17 agosto 2010

De santo condenado a pequena Canudos o que não falta são casos inusitados

O município de Água Fria, a 148 km de Salvador, entre o Recôncavo e o Sertão, é o único lugar no mundo (pelo menos que se tem notícia) a ter julgado e condenado um santo. Isso mesmo, um santo, e dos mais venerados! Este fato para lá de inusitado ocorreu em meados do século XVIII. Famosa por sua justiça impiedosa, a cidade tinha senado, fórum civil e criminal, pelourinho e forca na praça central, e aplicava com rigor o Código Criminal do Império, cujo artigo 28 rezava que o proprietário era responsável pelos delitos praticados por seus escravos caso estes não fossem apresentados.


Santo Antônio era querido por toda a região, tanto que uma rica proprietária, de nome Isabel Maria Guedes, que guardava com extremo zelo na casa-sede de sua fazenda, uma imagem, tida por ela como milagrosa, resolveu deixar todos os seus bens para o santo casamenteiro, já que não tinha herdeiros. Em uma noite de louvor ao santo, um escravo da fazenda matou um homem branco, no adro da igreja e fugiu em seguida. Fiel ao que dispunha a lei, o juiz do município determinou a prisão do seu dono. Informado de que o assassino pertencia a Santo Antônio, ele não se fez de rogado. Mandou seus oficiais buscarem a imagem, que ficou presa e “incomunicável” por 30 dias até o julgamento, que transcorreu com pelo menos três audiências, júri, testemunhas e advogados de defesa e acusação.


Por interferência da Igreja, que protestava contra a heresia, Santo Antônio, apesar de condenado, escapou da forca, pena indicada para o crime. Mas perdeu todos os bens, que foram leiloados em praça pública. Depois da sentença, a imagem sumiu misteriosamente e nunca mais foi vista. Água Fria ganhou fama de cidade maldita. Virou motivo de praga. Antes disso, o lugarejo, que era muito próspero, se viu transformado em distrito do município de Irará, e somente em 1962 conseguiu sua emancipação e começou a se restabelecer. Ainda hoje, depois de 200 anos, o assunto é tabu entre os moradores, que preferem desconversar sobre o assunto, envergonhados e temerosos da “força da maldição de Santo Antônio”.


ANGICAL - Outro fato inusitado, ou melhor, irônico ocorrido na Bahia foi durante os anos 20, na cidade de Angical, a 600 km da capital, que acabou fazendo parte da história do Brasil. Para festejar a chegada da Coluna Prestes, a comunidade se mobilizou pra criar um hino em homenagem ao grupo revolucionário. Mas, não foi a Coluna que acabou passando pela cidade, e sim as tropas do exército, que ouvindo o hino “Avante camaradas!”, criado pelo maestro Antonio do Espírito Santo, sendo tocado no coreto da praça, resolveu adotá-lo, tornando parte da coleção dos hinos militares brasileiros. E assim, um hino criado para saudar a histórica Coluna Prestes, comandada pelo líder comunista Carlos Prestes, acabou jocosamente virando tema do Exército.


Este assunto ainda na memória entre os moradores de Angical, foi retratado no curta-metragem de 15 minutos, “Avante camaradas”, da cineasta francesa Micheline Bondi, que morou dez anos no Brasil. O curta produzido em 1986 só foi exibido em Angical em março de 2006. Em seguida a Filarmônica Lira Angicalense tocou com a Banda Militar em Brasília num encontro histórico. Foi exibido também o vídeo “Memórias de Angical”, do cineasta Póla Ribeiro que ouviu alguns relatos dos angicalenses sobre o hino.

MASSACRE - Pau-de-Colher é um pequeno e pobre povoado localizado a 130 km da cidade de Casa Nova. Assim como centenas de outras localidades idênticas, ele passaria anônimo pela história, se não fosse um episódio doloroso até hoje pouco conhecido. A localidade foi palco de um verdadeiro massacre, sendo inclusive chamada de “Pequena Canudos”, pois se não teve as proporções cruéis da Guerra de Canudos, foi igualmente impiedosa: cerca de 400 pessoas foram dizimadas. A história de Pau-de-Colher começa por volta de 1934, quando surge na região o beato Severino Tavares, o qual se dizia emissário de Padre Cícero. Quando o grupo que o acompanhava cresceu, chegando a cerca de mil pessoas, o conselheiro saiu de cena e mandou um emissário em seu lugar, na verdade, dois: José Senhorinho e Quinzeiro, que modificaram as ações do grupo religioso.


De um ajuntamento pacífico, as pessoas passaram ao fanatismo extremo, levado as últimas consequências. Sertanejos se tornaram assassinos de seus pais, mães, irmãos e quem mais se opusessem contra eles. Fanatismo de um lado, radicalização do outro. Forças policiais da Bahia, Piauí e Pernambuco juntaram-se para controlar a situação rapidamente e evitar que um novo Canudos ganhasse vida e abalasse a “paz nacional”. O fim de Pau-de-Colher foi fulminante e sem nenhuma chance de defesa.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves), na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) e na Midialouca (Rua das Laranjeiras,28, Pelourinho. Tel: 3321-1596). E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929.

16 agosto 2010

Mangaba, fruta dos deuses, corre o risco de desaparecer no Nordeste

“Isso é dos deuses”. A famosa frase, proferida por milhares de baianos, vem a calhar muitíssimo bem quando o assunto é fruta e, sobretudo, quando a fruta é mangaba. Excelência em sabor, a mangaba é própria dos deuses. Mangaba (Hanconia Speciosa) é daqui mesmo, das praias do norte e do nordeste brasileiro. Os índios a chamavam ma’ngawa (fruta boa de comer). E assim como as demais delícias do Brasil, a fruta não tardou a cair no gosto do colonizador português.

São muitos os registros desses primeiros tempos. Fernão Cardim, reitor do colégio jesuíta da Bahia, dizia “jamais farta-se delas” em Do Clima e Terra do Brasil, século 17. Logo depois, escreveu Ambrósio Fernandes Brandão: “mangaba, fruta que pode ser estimada entre as boas que há no mundo, qual semelham as sorvas de Portugal” (Diálogos das Grandezas do Brasil). Encantados ficaram também os franceses, que aqui vieram embalados pelo sonho grandioso de fundar uma França tropical. Como prova, temos o comentário do capuchinho Claude d’Abbeville: “são frutos muito doces e agradáveis e que derretem na boca”.


A mangabeira não é árvore alta, tem galhos pequenos. A madeira avermelhada é de bem pouco valor econômico, prestando-se à fabricação de lenha e móveis baratos. Dela se pode extrair ainda um látex rosado de qualidade inferior. As folhas têm manchas que lembram ferrugem. As flores são claras e levemente perfumadas, e são medicamentos caseiros de prestígio para o tratamento de tuberculose e úlcera entre os simples sábios da medicina natural. Os frutos podem ser consumidos ao natural, mas não são muitos os que apreciam o travo de seu visgo. Melhor quando convertida em suco, sorvete, geléia, doce em calda ou ainda licor.


RÚSTICA - “A mangabeira é uma árvore muito rústica. Ela produz muito bem em solo arenoso, que é um solo muito pobre. Ela não é exigente em nutriente. Também são poucos os traços culturais, basta uma limpeza do terreno para se ter uma boa produção”, explica o agrônomo da Embrapa, Josué Silva Júnior. A mangaba reina absoluta nas baixadas litorâneas da região Nordeste, onde se obtém, de maneira extrativista, a quase totalidade dos frutos colhidos no Brasil. Os Estados da Paraíba, Bahia e Sergipe são os maiores produtores desta delícia dos deuses.

“A mangaba é uma fruta que deve ser direcionada para a indústria. Ela é mais utilizada em suco e sorvete porque trata-se de uma fruta muito perecível. Então, a exploração comercial deve envolver sempre a questão do congelamento”, detalha o agrônomo. A mangaba é muito rica em ferro e vitamina C. A fruta verde é venenosa e imprópria para o consumo, causando intoxicações que podem levar à morte.


AMEAÇA - Essa fruta saborosa e tradicional do Nordeste corre o risco de desaparecer de algumas regiões. As áreas nativas de mangabeiras vêm perdendo espaço para a especulação imobiliária, canaviais, coqueirais e para os criatórios de camarão. Um dos exemplos mais graves está em Pernambuco. Estimativa feita pela Embrapa Tabuleiros Costeiros (Aracaju/SE) mostra que o estado já perdeu 90% das áreas originais de mangaba. “A situação também é crítica em Alagoas e Paraíba, onde as mangabeiras estão sendo substituídas por monoculturas e ampliação das infra-estruturas turísticas”, afirma o pesquisador e um dos coordenadores do projeto, Josué Francisco da Silva Júnior.


O projeto, iniciado em 2003, tem como objetivo revelar a situação dos remanescentes da mangaba no litoral nordestino e analisar o papel das comunidades tradicionais na conservação desses recursos. “A mangaba é muito importante para os nordestinos porque faz parte da cultura do povo, além de ser muito apreciada pela população. Na época da colheita, que ocorre de novembro a maio, comunidades inteiras vivem exclusivamente da coleta dos frutos nas áreas nativas e da venda em mercados e feiras livres. O desaparecimento da mangaba significará a perda da fonte de renda para centenas de famílias”, justifica o pesquisador.


Os locais em que as áreas nativas da mangabeira estão mais conservadas são em Sergipe e no litoral norte da Bahia. “Percebemos que nessas áreas a especulação imobiliária e a monocultura ainda não são tão predominantes”, aponto Josué Francisco da Silva Júnior. Os trabalhos contemplam os estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pará. Vale lembrar que estamos na estação da mangaba, que vai de novembro até maio.


Conta a lenda que um índio muito corajoso chamado Diaí lutou inúmeras vezes para defender a natureza e protegeu principalmente a seringueira que os homens brancos estavam destruindo. Numa dessas lutas, foi ferido e morreu, sendo abençoado pela Lua. Do seu coração brotou a mangabeira, que se tornou uma árvore sagrada para os índios, dando frutos doces e polpudos, cujo leite se parece com o látex. Um dia, uma jovem índia chamada Ytaciara estava desesperada para salvar Koara, seu grande amor, que estava para morrer. Uma velha índia ensinou Ytaciara a preparar um chá da folha da mangabeira para o seu amado. Ao tomar o chá, Koara sobreviveu e todos conheceram o poder de cura da planta. Excelência em sabor, a mangaba é própria dos deuses

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12 agosto 2010

Música & Poesia para o final de semana

Pelo Sabor do Gesto (Alex Beaupain/ Versão: Zélia Duncan)

(A-tu déjà aimé?)

Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?

Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?

Na casca, a vida vem tão doce e tão modesta

Quem se perdeu de si?


Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto

Confesso que perdi, me diz quantos se vão?

Paixões passam por mim, amores que têm pressa

Vão se perder em si


Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias

Seus beijos de mentira não chegam muito longe

Paixões correm por mim, são só suaves febres

Seus beijos mais gentis derretem pela neve

Pra que tocar o amor pelo sabor do gesto

Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?

Amarga essa canção, os dias e o resto

Se perde como um grão


Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto

Te empresto da maçã, vai junto o coração

Esquece o que eu não fiz

Te sirvo o bom da festa

De um jeito mais feliz


Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor

carinho sem querer me cansa e me dói


Se o amor vem pra ficar, faz tudo mais bonito

Me basta ter na mão e o corpo tem razão




No caminho com Maiakóvski (Eduardo Alves da Costa)


Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakósvki.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.


Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho e nossa casa,

rouba-nos a luz e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.


Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz:

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.


Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.


Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas no tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares,

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.


E por temor eu me calo.

Por temor, aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita - MENTIRA!

*

Quando os nazistas levaram os comunistas,

eu calei-me,

porque, afinal,

eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me,

porque, afinal,

eu não era social-democrata.

Quando eles levaram os sindicalistas,

eu não protestei,

porque, afinal,

eu não era sindicalista.

Quando levaram os judeus,

eu não protestei,

porque, afinal,

eu não era judeu.

Quando eles me levaram,

não havia mais quem protestasse.

(Martin Niemoller, pastor luterano alemão)

*

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.

Bertolt Brecht (teatrólogo e poeta alemão)

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Manoel Tranquilino Bastos: o semeador de orquestras

Há 160 anos nascia no município baiano de Cachoeira, um gênio da música: Manoel Tranquilino Bastos. Este exímio clarinetista e compositor do século XIX foi um dos mais talentosos e produtivos da sua época. Nascido em 8 de outubro de 1850 da união de um português e de uma negra alforriada, ainda menino, Tranquilino aprendeu a tocar clarineta e se incorporou ao Coro de Santa Cecília, a padroeira dos músicos, mais tarde, passou a compor a Banda Marcial São Benedito, formada basicamente por músicos negros.


Segundo documentos escritos pelo próprio compositor, já aos 14 anos de idade, ele tocava clarineta profissionalmente em bandas em diversos eventos musicais que aconteciam em sua cidade natal. Tranquilino foi clarinetista, compositor, arranjador, professor e regente, tendo se envolvido ainda na fundação e atuação de diversas filarmônicas na região do Recôncavo baiano.


Tranquilino foi um autodidata em sua formação musical, aprendendo um pouco daqui, um pouco dali, como ele mesmo descreve em sua autobiografia: “Aprendi as principais noções de música sem mestre efetivo, mendiguei de uns e outros práticas... Caindo, levantando e ferido por mil espinhos consegui tocar clarineta, saxofone e flauta”. A formação musical de Tranquilino foi um misto de influências da cultura musical europeia, em particular da Itália, França e Alemanha, mas, principalmente das culturas italiana e francesa.


TRANSPÔS OS LIMITES - O talento do maestro transpôs os limites do Brasil, chegando à Alemanha e França, onde suas composições eram aplaudidas de pé e onde ele fora homenageado. Autor, juntamente com o poeta Sabino de Campos, do Hino da Cidade de Cachoeira, Tranquilino deixou, além de sua obra, o exemplo de amor à cultura musical, que a Lira Ceciliana mantém com o projeto Semente de Sonhos, voltado para ensinar música gratuitamente às crianças.


O músico cachoeirano foi representante na Bahia de fábricas francesas der instrumentos musicais, da Casa Sax do inventor do saxofone Adolf Sax e da casa franco-britânica Besson. Ele serviu de intermediário na compra de instrumentos musicais para diversas bandas do recôncavo baiano, além de orientar os fabricantes de tais instrumentos sobre as características de cada instrumento deveria ter para que obtivessem bons resultados sonoros e durabilidade no clima tropical. Dezenas de cartas trocadas entre Tranquilino Bastos e Adolf Sax narram essa relação.

Exímio clarinetista e compositor baiano do século XIX

MÚSICA E LIBERDADE - No Recôncavo baiano ele era chamado de “O Maestro da Abolição”, pois estava sempre à frente dos movimentos a favor da libertação dos escravos, compondo músicas como o “Hino Abolicionista”, “Airosa Passeata” (uma das composições mais conhecidas e executadas pelas filarmônicas da Bahia), além de outras, sendo esta última, uma peça que retratava o momento histórico em que Tranquilino sai às ruas de Cachoeira na noite de 13 de maio de 1888 à frente da Lyra Ceciliana (Filarmônica fundada por ele em 1870 com o nome de Euterpe Ceciliana) arrastando mais de 2 mil pessoas, a maioria negros recém-libertados, comemorando a assinatura da Lei Áurea. Ele também fundou, em 1877, a Sociedade Espírita Cachoeirana, a primeira da cidade.


Tranquilino talvez seja o primeiro compositor de banda a escrever música de câmara da Bahia. Não se tem conhecimento até agora de nenhum outro, mesmo porque não era de praxe Mestres de Banda escrever peças camerísticas, colocando assim, Tranquilino como uma das exceções. Ele teve dez filho, tendo três se tornado músicos, perpetuando o seu belo legado musical e humano. Dono de uma produção musical extensa que abrange 295 dobrados, 150 marchas festivas, 50 marchas fúnebres e 205 fragmentos de ópera transcritos para banda marcial, além de valsas e peças sacras, Tranquilino escreveu mais de 120 cronicas e artigos para jornais e revistas e deixou uma série de manuscritos e diários, além de cadernos de música e partituras.


Um dos maiores conhecedores da vida e obra de Tranquilino, o professor e estudante de regência da Escola de Música José Alípio Martins conta que se apaixonou pela trajetória do regente ao participar através da Universidade Federal da Bahia (UFBA), de um projeto sobre a música de Cachoeira: “Fui descobrindo aos poucos o trabalho do maestro e vi que se tratava de uma pessoa especial”. Há pelo menos 20 anos encontra-se no Setor de Obras Raras da Biblioteca Pública do Estado da Bahia um acervo de manuscritos, autógrafos e impressos musicais pertencentes ao maestro Manoel Tranquilino.

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11 agosto 2010

Bahia, berço da cultura brasileira, é um Estado Barroco a céu aberto

O todo sem a parte não é todo; a parte sem o todo não é a parte; mas se a parte o faz todo sendo parte, não se diga que é parte, sendo todo”. Nada mais apropriado para começar nosso passeio pelo estilo barroco do que interpretar os versos de Gregório de Matos, o artista barroco mais crítico da Bahia. O barroco chegou ao Brasil no século XVII, mais precisamente em 1601, daí ser chamado de cultura e movimento seiscentista. Essa cultura já existia há um século na Europa, tendo origem na Itália e na Espanha. A arte barroca marcou um momento de crise espiritual da sociedade europeia.


O barroco, consequência direta da Contra-Reforma, nasceu para enaltecer Deus de forma grandiosa e apaixonada, utilizando traços exagerados, redundantes, que prendem o espectador pela emoção. Atribui-se aos mestres da Renascença a criação do novo estilo, para se opor ao equilíbrio, linearidade e harmonia do classicismo. O barroco é a linguagem da abundância, do transbordamento, da prodigalidade, do lúdico. Para alguns críticos e historiadores, o barroco era o extremo do ridículo e do absurdo. Para outros, era uma coisa desorganizada, exibicionista, o mau gosto. Era o sinônimo de tudo que se considerava anti-artístico, que não era estético.

CURVA & VERTIGEM - Mas, apesar de todas as críticas acirradas, no século XIX, o barroco é resgatado como uma expressão artística e estética válida e poderosa. De acordo com o escritor e poeta Ferreira Gullar, em sua obra O Olhar – Barroco Olhar e Vertigem, o Brasil é um país barroco, sobretudo em suas paisagens. Os montes recortados brasileiros, que tanto influenciaram o arquiteto Oscar Niemeyer, são uma das características mais fortes do barroco: a linha curva, suplantando a linha reta. “O barroco é uma arte essencialmente retórica, que explora a ilusão de ótica, que conduz ao delírio e à vertigem e consequentemente à ilusão”, afirma Gullar em seu livro.


Movimento artístico que simboliza a ruptura, no campo das ideias, entre o Brasil colônia e Portugal, o barroco floresceu a partir da descoberta do ouro, em Minas Gerais. Mas, foi na Bahia que atingiu todo o seu esplendor. A Bahia, ainda no ciclo do açúcar, produziu notável arte barroca. A riqueza da capital da Colônia permitiu a renovação artística deflagrada pela reconquista das terras pelos portugueses. A arquitetura sofreu influência de Portugal e Itália. As fabulosas obras de arte no interior das igrejas demonstram pompa e riqueza, e atraiam multidões da Europa para o Brasil.


ESTILO A OURO - Foram as ordens religiosas - jesuítas, beneditinos, carmelitas e franciscanos - que trouxeram o barroco para o Brasil. Na Bahia, imperou o barroco das igrejas douradas, como se fossem cavernas de puro ouro. O melhor exemplo do movimento está na Igreja e Convento de São Francisco, em Salvador, que tem seu interior completamente forrado com folhas de outro e carrega a marca de ser uma das igrejas mais ricas do país. Deixando a capital baiana de lado, os municípios do Recôncavo constituem-se num extraordinário parque barroco ao ar livre.

A maior expressão do barroco na região é a cidade de Cachoeira, mas quase todos os municípios da região guardam verdadeiros tesouros da época de ouro, como Santo Amaro, São Félix, Maragogipe, Jaguaripe, Itaparica e Nazaré. Cachoeira, depois de Salvador, é a cidade baiana que reúne o mais importante acervo arquitetônico no estilo barroco. Seu casario, suas igrejas, seus prédios históricos preservam a imagem do Brasil Império.


A imponência do seu casario barroco levou a cidade a alcançar o status de “Cidade Monumento Nacional”. Estando em Cachoeira, não deixe de visitar o Convento e Igreja Nossa Senhora do Carmo, imóvel do século XVIII, a Ordem Terceira do Carmo, construído por volta de 1702, a Casa da Câmara e Cadeia, datado de 1700, o Chafariz Público, do século XVIII, a Igreja da Matriz de Nossa Senhora do Rosário, do século XVII e a Capela de Nossa Senhora da Ajuda, erguida em


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10 agosto 2010

Centenário de Pagu, a musa do modernismo

Neste ano de 2010, Patrícia Galvão (1910 – 1962) completaria 100 anos no último dia 9 de agosto. Figura importante do modernismo brasileiro, Pagu, como ficou imortalizada, está sendo lembrada em livros, exposições, palestras e debates. Escritora, jornalista, poetisa, desenhista, militante política, agitadora cultural, desmistificadora de assuntos intocáveis e mulher de teatro, Patrícia Galvão lutou com paixão em muitas trincheiras.


“Viva Pagu – Fotobiografia de Patrícia Galvão”, de Lúcia Maria Teixeira Furlani e Geraldo Galvão Ferraz, coedição da Imprensa Oficial do Estado e da Editora Unisanta, retraça a rica trajetória da musa dos modernistas a partir de amplo material iconográfico e muitos documentos inéditos. O lançamento aconteceu na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). A autora comenta que Patrícia é personagem típica de um tempo de grandes paixões.


EVENTOS - Pagu está sendo lembrada em uma série de eventos na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37), na capital. A professora Lúcia Maria Teixeira Furlani e atriz Miriam Freeland (que interpretou Pagu na minissérie “Um só Coração”, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira) fazem a leitura de cartas trocadas entre Pagu e personagens que revolucionaram o mundo das artes e da cultura no Brasil. Um um vídeo feito especialmente para participação na FLIP, mostra imagens e documentos que fazem parte da exposição Viva Pagu que acontece na Casa das Rosas.

Palavras, sons, imagens são apresentados de forma a despertar a imaginação e a criatividade, por meio de debates e atividades mediadas pelas obras e a trajetória de Pagu. Os vídeos, ambos baseados em livros escritos por Lúcia, e produzidos pela Unisanta, complementam a apresentação. O primeiro vídeo, inédito, documenta, em três atos, o livro “ Viva Pagu- Fotobiografia de Patrícia Galvão “, de Lúcia Maria Teixeira Furlani e Geraldo Galvão Ferraz , segundo filho de Pagu. O segundo vídeo “Pagu – Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo”, foi baseado no livro homônimo de Lúcia e dirigido por Rudá de Andrade, primeiro filho de Pagu.


No dia 17 de agosto (terça-feira) na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a partir das 19h

no centenário Eterna Pagu, haverá uma conversa com o jornalista Geraldo Galvão Ferraz (filho de Pagu) e a escritora Lúcia Maria Teixeira Furlani sobre "Viva Pagu" - fotobiografia da autora do romance "Parque Industrial'.


MITO - Patrícia Galvão publicou poemas e ficções, escreveu sobre arte e política, pode ser lida em coletâneas que vêm sendo compiladas há décadas. O melhor da autora paulista, no entanto, não está em nenhum desses registros. Trata-se de um daqueles casos em que a vida da artista foi maior que a obra que ela deixou. Muito maior. País de poucas biografias aprofundadas e independentes, o Brasil é um dos únicos lugares em que um mito como ela sobrevive sem livros mais conclusivos sobre sua trajetória. Pagu, jovem de “olhos moles” e corpo “onduladinho e indolente”, “dum veneninho gostoso/ que dói na boca da gente”, conforme apelido e descrição de autoria de Raul Bopp, foi mais do que a musa do Modernismo, rótulo ao qual é frequentemente reduzida. Foi um exemplo de vida para gerações que mudaram a cultura do país.


Tida como modelo comportamental por afrontar o conservadorismo da sociedade, sobretudo nos efervescentes anos 1920, Pagu viveu e morreu pelas causas que adotou como suas - o comunismo, o teatro, a arte de caráter nacionalista. Presa e torturada no Brasil e depois na França ocupada durante a II Guerra, também inspirou grandes artistas modernos, muitos dos quais, nos anos seguintes, entrevistaria como jornalista. Seu centenário, completado em 9 de junho, motivou homenagens, principalmente em São Paulo, que incluem exposições e debates, todos documentados em um site especial (www.pagu.com.br).

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09 agosto 2010

As aventuras de Arthur e Lucas no Reino da Atlântida (6)

-- Hoje, 10% do que a humanidade consome em calorias vem do mar. Explicou o cavalo marinho Dourado. Portanto, ainda há tempo de fazer nos oceanos o que o homem não conseguiu fazer em terra, evitar a dilapidação dos recursos naturais pela exploração descontrolada e pelo desperdício.


E disse mais:


-- As crianças de todo o mundo estão conhecendo agora o que se esconde debaixo d´água e juntas poderão fazer uma revolução no mundo. Dessa forma, os adultos poderão estabelecer com mais segurança regras e cotas para a exploração dos recursos marítimos. Isso inclui as fontes de energia submarinas.


E mostrou grandes reservas de hidrato de metano (moléculas de metano presas em cristais de água). O potencial energético desse recurso equivale ao dobro de todo petróleo, gás natural e carvão existentes. Ainda, não se conhece a tecnologia para explorá-lo com segurança. Faremos isso com maior sabedoria, se conhecermos os seres que vivem lá.


Arthur estava fascinado com todo aquele aprendizado. E mais intrigado ficava porque podia respirar debaixo d´água por todo aquele tempo. Tudo aquilo parecia um sonho. E no meio de todas aquelas crianças ele levantou a mão e disse:


-- Vou ajudar vocês e, assim, estou ajudando a nós mesmos. Vou me dedicar ao estudo da biodiversidade marinha para melhor entender e melhorar o meio ambiente. Os mares sempre me fascinaram. E assim será.


Todos compreenderam o que ele falou. Debaixo d´água era assim, todos são iguais, não importa o local onde nasceu. Todos aplaudiram com entusiasmo.


Shaolim, o garoto japonês, disse que também vai coordenar uma equipe de crianças voluntárias na sua região, para fazer um movimento de limpeza das margens dos rios. Tales, o garotinho grego, falou que o mundo está cercado de água, tendo dela nascido a vida, então era importante preservá-la. E lembrou do filósofo Heráclito que tem uma célebre frase que diz que não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio. Ou seja, no universo há sempre mudança, águas diferentes. Há encontros de rios e mares. E pediu a todos mais empenho nas atividades de preservação.


Igor, o menino africano, lembrou que em sua terra fará reunião com todos os amigos para passar todos esses ensinamentos. Esses ensinamentos serão repassados para outros e muitos outros até o nível de conscientização total. As crianças, enfim, vão salvar o mundo.

-- Se todos vocês agirem de forma planejada, em cada canto da terra, o comportamento de vocês vai alterar o das outras pessoas. E assim, alterar a memória e as reações delas. Dessa forma, você vai modificar o futuro e a história. Esses pequenos comportamentos podem interferir em grandes reações na história. Afirmou o cavalo-marinho Dourado, acrescentando:

-- Toda vez que os humanos pescam nossos seres em demasia, afeta a cadeia alimentar, o ecossistema, a biosfera terrestre. Além disso, a ausência de descendentes dos peixes pescados afetará o processo de observação dos biólogos, interferindo em suas reações, pesquisas, livros, universidade e sociedade. Não somos uma ilha no planeta. Somos uma família vivendo numa complexa teia. Precisamos cuidar de todos mutuamente, caso contrário, não sobreviveremos. Todos nós.


O incansável apetite para explorar a vida marinha levou Arthur a ansiar conhecer os mistérios que envolviam as espécies aquáticas. A cada explicação de Dourado, ele memorizava tudo, afinal, desde pequeno tinha essa paixão pelo mar e vivia cantando as músicas de Dorival Caymmi nos lugares que gostava de estar.


O pescador tem dois amores/Um bem na terra, um bem no mar//O bem de terra é aquela que fica/Na beira da praia quando a gente sai/O bem de terra é aquela que chora/Mas faz que não chora quando a gente sai/O bem do mar é o mar, é o mar/Que carrega com a gente/Pra gente pescar”


Minha jangada vai sair pro mar/Vou trabalhar, meu bem querer/Se Deus quiser quando eu voltar do mar/Um peixe bom eu vou trazer//Meus companheiros também vão voltar/E a Deus do céu vamos agradecer//Adeus, adeus/Pescador não se esqueça de mim/Vou rezar pra ter bom tempo, meu bem/Pra não ter tempo ruim/Vou fazer sua caminha macia/Perfumada com alecrim”.


Arthur agora percebeu que na piscina de águas azuis cristalinas havia uma grande pedra negra. A conhecida Pedra do Encontro, conforme batizou o tio Guto em Barra de Jacuípe. Era o local certo do encontro do rio Jacuipe com as águas do mar. Nesse ponto, um grande redemoinho de águas turvas e verdes rodavam incessantemente até se misturar completamente. Nessa união entre água doce e salgada, bem abaixo estava o Reino da Atlântida.

Quando retornou de Atlântida, Arthur conversou demoradamente com Lucas e começou um movimento em defesa das águas do rio e do mar. Enquanto suas famílias se reuniam com os amigos, os dois garotos se encontravam com outras crianças da localidade para recolher o lixo que os adultos deixavam na praia. Aproveitavam e procuravam dar conselhos a outras pessoas da vizinhança. Durante todo o mês de setembro, de Arembepe até Jaguaripe, toda a orla já estava mudada. As crianças realmente entraram em ação e, com planejamento, conseguiram levar sua mensagem de socorro para salvar rios e mares. Em todo o mundo, as crianças abraçaram a causa em defesa do meio ambiente.

Este é Arthur


Dois mundos, terra e água, duas histórias se cruzaram, uma vida pela frente. A vida dos sobreviventes. E quem contará essa história para futuras gerações, é preciso acreditar nas ações em benefício de todos. É preciso abrir os braços, apertar as mãos e unidos ajudar uns aos outros. O sol continuava sua trajetória a iluminar a vida e o céu límpido inspirava mudanças internas.

-- De hoje em diante, toda vez que olhares um ser marinho, lembrará de mim. Mesmo quando o mar estiver revolto, aquela lembrança estará brilhando dentro de você, mostrando os caminhos que deve seguir e revelando o meu amor a todas as criaturas vivas. Disse o cavalo-marinho Dourado.

Este é Lucas


Arthur não sabia como começar, mas estava disposto e precisava de uma lembrança interior. Suas idéias teriam alcance mundial. Lutaria pelos direitos marinhos, chamaria atenção de toda a sociedade e sua luta atravessaria vales e planaltos. E ele sabia que iria conseguir, pois precisaria enxergar com os olhos do coração. Com ele estava Lucas e todas as crianças para salvar o planeta.

Será o fim ou apenas o começo de outra aventura. Continuem vocês crianças...

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