20 abril 2010

Antropólogo diz que estudos não são jogo de cartas marcadas a favor de índios

A identificação de áreas indígenas desperta reações contrárias da classe produtiva. Em Mato Grosso do Sul, onde 45 mil índios reivindicam mais espaço, os fazendeiros taxam como “viciado” o trabalho dos especialistas responsáveis pelos estudos. O antropólogo Rubem Thomaz de Almeida, que há 30 anos estuda a região, garante que os levantamentos feitos para embasar as demarcações pelo governo federal não são um jogo de cartas marcadas a favor dos indígenas. Ele atribui a “desconhecimento de causa” as críticas dos ruralistas. “É necessário que eles [fazendeiros] entendam que o estudo não vem definido. Em estudos passados, inclusive, deixamos de incluir área porque não tínhamos argumentos nem dados suficientes para colocar espaços como terra indígena. É fundamental realizar os estudos para que o governo possa atuar e decidir um problema social gigantesco, que são 45 mil índios que estão ali sem terra, sem ter onde plantar”, afirmou Almeida.


“Temos atrás da gente a academia. Somos vinculados à Associação Brasileira de Antropologia e, se a gente incorrer em desvios na nossa produção científica, haverá facilidade em derrubar [os laudos]”, acrescentou. Almeida diz ser contrário à “criminalização” dos fazendeiros e reconhece que eles deveriam ser recompensados pelo governo para deixar a terra, em valor além das benfeitorias. “Dificilmente essa coisa vai resolver sem negociação com os produtores rurais. Não podemos criminalizar os fazendeiros, dizer que são todos bandidos. Ficará muito difícil dar conta do problema se não houver mecanismo para se pagar a terra aos fazendeiros”, ressaltou. Entretanto, o antropólogo classifica de “absurdos” os argumentos que tentam vincular a luta dos índios pela terra a interesses estrangeiros.

REIVINDICAR - “São 45 mil pessoas que têm uma história, tradição, e sabem exatamente onde vivem e o que querem. Não tem Cimi [Conselho Indigenista Missionário], antropólogo nem estrangeiro, absolutamente ninguém. Eles não vão deixar de reivindicar a terra. O fazem por sua conta. Quem fala o contrário é para jogar fumaça e não enfrentar o problema”, criticou. Pesquisa da década de 80 já alertava o governo para a necessidade de reconhecer mais áreas indígenas em Mato Grosso do Sul, após o processo de colonização que resultou no confinamento de índios em aldeias delimitadas pelo próprio governo. Hoje o sudoeste do estado é apontado por estudiosos e pela própria Fundação Nacional do Índio (Funai) como o espaço mais problemático da questão indígena no Brasil. Para Almeida, o país já poderia ter superado o quadro.

“Faltou um pouco de decisão política e de ânimo do governo para dar conta antes do problema. É necessário que o governo pegue esse touro a unha e decida levar adiante primeiro os estudos e depois as decisões [de demarcação e homologação de áreas]” , defendeu o antropólogo. A expectativa dos profissionais envolvidos no trabalho de identificação em Mato Grosso do Sul é concluir a fase dos estudos em abril de 2010. O antropólogo entende que as críticas de parte da população de Mato Grosso do Sul à vida dos índios em áreas homologadas, como a aldeia de Panambizinho, a 25 quilômetros de Dourados, deve-se a uma percepção equivocada da cultura tradicional. Na região, áreas antes produtivas viraram mato e os índios trabalham apenas com agricultura de subsistência.

COSMOLÓGICA - “Não podemos esperar que os guarani vão produzir como nós produzimos. Eles têm um viés cultural e se mostram abertamente contra a produção em larga escala. Eles têm uma relação cosmológica importante com o mato. Buscam o mato, porque lá tem que ter bicho e tem que proteger a água. Mas eles também têm plena consciência de que quem não trabalha não come.”

Se os estudos na região confirmarem as reivindicações indígenas, os antropólogos calculam que o problema fundiário das comunidades tradicionais estará resolvido para pelo menos três gerações, cabendo aos indígenas se organizarem futuramente para viver ali. Durante os estudos antropológicos, as equipes deverão ser acompanhadas por representantes do governo estadual e de proprietários rurais na vistoria em fazendas, além de receberem escolta policial. No ano passado, quando os estudos começaram, especialistas foram seguidos e fotografados por desconhecidos. “A presença da polícia é um modo de a gente entrar nas áreas que precisam ser verificadas”, disse Almeida ao destacar a importância do estudo para o processo de demarcação. (Agência Brasil.04/11/2009)

DIREITOS - Em visita ontem (19) à Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que interessa ao governo federal o crescimento econômico do estado, mas sem tirar o direito dos índios. Para Lula, em um estado com tanta terra para produzir, não é possível que alguns queiram justamente a área da terra indígena. “Passamos 6 milhões de hectares do governo federal para o estado de Roraima para que a gente pudesse dar terra para quem quisesse trabalhar, sobretudo para pequenos e médios proprietários porque a nos interessa que Roraima seja desenvolvido, cresça economicamente sem tirar o direito dos índios viverem tal como eles queiram viver”, afirmou o presidente, que visita a Raposa Serra do Sol no Dia do Índio, quando a homologação da área como terra indígena faz um ano.


Na cerimônia alusiva ao Dia do Índio, Lula saiu em defesa dos indígenas afirmando que nunca os viu reivindicar nada que não lhes fosse de direito. “Não conhecemos na história nenhum momento em que uma nação indígena invadiu a terra de outro para tomar conta, pelo contrário, o que acontece normalmente são os outros invadirem as terras indígenas tentando se apossar de uma terra que não é deles.”. (Fonte: Agência Brasil. 20.04.2010)

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19 abril 2010

Índios querem mais respeito pelos seus direitos e autonomia política

O Brasil possui aproximadamente 230 povos indígenas e mais de 190 línguas faladas. De acordo com informações do Governo do Estado, na Bahia são encontrados atualmente 20 propriedades de terra, distribuídos em 136.512 hectares com uma população estimada de 11.781 indígenas. As principais localidades estão situadas em reservas nos municípios de Prado, Porto Seguro, Muquém do São Francisco e Santa Cruz de Cabrália, no Extremo Sul; em Glória, Paulo Afonso e Rodelas, no território de Itaparica; Ribeira do Pombal, Banzaê e Euclides da Cunha, no Semi-Árido e em Ibotirama e Bom Jesus da Lapa, região do Velho Chico.

Diferente das incontáveis análises sobre a história dos negros, existe no Brasil um pequeno acervo na historiografia indígena, sendo disponibilizado apenas alguns espaços secundários nos livros escolares, espaços estes que tratam desrespeitosamente a cultura como um mero discurso folclórico, e em caráter universitário pouco se tem avançado. No Brasil ainda existe uma folclorização sobre o que é ser Índio. Para antropóloga Vanessa Caldeira no artigo intitulado “O que é ser índio”, a imagem para muitos dos brasileiros sobre o que é ser índio recaí uma idéia de aproximadamente 500 anos. “Essa imagem de índio – corpo nu, cabelo liso e preto, habitante das matas, falante de língua exótica – recai como forte cobrança para os povos indígenas contemporâneos”.


QUE TRIBO É ESSA? - “Se Deus quiser/Um dia quero ser índio/Viver pelado pintado de verde/Num eterno domingo/Ser um bicho preguiça/Espantar turistas/ E tomar banho de sol”. Qual foi a tribo em que a roqueira Rita Lee se inspirou para fazer a composição da música Baila Comigo, de sua autoria? Licença poética à parte, os índios contemporâneos brasileiros ao invés de ficar “tomando banho de sol” nas tribos, eles possuem uma ação política forte no país. São eles, agentes responsáveis por ações de preservação da cultura, de território, e da luta pelo direito da propriedade de terras.


De acordo com a Constituição Federal de 1988, art. 20, inciso XI, são bens da União, “as terras tradicionalmente ocupada por índios” o que reserva ao direito federal através do art. 49, inciso XVI “autorizar, em terras indígenas, a exploração e o aproveitamento de recursos hídricos e a pesquisa e lavra de riquezas minerais”. A Constituição determinada que o Governo Estadual é o responsável pelos territórios demarcados em suas limites de terras estaduais. Tramita no Supremo Tribunal Federal, há 28 anos, um processo de propriedade de terra entre o Governo Estadual e o Povo Pataxó Hã-Hã-Hãe que possui uma população estimada de 3.200 indígenas. A justificativa é que o Governo da Bahia se apossou de 54.100 ha do território dos índios. Nessa luta pela devolução territorial, muitos representantes indígenas foram assassinados desde 1983 quando houve a primeira morte por disputa de terras.

REIVINDICAÇÕES DO POVO - Outras reivindicações são levantadas pelo povo Hã-Hã-Hãe, que defende entre diversas propostas a construção, reforma e ampliação de escolas indígenas e a autonomia administrativa e financeira dessas escolas para a implantação de educação diferenciada. Na área da saúde, os índios querem a implantação de postos de saúde e de redes de esgotamento sanitário nas áreas indígenas, a execução dos programas de saúde do governo federal e a criação de laboratórios para a produção de remédios fitoterápicos.


Por meses, manifestantes de grupos indígenas Pataxós e Tupinambás do sul da Bahia se queixam com o descaso da Fundação Nacional da Saúde, FUNASA, que para eles, o órgão federal é o responsável pelo aumento da mortalidade na região. Eles reclamam que há muito tempo está faltando médicos, ambulâncias e medicamentos nas aldeias do sul do Estado.


PARQUE MONTE PASCOAL - Em 1943 o Governo do Estado criou o Parque Nacional Monte Pascoal, localizado em Porto Seguro. De forma irresponsável e sem projetos de preservação os índios que moravam na região foram expulsos e não receberam terras para remanejamento. Em 1961, o Governo do Estado da Bahia repassou o território do parque para a União. Com uma área de 22.500 ha, o Monte Pascoal é um dos principais pontos históricos brasileiros, pois foi essa a primeira porção continental avistada pelos Portugueses, ainda em 1500. Além da importância histórica, esta Unidade de Conservação é uma das que reúne uma diversidade de ecossistemas, como a Floresta Ombrófila Densa, regiões alagadiças, restinga, mangue e praia.


Em 1997 foi demarcada o território Coroa Vermelha, que passou a ser chamada de Terra Indígena Pataxó de Coroa Vermelha, onde os remanescentes da área do parque se juntaram para recuperar a identidade cultural que agrega as aldeias de Coroa Vermelha, Mata Medonha, Corumbauzinho e Craveiro. Em agosto de 2009 no município de Santa Cruz de Cabrália, no extremo sul, foi realizado o Encontro Regional de Povos Indígenas. A iniciativa integrou um plano de ação da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) visando garantir uma ampla participação, mobilização, capacitação e fortalecimento dessas populações.


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16 abril 2010

Música & Poesia

Se eu fosse (Dante Ozzetti/Zélia Duncan)

Se eu fosse um blues,

te mandava embora

Se eu fosse um samba,

esperava a aurora

Se eu fosse um jazz,

improvisava o amor

Se eu fosse um forró,

sacudia toda dor

Se eu fosse uma valsa,

te conduzia pela vida

Se eu fosse um tango,

te empurrava pra saída

Se eu fosse um rock,

te doava minhas veias

Se eu fosse um choro,

te sorria a noite inteira

Se eu fosse um maxixe,

remexia sua libido

Se eu fosse uma canção,

te acarinhava os ouvidos

Se eu fosse uma modinha,

jurava que você vinha

Se eu fosse um Sebastian Bach,

tentava a fuga todo dia

Se eu fosse um Beethoven,

era tua a Nona Sinfonia

Se eu fosse letra de música

Fazia uma rima única

E no final de um verso chinfrim

Cantava você pra mim…



Todo risco (Damário da Cruz)


A possibilidade

de arriscar

é que nos faz homens.


Vôo perfeito

no espaço que criamos.


Ninguém decide

sobre os passos que evitamos.


Certeza

de que não somos pássaros

e que voamos.


Tristeza

de que não vamos

por medo dos caminhos.


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15 abril 2010

Dicionário dos In (cluídos)

Depois do Dicionário dos Excluídos (publicado na segunda, dia 12), vamos conhecer dos incluídos...


ABRACADABRA – palavra-chave dos mágicos.


ABRE-TE SÉSAMO – Senha usada pelo Ali Babá.


AMARELO CÍTRICO – É o sabor do limão.

AUTORIDADE - Nem toda autoridade tem verdade.


COMIDA ÉTNICA – A comida da cozinha de nossa terra natal.

CANJA DE GALINHA – Alívio de todos os males do corpo e da alma.


CANTANDO NA CHUVA – No filme musical, felicidade, na vida real, gripe e um “som que não é legal”


CROCANTE – Palavra onomatopaica. Alimentos crocantes produzem barulho quando são mastigados. O ruído substitui o sabor.


ESPASMÓDICO – Mau súbito.


ÉTICA – Área do conhecimento esquecida por muita gente.


FAST FOOD – Ligeiro.

FUGIDIO – Esquivo, arisco


MANDRAKE – Palavra para a pessoa ficar imóvel, congelada.

PÁ PUM – Sexo instantâneo.


ROXO – Tem sabor de uva.


RUTABAS – Nome estranho, alimento bom.

SUSPIROS – Acalentadoramente doce.


TRANSPARENTE Hoje cada vez mais obscuro.


VADE RETRO, SATANÁS – Enviar alguém para o inferno.


VERMELHO – A cor da maçã.


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14 abril 2010

Denise Tavares, uma guerreira

No dia 18 de abril (domingo) a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, em Nazaré comemora 60 anos, data também do nascimento do escritor Monteiro Lobato (1882 -1948). Durante todo o mês, diversas atividades culturais serão realizadas para celebrar o sexagenário de atuação da Biblioteca, junto ao público infantil de Salvador. Uma das bibliotecas mais atuantes de Salvador, inclusive aberta aos domingos, tem sua origem na força de uma bibliotecária que, na época, lutou muito para a construção de sua fundação. Naquele período quase ninguém acreditava em literatura infantil, as crianças não tinham vez nem voz. E Denise acreditou em criar um espaço para crianças e jovens. para o incentivo e hábito de leitura. Adroaldo Ribeiro Costa foi outro nome quer batalhou pelas crianças, também. Vamos conhecê-la:

Bibliotecária, professora. Denise Fernandes Tavares nasceu a 04 de maio de 1925 na cidade de Nazaré, Bahia. Fez os seus primeiros estudos na sua cidade natal, onde cedo viu surgiu a sua vocação para lidar com crianças, diplomando-se em professora primária em 1943. Este foi o primeiro passo para ingressar na vida pública. Em 1944 veio para Salvador, onde foi nomeada por concurso para regente de classe na Escola Marquês de Abrantes. Em 1958, diplomou-se em Bibliotecária Documentalista pela Escola de Biblioteconomia e Documentação da Universidade da Bahia. Jovem, estudante de vida, era uma idealista. O seu ideal ela o viu concretizado.


Entre as suas principais realizações está a organização e fundação da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato (BIML), fundada a 18 de abril de 1950, em homenagem ao escritor. O idealismo de Denise Tavares se concretizava e o seu sonho se tornava realidade, atrair o interesse das crianças para os bons livros. Respeitada pelo idealismo e pelos bons frutos que produziu, tornando-se modelo para outros centros. Realizou um trabalho dos mais importantes de biblioteconomia no Norte e Nordeste, com repercussão nacional e internacional. Ela criou uma rede de bibliotecas infantis e buscava aprimorar cada vez mais o seu trabalho, acompanhando a evolução do mundo contemporâneo, conhecendo novas técnicas de organização e atendimento aos seus jovens leitores. Quando Monteiro Lobato morreu, em 1948, o sentimento de saudade exacerbou mais a sua admiração pelo escritor. Ao desejar homenageá-lo, pensou em uma “casa de livros” aberta para todas as crianças baianas. Começa, então, a sua luta, a grande missão nos idos de 1949 a 50 da criação da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato. Esse período da vida cultural baiana não permitia o desenvolvimento de ideias, ações e iniciativas inovadoras. Idealistas eram vistos com pessimismo, descrédito. Especialmente às mulheres, não se permitia gestos ousados, corajosos.


A instituição biblioteca não era compreendida no nível de importância igual à escola. Mas em 1949 Denise participou de um curso patrocinado pela Secretaria da Educação com Anísio Teixeira, através do convênio com a Escola de Biblioteconomia. Planejado para preparar professores primários que atuariam como “encarregados de bibliotecas escolares”, o curso foi um sucesso. Conscientizada e reunindo mais argumento para o seu desempenho e luta, visita São Paulo com objetivo de conhecer a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato daquela cidade. De volta a Salvador, Denise continua procurando apoio e recursos para a sua biblioteca. Sem esmorecer à falta de disponibilidades financeiras, alegada por quase todos, mesmo reconhecendo a ideia maravilhosa, não se dispunham a patrociná-la. Num dos seus devaneios, ela teve uma ideia inusitada: enviou a todas as escolas públicas do estado um pedido de contribuição às crianças, para a biblioteca. Um dia, as respostas vieram. Foram centenas de listas de crianças com doações de 1 tostão que emocionaram Denise. O vereador Álvaro Franca da Rocha conseguiu convencer o prefeito Wanderley Pinho a doar o chalé, no jardim de Nazaré para a instalação da biblioteca.

Até 1953 a BIML somente funcionou com a Seção de Leitura, porém, com a ajuda do governo foi sofrendo reformas, ampliando, o aumento da frequência exigia maior espaço. As atividades que ali desenvolveu tornaram a casa pequena. Crescia o número de crianças que frequentava a biblioteca e urgia um prédio maior e em condições mais adequadas à finalidade do estabelecimento. A luta continuava, Denise estava sempre desejando o melhor para as crianças e os jovens baianos e, graças a sua força de vontade, e o seu amor, dedicação e espírito de luta, em 1967 ela conseguiu inaugurar uma sede ampla dentro dos moldes desejados. Lutou muito para consegui-lo, mas acabou inaugurando-o no governo Lomanto Júnior, quando o seu idealismo encontrou a compreensão dos poderes públicos. Daí por diante, a biblioteca floresceu. Foi a única, na época, juntamente com Adroaldo Ribeiro Costa, que não descriminou as histórias em quadrinhos, tidas como subliteratura. Eles estavam à frente de sua época.


Também sob sua orientação e direção, foram instaladas nove bibliotecas sucursais no interior do estado, e duas em bairros de Salvador. No campo educacional foi membro atuante em vários congressos, nos quais apresentou diversas sugestões a favor da classe. Escreveu para diversos jornais do estado. Foi redatora chefe do jornal da classe profissional e responsável pela coluna feminina do Diário da Bahia. Durante algum tempo escreveu com o pseudônimo de Stela Maria. Era um exemplo de amor aos livros, lia muito e sempre. Ao escrever, como em tudo que fazia, era ela autêntica, criativa, sensível. Fosse o que fosse, dedicatória num livro, crônicas ou cartas ela escrevia como falava, com entusiasmo, sinceridade e coragem. Até mesmo nos livros técnicos, sendo a criança seu constante objetivo, usava linguagem clara, acessível, no intuito de ajudar na organização de bibliotecas infantis - sua grande meta.


Sugestões para Organização de uma Pequena Biblioteca Infantil (1960), Monteiro Lobato, pai de Emília (1960), Bibliotecas na Bahia (1967), As Bibliotecas Infanto-Juvenis de Hoje (1970) e A Biblioteca Escolar (1973) são alguns títulos de suas obras. Entre os prêmios que recebeu consta a medalha de honra ao mérito da Rádio Nacional do RJ (1952). Nesse mesmo ano recebeu a medalha A Bahia te Agradece, na Rádio Sociedade da Bahia. Mais tarde, em 1961 recebeu o prêmio Paula Brito de a bibliotecária do ano, da Biblioteca Municipal do Rio de Janeiro. E em 1973, foi homenageada pelo 7º Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, em Belém do Pará. Adoentada, recolheu-se ao Hospital Português, onde veio a falecer na manhã do dia 19 de abril de 1974. Um sensível desfalque no magistério baiano. A sua morte é muito sentida pelo largo círculo de suas relações, mas sobretudo, pelas crianças a que se dedicou com extrema devoção. Denise Tavares era professora do Estado e da Universidade Federal, técnica federal de Educação e bibliotecária. Foi diretora da BIML até seu último dia de vida. (Essa pesquisa está no livro Gente da Bahia, de minha autoria publicada em 1998, Editora P&A).


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13 abril 2010

Rita arrebenta

Ela nasceu no pequeno município do oeste baiano, Santana, formou-se em jornalismo pela UFBa. Morou 15 anos na Espanha dedicando-se exclusivamente à música. Retorna ao Brasil em 2005, é selecionada em um projeto musical em Brasília. Em 2008 lançou o CD Arrebenta e desde então vem fazendo shows em Salvador e outras cidades.


“Eu canto quando estou alegre, e quando estou triste também. Eu canto quando estou juntinho e quando estou longe de quem é meu bem. Se a noite é de lua bela, de mil estrelas a brilhar, debruço na minha janela, começo a cantar”. Essa é a introdução popular de RITA TAVARES nesse seu Arrebenta.


“Então, quê?” a primeira música do CD é de sua autoria e fala da relação amorosa, do sentimento de afeto, “balançando no meu pensamento/sonhar com nós dois bem juntinho/poder desfrutar do seu carinho/você é quem decide, benzinho/não ou sim/você é quem decide, coração/sim ou não”. A segunda canção, mais percussiva, também é de sua autoria: Arrebenta. Lá na Europa, a saudade da Bahia bateu forte e o resultado foi: “Arrebenta, a vida do mar arrebenta/arrebenta, também quero me rebentar/arrebenta, o meu coração arrebenta/arrebenta tamanha saudade de lá”.


Ave de Mañana é de autoria de Andrés Molina e Juando Gil, um bolero contemporâneo. Carta a los Reyes é de Rita que procura alguém romântico e disposto a aguentar firme “os trancos e barrancos de uma relação”, uma balada. Já O Sorriso do Chico, também de Rita, é bem autoral, memorial: “Eu quero ser a Rita/que o sorriso do Chico levou/Imagina, eu, bonita/com o sorriso Buarque na boca/que coisa louca/Rita Lee e eu aqui, coisa pouca.../E como ser a Hayworth/Personalidade forte/Deusa cênica, sensual/se o meu filme eu levo sem

muito argumento/É só lamento/Rita comum,Rita normal. Me espelho em personagens/Mil ideias, mil imagens/Não custa nada sonhar/Mas eu sei/que estou mais pra Carolina/todo o dia na janela/vendo o tempo passar. E como ser a Pavone/Tiuri-tiurá no meu nome/Rita batendo o martelo/meu Brasil verde amarelo/ou que sabe, a Santa Rita/ou a Baiana do Azevedo/até a Ritatá do Ló/te asseguro que de todas levo um pouco/pelo menos nesse sonho/onde eu a Rita/Lá Osita, a Birita/De Santana, Bahia, Sertão/E no mais, eu sou da Cunha Tavares/navegando pelos ares/e, constante distração...”. Um dos pontos altos do CD. Dá vontade de ouvir diversas vezes.

Neura é um samba, rápido, onde a compositora já sofre o amor tragédia por antecipação. Suspiro, como o nome diz, é romântica, leve e lenta, acalenta: “As fotos e as cartas só contam histórias/dos bons momentos congelados na memória...”. Devo Despertar é do venezuelano Jesus Pinguino, versão da própria Rita. E Rita faz releituras paras as canções Saia do Caminho, de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, e Eu Vim da Bahia, de Gilberto Gil. Essa última tem uma introdução especial, de baianidade, para mostrar de onde veio. E encerra com a popular “canto no inverno, canto no verão, canto noite e dia...”


É o canto bossa novista de Rita Tavares (orgânico, visceral, confessional), delicada, sensual, voz pequena mas harmoniosa, ritmada que veio para ficar. Agora é preciso que os baianos conheçam mais essa cantora, compositora e instrumentista que sabe o que quer, tem jingado, personalidade, ótima voz. E não precisa mais sair de sua terra(a não para shows) para ser reconhecida pelos baianos. Vamos ouvi-la. O CD está disponível no Tom do Saber e na Pérola Negra.

Essa é a Rita que já conhecia da Rádio Educadora.

Rita que sorrir para o mundo

Rita de encanto profundo

Rita de olhar sensual

Rita menina natural

Rita de voz sussurrada

Rita de vida agitada

Rita de canto suave

Rita, profundidade.

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12 abril 2010

Dicionário dos Excluídos

BOCÓ - Abestalhado, bobo


BROCOIÓ - È o que muitas vezes chamamos de matuto, beradeiro e abestalhado e que na maioria das vezes são pessoas humildes que se sentem inferiorizadas diante às demais pessoas.

CAGUETEDedo duro


CASCA-GROSSA - Pessoa rústica ou corajosa, que não tem medo das agruras da vida; pessoa mal-educada; ou pessoa muito rígida e exigente.

CROCODILHO – Sujeito falso, enganador.


DESIGUAL DAS OUTRAS – Diferente e estranha ao grupo.


DESCACHUMBADO – Todo quebrado.


ESCATEMBADA – Suja, quebrada

E.T. - Extra terrestre ou alienígena; pessoa estranha ou que não se encaixa em nenhum círculo social normal.



FAROFEIRO - Fanfarrão, pessoa que mora longe e vai a praia levando alimentos à subsistência pelo período em que lá permanecer, geralmente um dia.



FUÁ - Terminologia freqüentemente utilizada para designar coisa ou pessoa de aparência estranha, esquisita e caracterizada por uma vasta cabeleira de gosto duvidoso". A palavra fuá tem origem do tupi fu-á que significa estranho, esquisito ou, no portugues cotidiano, escroto. Assim foram chamados os primeiros europeus cabeludos (cabelo-de-juba) que desembracaram em território brasileiro. Pessoa sem qualidade nenhuma



FULEIRA – Barato, ruim, de qualidade duvidosa


FURÃO – O que ta em todas, arranjando forma de penetrar nas rodas


MALA – Pessoa preguiçosa, que atrapalha as atividades de outros.

MEQUETREFE - Indivíduo intrometido, que se mete no que não é de sua conta; enxerido, inconveniente; de caráter

duvidoso; inútil, insignificante, desprezível, imprestável; borra-botas, joão-ninguém.

MOCORONGO - (Sentido vulgar) Idiota, tolo, burro, bobo, retardado.

MUSA – Nome científico da banana

M.S.T. - No Brasil é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Na França a sigla é para doenças sexualmente transmissív

eis.


PERU – O que está onde não é chamado e se mete nas conversas alheias

PIRIGUETE - Mulher sexualmente vulgar e escandalosa, que normalmente adora perseguir homens de todos os tipos, principalmente os casados.


SACIZEIRO - Sacizeiro é uma gíria utilizada em Salvador para designar os fumadores de crack e remete ao saci, personagem folclórico que aparece sempre retratado com um cachimbo à boca.


ZÉ MANÉBobão, otário




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09 abril 2010

Música, música & Poesia, poesia

Bem ou Mal (Maurício Gaetani)


Pode ser que seja normal

Acordar querendo te ver

Pode ser que seja fatal

Para mim, ficar sem você

Pode ser que o amor seja assim

E o remédio seja esperar

Pode ser que eu ria de mim

Quando tudo isso acabar

Antes que eu sinta mais saudades de você

Quem sabe a gente não se encontra pela rua

Ainda é cedo e tudo pode acontecer

A chance é toda sua

Pode ser seu jeito de olhar

Um sorriso basta pra mim

Faz o mundo inteiro parar

Faz o coração dizer sim

Pode ser que eu queira demais

E você nem queira saber

Pode ser que seja fugaz

Mas eu quero estar com você

Eu visto a roupa mais bonita pra te ver

Quem sabe a gente não se encontra pela rua

A noite cai e tudo pode acontecer

Debaixo dessa lua

Bem ou mal

Tudo se mistura, tudo é natural

Prazer e tortura juntos, bem ou mal

Se você quer calma, eu quero um temporal

De amor e prazer



Coisa tua (Música: Waltel Branco/Letra: Alice Ruiz)


Assim que vi você

logo vi que ia dar coisa

coisa feita pra durar,

batendo duro no peito

até eu acabar virando

alguma coisa

parecida com você

parecia ter saído

de alguma lembrança antiga

que eu nunca tinha vivido,

mas ia viver um dia

alguma coisa perdida

que eu nunca tinha tido

alguma voz amiga

esquecida no meu ouvido

agora não tem mais jeito,

carrego você no peito

poema na camiseta

com a tua assinatura

já nem sei se é você mesmo

ou se sou eu que virei alguma coisa tua



Os Deuses de Hoje. Segundo soneto (Bruno Tolentino)


É preciso que a música aparente

no vaso harmonizado pelo oleiro

seja perfeitamente consistente

com o gesto interior, seu companheiro


e fazedor. O vaso encerra o cheiro

e os ritmos da terra e da semente

porque antes de ser forma foi primeiro

humildade de barro paciente.


Deus, que concebe o cântaro e o separa

da argila lentamente, foi fazendo

do meu aprendizado o Seu compêndio


de opacidades cada vez mais claras,

e com silêncios sempre mais esplêndidos

foi limando, aguçando o que escutara.



A voz do mar (Geraldo Carneiro)


Na nave língua em que me navego

só me navego eu nave sendo língua

ou me navego em língua, nave e ave.

eu sol me esplendo sendo sonhador

eu esplendor espelho especiaria

eu navegante, o anti-navegador

de Moçambiques, Goas, Calecutes,

eu que dobrei o Cabo da Esperança

desinventei o Cabo das Tormentas,

eu desde sempre agora nunca mais

cultivo a miração das minhas ilhas.

eu que inventei o vento e a Taprobana,

a ilha que só existe na ilusão,

a que não há, talvez Ceilão, sei lá,

só sei que fui e nunca mais voltei

me derramei e me mudei em mar;

só sei que me morri de tanto amar

na aventura das velas caravelas

em todas as saudades de aquém-mar.

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