16 agosto 2007

A palavra tem poder

No início era o verbo. E o verbo ainda hoje cria o universo humano. Assim, a palavra tem poder. Pode condenar, salvar, iluminar; pode fazer adoecer, curar e dar esperança; fazer alguém feliz ou triste. Quem fala sem pensar, age sem pensar. Saber calar é sabedoria, além de ser obtida com muita disciplina. O pensador ocidental Wittgenstein (1889/1951), numa visão empirista e científica, escreveu sobre a palavra: “Os limites de meu mundo são os limites de minha linguagem”. Assim, somente o que é nominável, ou seja, o que pode ser traduzido em palavras ou pensado, existe. Usamos palavras o tempo todo e raramente pensamos no que dizemos e como falamos. É preciso prestar mais atenção na escolha das palavras.

A linguagem dirige nossos pensamentos para direções específicas e, de alguma forma, ela nos ajuda a criar a nossa realidade, potencializando ou limitando as nossas possibilidades. A habilidade de usar a linguagem com precisão é essencial para uma boa comunicação. Quem tiver algo a dizer, que diga agora. Ou se cale para sempre. Assim começa um grande amor aos pés do altar. Escolhida para casar, a palavra foi, de pronto, inviolada, inaugurando uma nova união. De agora em diante, tudo dependerá da força da palavra.

A palavra mal colocada, mal dita, irresponsável, prolixa, incompreendida, ruído na comunicação. Pode até ser inaudível, silenciosa como a linguagem dos sinais. Só não pode ser leviana, traiçoeira, que engana. Na medida certa de fazer o bem sem olhar a quem a palavra pode acolher, amparar, ajudar a crescer. Da ética e da moral, a palavra tem que ser, sempre, natural. Ter argumento, consistente. Não pode ser instrumento que sai da boca dos incautos, egoístas, vaidoso, demagogos e mentirosos. Dos que prometem e não cumprem, dos eternos omissos e submissos. Que trocam, por interesses, seus compromissos.

Somos feitos de palavras. Palavra é poesia, música, harmonia. Palavra é uma invenção humana a fim de se perpetuar, já que os seres humanos passarão e as palavras passarinho (lembrando o poeta Mário Quintana: "Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão...eu passarinho!”). A palavra nasce, cresce, se desenvolve, cria asas e voa. Está em todos os sonhos e sentimentos, em toda nossa vida. O que seríamos sem a palavra? Um oceano de silêncio, de gestos intraduzíveis, um nada perdido numa escuridão em busca de sons que pudessem nos traduzir, de letras que pudessem nos desenhar.

A palavra nos distingue dos animais, dando-nos o meio ideal de expressão, forma que nos faz criar, descobrir, viver num mundo de sons criado para exaltar nossa diferença. O eco da palavra nos acompanha vida afora. Cada som, sílaba, letra é uma vibração que ao falar estamos voltando no ar. As ondas repercutem nos campos sutis das pessoas que as ouvem, e repercutem em todo o universo, pois tudo está interligado. Todo pensamento é palavra, pois aprendemos a pensar assim. E tudo pensamento é energia, da mesma matéria prima que nosso corpo, animais, planta, e tudo o que existe incluindo os minerais, vento, luz, etc.

Cada palavra expressada tem efeito em nossas vidas e esta influência poderá ser a nosso favor ou contra nós, conforme a idéia nela expressa. “Escrever – disse o escritor argentino Julio Cortazar – é uma luta contínua com a palavra. Um combate que tem algo de aliança secreta”. A palavra, como escrevi no início, tem poder. O pensamento correto leva a palavra e à ação corretas. Tudo o que somos hoje é resultado do que pensamos. Segundo um antigo provérbio tibetano, “as palavras não têm, nem pontas, nem corte, mas podem ferir o coração de um homem”.

15 agosto 2007

Kitsch: o eterno sucesso da imitação artística (2)

Uma preocupação kitsch levou intelectuais do mundo inteiro a colecionarem apaixonadamente histórias em quadrinhos antigas, velhos cartazes de 1900, notícias estranhas de jornais, revistas que tiveram vida curta ou livros considerados de mau gosto. Essa preocupação encontrou correspondente na pop art, uma reunião de elementos do ambiente, das latas de conserva, dos lugares-comuns dos quadrinhos, do cinema e da foto. Tudo criticando e parodiando a sociedade moderna.

Em geral, os objetos kitsch são pintados com cores complementares puras, passando do vermelho ao rosa, azul bem forte; ainda, são, na maioria, feitos para imitar algo original e natural como o mármore, zinco, cobre, ouro, prata etc. O crítico italiano Umberto Eco, em seu livro Apocalípticos e Integrados, diz que “o kitsch não nasce em conseqüência da elevação da cultura de elite sobre níveis sempre mais impenetráveis. O processo é totalmente inverso”. Assim, a indústria de cultura de consumo, ao difundir-se, entra em choque com a arte produzida pela elite. Os romances populares satisfazem as exigências de evasão e de pretensa elevação do nível cultural do público. A fotografia absorve as funções mais imediatamente práticas da pintura. Nascem, então, uma nova literatura der elite e uma nova pintura.

CONCESSÕES –Uma obra kitsch faz todas as concessões sempre diluindo os estilos para conseguir uma média entre os gostos e dar para o consumidor/espectador exatamente o que ele queria: apelo melodramático, erotismo fácil, cadeia para bandidos, final feliz. No último capítulo de “n” novelas, a moça rica de família perversa casa mesmo com o seu pobretão encantado – as novelas mexicanas do SBT podem comprovar; o amor impossível da fotonovela termina com aquele beijão manjado na base de olhos fechados; o bichinho perdido volta afinal para casa, e isso até nas versões mais científicas.

Também na música, o kitsch anda rondando o romantismo incorrigível, os corações partidos, as rimas de amor com flor, com dor... e, é claro, os arqueológicos tamancos de Carmem Miranda, os macacões (de vestir) do galã Ângelo Máximo, o guarda roupa supersexy da cantora Gretchen, o estilo picante das musiquinhas de duplo sentido, o cabelão de Perla, onde a coisa já se confunde com a cafonice, que é uma espécie de kitsch mais autêntico, menos produzido.

FENÔMENO – O kitsch não é apenas um fenômeno cultural, é também, ao mesmo tempo, um fenômeno na área do consumo. Quase sempre, volta-se para um mercado que está ali à espera, aberto e receptivo. Para o crítico Décio Pignatari, “mais do que típico, o kitsch é um fenômeno protótipo do consumo”. A maioria dos monumentos público (um bom exemplo é a homenagem póstuma a Clériston Andrade em forma de “C” na Avenida Garibaldi), os santos e santinhos das igrejas do século passado (e deste) podem ser enquadrados como kitsch. Por analogia, o rótulo se estendeu a outras faixas: literatura, música, arquitetura, teatro, dança, desenho industrial, imprensa, rádio, cinema e televisão.

A literatura kitsch atingiu seu apogeu por volta de 1900. Arte de classe média fala de nobres heróis, loiras que desmaiam. Noivas virgens, mães abnegadas, velhos barbudos. A heroína, namorada de um príncipe ou de um tenente, mora numa casinha branca sob perfumados pinheiros, à beira d mar. Uma literatura que se estrutura em estereótipos e que visa à classe que vive num insípido conforto. Na música, temos alguns exemplos de kitsch musical: música exótica (La Paloma), romântica (Olhos Negros), erótica (vozes açucaradas e canções de duplo sentido); Kitsch-kitsch: adaptação de um tema de Mozart para uma orquestra de swing. No cinema, filmes como Os Dez Mandamentos, de Cecil B.De Mille (1965), e Atlântica, de Jean Vigo (1930) representam bem o kitsch. Na imprensa, o kitsch aparece diariamente com as notícias do tipo “noivinha rifou sua virgindade” ou “saiu do túmulo para devolver a saia emprestada”.

FORMA – É importante salientar a trapaça do kitsch está sempre na forma, nunca no conteúdo. As formas clássicas, românticas, impressionistas e até modernistas são hoje aceitas como indiscutivelmente belas e verdadeiras, mas o kitsch utiliza apenas essas experiências. Não aprofunda nenhuma experiência estética; se atém às formas consagradas. Por isso é o maior inimigo da vanguarda.

Os artistas kitsch são muito populares, até porque é disso que sobrevivem; são uma fantasia explícita, entre eles e o público há um apelo escancarado, identificação direta. Cauby Peixoto é desses românticos incorrigíveis, canta sempre do mesmo jeito, delirante, piscando o seu olhar distante e desesperado, faz gestos incríveis e adora sapato bicolor. Elke Maravilha diz que assumiu o kitsch. Que todos somos. E aponta exemplos interessantes: diz que o verde e amarelo – “tanto quanto o verde e rosa” – é uma combinação muito kitsch; Cauby e Ângela Mária são kitsch e são divinos. Cita ainda Perla, Hebe Camargo, Tarcísio Meira, Elvis Presley, Corinthians e cuba libre. Outro kitsch inconfundível: o cineasta José Mojica Marins, que se confunde com o seu mais famoso personagem – o agente funerário Zé do Caixão.

14 agosto 2007

Kitsch: o eterno sucesso da imitação artística (1)

Entra ano, sai ano, e Cauby Peixoto, Elke Maravilha, Elvis Presley e outras respeitáveis figuras jamais saem de moda. Pelo contrário, estão sempre na moda. Só o kitsch explica. Kitsch é uma palavra que resolve problemas, qualifica objetos, pessoas ou situações. Antes de tudo, o kitsch é uma espécie de mentira artística, um equívoco. Feito com a intenção de ser arte, mas não é. É uma corruptela de “verkitschen” (verbo do dialeto austro-bávaro para vender por preço mais baixo”), que se tornou adjetivo usado em todo o mundo para indicar o que tem gosto discutível, apelo fácil, peca por ser pretensioso ou exagerado, não é autêntico, não é adequado...mas que agrada à maioria das pessoas, para desespero dos críticos.

O termo kitsch é muito relativo e subjetivo na sua definição. Trata-se de um termo muito expressivo, mas de difícil tradução; por isso, é universalmente empregado no idioma original. Assim, para alguns, kitsch é o produto caracterizado pelo mau gosto; para outros é sinônimo de vulgar; para outros ainda é artesanato seriado, é pseudo-arte, anti-arte ou ainda pode ser considerada como signo de industrialização, podendo ser confundido com o próprio folclore urbano das sociedades industrializadas.

MISCELÂNIA – Os meios de comunicação de massa vieram suprir a lacuna que antes era preenchida pela arte; o produto dessa “cultura” era uma miscelânia onde o kitsch foi encontrar o seu meio propício. Os artistas, ao invés de reagirem e de encontrarem nova forma de comunicação para um público maior, fecharam-se num processo de individualismo e introspecção, enclausularam-se em seus mundos, distanciando-se das massas, por terem achado que estas gostavam de se enganar com os estereótipos que a nova sociedade lhe ofereciam. Ao fazerem isso, os artistas se constituíram numa casta – por vezes chamada vanguarda -, que produzia para uma elite privilegiada, quer pelos dotes intelectuais, quer pelos econômicos.

Esses meios de comunicação de massa voltaram-se para um público heterogêneo e desprovido de cultura; para atingi-lo, adotaram uma média de gosto e, ao se utilizarem dela, destruíram as características distintas de vários grupos, criando, em conseqüência, um tipo único a que integrava a massa. Esta, por sua vez, não tinha consciência de si como grupo seguro e caracterizado, tornando-se alvo fácil de mistificação tanto política como artística.

EXAGERADO – O objeto kitsch é feito com intenção de ser arte, mas não é. A pop art, a literatura popular e a pornografia não são kitsch, mas estão intimamente ligadas a ele. O kitsch ultrapassa todos os gêneros, não se prende a nenhum deles a não ser ao princípio do exagero. Por isso, chega facilmente ao bizarro. Pra Abraham Moles (1920/1992), o kitsch constitui um estado de espírito, eventualmente cristalizado em objetos. É o oposto da simplicidade, o inverso da sobriedade, o avesso da austeridade. Tudo no objeto kitsch remete aos sentidos, à profusão. Não há espaço para mesquinharia no kitsch. Ele é multicolorido, repleto de reentrâncias, de informações visuais.

O abajur de fuxico (retalhos coloridos, costurados à mão), a almofada transparente de plástico, repleta de plumas lilás, as velas de gel com duas serpentes enlaçadas, o puf forrado de pelúcia em forma de dado, a luminária espetada por tubo de plástico... Um mundo de cores e formas a explorar. “O kitsch é a arte da felicidade”, sentencia Abraham Moles. “O kitsch tem humor”, emenda Sig Bergamin. O arquiteto e decorador distingue o kitsch do cafona. Para ele a diferença está na brincadeira. “O Pós-Modernismo revigorou o kitsch”, afirma a professora da Escola de Comunicação e Artes da USP, Ana Mãe Barbosa.

Há, na nossa época, uma obsessão pelos objetos e uma veneração pelo autêntico, pelo que é velho, pelo tradicional. Essa característica é uma decorrência das mudanças bruscas que ocorrem em nossos dias, de movimento e velocidade das transformações técnico-científicas que distanciam do que antes era o natural – que, hoje, substituído pelo artificial. No afã de se produzir, criam-se objetos na sua maioria inúteis.

13 agosto 2007

Cultura do aperitivo ou entretenimento em pílulas

Através dos iponds, blogs, youtubes (vídeos de dez minutos no máximo), sites de downloads de arquivos (filmes, fotos, textos) ilegais ou legais surgiu uma nova tendência na sociedade contemporânea: o entretenimento de consumo rápido. O assunto começou a ser discutido quando a revista americana Wired (espécie de bíblia de novas tendências), na edição de março deste ano, cunhou a expressão Snack Culture. Ela chama a atenção para o entretenimento de consumo rápido ter virado uma febre – música, televisão, games, filmes, moda ganham tamanho reduzido para consumo instantâneo (como se fossem petiscos), dando uma nova face à cultura pop.

Esse fenômeno já havia sido sinalizado nos anos 80 pelo sociólogo francês Gilles Lipovetsky (autor de A Era do Vazio e O Império do Efêmero) que observou a fugacidade das manifestações culturais, sua relação com a sociedade de consumo e as diversas transformações que esse processo tem provocado. Um bom exemplo disso é que o game Guitar Hero (espécie de karaokê de guitarristas), inspirou a recente formação de uma banda com o mesmo nome, em São Francisco (EUA). Trata-se da versão da realidade imitando o mundo virtual, ou seja, o grupo de amigos, no lugar de guitarras e baixos normais, usa como instrumentos os controles do software que dá corpo às notas tocadas nos instrumentos, mas o vocalista e a bateria são de verdade.

Para muitos, esse entretenimento instantâneo ter virado febre está relacionada como a lógica da sociedade de consumo onde os produtos culturais são feitos para serem rapidamente consumidos a fim de que novos sejam produzidos e introduzidos no mercado. E com todo acelerado desenvolvimento tecnológico, esses produtos culturais são disponibilizados. Apesar do formato ser superficial, por outro lado ele possibilita uma série de trocas (interatividade) e um dinamismo nas rodas de discussões. Todo esse sucesso do entretenimento em pílulas é conseqüência da dificuldade de concentração e atenção das novas gerações. Eles estão sempre pulando do e-mail para as conversas no MSN Messenger, seguidas de atenção rápida no celular que toca com mensagem cifrada....E o mercado de trabalho quer um profissional de conhecimentos múltiplos, o faz tudo. Neste mundo da atenção parcial, a cultura do aperitivo encontra um território perfeito. E neste mundo novo, menos é mais, superficialmente. Verdadeiro mosaico de informações.

O jornalista, apresentador e diretor de TV Marcelo Tas diz acreditar que a instantaneidade causada pela revolução digital tem efeitos mais amplos. “A febre não atinge só o entretenimento, mas a informação, a comunicação e até a vida afetiva”. Assim, a snack culture funciona como “um índice para o internauta decidir onde vai gastar seu tempo”. Com o desenvolvimento tecnológico que estamos atravessando, mais e mais produtos culturais instantâneos serão lançados porque estes são subprodutos que aumentam o leque de oferta de um determinado produto. O novo cd de Vanessa da Mata por exemplo foi disponibilizado no mercado na versão longa (com todas as faixas) e na curta (só com sucesso).

E já existe grande possibilidade de fazer negócio com esse entretenimento instantâneo. Steve Ellis, o fundador do programa de licenciamento on-line de música independente Pump Áudio (www.pumpaudio.com), pagou só em 2006, trechos de músicas para programas de TV, filmes, sites e jogos de videogame, US$ 125 mil (cerca de R$241 mil) a artistas independentes por suas obras. Desde 2001 que ele está nos negócios. A radio Sass (www.radiosass.com) toca 30 músicas em uma hora (enquanto uma rádio tradicional levaria mais de 12 para tocar). O motivo: as faixas são picotadas, e os intervalos não chegam a um minuto e meio. Na rádio on-line, idealizada pelo DJ George Gimarc, as versões enxutas das músicas, toca muito mais vezes do que as de outras estações, servindo de aperitivos instantâneos para consumo. “A gente vive em uma época em que a velocidade é supervalorizada. Buscamos uma internet mais veloz, dirigimos mais rápido, comemos fast-food. Queremos mais estímulos do que antes”.

Essa cultura do aperitivo (snack culture) se espalhou graças a internet, e o entretenimento instantâneo vem tomando forma com a proliferação de pequenas doses de diversão que incluem snack tones (músicas de dez a 30 segundo compostas para tocar em celular), minigibis (disponíveis para download), filmes de ginástica com menos de dois minutos (para serem assistidos pelo iPond na academia), versões reduzidas de clássicos como Pulp Fiction (Quentin Tarantino), Elefante (Gus Van Sant), O Verão de Sam (Spike Lee), Scarface (Brian De Palma), entre outros, além de galeria de arte visual, séries de TV e jogos.








10 agosto 2007

Cinco fases de Gilberto Gil -1967/1987 (5)

A atualidade do trabalho de Gilberto Gil evidencia-se na forma com a qual ele tem existido dentro da cultura brasileira. Na mistura de tempos, estilos e diversificações, ou seja, uma expressão musical e poética em constante movimento, instigante e inovador ao longo dos anos. Na quinta fase, Gil aperfeiçoa seu canto, ampliando também seu recado. Assim é Gil, capaz de absorver todas as influências. O ano de 1983 ele lança “Extra”, com muito balanço. No ano seguinte, “Raça Humana” traz “Tempo Rei”, uma daquelas canções de Gil que parecem tiradas de alguma fonte do folclore, e que falam da existência humana com a beleza poética eu ele alcança quando se investe de guru.

“A raça humana é/uma semana/do trabalho de Deus//A raça humana é a ferida acesa/uma beleza, uma podridão/o fogo eterno e a morte/a morte e a ressurreição//A raça humana é/uma semana/do trabalho de Deus//A raça humana é o cristal de lágrima/da lavra da solidão/da mina, cujo mapa/traz na palma da mão//A raça humana é/uma semana/do trabalho de Deus//A raça humana risca, rabisca, pinta/a tinta, a lápis, carvão ou giz/o rosto da saudade/que traz do Gênesis/dessa semana santa/entre parênteses/desse divino oásis/da grande apoteose/da perfeição divina/na Grande Síntese//A raça humana é/uma semana/do trabalho de Deus” (Raça Humana)

O álbum “Raça Humana” revela um Gil preocupado com os mistérios da vida e com as lutas sociais e étnicas, temas presentes em outras fases de sua carreira. Dois momentos desse disco são “Vamos Fugir” e a “Raça Humana”.Em 1985 sai o álbum “Dia Dorim Noite Neon”, nele Gil canta um reggae dele e Liminha, “Barracos”. Os versos de Gil revelam uma escancarada crítica ao sistema. Tem também o afoxé “Touches Pás à Mon Pote”, letra em francês inspirada no slogan de uma campanha contra a discriminação racial. A preocupação com a paz racial no mundo retorna em “Oração pela Libertação da África do Sul”, um reggae em estado puro.

“Se o rei Zulu já não pode andar nu/se o rei Zulu já não pode andar nu/salve a batina do bispo Tutu/salve a batina do bispo Tutu//Ó, Deus do céu da África do Sul/do céu azul da África do Sul/tornai vermelho todo sangue azul/tornai vermelho todo sangue azul//Já que vermelho tem sido todo sangue derramado/todo corpo, todo irmão chicoteado – iô/senhor da selva africana, irmã da selva americana/nossa selva brasileira de Tupã//Senhor, irmão de Tupã, fazei/com que o chicote seja por fim pendurado/revogai da intolerância a lei/devolvei o chão a quem no chão foi criado//Ó, Cristo Rei, branco de Oxalufã/Ó, Cristo Rei, branco de Oxalufã/zelai por nossa negra flor pagã/zelai por nossa negra flor pagã//Sabei que o papa já pediu perdão/sabei que o papa já pediu perdão/varrei do mapa toda escravidão/varrei do mapa toda escravidão” (Oração pela Libertação da África do Sul)

Em 1987 saiu Gil em Concerto, onde o artista volta a mostrar sua simplicidade no cantar, “Eu Vim da Bahia”, fechando mais um ciclo, além da força dos “Filhos de Gandhi”.

“Eu vim/eu vim da Bahia cantar/eu vim da Bahia contar/tanta coisa bonita que tem/na Bahia, que é meu lugar/tem meu chão, tem meu céu, tem meu mar/a Bahia que vive pra dizer/como é que se faz pra viver/onde a gente não tem pra comer/mas de fome não morre/porque na Bahia tem mãe Iemanjá/de outro lado o Senhor do Bonfim/que ajuda o baiano a viver/pra cantar, pra sambar pra valer/pra morrer de alegria/na festa de rua, no samba de roda/na noite de lua, no canto do mar/eu vim da Bahia/mas eu volto pra lá/eu vim da Bahia” (Eu Vim da Bahia)

As diferentes fases da carreira de Gil expressam as experiências mais típicas de sua geração. A pluralidade, a diversidade, a receptividade, a flexibilidade e o colorido de cada momento caracterizam essa trajetória artística. Nesses anos de estrada, Gil tornou-se não apenas um músico brilhante, mas um compositor capaz de inspirar-se em praticamente todos os estilos de música brasileira, muitas vezes estabelecendo cruzamentos originais entre esses estilos e os ritmos africanos ou o rock. Sua música é sempre moderna e, embora sintonizada com os ritmos internacionais, jamais perde um agudo senso de brasilidade que é uma de suas características mais marcantes.

Vinte anos, sem dúvida, é muito pouco para esgotar a inspiração de um artista como Gilberto Gil. Sua arte meditativa e esfuziante, brasileira e internacional, negra e multirracional, pura e comprometida, é hoje, sem intenções, sem cálculo, tão política quanto metafísica, e, portanto, arte no mais alto sentido. Para encerrar o depoimento do cantor e compositor Arnaldo Antunes: “Gil é o receptivo. Luz onde as sombras se assentam, e que lhes dá contorno. Clareza que abraça o mistério sem temor. O maleável. `Transcorrendo, transformando, tempo e espaço navegando todos os sentidos´. A natureza, o princípio feminino (´a porção melhor que trago em mim agora´), o que recebe. É assim que as palavras se articulam nos encadeamentos rítmicos, melódicos, semânticos de suas canções”.

09 agosto 2007

Cinco fases de Gilberto Gil -1967/1987 (4)

A quarta fase do artista utilizando os recursos tecnológicos. Nesses 20 anos de estrada, tornou-se não apenas um músico brilhante, mas um compositor capaz de inspirar-se em praticamente todos os estilos de música brasileira, muitas vezes estabelecendo cruzamentos originais entre esses estilos e os ritmos africanos ou o rock. Sua música é sempre moderna e, embora sintonizada com os ritmos internacionais, jamais perde um agudo senso de brasilidade que é uma de suas características mais marcantes. A quarta fase de Gil começa com “Realce”, em 1979, utilizando plenamente os recursos tecnológicos. Em 1980 Gil faz uma excursão ao lado de Jimmy Cliff onde o sucesso era a canção “Não Chores Mais”, adaptação do reggae “No, Woman, no Cry”, do jamaicano Bob Marley. Ainda em 1980 ele lança “Luar”. Essa é a fase tecnológica de Gil, com os elementos brasileiros característicos trazidos para a linguagem da moderna eletrônica. Tanto “Se eu Quiser falar com Deus” (meditativo) quanto “A Gente Precisa ver o Luar” (expansivo) estão no disco Luar. É de 1982 o disco Um Banda Um, onde o artista mostra suas duas faces, alegre e triste. É a face triste, filosófica nas canções “Drão” e “Esotérico”. “Drão! É uma canção sobre a compaixão:

“Drão/o amor da gente é como um grão/uma semente de ilusão/tem que morrer pra germinar/plantar nalgum lugar/ressuscitar no chão/nossa semeadura/quem poderá fazer/aquele amor morrer!/nossa caminhadura/dura caminhada/pela estrada escura//Drão/não pense na separação/não despedace o coração/o verdadeiro amor é vão/estende-se, infinito/imenso monólito/nossa arquitetura/quem poderá fazer/aquele amor morrer!/nossa caminha dura/cama de tatame/pela vida afora//Drão/os meninos são todos sãos/os pecados são todos meus/Deus sabe a minha confissão/não há o que perdoar/por isso mesmo é que há/de haver mais compaixão/quem poderá fazer/aquele amor morrer/se o amor é como um grão!/Morrenasce, trigo/Vivemorre, pão” (Drão)

As diferentes fases da carreira de Gilberto Gil expressam as experiências mais típicas de sua geração. A pluralidade, a diversificação, a receptividade, a flexibilidade e o colorido de cada movimento caracterizam essa trajetória artística. Depois do lado triste, o lado alegre com “Banda Um” e “Andar com Fé”.

“BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-iê/Iê-iê-iê-iê/BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-ô(Iô-iô-iô-iô)//Banda Um que toca um balanço parecendo polka/UmBandaUmBandaUm/Banda Um que toca um balanço parecendo rumba/UmBandaUmBandaUm//Banda Um que é África, que é Báltica, que é Céltica/UmBanda América do Sul/Banda Um que evoca um bailado de todo planeta/UmBandaUm, Banda Um//BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-iê (bis)//Banda pra tocar por aí/No Zanzibar/Pro negro zanzibárbaro dançar/Pra agitar o Baixo Leblon/O Cariri/Pra loura blumenáutica dançar/(Hum...) Banda Um, Banda Um//BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-iê (bis)//Banda Um que soa um barato pra qualquer pessoa/UmBanda pessoa afins/Banda Um que voa, uma asa delta sobre o mundo/UmBanda sobre patins//Banda Um surfística nas ondas da manhã nascente/UmBanda, banda feliz/Banda Um que ecoa uma cachoeira desabando/UmBandaUm, bandas mis//BandaUmBandaUmBandaUmBanda ô-iê/Iê-iê-iê-iê/BandaUmBandaUmBandaUmBanda - ô-ô(Iô-iô-iô-iô) (Um Banda Um)

Gil é um homem que acredita que um dia a felicidade vai vencer. Felicidade é uma coisa interior, de conhecer sempre, ainda que no escuro, o caminho de casa. Isso que ele chama de felicidade. É nesse caminho as canções “Metáfora” e “Deixar Você”. “Metáfora” fala da sensorialidade, o que é percebido pelos sentidos e o que escapa a eles.

“Uma lata existe para conter algo/mas quando o poeta diz: "Lata"/pode estar querendo dizer o incontível//Uma meta existe para ser um alvo/mas quando o poeta diz: "Meta"/pode estar querendo dizer o inatingível//Por isso, não se meta a exigir do poeta/que determine o conteúdo em sua lata/na lata do poeta tudonada cabe/pois ao poeta cabe fazer/com que na lata venha caber/o incabível//Deixe a meta do poeta, não discuta/deixe a sua meta fora da disputa/meta dentro e fora, lata absoluta/deixe-a simplesmente metáfora” (Metáfora)

08 agosto 2007

Cinco fases de Gilberto Gil -1967/1987 (3)

A terceira fase do artista é o período de afirmação do movimento tropicalista coincide com um dos momentos mais conturbados da história política brasileira. Em dezembro de 1968, o Ato Institucional Número Cinco põe o Congresso em recesso e decreta outras medidas de exceção. Setores da esquerda desencadeiam ações armadas. O cerceamento das liberdades atinge também o campo artístico. A rebeldia tropicalista é fortemente golpeada com a prisão de Gil e Caetano. Depois de três meses de cárcere no Rio de Janeiro, os dois são confinados em Salvador, de onde saem, para o exílio em Londres. É nesse período que está a terceira fase, a posterior ao exílio, em que Gil faz a reavaliação dos seus caminhos até a descoberta da negritude.

Todos esses acontecimentos de golpe, prisão, despertam em Gil uma for postura mística, que se materializa no recurso radical à alimentação macrobiótica e num culto sincrético a Cristo, Xangô e Krishna. Em 1969, Gil e Caetano se vêem forçados a abandonar o Brasil, indo morar em Londres. Antes de sair, Gil lança um dos seus maiores sucessos na época, “Aquele Abraço”, a música despedida, um hino vital de amor ao Rio e à vida, um samba de partido alto. Gil se despediu com este agitado samba de partido alto, no qual afirma que “meu caminho pelo mundo, eu mesmo traço” e, ainda, “quem sabe de mim sou eu”, Aquele Abraço serve para mostrar também, que, se quisesse, Gil seria um excelente sambista.

“O Rio de Janeiro continua lindo/o Rio de Janeiro continua sendo/o Rio de Janeiro, fevereiro e março//Alô, alô, Realengo - aquele abraço!/alô, torcida do Flamengo - aquele abraço!/Chacrinha continua balançando a pança/e buzinando a moça e comandando a massa/e continua dando as ordens no terreiro//Alô, alô, seu Chacrinha - velho guerreiro/alô, alô, Terezinha, Rio de Janeiro/alô, alô, seu Chacrinha - velho palhaço/alô, alô, Terezinha - aquele abraço!//Alô, moça da favela - aquele abraço!/todo mundo da Portela - aquele abraço!/todo mês de fevereiro - aquele passo!/alô, Banda de Ipanema - aquele abraço!//Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço/a Bahia já me deu régua e compasso/quem sabe de mim sou eu - aquele abraço!/pra você que meu esqueceu - aquele abraço!//Alô, Rio de Janeiro - aquele abraço!/Todo o povo brasileiro - aquele abraço!” (Aquele Abraço)

De volta ao Brasil, em 1972, Gil grava o disco “Expresso 2222”, grande sucesso de público. “Expresso 222” é uma composição que reflete seu aprendizado londrino. Mostra um Gil conseguindo imprimir à poesia um ritmo interior que é valorizado por sua interpretação vocal, onde se percebe a influência da técnica de cantores ingleses e americanos. Gil narrou sua viagem num trem muito especial que “parte direto de Bonsucesso para depois”, sobre um trilho, “que é feito um brilho”, confirmando sua maestria em buscar a comparação nova, a imagem inesquecível. Foi com “Expresso 2222” que Gil promoveu uma revolução na maneira de usar o instrumento – revolução tão importante quanto a promovida por João Gilberto no início da Bossa Nova.

“Começou a circular o Expresso 2222/que parte direto de Bonsucesso pra depois/começou a circular o Expresso 2222/da Central do Brasil/que parte direto de Bonsucesso/pra depois do ano 2000//Dizem que tem muita gente de agora/se adiantando, partindo pra lá/pra 2001 e 2 e tempo afora/até onde essa estrada do tempo vai dar/do tempo vai dar/do tempo vai dar, menina, do tempo vai//Segundo quem já andou no Expresso/lá pelo ano 2000 fica a tal/estação final do percurso-vida/na terra-mãe concebida/de vento, de fogo, de água e sal/de água e sal/de água e sal/ô, menina, de água e sal//Dizem que parece o bonde do morro/do Corcovado daqui/só que não se pega e entra e senta e anda/o trilho é feito um brilho que não tem fim/oi, que não tem fim/que não tem fim/ô, menina, que não tem fim//Nunca se chega no Cristo concreto/de matéria ou qualquer coisa real/depois de 2001 e 2 e tempo afora/o Cristo é como quem foi visto subindo ao céu/subindo ao céu/num véu de nuvem brilhante subindo ao céu” (Expresso 2222)

Depois de gravar o antológico disco em parceria com Jorge Bem, Gil lança em 1975, “Refazenda”, o primeiro da trilogia “re”, com um som basicamente acústico. Refazenda assinala tranqüila maturidade. É a busca do equilíbrio, do auto-conhecimento, a volta ecológica à natureza (sair da vanguarda para a retaguarda, se recolher às raízes), impregnada pela serenidade zen. Sua grande viagem ao ego interior surge de forma explícita na canção “Retiros Espirituais”.

“Nos meus retiros espirituais/descubro certas coisas tão normais/como estar defronte de uma coisa e ficar/horas a fio com ela/Bárbara, bela, tela de TV/você há de achar gozado/Barbarela dita assim dessa maneira/brincadeira sem nexo/que gente maluca gosta de fazer//Eu diria mais, tudo não passa/dos espirituais sinais iniciais desta canção/retirar tudo o que eu disse/reticenciar que eu juro/censurar ninguém se atreve/é tão bom sonhar contigo, ó/luar tão cândido//Nos meus retiros espirituais/descubro certas coisas anormais/como alguns instantes vacilantes e só/só com você e comigo/pouco faltando, devendo chegar/um momento novo/vento devastando como um sonho/sobre a destruição de tudo/que gente maluca gosta de sonhar//Eu diria, sonhar com você jaz/nos espirituais sinais iniciais desta canção/retirar tudo que eu disse/reticenciar que eu juro/censurar ninguém se atreve/é tão bom sonhar contigo, ó/luar tão cândido//Nos meus retiros espirituais/descubro certas coisas tão banais/como ter problemas ser o mesmo que não/resolver tê-los é ter/resolver ignorá-los é ter/você há de achar gozado/ter que resolver de ambos os lados/de minha equação/que gente maluca tem que resolver/eu diria, o problema se reduz/aos espirituais sinais iniciais desta canção/retirar tudo que eu disse/reticenciar que eu juro/censurar ninguém se atreve/é tão bom sonhar contigo, ó/luar tão cândido” (Retiros espirituais)

Ao mesmo tempo Gil começa a cutucar um tema tabu. Em “Pai e Mãe”, as figuras masculina e feminina começavam a perder a nitidez de seus contornos tradicionais. Detrás da rústica simplicidade e da densa poesia, Gil continua seu jogo sutil com incógnitas, ambigüidades e surpresas. Ainda no disco “Refazenda”, um trabalho de Gil em parceria com o acordeonista Dominguinhos, “Lamento Sertanejo”. Nesse trabalho, Gil mostra que é possível fazer música essencialmente brasileira com as mais variadas técnicas.

“Por ser de lá/do sertão, lá do cerrado/lá do interior do mato/da caatinga do roçado./eu quase não saio/eu quase não tenho amigos/eu quase que não consigo/ficar na cidade sem viver contrariado.//Por ser de lá/na certa por isso mesmo/não gosto de cama mole/não sei comer sem torresmo./eu quase não falo/eu quase não sei de nada/sou como rês desgarrada/nessa multidão boiada caminhando a esmo” (Lamento Sertanejo)

Também de grande movimentação na vida do artista e do cidadão Gil se mostra em 1976. Musicalmente, o fato mais significativo é sua participação com Caetano, Bethânia e Gal no conjunto Doces Bárbaros, um reencontro atualizado do grupo baiano. No início de 1977, Gil participa do Festival de Arte Negra da Nigéria e o contato direto com a cultura africana dá origem ao show e ao disco “Refavela”. No disco “Refavela”, três preciosidades. Gil canta a negritude em “Babá Alápalá” e “Refavela” e a outra, suave, ele diz que “o melhor lugar do mundo é aqui, e agora” na canção “Aqui e Agora”.

“Iaiá, kiriê, kiriê, iaiá//A refavela/revela aquela/que desce o morro e vem transar/o ambiente/efervescente/de uma cidade a cintilar//A refavela/revela o salto/que o preto pobre tenta dar/quando se arranca/do seu barraco/prum bloco do BNH//A refavela, a refavela, ó/como é tão bela, como é tão bela, ó//A refavela/revela a escola/de samba paradoxal/brasileirinho/pelo sotaque/mas de língua internacional//A refavela/revela o passo/com que caminha a geração/do black jovem/do black-Rio/da nova dança no salão//Iaiá, kiriê, kiriê, iáiá//A refavela/revela o choque/entre a favela-inferno e o céu/baby-blue-rock/sobre a cabeça/de um povo-chocolate-e-mel//A refavela/revela o sonho/de minha alma, meu coração/de minha gente/minha semente/preta Maria, Zé, João//A refavela, a refavela, ó/como é tão bela, como é tão bela, ó//A refavela/alegoria/elegia, alegria e dor/rico brinquedo/de samba-enredo/sobre medo, segredo e amor//A refavela/Batuque puro/de samba duro de marfim/marfim da costa/de uma Nigéri/miséria, roupa de cetim//Iaiá, kiriê, kiriê, iáiá” (Refavela)

Já o disco Realce fecha o ciclo com a luz e todas as cores, a luz refratada, dissociada em todas as suas miríades: o arco-íris.

07 agosto 2007

Cinco fases de Gilberto Gil -1967/1987 (2)

A segunda fase de Gil, a da tropicália, marca a descoberta do internacionalismo cultural. Um bom exemplo é “Geléia Geral”, de Gil e Torquato Neto. A música é uma mistura de citações literárias e musicais, uma colcha de clichês ufanistas. Monta uma imagem do Brasil como um paraíso tropical e depois desmonta. O caráter satírico da música provém da construção da letra, do arranjo e da interpretação.

“Um poeta desfolha a bandeira/e a manhã tropical se inicia/resplendente, cadente, fagueira/num calor girassol com alegria/na geléia geral brasileira/que o jornal do Brasil anuncia//Ê bumba iê iê boi/ano que vem, mês que foi/Ê bumba iê iê iê/é a mesma dança, meu boi//Ê bumba iê iê boi/ano que vem, mês que foi/Ê bumba iê iê iê/é a mesma dança, meu boi//"A alegria é a prova dos nove"/e a tristeza é teu Porto Seguro/minha terra é onde o Sol é mais limpo/em Mangueira é onde o Samba é mais puro/Tumbadora na selva-selvagem/Pindorama, país do futuro//Ê bumba iê iê boi/ano que vem, mês que foi/Ê bunba iê iê iê/é a mesma dança, meu boi//É a mesma dança na sala/no Canecão, na TV/e quem não dança não fala/assiste a tudo e se cala/não vê no meio da sala/as relíquias do Brasil/doce mulata malvada/um LP de Sinatra/maracujá, mês de abril/santo barroco baiano/super poder de paisano/formiplac e céu de anil/três destaques da Portela/carne seca na janela/alguém que chora por mim/um carnaval de verdade/hospitaleira amizade/brutalidade, jardim//Ê bumba iê iê boi/ano que vem, mês que foi/Ê bumba iê iê iê/é a mesma dança, meu boi(bis)//Plurialva, contente e brejeira/miss linda Brasil diz: "Bom Dia" /e outra moça também, Carolina/da janela examina a folia/salve o lindo pendão dos seus olhos/e a saúde que o olhar irradia//Ê bumba iê iê boi/ano que vem, mês que foi/Ê bumba iê iê iê/é a mesma dança, meu boi//Um poeta desfolha a bandeira/e eu me sinto melhor colorido/pego um jato, viajo, arrebento/com o roteiro do sexto sentido/faz do morro, pilão de concreto/Tropicália, bananas ao vento//Ê bumba iê iê boi/ano que vem, mês que foi/Ê bumba iê iê iê/é a mesma dança, meu boi” (Geléia Geral)

Outro ponto marcante, a canção “Miserere Nobis”, de Gil e Capinam, onde há referências históricas: à primeira missa no Brasil, e a chegada dos baianos ao sul desenvolvido. Os baianos que desorganizam a música brasileira no desejo de mudança. Também de Gil em parceria com Capinam é “Soy Loco Por Ti, América”. A música mostra a preocupação com a latino-americanidade no projeto tropicalista, a fusão de ritmos e do entrelaçamento da letra, onde português e castelhano passam um para o outro, como vasos comunicantes.

“Soy loco por ti, América,/yo voy traer una mujer playera/que su nombre sea Marti,/que su nombre sea Marti/Soy loco por ti de amores tenga como colores la espuma blanca de Latinoamérica/y el cielo como bandera,/y el cielo como bandera/Soy loco por ti, América,/soy loco por ti de amores/Sorriso de quase nuvem,/os rios, canções, o medo/O corpo cheio de estrelas,/o corpo cheio de estrelas/Como se chama a amante desse país sem nome, esse tango, esse rancho,//Esse povo, dizei-me, arde/o fogo de conhecê-la,/o fogo de conhecê-la//Soy loco por ti, América,/soy loco por ti de amores/El nombre del hombre muerto ya no se puede decirlo,/quién sabe?/Antes que o dia arrebente,/antes que o dia arrebente/El nombre del hombre muerto antes que a/definitiva noite se espalhe em Latinoamérica/El nombre del hombre es pueblo,/el nombre del hombre es pueblo//Soy loco por ti, América,/soy loco por ti de amores/Espero a manhã que cante,/el nombre del hombre muerto/Não sejam palavras tristes,/soy loco por ti de amores/Um poema ainda existe com palmeiras,/com trincheiras, canções de guerra/Quem sabe canções do mar, ai,/hasta te comover, ai, hasta te comover//Soy loco por ti, América,/soy loco por ti de amores/Estou aqui de passagem,/sei que adiante um dia vou morrer/De susto, de bala ou vício,/de susto, de bala ou vício/Num precipício de luzes entre saudades,/soluços, eu vou morrer de bruços/Nos braços, nos olhos,/nos braços de uma mulher,/nos braços de uma mulher/Mais apaixonado ainda dentro dos braços da camponesa,/guerrilheira/Manequim, ai de mim, nos braços de quem me queira,/nos braços de quem me queira//Soy loco por ti, América,/soy loco por ti de amores” (Soy Loco Por Ti, América)

06 agosto 2007

Cinco fases de Gilberto Gil -1967/1987 (1)

Poetas, seresteiros, namorados, correi, é chegada a hora de se deleitar com a obra de Gilberto Passos Gil Moreira, o conhecido Gilberto Gil. Neste especial vamos conhecer a trajetória do artista em cinco fases, no período de 1967 a 1987.

A preocupação política sempre foi uma constante na obra do cantor e compositor Gilberto Gil. Mas a sensibilidade do artista, aguçada por ricas experiências pessoais e por uma rara sintonia com o mundo a seu redor, levou-o a alargar e a aprofundar essa postura, entrelaçando-a ao próprio cotidiano. Já em seu primeiro disco, “Louvação”, ele pulava fora do convencional. Assim ele define sua Procissão: “Olha, lá vai passando a procissão/se arrastando que nem cobra pelo chão”. Afinal, comparar uma procissão à cobra que se arrasta pelo chão anunciava a chegada de um poeta da MPB.

“Olha lá vai passando a procissão/se arrastando que nem cobra pelo chão/as pessoas que nela vão passando/acreditam nas coisas lá do céu/as mulheres cantando tiram versos/os homens escutando tiram o chapéu/eles vivem penando aqui na terra/esperando o que Jesus prometeu//E Jesus prometeu vida melhor/pra quem vive nesse mundo sem amor/só depois de entregar o corpo ao chão/só depois de morrer neste sertão/eu também tô do lado de Jesus/só que acho que ele se esqueceu/de dizer que na terra a gente tem/de arranjar um jeitinho pra viver//Muita gente se arvora a ser Deus/e promete tanta coisa pro sertão/que vai dar um vestido pra Maria/e promete um roçado pro João/entra ano, sai ano, e nada vem/meu sertão continua ao deus-dará/mas se existe Jesus no firmamento/cá na terra isto tem que se acabar” (Procissão)

Desde seu elepê de estréia, Gil mostrou que não ia se contentar com o convencional. Tanto que já nesse disco ele surpreendia com “Lunik 9”, uma canção dividida em diversas partes, sem se fixar num único andamento. Gil canta um tema da era tecnológica, contrapondo a lua da lírica tradicional à lua desmistificadora pelos vôos especiais. Outra música que refletia o clima de contestação da época, “Ensaio Geral”.

Também desta primeira fase estão as canções “Roda”, de Gil e Torquato Neto, e “Ele Falava Nisso Todo o Dia”. Esta última sobre um personagem preocupado com o seguro de vida. É pelo protesto que Gil se identifica com o despertar de uma geração. Uma canção que causou impacto pela complexidade construtiva: “Domingo no Parque”. O forte da música é o arranjo que Gil e Rogério Duprat realizaram, segundo uma concepção cinematográfica, assim como a interpretação contraponteada de Gil. Letra, música, sons, ruídos, palavras e gritos são sincronizados, interpenetrando-se como vozes em rotação para narrar uma tragédia amorosa, vivida em ambiente popular. “Domingo no Parque” ficou em segundo lugar no 3º Festival da Record, em São Paulo.

“O rei da brincadeira (ê, José)/o rei da confusão (ê, João)/um trabalhava na feira (ê, José)/outro na construção (ê, João)//A semana passada, no fim da semana/João resolveu não brigar/no domingo de tarde saiu apressado/e não foi pra Ribeira jogar capoeira/não foi pra lá, pra Ribeira, foi namorar/o José como sempre no fim da semana/guardou a barraca e sumiu/foi fazer no domingo um passeio no parque/lá perto da Boca do Rio/foi no parque que ele avistou Juliana/foi que ele viu/foi que ele viu Juliana na roda com João/uma rosa e um sorvete na mão/Juliana seu sonho, uma ilusão/Juliana e o amigo João/o espinho da rosa feriu Zé/e o sorvete gelou seu coração/o sorvete e a rosa (ô, José)/a rosa e o sorvete (ô, José)/foi dançando no peito (ô, José)/do José brincalhão (ô, José)//O sorvete e a rosa (ô, José)/a rosa e o sorvete (ô, José)/oi, girando na mente (ô, José)/do José brincalhão (ô, José) Juliana girando (oi, girando)/oi, na roda gigante (oi, girando)/oi, na roda gigante (oi, girando)/o amigo João (João)/o sorvete é morango (é vermelho)/oi girando e a rosa (é vermelha)/oi, girando, girando (é vermelha)/oi, girando, girando...//Olha a faca! (olha a faca!)/olha o sangue na mão (ê, José)/Juliana no chão (ê, José)/outro corpo caído (ê, José)/seu amigo João (ê, José)/amanhã não tem feira (ê, José)/não tem mais construção (ê, João)/não tem mais brincadeira (ê, José)/não tem mais confusão (ê João)...(Domingo no Parque)

Em 1967, com o som dos Beatles na cuca e toda a ebulição da época, contracultura e psicodelismo, Gil começa a procurar novos caminhos. Junto a Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé, o maestro Rogério Duprat, os poetas Torquato Neto e Capinam, o artista plástico Rogério Duarte e o empresário Guilherme Araújo, Gil é um dos expoentes do Tropicalismo, um movimento que iria modificar profundamente a música brasileira.

03 agosto 2007

Marilyn Monroe: Há 45 anos morria a mulher, nascia o mito (2)

Marilyn Monroe morreu!. Há 45 anos esta notícia abalou Hollywood,consternou fãs em todo o mundo, deixou a sétima arte sem seu maior símbolo sexual. Há 45 anos (no dia 05 de agosto) morreu Marilyn, mulher que fez a felicidade de muita gente, sem nunca ter sido feliz. Ela teve uma vida breve e trágica, uma carreira fulgurante: em menos de 15 anos, seduziu o mundo e tornou-se o maior mito sexual que o cinema já produziu.

VÁLVULA - O corpo perfeito, marcado por colantes vestidos, personificava a mulher agressivamente livre em contraste com uma América bem comportada e ordeira como convinha a um mundo dividido pela guerra-fria. Era a época da Legião de Decência, dos rígidos códigos morais e da caça às bruxas, promovida pelo macarthismo. Marilyn funcionaria como a válvula de escape para milhões de pessoas ansiosas por assumir a sua própria liberdade. Marilyn começa a revoltar-se contra a imagem que lhe fora imposta – a da boneca loura e sexy -, e que a tornara um mito. “Um símbolo sexual orna-se um objeto. Detesto ser um objeto”.

Terminado o casamento com Di Maggio, a vida amorosa de Marilyn resumia-se a uma série de casos insignificantes, que não supriam sua constante carência afetiva. O que ela queria era um homem forte, que a amasse e protegesse – uma mistura de marido e pai que ela nunca teve. E foi isso que ela viu, ou pensou ver, em Arthur Miller. Indo para New York estudar arte dramática no Acto´s Studio, lá conhece o dramaturgo Miller, que será seu terceiro marido. Nele, busca um apoio intelectual que a ajuda a perceber o que se passa à sua volta. São dessa nova fase os filmes “O Pecado Mora ao Lado” e “Nunca Fui Santa”, onde brilha como atriz num papel mais complexo.

Em 1957, no auge da carreira, Marilyn desliga-se da Fox e cria sua própria produtora. Em seguida, filma “Quanto mais Quente Melhor”, “Adorável Pecadora” e “Os Desajustados”, onde no papel de uma mulher angustiada, interpreta a si mesma. Terminado os trabalhos dos Desajustados no início de 1961, foi anunciada a ruptura do casamento de Marilyn com Miller. Depois do divórcio, ela entra numa depressão mais prolongada eu as anteriores. Na época, tem um ligeiro caso com Frank Sinatra, sem ficar apaixonada.

KENNEDY - Por meio de Sinatra, Marilyn tinha conhecido Peter Lawford, cunhado dos Kennedy. É convidada então para a festa de aniversário do jovem presidente John Kennedy, no Madison Square Garden. Na festa, ela canta “happy burthday to you” diante de mais de 20 mil pessoas. Emocionado, Kennedy diz: “Agora já posso me retirar da política”. Os acontecimentos se precipitam, Marilyn passa a manter um romance secreto com Robert Kennedy, irmão do presidente e secretário da Justiça. Na época, a Foz inclui a atriz num novo filme – “Something´s Got to Give” – para terminar seu contrato com ela. Mas ela começava a chegar atrasada e a faltar nas filmagens.

O novo chefão da Fox, Peter Levethis despede Marilyn por “violação voluntária de contrato” e ainda lhe exige uma indenização de US$i milhão. O casamento com Jim Daugherty foi uma fuga, que a guerra encerrou. Marilyn se entregou então à fuga do estrelato. Enfrentou as injustiças dos estúdios por vários anos, mas chegou lá. Infelizmente, isso não foi o bastante. “Uma carreira – disse ela – é uma coisa maravilhosa. Mas não se pode ficar abraçado com ela nas noites de frio”. Nem Di Maggio nem Miller fizeram com que a estabilidade dela durasse mais que alguns meses. E ela continuou perseguindo o sucesso. Tímida, insegura, introvertida, superou suas limitações lutando contra o molde que Hollywood lhe impunha, procurando ser uma atriz de verdade, uma produtora independente. Venerada como símbolo sexual, esforçou-se em vão por ser reconhecida como atriz. No auge da fama e das dificuldades pessoais, pouco depois de acabar com Miller, era despedida no meio de uma filmagem e intimada a pagar uma indenização enorme.

Finalmente, na noite de 04 de agosto, em vez de ir a uma festa na casa de Peter Lawford, onde certamente encontraria Robert Kennedy, Marilyn toma um vidro de comprimidos para dormir (Nembutal). Suicídio ou acidente? Ninguém sabe. Aos 36 amos, morria a maior estrela de Hollywood, e com ela o star system, a indústria de Hollywood responsável pela fabricação de mitos em linha de montagem. Depois de ter procurado desesperadamente a sua identidade e de encontrar apenas o vazio, Marilyn escolhe o suicídio como resposta à indústria que a transformou numa fantasia. Norma Jean não resistiu ao mito que Marilyn Monroe lhe ofereceu.

02 agosto 2007

Marilyn Monroe: Há 45 anos morria a mulher, nascia o mito (1)

Marilyn Monroe morreu!. Há 45 anos esta notícia abalou Hollywood, consternou fãs em todo o mundo, deixou a sétima arte sem seu maior símbolo sexual. Há 45 anos (no dia 05 de agosto) morreu Marilyn, mulher que fez a felicidade de muita gente, sem nunca ter sido feliz. Ela teve uma vida breve e trágica, uma carreira fulgurante: em menos de 15 anos, seduziu o mundo e tornou-se o maior mito sexual que o cinema já produziu.

Quando foi encontrada mortas em sua casa, em Brentwood, na Califórnia, na noite de 05 de agosto de 1962, com o corpo intoxicado de barbitúricos, a atriz Marilyn Monroe tornou-se uma das maiores lendas do mundo encantado de Hollywood. Morria uma estrela, nascia um mito. Nos 32 filmes que realizou, foi aclamada como a namorada sexy da América. Depois foi venerada como mártir de sua própria beleza e irreverência. Sobre ela, desde então, foram escritos mais de 50 livros.

Morta há 45 amos, Marilyn Monroe ainda rende bom dinheiro. A overdose de pílulas teria sido acidente ou suicídio? O mundo discute a morte e, principalmente, a tumultuada vida da estrela, das mais brilhantes que Hollywood criou – e massacrou. Norman Mailer escreveu que Marilyn teria sido assassinada por agente da CIA que odiava os Kennedys e não lhes perdoava o fiasco da Agência na Baía dos Porcos (tentativa de invasão de Cuba, em 1961). Outros, menos famosos, sugerem que Marilyn foi liquidada pela Máfia, a serviço de Jimmy Hoffa, líder sindical mafioso que Robert Kennedy, então ministro da Justiça (1962), perseguia implacavelmente, conseguindo pôr na cadeia (1967). Roberto Slatzer escreveu que os Kennedys precisavam livrar-se de Marilyn, pois ela os ameaçara de revelar à imprensa que havia sido amante de John e Bobby, estragando-lhes a carreira política. Daí monopolizaram o imenso e poderosíssimo aparato federal forjando um suicídio que é, em verdade, um assassinato.

ROMPIMENTO - Ao longo das últimas duas décadas, muitas versões goram contadas a respeito dos três. John, ou Robert, ou ambos, teria sido amante regular de Marilyn nos últimos dois anos da vida da atriz. O rompimento com Robert teria sido uma das causas da provável depressão que levou ao provável suicídio. Em “Deusa – As Vidas Secretas de Marilyn Monroe”, Anthony Summers confirma essas versões e revela contornos escabrosos. Robert Kennedy, com a ajuda do FBI, o poderoso órgão de investigações do governo americano, teria armado um ardiloso estratagema para se livrar de uma inevitável acusação de cumplicidade na morte de Marilyn.

Nascida Norma Jean Baker a 1º de junho de 1926 em Los Angeles, ela jamais viu o pai e mal conheceu a mãe, que foi internada durante muito tempo num hospício. Órfã, a menina Norma Jean andou de família em família, sendo criada em orfanatos e por indiferentes paias adotivos. Para fugir à essa rotina casa-se aos 16 anos, com um operário de uma fábrica de aviões, Jim Daugherty de 21 anos. Divorcia-se nove meses depois.

Em seguida, conhece um fotógrafo que a contrata como modelo: com os cabelos pintados e blusas justas, em 1946 ela aparece em várias capas de revistas. No ano seguinte, é contratada pela empresa cinematográfica Twentien Century Fox, que muda seu nome para Marilyn Monroe. Em 1948, surge em pequenos papéis de filmes classes B, depois posa nua para a famosa foto de calendário que reproduziu seu corpo anonimamente pelo mundo.

Uma ponta como a sensual namorada de um gangster no clássico “O Segredo das Jóias” (1950), de John Huston, inicia a sua carreira de estrela. Depois fez um papel secundário em “A Malvada”, estrelado por Bette Davis e Anne Baxter e cativa o público mesmo contracenando com essas grandes estrelas. Segue “Só a Mulher Peca”, um drama passado na brumosa costa norte do Pacífico, entre operários de fábricas de conserva de pescado. O filme é um sucesso e a Fox aproveita e inclui Marilyn em mais quatro filmes naquele ano. Todos têm sucesso: “O Inventor da Mocidade”, uma comédia maluca de Howard Hawks, e “Almas Desesperadas”, em que ela faz uma babá psicótica.

O brilho de Marilyn chega na fila “Torrentes de Paixão” onde Hanry Hathaway, o diretor, fez a atriz usar saltos exageradamente alto justamente porque ela não sabe andar direito com eles, o que acentua ainda mais seu rebolado. “Depois da guerra, o erotismo cinematográfico deslocou-se das coxas para os seios. Marilyn Monroe fez com que ele ficasse entre os dois”, escreveu o crítico André Bazin. Comentário desse tipo, no mundo inteiro, festejava a sensualidade inquieta daquela que se tornava o símbolo sexual dos anos 50.

Com a apoteose de “Torrentes de Paixão”, a carreira de Marilyn dispara. Logo em seguida, ela filma “Os Homens Preferem as Louras”, a história de duas moças obcecadas por achar um marido. Dirigido por Howard Hawks em tom de comédia musical, o filme justa a exuberância séria da morena Jane Russel com a provocação delirante da loira Marilyn. Como havia vários números musicais, Marilyn pôde mostrar seus talentos de cantora dançarina. O sucesso do filme garantiu à atriz um espaço na Calçada da Fama, em frente ao Chinese Theatre, onde deixou a marca de suas mãos. Na ocasião, ela também se torna capa da revista Time, que afirma: “No panteão pagão de Hollywood, Marilyn é a deusa do amor”.

Ela atua depois em “Como Agarrar um Milionário”, segundo filme feito em cinemascope, no qual divide as honras de estrela como Betty Grable e Lauren Bacall, mas fica com todas as glórias. Casa-se com Joe Di Maggio, um ídolo nacional do beisebol. Ele, um católico descendente de italianos, não se dá bem com a liberalidade e a mentalidade pragmática de Marilyn. Como bom latino, tem um ciúme doentio. E tudo acaba em divórcio.

01 agosto 2007

Cidadão do mundo: Guimarães Rosa (2)

Numa longa entrevista concedida a Gunter Lorenz, Guimarães Rosa afirma que “literatura deve ser vida”. Para ele, “quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única ponta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas. Daí resulta que tenha de limpa-lo, e como é a expressão da vida, seu eixo responsável por ele, pelo que devo constantemente cuidar dele”.

Esta é a percepção do escritor sobre as relações entre vida, linguagem e literatura. E como analisou a baiana Evelina Hoisel em seu livro “Grande Sertão: Veredas. Uma escritura biográfica” (Academia de Letras da Bahia, 2006), “esclarece o seu ideal de uma linguagem perfeita – pronta para o infinito – delimitando um dos aspectos de sua metafísica. Por outro lado, revela que é a partir de uma depuração da linguagem cotidiana que se atinge esse ideal. Define a função social do escritor: limpar as palavras das cinzas do cotidiano, para que elas possam ser novamente vida. Assume, perante seu interlocutor, a sua responsabilidade para com o idioma: cuidar dele, recriá-lo. Explicita os níveis de relação entre vida, linguagem e literatura e configurando o caráter biográfico da escritura literária”.

O fazendeiro Riobaldo recebe um visitante da cidade, e lhe conta a história da sua vida. Foi chefe de jagunços, tomou parte numa das grandes guerras, bandos armados que percorriam o sertão. Entre vinganças, traições, e pacto com o Diabo, descobre apaixonado por Diadorim, companheiro de lutas e o grande segredo se revela. Assim é Grande Serão: Veredas. Sob o aparente pretexto de informar a seu visitante (instruído e culto que vem conhecer a região), sobre a sua geografia física e social, Riobaldo se põe a mapear a cartografia física do sertão, com precisão e minúcia de quem conhece o objeto de sua narração, como também a delinear sua cartografia interior, mapeando as diversas zonas e territórios de sua subjetividade. Sujeito e objeto se encontram através dos signos retidos na memória. A travessia pelo sertão/mundo da experiência pessoal e coletiva desse barranqueiro do São Francisco é cheia de dor, tristeza, sofrimento, mas ele sobrepõe a vida, o esplendor, as águas claras do rio Urucaia, o passarim mais bonito de rio-abaixo e rio-acima, o suiriri, nhorinhá (flor amarela do chão), a justiça de Jeca Ramiro, a prudência de Medeiro Vaz e muitos outros personagens. E tudo resplandece pela luz que emana dos olhos verdes de Diadorim, pois “sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias!”

Guimarães Rosa foi o autor de frases desconcertantes, mas que o consagraram na memória de seus leitores. Entre elas está a de que as pessoas não morrem, ficam encantadas; ou a de que sua vida era um conto contado por ele mesmo. O mesmo aconteceu com seu narrador Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas. “Viver é muito perigoso...”, “Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”, “Diadorim é a minha neblina...” são frases eu foram além das fronteiras do grande romance e hoje podem ser citados até por quem nunca o leu.

No campo seco, a crepitar em brasas,

dançam as últimas chamas da queimada,

tão quente, que o sol pende no ocaso,

bicado

pelos sanhaços das nuvens,

para cair, redondo e pesado,

como uma tangerina temporã madura... ("Alaranjado", Guimarães Rosa)

As narrativas de Rosa inspiram-se claramente na fala das populações daquela região que ele, aliás, percorreu como médico r como viajante, levando sempre atento, cadernos nos quais anotava o que via em, sobretudo, o que ouvia. Transpôs diversos tipos populares que conheceu em suas andanças pelo sertão para seus livros sob a forma de personagens ou através da recriação inventiva de suas falas peculiares. Mas a fala sertaneja aparece recoberta por neologismos, palavras novas que Rosa inventou, algumas vezes só modificando um fonema ou outro nas palavras como encontradas nos dicionários. Criou também uma acentuação toda sua, nem de todo distante das normas ortográficas vigentes, nem de todo obediente.

31 julho 2007

Cidadão do mundo: Guimarães Rosa (1)



Em 2006 o Museu da Língua Portuguesa homenageia, na Estação da Luz em São Paulo, comemorou os 50 anos de uma das maiores obras da literatura brasileira: Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Quem visitou o local conheceu a história do amor incomum de Riobaldo e Diadorim. Se leu o livro, se deliciar com as vivências que o museu preparou. Concebida por Bia Lessa, a mostra fez um passeio pelas veredas de Guimarães Rosa. Foram sete caminhos, cada um correspondente a um personagem ou a um aspecto importante do livro. Este ano, no dia 19 de novembro, Rosa partia. Faz 40 anos. Mas ele, na verdade (e como dizia) não morreu, ficou encantado.

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens."

Mineiro, brasileiro, cidadão do mundo. O escritor João Guimarães Rosa sempre mostrou paixão pela (re) criação de palavras. O poder de encantamento desse grande escritor mineiro está no seu poder de criar mundos e linguagens, pois ele vê a linguagem como um mundo, e o mundo como um campo onde se cruzam e recruzam linguagens a interpretá-lo.

O tempo é que é a matéria do entendimento

A partir do sertão (aquele particular, o mineiro, e de suas adjacências, o baiano e goiano), atravessado por imagens e valores simbólico, por personagens e acontecimentos insólitos, Rosa misturou símbolos das mitologias bíblicas, egípcias, das cosmogonias antigas, do ocultismo, da cabala, dos cultos esotéricos e obteve o desenho e a linguagem de um sertão fabuloso, inteiramente imaginário, só dele.

Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.

Suas narrativas inspiram-se na fala das populações da região que ele percorreu como médico e viajante. A fala sertaneja aparece recoberta por neologismos, palavras novas eu ele inventara. Da relação entre a linguagem do escritor erudito, criando palavras, renovando expressões, e a fala dos personagens do sertão, Guimarães Rosa conseguiu criar um estilo todo pessoal, uma terceira margem da expressão. Para ele, esse universo da linguagem era o território daquele encantamento a que a vida das pessoas se dirigia, onde elas podiam vislumbrar a perenidade dos gestos e de seu sentido.

"...Mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou..."

Um dos aspectos mais criativos da escrita de Guimarães Rosa é o da relação entre a linguagem do escritor erudito, criando palavras, renovando expressões, e a fala dos personagens do sertão. Ele conseguiu criar um estilo todo pessoal, uma “terceira margem”, da expressão, entre aqueles dois pólos: a escrita citadina e a fala sertaneja.

“Ser forte é parar quieto, permanecer”.