14 outubro 2010

Jules Feiffer

Há muitos anos ele vem dizendo aos americanos, através das histórias em quadrinhos, do cinema e do teatro, o quanto eles são apavorados, neuróticos, amargos e hipócritas. Apesar disso (por causa disso) Jules Feiffer é um artista consagrado.


Tímido, de compleição nada atlética, ele sofreu bastante nos anos de colégio. Apaixonado por gibis, desde os primeiros anos de sua adolescência habituara-se a projetar suas fantasias em historinhas escritas e desenhadas por ele próprio. Aos 17 anos, Feiffer já escrevia roteiros para as aventuras do Spirit, de Will Eisner e cria a série Clifford de 1949 a 1951. Esta série, produzida cm um desenho estranho e propositadamente imperfeito, tem a particularidade de colocar pela primeira vez na HQ um meio estritamente urbano.


Entre 1951 e 1953 faz desenhos animados e em 1956 entra para o Village Voice onde começa a desenhar com seu traço definitivo, despojado, sem cenário. Em 1951 foi convocado para o serviço militar, depois disso começou a satirizar em seus cartuns as experiências com bombas atômicas, o conformismo e a psicanálise. Eram críticas mordazes.


Em 1956 começou a publicar seus trabalhos no semanário Village Voice. Em 1986, ganhou o Prêmio Pulitzer com The Village Voice. Ganhou muitos prêmios por seus cartuns e um Oscar por um curta de animação.


Feiffer é também autor de romances e livros juvenis, peças de teatro e roteiros cinematográficos. Mas o que interessa agora para nós são seus quadrinhos. Leia alguns deles. São desenhos dominados por personagens geralmente caricatos que discutem a realidade, o dia a dia, o mundo. Através de diálogos e monólogos, Feiffer passa a registrar temas sociais e políticos satirizando a sociedade americana.














---------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929.

13 outubro 2010

A praça ainda é do povo?

Praça é um lugar de encontro, de namoro, de criança brincar, de festas com coretos e bandas de música, de chafariz, pipoqueiro, de gente. Espaço aberto, livre, acessível a todos, da interação social. As praças já foram locais mais importantes das localidades. Historicamente a praça sempre foi o templo da política. Os políticos se reuniam para fazer discursos. Ultimamente a praça se despolitizou. Existem praça da luz, da sé, do santo, do encanto e da apoteose. Praça da liberdade, da paz, da guerra e da humanidade. Tem programa de humor A Praça é Nossa, o boa praça (o soldado que trata bem às pessoas), além de locais com a história de várias gerações como a Praça Tiradentes, no Rio, base da implantação do Reinado de D.João VI

No mundo inteiro há praças memoráveis. Composta por órgãos federais representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, a Praça dos Três Poderes em Brasília foi projetada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Lá estão localizados o Palácio do Itamaraty, o Palácio do Planalto, o Palácio da Justiça, o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional, o Panteão da Liberdade e Democracia e o Espaço Lúcio Costa. A Praça Vermelha é famosa em Moscou, conhecida pelos desfiles militares soviéticos durante a era da União Soviética. Exaltada pelo poeta Vladimir Maiacóvski (1893-1930) como o centro do mundo, a praça Vermelha tem um ligeiro declive que parece acompanhar a curvatura da Terra. Cenário de coroações, execuções e desfiles militares, é o palco principal da vida pública russa.


Mães foram para as praças chorar pelos seus filhos. A Praça de Maio sempre foi o centro da vida política de Buenos Aires. Desde a década de 70 as Mães da Praça de Maio se reúnem com fotos de seus filhos desaparecidos pelos militares durante a ditadura argentina. O povo argentino foi a Praça para exigir o fim da ditadura, e , mais tarde, para celebrar outros momentos. Em frente à Basílica de São Pedro, no Vaticano, situa-se a Praça de São Pedro Foi desenhada por Bernini no século XVII em estilo clássico mas com adições do barroco. Ergue-se um obelisco do Antigo Egipto no centro. Quase todos os visitantes que chegam ao Estado do Vaticano visitam primeiro a Praça, uma das melhores criações de Bernini, que o romancista francês Stendhal chamou “a arte da perfeição”.


Praça Castro Alves: a praça batizada em nome do poeta Antônio de Castro Alves é palco e coração do Carnaval de Salvador, maior manifestação popular do Brasil. O monumento do escultor italiano Pasquale Di Chirico, feita em bronze e granito, imortaliza o poeta em atitude de declamação. No início de 1866, na Bahia, Castro Alves fundou a associação abolicionista. Em novembro, o governo imperial, demagogicamente, decretou a liberdade dos cativos estatais que fossem lutar no Paraguai. Em dezembro (há 140 anos), Castro Alves publicou vibrante poema contra a repressão policial de comício republicano - "O povo ao poder". Diz o poema: “A praça! A praça é do povo/Como o céu é do condor/É o antro onde a liberdade/Cria águias seu calor...” . Tem ainda os Poetas da Praça, em salvador, reunidos na Praça da Piedade.


A música popular brasileira é cheia de praças. O samba chorou quando a urbanização acelerou na Praça Onze, composição de Herivelto Martins e Grande Otelo: “Vão acabar com a Praça Onze/Não vai haver mais Escola de Samba, não vai/Chora o tamborim/Chora o morro inteiro/Favela, Salgueiro/Mangueira, Estação Primeira/Guardai os vossos pandeiros, guardai/Porque a Escola de Samba não sai”. Zé Keti compôs Praça 11, Berço do Samba: “Favela/Do camisa preta/Dos sete coroas/Pra ver o teu samba/Favela/Era criança na praça onze/Eu corria pra te ver desfilar”


“Peço licença, peço em nome de quem passa/Onde a rua fez-se em praça/Tempo passa e vai-se embora/Eu vou cantar um samba/Pra quem chegar agora”, a letra A Praça já foi cantada por Nara Leão, mas A Praça que todos lembram é da canção de Carlos Imperial que teve como intérprete Ronnie Von, aquele da Jovem Guarda: “Hoje eu acordei com saudades de você,/Beijei aquela foto que você me ofertou,/Sentei naquele banco da pracinha só porque/Foi lá que começou o nosso amor.//Senti que os passarinhos todos me reconheceram/Pois eles entenderam toda a minha solidão/Ficaram tão tristonhos e até emudeceram/Aí, então, eu fiz esta canção//A mesma praça, o mesmo banco, / As mesmas flores, o mesmo jardim./Tudo é igual mas estou triste, / Porque não tenho você perto de mim./Beijei aquela árvore tão linda, onde eu/Com meu canivete, um coração eu desenhei/Escrevi no coração o meu nome junto ao seu/E meu grande amor então jurei...”.


“A praça Castro Alves é do povo/Como o céu é do avião/Um frevo novo,/um frevo novo,/um frevo novo/Todo mundo na praça,/manda a gente sem graça pro salão” cantou Caetano Veloso em Um Frevo Novo. E Moraes Moreira, em pleno carnaval, atacou de Chão da Praça: “Olhos negros cruéis, tentadores das multidões sem cantor/Olhos negros cruéis, tentadores das multidões sem cantor/Eu era menino, menino um beduíno com ouvido de mercador/Lá no oriente tem gente com olhar de lança na dança do meu amor//Tem que dançar a dança que a nossa dor balança o chão da praça ôuôuô”

---------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929.

08 outubro 2010

Música & Poesia

Mensagem de Amor (Herbert Vianna)


Os livros na estante já não tem mais tanta importância

Do muito que li, do pouco que eu sei, nada me resta

A não ser, a vontade de te encontrar

O motivo eu já nem sei, nem que seja só para estar, ao seu lado,

Só pra ler, no seu rosto

Uma mensagem de amor

Uma mensagem de amor


A noite eu me deito, então escuto a mensagem no ar

Vagando entre os astros, nada me move nem me faz parar

A não ser, a vontade de te encontrar

O motivo eu já nem sei, nem que seja só para estar ao seu lado,

Só pra ler no seu rosto

Uma mensagem de amor


Os livros na estante já não tem mais tanta importância

Do muito que li, do pouco que eu sei, nada me resta

A não ser, a vontade de te encontrar

O motivo eu já nem sei, nem que seja só para estar, ao seu lado,

Só pra ler, no seu rosto

Uma mensagem de amor

Uma mensagem de amor


A noite eu me deito, então escuto a mensagem do ar

Vagando entre os astros, nada me move nem me faz parar

A não ser, a vontade de te encontrar

O motivo eu já nem sei, nem que seja só para estar ao seu lado,

Só pra ler no seu rosto

Uma mensagem de amor

Uma mensagem de amor

Uma mensagem de amor

Uma mensagem de amor

Uma mensagem de amor





Ousa (Shantall)


falar

sem

calar


o

outro


amar

sem

prender


um

pouco


berrar

sem ficar

rouco


casar

sem morrer

oco

-----------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929.

07 outubro 2010

Identidade

Uma década atrás um cartaz espalhado pelas ruas de Berlim apontava para o colapso da ideia de identidade que não era capaz de conter as realidades do mundo: “Seu Cristo é judeu. Seu carro é japonês. Sua pizza é italiana. Sua democracia – grega. Seu café – brasileiro. Seu feriado, turco. Seus algarismos, arábicos. Suas letras, latinas. Só o seu vizinho é estrangeiro”, era o que estava escrito no pôster desafiando os alemães. O cartaz traz implícito a globalização que significa – o Estado não tem mais o poder ou o desejo de manter uma união sólida e inabalável com a nação. A intensa chegada de migrantes árabes, asiáticos e sul-americanos na Europa cresceu a xenofobia e o racismo. A convulsão social na França, em que migrantes ou filhos de migrantes desesperançados partem para a violência para exigir seu lugar na república francesa, confirma a tese da falência de uma noção clássica chamada identidade.


Hoje em dia, ter uma identidade ou conservá-la a qualquer preço se tornou a grande obsessão do mundo moderno. Essa obsessão se manifesta não apenas no fundamentalismo xiita do mundo islâmico, mas também no fundamentalismo cristão do presidente norte americano Bush. E nenhuma parte do mundo a ela está imune.


Identidade é objeto de um livro (Jorge Zahar Editor), do sociólogo polonês – naturalizado britânico – Zymund Bauman. No mundo de hoje, qual é o espaço do eu e do outro? Qual é a medida da liberdade individual? E do respeito ao próximo, com todas as suas diferenças/ É possível construir uma identidade sem levar a alteridade (o outro) em conta? A sobrevivência de um Estado-nação moderno pode se afirmar na falência ou na negação de outros estados?


Nessa entrevista que concedeu ao jornalista italiano Benedetto Vecchi, Bauman mostra como a identidade se tornou um conceito-chave para o entendimento da vida social na era da “modernidade líquida” – termo que ele cunhou para falar do esgarçamento das relações na atualidade. Segundo Bauman, à medida que nos deparamos com as incertezas e as inseguranças da “modernidade líquida”, nossas identidades sociais, culturais, profissionais, religiosas e sexuais sofrem um processo de transformação contínua. Isso nos leva a buscar relações transitórias e fugazes e faz com que sofram as angústias inerentes a essa situação.


No mundo em que tanto a noção de individualidade como o de coletividade começaram a falhar a ideia de identidade ganhou importância. Mas a busca de identidade se faz sob fogo cruzado e sob a pressão de duas forças contraditórias. Tanto aponta para o desejo de uma emancipação individual, como para o de integração a um grupo. Assim a busca navega entre dois extremos inconciliáveis: o da individualidade absoluta e o da entrega absoluta. Enquanto a individualidade absoluta é inatingível, a entrega absoluta faz desaparecer todo aquele que dela se aproxima.

Tanto suas teses sobre a falência da identidade, como suas ideias a respeito das vidas humanas desperdiçadas, desprovidas de trabalho, de dignidade, de um chão (no livro Vidas Desperdiçadas) se materializaram recentemente nos violentos protestos de migrantes e filhos de migrantes que se disseminaram por toda a França e países vizinhos. Autor da tese de que o mundo moderno e globalizado de hoje se tornou “líquido”, asa fronteiras se esfacelaram, as seguranças se dissolveram, e vivemos, em consequência, à deriva.


“Durante a maior parte da era moderna, cada classe tinha a sua trilha de carreira, uma trajetória estabelecida de maneira clara. Como Jean-Paul Sartre afirmou de modo admirável, para ser burguês não basta ter nascido na burguesia – é preciso viver a vida inteira como burguês! Quando se trata de pertencer a uma classe, é necessário provar pelos próprios atos, pela ´vida inteira´ - não apenas exibindo ostensivamente uma certidão de nascimento -, que de fato se faz parte da classe a que se afirma pertencer. Deixando de fornecer essa prova convincente, pode-se perder a qualificação de classe, tornar-se déclassé”, afirmou o sociólogo em seu livro.


“Hoje em dia – comentou Bauman na entrevista -, um século e meio depois, somos consumidores numa sociedade de consumo. A sociedade de consumo é a sociedade do mercado. Todos estamos dentro e no mercado, ao mesmo tempo clientes e mercadores. Não admira que o uso/consumo das relações humanas, e assim, por procuração, também de nossas identidades (nós nos identificamos em referência a pessoas com as quais nos relacionamos), se emparelhe, e rapidamente, com o padrão de uso/consumo de carros, imitando o ciclo que se inicia a aquisição e termina no depósito de supérfluos”.


Desta forma, a busca da identidade gera perigos e é uma rota de batalhas intermináveis e sem conclusão. A busca de uma identidade reafirma a inconstância e a precariedade do mundo globalizado. A expansão do fundamentalismo religioso parece ser um efeito dessa obsessão pela identidade na esfera de massa. Trata-se de uma guerra sem vencedores, embora a “causa da identidade” possa continuar a ser ostentada.

------------------------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929.

06 outubro 2010

Candomblé da Bahia na obra de José de Jesus Barreto

Apontar uma trilha, acender uma chama, apagar o medo e, com a licença e as bênçãos dos Orixás (santos, voduns, inquices, caboclos, encantados, anjos de guarda), abrir um porta, uma fresta que seja, para a percepção, sem preconceitos, de um mundo diferente, mágico e real, rico e pouco conhecido, mesmo tão presente: a religião e o culto aos Orixás nos terreiros de candomblé da Bahia. A intenção do jornalista e professor José de Jesus Barreto foi mais além. Seu novo livro Candomblé da Bahia. Resistência e identidade de um povo de fé, da Solisluna Design e Editora é um trabalho primoroso, de leitura simples e aprofundada dedicado ao “povo de santo” da Bahia.


Foi no dia de Iemanjá (sábado) que me dediquei para a leitura do livro de Barreto, este ser generoso, acolhedor, bem humorado e inspirador. A obra é dividida em 10 partes. “Da Bahia costuma-se dizer que o melhor está preservado nas histórias de vida de seu povo” revela no prefácio a paixão desse filho de Oxalá que abre uma porta para o conhecimento acendendo uma luz em cada leitor. E que brilho!


No primeiro capítulo – A Bahia. Berço de uma nova nação, misturada e única – Barreto retrata em palavras a alma baiana desde o início da chegada dos portugueses. “Nesta cidade de catedrais e terreiros, de batuques e cantochão, de quindins e acarajé, santinhos e patuás, promessas e ebós, búzios e oratórios, jaculatórias e banhos de folha, aqui, nesse santuário ecumênico da cidade do Salvador da Bahia – e Recôncavo, o entorno da baiá de Todos-os-Santos -, o afrodescendente (negro, marron, mulato, sarará ou branco misturado) anda nas ruas de cabeça erguida, com orgulho, porque não se acha melhor nem inferior a ninguém. A cidade da Bahia é de todos, mais do que qualquer outra. A Mãe África está grudada com todo orgulho na cor da pele e se reflete nas almas transparentes dessa gente. Mas, definitivamente, somos é brasileiros e baianos com as bênçãos do Senhor do Bonfim e a proteção de todas as divindades” (p.17).


O tráfico. O comércio de negros africanos era uma grande negócio internacional. Esse é o tema do segundo capítulo onde o autor traça a trajetória da escravidão humana, do mercantilismo europeu, política de colonização com foco na Bahia. No final desse capítulo ele cita com propriedade o artista plástico e escritor baiano de origem Argentina, Carybé (As Sete Portas da Bahia): “A Bahia não é uma cidade de contrastes. Quem pensa assim está enganado. Tudo aqui se interpenetra, se funde, se disfarça e volta à tona sob os aspectos mais diversos, sendo duas ou mais coisas ao mesmo tempo, tendo outro significado, outra roupa, até outra cara. De contrastes seria se fosse uma cidade com coisas que uma nada tem a ver com a outra, mas aqui tudo tem que ver. Tudo é misturado: gente, coisas, costumes, pensares. Vindo de londo ou sendo daqui, tudo misturado”.


“Colonizar era também catequizar, missão religiosa exercida de uma forma obstinada pelos missionários católicos. Seria necessário e dever cristão impor a crença no Deus-todo-poderoso, único e absoluto, nos santos da Igreja Católica Apostólica e Romana, e exercitar seus rituais e orações como o único caminho da salvação das almas pecadoras” (p.30). A Religião. Principal elemento agregador na terra de todos os santos é o tema do terceiro capítulo. Barreto revela essa realidade impregnada de catolicismo de santos, rituais, velas, amuletos, orações e festas misturados aos batuques, danças e cânticos africanos, ou seja, o sincretismo religioso.


O quarto capítulo é dedicado as Irmandades. Uma página da história que resiste às traças do tempo. Registra as irmandades de Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora da Boa Morte. O Candomblé. Fé que impregnou a Bahia do axé africano é tema do quinto capítulo. De origem banto, o Candomblé significa um complexo de crenças, rituais litúrgicos, cultos e conhecimentos, revela Barreto. “Podemos dizer que, na Bahia, o termo candomblé corresponde ao batuque do Maranhão, ao xangô de Pernambuco, e até à santeria cubana. Todas essas manifestações religiosas têm raiz comum fincada no solo africano, cada uma com suas próprias adequações e simbioses de tempo, espaço e interação humana” (p.43).


Barreto diz mais: “Os homens fazem parte da divindade, pois são também seres da natureza; assim como as divindades também se abrigam dentro dos seres humanos e podem se manifestar através delas, caso as pessoas tenham consciência e se preparem para isso pela iniciação. Cada pessoa tem sua divindade (seu santo, seu Orixá). O ser humano é partícula do divino” (p.45). E conta que “por obra da sabedoria e da luta constante do povo de santo, na Bahia de hoje o terreiro representa bem mais que um local de culto. É também um espaço comunitário em que se preserva a natureza, cuida-se das tradições e, mais que isso, busca-se e luta-se pela inserção do negro pobre na sociedade” (p.50).


Os Terreiros. Redutos de axé africano, são espaços sagrados em solo brasileiro. Tema do sexto capítulo. Os Orixás. Divindades com a força da natureza regem o destino dos homens, assunto do sétimo capítulo. Nessa parte o autor apresenta mais informações sobre divindades como Exu, Oxalá, Xangô, Ogum, Oxóssi, Omolu, Nanã, Iemanjá, Oxum, Iansã, Ossaim e Oxumaré.


O oitavo capítulo fala sobre Sincretismo. Uma herança da escravidão, que o povo não apagou da memória. As Festas está no nono capítulo que inicia com a lavagem do Bonfim, festa para Omolu na Federação, Iemanjá no Rio Vermelho, São Jorge/Oxossi (abril), Santo Antônio/Ogum e São João/Xangô (junho), Senhora Sant´Ana/Nanã Buruku (julho), Maria/Boa Morte, São Bartolomeu/Oxumaré e São Roque/Obaluaê, Omolu (agosto), São Cosme e São Damião/Ibejis, São Jerônimo/Xangô (setembro), Santa Bárbara/Iansã (dezembro). “Há lugar para todos no coração dessa gente mestiça que ter a graça de nascer nessa Bahia de todos os Santos, Orixás e Caboclos” (p.81).


E para encerrar, Barreto oferece ao leitor um Glossário, palavras e expressões de matriz africana usadas nos terreiros baianos. Um livro rico em informações e que ilumina a alma de todos, religa sagrado, profano, religião e o culto dos Orixás nos terreiros de candomblé da nossa Bahia. Axé Barreto!.

--------------------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929.

05 outubro 2010

Pensar a desconstrução

Um dos mais influentes de todos os pensadores na passagem do século, o filósofo Jacques Derrida (1930/2004) refletiu sobre questões como a pena de morte, a clonagem, o ciberespaço, o fim da cultura do papel. Notório pela sua teoria da desconstrução e pela ampla defesa da liberdade, o pensamento do filósofo tem papel fundamental em diferentes combates contemporâneo, um deles sobre diferenças de gênero. Trata-se de pensar como as diferenças sexuais podem vir a ser concebidas além da oposição binária entre masculino e feminino. Para ele, a mulher representa a pluralidade que rompe com as certezas únicas, masculinas, e que abriu a possibilidade de várias configurações, específicas para cada instante, plural e ao mesmo tempo única a cada momento em que ela se apresenta. Não é o protagonista feminino contra o masculino, mas o fim da definição do feminino a partir do que não é o masculino. Faz uma profunda crítica às teorias freudianas. Assim Derrida desconstrói a idéia do feminino com tudo que não é masculino.


Ele deu uma contribuição fundamental para a filosofia com pretensões a um pensamento unificador, totalizante. Questionou diversos dogmas da tradição platônica. Ele propunha a desconstrução de certos aspectos tradicionais do pensamento metafísico. Segundo ele, nunca se sai totalmente da metafísica, apenas se busca uma forma de reverter e deslocar suas teses capitais. A isso, a partir de um certo momento, passou-se a chamar de desconstrução.


A problemática da hospitalidade foi uma das questões que ele refletiu, que se resumiria em como acolher o outro, o estrangeiro, enquanto outro, diferente. Como aceitar que o outro que chega de um país não-ocidental possa ter hábitos diferentes dos nossos? É nessa perspectiva que ele defendia a hospitalidade absoluta, que não impõe condições ao outro estrangeiro. Essa noção permite refletir sobre o aumento das restrições impostas aos estrangeiros na França e em outros países ocidentais. O tema dos sem-documentos também foi discutido em seus ensaios.


Resistência como estratégia afirmativa, um modo de defender a vida foi outra de suas questões analisadas. Uma vida que não fosse uma simples sobrevivência negativa, autodestrutiva. O que interessa, para ele, são as forças de resistência que permitem à vida persistir em intensidade. Para isso é preciso a solidariedade dos seres vivos, o bem, do planeta e não apenas do homem, depende dessa solidariedade fundamental, que talvez nos dê a todos uma longa e boa sobre-vida planetária. E nos diversos textos ele tratou da necessidade de se levar em conta o animal, algo de que a filosofia poucas vezes fez, preocupada com uma racionalidade de fundo antropocêntrico. Ele combateu o irracionalismo, defendendo a tradição iluminista. Luzes para ele não poderiam jamais excluir esses próximos do homem que são os animais.


As mulheres foram outras de suas preocupações. Em seu pensamento não se trata de inverter o modo viril, a troca de sinais, sem que o modelo hierárquico, patriarcal, seja de fato descontruído. Ele defendia uma igualdade de direitos a mais aperfeiçoada possível, do ponto de vista jurídico, político, administrativo, etc, uma diferença de comportamento entre os gêneros e, dentro destes, entre os indivíduos. O conceito de diferença aponta para essa singuaridade dos indivíduos e das culturas, tanto quanto para uma necessidade de justiça universal, que garanta a existência e o exercício dessas diferenças, sem oposição simples entre homem e mulher, branco e negro, civilizado e selvagem.


Casado por mais de 40 anos com a mesma mulher, Derrida defendeu o fum do modelo tradicional de casamento. Ele reconheceu que o modelo patriarcal está falindo, encontrando-se em plena desconstrução. Mas o amor é um grande acontecimento que nenhum cálculo racional explica-se e que reforça mais ainda as estruturas vitais, em vez de destruí-las. Um amor-amizade para além de toda tábua fixa de valores, de toda moral imposta. Os indivíduos são livres para decidir o que é melhor para cada um e para todos. Assim é a democracia.


Silviano Santiago, Leyla Perrone-Moisés e Haroldo de Campos foram três de nossos críticos que dialogaram intensivamente, em momentos distintos de suas carreiras, com Derrida. Um diálogo entre literatura e filosofia até as últimas conseqüências foi o que Derrida propôs reconhecendo que certos textos literários podem propor um tipo de pensamento que em algumas medida vai mais longe do que determinados textos filosófico. Foi assim que ele dialogou com escritores como Shakespeare, Blanchot, Mallarmé e Hélène Cixous.


Entre os livros de filosofia publicados Brasil estão: “Papel Máquina”, coletânea de textos publicados em revistas e jornais franceses; “Filosofia em Tempo de Terror” com entrevista concedida por ele e pelo filósofo alemão Jurge Habermas sobre o 11 de setembro - “Expor a fragilidade da superpotência significa expor a fragilidade da ordem mundial”; “Desconstrução e Ética” é dedicado ao estudo do pensamento de Derrida; “Cenas Derridianas” onde o professor Luiz Fernando Medeiros de Carvalho dialoga com o filósofo em 13 textos, a maioria tendo como mote a literatura; e “Derrida-primeiros passos” que discute questões como diferenças, indecidíveis, rastro, segredos revelados e desconstrução.

--------------------------------
Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929.

04 outubro 2010

Vivemos numa sociedade líquida (Todas as coisas sólidas começaram a se desmanchar)

O intelectual polonês radicado na Inglaterra, o sociólogo Zygmunt Bauman é um dos líderes da chamada “sociologia humanística”. Em suas obras ele tenta compreender a complexidade e diversidade da vida humana. Ele sugeriu a metáfora da “liquidez” para caracterizar o estado da sociedade moderna, que, como os líquidos, se caracterizam por uma incapacidade de manter a forma. “Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crença e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades auto-evidentes”.


Jean-Paul Sartre aconselhou seus discípulos em todo o mundo a terem um projeto de vida, a discutir o que queriam ser e, a partir daí, implementar esse programa consistentemente, passo a passo, hora em hora. Ter uma identidade fixa, como Sartre aconselhou, é hoje, nesse mundo fluído, uma decisão de certo modo suicida. “Na época da modernidade sólida, informa Bauman, quem entrasse como aprendiz nas fábricas da Ford iria com toda probabilidade ter uma longa carreira e se aposentar após 40 ou 45 anos. Hoje em dia, quem trabalha para Bill Gates por um salário talvez cem vezes maior não tem idéia do que poderá lhe acontecer dali a meio ano!. E isso faz uma diferença incrível em todos os aspectos da vida humana”.


Em Amor Líquido ele explora o impacto dessa situação nas relações humanas, quando o indivíduo se vê diante de um dilema terrível: de um lado, ele precisa dos outros como do ar que respira, mas, ao mesmo tempo, ele tem medo de desenvolver relacionamentos mais profundos, que o imobilizem num mundo em permanente movimento.

Os riscos de hoje são de outra ordem, não se podendo sentir ou tocar em muitos deles, apesar de estarmos todos expostos, em algum grau, a suas conseqüências. Para outros sociólogos, a antiga condição de emprego poderia destruir a criatividade humana, as habilidades humanas, mas construía a vida humana, que poderia ser planejada.


Já o filósofo Gilles Lipovetsky informa que há uma situação paradoxal da sociedade contemporânea, dividida de modo quase esquisofrênica entre a cultura de excesso e o elogio da moderação. De um lado, diz Lipovetsky, autor de Os Tempos Hipermodernos, “é preciso ser mais moderno que o moderno, mais jovem que o jovem, estar mais na moda do que a própria moda”; de outro, valorizam-se “a saúde, a prevenção, o equilíbrio, o retorno da moral ou das religiões orientais”. Esse convívio frenético de ordem e desordem (“caos organizados” como define o filósofo) que identifica a sociedade hipermoderna resulta, paradoxalmente, na fragilização do indivíduo, que vê ruir as antigas formas de coesão social – Estado, religião, partidos revolucionários. Se antes o indivíduo tinha confiança no futuro, agora ele tem a dúvida. É a população trazendo suicídio, ansiedade, depressão, medo de envelhecer e do desemprego.


Vivemos hoje a modernidade líquida (a hipermodernidade). Vivemos uma sociedade na qual estabelecer projetos não é uma coisa simples como na época de Sartre. O Sartre dizia para os jovens “façam projetos e desenvolvam seus projetos”. Só que hoje os projetos são frágeis, são para pouco tempo.


Desde que se iniciou a modernidade, no século XVIII, todas as coisas estruturadas e sólidas começaram a se desmanchar, por uma necessidade socioeconômica. Basta lembrar a frase de Marx, “tudo que é sólido se desmancha no ar...”. Nos últimos 25 anos essa modernidade adquiriu uma velocidade fantástica, por isso é chamada de líquida, não tem nada muito sólido. A família não está sólida, a Igreja, a política... As relações amorosas também estão sofrendo, os laços familiares ficaram frágeis. Estamos um pouco desconcertantes nesta nova sociedade, procurando saídas. Cada um busca encontrar caminhos para poder de uma forma criativa enfrentar o novo.


A sociedade líquida pede euforias, total e completa. É uma sociedade de indivíduos. Tudo aquilo que era prometido como uma felicidade depois da morte ou a felicidade depois de determinado sacrifício não existe mais. A sociedade agora constrói como valor ideal a felicidade aqui, agora e já. A felicidade perfeita diz que se deve gozar de tudo. Uma sociedade que tem muito mais direitos do que deveres e isso a gente vê principalmente nos jovens, nas crianças nas escolas.


Perdeu-se a confiança no futuro, fragilizando os laços amorosos. A relação humana é uma construção. É preciso que se reconheça que o outro é a diferença, amar no outro a diferença. O que eu amo no outro é sempre a diferença de mim, pois de outra forma vou acabar amando o espelho. Se os laços se constroem a partir do espelho (amar a si mesmo), esses laços serão narcisitas e se rompe rapidamente e com facilidade. Muitas vezes ter uma razão é um problema nos relacionamentos. Só melhoram quando paramos de querer ter muita razão. E essa vontade de ter razão vem de um padrão: o da felicidade, bom relacionamento. Seria bom sermos iconoclastas, rompendo com os padrões e construindo o próprio rumo. É preciso encarar o problema sem ódio, raiva ou ressentimento. Precisamos aprender a experiência do presente. É preciso prestar atenção para o que ocorre em nossa volta, de olhar com admiração, surpresa o que a gente vai vivendo. Somos deseducados, afastados do nosso presente, despercebendo o que acontece aqui e agora.


É nesta sociedade líquida, onde a liberdade é bem maior onde os vínculos se estabelecem e rapidamente se desfaz, sem a dependência doentia, é uma sociedade de paixão descafeinada (como diz o filósofo Slavo Zizek), do açúcar sem açúcar, da paixão sem entrega. É uma sociedade de paradoxos: tem medo de se entregar à paixão, tem todo auto-sobrevivente; é preciso se manter inteiro.


----------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929.

01 outubro 2010

Música & Poesia

Samba Rap - SSA Bahia Lyrics (Olodum)


Nas esquinas do país

O mundo pode ver

Que tem gente abandonada ê

De fome vai morrer


Os erros acontecem

E nada se acerta

Época de eleição

La vem os falsos profetas


Ser idoso no Brasil

É motivo de castigo

Semore ganha como premio

Uma vaga nos abrigos


Trabalha a vida inteira

Pra se aposentar

O salario que recebem

Mal da pra se alimentar


Preconceitos continuam na sociedade

Pois quem tem dinheiro

Compra tudo com facilidade

O negro nos programas de televisão


Quando não e domestico

só pode ser vilão


fala nega

abre a boca negão

thup thu tererê


Sem transporte

Sem saúde

E sem educação

Com o povo vai fazer


Para ganhar o pão

Enquanto filhos d políticos

Estudam na Europa

Os iludidos ficam aqui


Comemorando a copa

No congresso nacional

Ja não existe razão

Gente rica em liberdade


Feliz por ser um anão

E você preste atenção

E leve fé no que eu digo

Ladrão no meu país

Só anda bem vestido.


O Guardador de Rebanhos (Fernando Pessoa)


Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr do Sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

É se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes

Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos

Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,

Sinto um cajado nas mãos

E vejo um recorte de mim

No cimo dum outeiro,

Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,

Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,

E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz

E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,

Tirando-lhes o chapéu largo

Quando me veem à minha porta

Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol,

E chuva, quando a chuva é precisa,

E que as suas casas tenham

Ao pé duma janela aberta

Uma cadeira predilecta

Onde se sentem, lendo os meus versos.

E ao lerem os meus versos pensem

Que sou qualquer cousa natural —

Por exemplo, a árvore antiga

À sombra da qual quando crianças

Se sentavam com um baque, cansados de brincar,

E limpavam o suor da testa quente

Com a manga do bibe riscado.

-----------------------------------------
Até o dia 03 de outubro na Caixa Cultural Salvador (Rua Carlos Gomes, 57, Centro. Tel. 3421-4200) está aberta a mostra de charges, caricaturas, cartuns e tiras de Hélio Lage. A mostra é aberta de terça a domingo, das 09 às 18h, curadoria de Nildão, produção cultural de Alice Lacerda, com o apoio da TV E e patrocínio da Caixa. E para os aficcionados nos trabalhos de Lage, vale conferir o site: www.heliolage.com.br.


-------------------------------------------

Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929.