos. Ele seguia embevecido pelo suave cantar daquele vento. Seus cabelos balançavam em ritmo tumultuado, mas sua face era branda, seus olhos lentos, seu corpo rígido.... Inconscientemente, seus passos alargavam-se mais para a beira, mais para perto do precipício... E ele continuava a seguir o caminho, como se fosse o caminho da vida.

Vozes sopravam em seus ouvidos palavras doce como mel, mas tão doce que deixava enjoado. Aquilo crescia em sua consciência, tomava forma e parecia saltar de seu corpo. Por fim, o fim estava próximo. A solução seria aquela, uma solução insolúvel port ser inconsciente. Mas o vento agora sopra com mais força, como se anunciasse o final.

Sua fronte alta franziu-se, seus olhos claros escureceram, sua boca delineada sentiu um vinco amargo e seu queixo severo contraiu-se. Seu rosto ficou desfigurado, sua estatura alta e bem equilibrada ficou pendendo no espaço vazio. Aquela seria a hora de tomar uma atitude de sã consciência ou cairia de uma vez no precipício do além, na calada da noite. Seu destino começava a tomar um impulso irresistível. E se não fosse por isso, já estaria despencando e espatifando-se no fundo do poço. Com o suor escorrendo-lhe pelo rosto, conseguiu recuperar o ritmo que vinha do seu interior há muito esquecido pelo sopro constante do vento gemido.

Não parou, apenas mudou de direção do seu caminho. Seus olhos agora adquiriam aquela mesma tonalidade clara que existia antes, e vagamente olhou para o horizonte, para as montanhas quietas, emergindo da bruma azulada. A terra estava úmida com o orvalho da manhã, o vento agora sopra alegre, o calor amigo do sol desponta longe. Aos meus pés, folhas verdes caem suavemente e, no apontar do sol alto uma figura emerge em sua direção, o vento modela em nobres planeamentos o corpo perfeito da mulher amada. Os dois hão de se encontrar e, por isso, eles agora têm pressa.

Um vento mais forte saúda os dois parados, já entrelaçados. Ele olhou para o chão e viu flores que ali brotavam um fino brilho resplandecente. Ela também viu, e juntos sorriam e continuaram, mais apressado agora, pois não queriam ficar envolvidos pela poeira do tempo.

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