17 maio 2011

É preciso ser paciente

"Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma/até quando o corpo pede um pouco mais de alma/a vida não pára//Enquanto o tempo acelera e pede pressa/eu me recuso faço hora vou na valsa/a vida é tão rara//Enquanto todo mundo espera a cura do mal/e a loucura finge que isso tudo é normal/eu finjo ter paciência//O mundo vai girando cada vez mais veloz/a gente espera do mundo e o mundo espera de nós/um pouco mais de paciência//Será que é o tempo que lhe falta pra perceber/

será que temos esse tempo pra perder/e quem quer saber/a vida é tão rara (tão rara)”. A composição de Lenine e Dudu Falcão é precisa. Fala de uma virtude de manter controle emocional, sem perder a calma.


O famoso ditado “a pressa é inimiga da perfeição” nunca fez tanto significado como agora. Para viver e conviver em sociedade é preciso mesmo ter paciência: afinal, cada pessoa está preocupada em satisfazer as suas próprias vontades, os seus desejos e nem sempre o que uma pessoa deseja é o que a outra deseja e vice-versa. Além disso, é preciso ter a paciência de esperar que as coisas aconteçam da forma como devem acontecer, que nem sempre o tempo que desejamos e esperamos é o tempo de algo acontecer. Para entendermos as vantagens de sermos pacientes, basta observar a natureza. Tudo nela tem o seu tempo certo: o de arar, o de semear, o de impedir que as ervas daninhas sufoquem as sementes e o de colher.


Pessoas impacientes, em geral, não sabem lidar com limites, costumam vir de famílias que, por excesso ou falta de amor, sempre satisfizeram as suas vontades enquanto crianças. São pessoas que não aceitam um não como resposta, justamente porque não aprenderam dentro de casa a lidar com este limite. Atualmente estamos sempre correndo, agitados, sempre sendo cobrados a fazermos algo imediatamente, sem muito tempo para pensar. Há determinadas situações que, ou decidimos de imediato ou perdemos a chance de algo bom para nós mesmos, embora, em geral, na maioria das vezes em que agimos por impulso ou por impaciência, costumamos ter mais derrotas, erros e sofrimento do que vitórias ou acertos.


Apesar da paciência e da serenidade se mostrarem importantes no desenrolar da vida dos seres humanos, algumas pitadas de inquietação, insatisfação e até da própria impaciência podem ser ingredientes vitais na confecção da receita de uma carreira profissional e de uma vida pessoal mais apimentada, fora da rotina e da acomodação. Alguns psicólogos alertam que a paciência “pode mascarar a submissão ou o conformismo. Há pessoas que passam a vida em busca da solução perfeita, anos e anos arquitetando um plano perfeito que nunca se concretiza, enquanto outras, por impulso, acabam por agir de forma impaciente e resolvem o problema”. Portanto, vale a pena dosar a paciência para trazer benefícios à sua vida.

A paciência, virtude de pessoas muito especiais, atributo dos santos, é, muitas vezes, confundida com preguiça. Uma caracteriza-se por saber esperar, tanto para agir, quanto para colher os frutos dessa ação. Outra é a inação, a espera que os outros façam por nós o que deveria ser da nossa competência. É o não fazer. O filósofo Jean-Jacques Rousseau já dizia que “a paciência é amarga, mas seus frutos são doces”. Às vezes, é necessário muito tempo para os resultados começarem a aparecer. Prepare-se para lidar com a demora nos resultados e habitue-se a encarar as suas conquistas em médio e longo prazos.


Já Edmundo Burke refletia: “A paciência traz mais frutos do que a força"."Esperança é a paciência com a lâmpada acesa”. A frase é de Tertuliano. "Os mais fortes de todos os guerreiros são estes dois — Tempo e Paciência." (Leo Tolstoi). E John Dryden recomendava: "Tenha cuidado com a fúria de um homem paciente”. E Leonardo da Vinci chegou a uma conclusão: "A paciência serve de proteção contra injustiças como as roupas contra o frio. Se você veste mais roupas com o aumento do frio, este não terá nenhum poder para feri-lo. De forma idêntica você deve crescer em paciência quando se encontra em grandes dificuldades e elas serão impotentes para atormentar a sua mente". A paciência está em falta no mercado.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

16 maio 2011

Arte de borracharia

De 1900 a meados dos anos 60 artistas como George Petty, Earl Moran, Zoê Mozert, Gil Elvgren, Peter Dribén e Alberto Vasgas se dedicaram a pintar mulheres em trajes sumários e provocantes, num estilo hiper-realista, quase fotográfico. Os críticos de arte esnobavam esse tipo de trabalho, discriminavam com a resposta que era “comercial”. Acusação babal uma vez que obras de arte de um Cézanne ou Renois também são comercializadas. Mas quem responde a essa discriminação são os pesquisadores Vharles G. Martignette e Louis K. Meisel. Em 1966 eles lançaram pela editora Taschen, o livro The Great American Pin Up. São 380 páginas com reproduções em cores de exemplares do gênero.


São as pin ups como os americanos se referem ao que seria essa “arte de borracharia”. Isso porque no começo significava apenas um desenho de mulher na parede da oficina. Ela representava o tipo de mulher que muitas garotas americanas gostariam de ser e, sem dúvida, que os homens gostariam que elas fossem. E nas primeiras seis décadas do século XX não havia suporte gráfico que não os usasse: cartões postais, calendários, baralhos, revistas, cartazes de cinema ou teatro, espelhos, anúncios publicitários, capas de livros e discos.

Num universo dominado pelos valores masculinos, as pin-ups (e outras representações artísticas femininas, como as femme fatales ou as vamps) usaram da sexualidade, a principal arma ao seu dispor, para se contrapor ao poder patriarcal e controlar os homens. Esse fenômeno começou com o aumento da influência da burguesia, o surgimento das modernas técnicas de reprodução na imprensa e a invenção da fotografia. Fatores que possibilitaram a popularização da sensualidade feminina como um produto de consumo.


No decorrer do século 20, o fenômeno evoluiu em diferentes manifestações nas artes. Uma delas misturou sensualidade e bom-humor e criou retratos de garotas com seios volumosos, cinturas finas, pernas longas e torneadas e rostos sensuais. Esses retratos, por terem sido feitos originalmente para serem pendurados nas paredes, e por extensão as garotas que serviram de modelos para eles passaram a ser chamados de pin-ups.


Em fins dos anos 60 os borracheiros deixaram de pendurar as pin ups em suas oficinas, preferindo a página central da revista Playboy (a edição de julho da revista Playboy traz a Mulher Melancia em um ensaio fotográfico que homenageia as pin-ups que marcaram época, como Marilyn Monroe e Betty Page). Mas, além do desprestígio crítico, dos preconceitos da época, e da campanha feminista contra o que consideravam uma “exploração machista” do corpo da mulher (apesar de algumas delas como Mabel Rollins Harris, Pearl Frush, Joyce Ballatyne e Zaê Mozert fazerem sucesso pintando garotas).


Para que vocês apreciem o trabalho desses artistas, observem que a pin up é sensual, glamourosa e moleca, mas nunca ofensivo.







































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12 maio 2011

A invenção do Nordeste (3)

Durval Muniz de Albuquerque Jr informa ainda que no Sul, a partir da década de 20, pensa-se a identidade nacional dividida em pólos antagônicos. São Paulo, Pernambuco e Bahia são tomados como células iniciais do tecido nacional. O discurso histórico centra-se na história dessas três áreas, para construir a história do Brasil. “O Brasil seria um país cindido entre a inteligência do Sul, mais bem aparelhada em seus conceitos de realidade; e, de outro lado, o ´nortista´, fantasioso, imaginoso e sensitivo, delirante e compadecido. Razão e sentimento, dilema em que se cindia a identidade nacional, representada pela divisão entre suas duas regiões”. E assim ele apresenta o pensamento de Menotti del Picchia, Mario e Oswald de Andrade, Amadeu Amaral, entre outros. Para o estudioso, o Nordeste, espaço da saudade, da tradição, foi também inventado pelo romance, pela música, pela poesia, pela pintura, pelo teatro etc.

O Nordeste como o lugar da tradição é sempre tematizado como uma região rural, onde as cidades aparecem, como símbolo da decadência, do pecado, do desvirtuamento da pureza e d inocência camponesa. Embora muito antigo, o fenômeno urbano e metropolitano no Nordeste é praticamente ignorado por sua produção artística e literária. Sendo o local de uma das primeiras manifestações industriais no país, a indústria é vista com desconfiança, como um corpo estranho numa “região agrícola”. “Olhar o Nordeste da cidade grande é como olhar do lado averso de um binóculo. Tudo longe, muito embaraçado”. Em algumas formulações, o Nordeste aparece como o mundo “primitivo”, em oposição à degenerescência do mundo “civilizado”.


Para o doutorado em História na Unicamp, e professor das universidades federais do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, os romances der Graciliano Ramos e Jorge Amado. Da década de 30, a poesia de João Cabral de Melo etc, a pintura de caráter social, da década de 40, e o Cinema Novo, do final dos anos 50 e início dos anos 60, tomarão o Nordeste como o exemplo privilegiado da miséria, da fome, do atraso, do subdesenvolvimento, da alienação do país. “Tomando acriticamente o recorte espacial Nordeste, esta produção artística ´de esquerda´ termina por reforçar uma série de imagens e enunciados ligados à região que emergiram com o discurso da seca, já no final do século passado. Vindo ao encontro, em grande parte, da imagem de espaço-vítima, espoliado; espaço da carência, construído pelo discurso de suas oligarquias. Eles lançam mão de uma verdadeira mitologia do Nordeste, já fabricada pelos discursos anteriores, e a submete a uma leitura ´marxista´que a inverte de sentido, mantendo-a, no entanto, presa à mesma lógica e questões. Do Nordeste pelo direito, passamos a vê-lo pelo avesso, em que as mesmas linhas compõem o tecido, só quer, no avesso, aparecem seus nós, seus cortes, suas emendas, seu rosto menos arrumado, embora constituinte também da própria malha imagético-discursiva chamada Nordeste”.



Ele aborda a questão das contradições de uma literatura presa a um dispositivo de poder e às sua lógica vivido pelo povo brasileiro. “Na literatura realista, o significado e o significante ficam unidos por ligações inseparáveis. Nesta, a linguagem denotativa impõe um sentido como verdadeiro, enquanto o autor impõe um sentido ao leitor, que tende a participar pouco da construção do sentido da obra. Ela não é uma prosa dialógica, mas monológica, em que as identidades dos personagens são sempre fichadas, em que não se permite a afirmação da negação, que é excluída numa síntese dialética ou conciliada por um trabalho de harmonização pelo uso da linguagem simbólica”.


O Nordeste destes romances é o Nordeste artesanal, no qual o industrial é visto como dramático e feio. Um Nordeste mais dos marginais, dos malandros, dos trabalhadores informais e autônomos. Um Nordeste da fuga do trabalho rotineiro e da disciplina industrial.


Em sua conclusão, Durval Muniz escreveu que o Nordeste é uma invenção recente na história brasileira, se gestou no cruzamento de uma série de práticas regionalizantes, motivadas pelas condições particulares com que se defrontam, as províncias do Norte, no momento em que o dispositivo da nacionalidade, que passa a funcionar entre nós, após a Independência, coloca como tarefa, para os grupos dirigentes do país, a necessidade de se construir a nação. “O Nordeste é, portanto, filho da modernidade, mas é filho reacionário, maquinaria imagético-discursiva gestada para conter o processo de desterritorialização por que passavam os grupos sociais desta área, provocada pela subordinação a outra área do país que se modernizava rapidamente: o Sul”.


O Nordeste, na verdade, está em toda parte desta região, do pais, e em lugar nenhum, porque ele é uma cristalização de estereótipos que são subjetivados como característicos do ser nordestino e do Nordeste. Estereótipos que são operativos, positivos, que instituem uma verdade que se impõem de tal forma, que oblitera a multiplicidade das imagens e das falas regionais, em nome de um feixe limitado de imagens e falas-clichês, que são repetidas ad nausem, seja pelos meios de comunicação, pelas artes, seja pelos próprios habitantes de outras áreas do país e da própria região”.


Assim a obra de Muniz questiona esta representação regional e a prisão dos discursos a este dispositivo de força que a sustentou e a sustenta. “É preciso fugir do discurso da súplica ou da denúncia da miséria; é preciso novas vozes e novos olhares que compliquem esta região, que mostrem suas segmentações, as cumplicidades sociais dos vencedores com a situação presente deste espaço. Se o Nordeste foi inventado para ser este espaço de barragem da mudança, da modernidade, é preciso destruí-lo para poder dar lugar a novas espacialidades de poder e de saber”.

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11 maio 2011

A invenção do Nordeste (2)

Para Durval Muniz de Albuquerque, a região Nordeste surge na “paisagem imaginária” do país, no final da primeira década do século XX, substituindo a antiga diversão regional do país entre Norte e Sul, e foi fundada na saudade e na tradição. Surgiu da construção de uma totalidade político-cultural como reação à sensação de perda de espaços econômicos e políticos por parte de produtores tradicionais de açúcar e algodão, dos comerciantes e intelectuais a eles ligados. Assim, lança-se mão de topos, símbolos, de tipos, de feitos para construir um todo que reagisse à ameaça de dissolução, numa totalidade maior, agora não dominada por eles: a nação.

A questão da influência do meio era a grande arma política do discurso regionalista nortista, desde que a seca foi descoberta em 1877, como um tema que mobilizava, que emocionava, que podia servir de argumento para exigir recursos financeiros, construção de obras, cargos no Estado etc. O discurso da seca e sua “indústria” passam a ser a “atividade” mais constante e lucrativa nas províncias e depois nos Estados do Norte, diante da decadência de suas atividades econômicas principais: a produção de açúcar e algodão.


Assim, o Nordeste surge como a parte do Norte sujeita às estiagem e, por essa razão, merecedora de especial atenção do poder público federal. O Nordeste é, em grande medida, filho das secas; produto imagético-discursivo de toda uma série de imagens e textos, produzidos a respeito deste fenômeno, desde que a grande seca de 1877. Veio colocá-la como o problema mais importante desta área.


A seca de 1877/79, a primeira a ter grande repercussão nacional pela imprensa e a atingir setores médios dos proprietários de terra, trouxe um volume considerável de recursos para as “últimas do flagelo” e fez com que as bancadas “nortistas” no Parlamento descobrissem a poderosa arma que tinha nas mãos, para reclamar tratamento igual ao dado ao “Sul”. A seca tornou-se a partir daí o problema de todas as províncias e, depois, dos Estados do Norte.


Para o estudioso Durval, que possui pós-doutorado pela Universidade de Barcelona, a produção sociológica de Gilberto Freyre, bem como a dos chamados “romancistas de trinta”, têm no trabalho com a memória a principal matéria. Eles vão tentar construir o Nordeste pela rememoração de suas infâncias, em que predominavam formas de relações sociais agora ameaçadas. Eles resgatam a própria narrativa como manifestação cultural tradicional e popular, ameaçada pelo mundo moderno, e a tomam como expressão regional. Enquanto em São Paulos os modernistas procuravam romper com a narrativa tradicional, assumindo a própria crise do romance no mundo moderno, no Nordeste o movimento regionalista e tradicionalista volta-se para resgatar as narrativas populares, a memória como único lugar de vida para este homem moderno dilacerado entre máquinas, a narrativa como o lugar de reencontro do homem consigo mesmo, de um espaço com sua identidade ameaçada.


Em seus estudos ele mostra que até nas músicas de Luiz Gonzaga, no trabalho teatral e literário de Ariano Suassuna o Nordeste parece estar sempre no passado, na memória. Para ele, “este Nordeste é uma máquina imagético-discursiva que combate a autonomia,m a inventividade e apóia a rotina e a submissão, mesmo que esta rotina não seja o objetivo explícito, consciente de seus autores, ela é uma maquinaria discursiva que tenta evitar que os homens se apropriem de sua história, que a façam, mas sim que vivam uma história pronta, já feita pelos outros, pelos antigos; que se ache ´natural´ viver da mesma forma as mesmas injustiças, misérias e discriminações. Se o passado é melhor que o presente e ele é a melhor promessa do futuro, caberia a todos se baterem pela voltados antigos territórios esfacelados pela história”.


Para Gilberto Freyre, o ponto de vista regional devia nortear os estudos de sociologia e história, porque a noção de região é aproximada à do meio ou local, habitat, um espaço da natureza sem o qual era impossível pensar a sociedade. A região é vista como a unidade última do espaço. Um espaço genético fundante de qualquer atividade humana. Freyre é também um dos fundadores do discurso que tenta modificar a negatividade das condições ecológicas do Brasil e, principalmente, do Nordeste. Sua visão é oposta à de Paulo Prado, por exemplo, para quem o meio era responsável pela tendência de o brasileiro ser teimoso, taciturno, triste, desconfiado, anulado. Para Prado, a tropicalidade nos condenava ao fracasso como nação, para Freyre ela nos singularizava como civilização, nos dava identidade, nos dava caráter próprio.

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10 maio 2011

A invenção do Nordeste (1)

Vivemos um momento de desidentificação com a memória nacional e regional. O livro de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, “A Invenção do Nordeste e outras artes” (Cortez Editora, 2006) é uma boa prova disso. O trabalho de pesquisa para a realização do doutorado em História na Unicamp, defendido em 1994 apresenta o surgimento de um recorte espacial, de um lugar imaginário e real no mapa do Brasil, que todos nós conhecemos profundamente, não importa de que maneira, mas que nunca pudemos imaginar com uma existência tão recente. E falar do Nordeste é inventariar os muitos estereótipos e mitos que emergiram com o próprio espaço físico reconhecido no mapa composto por alguns estados e cidades. É mobilizar todo o universo de imagens negativas e positivas, socialmente reconhecidas e consagradas, que criaram a própria idéia de Nordeste.


Um trabalho de pesquisa aprofundado que desconstrói foucaltianamente os discursos que deram visibilidade e que tornaram dizível a região nordestina. O que o livro interroga não é apenas por que o Nordeste e o nordestino são discriminados, marginalizados e estereotipados pela produção cultural do país e pelos habitantes de outras áreas, mas ele investiga por que há quase 90 anos dizemos que somos discriminados com tanta seriedade e indignação. Como, por meio de nossas práticas discursivas, reproduzimos um dispositivo de poder que nos reserva o lugar de pedintes lamurientos. “Nós, os nordestinos, costumamos nos colocar como os constantemente derrotados, como o outro lado do poder do Sul, que nos oprime, discrimina e explora. Ora, não existe esta exterioridade às relações de poder que circulam no país, porque nós também estamos no poder, por isso devemos suspeitar que somos agentes de nossa própria discriminação, opressão ou exploração. Elas não são impostas de fora, elas passam por nós. Longe de sermos seu outro lado, ponto de barragem, somos ponto de apoio, de flexão. A resistência que podemos exercer é dentro desta própria rede de poder, não fora dela, com seu desabamento completo”, escreveu no prefácio.

“O Nordeste é tomado, neste texto, como invenção, pela repetição regular de determinados enunciados, que são tidos como definidores de caráter da região e de seu povo, que falam de sua verdade mais interior”. As fontes utilizadas foram desde o discurso acadêmicos, passando pela publicação em jornais de artigos ligados ao campo cultural, à produção literária e poética de romanistas e poetas nordestinos ou não, até músicas, filmes, peças teatrais, que tomaram o Nordeste por tema e o constituíram como objeto de conhecimento e de arte.


Divididos em três capítulos, o primeiro, Geografia em Ruínas acompanha as transformações históricas que possibilitaram a emergência da idéia de Nordeste, desde a emergência do dispositivo das nacionalidades, passando por uma mudança na sensibilidade social em relação ao espaço, à mudança da relação entre olhar e espaço trazido pela modernidade e pela sociabilidade burguesa, urbana e de massas.


O segundo capítulo, Espaços da Saudade, aborda esta invenção regional, o surgimento do Nordeste como um novo recorte espacial no país, rompendo com a antiga dualidade Norte/Sul. A seca, o cangaço. O messianismo, as lutas de parentela pelo controle dos Estados, são temas que fundarão a própria idéia de Nordeste, uma área de poder que começa a ser demarcada, com fronteiras que servirão de trincheiras para a defesa dos privilégios ameaçados.


No terceiro capítulo, Territórios da Revolta, é abordado uma série de reelaboração da idéia de Nordeste, feitas por autores e artistas ligados ao discurso de esquerda. Nordeste gestado, a partir dos anos 30, por meio de uma operação de inversão das imagens e enunciados consagrados pela leitura conservadora e tradicionalista que dera origem à região. Obras como as de Jorge Amado, Graciliano Ramos, Portinari, João Cabral de Melo Neto produzem Nordestes vistos pelo avesso, Nordeste como região da miséria e da injustiça social. Estes Nordestes, construídos pelo avesso, ficam presos, no entanto, aos mesmos temas, imagens e enunciados consagrados e cristalizados pelos discursos tradicionalistas.

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09 maio 2011

Controle e disciplina dos fiéis (6)

As liberdades democráticas são a principal reivindicação do mundo árabe, região onde concentra a maioria de seguidores do islamismo. Nessa localidade as mulheres são as maiores vítimas da repressão. Amordaçadas através da burca que lhes cobre o corpo, o rosto e a boca, elas não tem direitos sexuais, são submetidas à mutilação genital, não tem direitos patrimoniais, intelectuais ou mesmo de leve locomoção. Não dirigem veículos, não podem mostrar os cabelos, usar roupas que realcem as formas do corpo e são obrigadas a cobrir-se da cabeça aos pés para sair às ruas.


Essa repressão à mulher é um dos temas da obra Erotismo e Pornografia nas Artes que estou escrevendo há cinco anos. Esse material é inédito. Eis um recorte:


Os símbolos e imagens, metáforas e relações que habitam no imaginário popular a partir das tradições bíblicas é uma mescla entre homens e mulheres cheios de ordenações e danações em seus corpos pecadores e mortais, uma visão simplificada e que continua nos dias atuais. É preciso desenvolver uma reflexão maior sobre tudo isso.


A religião confina a sexualidade à zona do secreto, criando a culpabilidade, a proibição. A essa zona onde a proibição dá ao ato proibido uma claridade opaca, ao mesmo tempo “sinistra e divina”, claridade lúgubre que é as da “obscenidade” e do “crime”, e também a da religião. Por outro lado, a medicina, na época, provava com dados estatísticos e argumentos materialistas que as mulheres foram destinadas pela Natureza ao exercício da função reprodutiva, e acenava para quem seguisse seu destino natural, promovendo a mulher-mãe e o exercício da maternidade a uma função não só natural, mas de ordem moral e política.

Nascida na sociedade judaica patriarcal da Palestina, a Bíblia denota uma sinistra associação das mulheres à tentação do pecado. Servas que tinham como principal função a procriação, elas atuavam um papel social secundário. Representam apenas 10% dos três mil nomes citados no livro sagrado, como apontou a pesquisadora norte-americana Elisabeth Cady Stanton, que em 1892 escreveu A Bíblia da Mulher. “Há cerca de 200 mulheres mencionadas pelo nome, além de outras 100 anônimas”, contabiliza a historiadora e pastora metodista Margarida Ribeiro. Pior: elas são frequentemente associadas a ações ruins, como no caso de Eva, a responsável pelo “pecado original”. Sara, a mulher de Abraão, é estéril e sofre de inveja da escrava Hagar, escolhida para conceber o filho que dará prosseguimento à linhagem.


Por séculos a leitura das escrituras sagradas foi exclusivamente dos líderes cristãos, o que permitiu que a experiência de Jesus Cristo (que quebrou o tratamento discriminatório das mulheres com seu discurso libertador, de amor e de igualdade) na Terra sofresse adaptações nem sempre fiéis à realidade. Nenhuma distorção parece ter influenciado tanto a sexualidade cristã como a da história de Maria Madalena. Personagem feminina mais citada no Novo Testamento (seu nome aparece 12 vezes), ela foi a única pessoa a testemunhar a morte e a ressurreição de Cristo, segundo os quatro evangelhos. Apesar dessa exclusividade, a personagem ficou marcada como se tivesse sido uma prostituta arrependida, possivelmente uma confusão com outras Marias mencionadas. A Bíblia conta que Jesus andava, sem preconceitos, com prostitutas, mendigos e leprosos, e que expurgou do corpo de Madalena c”sete demônios”. Esse mistério pode ter dado origem à interpretação errada. O fato é que, no ano de 591 d.C., o papa Gregório determinou que Madalena e a prostituta era a mesma pessoa. O mito vigorou por 13 séculos até que, em 1969, o papa Paulo VI desfez a confusão.

A grande influência do catolicismo como o conhecemos vem do discurso de São Paulo, um celibatário convicto. Líder de origem judaica ortodoxa que perseguia e torturava cristãos, Saulo de Tarso converteu-se ao cristianismo – e adotou o nome de Paulo – depois de uma visão milagrosa de Jesus. Passou, então, a ser o maior divulgador da doutrina fora de Jerusalém, inclusive em Roma. Depois dele, Santo Agostinho (354-386) associou o ato sexual ao pecado, discurso logo encampado em 392 pelo papa Siríco. Voraz defensor da virgindade, Siríco era o chefe supremo da Igreja quando o Império Romano assumiu o cristianismo como religião oficial, no século 4. Rechaçado por São Paulo, o casamento dos padres da Igreja Cristã ocidental foi oficialmente proibido no século 16, quase ao mesmo tempo em que o padre alemão Martinho Lutero rompia com os católicos e dava origem ao protestantismo. A vida sexual ativa da comunidade eclesial,. Graças a Lutero, tornou-se um dos grandes diferenciais dos cristãos protestantes. O radicalismo de impor o celibato como obrigação – e não opção – aos padres diocesanos virou um fardo tão pesado para humanos de carne e osso que deu origem aos escândalos de pedofilia e assédio sexual dentro da Igreja Católica.


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VIEIRA, Yara Frateschi. Sob o Ramo da Bétula: Fernando Pessoa e o Erotismo Vitoriano. São Paulo, Editora da UNICAMP, 1989.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

06 maio 2011

Controle e disciplina dos fiéis (5)

As liberdades democráticas são a principal reivindicação do mundo árabe, região onde concentra a maioria de seguidores do islamismo. Nessa localidade as mulheres são as maiores vítimas da repressão. Amordaçadas através da burca que lhes cobre o corpo, o rosto e a boca, elas não tem direitos sexuais, são submetidas à mutilação genital, não tem direitos patrimoniais, intelectuais ou mesmo de leve locomoção. Não dirigem veículos, não podem mostrar os cabelos, usar roupas que realcem as formas do corpo e são obrigadas a cobrir-se da cabeça aos pés para sair às ruas.


Essa repressão à mulher é um dos temas da obra Erotismo e Pornografia nas Artes que estou escrevendo há cinco anos. Esse material é inédito. Eis um recorte:

A grande maioria das religiões, sempre preocupada com a elevação da alma, nunca soube muito bem o que fazer com o corpo. A preocupação do sexo é a manutenção da vida carnal. Nada a ver com a sublimação proposta pela religião, o sexo valoriza o instante ao invés da eternidade, o físico ao invés do espiritual, o imperfeito ao invés do perfeito. As sociedades matriarcais sempre encaram melhor essa contradição do sexo. A Terra, afinal, é útero (dela nasce a vida) e sepulcro (a ela retornam os mortos). Daí o sexo ser interdito para várias religiões e a arte erótica sempre ter sido razão de polêmica. Além de tentar provocar excitação sexual, a arte erótica tenta reproduzir, em imagens, os objetos do desejo humano. Ou reproduzir, meramente, o ato sexual. A religião confina a sexualidade à zona do secreto, criando a culpabilidade, a proibição. A essa zona onde a proibição dá ao ato proibido uma claridade opaca, ao mesmo tempo “sinistra e divina”, claridade lúgubre que é a da “obscenidade” e do “crime”, e também a da religião.


Uma importante reflexão sobre os diversos fundamentalismos presentes na sociedade moderna e suas consequências na vida das mulheres está no livro da teóloga feminista Nancy Cardoso Pereira, “Palavras...se feitas de carne – leitura feminista e crítica dos fundamentalismos”. O fundamentalismo religioso tem como resultado o impedimento do fortalecimento do Estado democrático e o exercício da cidadania plena de todas as pessoas, em especial das mulheres. As igrejas deixam pouca ou nenhuma margem de diálogos aos seus/suas fiéis para tomarem decisões em relação às questões morais, que envolvem a obrigatoriedade do celibato, a vivência da sexualidade, a autonomia no controle da reprodução, a indissolubilidade do casamento, entre outros.


O livro aborda, além do religioso, os aspectos econômicos, políticos e geopolíticos das ações fundamentadas na tradição e suas consequências nas formatações de poder na sociedade contemporânea. A obra também fez a relação entre tais consequências e a luta feminista, travada por mulheres que brigam, por exemplo, por direitos sexuais e reprodutivos, barrados nas argumentações do fundamentalismo. No livro Nancy Pereira diz como o fundamentalismo está presente na espinha dorsal do império norte-americano e no próprio cristianismo ocidental, que chegou ao Brasil através dos colonizadores. A teóloga também discute a relação incestuosa entre o cristianismo e o modelo de civilização ocidental construído nos alicerces do capitalismo.


“Cinco mulheres morrem no Brasil a cada dia em abortos clandestinos (pelo menos). Na América Latina são 46 a cada dia. No mundo todo, a cada dia, morrem 500 mulheres. Morrem de abandono e medo. Morem porque ousam decidir. Morrem pela redução de argumentos éticos. Morrem pelas trocas de poder e influência entre Estado e Igrejas. Como se já não bastassem a fome,m o desemprego, a doença e o desespero de sobreviver. Morrem deste igrejismo estreito e repressivo incapaz do diálogo com as vivências concretas das mulheres. Morrem desse igrejismo disfarçado em políticas públicas do Estado. A igreja diz que é pecado. O Estado diz que é crime”. Para ela “o fundamentalismo é a expressão majoritária do cristianismo: sexista, autoritário, elitista e moralista” (...) “A religião é uma das linguagens primárias com maior capacidade de mostrar e esconder, de negar a pertença da voz no balbucio da prece, de dissimular o ordinário no extraordinário das revelações”.


Ao longo dos séculos, a teologia vem contribuindo no reforço do amor como vocação das mulheres. “As culturas modernas formataram o feminino como uma predisposição natural para o amor e seus afazeres. Assim, as mulheres estão encurraladas na sensibilidade sem escolha e assimiladas num imaginário caótico e irracional, enquanto os homens ocupam o lugar supostamente confortável do sexo sem amor” (...) “A mulher participa da linguagem amorosa como vítima, como sedutora ou como impossibilidade (...) Assim, entre assexuadas ou corriqueiras (como as esposas/mães), o cristianismo disputa com o mito do amor romântico no ocidente o controle dos discursos sobre as mulheres. Permanecer numa posição inacessível continua sendo uma das tarefas que a cultura ocidental cristã designa para as mulheres. Presas nos discursos do amor (materno, romântico, aos pobres, ao sagrado, à família, etc) ou nos modelos da sensualidade devoradora as mulheres são mantidas numa passividade necessária para a manutenção da hegemonia masculina”.


E é o que observamos nos capítulos a seguir como a música, poesia, literatura, cinema, quadrinhos apresentam a mulher seja no erotismo ou na pornografia. Nos meios de comunicação de massa (no imaginário musical, da telenovela e da propaganda, entre outros) o mito feminino é mostrado como imagem controladora. É preciso uma leitura crítica e criativa sobre esse discurso para desvendar os comprometimentos e as armadilhas da linguagem religiosa que participa no reforço da miséria amorosa em que se encontram homens e mulheres e sua relação com os mecanismos de expropriação e opressão.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929).

05 maio 2011

Controle e disciplina dos fiéis (4)

As liberdades democráticas são a principal reivindicação do mundo árabe, região onde concentra a maioria de seguidores do islamismo. Nessa localidade as mulheres são as maiores vítimas da repressão. Amordaçadas através da burca que lhes cobre o corpo, o rosto e a boca, elas não tem direitos sexuais, são submetidas à mutilação genital, não tem direitos patrimoniais, intelectuais ou mesmo de leve locomoção. Não dirigem veículos, não podem mostrar os cabelos, usar roupas que realcem as formas do corpo e são obrigadas a cobrir-se da cabeça aos pés para sair às ruas.


Essa repressão à mulher é um dos temas da obra Erotismo e Pornografia nas Artes que estou escrevendo há cinco anos. Esse material é inédito. Eis um recorte:

A partir do século X, a Igreja se empenha em aprimorar seus instrumentos de controle e dominação. Dois séculos mais tarde, ao instituir a confissão, vê-se em condições de reger o íntimo.


Para o bispo Étienne de Fougères, a mulher é portadora de mal. Ele repete com vigor no “Livre dês manières” (Livro das maneiras), composto entre 1174 e 1178. Escreveu-o em língua romântica, dirigido, portanto, aos membros da corte, aos cavaleiros e às damas. Trata-se de um longo poema – 336 estrofes, 1.344 versos -, sob forma de um sermão. Uma coleção de seis sermões, cada um deles referente a uma categoria social, sublinhando seus defeitos específicos e propondo-lhe um modelo de conduta. Esse homem de Igreja julga, define as infrações a fim de as reprimir, baseando-se na autoridade de seus antecessores (Marbode, o bispo Burchard de Worms, entre outros), e deste modo assentar solidamente, pouco a pouco, as regras de uma moral.


No século XI as modalidades de administração do sacramento de penitência elaboraram-se lentamente. Os padres deviam ajudar os pecadores a purgar-se inteiramente, devendo, para tanto, submetê-los à tortura, forçá-los à confissão. No limiar do segundo milênio, na época em que o bispo Burchard de Worms trabalhava, um acontecimento de importância considerável produziu-se na Europa: a modificação das relações entre masculino e feminino. “A Igreja decidiu colocar a sexualidade sob seu estrito controle. Estava, então, dominada pelo espírito monástico. A maior parte de seus dirigentes, e os mais empreendedores, eram ex-monges. Os monges acreditavam-se anjos. Como estes, pretendiam não ter sexo e vangloriavam-se de sua virgindade, professando o horror à mácula sexual. Por conseguinte, a Igreja dividiu os homens em dois grupos. Aos servidores de Deus, proíbe servir-se de seu sexo; permite-o aos outros nas condições draconianas que decretou. Restavam as mulheres, o perigo, já que tudo giravam em torno delas. A Igreja decidiu subjuga-las. Com esse fim, definiu claramente os pecados de que as mulheres, por sua constituição, tornavam-se culpadas. No momento em que Burchard compunha a listas dessas faltas específicas, a autoridade eclesiástica acentuava seu esforço para reger a instituição matrimonial. Impor uma moral do casamento, dirigir a consciência das mulheres: mesmo projeto, mesmo combate. Ele foi longo. Acabou por transferir aos padres o poder dos pais de entregar a mão de sua filha a um genro, e por interpor um confessor entre o marido e sua esposa”, escreveu Georges Duboy no terceiro volume da trilogia Damas do século XII – “Eva e os Padres”.

É pelo casamento que a mulher desse tempo tem acesso à existência social. Antes, ela não é nada: “mesquinha”, esse termo que nos ficou designava a moça no século XII. No ritual do casamento, em seus gestos, em suas fórmulas, exprimiam-se claramente as obrigações da mulher. O casamento, garantia da ordem social, subordina a mulher ao robusto poder masculino.


O texto da Bíblia, no começo do livro do Gêneses, vem reforçar a convicção de que a mulher, auxiliar, foi colocada junto ao homem apenas para ser “conhecida”, tornar-se dama e sobretudo mãe, um receptáculo, uma matriz preparada para a germinação da semente masculina, de que não tem nenhuma outra função que não a de ser fecundada, de que sem esse papel o mundo teria muito facilmente passado sem ela. É pensamento da época: o homem é a imagem de Deus, a mulher não é mais do que o simulacro. Assim, mais próximo de Deus, o homem é mais perfeito; detém o poder sobre a mulher assim como sobre todas as outras criaturas; sua sabedoria confere-lhe mais dignidade; é também mais terno, pelo amor que tem por aquela que ele tem a missão de dirigir. E é no século XII que a expansão das práticas da penitência interna torna mais urgente a pergunta: o que é o pecado? Onde ele está? Na mulher mais que no homem, respondem os eruditos: lede a Bíblia. Deus criou o homem à sua imagem, a mulher, de uma parte mínima do corpo do homem, como uma impressão sua ou, antes, um reflexo. Apenas o homem está em situação de agir. A mulher, passiva, tem os movimentos comandados pelos de seu companheiro. Essa é a ordem, primordial. Essas certezas são apoiadas na leitura do texto bíblico. Elas dão sustentação à ação dos padres para afastar do mal a sociedade leiga.


Como são os homens que dominam e agem, os reformadores preocupam-se antes de mais nada em ajudá-los, considerando-os, de agora em diante, como estando claramente divididos em duas categorias, a dos religiosos, assexuados, e a dos sexuados. Para eles, na origem de toda transgressão da lei divina encontra-se o sexo. O pecado capital é o da carne.

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