21 julho 2010

A volta triunfal do western (2) (nos anos 90)

O Velho Oeste Americano rendeu muitas produções culturais. O cinema, a literatura e a televisão aproveitaram-se com entusiasmo das ideias do oeste selvagem, terra sem lei, de homens fortes e perigos naturais, e o público consumiu esses produtos com voracidade. A era dos cowboys durou de meados de 1800 a 1920, o fim da Revolução Mexicana, representando a conquista e o desbravamento de toda a fronteira sul e ocidental dos Estados Unidos em formação. O excesso de produções, facilitadas pelo baixo orçamento do gênero, nas décadas de 1930, 40 e 50 exauriram o faroeste, que encontrou ainda algum fôlego nas décadas de 1960 e 70, primeiro em uma fase revisionista, depois com histórias mais irônicas e violentas, em que seus anti-heróis eram reflexos do revolucionário radicalismo cultural. Nos anos 1980 em diante, contam-se nos dedos os grandes westerns surgidos. (No dia 03/04/1991 publiquei uma reportagem no Caderno 2 do jornal A Tarde. 03/04/1991. Gutemberg Cruz)


Cavalos galopando, diligências em disparada, bancos e trens assaltados por estrangos mascarados, brigas sobre as mesas do saloon, duelos a bala na rua deserta, bandidos e mocinhos, barões do gado, vaqueiros, índios e xerifes. O bangue bangue voltou com força na década de 90. Um dos gêneros clássicos da época de ouro de Hollywood – que, por várias décadas, se constituiu no mais típico épico do cinema americano, mas que, nos últimos anos, esteve praticamente esquecido -, o western acaba de ser redescoberto. O sucesso de público e crítica de “Dança com Lobos” é o primeiro de uma série de filmes destinados a ressuscitar um gênero que parecia já sepultado com John Ford, John Wayne e outros de seus ilustres cultores.


A “corrida do ouro”, por volta de 1848, atrai ao Oeste todo tipo de aventureiro. É essa saga de pioneiros e desbravadores (e também de bandidos, exterminadores de índios, grileiros, pistoleiros e mercenários) que é retratada nos filmes do gênero western, mais conhecido no Brasil como faroeste ou bangue-bangue. Ao contar a marcha para o Oeste, esse filmes mostram também a formação de uma mentalidade tipicamente americana, baseada em conceitos de liberalismo, pioneirismo e individualismo. Para louvar esses valores, o faroeste valeu-se quase sempre de uma receita simples: um herói solitário, um paladino da justiça que decide tudo sozinho. Ele é justo (com as exceções de sempre), é competente (leia-se rápido no gatilho) e faz valer o idealismo americano nas terras virgens e sem lei do Oeste.


FILOSOFIA - A tensão criada por essa luta do herói contra o ambiente ou contra as forças do mal e da desordem constitui o núcleo principal da filosofia do faroeste. Assim nasceu um gênero americano por excelência, um universo povoado por mitos respeitáveis (e agora questionado), valores estratégicos próprios e uma maneira particular de filmagem – geralmente em locações, com amplos espaços que facilitavam tomadas com planos abertos, em que a paisagem importa quase tanto quanto os próprios heróis.

Com John Wayne e Cary Cooper, o homem do Oeste começou a se transformar numa espécie de cavaleiro errante, um colt de cada lado, a cavalgar solitário por aventuras em nada parecidas com os clichês dos tempos de Tom Mix. Diretores como John Ford (No Tempo das Diligências) e Raoul Walsh (Rio Vermelho) transformaram o gênero numa nova forma de arte e deram às suas histórias uma estrutura realmente épica. Mas, em meados da década de 60, aos olhos de um público mais exigente, ficou claro que o western se tornava anacrônico e alienado. Por outro lado, os novos cultores do gênero sobretudo o italiano Sergio Leone, um dos mestes dos chamados spaghetti westerns (nome pejorativo que se deu aos faroestes feitos com diretores e elencos italianos), popularizaram um novo tipo de “mocinho”: agora, em vez de herói incorruptível, corajoso e galante, o cowboy era um tipo cínico, impiedoso, capaz de matar friamente por alguns poucos dólares. Nesses filmes, mocinhos e bandidos se confundem.


Pela mesma época, isto é, durante os tempos de ativismo político dos anos 60 e 70, alguns diretores de Hollywood tentaram encontrar para o western caminhos mais consequentes e atuais, dando-lhes conotações sociais claras. Um bom exemplo é “O Pequeno Grande Homem”, que tenta por em xeque os valores convencionais, mostrando uma minoria (os índios) oprimida por um complexo industrial militar formada pela cavalaria, os banqueiros, os magnatas das estradas de ferro e os burocratas do governo.


Nos anos 80, houve uma pequena ressurreição com The Long Riders, a volta do velho mito dos irmãos Jesse e Frank James, contado pelo diretor Walter Hill; Heaven´s Gate (Portal do Paraiso), dirigido por Michael Cimino, onde conta a história de ima verdadeira guerra travada no Oeste entre vaqueiros e fazendeiros, além do filme de Lawrence Kasdan, “Silverado”, que conta com excelentes atuações de Scott Glenn e Kevin Costner. Mesmo assim, o faroeste sucumbiu às mudanças culturais e tecnológicas: matar vietcongs (ou muçulmanos) ficou mais atraente do que massacrar índios, e os efeitos especiais deram melhor resultados fora do que dentro do faroeste.


Com um trabalho cuidadoso, de três horas de muito talento e Oscars, Kevin Costner reabilitou o gênero na década de 90. “Dança com Lobos” tem uma mensagem, condenando o tratamento dado aos índios que, segundo o filme, apenas 13 anos depois dos acontecimentos narrados na fita já estariam praticamente exterminados. Mas essa é outra história

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929

20 julho 2010

A volta triunfal do western (1) (nos anos 90)

O Velho Oeste Americano rendeu muitas produções culturais. O cinema, a literatura e a televisão aproveitaram-se com entusiasmo das ideias do oeste selvagem, terra sem lei, de homens fortes e perigos naturais, e o público consumiu esses produtos com voracidade. A era dos cowboys durou de meados de 1800 a 1920, o fim da Revolução Mexicana, representando a conquista e o desbravamento de toda a fronteira sul e ocidental dos Estados Unidos em formação. O excesso de produções, facilitadas pelo baixo orçamento do gênero, nas décadas de 1930, 40 e 50 exauriram o faroeste, que encontrou ainda algum fôlego nas décadas de 1960 e 70, primeiro em uma fase revisionista, depois com histórias mais irônicas e violentas, em que seus anti-heróis eram reflexos do revolucionário radicalismo cultural. Nos anos 1980 em diante, contam-se nos dedos os grandes westerns surgidos. (No dia 03/04/1991 publiquei uma reportagem no Caderno 2 do jornal A Tarde. 03/04/1991. Gutemberg Cruz)


O western é a forma cinematográfica mais adequada para espelhar a América contemporânea. O gênero é amaldiçoado pela Academia de Hollywood. Mas em 1991 a indústria do cinema quis colocar o ator Kevin Costner em um pedestal, ele partiu para um projeto pessoal: um western falado em sioux. Disseram que ele estava louco. Doze indicações para o Oscar provaram que não. Ganhou sete Oscars (melhor filme, diretor, fotografia, montagem, som, roteiro adaptado e trilha sonora) e foi o primeiro faroeste premiado desde Cimarron, em 1931.


Dança com Lobos” (Dances with Wolves) é um western épico com três horas de duração, em que Kevin Costner não só interpreta o papel de um oficial renegado da União (exército do Norte dos EUA durante a Guerra da Secessão), que vive entre os índios de uma tribo sioux, como também fez sua estreia como diretor. Costner mostrou tudo que a dita “civilização” protestante, branca e anglo-saxã perdeu com o monstruoso genocídio racial que cometeu no Oeste. As ambições humanistas de Costner passaram por cima de tudo: má propaganda boca a boca, duração de três horas e um terço falado em linguagem nativa lakota, com legendas (coisa que o público americano detesta) e num gênero que é, definitivamente, fora de moda. Ele também abriu mão de cerca de US$2 milhões de seu salário de US$5 milhões como ator para que os produtores pudessem usar esse dinheiro para atender às despesas que a produção teria no final das filmagens.


Dances with Wolves” foi um absoluto sucesso de crítica e público. Como ator, Kevin Costner esbanja simpatia; como diretor, detalhista e impecável. O resultado, um filme irretocável, merecendo os Oscars a que foi indicado. Costner fez o épico que a América, obcecada pelos crimes contra o meio ambiente, estava esperando. O personagem principal do filme, John Dunbar, se perde no tempo e no espaço e se iden

tifica com a natureza representada pelo lobo. Seu caminho é longo e culmina com a sua transformação num outro homem – um índio, como se percebe na cena em que ele, prisioneiro dos seus antigos colegas de farda, responde aos brancos na linguagem dos sioux.

FÚNEBRE - Hollywood negou ao índio o mais elementar dos direitos, que é o reconhecimento da sua condição humana. Basta assistir aos westerns de John Ford. Um dia, ele se redimiu e fez “O Crepúsculo de uma Raça” (Cheyenne Autumn), transformando o Outono dos cheyennes no canto fúnebre não só dos índios mas do western também. O filme é de 1964. Nesse mesmo período, o cineasta Gordon Douglas mostrou, em “Rio Conchos”, que, um dia, o caçador de índios descobre num pele-vermelha uma dignidade e uma retidão a que não estava acostumado. Em 1970, Dustin Hoffman trafega entre duas culturas, a branca e a índia. “Pequeno Grande Homem” (Little Big Man), de Arthur Penn, ganhou fama como um dos westerns desmistificadores da história do cinema. Richard Harris vive um prisioneiro dos sioux que, depois de vários rituais e torturas, é aceito pela tribo, tornando-se líder. O filme é “Um Homem Chamado Cavalo” (1970), western antropológico de Elliot Silverstein, que fez tanto sucesso que deu origem a uma série.


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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929

19 julho 2010

Pasolini e sua religiosidade revolucionária

De 26 a 31 de julho no Teatro Castro Alves (Campo Grande) e no Instituto Goelhe (Corredor da Vitória) será realizado a sexta edição do Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual (SemCine). O homenageado deste ano será Pier Paolo Pasolini com uma Mostra Retrospectiva do polêmico diretor italiano. A Mostra será no ICBA com a exibição de 14 filmes, entre eles “O Evangelho Segundo São Mateus”, “Teorema”, “Decameron” e o impactante “Saló, 120 Dias de Sodoma”. Profundo, mordaz e a favor da independência humana, o cineasta, escritor, poeta, jornalista político, homem de teatro e filósofo Pier Paolo Pasolini era profundo conhecedor das parábolas bíblicas e pregou uma espécie de religiosidade revolucionária.




Píer Paolo Pasolini (1922/1975), artista que hoje se chamaria de um multimídia – era prosador, poeta, repórter, articulador, pintor, e “também” cineasta. Quer dizer, o cinema era um meio de expressão, entre outros. E esse meio lhe servia para dar forma a uma posição determinada diante do mundo. Posição de esquerda, porém fora da esquerda oficial. Libertária do ponto de vista sexual, provocativa em política, conservadora na religião. Ele queria captar o discurso do povo e não fazer um discurso sobre o povo. Seus filmes mostram a disposição de encontrar essa força primitiva que viria dos estratos populares, livre de contaminação da cultura de elite. Forças primais, as forças da saúde – o sexo, a fome, o riso, o prazer em todas as suas formas, mesmo as mais escatológicas.


Pasolini nunca foi uma unanimidade, mas foi, incontestavelmente, um personagem decisivo da cena cultural italiana e não apenas da cinematográfica. Como Glauber Rocha no Brasil, ele foi acima de tudo um agitador. Revolucionou – e talvez tenha convulsionado – a estética e a política. Emerge do neo-realismo do após-guerra e mescla temas sociais a um cristianismo popular muito à sua feição. Ele é um retratista de primeira da periferia romana, como se vê em “Desajuste Social” (1962), e “Mama Roma”. Seu “Evangelho Segundo São Mateus” (onde anunciou o surgimento da Teologia da Libertação) mostra um Cristo revolucionário e a crítica política em “Gaviões e Passarinhos”. Em “Teorema” é a sexualidade que vem desarranjar a sonolenta estabilidade da família burguesa. Da mesma forma, os filmes míticos como “Medeia” e “Édipo Rei”, seriam buscas de salvação na luta de classe sem-fim.

TRILOGIA - Enquanto o homem moderno acostumou-se a tratar com desdém a Idade Média, chamando-a de época das trevas, Pasolini lançou a sua trilogia da Vida como “Decameron”, “Os Contos de Canterbury” e “As Mil e Uma Noites” onde haveria alguma esperança no homem. Para ele, a idade da escuridão era esta, a nossa, a do capitalismo e da sociedade de consumo. Essa profecia do caos ele a realizou por completo no filme que acabou como sendo seu testamento, “Saló”, no qual identifica o fascismo com a obra de Sade. Ele fala da cidade de Saló, onde Mussolini fundou a República Social Italiana, sob proteção alemã, em 1943, já no epílogo da sua aventura. O filme é trágico, profético e fundamental.


“Pasolini foi um crítico radical da sociedade de seu tempo”, afirma a professora da Unicamp, Maria Betânia Amoroso no livro Píer Paolo Pasolini (Cosac & Naify). “Ele foi um dos que, por primeiro, souberam enxergar a virada irreversível do mundo”. A estudiosa preferiu tratar, entre as várias facetas de Pasolini, a do “diagnosticador” dos tempos que viriam, ressaltando os dois pontos que ele defendeu ao longo da vida. “O primeiro é que, para ele, o mundo está constituído de forças contrastantes, sem que, todavia, isso signifique o conformismo estéril; e o segundo é que a arte exige conhecimento prévio e técnico, não sendo ato de pura vontade nem dom natural. Quando fez crítica à ideologia, nunca foi cínico”. Ele radicalizou, como poucos pensadores, o discurso anticomunista e antifascista. Teve a intuição do que seria o mundo globalizado e o criticou com veemência. É esse seu maior legado.

NEOCAPITALISTA - Nos seus filmes, Pasolini se deslocava e se distanciava cada vez mais dos centros industriais. Suas criações desse período foram instrumentos de uma batalha desesperada contra a degradação neocapitalista do mundo. Temos, por exemplo, contra o materialismo burguês, o senso metafísico e o irracionalismo religioso em O Evangelho Segundo São Mateus (1964) e em Teorema (1968); contra o racionalismo pragmático, a magia e a força do irracional e do mito em Édipo-Rei (1967), Medeia (1970) e nas Notas por uma Oréstia Africana (1970); contra a ideologia do desenvolvimento e da eficácia tecnológica, o caos e a barbárie em Pocilga (1969). A partir de 1970 ele resolveu lutar contra seu pessimismo e consagrou sua “trilogia da vida” à exaltação da realidade corporal simbolizada no corpo nu e no sexo nos filmes Decameron (1971), Os Contos de Canterbury (1972) e As Mil e uma Noites (1974). O sexo é também o principal protagonista de Saló, ou Os 120 Dias de Sodoma (1975), o último filme de Pasolini. O sexo, não como fonte de prazer, mas como objeto de tortura: é com esta imagem da desrealização fascista do corpo – isto é, justamente do último reduto da realidade – que Pasolini compõe o retrato final do seu mais absoluto desespero.


Talvez o filme mais deliberadamente abusivo produzido por um diretor de primeira linha, Saló mostra perversões sexuais tão cruéis que uma cena comum de amor heterossexual logo é punida com a execução dos amantes. Apesar do realismo apocalíptico ser a tônica da narrativa de Saló, a força ficcional tem inspiração no romance Os 120 Dias de Sodoma, de Marquês de Sade, que faz Pasolini aproximar sadismo e fascismo como práticas correntes do mundo moderno. Ambos, para ele, refletem a economia política e o aviltamento consumista da sexualidade. Pasolini sintetiza sua luta contra o terror – da direita e da esquerda. É o grito contra o poder e sua força de manipulação, contra a violência ao pensamento e à mercantilização do corpo, no sentido do aprisionamento às regras de uma sociedade de consumo. Talvez o filme mais cruel, o grau máximo da ficção cotidiana mais subversiva em seu poder de crítica e desespero que o cinema produziu no século XX. Foi o último delírio de Pasolini.


Pasolini sabia que a sociedade de consumo, cujo poder é planetário, requer indivíduos massificados, dóceis, conformistas, que não perturbem a lógica do consumo. Muitas vezes, poetas e artistas tomados por Dionísio pagam caro seu inconformismo. Rimbaud, Lautreamont, Genet, Dino Campana, Sade, Artaud, Caravaggio, Crevel, Qorpo Santo, Nietzsche, Nerval, Trakl e muitos outros comprovam essa trajetória.


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16 julho 2010

Música & Poesia

Quyquyô (Geraldo Espíndola)


Quyquyho nasceu no centro entre montanhas e o mar

Quyquyho viu tudo lindo, tudo índio por aqui

Indiamérica deu filhos foi Tupi, foi Guarani

Quyquyho morreu feliz deixando a terra para os dois

Guarani foi pro sul, Tupi pro norte

E formaram suas tribos cada um no seu lugar

Vez em quando se encontravam pelos rios da América

E lutavam juntos contra o branco em busca de servidão

E sofreram tantas dores acuados no sertão

Tupi entrou no Amazonas Guarani ainda chama

Quyquyho na lua cheia quer Tupi, quer Guarani.


Sertão é dentro da gente...” (Gustavo Adonias)


Sertão é quando a gente sente

Que está rachando de repente

E não há como juntar os pedaços novamente

Sertão é o seco caminho de rio

Açude vazio

Espinho de esperança

Sertão é quando a gente olha

E até onde a vista alcança

É apenas sol, fustigando feito lança

Sertão é caatinga de sentimentos

Sertanejo lamento

D´alma retirante

Sertão é a légua tirana

Ferindo nossos passos sem alpercatas

Sertão a gente sente

"Sertão é dentro da gente..."


Poesia baseada na frase de Guimarães Rosa


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15 julho 2010

Brasil, revisão de uma história (II)

Após abolição da escravidão em 1888, a necessidade de mão de obra, para a agricultura, principalmente a do café, em substituição ao trabalho escravo, abriu espaço para a imigração em larga escala. Até fins da década de 1940 estima-se que o Brasil recebeu aproximadamente 5 milhões de imigrantes. Deste total, 2/3 foram constituídos por italianos, portugueses e espanhóis. No 1/3 restante contam-se principalmente alemães e japoneses, e grupos menores de russos, sírio-libaneses e outros. Em anos mais recentes, após a segunda guerra mundial, novos contingentes de imigrantes coreanos, chineses e de países sul-americanos, como Bolívia e Paraguai aportaram ao Brasil.


Deste modo, a formação da cultura brasileira encontra fortes raízes nas culturas europeia, indígena, negra além de influências orientais, moldando o brasileiro como indivíduo versátil e adaptável, aberto ao contato e a apreciação das mais diversas influências culturais.


INDEPENDÊNCIA – Com a exploração dos nossos tesouros o Brasil ganhou mais habitantes, alguns deles bem mais ricos e o país mais pobre. A população de Minas Gerais viveu no final do século 17 uma vida agitada. Por causa do ouro, centenas de pessoas mataram e morreram (filmes de bangue bangue perde para esse cenário). E por estar mais perto das minas, o Rio de Janeiro passou a cidade de Salvador para trás e se tornou a capital. Mas a população pobre começou a se movimentar insatisfeita e, entre poema satírico e carta contra o governo, surgiram os primeiros movimentos pela independência.


A monarquia brasileira durou 67 anos e foi uma época confusa. O imperador reinava aqui e em Portugal, fomos até governados por um garoto de 14 anos. Diversos ministros vieram e caíram. Pedro I proclamou a Independência e ninguém ficou sabendo. O Brasil era uma colônia composta por regime muito diferentes. Várias revoluções explodem em todo o país a partir de 1835: Farroupilha (Rio Grande do Sul), Revolta dos Malês (Bahia), Cabanagem (Pará).

MILITARES - Em 1864 começa a Guerra do Paraguai e a vitória aumentou o sentimento de que formávamos uma só povo. Mas em 1889 os republicanos tramavam um golpe e Dom Pedro II é deposto, o império cai e o marechal Deodoro da Fonseca assume. Começa então o período da República. Assim quando um marechal do Exército, herói da Guerra do Paraguai derrubou o imperador, nosso país passou a conviver coma grande influência dos militares. Foi com a ajuda dos militares que Getúlio Vargas assumiu a presidência, e foi por causa deles que caiu, em 1945. E a caserna garantiu a posse de alguns presidentes e chegou ao auge do poder em abril de 1964. Começava então o mais longo período de ditadura da nossa história republicana.


É bom lembrar que até o final da Guerra do Paraguai (1870) não valia a pena ser militar no Brasil. Desde que foi criado o Exército e a Marinha ir para lá era um castigo reservado para as pessoas pobres acusadas de delinquência ou vadiagem. O conflito no país vizinho forçou o Império a criar um exército de verdade. Com a vitória no Paraguai surgiram os heróis Duque de Caxias e o marechal Deodoro da Fonseca. Eles voltaram da guerra querendo mais poder. Conseguiram através de conspirações, tramoias e sabe lá o quê...


NAZISTA - Nos anos 30, para quem não se lembra, abrigamos o maior partido de apoio a Hitler fora da Alemanha. Muitos dos imigrantes alemães nazistas eram espiões. São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro entre outros, saudavam a Alemanha de Hitler. Em Salvador, por exemplo, no bucólico bairro da Saúde chegou a morar um desses espiões (dizem a lenda, se desejar vá pesquisar e relatar tal fato). O presidente Getúlio Vargas gostava da Alemanha e não decidia que lado o Brasil ia apoiar na Segunda Guerra Mundial. Sua decisão chegou quando submarinos alemães bombardearam navios brasileiros em agosto de 1942. Então Getúlio declarou guerra a Hitler e Mussolini. As armas secretas no exterior de Hitler (no caso Brasil) estavam nas escolas, clubes e no alto do morro de Santa Tereza (vixe Maria!).

Em 1964, com a tomada do poder pelos militares, ocorreram mudanças que marcaram profundamente duas ou três gerações de brasileiros, até os dias de hoje. Por um lado os militares privilegiaram o desenvolvimento econômico, dispostos que estavam a transformar o Brasil em uma potência emergente. Mas, por outro lado, através de uma série de "Atos Institucionais", suspenderam direitos políticos, eliminaram a possibilidade da população eleger o Presidente da República e os Governadores dos Estados, instauraram uma política de censura, cerceando a liberdade de expressão, e iniciaram uma fase de repressão e perseguições políticas. (Mais sobre o assunto leia “As Ilusões Armadas- A Ditadura Envergonhada”, de Elio Gaspari, Cia das Letras).


JUSCELINO - Veio o Presidente Juscelino Kubitschek que fez o país acreditar que estava entrando no primeiro mundo. Sorridente e jovial ele prometeu fazer o Brasil saltar 50 anos em 5. E se o antecessor queria que todas as grandes empresas que operasse no Brasil fossem nacionais, Juscelino saiu em busca de empresas de todo lugar do mundo para priorizar áreas de energia, industria, transporte, alimentação e educação.. A Volkswagem começou a fabricar aqui Fuscas e Kombis. As pessoas passaram a ter em casa liquidificadores, vitrolas, geladeiras, enceradeiras, televisores. Foi uma grande empolgação.


As rodovias asfaltadas triplicaram, construíram hidrelétricas, Brasília surgiu como a cidade mais moderna do planeta, mas a felicidade estava chegando em um final não tão feliz assim pois o país endividava demais. O governo gastava muito mais que arrecadava e o dinheiro estrangeiro não foi suficiente para segurar o rombo. A inflação saltou de 19% para 30% ao ano (1958). Nas eleições Juscelino estava mal e em 1964 um golpe militar mudou todo o cenário.(Leia: “Feliz 1958 o ano que não devia terminar”, de Joaquim dos Santos, editora Record para sacar mais sobre o assunto) Fecha as cortinas!. O resto você deve ter acompanhado...


EXTERMÍNIO (ou a arte de não ver)


A história é crônica da destruição e das ruínas das coisas corroídas pelo tempo. A história é massacre que o presente sem memória converte em progresso. O historicista procura empatia com o vencedor. Os que conseguiram a vitória participam do cortejo triunfal que conduz os dominadores de hoje a tal posição na medida em que passam sobre os vencidos que jazem no chão. O contato entre culturas diferentes, no passado, foi trágico. O engajamento europeu com os povos nativos das Américas foi trágico. A Europa enriqueceu com os genocídios nas Américas. Em 1492, cerca de 100 mil povos nativos viviam nas Américas. No fim do Século XIX, quase todos eles tinham sido exterminados.


Quando os espanhóis chegaram nas Américas, destruíram tudo e todos que encontraram pelos caminho. Colombo fez pior que Hitler e a História esconde esses fatos. Mataram, estriparam, queimaram, vivos. Esses conquistadores espalharam sua missão civilizatória ao longo das Américas Central e do Sul matando todos os povos indígenas. Os missionários franciscanos usaram trabalhos escravos em campos de concentração e exterminaram milhares de povos. Os que cometeram atrocidades foram credenciados como heróis. E o Vaticano beatificou muitos desses assassinos. Política e religião quando se junta, haja exterminação.

E o abatedouro continuou até chegar bos dias atuais onde o princípio do genocídio que o oponente é melhor oprimido quando não podemos vê-lo continua. “Nós nos tornamos todos hábeis na arte de não ver”.

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14 julho 2010

Brasil, revisão de uma história (I)

O Brasil, com 8,5 milhões km² de extensão territorial, comporta uma população de 192 milhões de habitantes. Situa-se na América do Sul sendo português o idioma oficial do país. Nosso país foi favorecido pela natureza em todo o ponto de vista, mas porque continua com desequilíbrio social? Seis motivos fortes, ou seja, uma série de desgastes decisivos para entender a história. Seja na colonização predatória, três seculos de escravidão, a independência proclamada diante do absoluto alheamento da população. Uma república proclamada pelos militares. Fases desesperadas de um país que procurava a modernidade e não conseguia até chegar ao golpe de 1964.

Vinte e um anos depois os militares se retiram e o Brasil pode ter uma democracia com desigualdade gritante. Aqui temos uma das piores elites do mundo, a mídia brasileira é um dos rostos dessa elite. Ela sempre se coloca de um lado só. Essa mesma mídia chamava o golpe de revolução e outros como ditadura militar ou branda. Eles continuam atrelados a sua tradição: o poder está nas mãos deles. A mídia funciona como instrumento do poder. Os políticos brasileiros não conseguem escapar do vídeo da Globo ou das páginas amarelas da Veja. A Folha de S.Paulo, O Globo, Jornal do Brasil nunca foram censurados. O Estado de S.Paulo sim. Imparcialidade, isenção, independência. E hoje? Hipocrisia que a esta altura faz parte da tradição.

O jornalismo de verdade é investigativo, tem que ir a fundo em todas as questões. Não precisa ter oposição a tudo, mas que tenha que denunciar tudo que estiver “errado”. Imprensa isenta é impossível, já é consenso. Mas é preciso honestidade. E isso significa informar o leitor de que lado está, quais são suas posições. Mas tudo isso sem deixar de buscar a verdade factual, sem deixar a ideologia se sobrepor aos fatos. Mesmo quando a ideologia é explicitada. E a grande imprensa não faz nem uma coisa nem outra, ou seja, não explicita a ideologia, mas deixa que ela se sobreponha aos fatos.

PREDATÓRIA - Mas vamos por parte. Primeiro com a colonização predatória. As enormes extensões de terra que compõem o país, eram habitadas, no início do século XV, por uma população indígena estimada em 2 milhões de pessoas, vivendo da pesca e da agricultura rudimentar, caça e coleta de alimentos. Oficialmente, os portugueses chegaram ao Brasil em 22 de abril de 1500, embora pesquisas históricas indiquem que sua expedição foi precedida por outras incursões.

Quando os portugueses chegaram nas praias da Bahia agasalhados pelo frio europeu encontraram gente nua que vivia da caça e da pesca e tinham muitos deuses e várias mulheres. Foi um grande choque para os dois lados. E era só o começo. Durante décadas, levas e mais levas de europeus chegaram com seu Deus único e suas armas. Depois, começaram a aportar embarcações com um outro tipo de gente. Desta vez eram homens de pele escura, com correntes de ferro nos braços e nas pernas. Desse encontro nasceu um país cordial, mas violento. Acolhedor, mas injusto.

ESCRAVIDÃO - De início, a exploração das novas terras deu-se preferencialmente pela extração de pau-brasil. Com a expansão da presença portuguesa e o cultivo da cana de açúcar os primeiros colonos passaram a escravizar os indígenas para o trabalho agrícola. Por volta da segunda metade do século XVI, a dizimação das populações indígenas pelas doenças trazidas pelo europeus (gripe, varíola, sarampo) e pelos conflitos, aliada à dificuldade de adaptação dos indígenas ao trabalho escravo, levou os primeiros colonos à utilização de escravos negros. Do século XVI ao século XIX, estima-se que de 3 a 4 milhões de africanos foram trazidos ao Brasil.

A partir da segunda metade do século XVI, tornou-se marcante a presença dos jesuítas no trabalho de conversão dos indígenas ao catolicismo e fundando aldeias comunitárias similares às missões presentes na América espanhola. De modo geral, os primeiros colonos chegaram com ânimo de exploração, motivados pelas perspectivas de fazer fortuna com a extração das riquezas da terra. Esta circunstância deixou profundas marcas em nossa formação, por ser determinante na orientação das políticas coloniais da coroa portuguesa.

BANDEIRANTES - Filhos de portugueses com mulheres brasileiras, os bandeirantes descobriram terras que nenhum homem branco tinha visto. Durante 200 anos, entre os séculos 17 e 18, eles se embrenharam no mato para buscar índios, que capturavam para usar em suas próprias fazendas ou vender como escravos. Graças a eles, o Brasil ficou muito maior do que deveria ser, já que o Tratado de Tordesilhas, assinado entre Espanha e Portugal em 1494, dava aos portugueses só o nosso litoral. Os bandeirantes aumentaram o tamanho do nosso país, mas também provocaram um rombo de população. Cometeram o maior assassinato em massa do país. Mataram e prenderam tantos índios que o nosso interior ficou bem mais vazio.

Um dos primeiros bandeirantes da história, o português João Ramalho (século 16) fez amizade com a tribo dos tupiniquins, tinha várias esposas e uma multidão de filhos. Com o apoio do índios fundou a cidade de São Paulo. Mas sua aliança com os tibiriçás provocou a fim dos tupinambás. Surgiram outros bandeirantes que começaram a devastar o sul do Brasil. Antônio Raposo Tavares exterminou os índios guaranis que viviam pacificamente com os padres jesuítas (Missões). Quando os guaranis ficaram raros, os bandeirantes foram para o Planalto Central dominar os guaicurus. No Nordeste os índios tapuias se rebelaram contra os donos dos engenhos de açúcar e o famoso Domingo Jorge Velho chegou para destruir. Anos depois, as operações de caça (conhecidas como bandeiras) ganharam uma nova motivação – procurar ouro. Com o extermínio dos índios, o Brasil passou a usar os escravos da África e os bandeirantes voltaram para suas terras, para viver como fazendeiros. (Para saber mais, leia: “A Guerra dos Bárbaros”, de Pedro Puntoni, Hucitece “Negros da Terra – Índios e Bandeirantes nas Origens de São Paulo”, de John Manuel Monteiro, Cia das Letras).

13 julho 2010

Roland Schaffner e suas paixões transculturais

Ele viveu situações políticas e sociais distintas no Rio, Salvador, Calcutá e Belo Horizonte. Em Salvador por quase duas décadas à frente do Instituto Goethe nos anos 70 e 90, Roland Schaffner é uma referência de liberdade para artistas e intelectuais. Ao sair do Instituto Cultural Brasil Alemanha (Icba) em 1999 começou a escrever um livro com suas experiências interculturais. A obra será publicada pela Edufba ainda este ano. Intitulada Memoráveis paixões transculturais, em que contextualiza sua experiência, está sendo esperado com ansiedade por todos.

Nos anos 70 o Brasil vivia tempos difíceis com os direitos políticos e sociais proibidos. Uma parte da nossa história que não foi esquecida. A nossa Salvador teve um espaço de liberdade, onde artistas, intelectuais e o público puderam se encontrar, produzir e fazer experimentações artísticas. Esse espaço, o Icba (Instituto Cultural Brasil Alemanha) teve à frente o alemão Roland Schaffner. Durante quase duas décadas à frente do Icba em Salvador (1970 e 1990), Schaffner foi uma referência de liberdade para artistas e intelectuais.

ESPAÇOS PARA OS ARTISTAS

Verdadeira fundação cultural, o Instituto Cultural Brasil Alemanha (Icba) com Schaffner à frente criou cooperativas artísticas, barracas para montagem de cinema, artes plásticas, direção de teatro, núcleo de vídeo, quadrinhos, formação de ator e música eletrônica. Basta lembrar o Baiafro, grupo de percussão liderado por Djalma Correia; o teatro étnico Palmares Ynãron, de Antonio Godi, Interarte, de artes visuais; o desenho animado com Chico Liberato; Intercena com Carmen Paternostro. E por lá no Icba que a atual Jornada de Cinema da Bahia, fundada por Guido Araújo como Jornada Baiana, pôde se desenvolver, além de produzir o primeiro curso profissionalizante de Cinema da Bahia. Os artistas visuais e cartunistas Paulo Setúbal, Nildão, Lage e muitos outros frequentavam o local

O nosso Centro de Pesquisa de Comunicação de Massa (grupo que estudava as artes gráficas – quadrinhos, cartuns, caricaturas) realizou no período de 01 a 12 de junho de 1976 uma exposição sobre Quadrinhos na Bahia. E de 01 a 15 de setembro de 1977 realizamos no mesmo local a mostra

Quadrinhos na Imprensa Baiana. Ao levar a proposta sobre quadrinhos para o Icba, Schaffner foi mais que receptivo, ele foi participativo, procurou incentivar os artistas gráficos da Bahia e abriu as portas da instituição para reuniões e debate. Foi uma época de crescimento.

MODELO PARA OS DEMAIS

Roland Schaffner nasceu em Dresden, uma cidade que foi destruída pelos nazistas. Ele cresceu em Colônia, e desde os 14 anos pegava carona pelo sul da Europa e norte da África. Na Austrália trabalhou como carpinteiro. Ao voltar para a Alemanha descobriu a literatura comparada. Dos estudos literários, por 12 anos, seu interesse passou para a contextualização sociológica e política das artes. Seu trabalho foi único e modelo para os demais institutos. A coletividade escolheu o Icba como porta-voz de seus anseios, centro de realização e intercâmbio.

Depois ele foi trabalhar em Calcutá, na Índia. Retornou, desta vez para Belo Horizonte onde mobilizou o cenário cultural de forma inédita. Em 1992, Schaffner recebeu o título de cidadão soteropolitano e, em, agosto do mesmo ano, voltou a assumir o Icba em Salvador realizando o I salão de Arte Digital, fundou o primeiro núcleo do vídeo baiano, agitou o teatro musical e diversos outros artes. Em 1999 ele saiu do Icba e começou a escrever um livro com suas experiências interculturais. O livro deverá sair este ano pelo Edufba: “Memoráveis paixões transculturais”, em que contextualiza sua experiências

Em 2009 por iniciativa do ator e antropólogo Antônio Godi, membro do Conselho Estadual de Cultura da Bahia, Roland Schaffner foi homenageado por sua contribuição à cultura baiana. Verdadeira universidade à parte, um “campus livre”, o trabalho de Schaffner foi revolucionário, participativo, compartilhado. Roland Schaffner é o nome que está gravado na memória de todos.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929

12 julho 2010

Gerações X, Y e Z. Aonde está você?

Normalmente um período de um século comporta gerações distintas. Se olharmos para os últimos anos, vamos perceber claramente que várias transformações ocorreram nas últimas gerações, fazendo com que uma fosse diferente da outra. Vários estudos apontam a existência demarcada de cada uma, identificando algumas de suas características. Vamos lá:

Construtores (1901-1920): A geração maior, do impulsionador, da guerra, do herói. Os seniors


Silencioso (1921-1940): A geração do sanduíche, aquela que se confrontou com a depressão econômica mundial dos anos 1930 e, principalmente, com a Segunda Guerra Mundial.


Baby Boomers (1941-1950): Formada pelas crianças nascidas depois da Segunda Guerra e expostas a um mundo bipolar, à guerra fria e a um comportamento contestatório e de procura por uma vida melhor, com sonhos de consumo.


Geração Jones ( 1951 a 1960): Geração de pessoas nascidas entre os Baby Boomers e Geração X, isto é, aquelas pessoas que nasceram entre os anos 1950 e 1960. Eles são geralmente referidos como Jonesers ou como em GenJonesers.

X (1961-1971): A geração do amor, dos beatniks, hippies, geração perdida, geração da descoberta.


Y (1972-1982): Geração da Internet, o Google, conectado, neo-Disney


Z (1983 em diante ): Geração líquida, iGeneration, de MySpace, MyPod


Geração Baby Boomers - A geração nascida entre 1941 e 1950. Os “Baby Boomers” estão na liderança da maior parte das organizações. Este grupo inclui a maior parte dos executivos de topo, líderes e políticos, bem como a camada superior da administração na maioria das organizações. Foi a geração que protagonizou de uma ou de outra forma a grande aventura coletiva do pós-guerra, a nova ideologia libertária, a independência dos povos, a sociedade consumista, a segurança social, enfim um rol de atitudes e de acontecimentos sociais e políticos..

Geração X - São jovens que nasceram entre 1961 e 1971. Para ela há diferentes definições de liderança, lealdade e incentivos de reconhecimento, como por exemplo trabalhar não é prioridade número 1 na sua vida. A Geração X, popularmente abreviada como Gen X é a geração de pessoas nascidas após o Baby boom pós-Segunda Guerra Mundial. É considerada uma "geração perdida", pois encontrou um mundo com uma visão menos idealista e mais realista da sociedade. Segundo Janelle Wilson, socióloga americana e autora de um dos mais completos estudos sobre os adolescentes, esta geração é considerada mais cínica comparada a dos Baby Boomers, pois cresceu com uma nova realidade social. Muitos eram filhos de pais separados, viviam em casa em que homem e mulher trabalhavam fora. Assistiram ao início da decadência dos antigos padrões sociais e não tinha medo de jogá-los para o alto. Além disso tiveram contato com as novas tecnologias. A maioria nasceu depois da chegada do homem à Lua (1969), viu surgir o videocassete e o computador pessoal.


Geração Y - Também referida como Geração Millennium ou Geração da Internet se refere à coorte dos nascidos após 1972, sendo sucedida pela Geração Z. Esta geração desenvolveu-se numa época de grandes avanços tecnológicos e prosperidade econômica. Os pais, não querendo repetir o abandono das gerações anteriores, encheram de presentes, atenções e atividades (fomentando a sua auto-estima), de seus filhos. Estes cresceram vivendo em ação, estimulados por atividades, fazendo tarefas múltiplas. Acostumados a conseguirem o que querem, não se sujeitam às tarefas subalternas de início de carreira e lutam por salários ambiciosos desde cedo. Uma de suas características atuais é a utilização de aparelhos de telefonia celular para muitas outras finalidades além de apenas fazer e receber ligações como é característico das gerações anteriores. São consideradas rude, rebelde, exigente e impacientes. Esta geração foi considerado muito ambicioso, e motivado, mas directionless. Esta geração viu a introdução da MTV, o aumento dos meios de comunicação e tecnologia da Web. Esse grupo é formado por aqueles jovens aos quais pedimos ajuda para fazer funcionar qualquer aparelho eletrônico existente em nossa casa.



Geração Z - São pessoas que nasceram depois de 1983 e pela tecnologia, em seguida, foi prejudicial ao mundo. A geração Z é também chamada de geração silenciosa, iGeneration, calma geração e a geração líquida. Eles têm vários outros nomes com base nas suas qualidades. Hoje, a geração Z torna-se por quase 18 por cento da população do mundo. Para a geração Z, informática e tecnologias da Internet é o lugar comum. Todas as suas comunicações tem lugar na internet e elas revelam muito pouca comunicação verbal e habilidades. A maioria de seus anos formativos estão sendo gastos na World Wide Web. Eles são usados para instantâneas ação e satisfação devido à internet tecnologia. Essa geração possui o talento e a habilidade do mundo dos botões, a tal ponto de nos remeter à pré-história da tecnologia, diante das dificuldades que nós, membros das outras gerações, encontramos no trato com a aparelhagem eletrônica. Essa é a geração do momento, preocupada com a tecnologia e a ecologia, com múltiplos interesses, procurando viver em um mundo instantâneo. Cabe destacar, ainda, a linguagem direta e franca que os acompanha.


Dentro da Geração Z há o Boomerang Geração, também conhecida como a Geração "Porquê" e descreve as pessoas, após um breve período de vida na sua própria (ou frequentando colégio, tendo até um posto de trabalho), normalmente prefire voltar para casa de seus pais, tendo o cuidado de continuar com a sua própria vida social e profissional.


Se acharmos isso complexo demais, esperemos pela geração F.

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Quem desejar adquirir o livro Bahia um Estado D´Alma, sobre a cultura do nosso estado, a obra encontra-se à venda nas livrarias LDM (Piedade), Galeria do Livro (Boulevard 161 no Itaigara e no Espaço Cultural Itau Cinema Glauber Rocha na Praça Castro Alves) e na Pérola Negra (ao lado da Escola de Teatro da UFBA, Canela) E quem desejar ler o livro Feras do Humor Baiano, a obra encontra-se à venda no RV Cultura e Arte (Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho. Tel: 3347-4929

09 julho 2010

Uma paixão da alma chamada saudade

Hoje vamos falar de uma aventura de sensibilidade, um sentimento, uma paixão da alma: a saudade. Um conceito que trata de uma experiência universal comum a todos os homens em todas as sociedades – a experiência da passagem, da duração, da demarcação e da consciência reflexiva do tempo. Mas a saudade é diferente de outras experiências porque associa a elementos que não estariam presentes em outras modalidades culturais de medir, de falar, classificar e controlar o tempo.


Nos estudos sobre a saudade, realizados em Portugal, ele é explicado como o resultado de experiências empíricas, das viagens que promovem a dor, da ausência e dos desejos insatisfeitos. Ou como disse o poeta português Teixeira de Pascoaes: “Desejo e dor fundidos num sentimento dão saudade”. Assim, a saudade é o resultado de uma dada experiência, se ela é causada pela contingência sentimental, pelo amor e pela emoção dilacerada da ausência. É a noção de saudade que nos faz refletir e, sobretudo, sentir com mais vigor, presença e intensidade, o nosso amor e a ausência dos entes e das coisas que queremos bem. Ou seja: eu sei que amo porque tenho saudade, e sei que sinto a falta de um lugar porque dele sinto saudade.


A saudade fala do tempo por dentro. Da temporalidade como experiência vivida. É pela saudade que podemos invocar e dialogar com pedaços de tempo e, assim fazendo, trazer os tempos especiais e desejados de volta. Por exemplo, lembro-me bem do tempo em que estudei no Colégio Duque de Caxias, no bairro da Liberdade em Salvador, no antigo “ginásio”, em seguida no Colégio Central fazendo o “científico”. Bons tempos ouvindo Beatles, Roberto Carlos, Rolling Stones e Led Zeppelin. Ou mesmo, tempos depois fazendo o programa semanal da rádio Piatã, “Sessão Maldita de Rock”, toda sexta, meia noite. Pauleira pura!.


Da dor ao riso, do amor ao ódio e do esquecimento à saudade, os sentimentos são marcados e impostos pelo sistema que nos informa porque os temos, como devemos manifestá-los e o modo correto como devemos ser englobados por cada um deles e os seus alvos mais legítimos. Esse tesouro chamado saudade é exclusivo da língua portuguesa. E chegou ao ponto de ser considerada palavra-chave para a definição da alma, do estado de espírito e do caráter de toda uma nação. A importância da palavra saudade não é pequena, pois tornou a melancolia portuguesa passível de inclusão entre as três grandes tristezas europeias.


A palavra remete ao exílio dos poetas e dos judeus e já foi chamada de “monopólio sentimental da língua portuguesa”. E é Mario de Sá-Carneiro, que tinha uma “alma nostálgica de além”, que concluiu: “Perdi-me dentro de mim/porque eu era labirinto,/e hoje, quando me sinto,/é com saudades de mim”. “A palavra é bem pequena/mas diz tanto de uma vez!.../por ela valeu a pena/inventar-se o português”, escreveu Bastos Tigre em 1935. Assim, a saudade é tão nossa que nenhuma outra língua a possui em seus léxicos. Em alguma delas, com outro nome, da origem grega – nostalgia, ou mesmo a melancolia, sentimento típico do exilado.


E nossos poetas que perpetraram sobre “a bendita dor que faz bem ao coração” numa vontade de lembrar querendo esquecer, ou de uma “saudade,/torrente de paixão,/emoção diferente,/que aniquila/a vida da gente,/uma dor que nem sei/de onde vem”, diz os versos de “Canção de Amor”, de Chocolate e Elano de Paula. Vamos agora abrir uma janela para associar saudade e música popular brasileira. A música, muitas vezes, neutraliza a passagem do tempo assim como a saudade que nos segue por toda a vida. E na poesia de Julia de Sá, “saudade é voz do passado, e tristeza do presente. Segue o tempo, lado a lado, a falar dentro da gente”. E a saudade permite transformar a perda em felicidade. “Choras sem compreenderes que a saudade, é um bem maior que a felicidade. Porque é a felicidade que ficou!”, dizia o poeta Manuel Bandeira. Através da saudade podemos lembrar da passagem do tempo.

A escritora Clarice Lispector em seu livro “A Descoberta do Mundo” escreveu: “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida”. “Quando eu olho para mim/dentro de mim tem você/quando eu olho pra você/por dentro sinto saudade/quando eu olho pra saudade/meus olhos vão desaguando...” canta Alceu Valença em “Quando eu Olho pra o Mar”.


“Hoje me olhei no espelho/e senti ´sardade´ d´eu/daquele moço canteiro/repentista e violeiro./Hoje só resta o porão/pois a casa e a cumieira/destino fez bagaceira/e o vento jogou no chão...”. A música é “Baque do Coração” de Vevé Calazans e Bubuska na bela voz de Fafá de Belém. E quem não se lembra da canção “A Saudade Mata a Gente”, de João de Barro e Antônio de Almeida na voz de Nélson Gonçalves? Ou mesmo a “Saudade da Bahia” de Dorival Caymmi, a “Saudade de Amar” de Francis Hime e Vinícius de Moraes, ou a dramática “Nunca” de Lupicínio Rodrigues. O jeito agora é cantar a letra de Tom Jobim e Vinícius de Moraes: “Chega de Saudade”!.


Esse texto escrevi há uns três anos e volto a publicar porque recebi um e-mail de uma grande profissional, Cathyanne Rodrigues que trabalhou comigo e ficamos amigos. Uma pessoa especial. Eis sua declaração:


Saudade do seu andar apressado e cadente pelos corredores, saudade do seu sonoro e amoroso "princesa", saudade do teu sorriso largo e pueril exibido quando conversa com um bom amigo ou fala sobre assuntos que mais gosta, saudade do seu olhar honesto por de trás dos óculos fatigados, saudade de admirar você tomando sorvete ou se deliciando com alguma sobremesa maravilhosa, saudade de você dançando e alegrando o ambiente, saudade das suas histórias que são parte do melhor de você, saudade de você reclamando da sua família, onde no fundo e no raso, tu sabes, é balsámo e veneno de cada um de nós, saudade de você cantarolando uma música qualquer, saudade de observar você, envolvido totalmente na confecção de um texto, saudade de olhar pra você e entender perfeitamente o que você queria me dizer sem nenhuma palavra, saudade da sua leveza sempre as segundas-feiras e do seu estresse sempre as quintas ou sextas-feiras, saudade até mesmo dos momentos onde você ficava bravil e revoltado com alguma injustiça, porque ali eu via claramente quem estava do meu lado, saudade de falar sobre o meu final de semana e sobre meus amores e desamores contigo, saudade da cica dos cajus que me presenteava vez em quando, saudade das castanhas feitas por você, saudade das bananas nascidas do chão onde você pisa cotidianamente, saudade dos filmes que me emprestava, do amor que me dava, do carinho com que me zelava, da lealdade com a qual me admirava, com a simplicidade da tua amizade, saudade, saudade...


Em resposta, a letra da composição de Lenine: Aquilo Que Dá No Coração: “Aquilo que dá no coração/E nos joga nessa sinuca/Que faz perder o ar e a razão/E arrepia o pelo da nuca/Aquilo reage em cadeia/Incendeia o corpo inteiro/Faísca, risca, trisca, arrodeia/Dispara o rito certeiro//Avassalador/Chega sem avisar/Toma de assalto, atropela/Vela de incendiar/Arrebatador/Vem de qualquer lugar/Chega, nem pede licença/Avança sem ponderar// Aquilo bate, ilumina/Invade a retina/Retém no olhar/O lance que laça na hora/ Aqui e agora/ Futuro não há/ Aquilo se pega de jeito/ Te dá um sacode/ Pra lá de além/ O mundo muda, estremece/O caos acontece/Não poupa ninguém// Avassalador...//Avassalador/Chega sem avisar/Arrebatador/Vem de qualquer lugar/Aquilo que dá no coração/Que faz perder o ar e a razão/Aquilo reage em cadeia/Incendeia

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