21 novembro 2008

Música & Poesia

Paratodos (Chico Buarque)
O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas
Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro
Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens à vista

O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro.

Herança (Luis Carlos Guimarães)


Nos hectares da poesia
que me coube por herança,
colho safra de palavra,
armazeno provisão,
bebo de sede no poço,
como a fome no feijão.
Invento tudo que penso,
sou mago, palhaço e rei.
Tenho tudo que não tenho,
lua no fundo do copo
e o arco-íris na sopa.
De mãos dadas com Carlitos
alimento de pão e mel
os bichos todos do circo.
Pelo sem-fio da tarde
recebo urgente avegrama:
“De longe país ao Sul
vão no caminho do vento
dois passarinhos azuis.
Solicito alpiste e água
na concha de cada mão.”
A noite cobre meu sono
e da serragem do sonho
faço colchão, travesseiro.
Acordo. É ganho ou perda
ter mais um dia a viver?
Com flanela limpo os óculos
(janela dos olhos míopes)
mas não vejo mais poesia,
que sou cada vez mais turvo
diante da vida dura
e do mundo tão escuro.

20 novembro 2008

Lembrando Mário Gusmão


Ator, dançarino e coreógrafo. Mário Gusmão nasceu em Cachoeira, em 20 de janeiro de 1928. Funcionário por 23 anos da Penitenciária Lemos Brito, seu espírito artístico o levou à Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, onde se diplomou em dezembro de 1960. Desde então, dedicou-se inteiramente à cultura. Nos anos 50 ele teve a “ousadia”, diante do racismo da época, de se matricular em um teste para a Escola de Teatro da UFBA, dirigido por Eros Martim Gonçalves. No teste de aptidão, além de representar, o então candidato dançava. Resultado: foi aprovado com nove notas 10 e uma nota 9, ganhando méritos imediatos para ingressar já no terceiro ano da Escola de Dança. Formado pela segunda turma da Escola de Teatro da UFBA foi o primeiro negro formado por essa instituição.

Logo, Mário Gusmão partiu para representar no teatro e, dos palcos, pulou para o cinema e depois, a tevê. Seu primeiro filme para o cinema foi O Caipora, de Oscar Santana, trabalhando depois em O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro e Idade da Terra, ambos de Glauber Rocha, Palafitas, Bahia Fantástica, Pindorama, Rebelião dos Brutos (filme italiano), Vai à Luta, Anjo Negro (onde foi o principal personagem), Madame Satã, D. Flor e seus Dois Maridos, Jubiabá (co-produção franco-brasileira) e outros. Dos 16 filmes que fez, foi elogiado por diretores como Arnaldo Jabor, pelo antológico Pindorama, premiado no Festival de Cannes. Na lista dos ilustres que costumava escalar Gusmão para seu elenco, estão Walter Lima Júnior, em Chico Rei, Nélson Pereira dos Santos, em Jubiabá. Conta-se que Gusmão ganhou o codinome de “o favorito de Glauber Rocha”, que chegou a disputá-lo entre outros cineastas baianos. O ator tornou-se um dos nomes de destaque do movimento do Cinema Novo.
No teatro, a partir de 1958, a participação de Mário Gusmão foi marcante, com a montagem de peças de diversos autores contemporâneos ou clássicos, na Escola de Teatro da UFBA. Fez Almanjarra, de Arthur Azevedo, com direção de Martins Gonçalves; Graça e Desgraça na Casa do Engole Cobra, Cachorro Dorme nas Cinzas e O Moço Bom e Obediente, de Francisco Pereira da Silva, com direção de Gianni Ratto. Em 59, atuou no Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e na Ópera da Três Tostões, de Brecht, ambos com a direção de Martins Gonçalves. Em 1962, ao lado de Antônio Pitanga, fez Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho. A partir de 1964, com a montagem de Eles Não Usam Black Tie, de Guarnieri, com direção de João Augusto, Mário Gusmão agitou o Teatro Vila Velha. Ele se entregava totalmente aos seus personagens. Gusmão atuou, ainda na década de 60, em montagens de peças de Gil Vicente (Estórias de Gil Vicente), Sartre (Huis Clos), Strindberg (O Pelicano), todos sob a direção de João Augusto. Na década de 70, fez A Ilha do Tesouro, de João Augusto, com direção de Manoel Lopes Pontes e muitos outros sucessos como A História de Tobias e Saraa, e A Prostituta Respeitosa. Eles Não Usam Black-Tie, O Noviço e Chico Rei, O Banquete dos Mendigos, Stopem-stopem, Auto da Compadecida e A Ilha do Tesouro ele ganhou prêmios de melhor ator. Foram 23 peças que atuou.
Na televisão participou em dez novelas, sendo a primeira Maria Maria, depois A Vida de Antônio Conselheiro, Dona Beija (sucesso da rede Manchete nos anos 80), Tenda dos Milagres, O Pagador de Promessas e Teresa Batista. Atuava em muitos espetáculos musicais, compondo a maioria das músicas, e escrevia poesias. Ele foi uma espécie de ícone do movimento negro, embora sempre extra-oficialmente. Tido como um dos fundadores do Olodum, ele esteve nos principais grupos - dentre eles o Ilê Aiyê e o Muzenza. Muitos antes do movimento negro, enquanto atividade reconhecida e discutida, acontecer, Mário Gusmão já batalhava por essas bandas. Não foi a toa que ele foi fundador de quase todos os blocos afros existentes em Salvador. Participou de todas as iniciativas de conscientização do problema do negro no Brasil, fazendo pesquisas sobre a cultura afro-brasileira, como a que realizou na África, após participar do I Festival Internacional de Arte e Cultura Negra, quando percorreu durante oito meses a Nigéria, Senegal, Costa do Marfim, Angola e Daomé. Em novembro de 1984 a Câmara dos Vereadores lhe conferiu o título de Cidadão de Salvador.
Alto, leve, solto, magro, o Príncipe, como era chamado por Pierre Verger dedicou um trabalho de conscientização do problema do negro no Brasil através da arte. Quando Verger conheceu Mário ele ficou espantado. Como um negro que tanto se misturava com a cultura branca que inclusive passou por uma Universidade, conseguiu manter o porte de um negro da África mais distante? “Está nas raízes”, disse Mário. “Sou neto de uma das fundadoras da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte criada há 160 anos e que muito antes de acontecer a libertação já trabalhava (com ouro) para conseguir alforria para os negros escravos”, informou em 1984. Em Ilhéus, atuou na área de educação e foi professor particular de inglês. Mário foi uma figura de grande representação no teatro e no cinema nacionais. Não era uma negro singular, era um talento ímpar da Bahia. Seu currículo tem páginas e páginas para fazer referências às peças teatrais, novelas e minisséries na televisão, filmes, além de dançarino, coreógrafo e professor.
No dia 20 de novembro de 1996 - dia nacional da consciência negra - ele morreu no Hospital Português, onde estava internado, em consequência de um câncer generalizado. Morreu aos 68 anos como sempre foi sua vida: lutando. Foi um dos fortes referenciais de resistência negra através dos palcos e das telas. Viveu atuante na profissão que escolheu. Usou gestos e palavras como forma de se fazer enxergar. Quem entende a importância disso, sabe muito bem o que significa a perda do ator.

19 novembro 2008

Dom Obá II D´África

Oficial do Exército brasileiro, pensador e articulador político. Cândido da Fonseca Galvão, mais conhecido como Príncipe Oba, ou Dom Oba II d´África, filho de africano forro, brasileiro de primeira geração, nasceu na Bahia, na região de Lençóis por volta de 1845. Neto do maior imperador yorubá, o rei Alafin Abiodun, responsável pela unificação do império yorubá na África. Seu pai – Benvindo da Fonseca Galvão – veio como escravo para o Brasil. Em meados do século XIX, já como escravo liberto e movido pela corrida em busca dos Diamantes da Chapada Diamantina. Quando Dom Oba II vem ao mundo, a comunidade escrava reúne suas economias e compra a sua liberdade, garantindo-lhe o título de homem livre. Aprendeu a ler e escrever com o pai.

A Bahia foi a província brasileira que mais contribuiu com voluntários para a Guerra do Paraguai. Em 1865 participou ativamente no recrutamento de voluntários para a Guerra do Paraguai, sua primeira oportunidade de exercitar suas qualidades de liderança. Foi nomeado para alferes da 3ª Campanhia de Zuavos Baianos. Ferido na mão direita, Cândido da Fonseca Galvão retirou-se do serviço ativo no dia 31 de agosto de 1861. Mais tarde buscou o reconhecimento social de seus feitos e valimentos. Para tanto percorreu os trâmites legais, dirigindo-se preferencialmente ao próprio imperador. Em 1872 foram concedidas as honras. Não inteiramente satisfeito, Galvão encaminhou, no ano seguinte, um pedido de pensão. Sua solicitação é atendida. A vida de soldado permitiu uma ampliação extraordinária – quantitativa e qualitativamente – nos contatos entre regiões, classes e raças da sociedade brasileira. No tempo da guerra, o obscuro filho de um africano-foro, cujos horizontes não iam além da sua Comercial Vila dosa Lençóis, no sertão da Bahia, conheceria capitais de província, sua amada capital do Império, terras estrangeiras e questões internacionais de fronteira. A campanha permitiu-lhe entrar em contato direto com praticamente todas as instâncias do poder político. Condecorado como herói, Dom Obá II torna-se um elo entre os altos poderes do estado e os escravos, uma espécie de porta-voz não-oficial do povo negro brasileiro. E começou a escrever artigos para jornais e freqüentar a corte de Dom Pedro Segundo com a elegância de trajes dos senhores.
Questões de definição política e cidadania, questões de raça são assuntos discutidos e analisados por Galvão na imprensa. Em seus artigos ele apoiava a libertação dos escravos. Para o Príncipe, a Conquista da cidadania começou com o alistamento para a guerra e continuou, depois dele, com o processo de abolição progressiva. Vez por outra ele publicava poesia abolicionista e anti-discriminatória. Príncipe pacifista, Dom Obá acreditava na força das idéias. “O elemento da guerra é a espada”, gostava de explicar, “o elemento do meu triunfo há de ser a minha pena”.
Ele tinha um pensamento vanguardista para a época. Enquanto a elite estava influenciada pelo pensamento darwinista europeu, que pregava a superioridade da raça branca, e se preocupava com o branqueamento do Brasil, Dom Obá formulou um pensamento contrário pregando o enegrecimento do país, sustentando que quem trabalhava no Brasil eram os negros.
A trajetória do alferes Galvão, do sertão da Bahia para a Guerra do Paraguai e daí para a vida urbana na África Pequena - composta pelos populosos bairros negros do Rio de Janeiro, antepassados das favelas – é emblemática do percurso do negro livre na sociedade escravista. Um líder popular, homem considerado amalucado pela “boa” sociedade, mas reverenciado e sustentado por seus semelhantes, que se constitui em um elo insuspeitado entre as elites e a massa que energia da sociedade tradicional. Negro, alto, forte e elegante, trajando fraque, cartola e luvas, trazendo à mão bengala e guarda chuva, ostentando sobre o nariz um pince-nez de ouro com lentes azuis, o príncipe Dom Obá II d´África era o primeiro a chegar às audiências públicas que o imperador Pedro II concedia aos sábados na Quinta da Boa Vista. Ele não limitou sua esfera de influência aos guetos da África Pequena. O acesso de Dom Obá ao palácio e ao próprio imperador Pedro II é um fato histórico bem documentado. Dom Oba nunca perdia as audiências públicas na Quinta da Boa Vista, aos sábados. Ele também aparecia, mesmo em ocasiões solenes, no paço da cidade. Aqui e ali, fosse com seu fardão de alferes ou em apurados trajes civis, Dom Obá II d´África era sempre “um dos primeiros que se apresentavam”.
Dom Obá II d´África era o representante da África Pequena do Rio de Janeiro, dos “pardos e pretos” que viviam precariamente à margem do sistema, em atividades de auto-emprego. Quando havia debate intelectual e político no Parlamento e na imprensa, Dom Obá tinha idéias definitivas. Ele pensava na salvação da grande lavoura de exportação, base econômica do Império, e era contra o trabalho escravista. Como as demais personalidades, também o Príncipe procurava o apoio do imperador para seus projetos. Por algum tempo fez campanha para ser nomeado embaixador do Império do Brasil na Costa d´África (África Ocidental), e, ao faze-lo, forneceu munição para a sátira política da época. Mas o Príncipe tinha uma resposta pronta para a zombaria racista. Ele relatava vários problemas do cotidiano aos sábados na audiência pública.
O reino de Dom Obá começou a desintegrar-se com a chegada da Abolição. O declínio de sua autoridade era evidente, em particular no que toca à capacidade de arrecadar impostos de seus súditos. Ele praticamente desapareceu das colunas dos jornais. “Não havia mais espaços para velhas fidelidades políticas, nem mesmo para príncipes do povo”. Sua morte, em 1890 foi noticiada na primeira página dos jornais da capital do país, que ressaltaram a imensa popularidade do Príncipe Obá e o fato de ter falecido “na majestade de uma soberania que ninguém se atreveu jamais a contestar”.

18 novembro 2008

Palavras sempre sabem o que querem


Existem momentos em que toda palavra pronunciada parece ferir mais do que ajudar. Uma palavra mal-dita pode perturbar, estragar um negócio, uma amizade. As vezes não é culpa de quem falou, mas do coração que escutou. O filósofo alemão Martin Heidegger disse que “a palavra é a morada do ser” e de que as coisas existem quando são nomeadas, ditas, pronunciadas. Adriana Falcão recolheu palavras que o vento lhe trazia e publicou no precioso Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento. “Palavras sempre sabem o que querem. Quero não será desisto. Sim nunca jamais será não. Árvore não será madeira. Lagarta não será borboleta. Felicidade não será traição. Tesão nunca será amizade. Sexta-feira não vira sábado nem depois da meia-noite. Noite nunca vai ser manhã. Um não serão dois em tempo algum. Dois não será solidão. Dor não será constantemente. Semente nunca será flor. As palavras também têm raízes mas não se parecem com plantas a não ser algumas delas, verde, caule, folha, gota. As células das palavras são as letras. Algumas são mais importantes do que as outras. As consoantes são um tanto insolentes. Roubam as vogais para construírem sílabas e obrigam a língua a dançar dentro da boca”.

É preciso dominar as letras, as palavras, as frases. Já pensou na confusão que elas poderiam causar no mundo caso se rebelasse contra todas as formas erradas como são utilizadas? Pois o ensaísta, poeta e tradutor José Paulo Paes na sua fábula moderna A Revolta das Palavras, a palavra usada sem pudor em um anúncio publicitário mentiroso, se retira e dá lugar à palavra que deixa o texto verdadeiro. O mesmo fato estranho se repete em outros textos e a hipocrisia do mundo é desmascarada com esta rebelião. As palavras se cansaram de ser usadas de forma desonesta e resolveram, aprontar. Assim o leitor toma consciência da importância de cada conjunto de letrinhas para o sentido de uma mensagem. Idéia divertida e inusitada que faz refletir.
Pode parecer brincadeira de criança: juntam-se letras e formam-se palavras. Juntam-se palavras e formam-se frases. Uma coisa tão singular, tem efeitos plurais. O texto transporta as pessoas, a palavra dele me causa arrepios, a frase que ela disse há anos ainda retumba nos meus ouvidos. Essa magia das palavras, tão efêmeras, sem substância, provocando tantas reações em toda gente está no livro Encantar o Mundo pela Palavra, de Rubem Alves e Carlos Rodrigues Brandão.
O grande milagre da palavra é quando alguém fala do local onde nasceu, por exemplo, com ternura e saudade, ressuscitando aquilo que não existe mais. Melhor dizendo, traz para perto o que está longe. Recria aqui coisas que, ditas com emoção, vivem de novo na fala. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, recria. Quem, ouve se emociona. As palavras ditas, escritas, se eternizam.
Já Rolando Barthes disse que toda palavra enunciada, sobretudo a palavra da política ou mesmo da ciência, é uma palavra que sai de uma fonte de poder. Um poder a gera e ela enuncia um lugar do poder. Para ele, a única maneira de se livrar do poder da palavra é trapacear com ela, não levá-la completamente a sério. E só a literatura consegue fazer completamente a sério. E só a literatura consegue fazer isso. A literatura diz de muitos e diversos modos.
O discurso político é, por excelência, o lugar de um jogo de máscaras. Toda palavra pronunciada no campo político deve ser tomada ao mesmo tempo pelo que ela diz e não diz. Jamais deve ser entendida ao pé da letra, numa transparência ingênua, mas como resultado de uma estratégia cujo enunciador nem sempre é soberano
Foi com palavras que Xerazade sobreviveu noite após noite com o sultão. Ao descobrir a traição de sua esposa e de mandar mata-la, o sultão dormia cada noite com uma mulher e pela manhã ordenava a execução da companheira daquela noite. Xerazade começou a contar uma longa estória e o sultão ficou encantado com nova estória contada a cada noite. Assim As Mil e uma Noites produziram no sultão o encantamento pela palavra. A palavra (em forma de estórias) salvou Xerazade.
Em Grande Sertão: Veredas, romance de Guimarães Rosa foi escrito como um jorro de palavras, que começa na primeira linha, com um travessão e uma palavra “nonada”, e termina – se é que termina – na última página e na última linha, com a palavra “travessia”, logo acima do símbolo de infinito, que fecha o livro. Guimarães Rosa faz uma recriação da linguagem, narrado pela personagem Riobaldo, de suas andanças pelo sertão. Encerro com a composição “Tantas Palavras”, de Chico Buarque: “Tantas palavras/Que eu conhecia/Só por ouvir falar, falar/Tantas palavras/Que ela gostava/E repetia/Só por gostar...(...)/Tantas palavras/Que eu conhecia/E já não falo mais, jamais/Quantas palavras/Que ela adorava/Saíram de cartaz”.

17 novembro 2008

A palavra tem poder




No início era o verbo. E o verbo ainda hoje cria o universo humano. Assim, a palavra tem poder. Pode condenar, salvar, iluminar; pode fazer adoecer, curar e dar esperança; fazer alguém feliz ou triste. Quem fala sem pensar, age sem pensar. Saber calar é sabedoria, além de ser obtida com muita disciplina. O pensador ocidental Wittgenstein (1889/1951), numa visão empirista e científica, escreveu sobre a palavra: “Os limites de meu mundo são os limites de minha linguagem”. Assim, somente o que é nominável, ou seja, o que pode ser traduzido em palavras ou pensado, existe. Usamos palavras o tempo todo e raramente pensamos no que dizemos e como falamos. É preciso prestar mais atenção na escolha das palavras.

A linguagem dirige nossos pensamentos para direções específicas e, de alguma forma, ela nos ajuda a criar a nossa realidade, potencializando ou limitando as nossas possibilidades. A habilidade de usar a linguagem com precisão é essencial para uma boa comunicação. Quem tiver algo a dizer, que diga agora. Ou se cale para sempre. Assim começa um grande amor aos pés do altar. Escolhida para casar, a palavra foi, de pronto, inviolada, inaugurando uma nova união. De agora em diante, tudo dependerá da força da palavra.

A palavra mal colocada, mal dita, irresponsável, prolixa, incompreendida, ruído na comunicação. Pode até ser inaudível, silenciosa como a linguagem dos sinais. Só não pode ser leviana, traiçoeira, que engana. Na medida certa de fazer o bem sem olhar a quem a palavra pode acolher, amparar, ajudar a crescer. Da ética e da moral, a palavra tem que ser, sempre, natural. Ter argumento, consistente. Não pode ser instrumento que sai da boca dos incautos, egoístas, vaidoso, demagogos e mentirosos. Dos que prometem e não cumprem, dos eternos omissos e submissos. Que trocam, por interesses, seus compromissos.

Somos feitos de palavras. Palavra é poesia, música, harmonia. Palavra é uma invenção humana a fim de se perpetuar, já que os seres humanos passarão e as palavras passarinho (lembrando o poeta Mário Quintana: "Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão...eu passarinho!”). A palavra nasce, cresce, se desenvolve, cria asas e voa. Está em todos os sonhos e sentimentos, em toda nossa vida. O que seríamos sem a palavra? Um oceano de silêncio, de gestos intraduzíveis, um nada perdido numa escuridão em busca de sons que pudessem nos traduzir, de letras que pudessem nos desenhar.
A palavra nos distingue dos animais, dando-nos o meio ideal de expressão, forma que nos faz criar, descobrir, viver num mundo de sons criado para exaltar nossa diferença. O eco da palavra nos acompanha vida afora. Cada som, sílaba, letra é uma vibração que ao falar estamos voltando no ar. As ondas repercutem nos campos sutis das pessoas que as ouvem, e repercutem em todo o universo, pois tudo está interligado. Todo pensamento é palavra, pois aprendemos a pensar assim. E tudo pensamento é energia, da mesma matéria prima que nosso corpo, animais, planta, e tudo o que existe incluindo os minerais, vento, luz, etc.
Cada palavra expressada tem efeito em nossas vidas e esta influência poderá ser a nosso favor ou contra nós, conforme a idéia nela expressa. “Escrever – disse o escritor argentino Julio Cortazar – é uma luta contínua com a palavra. Um combate que tem algo de aliança secreta”. A palavra, como escrevi no início, tem poder. O pensamento correto leva a palavra e à ação corretas. Tudo o que somos hoje é resultado do que pensamos. Segundo um antigo provérbio tibetano, “as palavras não têm, nem pontas, nem corte, mas podem ferir o coração de um homem”.

13 novembro 2008

No mundo atual a palavra ainda comanda

“A imagem te mostra a situação, a palavra deve descrevê-la. E essa é a grande magia da palavra. Nenhuma palavra é, em si, poética. O que a torna poética é a palavra que está ao lado”, afirmou o escritor português José Saramango na abertura da Feira do Livro de Sevilha, Espanha em maio deste ano. Num século XXI em que as novas tecnologias parecem colocar de escanteio a palavra impressa, mesmo nesse mundo invadido pela imagem (televisão, vídeo, internet), a palavra ainda comanda. Nos contatos diários, profissionais ou pessoais, a palavra é soberana. Isso porque a palavra é a matéria-prima do pensamento. Conhecer a língua, saber falar corretamente para ser compreendido, questionar e raciocinar são pontos importantes. Afinal, dominar a palavra permite melhor controle do mundo ao seu redor.

“No princípio era o Verbo”. A palavra constrói e destrói. Portanto, ser dono de seus pensamentos é poder dirigir a própria vida e defender-se das manipulações econômicas, políticas e sociais que sofremos no dia a dia. A jornalista, artista plástica e roteirista Elvira Vigna discorda em achar que nossa época é do apogeu da imagem. “Acho que nossa época matou a imagem. Fez isso ao elegê-la como a linguagem preferencial da comunicação social. Nesta função, a imagem precisou se tornar cada vez mais eficiente. Ter menos possibilidade de erro. Precisou ficar mais rasa, mais rápida. Ser entendida da mesma forma por mais gente. Não propõe um diálogo. Segue normas. De perfeição. É autoritária. E burra. O que nos salvará a todos é a arte contemporânea. Opaca, complexa, dúbia. Efêmera. Imperfeita. E inteligentíssima. Sempre com um texto escondido. Às vezes com um texto às claras”.
A leitura, além de dar asas à imaginação, é ponte que conduz ao conhecimento. O hábito de ler é fundamental para as pessoas desenvolverem a capacidade de pensar, refletir e argumentar. Quem não lê, não desenvolve idéias e, conseqüentemente, não consegue se comunicar com os outros. Ler, portanto, é um ato de libertação. É emancipação. O escritor Mark Twain chegou a dizer que “o homem que não lê bons livros não tem nenhuma. “Ler é a arte de mastigar com os olhos e ver com os ouvidos”, lembra Carlos Nejar. E esta arte carece de incentivo desde o berço.
A falta de intimidade com a leitura entre os alfabetizados é um problema que aflige o mundo há tempos. Em 1936, Mario de Andrade, então criador do Primeiro Departamento de Cultura de São Paulo, já dizia: "A disseminação no povo do hábito de ler criará fatalmente uma população urbana mais esclarecida, mais capaz de vontade própria, menos indiferente à vida nacional."
Segundo teoria de Monteiro Lobato, um país se faz de homens e de livros. O que nos dias atuais pode se considerar uma oportunidade que foge da realidade do Brasil. Muitos relacionam a falta de incentivo por parte dos pais e das instituições escolares, e até mesmo o fato de que nem todos que apreciam o hábito da leitura têm condições financeiras de comprar uma boa obra literária. Além das condições financeiras em adquirir livros - por parte de quem já gosta de ler - outro ponto que influencia o desinteresse ou incentivo pela leitura, e conseqüentemente as vendas nas livrarias, é a falta de campanhas de incentivo à leitura por parte do governo e seus educadores e dos pais que também não mantêm o hábito de ler.
O professor de português Pasquale Cipro Neto afirma que o exercício que não pode faltar no aprimoramento do idioma é o ato de ler. E reconhece a dificuldade que envolve a leitura, principalmente na vida atual. "Ler é uma atividade penosa, exige concentração, silêncio, raciocínio, solidão. Ler não se faz com a galera, com a turma. Hoje as pessoas vivem em bando e tudo tem que ser feito em bando. Ler não é algo que se faz em bando. É o oposto disto. Em tempos de vida moderna, do celular, cadê a concentração? Cadê a solidão? Nestes tempos, ler é difícil", conclui. O professor acredita que há muita hipocrisia. Não se enfrentam as coisas como elas são. "As pessoas querem o tempo todo confusão, se afastam de si, têm medo delas mesmas. Neste contexto não há espaço para a leitura."
“Ler é uma ação individual, solitária e alienante do seu em torno. É seu maior problema e sua maior qualidade. É o contrário do que se dá na tela anterior, a da televisão, que permite o ´ver junto´. Ninguém lê junto. Ninguém senta junto no computador. Ninguém pensa junto. Compartilha-se. É diferente. E muito, muito melhor. O mundo melhorou. A tecnologia atual é melhor do que a anterior. Por exemplo, a questão da imposição cultural. Não há muita defesa contra sitcoms. Mas enquanto se falar `eu deletei`, quem tem de se defender é o inglês”. O assunto merece mais discussão. Vamos voltar a escrever sobre a força da palavra brevemente, aguarde.

12 novembro 2008

Violência na escola

A organização não-governamental Internacional Plan, realizou uma pesquisa com 12 mil alunos de seis Estados, e o resultado foi que cerca de 70% dos estudantes brasileiros são vítimas de violência escolar. Destes, 84% apontam suas escolas como violentas. Em todo o mundo, por dia, cerca de 1 milhão de crianças sofrem algum tipo de violência nas escolas, diz a ong, que atua em 66 países em defesa dos direitos da infância. O levantamento é parte da campanha mundial “Aprender sem medo”, que tem por objetivo promover um esforço mundial para erradicar a violência escolar. A campanha tentará combater as três principais formas de violência na escola: o castigo corporal, a violência sexual e o chamado bullying, definido pelo estudo como “atitudes agressivas, intencionais e repetidas que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro”.

No Brasil, o bullying, incluindo o cyberbullying (a agressão via internet), será o centro das ações, informa a Agência Brasil. Segundo a pesquisa, pelo menos um terço dos estudantes brasileiros afirmou estar envolvido nesta atitude, seja como agressor ou como vítima. De acordo com o assessor de educação da Plan Brasil, Charles Martins, o bullying é hoje a prática mais presente nas escolas. “Com o conselho tutelar e outras ações externas, o castigo corporal não acontece tão facilmente, já o bullying tem implicações psicossociais nos indivíduos. Mas não se tem essa consciência, é uma temática nova”, disse.
O estudo diz que as vítimas do bullying perdem o interessem pela escola e passam a faltar às aulas para evitar novas agressões. “Essas vítimas apresentam cinco vezes mais probabilidade de sofrer depressão e as garotas têm oito vezes mais chances de serem suicidas”, diz o relatório. Quando questionadas sobre o castigo corporal, as crianças brasileiras de 7 a 9 anos disseram sentir, além da dor física, “dor no coração” e “dor de dentro”.
Martins alerta que o comportamento é difícil de ser identificado, mas pode ser configurado quando as agressões verbais se tornam repetitivas. “O professor precisa identificar em sala de aula as crianças que têm um padrão de vítima como timidez, problemas de rendimento e se tornam em alguns momentos anti-sociais”, afirmou. Para a organização, é na escola que o problema deve ser resolvido. O estabelecimento de normas claras de comportamento, treinamento de professores e a promoção da conscientização dos direitos infantis são medidas apontadas para tentar reverter este quadro de violência nas escolas. Dos 66 países pesquisados pela Plan, apenas cinco (Coréia, Noruega, Sri Lanka, Reino Unido e EUA) possuem leis que proíbem o bullying nas escolas.
A campanha terá início em 2009. Segundo Martins, a ONG buscará o apoio de dirigentes escolares, professores e dos três níveis de governo para a divulgação do tema. Entre as principais ações está o desenvolvimento de oficinas com os alunos em escolas-piloto para desenvolver o chamado “protagonismo infantil”. “Ao final eles serão orientados a implementar na escola um comitê dos direitos das crianças. Eles serão multiplicadores também em outras escolas”, explica Martins. O número de escolas ainda não está definido, pois dependerá de futuras parcerias. Mais informações no site da Plan Brasil.
O Brasil foi incluído no estudo. E os resultados são alarmantes: 70% dos 12 mil estudantes pesquisados em seis estados afirmaram terem sido vítimas de violência escolar. Outros 84% desse total apontaram suas escolas como violentas. A campanha terá como foco as três principais formas de violência na escola: o castigo corporal, a violência sexual e o bullying, fenômeno definido pelo estudo como “atitudes agressivas, intencionais e repetidas que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro”.
Cada país vai moldar a campanha de acordo com a realidade nacional. Comum em todo o mundo, o bullying será o centro das ações no Brasil. Segundo a pesquisa, pelo menos um terço dos estudantes do país afirmou estar envolvido nesse tipo de atitude, seja como agressor ou como vítima. De acordo com o assessor de educação da Plan Brasil, Charles Martins, o castigo corporal, apesar de ainda estar presente nas escolas brasileiras, é mais repreendido do que o bullying. “Nós identificamos que o bullying é hoje a prática mais presente. Com o conselho tutelar e outras ações externas, o castigo corporal não acontece tão facilmente, já o bullying tem implicações psicossociais nos indivíduos. Mas não se tem essa consciência, é uma temática nova”, explica o pesquisador.
O estudo aponta que as vítimas dessa prática perdem o interessem pela escola e passam a faltar às aulas para evitar novas agressões. “Essas vítimas apresentam cinco vezes mais probabilidade de sofrer depressão e, nos casos mais graves, estão sob um risco maior de abuso de drogas e suicídio”, diz o relatório. Martins alerta que o comportamento não é tão fácil de ser identificado, mas pode ser configurado como bullying quando as agressões verbais e emocionais se tornam repetitivas. “O professor precisa identificar em sala de aula as crianças que têm um padrão de vítima como timidez, problemas de rendimento e se tornam em alguns momentos anti-sociais”, indica.
Para a organização, as estratégias de combate à violência escolar mais eficientes se concentram na própria escola. Alguns exemplos são o estabelecimento de normas claras de comportamento, treinamento de professores para mudar as técnicas usadas em classe e a promoção da conscientização dos direitos infantis. (Fontes: Site CGC Educação e Agência Brasil)

11 novembro 2008

Sociedade em rede (2)

Há também as redes empresariais, formas de cooperação produtiva e tecnológica entre empresas. Assim, na literatura econômica, essa rede de firmas podem ser concebidas como arranjos institucionais que possibilitam uma organização eficiente de atividades econômicas, por meio da coordenação de ligações sistemáticas estabelecidas entre firmas interdependentes.

Tão planejados quanto premeditados são os ataques terroristas. Nas redes terroristas os membros compartilha conhecimento dentro das estruturas funcionais com um objetivo básico. Nas cidades há diferentes tipos de redes urbanas, feito da aticulação de múltiplas conexões como o transporte público, o saneamento, energia etc. Assim, na vida urbana é necessário refletir os planos de informação que redefinem atores, objetos e ações para a gestão se tornar fluída.
Na história da arte, artistas de todas as nacionalidades e inclinações ideológicas partilharam um objetivo comum ao experimentar a arte postal. Foi uma das primeiras manifestações artísticas a tratar com a comunidade em rede, em grande escala. Entre os anos 60 e início dos 80, em países com regimes opressores, a arte postal se tornou a única forma de intervenção artística anti-establishment. E se antes, os artistas acreditavam que era suficiente colocar trabalhos ao alcance de todos, hoje os artistas experimentam os novos meios de difusão e procuram menos esse grande púbico e optam por um público que tenha mais afinidade com suas idéias e propósitos. Na rede internet os ambientes multi-usuários e da mídia tática com grupos e coletivos de ação artística trabalham a realidade virtual partilhada e mostram interatividades, tipicamente autorais e independentes.

Hoje a palavra rede se tornou um termo da moda. Se os microbiologistas descrevem as células como redes de informações, os ecologistas conceituam o ambiente natural como sistemas em rede, os cientistas da computação desenvolvem redes neurais com capacidade de auto-organização e auto-aprendizagem, as ciências sociais contemporâneas estudam as novas formas de organização social através das redes.
Tem ainda as redes políticas como uma tipologia de intermediação de interesses, uma forma específica de governança. Essas redes são vistas como instituições informais – relações relativas e permanentes, não organizadas formalmente, recíprocas (não-hierárquicas), entre atores que procuram obter ganhos coletivos. As redes são baseadas em regras de consenso para a obtenção de um resultado comum. Elas reduzem custos de transação e da informação e criam confiança mútua entre os atores, diminuindo a incerteza e assim o risco de defecção. Por causa dessas funções, as redes servem como um arcabouço institucional ideal para a auto-coordenação horizontal entre os atores públicos e privados, no qual a formulação de política se ampara num ambiente cada vez mais complexo, dinâmico e diversificado, onde a coordenação hierárquica não pode funcionar. Haja rede! Para quem gosta do assunto vale conferir o livro “O Tempo das Redes” (Perspectiva).

“Além das Redes de Colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder” é o título do livro lançado pela Editora da Universidade Federal da Bahia. Foi organizado pelos professores Sérgio Amadeu da Silveira (Cásper Líbero-SP) e Nelson Pretto (Faculdade de Educação da Ufba) como resultado de seminários realizados pela Casa de Cinema de Porto Alegre em parceria com a Associação Software Livre, ocorridos no segundo semestre de 2007, como parte do Programa Cultura e Pensamento do Ministério da Cultura.

Reunindo acadêmicos de várias áreas do conhecimento, ativistas e artistas, “Além das Redes de Colaboração” trabalha a contradição entre as possibilidades de criação e disseminação culturais inerentes às redes informacionais e as tentativas de manter a inventividade e a interatividade sob o controle dos velhos modelos de negócios construídos no capitalismo industrial. O livro pretende jogar luz sobre essas batalhas biopolíticas para decifrar as disputas sociotécnicas em torno da definição de códigos, padrões e protocolos. Por isso, as tecnologias da informação e da comunicação foram avaliadas em suas dimensões mais importantes. As explicações nascidas da matriz do pensamento único, a qual procura esconder suas determinações histórico-sociais sob o discurso de uma racionalidade neutra, foram confrontadas com aquelas que pretendem dar transparência aos processos e politizar o debate sobre tais dimensões tecnológicas e sobre as históricas relações entre a ciência, o capital e o poder.

O cineasta Jorge Furtado apresentou assim a coletânea: “Ao mesmo tempo que devora, digere e recria o telefone, o cinema, a televisão, os correios, o rádio e a indústria fonográfica, a internet se aproxima do sonho de Borges de uma biblioteca infinita, onde o saber humano está disponível ao alcance de um toque. O que fazer com tão imenso poder é a pergunta que definirá o nosso futuro. Esse livro é uma boa contribuição para o debate”.O livro “Além das Redes de Colaboração” pode ser encontrado nas melhores livrarias. A Editora da Universidade Federal da Bahia é a responsável pela distribuição da versão impressa. Quem não puder desembolsar R$35,00 para adquirir o livro, poderá baixá-lo gratuitamente direto do site em formato PDF. Para tanto basta ir ao site:
http://rm.softwarelivre.org/alemdasredes, que sua versão integral está lá disponibilizado para todos.

10 novembro 2008

Sociedade em rede (1)

O surgimento das redes de computadores foi uma conquista importante para a humanidade. É cada vez mais fácil conectar pessoas em diferentes continentes por meio eletrônico ou digital. Com as novas tecnologias de informação e comunicação, as redes se tornaram um dos fenômenos sociais mais proeminentes de nossa era. Por muito tempo, “construir redes” tem sido uma das principais atividades de organizações políticas de base. O movimento ambientalista, o movimento para os direitos humanos, o movimento feminista, o movimento pela paz, e vários outros movimentos de base política e cultural têm se organizado como redes que ultrapassam fronteiras sociais.

Essa nova forma de organização das atividades humanas foi cunhada pelo sociólogo Manuel Castells como “sociedade em rede”. O foco nas redes, em ciência, começou nos anos 20, quando ecologistas viram os ecossistemas como comunidades de organismos ligadas em forma de rede através de relações de alimentação, e usaram o conceito de cadeias alimentares para descrever essas comunidades ecológicas. Assim a rede é um padrão comum para todo tipo de vida. Onde quer que haja vida, vimos redes.

Essas redes vivas são funcionais, de relacionamentos entre vários processos. Na célula, esses processos são reações químicas entre moléculas celulares. Na cadeia alimentar, os processos são os de alimentação, de organismos comendo uns os outros. Nessas redes vivas sua característica-chave é a autogeneração, ou seja, na célula todas as estruturas biológicas são produzidas, reparadas e regeneradas continuamente pela rede celular. Todos os organismos vivos têm um limite físico que discrimina o sistema – o “ser” e seu ambiente. Células, por exemplo, estão encerradas por membranas e, animais vertebrados, por peles. Desde o início, a vida na Terra está associada à água. Bactérias se movem na água e o metabolismo no interior de suas membranas se dá em um ambiente aquoso. O pesquisador Fritjof Capra estudou o conceito sistêmico de vida para o campo social no seu livro “Conexões Ocultas”, além de “A Teia da Vida”.

A necessidade constante de inovação nos negócios é um dos fatores chave da emergência e visibilidade que as redes sociais têm alcançado. Redes sociais são estruturas dinâmicas e complexas formadas por pessoas com valores e:ou objetivos em comum, interligadas de forma horizontal e predominantemente descentralizadora. Os movimentos de sociedade civil na busca por soluções para problemas sociais crônicos, como fome, miséria e violência, têm contribuídos para um interesse ainda maior nas redes sociais e suas propriedades. Os conselhos políticos internacionais, as redes terroristas, as associações de classes, as redes de especialistas e acadêmicos são exemplos práticos de redes sociais.
Há duas formas de redes – densamente conectadas e ramificadas – que transmitem vírus biológicos, computacionais e de mercado. As redes densamente conectadas promovem a rápida disseminação de um vírus e aumentam a probabilidade de que muitos dos membros serão afetadas. As redes ramificadas permitem a ampla disseminação viral, passados por diferentes meios. Os três tipos de vírus dependem das redes muito mais para sua disseminação do que para seu crescimento local.
Os vírus biológicos necessitam de contato com seres humanos ou outros animais para serem transmitidos. Frequentemente, mutantes, e a prevenção de sua disseminação envolve isolamento físico. O vírs computacionais são produzidos por hackers ou especialistas em ciberguerra. Se geralmente transmitia pela internet, embora o compartilhamento de arquivos seja outro vetor equivale ao compartilhamento de seringas no caso dos vírus biológicos. Já o vírus de mercado (na prática há milênios), o vírus de marketing é o tipo mais recentemente reconhecido. Há o boca-a-boca de produtos ou serviços, ou líderes inspiracionais como as estrelas de equipes esportivas.

07 novembro 2008

Música & Poesia

Ascende o Crepúsculo (Marina Lima)

Em parte a gente é arte
Em outra parte é técnica
Sou de carne e osso
E eletrônica
Cara, me dá um sorriso
Que a vida é crise
Toma um kamicase
Pega, chuta, muda
Que o amor é só roleta-russa
Não existe regra
Nem exceção
Basta um certo estilo de improvisação
Cara, a vida é brisa
Me leva pro Japão
Ou nessa madrugada
Vem e barbariza
Ascende o crepúsculo
De Cubatão




Canção (Allen Ginsberg)

O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação


o peso
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -

pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:

o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.

Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -

sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.

06 novembro 2008

Pioneiro do cinema baiano

O centenário de nascimento do pioneiro do cinema baiano, Alexandre Robatto Filho foi lembrado na última terça, 04 de outubro, na Sala Walter da Silveira, com a exibição de dois dos seus curta-metragens: Xaréu e Vadiação. A iniciativa da Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado contemplará ainda uma exposição no Palacete das Artes, organizada pela Secretaria de Cultura da Bahia.

Pintor, desenhista, artista plástico, ilustrador, escritor, radioamador, cineasta. Considerado “um homem de mil instrumentos”. Nasceu em Salvador a 04 de novembro de 1908. Professor da Faculdade de Odontologia da UFBa, radio-amador, fundador do Clube da Bahia em 1935 e um apaixonado pela navegação à vela na Baía de Todos os Santos e, antes disso, remador do Vitória, jogador de futebol, nadador, atirador e recordista baiano de salto em altura. Pintor, desenhista ocasional, escritor, produtor de discos, ele foi o pioneiro do cinema baiano. Seu ingresso no cinema dá-se em 1930, com o advento da bitola Duplo 8 mm, rodando a “Vacina BCG”.

Em 1938, “Águas da Bahia”, documenta os serviços primordiais de saneamento básico na capital. Documentarista acadêmico, influenciado pelo cineasta americano Robert Flaherty (autor dos clássicos “Nanouk, o Esquimó” e “Louisiana Story”), Robatto seguia uma corrente didática e linear, embora imprimisse uma linha progressiva no desenvolvimento rítmico de seus filmes. Seus filmes são verdadeiros mergulhos à memória baiana. Ele desenvolveu, durante mais de quatro décadas, uma filmografia sistemática, um tipo de cinema centrado no documentário e no registro dos festejos dos eventos, dos acontecimentos que formam a baianidade.
Foi pioneiro no seu oficio de registrar as imagens em movimento numa cidade que naquele tempo, não possuía quase nada em matéria de equipamento cinematográfico. Realizou a
proximadamente 54 curtas metragens, além de duas dezenas de pequenos filmes de registro familiar. Faleceu pouco depois de completar 73 anos de idade em 30 de novembro de 1981.

A Sala Alexandre Robatto é o único espaço de Salvador dedicado exclusivamente a mostras sistemáticas de vídeo. A sala exibe uma programação que prima pela qualidade, contemplando tanto a videoarte quanto clássicos do cinema já não encontrados em película. Com uma área de 80 m², capacidade para 72 lugares, um telão e um projetor de vídeo de alta definição com leitura de qualquer formato (DVD, VHS, MiniDV, DVCam e Betacam com sistema analógico), a sala é única no
gênero em Salvador. Inaugurada após a reforma da Biblioteca Pública do Estado, em 1998, a Sala Alexandre Robatto exibe mostras focalizando diretores, estilos, cinematografias diversas, dentre variados temas.

05 novembro 2008

Porta-voz de uma geração de rebeldes

Há 90 anos morria o francês Wilhelm Apollinaris de Kostrovitsky, que usava o pseudônimo de Guilhaume Apollinaire (1880/1918). Ele nasceu na Itália e foi criado em Paris. Escritor claramente à frente do seu tempo, defende a arte dos fauves, apóia o cubismo de Picasso e Braque e mantem-se em contacto com Marinetti e os futuristas italianos. Em 1913 publica Alcools. A força das suas imagens leva-o aos limiares do surrealismo.

SIGNO (Tradução: André Dick)

Fui submetido à Regência do Signo de Outono
Portanto amo as frutas e detesto as flores
Lamento todos os beijos de que fui dono
Igual à nogueira colhida diz ao vento suas dores
Meu outono eterno ó minha estação mental
Mãos dos amantes de outrora em teu solo agarradas
Uma esposa me segue, é minha sombra fatal
As pombas à tarde batem suas últimas asas
Levou o Simbolismo francês em direção à modernidade, ao Surrealismo que já se anunciava. Como crítico de arte, defendeu o Cubismo. Tornou-se um dos maiores poetas franceses ao escrever “Zone”, uma dolorosa fantasia romântica que figura até hoje entre os clássicos franceses. Escreveu também romances ditos pornográficos, dos quais As Onze Mil Varas é o mais conhecido. Ele liderou a equipe que pesquisou e organizou os livros “proibidos” que fariam parte da famosa coleção Inferno da Biblioteca Nacional francesa, existente até hoje. Grande poeta, ao se dedicar ao erotismo, não teve papas na língua: foi fundo.
A PONTE MIRABEAU (Tradução de Jorge de Sena)
Sob esta ponte passa o rio Sena
e o nosso amor
lembrança tão pequena
sempre o prazer chegava após a pena
Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa
Mãos dadas nós fiquemos face a face
enquanto sob
a ponte dos braços passe
de eternas juras tédio que se enlace
Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa
E vai-se o amor como água corre atenta
e vai-se o amor
ai como a vida é tão lenta
e como só a esperança é violenta
Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa
Dias semanas passam à dezena
nem tempo volta
nem nosso amor nossa pena
sob esta ponte passa o rio Sena
Chega a noite a hora soa
vão-se os dias vivo à toa
Um dos mais importantes autores do modernismo francês, Apollinare era considerado o porta-voz de uma geração de rebeldes. Poeta respeitado, editor da conceituada revista Lês soirées de Paris (As tardes de Paris). Como ele viveu a época de ouro da literatura libertária francesa, os autores modernistas viviam à sombra do movimento cubista, que tinha sua origem nas artes plásticas. Faltava à literatura esse status de originalidade. E eles foram buscar nos transgressores franceses Marquês de Sade e Sacher-Masoch.
Mas sua criação esfuziante não se limitava aos versos bem construídos de rima romântica. Nas madrugadas, após viagens de absinto, Apollinaire escrevia outros livros, entre eles uma obra prima do erotismo: Les onze mille verges. Ele cultivava um fascínio especial pelo romance libertino – foi o responsável pela introdução dos “livros malditos” de Sade no cenário literário francês no início do século. Além dos libertinos franceses, Apollinaire também cultivava uma predileção pelos escritores licenciosos da Itália renascentista como Aretino e Baffo, ambos publicados em suas coleções – Coffret du Bibliophile e Les Maîtres de l ‘Amour. Atraído pela liberdade de expressão dos autores do passado reputados como obscenos, o poeta incorporou em sua obra diversos traços de uma literatura que, expulsa dos cânones, lhe revelava o avesso da tradição.
Segundo a professora Eliane Robert Moraes (que dirige a coleção “Os Libertinos” da Editora Ágalma), ao escrever a novela “As onze mil varas”, Apollinaire lançou mão de vários elementos dessa outra tradição literária que a moralidade do século XIX preferiu encerrar nos porões da memória coletiva. “Se certas passagens da novela nos fazem lembrar a libertinagem cruel dos personagens de Sade (...), outras evocam a lubricidade debochada de Aretino (...). O resultado dessa combinação e o humor negro, quase macabro, que desafia o leitor a distinguir o riso do pânico”.
Se o humor é um componente fundamental do livro – a começar do título, que faz alusão às onze mil virgens que acompanharam o martírio de Santa Úrsula -, sua contrapartida é a perversidade. Ao apresentar uma sucessão vertiginosa de cenas violentamente eróticas, a novela mobiliza os diversos motivos de sadismo literário, como a necrofilia, a escatologia, a bestialidade, a pedofilia, o sacrilégio, o incesto e o assassinato. Lançado em 1907 – assim como a outra obra pornográfica do autor, Les Exploits d’um jeune don Juan – o livro foi publicado anonimamente. Ele só veio a ganhar uma edição oficial com o nome do escritor em 1970, quando seus herdeiros admitiram publicamente a autoria.
Apollinaire morreu no dia 09 de novembro em Paris vítima de uma epidemia de gripe aos trinta e oito anos. Seus livros libertários e eróticos foram publicados com pseudônimo, mas seu estilo refinado o denunciou. Assim, foi perseguido e obrigado a negar seu trabalho. Hoje ele é reconhecidamente um dos maiores autores de todos os tempos.

04 novembro 2008

Minha pátria é minha língua


No Brasil, houve um tempo em que uma língua se sobressaía entre as demais. Sua influência foi tão marcante que, mesmo quando a Europa pensava ter encontrado aqui uma Atlântida selvagem e Portugal acreditava serem essas suas terras, o tupi continuava firme e mais falada que a própria língua portuguesa.

Até os dias atuais, quando as comunidades indígenas lutam para não perder o que sobrou de suas identidades, o tupi continua sendo a base lingüística responsável pelas significativas mudanças entre a língua falada em terras lusitanas e brasileiras. Para se ter uma idéia do que isso significa, basta lembrar que na língua oficialmente falada no Brasil, existem dez mil vocabulários em tupi, sendo, segundo o professor da USP, Eduardo Navarro – a língua que mais designa nomes de localidades no país, depois do português. O especialista em letras clássicas pontua que existem cerca de 180 línguas de origem indígenas faladas no Brasil.
Dados levantados pelo engenheiro José Antônio Caldas, informou que a população indígena aldeada na Bahia, em meados do século XVIII, era de cerca de 12 mil, que mal seriam 6% da população residente no estado na época. Segundo a antropóloga e historiadora Maria Hilda Paraíso, todos os grupos indígenas da Bahia perderam suas línguas originais. “Exceto o tupi, o que se tem hoje das línguas das tribos jê (também conhecidos como tapuias) e kiriri são registros estáticos de um ou outro vocábulo, desprovido da gramática que dá o dinamismo da língua. Então é muito fácil chegar em determinadas comunidades indígenas hoje que utilizam algumas palavras recuperadas com a estrutura gramatical da língua portuguesa”, completa a especialista.
O estudo do tupi continua sendo uma exceção na academia e nas escolas brasileiras. Na UFBa, o tupi deixou de ser estudado como disciplina em 1993, com a aposentadoria da especialista no assunto, a tupinóloga baiana e discípulo de Frederico Edelweiss (maior especialista no assunto e fundador da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBa) até a sua morte, a historiadora Consuelo Ponde de Senna.
De acordo com Consuelo Ponde, o tupi era falado em todo o litoral brasileiro e nas regiões Norte e Nordeste. “Chamada pelos portugueses de língua brasílica, o tupi – de acordo com a tribo – sofria algumas variantes dialetais, mas se mantinha como a língua mais falada no território nacional”, esclarece a especialista. A palavra tupi, na verdade, era a designação da própria nação que deu origem a vários troncos como os tupinambás, tupiniquim, tabajaras, tuxás, entre outros.
Para se fazer entender e conseguir desempenhar o papel de educadores, os jesuítas foram obrigados a aprender o tupi, falando e escrevendo a língua nativa. Dessa forma a língua brasílica cresceu nas terras da Santa Cruz, tornando-se mais falada que o próprio português. As disputas políticas entre o poderoso ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, e os jesuítas serviram de justificativa para que Pombal decretasse em 17 de agosto de 1758, a proibição do uso do tupi. A finalidade era enfraquecer o poder da Igreja Católica sobre a colônia. E espalhou-se na colônia uma regra comportamental que pregava que falar a língua gentílica era sinônimo de inferioridade. E a velha tendência de cultuar os costumes estrangeiros começava a fincar raízes.
Apesar das proibições de Pombal, o tupi continuou resistindo, principalmente no norte do país, onde a morosidade da colonização terminou por preservar a língua mãe do Brasil. E o tupi foi sendo paulatinamente esquecido até o final do século XIX quando um intelectual baiano, o estudioso Theodoro Sampaio trouxe o tupi de volta à visibilidade, através do Instituto Histórico de São Paulo. O personagem de Lima Barreto, Policarpo Quaresma, em plena ditadura republicana, sonhou restabelecer o tupi como língua nacional, e foi ironizado por Oswald de Andrade na sua afirmação modernista “tupy or not tupy, that is the question!”. Gonçalves Dias quis recuperar com suas obras como I Juca Pirama (que significa o que vai ser morto), assim como José de Alencar que, ao escrever Ubirajara, Iracema entre outros livros, buscava encontrar o rosto do Brasil.
Para a diretora do Instituto de Letras da UFBa, Evelina Hoisel, o “ensino do tupi nas escolas da universidade facilitaria a compreensão da formação histórica do país. O que não podemos imaginar é que a partir desse projeto, o tupi volte a ser uma língua falada”. Mais de duzentos anos depois da agressiva política de Pombal, o Brasil deixou de ser um país bilíngüe: o tupi é falado por não mais do que 30 mil índios – 10% da população indígena do Brasil, calculada em cerca de 300 mil pessoas.
Há milhares de expressões, como ficar de nhenhenhen (quer dizer falando sem parar), chorar as pitangas (pitanga é vermelho em tupi, ou seja, chorar lágrimas de sangue), cair um toró (toró é jorro d´água em tupi), ir para a cucuia (entrar em decadência). Grande parte dos verbos é tupi: socar (bater com a mão fechada), petec (bater com a mão aberta, daí vem peteca, espetar é cutuc (daí cutucar). O significado de grande parte de nomes de lugares só se sabe com o tupi: Itapoan, Itaparica, Itacaré, Guaratinga, Pindobaçu e Itajuípe. Na nossa fauna e flora, o tupi aparece massivamente: tatu, tamanduá, jacaré.

03 novembro 2008

Os quadrinhos baianos têm um novo herói: Caú, o capoeirista

O mais novo trabalho do cartunista baiano Flávio Luiz, Aú o capoeirista teve suas duas mil cópias lançadas em Salvador, Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba e São Paulo. A edição de luxo, em capa dura, contou com o apoio de um mecenas baiano que o patrocinou através da Lei Rouanet. Batizado como o movimento da capoeira, Aú vai conquistar um público leitor carente de personagem baiano. Com desenhos cheios de movimento (traço limpo e dinâmico), diagramação elaborada, trama cativante, Aú tem tudo para agradar baianos, romanos, gregos e americanos, mas o espírito baiano está alí, centrado nos personagens, no ambiente. Flávio canta sua aldeia e mostra ao mundo.

A história, ambientada em Salvador, é repleta de aventura, humor, consciência ecológica e mostra o cotidiano do capoeirista mirim Aú e seu inseparável amigo, o macaquinho Licuri. O adolescente investiga o desaparecimento de uma garota francesa sequestrada no Pelourinho ao presenciar o início de um incêndio. A investigação do capoeirista Au o leva à ilha particular do misterioso Armando Confuzionni. A partir daí o leitor vai encontrar muita ação pelas ladeiras do Pelô e outros pontos da cidade, além de uma eletrizante perseguição de jetskis nas águas da Baía de Todos os Santos.

Flávio Luiz é muito conhecido pelas tirinhas em quadrinhos de Jab, um lutador, Rotta 66, a revista Jayne Mastodonte e pela graphic novel O Mesias em parceria com Gonçalo Júnior. De 1993 a 1995 foi chargista e ilustrador do Jornal Bahia Hoje. Participou de diversos salões de humor nacionais e internacionais, recebendo vários prêmios. De 2000 a 2008 foi ilustrador do Correio da Bahia, depois chargista da revista Metrópole e do site www.oaranha.com.br. Seus trabalhos fazem parte dos acervos do Museu of Cartoon Art (Flórida), Gibiteca do Henfil (SP), World & Pictures Museum (Massachussets) e do livro Uma História do Brasil através da Caricatura.

Desde pequeno sua paixão sempre foi história em quadrinhos. Ele começou a trabalhar como ilustrador para agências de publicidade e blocos de carnaval entre 1986 e 1988. Trabalhou como diretor de arte em 1989 para a Propeg-Bahia. Em 1994 foi contemplado com o primeiro lugar na categoria cartum no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, o mais importante salão de humor do Brasil. No final de 1995 Flávio mudou-se para Barcelona, na Espanha, onde aprimorou sua técnica em cursos especializados em quadrinhos (Escola Joso). De volta ao Brasil, em 1997 foi contemplado com menção honrosa no Festival Internacional de Humor "Sem Aids com Amor".

Em 1998 foi terceiro lugar na categoria caricatura e menção honrosa em cartum no 1º Salão de Humor de Salvador. Ainda em 98 foi de sua autoria as caricaturas do projeto vencedor de decoração do Carnaval Tropicalista de Salvador e o próprio mascote do carnaval. No ano seguinte foi premiado com o terceiro lugar no 1º Salão de Humor de Natal, Rio Grande do Norte. Ainda em 1999 consegue lançar sua primeira publicação com personagens exclusivamente seus. A coletânea de tirinhas de JAB - Um lutador e da ROTA 66. Na 3ª Feira Internacional do Livro da Bahia, lançou em setembro, também de forma independente, a revista em quadrinhos Jayne Mastodonte Adventures.

Ganhou o primeiro lugar no II Salão de Humor de Salvador - Shopping Lapa, na categoria quadrinhos. Em agosto de 2000 ganha o HQMix 2000 de melhor publicação em quadrinho independente de 1999 para a revista Jayne Mastodonte Adventures1. Este prêmio é considerado o Oscar do quadrinho nacional. No fim do mesmo mês é premiado com o 1º lugar na categoria charge do 27º Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Entra assim para a galeria dos poucos premiados duas vezes em Piracicaba em categorias diferentes. No ano de 2002 recebeu o prêmio especial no I Festival Internacional de Cartum da Suécia, em Malmo, com o tema ecologia. Recebeu também menção honrosa no concurso de Tapumes para a decoração do Carnaval Baiano. Em 2003 ganha o 16º Salão de Humor de Volta Redonda na categoria charge, ironizando um “Lulatrix” às voltas com diversos clones da Senadora Heloísa Helena, marcando o momento político “saia justa” do atual Governo.

Ainda em 2003 ganha o 4º lugar no 1º Festival Internacional de Humor Gráfico de Foz do Iguaçu, com o tema água. Em 2007 recebe o Primeiro Troféu Alfaitaria de Fanzines de melhor revista independente com Jayne Mastodonte 2. Esta é a trajetória de Flávio que está sempre batalhando e aprimorando seu traço. Para ele, o objetivo da publicação de Aú, o capoeirista, é conquistar um público leitor de histórias em quadrinhos carente de personagens tipicamente brasileiros, no cenário das HQ nacionais. “A hospitalidade, a alegria, a criatividade do povo baiano retratada nos personagens servirá para divulgar ainda mais os lugares, ritmos e as diferenças da nossa cultura, principalmente a cultura negra e seu sincretismo”, declarou. Por meio do site www.auocapoeirista.com.br o leitor saberá como adquirir a publicação e mais informações.

O tema do Carnaval 2008 da capital baiana foi a capoeira que mostrou muita ginga, força e cultura. A Capoeira é uma herança deixada pelos negros bantos vindos de Angola como escravos. Para não levantar suspeitas, os movimentos da luta foram sendo adaptados às cantorias e músicas africanas para que parecesse uma dança. Símbolo de identidade e resistência, a capoeira também é uma das mais belas e fortes expressões culturais brasileiras e, sobretudo, baiana. A palavra “capoeira” tem alguns significados, um deles refere-se às áreas de mata rasteira do interior do Brasil. Existem muitos tipos de capoeira, mas os dois principais são a capoeira Angola e a Regional. Esta última foi criada pelo baiano Manoel dos Reis Machado, o respeitado Mestre Bimba. Então o amigo Flávio está sintonizado com seu personagem capoeirista. A capoeira não é só respeitada como também é divulgada e praticada pelos quatro cantos do mundo.

30 outubro 2008

Pasolini, o diagnosticador dos tempos


No dia 02 de novembro de 2008 completa 33 anos da morte de Pasolini. Profundo, mordaz e a favor da independência humana, o cineasta, escritor, poeta, jornalista político, homem de teatro e filósofo Pier Paolo Pasolini, morreu tragicamente há 33 anos, deixou uma obra que ainda causa polêmica.

Píer Paolo Pasolini (1922/1975), artista que hoje se chamaria de um multimídia – era prosador, poeta, repórter, articulador, pintor, e “também” cineasta. Quer dizer, o cinema era um meio de expressão, entre outros. E esse meio lhe servia para dar forma a uma posição determinada diante do mundo. Posição de esquerda, porém fora da esquerda oficial. Libertária do ponto de vista sexual, provocativa em política, conservadora na religião. Ele queria captar o discurso do povo e não fazer um discurso sobre o povo. Seus filmes mostram a disposição de encontrar essa força primitiva que viria dos estratos populares, livre de contaminação da cultura de elite. Forças primais, as forças da saúde – o sexo, a fome, o riso, o prazer em todas as suas formas, mesmo as mais escatológicas.

Pasolini nunca foi uma unanimidade, mas foi, incontestavelmente, um personagem decisivo da cena cultural italiana e não apenas da cinematográfica. Como Glauber Rocha no Brasil, ele foi acima de tudo um agitador. Revolucionou – e talvez tenha convulsionado – a estética e a política. Emerge do neo-realismo do após-guerra e mescla temas sociais a um cristianismo popular muito à sua feição. Ele é um retratista de primeira da periferia romana, como se vê em “Desajuste Social” (1962), e “Mama Roma”. Seu “Evangelho Segundo São Mateus” mostra um Cristo revolucionário e a crítica política em “Gaviões e Passarinhos”. Em “Teorema” é a sexualidade que vem desarranjar a sonolenta estabilidade da família burguesa. Da mesma forma, os filmes míticos como “Medeia” e “Édipo Rei”, seriam buscas de salvação na luta de classe sem-fim.
Enquanto o homem moderno acostumou-se a tratar com desdém a Idade Média, chamando-a de época das trevas, Pasolini lançou a sua trilogia da Vida como “Decameron”, “Os Contos de Canterbury” e “As Mil e Uma Noites” onde haveria alguma esperança no homem. Para ele, a idade da escuridão era esta, a nossa, a do capitalismo e da sociedade de consumo. Essa profecia do caos ele a realizou por completo no filme que acabou como sendo seu testamento, “Saló”, no qual identifica o fascismo com a obra de Sade. Ele fala da cidade de Saló, onde Mussolini fundou a República Social Italiana, sob proteção alemã, em 1943, já no epílogo da sua aventura. O filme é trágico, profético e fundamental.

“Pasolini foi um crítico radical da sociedade de seu tempo”, afirma a professora da Unicamp, Maria Betânia Amoroso no livro Píer Paolo Pasolini (Cosac & Naify). “Ele foi um dos que, por primeiro, souberam enxergar a virada irreversível do mundo”. A estudiosa preferiu tratar, entre as várias facetas de Pasolini, a do “diagnosticador” dos tempos que viriam, ressaltando os dois pontos que ele defendeu ao longo da vida. “O primeiro é que, para ele, o mundo está constituído de forças contrastantes, sem que, todavia, isso signifique o conformismo estéril; e o segundo é que a arte exige conhecimento prévio e técnico, não sendo ato de pura vontade nem dom natural. Quando fez crítica à ideologia, nunca foi cínico”. Ele radicalizou, como poucos pensadores, o discurso anticomunista e antifascista. Teve a intuição do que seria o mundo globalizado e o criticou com veemência. É esse seu maior legado.

Nos seus filmes, Pasolini se deslocava e se distanciava cada vez mais dos centros industriais. Suas criações desse período foram instrumentos de uma batalha desesperada contra a degradação neocapitalista do mundo. Temos, por exemplo, contra o materialismo burguês, o senso metafísico e o irracionalismo religioso em O Evangelho Segundo São Mateus (1964) e em Teorema (1968); contra o racionalismo pragmático, a magia e a força do irracional e do mito em Édipo-Rei (1967), Medéia (1970) e nas Notas por uma Oréstia Africana (1970); contra a ideologia do desenvolvimento e da eficácia tecnológica, o caos e a barbárie em Pocilga (1969). A partir de 1970 ele resolveu lutar contra seu pessimismo e consagrou sua “trilogia da vida” à exaltação da realidade corporal simbolizada no corpo nu e no sexo nos filmes Decameron (1971), Os Contos de Canterbury (1972) e As Mil e uma Noites (1974). O sexo é também o principal protagonista de Saló, ou Os 120 Dias de Sodoma (1975), o último filme de Pasolini. O sexo, não como fonte de prazer, mas como objeto de tortura: é com esta imagem da desrealização fascista do corpo – isto é, justamente do último reduto da realidade – que Pasolini compõe o retrato final do seu mais absoluto desespero.

Talvez o filme mais deliberadamente abusivo produzido por um diretor de primeira linha, Saló mostra perversões sexuais tão cruéis que uma cena comum de amor heterossexual logo é punida com a execução dos amantes. Apesar do realismo apocalíptico ser a tônica da narrativa de Saló, a força ficcional tem inspiração no romance Os 120 Dias de Sodoma, de Marquês de Sade, que faz Pasolini aproximar sadismo e fascismo como práticas correntes do mundo moderno. Ambos, para ele, refletem a economia política e o aviltamento consumista da sexualidade. Pasolini sintetiza sua luta contra o terror – da direita e da esquerda. É o grito contra o poder e sua força de manipulação, contra a violência ao pensamento e à mercantilização do corpo, no sentido do aprisionamento às regras de uma sociedade de consumo. Talvez o filme mais cruel, o grau máximo da ficção cotidiana mais subversiva em seu poder de crítica e desespero que o cinema produziu no século XX. Foi o último delírio de Pasolini.

Pasolini sabia que a sociedade de consumo, cujo poder é planetário, requer indivíduos massificados, dóceis, conformistas, que não perturbem a lógica do consumo. Muitas vezes, poetas e artistas tomados por Dionísio pagam caro seu inconformismo. Rimbaud, Lautreamont, Genet, Dino Campana, Sade, Artaud, Caravaggio, Crevel, Qorpo Santo, Nietzsche, Nerval, Trakl e muitos outros comprovam essa trajetória.

Morte (3)

“A morte tem corpo de modelo, roupa de poesia e o sorriso da sua melhor amiga. Ela usa uma cartola para se divertir, um colar com um ankh como pingente para ter força e carrega um guarda-chuva preto enorme para viajar às ´terras sem sol´. Fico aqui imaginando; qual será o cheiro dela?. Tenho certeza de que é fresco e limpo e de que a risada deve ser tilintante, ou talvez seja calorosa e de menininha, mas, seja lá como for, o negócio é que a Morte ri muito”.

“Falamos sobre o ´milagre do nascimento´, mas e o ´milagre da morte´?. Já entendemos muita coisa sobre a ciência da morte, mas a magia e a inevitabilidade dela são temidas e ignoradas há muito tempo. E se a Morte foi uma pessoa?). Esta Morte simpática e que adora as pessoas, que eu conheci aqui, não é amedrontadora nem distante. Ela está por aqui todos os dias e aproveita as coisas. Ela não está aqui para nos castigar nem para nos matar, mas sim para nos ajudar a descobrir como viver antes de precisarmos partir”. Esses trechos são de Claire Danes, protagonista de “Stardust”, adaptação para o cinema do livro de Neil Gaiman e Charles Vess.
VALOR DA VIDA
A mais popular personagem feminina dos quadrinhos norte-americanos, Morte surgiu em 1989, na edição número oito da revista Sandman, de Neil Gaiman. Nas histórias de Sonho. Os dois fazem parte da família dos Perpétuos, que acompanham a humanidade eternamente. Diferente de tudo o que se esperava, Morte é uma personagem divertida, carinhosa e gentil. Adora as pessoas e se preocupa com elas. E desde quando surgiu, a Morte não saiu mais de cena. De personagem coadjuvante nas histórias do irmão Sandman, Morte passou à estrela de suas próprias minisséries, com histórias ousadas e imprevisíveis.
A família dos perpétuos é composta por sete imortais anteriores à criação do universo. São todos irmãos: Morpheus, Destino, Delírio, Destruição, Desejo, Desespero e Morte. A personagem já foi desenhada por Dave Mckean, Chris Bachalo, Jill Thompson, Mike Dringenberg, entre outros. E se antes a imagem da morte na literatura, poesia, pintura era masculina, cadavérica, com um manto negro e uma foice ceifadora, o mestre dos quadrinhos criou uma personagem oposta da imagem estereotipada por quase todas as culturas. Na sua mensagem ela expressa o valor da vida, o quanto pode ser naturl e simples. Assim é uma forma diferente de entender e aceitar a Morte, como um fenômeno natural.
Sobre o tema Charles Chaplin escreveu um texto diferente de tudo o que se costuma escrever, confira: “A coisa mais injusta sobre a vida é como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo, ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante para poder aproveitar a sua aposentadoria. Aí curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade. Vai para o colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando, e termina tudo num grande orgasmo. Não seria perfeito!”. Perfeitíssimo Chaplin. Genial!

29 outubro 2008

Morte (2)

“Que vamos morrer todos sabemos; o tempo e a sucessão dos dias é que deixam os homens mais aflitos”, disse Bruto na peça Julio César, de William Shakespeare.

CEMITERADA

A Bahia herdou hábitos funerários de tradições portuguesas e africanas. Nessas sociedades, a preparação para a morte envolvia ainda a devoção a santos, deuses e ancestrais e a despedida do morto era feita com virgílias, cânticos, choros convulsivos, além de uma verdadeira festa onde se bebia e comia. Eram funerais pomposos e a realização dos enterros em igrejas também faziam parte da tradição. A população procurava a proteção das irmandades e ordens terceiras na Bahia. Santo Antônio da Barra é para os negociantes, São Jorge para os ferreiros, serralheiros, caldeireiros. São Crispim para os sapateiros e curtidores. Os suntuosos funerais, ou morte barroca, estavam entre as diversões preferidas dos baianos no século XIX

E no dia 25 de outubro de 1836 os baianos foram às ruas para garantir essa tradição de “bem-morrer”. Era a Cemiterada. O movimento rebelou-se contra a entrada em vigor da Lei Provincial número 17, aprovada pela Assembléia Legislativa da Bahia, que autorizou a construção do Cemitério do Campo Santo e concedeu o monopólio dos enterros à iniciativa privada, proibindo sepultamento nas igrejas. O movimento foi vitorioso e os enterros em igrejas e os rituais festivos que os antecediam continuaram por mais 20 anos. Somente nos anos 50 do século XIX, quando um grande surto de febre amarela dizimou boa parte da população, o Cemitério do Campo Santo passou a ser um local aceito pela comunidade para enterrar seus mortos.

Quem desejar se aprofundar mais sobre o assunto vale conferr a leitura da obra do historiador baiano João José Reis, “A morte é uma festa – Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX”.

CAMPO SANTO

Construído em 1836, o Campo Santo (o mais antigo cemitério da Bahia) – que antes tinha como cenário um local triste, sombrio e deprimente – passou em 2007 a atrair a atenção de curiosos e turistas, que ao invés de lágrimas, fixam os olhos nas placas informativas dos mausoléus que, além de resgatar a biografia de figuras da história, explica a simbologia da obra.

O projeto de criação do Círculo Cultural do Campo Grande – um verdadeiro museu a céu aberto – foi realizado pela Santa Casa de Misericórdia e envolvem várias etapas de construção, desde a pesquisa e identificação dos símbolos da arte cemiterial, até a associação da arte dos mausoléus com o desejo particular das famílias das pessoas até sepultadas.

O projeto aborda a simbologia das obras e não apenas resgatar a memória de personalidade. O museu ao ar livre é o primeiro do Brasil a desmistificar a morte explicando a arte cemitério, que utiliza elementos e símbolos para expressar um sentimento particular à sociedade.

Há 48 mausoléus inspirados em estilos clássicos, góticos e românticos, todos localizados em volta da igreja, divididos em sete quadras. No local estão o sepulcro do poeta Castro Alves, do médico Aristides Maltez, do governador Otávio Mangabeira e do comerciante sergipano Mamede Paes Mendonça.

28 outubro 2008

Morte (1)

A cultura ocidental tem dificuldade em reagir diante da morte. Várias culturas construíram sistemas e mitos destinados para ajudar ao ser humano refletir sobre a angústia, tristeza, perda, ruptura e a continuidade. Nos mitos e ritos das mais diversas sociedades, o morto não deixa de existir, ele se transforma. Os homens de Neandertal tinham rituais de sepultamento e práticas que sugerem uma crença na continuidade da vida após a morte. Idéias sobre a existência de espíritos, deuses e deusas, e seres ativos e forças do além do alcance da percepção humana direta têm também uma longa história.

Para os romanos, a morte é a porta da vida. O deus da morte, Thanatos extirpa as forças negativas e liberta as energias espirituais. Sua mãe, Nix (a morte) e seu irmão Hypnos (o sono) tem o poder de regenerar. Os estóicos, sobretudo nos textos de Sêneca, recomendavam a seus seguidores concentrar-se em atitudes suscetíveis de produzir grande satisfação individual. Sua filosofia não se baseava em nenhuma dimensão transcendental após a morte do indivíduo. A partir do século 13 as pessoas esperavam uma vida eterna após a morte, vida na qual seriam recompensadas ou punidas pelas ações praticadas durante sua existência terrena.

“O ser humano sempre teve medo de morrer. A morte é o grande motor da vida, porque tudo que o ser humano fez desde o princípio dos tempos, fez contra a morte e porque iria morrer. Em outras épocas, isso sim, havia consolos mais eficientes contra a morte. Por exemplo, as crianças religiosas podem ser um grande consolo. Mas a fé cega tem grandes custos, e eu, que sou agnóstica, me orgulho de não agarrar-me a fé somente por medo de morrer. Em todo caso, neste mundo cada vez mais individualizado, mais atomizado e mais laico, o indivíduo estacada vez mais sozinho diante da própria morte”. A opinião é da escritora espanhola Rosa Montero, autora de obras como “A filha do canibal”, “História do ser transparente” w A louca da casa”.
A religião e a crença na vida eterna ainda representaria uma possibilidade legítima nos séculos seguintes. Mais tarde, Nietzsche formulou o conceito de “morte em vida”, ou seja, morte como parte da vida humana, em lugar de uma passagem para a vida eterna na qual filósofos e intelectuais deixaram de acreditar no fim do século 19. Freud, Heidegger entre outros desenvolveram uma filosofia existencial da morte.

“A morte é um despertador que quer nos acordar para o significado da vida a todo momento”. A opinião é da psicóloga Bel César, autora de cinco livros sobre budismo. Ela acompanha pacientes terminais utilizando fundamentos filosóficos do budismo tibetano.

Se a vida é mudança, impermanência e que todos os seres são perecíveis, há dois modos de passar o luto de uma pessoa amada. As recomendações do budismo é não se apegar, porque estar apegado é estar ligado, não livre ou seja, privado da liberdade. Se quisermos nos libertar dos laços que o amor tece, precisamos exercitar a sabedoria do não apego.

Totalmente inversa é a das grandes religiões que professa a ressurreição dos corpos. Praticando o amor em Deus teremos a felicidade de reencontrá-los. Assim o apego não é proibido. Essas duas doutrinas da salvação, quase opostos, tratam da morte dos seres queridos. Para muitos filósofos o melhor a fazer é pensar no assunto o menos possível mas estar sempre preparado para tal catástrofe.