19 junho 2007

O amor segundo 19 filósofos (2)

Antonio Rosmini (o amor é a presença de Deus no mundo) informa que é do amor a Deus que brota o amor ao próximo, e é ainda este amor que constitui o fundamento de toda a ética. Segundo o filósofo alemão Ludwig Feuerbach (não amar a Deus para amar o homem), a divindade é uma invenção do ser humano. Uma vez reconhecendo o caráter alienante, ilusório e enganoso da fé religiosa, o amor, para ele, é uma realidade apenas natural.

Segundo o pensador dinamarquês Soeren Kierkegaard (o amor de Deus fundamenta e edifica o amor humano) existe o amor divino e amores humanos. Somente o amor de Deus e por deus eleva as relações interpessoais acima dos sentimentos puramente humanos para projetá-los na esfera da caridade verdadeira. No pensamento do bávaro Max Scheler (Deus é o fundamento do amor) o amor encontra a sua mais evidente justificação e garantia na presença amante de Deus, que escolheu, primeiro, justamente o amor para revelar-se aos seres humanos.

Na filosofia do austríaco Martin Buber (o amor reconhece o outro no diálogo) o amor consiste no diálogo entre Deus e o homem, dialoga entre o ser humano e o seu semelhante. No pensamento do filósofo Jacques Maritain (amor, amizade, caridade) o amor divino e o amor humano se implicam e se integram mutuamente. A filósofa e santa Edith Stein (o amor eleva à perfeição) doou-se a Deus por amor, amarrou-se a Cristo com um vínculo indissolúvel de amor, que a tornou, por sua vez, capaz de amar, dando-lhe a condição de viver uma autêntica e fecunda maternidade infantil baseado no amor e alimentada pelo amor.

Para o pensador parisiense Jean-Paul Sartre (o amor é conflito incurável), o amor é caracterizado por uma falta de autenticidade constitutiva, porque todas as relações humanas carecem, afinal, de autenticidade, e por isso são destinadas ao fracasso e à derrota. Já o pensador francês de origem lituana Emanuel Lévinas (o amor entre necessidade e solidão, alteridade e transcendência) faz referências ao amor fraterno universal e à solidariedade com o próximo como a duas realidades que torna possível a própria interioridade do sujeito. Assim o amor é situado como que no centro de um triângulo, cujas vértices são constituídas pelo rosto do outro, pela responsabilidade que cada indivíduo deve alimentar para com os próprios semelhantes e pela justiça que, em, certo sentido, torna efetiva o amor e a responsabilidade.

18 junho 2007

O amor segundo 19 filósofos (1)

O sentimento que dá forma e alma ao mundo, e que ao longo dos séculos inspirou os pensamentos e as obras dos homens, desde a arte até os domínios da espiritualidade, da ciência e da poesia. Assim é o amor com suas contradições, luzes e sonhos, mas sobretudo potência, esperança e vida. E nem mesmo a filosofia conseguiu escapar ao fascínio arcano deste sentimento. Dezenove filósofos teorizaram sobre o amor no livro “O amor segundo os filósofos”. Uns sustentaram a existência do amor como valor positivo, humano, outros condenou o amor a uma realidade ilusória, e outros numa dimensão divina. O livro, do professor Maurizio Schoepflin, foi editado pela Editora da Universidade do Sagrado Coração (Edusc).

Na concepção do filósofo Ateniense Platão (o amor ao bem e à beleza) o amor liberta o ser humano e o leva à verdade. Assim, o amor platônico lança uma ponte entre o universo sensível e o universo puramente inteligível, entre o corpóreo e o espiritual, entre o relativo e o Absoluto, entre o contingente e o necessário, entre o particular e o universal. Já o filósofo egípcio Plotino (O amor é desejo inesgotável), o amor purifica e eleva o ser humano. Produz efeitos catárticos de importância fundamental, sem os quais o caminho da conversão e do retorno fica fechado para a alma.


No pensamento do africano Santo Agostinho (o amor é tudo) o amor é o nexo que une as Pessoas divinas. Somente o amor é capaz de explicar a vida da alma e a sua possibilidade de se elevar ao conhecimento unitivo de Deus. Segundo Boaventura de Bagnoregio (o amor é a verdadeira sabedoria), a força que dá ao ser humano a capacidade de elevar-se a Deus é o amor. Muitos mais que o esforço intelectual, é o amor que torna possível uma verdadeira aproximação a Deus.


O amor constitui a essência central da própria vida de Deus. Quando amamos, afirma Tomás de Aquino (amar a Deus para amar o próximo), amamos a Deus. Na concepção de Marsílio Ficino (o amor é furor divino) o amor tem uma dimensão cósmica e dá à alma humana a capacidade de uni-se a deus. Na filosofia de Baruch Spinoza (o amor é intelectual e gera alegria) o amor é o pleno conhecimento da verdade que faz o ser humano totalmente feliz.


Na concepção do pensador de Genebra, Jean-Jacques Rousseau (o amor não admite corações) o amor é filho da natureza e da liberdade. Para ele, o ser humano nasce bom e se perverte por causa da vida social e do desenvolvimento cultural. A civilização e a cultura tornaram os seres humanos egoístas e violentos, gananciosos e desordenados. Para o filósofo alemão Friedrich Schleiermacher (o sentido sagrado do amor) o amor une o finito ao infinito. O amor, interpretado segundo uma perspectiva religiosa e sacralizante, torna-se o centro da gravidade que atrai e unifica não só a própria religião e arte, mas também a educação e a moralidade.

O pensamento de Arthur Schopenhauer (o amor desejo e o amor compaixão) é marcado por um profundo pessimismo, baseado na convicção de que o único motor de toda a realidade é uma vontade cega, absurda e irracional de viver que impulsiona todo o universo e cada ser vivo a desejar algo que, tão logo é obtido, torna-se motivo de insatisfação. Assim o amor é poderoso e sabe enganar o ser humano, consegue iludi-lo, prometendo-lhe uma felicidade que jamais poderá se realizar.

15 junho 2007

Música & Poesia

Infinito Particular (Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown)

Eis o melhor e o pior de mim

O meu termômetro, o meu quilate

Vem, cara, me retrate

Não é impossível

Eu não sou difícil de ler

Faça sua parte

Eu sou daqui, eu não sou de Marte

Vem, cara, me repara

Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim

Só não se perca ao entrar

No meu infinito particular

Em alguns instantes

Sou pequenina e também gigante

Vem, cara, se declara

O mundo é portátil

Pra quem não tem nada a esconder

Olha minha cara

É só mistério, não tem segredo

Vem cá, não tenha medo

A água é potável

Daqui você pode beber

Só não se perca ao entrar

No meu infinito particular.

Uma arte (Elizabeth Bishop. Tradução de Horácio Costa)


A arte de perder não tarda aprender;

tantas coisas parecem feitas com o molde

da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto

de perder chaves, e a hora passada embalde.

A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:

lugares, nomes, onde pensaste de férias

ir. Nenhuma perda trará desastre.


Perdi o relógio de minha mãe. A última,

ou a penúltima, de minhas casas queridas

foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.


Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,

pior, alguns reinos que tive, dois rios, um

continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.


- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente

amado), mentir não posso. É evidente:

a arte de perder muito não tarda aprender,

embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre.

14 junho 2007

A hora e a vez de Clarice

Há 30 anos, no dia 09 de dezembro de 1977, morria a carismática e solitária escritora Clarice Lispector, na véspera de seu aniversário. Até o mês de setembro o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, expõe “Clarice Lispector – a hora da estrela”. A mostra objetiva apagar um pouco o carimbo de difícil que acompanha a escritora e incentivar novos leitores a se aventurar pelas obras de Clarice. Foram pinçados fragmentos de obras como A Descoberta do Mundo, Um Sopro de Vida, A Hora da Estrela e Água Viva.

A exposição marca, além dos 30 anos da morte da escritora, os 30 anos de lançamento do seu livro mais popular, “A Hora da Estrela”. Há manuscritos e originais datilografados, inéditos, assim como a correspondência com escritores com Rubem Braga, João Cabral de Mello Neto, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo e Lúcio Cardoso. Dividido em quatro ambientes, o público lê trechos da obra de Clarice, frases em branco nas paredes brancas recriam a complexidade da obra, imagens da autora (mãe, mulher de diplomata, escritora) e cubo de espelhos em que o público vê seu reflexo em texto de Clarice.

VEIO DE LONGE

Clarice Lispector veio de longe (Ucrânia) para criar a literatura feminina (dificilmente feminista) no Brasil. Houve outras antes, mas nenhuma atingiu em suas obras a dimensão literária e artística de Lispector. Com seu estilo novo, de evidente deslumbramento pela pura sonoridade das palavras brasileiras, afetou todas as escritoras que vieram depois. Sua literatura fez escola. Vivendo de uma maneira simples, para ela, publicar um livro era sempre uma aventura (seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem foi recusado pela Editora José Olympio). Essa mulher solitária escrevia para viver, e não exatamente para sobreviver, porque a literatura era a sua vida.

Mais tarde, famosa com cerca de 26 obras publicadas (A Legião Estrangeira, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, Água Viva, Um Sopro de Vida, De Corpo Inteiro, A Via Crucis do Corpo, A Hora da Estrela e outros), ganhava a vida fazendo traduções e colaborando com a imprensa, como qualquer escritor iniciante. "Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."

A PALAVRA

Na obra de Clarice, a palavra tem como função ir ao fundo da realidade e declarar-se as partes que a compõem, experimentá-la em sua origem, até que se esgotem as possibilidades de nomeá-la e ela surja, inconfundível. “Sim, quero a palavra última que também é tão primeira que já se confunde com a parte intangível do real”. Junto com Guimarães Rosa, a escritora de origem ucraniana criada por pais russos em Pernambuco revolucionou a literatura brasileira da linguagem à temática nos anos 40.

A temática nordestina, a inadequação do migrante nas grandes cidades, presente em “A Hora da Estrela”, tem público garantido. Para os mais sofisticados do ponto de vista estético, Clarice escreveu “Água Viva” e “Um Sopro de Vida”, livros muitos lidos e consagrados na França, Canadá e Estados Unidos.

MERGULHO

Introspectiva, Clarice soube, porém, combinar o mergulho interior na psicologia de seus personagens com o mundo exterior em “Uma Aprendizagem”. Esta obra é sobre a descoberta do amor e está entre os preferidos da juventude. Nas crônicas que escreveu no Jornal do Brasil, deixou escapar confissões que delineiam seu auto-retrato: “Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.(...) Sou tão misteriosa que não me entendo.”.

E para encerrar o poema Precisão: “O que me tranqüiliza/é que tudo o que existe,/existe com uma precisão absoluta./O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete/não transborda nem uma fração de milímetro/além do tamanho de uma cabeça de alfinete./Tudo o que existe é de uma grande exatidão./Pena é que a maior parte do que existe/com essa exatidão/nos é tecnicamente invisível./O bom é que a verdade chega a nós/como um sentido secreto das coisas./Nós terminamos adivinhando, confusos,/a perfeição”.

13 junho 2007

Uma saudável mania invade as ruas (3)

Desde que foi inventada, há mais de 200 anos (quando não passava de um biciclo de madeira sem direção e freios), a bicicleta vem trilhando o caminho da sofisticação. No século passado, ganhou pedais, rodas de borracha e guidão. De çá para cá vieram as marchas, os pneus mais largos e materiais mais leves. Muito usada no começo do século XIX – como meio de locomoção -, a bicicleta, principalmente no Brasil, começou a perder espaço estritamente de uso esportivo. Por vários anos, era raro ver um ciclista pela cidade.

Atualmente, aproveitando a onda do culto ao corpo e com a abertura da importação, centenas de bicicletas voltam a circular pelas ruas. Nessa invasão, é possível encontrar desde a mais simples, considerada de uso urbano, até a mais sofisticada, própria para competições, que permite ao ciclista subir e desde morros, atravessar rios, pas
sar em buracos e pedras e, o mais importante, carregá-la nos ombros nas subidas íngremes. A qualidade deve ser avaliada pela marca do grupo de componentes – câmbio, freio, cubos (onde ficam os raios) e movimento central (pedais).

O maior sucesso é a montain bike – para percorrer trilhas e terrenos acidentados. Por seu apelo ecológico conquista a cada dia mais adeptos. O montain bike também mexeu com o mercado de bicicletas. Nos Estados Unidos surgiram diversos modelos novos, que acabaram chegando ao Brasil através de importadores ou na bagagem de algum aficionado. Quadros de molibdênio, alumínio ou fibra de carbono (o mesmo material usado na Fórmula 1 e em naves espaciais), componentes japoneses, freios especiais, pneus Matrix com Kevlar e aros mais resistentes à corrosão são os principais atrativos da norte-americana Trek.

Os fabricantes nacionais esmeram-se nos lançamentos. A Caloi lançou há algum tempo a Aluminun, feita com uma liga especial de alumínio preparada pela Alcan e equipada com vários componentes japoneses. O modelo Itália, produzido em cromo-molibdênio, freios Centilever e outras novidades. A Monark invadiu as pistas com a BMX Néon, em cores fluorescentes e com a maçaneta do freio totalmente articulada, feita em nylon e com estrutura interna de aço. A Ranger Tem Speed, com câmbio de 10 marchas, freio articulado para alto impacto e a Ranger New Balance, de 21 marchas. A cada ano, novidades a mais com acessórios sofisticados. Seguro o bolso.

MANUAL

Use roupas coloridas, isso facilita a visão dos motoristas. Use roupas de algodão, pois as sintéticas não favorecem a ventilação. Pedalar exige preparo físico e uma boa dosagem d
e energia. É preciso aconselhar-se com um especialista que, certamente, orientará o ciclista sobre como evitar o estresse muscular. Câimbras podem ser consideradas uma falha do ciclista que não soube dosar a força dos músculos em relação ao terreno e ao câmbio. Por isso, pedale como um profissional, mesmo sendo um amador. Para tornar seu passeio de bicicleta mais agradável, não se esqueça:

* Ande sempre acompanhando o fluxo normal do trânsito e nunca na contramão.

* Sempre que possível, ande pelo lado direito da via pública.

* Guarde sempre uma certa distância entre a guia e os automóveis e nunca trafegue entre dois veículos. Lembre-se que você, muitas vezes, pode estar fora do campo de visão dos motoristas.

* Atravesse as ruas de preferência junto às faixas de segurança dos pedestres.

* Quando estiver em grupo, nunca ande ao lado de seus companheiros, mas em fila indiana, respeitando sempre uma certa distância do ciclista da frente.

12 junho 2007

Uma saudável mania invade as ruas (2)

A vida sobre duas rodas nunca foi difícil para os chineses. Dois terços das viagens urbanas diárias são feitos, na China, de bicicleta. Em Tóquio, a bicicleta já responde por um quarto das viagens urbanas diárias. Na Holanda, 13,5 mil quilômetros contínuos de ciclovias cobrem o país. Na Alemanha, o sinal para a ciclovia está incorporado ao trânsito. Um estudo pioneiro para implantação da rede de ciclovias foi realizado em 1977, em Curitiba e o prefeito Jaime Lerner queria, ao fim de sua terceira gestão, 154km de extensão, onde todos os caminhos da capital paranaense possam ser feitos de bicicleta. Quem se arrisca a pedalar em São Paulo, procura as três ciclovias de lazer, que funcionam em geral aos sábados e domingos.

Como é o caso do elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, a Cidade Universitária e Ibirapuera. No final de 1992, a Prefeitura do Rio completou três grandes redes cicloviárias: Zona Sul Centro, Zona Oeste e Orla, totalizando 75 km de ciclovia integrados à malha urbana. O carioca tem, ainda, como alternativa de passeio ciclístico, o Aterro do Flamengo e as ruas da Urca.

Para muitas pessoas, ma cidade violenta e agressiva como Salvador jamais poderia abrigar carros e bicicletas em perfeita harmonia. Mas os ciclistas urbanos que a cada dia invadem mais e mais as ruas e avenidas da cidade provam o contrário. Para eles, nem as ladeiras íngremes da cidade, nem o tráfego intenso que a caracteriza, são dificuldades. Não há riscos de ser atropela
do pelo automóvel ou pela motocicleta – desde, é claro, que se respeite algumas leis do bom senso.

ITAPAGIPE
Quem pretende utilizar a bicicleta para fazer exercícios deve procurar áreas tranqüilas, longe do trânsito. A Federação Baiana de Ciclismo recomenda a península itapagipana, que é um ótimo local,pois não precisa de bicicleta específica porque é plana. Os que não abdicam da orla têm um problema: o pedestre e o ciclista disputam o mesmo espaço. A ciclovia, em Salvador, liga o Jardim de Alá à Itapuã. Mas em diversos pontos da área, construída na segunda metade da década de 80, fios mal conectados e calçamento quebrado tornam inseguras as passagens de pessoas, a pé ou de bicicleta. No início da Praia do Corsário, logo após o aterro da Boca do Rio, as ligações clandestinas dos pontos de energia elétrica (os gatos) são bem visíveis. Muitos culpam a prefeitura, que não se preocupou em colocar nos estabelecimentos na época da padronização das barracas.


Cada vez mais, Salvador é invadida por jovens ciclistas. Calcula-se, em mais de um milhão o número de magrelas em circulação na cidade. Por que todo esse interesse pelas bicicletas? Elas levam duas rodas, um carregamento de atrativos para a moçada. Não poluem, mantêm o corpo em forma e têm o tamanho exato para freqüentar as áreas verdes da cidade. E o melhor: dão uma sensação única de liberdade ao ciclista, que pode correr com o esforço próprio, pelas ruas e avenidas. Na pista da orla pinta de tudo. Gente com barriga de fora, camiseta enrolada na cabeça, shortinho que mostra maus do que esconde.

“Adoro ver as coisas passando rapidinho por mim enquanto pedalo”, confessa o músico Benjamin Alex. “Quem pedala tem mais consciência ecológica porque precisa de ar puro e mais educação no trânsito”. A preocupação de todos eles, pelo menos enquanto estão sobre duas rodas: sentir o vento batendo no rosto e a sensação de liberdade que esse contato proporciona. Chova ou faça sol, Nilzete Alves pedala, todas as manhãs, cerca de 20km. Para ela, o ciclismo é um exercício aeróbico menos cansativo e mais atraente do que a corrida.

11 junho 2007

Uma saudável mania invade as ruas (1)

Algumas coisas nunca saem de moda, a bicicleta é uma delas. Também elevada ao status de “mountain bike”. Magrela, camelo, bike ou simplesmente bicicleta. O nome não importa, o que interessa é aproveitar os dias ensolarados para circular, pedalando pela cidade. O hábito ganha a simpatia de todos. Conheça um pouco mais sobre este esporte que proporciona uma vida mais saudável.


Uma mania que já circula sobre duas rodas desde o início da primavera tomou conta da cidade no último verão. A bicicleta, agora elevada ao status de “mountain bike”, é um divertimento perfeito para a estação, ainda mais com os preparativos para os Jogos Pan-americanos Rio-2007. Algumas coisas nunca saem de moda. A bicicleta, certamente, é uma delas. Vem ano, vai ano e ela continua sendo um tipo de lazer alheio aos modismos e sempre muito “in”. O sucesso da bicicleta é explicável. Não
requer cursos especiais, é razoavelmente barata e não exige espaços especiais para o seu uso. Garotos e garotas, em grupo ou não, munidos de walkman e/ou mp3 enfeitam os dias de verão.

Pedalar pode ser uma boa maneira de marcar um encontro com novas amizades, com a natureza e bons exercícios físicos. Pedalar melhora as condições cardiovasculares, a estrutura muscular e até o desempenho sexual. Esta é a conclusão de uma pesquisa (não-científica) realizada pela revista americana Bicycling, que entrevistou 1.675 pessoas, das quais 80% eram homens. Sessenta e seis por cento dos en
trevistados disseram que o ciclismo tornou-os melhores amantes e 34% declararam que o desejo sexual aumenta depois de pedalar. Embora 72% respondesse que jamais encontraram parceiros através do ciclismo, 62% afirmaram que os ciclistas são mis atraentes.

O ciclismo, como malhação, está competindo com exercícios estabilizados, tais como o cooper e natação. A onda da bicicleta atacou em cheio, invadindo o asfalto, as praias e as poucas ciclovias que os baianos contam. É um verdadeiro “boom”, sobretudo na área litorânea de nossa cidade, para todas as idades. Nos fins de semana, o hábito de pedalar sobre duas rodas ganha a simpatia de todos. Vantagens não faltam. Além da malhação que proporciona um bem-estar físico completo, em especial o trabalho de pernas, a bicicleta é um instrumento contemporâneo, compatível com as dificuldades da modernidade. A “magrelinha” (como era chamada) não ingere gasolina nem álcool, estaciona em toda parte, não pega engarrafamentos e vale muito menos cruzeiros do que uma moto, sua parente mais próxima.

ELIMINA TENSÕES

Uma pedalada equilibrada proporciona uma série de conseqüências saudáveis como um bem-estar físico/mental. Associado ao trabalho de pernas, o ciclismo é um esporte que estimula a condição cardiovascular. Faz o pulmão captar mais oxigênio, além de transferir energia para o tecido muscular de todo o organismo. Assim, pedalar ajuda a eliminar tensões emocionais, aumenta a resistência orgânica e ajuda a fortalecer a musculatura do corpo.

Hoje, grande parte das bicicletas à disposição no mercado dispõe de um sofisticado sistema de câmbio que ajuda a atenuar o esforço. Os avanços todos significam que existe um modelo adequado ao tipo físico de cada um e apropriado às condições geográficas da região onde a pessoa mora. O modelo aperfeiçoado deu maior segurança, aumentando a propagação do esporte. Os avanços todos significam que existe um modelo adequado ao tipo físico de cada um e apropriado às condições geográficas da região onde a pessoa mora. O modelo aperfeiçoado deu maior segurança, aumentando a propagação do esporte chamado ciclismo. E já está em voga o bicicross – a corrida de bicicleta nos moldes do motocross.

06 junho 2007

Árvores, os pulmões da Terra

O poeta St. John Perse gostava de dizer que todo livro nasce da morte de uma árvore. E como escreve o jornalista Sérgio Augusto, a dívida da palavra impressa com a celulose de que se alimenta é grande. Basta observar que book, bouquin e Buch derivam de boscus, bosque, e livro vem de líber, o tecido condutor da seiva das árvores. Poetas e prosadores utilizaram, a árvore como fonte de inspiração. Pinhos e magnólias eram celebrados por Francis Ponge, o baobá no imaginário de Antoine de St. Exupéry e Roger Caillois, no tronco do ipê de José de Alencar ou no meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos. E os versos que Drummond criou pensando nas mangueiras de sua infância e nas amendoeiras de sua idade adulta.

E não ficou só na literatura. A árvore encontrou campo fértil na gravura e na pintura a partir do Renascimento. Durer, Bruegel, Corot, Poussim, Cézanne e muitos outros desenharam de tudo quanto é jeito. Nos desenhos animados, Walt Disney é imbatível. As árvores falam e contam todo o seu sofrimento e alegrias com os humanos.

Pulmões da Terra e abrigos seguros, sem as árvores as paisagens murcham e o ar empobrece. Elas nos dão além de brisa e vento, flores, frutas, êxtase, lenha e matéria-prima para uma infinidade de coisas: casas, móveis, papel, rolhas, embarcações, talheres, armas, tamancos, instrumentos musicais, pneus, etc... O biólogo australiano Tim Flannery, autor do livro “The Weather Makers” lembrou que, até hoje, nós mal sabemos o que vem a ser, precisamente, uma árvore. Até duas décadas atrás podíamos estar convencido de sabermos, mas o estudo do DNA balançou todo o conhecimento, colocando o cogumelo mais perto do homem que da couve-flor e provando que a teça, árvore indiana de grande porte, é parente muito próxima do orégamo e do manjericão. Flannery se espanta ao registrar que, ultimamente, os botânicos põem os carvalhos mais ou menos ao lado dos pepinos. Desta forma, as árvores têm uma história épica, com grandes aventuras migratórias gravadas em seu genoma.

Colin Tudge, autor de “The Tree” informa que há espécies que podem ser árvores ou arbustos, dependendo d onde resolvam fincar raízes. Além de árvores que, no passado, foram trepadeiras ou mesmo ervas rasteiras. E árvores já é assunto do momento. Enquanto o inglês Thomas Pakenham retrata com sua câmara Linhof plantas de vários continentes, o engenheiro florestal Harri Lorenzi já está na nova edição de “Árvores Brasileiras”.

Uma pesquisa publicada na Califórnia afirma que remover as árvores do planeta pode esfriá-lo. Segundo o novo estudo, como as florestas são muito verdes e fechadas, elas conseguem absorver mais o calor do sol que outra vegetação, tornando o clima mais quente. As árvores, até hoje, eram consideradas fundamentais por seqüestrar o carbono da atmosfera (presente nas moléculas de CO2 que aquecem o clima).

As árvores se transformaram num símbolo ímpar, apresenta em quase todas as religiões arcaicas. Sejam maias, babilônicos, nórdicos e germânicos representavam com eles o cosmo. Os gregos as veneravam. Os lituanos (antes de serem convertidos ao cristianismo) praticavam abertamente a dendrolatria, o culto à árvore. E até o cristianismo tem uma simbólica macieira em sua mitologia. Suas características morfológicas, sua verticalidade, imobilidade, frondosidade e longevidade, pela força de sua presença e seu poder de regeneração, elas são símbolo impar, presente em quase todas as religiões arcaicas.


As árvores exercem um fascínio imenso sobre nós. No livro “O Homem e Seus Símbolos”, sobre a obra de Carl Gustav Jung, Marie Louise von Franz compara o desenvolvimento do ser humano ao das plantas. A semente contém o futuro pinheiro. Mas reage às circunstâncias, como qualidade do solo e vento, inclinando-se em direção ao sol e modelando o crescimento da árvore. Assim também acontece com o homem, de maneira espontânea e inconsciente, ela escreveu. Os celtas acreditavam que há muito em comum entre as árvores e as características das pessoas. Tanto que criaram um oráculo baseado nas plantas. Há 20 anos, Liz e Colin Murray resgataram esse conhecimento e escreveram The Celtic Tree Oracle, com 24 cartas, que incluem bétula, álamo, freixo, árvores típicas da Europa. Esse oráculo tem relação com o alfabeto celta, e criado pelos druidas com base em gestos dos dedos, conta a pesquisadora Wicca Mirela Fahur, autora do livro O Legado da Deusa. Adaptado para o Hemisfério Sul, o oráculo traz árvores tropicais, como coqueiro e goiabeira. Carvalho, ipê, oliveira e jacarandá representam as pessoas que nasceram em datas especiais de mudança de estação no Hemisfério Norte.

E o nome Brasil foi tirado de uma leguminosa, imortalizamos a chegada da corte de D. João VI com o plantio de uma palmeira imperial, cultuamos o mito de que “nossos bosques têm mais vida” e cultiva,mos o hábito de dar as pessoas e lugares patronímicos como Oliveira, Carvalho, Laranjeiras e Mangueira. Agora falta ter um relacionamento mais afetuoso com as árvores.

05 junho 2007

Ângelo Roberto, um mestre do desenho (2)

Ângelo Roberto nasceu em 1938 no município de Ibicaraí, sul da Bahia, mas fez toda a sua trajetória artística na capital, onde se radicou desde 1944, chegando a receber o título de Cidadão de Salvador, conferido pela Câmara de Vereadores, por sua contribuição à culturas baiana, como artista plástico, ilustrador, caricaturista e muralista. Na década de 50 era estudante do Colégio da Bahia e foi nessa época que se formou a Jogralesca e se plasmou a chamada geração Mapa, revista que deu nome e visibilidade a uma geração ímpar de artistas. Entre os colegas que vestiam a farda daquele que era o colégio mais respeitado da época, estavam os cineastas Glauber Rocha e Paulo Gil Soares, os artistas plásticos Sante Scaldaferri e Calasans Neto, o jornalista e poeta Florisvaldo Mattos, o poeta Anísio Melhor, o jornalista João Carlos Teixeira Gomes entre outros. Na época Glauber Rocha instituiu um salão de artes plásticas, onde Ângelo ganhou o primeiro lugar em desenho, com um auto-retrato a lápis.

A fase de criança é sempre presente na sua obra porque foi um tempo bom. “Fui uma criança feliz graças ao professor Adroaldo Ribeiro Costa. Um ano depois de chegar de Ibicaraí, em 1945, já estudando na Hora da Criança, ele colocou um professor particular de desenho pra mim, Álvaro Zózimo. Acho que foi ali que tudo começou“, disse o artista. Dali em diante, Ângelo Roberto nunca mais deixou a prancheta. Aos 12 anos, desenhava personagens infantis para a recém-inaugurada Biblioteca Monteiro Lobato, o que rendeu uma exposição dele no VI Congresso de Escritores Infanto Juvenis, em São Paulo. Foi amigo inseparável da bibliotecária Denise Tavares, a fundadora da Monteiro Lobato. Aos 13 anos, também levado por Adroaldo Ribeiro Costa, passou a ser o ilustrador das páginas infantis do Diário da Bahia e A Tarde.

Formado pela Escola de Belas Artes da UFBa, fez cursos de pintura, gravura, escultura e cerâmica. Tendo optado pela técnica do bico-de-pena, tornou-se, nesta área, um dos melhores artistas da Bahia e do Brasil, participando de exposições no Museu de Arte de São Paulo, a convite de Pietro Maria Bardi, da Primeira e da Segunda Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia e de mostras individuais e coletivas em quase todos os espaços culturais e galerias importantes de Salvador. Produziu capas e ilustrações para mais de 30 livros de escritores baianos, além de cartazes para vários filmes baianos e para entidades e movimentos, como o Comitê Brasileiro pela Anistia. No cinema, tem presença também como ator. Além do mercado de publicidade, onde atuou por muito tempo como diretor de criação, realizou projetos de decoração para o Carnaval baiano.

Retratar os amigos e pessoas mais próximas sempre foi, aliás, um dos passatempos prediletos de Ângelo Roberto. Humorista por excelência e observador da vida, ainda na Escola de Belas Artes, surpreendeu colegas e professores com uma fantástica exposição de caricaturas deles. Em 1984, retratou 30 políticos, artistas e intelectuais com quem dividia a mesa de bar, como os escritores João Ubaldo Ribeiro e Guido Guerra, a atriz Nilda Spencer, o dono da Cantina da Lua, Clarindo Silva, o poeta e Ruy Espinheira Filho, o professor Cid Teixeira, o artista plástico Juarez Paraíso, o vereador Celso Cotrim e o jornalista Béu Machado, amigo de infância. A mostra, muito comentada na cidade, trazia o estilo de caricatura do artista: o personagem de corpo inteiro e dentro do seu ambiente.

“O traço enxuto, a linha essencial, a captação do fugidio, a retenção do imponderável
fazem desta exposição – comentou Cid Teixeira na época -, muito mais uma análise de caracteres, do que de visões exclusivamente físicas dos eleitos. As pessoas são como que desnudadas no seu jeito de ser” E acrescentou: “Poucas pessoas são tão Bahia quanto ele”. Transitando na área de publicidade e da ilustração, como artista e ser humano, ele procurou traçar na exposição de 1989 a geografia humana, particularmente da Bahia, onde vive.
Os personagens podem ser crianças, humildes, mendigos, vendedores de rua. Mas também os homens que contribuem para a vida pública e cultural do estado, como os escolhidos para a mostra. Como caricaturista, os traços são simples, precisos para uma percepção imediata de quem as vê. O que ele faz é congelar a imagem psicológica do retratado, “com extraordinária e expressiva síntese visual, na qual as sutilezas dos detalhes, a atitude, o gesto, a ação, transcendem a mera enfatização das características físicas”, observou Juarez Paraíso.

O mesmo traço das brilhantes caricaturas de Ângelo Roberto é característico dos desenhos de cavalos – tema da exposição que está sendo apresentada no Centro Cultural Arraial D´Ajuda, em Porto Seguro –, pássaros, animais e crianças, que o caracterizam como um artista inspirado na infância. “Eu nunca me desliguei da infância, acho até que ela me persegue, por mais que eu corra“, brinca.

04 junho 2007

Ângelo Roberto, um mestre do desenho (1)

Simplicidade, sensibilidade, harmonia, força, beleza, expressividade plástica, olhar da infância (puro). Tudo isso estão contidos no desenho do mestre baiano Ângelo Roberto. Impossível não parar diante de seus desenhos ternos de traço límpido e preciso. Uma boa oportunidade de conhecer seus atuais trabalhos que estão reunidos na mostra “Cavalos & Sol” no Centro Cultural Arraial D´Ajuda, em Porto Seguro que começou no dia 31 de maio e permanecerá até 23 de junho. Depois a mostra será exibida em Salvador. São 22 desenhos em bico de pena – técnica em que ele é um dos melhores do Brasil –, todos sobre cavalos, elemento que exerce fascínio sobre o desenhista desde a infância. Nas obras, o animal é apresentado em diferentes movimentos, sempre acompanhado do sol, “que é o meu cenário, é a Bahia“, diz.

No misterioso traçado quase invisível que compõe o desenho de Ângelo Roberto, há às vezes a impressão de que o artista tem um poder incomum de criar um nobre sentimento entre suas figuras humanas e seus animais. Nos gestos mais sutis das figuras de Ângelo, o sentimento de amor infinito pela liberdade compreende o direito das criaturas de conquistá-la e deixa-la ir e vir, quando quiser. Como a tristeza feita em lágrimas nos olhos das meninas, diante de pássaros engaiolados; ou feita em alegria incontida e fluida no momento de ver outro pássar
o alçar vôo e sumir pela janela. Em todos os segmentos que extrai da vida, Ângelo é sublime e sua linguagem não é meramente emocional – é hipnótica. Na avaliação de Ângelo, a marca da sua arte é a linha precisa. “É ela que me fascina, é o ponto de partida de tudo, eu não acredito num pintor que não é desenhista. Atualmente, eu ando querendo fazer pintura, mas estou emaranhado pela linha, e é difícil sair dela“.

O desenho, para o artista, “é a alfabetização”, a grande escola de pintores, caricaturistas, os mestres das artes visuais. A peça mais importante do jogo, assim como “o escritor tem que saber soletrar”, o pintor tem que saber desenhar, para ser perfeito em sua arte. Por isso, Ângelo não pensa duas vezes para dizer que desenho é fundamental, “porque sei que todo desenhista pode pintar, mas nem todo pintor desenha”. Assim como nem todo caricaturista sabe desenhar, mas todo desenhista pode ser um bom caricaturista. E Ângelo Roberto é bom em tudo o que se propõe a fazer, porque de desenho ele entende.

No momento ele se dedica a desenhar cavalos (Cavalos & Sol é o tema da mostra no Centro Cultural Arraial D´Ajuda, em Porto Seguro, que fica exposta até 23 de junho). Esses seres peraltas, encantados, quase mitológicos, ternos e cheios de façanhas surgem do imaginário lúdico do artista. E como escreveu o escritor Paulo Martins para o Caderno Cultural d´A Tarde, Paulo Martins, o tema recorrente do conjunto de sua obra sempre foi a infância. “Assim, os desenhos de Ângelo são mais do que meras recordações da infância: ele os concebe, sempre, com os olhos da infância. São desenhos mnemônicos, mas é como se ele enxergasse tudo não com os olhos de hoje, mas com os olhos da criança que foi um dia”.

O bico de pena é uma característica forte na arte de Ângelo Roberto, mas a caricatura é algo que “nunca saiu de mim”. Ele já foi caricaturista de diversos jornais baianos como o Jornal da Bahia, A Tarde, Diário da Bahia e Folha da Bahia. Segundo o professor e artista plástico Juarez Paraíso, “Ângelo Roberto é, precipuamente, um artista da linha e do tracejado, das impressionantes tramas de bico-de-pena. O contraste elegido é simples, mas eficaz. O completo domínio artesanal do artista tece uma incrível tessitura gráfica, um incrível trabeculado, estrutura linear composta por traços pacientemente superpostos, com mais ou menos transparência, jamais obstruindo a passagem da luz que emana do papel”.


“A volumetria – continua Juarez – é reduzida e controlada com sutileza, e o segredo está no controle da transparência e da natureza da textura visual, na dependência da acumulação e posição espacial do tracejado retilíneo, sendo notável a passagem da luz entre as figuras e o fundo. Mestre do bico-de-pena, Ângelo Roberto já produziu centenas de desenhos de grande beleza plástica (gráfica). Com os atuais, demonstra uma prodigiosa imaginação e memória visual no desafio de um só tema e com o máximo de economia dos recursos materiais. Um sensível e intenso sentimento de harmonia emana da conjugação de linhas, atraindo o movimento do olhar, seduzido pela suavidade do ritmo criado pelo artista. A expressividade plástica sobrepõe-se à simples configuração temática, graças ao desenho despojado e contemplado pelo talento do artista, pela depurada percepção seletiva e notável poder de síntese, próprio dos grandes desenhistas figurativos”.

01 junho 2007

Música & Poesia

A Ciência Em Si (Gilberto Gil e Arnaldo Antunes)

Se toda coincidência
Tende a que se entenda
E toda lenda
Quer chegar aqui
A ciência não se aprende
A ciência apreende
A ciência em si

Se toda estrela cadente
Cai pra fazer sentido
E todo mito
Quer ter carne aqui
A ciência não se ensina
A ciência insemina
A ciência em si

Se o que se pode ver, ouvir, pegar, medir, pesar
Do avião a jato ao jaboti
Desperta o que ainda não, não se pôde pensar
Do sono do eterno ao eterno devir
Como a órbita da terra abraça o vácuo devagar
Para alcançar o que já estava aqui
Se a crença quer se materializar
Tanto quanto a experiência quer se abstrair
A ciência não avança
A ciência alcança
A ciência em si.



Claro (Florisvaldo Mattos)

Pelas tardes de fogo homens
pedras movem com capacetes
de sombra mergulhados
em ruas de verão e sal.

Nada me diz que as coisas
se passam como me dizem
além
da parede de vidro que nos divide
aquém
das algemas de sono que nos unem.

Sou como posso fiel
a meu projeto mesmo
que de pronto não o achem
meus olhos – anônimos
minhas mãos – rachadas
meus lábios – rebeldes


nos espaços burocráticos
nas relações de amizade
nos desertos duros da fome.

Liberdade é meu ser
e tempo. É o meu nome.
Razão – o meu sobrenome.

31 maio 2007

Miguel Sant’anna

Empresário e líder religioso. Miguel Arcanjo Barradas Santiago de Sant’Anna foi uma das figuras mais representativas da comunidade afro-baiana. Nasceu em 29 de setembro de 1898. Com a idade de oito anos ficou órfão e foi morar com a tia. Ele foi criado em meio das solidariedades familiais e do parentesco. Parentesco consanguíneo e parentesco ritual, compadrio, mães e pais-de-santo a imprimir a identidade dos grupos emergentes na sociedade de seu tempo, marcando e definindo o caminho do moço na tradição de sua gente. Ainda adolescente, recebeu o posto de Zabá no terreiro da nação Tapa no Gunocô (hoje vale do Bonocô). Era o posto mais alto nesta nação. Nas noites de São João os nagôs Tapa praticavam uma cerimônia nos bamburrais do Gunokô em homenagem a Indakó (Orixá da Nação Tapa). Foi o único brasileiro descendente de africanos a receber este posto.

Pertencendo a uma antiga família-de-santo e tendo sido, desde jovem, ogã confirmado de Omolu no Engenho Velho, seria, mais tarde, um dos primeiros Obás de Xangô - com o nome de Obá Aré, na Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá, o terreiro de São Gonçalo do Retiro. Fez muitos benefícios aos terreiros. Muitas pessoas que não tinham recursos, fizeram obrigação de orixá com a ajuda financeira dele, não importando em que terreiro fosse. Seja no Opô Afonjá, Casa Branca, em Cachoeira terreiro de Gêge de Abalia Debessein, em Muritiba no terreiro de Nezinho, no Gantois, entre outros. A importância de Miguel Sant’Anna no Opô Afonjá, pode ser avaliada pelo cargo que lhe foi atribuído pela Ialorixá Aninha em suas determinações finais, como relata seu neto-de santo, o assobá Didi: “Obá Aré, Obá Abiodun fica como presidente da Sociedade, e você eu quero que fique ao lado da Ossi Dagan, lessé orixá (nos pés do santo)”. Em vida, criou e casou muita gente, parentes e aderentes, sua casa só vivia cheia.

“Encontro no peji de Xangô, o velho Miguel Santana, o mais velho, o mais antigo dos obás da Bahia, o derradeiro dos obás consagrados por mãe Aninha, vestido no maior apuro como se fosse para uma festa de casamento. Assim se veste sempre, mantendo aos 85 anos contagiosa alegria de jovem. Quem não o viu dançar e cantar numa festa de candomblé não sabe o que perdeu. Quantos filhos você semeou no mundo, Miguel? O sorriso modesto, a voz tranquila: 51, meu amigo, entre homens e mulheres, um deles nasceu de uma sueca, outro de uma índia. Descemos juntos a Ladeira do Cabula, a voz de Miguel Santana Obá Aré recorda distantes acontecimentos. Sabe mais sobre a Bahia do que os doutores, os eruditos do Instituto, os historiadores e os membros da Academia. Sabe por ter vivido. Foi rico e é pobre, teve mando de barcos, hoje possui apenas o respeito do povo - a bênção, Obá Aré! Deus lhe salve, seu Miguel Santana”, escreveu Jorge Amado no livro Bahia de Todos os Santos.

No seu processo de ascensão econômica, Miguel Sant’Anna chegou a ser considerado um homem rico, pelos padrões da Bahia nos anos 30. Pierre Verger o colocou em seu livro, Retratos da Bahia, como negro ilustre naquela época. Enfrentou, nos últimos anos de sua vida, dificuldades financeiras decorrentes das mudanças no sistema produtivo do Estado, em que ele desempenhava um papel considerável com sua empresa de intermediação do serviço de estiva no porto de Salvador. Por muitos anos, Miguel Sant’Anna manteve seu escritório de contratação de estivadores, dando continuidade ao trabalho de seu tio Adão da Conceição Costa, até à crise daquelas empresas motivada pela nova legislação, as lutas sindicais e o decréscimo da navegação de cabotagem e internacional. Ele enfrentou com resignação. Até o seu fim, doente e combalido, mostrava-se um homem corajoso e forte, patriarca e generoso e atento à sua extensa família. Para se contar a história do Centro Histórico e do candomblé na Bahia, necessariamente, é obrigatório citar o nome desse empresário e líder religioso, descendente de africanos. Miguel Sant’Anna vivenciou intensamente o cotidiano da área central de Salvador - especificamente o Centro Histórico e Cais do Porto -, da comunidade de origem afro, da qual descendia. Sua experiência de vida é marcante e sua memória está diretamente ligada a vários terreiros de candomblé, como o extinto Gunokô, a Casa Branca e o Ilê Axé Opô Afonjá, à maçonaria e irmandades católicas.

Miguel Sant’Anna faleceu em 15 de outubro de 1974 numa quarta-feira, às 08:30 da manhã. Com seis meses após a sua morte houve Axêxê (obrigações) na Casa Branca. A Sociedade prestou homenagem a Miguel Sant’Anna, Ogan Tataygbi, em reconhecimento aos benefícios que ele fez em vida à este terreiro. O professor Vivaldo Costa Lima, diretor do IPAC, lhe prestou uma homenagem póstuma, dando seu nome ao teatro que instalou na área do Pelourinho, localizado na rua em que nascera Miguel Sant’ Anna - chamada, então, de Beco do Mota e hoje denominada Leovigildo de Carvalho -, o Teatro Miguel Sant’Anna. Fonte de informação e inspiração da literatura, Miguel Sant’Anna acabou virando personagens de livros de Jorge Amado como Tereza Batista Cansada de Guerra, Tenda dos Milagres, Bahia de Todos os Santos, entre outros. Ele é citado também em vários livros que relatam a história de alguns terreiros de candomblé e da cidade no início do século. “Foi homem de muitas lutas, esse Miguel Obá Aré, e lutas nobres, de estofo social. Tem o nome ligado ao cais da Bahia, como estivador, prestador de serviços e líder. Pertenceu a uma das ‘elites de cor’.”, informou o vereador João Carlos Bacelar na orelha do livro em homenagem a Miguel Sant’Anna, co-editado pelo CEAO e EDUFBA. Falar de Miguel Sant’Anna é resgatar a memória de uma personalidade ecumênica de grande representatividade para a cultura baiana e que continua viva na lembrança de filhos e netos e de todos aqueles que o conheceram em vida.

30 maio 2007

Guitarra é símbolo de juventude aos 85 anos (3)

Diante de tanta agitação no mercado mundial de música onde a guitarra sempre se destacou, muitos músicos falaram desse instrumento. Vamos conhecer o que eles disseram:

“Minha guitarra quer matar a sua mãe!” (Frank Zappa)

“Toco por prazer. Eu me divirto tocando guitarra. Conheço um monte de gente que quer ser famosa, mas não se dedica à guitarra. Pensam que tudo o que se precisa é deixar os cabelos crescerem e ter cara de muito louco. E acabam negligenciando o lado musical. É duro aprender música – é como ir para a escola para ser advogado. Por isso, você precisa gostar de música – senão, é melhor esquecer” (Eddie Van Halen).

“Provavelmente, são os sons mais ásperos já gravados e devem ser ouvidos quando se estiver com raiva ou muito louco. A última nota da canção é a minha guitarra suspirando...” (Jeff Beck, a respeito de sua interpretação em You Shook Me, blues clássico de Willie Dixon).

“Eu tocava guitarra-ritmo. Aliás, acho que toco ritmo até hoje. Guitarra-solo, pra mim era Steve Cropper, por blues, nessa época. Eu queria tocar blues. Foi quando a gente trocou de nome para The Who. A gente achava um nome cool, muito mod” (Pete Townshend).

“Não quero ser deus nenhum e muito menos o melhor guitarrista do mundo....Quando Hendrix morreu, fui para o jardim e chorei o dia todo. Não porque ele se foi, mas por não ter me levado com ele. Isso me deixou louco de raiva, bronqueado mesmo” (Eric Claoton).

“Sempre curti instrumentos de corda e piano. Então, comecei a curtir a guitarra – era um instrumento que estava sempre à mão. Eu tinha 14 ou 15 anos quando comecei a tocar guitarra...” (Jimi Hendrix)

“Já me acostumei com a Gibson-Firebird, conheço-a perfeitamente. Depois de todo esse tempo, não há condição de mudar para outra. Eu coloco a Firebird entre a Gibson Les Paul e a Fender” (Johnny Winter).

“A minha primeira guitarra foi uma cópia da Fender Stratocaster...Eu comprei uma Fender Stratocaster, que é realmente, uma guitarra fantástica...uma coisa que me seduz demais e o legal dela é que ela é uma guitarra muito pessoal. Isso é, com cada pessoa ela dá um som. Não é como a Gibson, que sempre tem o mesmo som. A Strato me deu mis liberdade e foi aí que eu comecei a comprar pedais” (Sérgio Dias Baptista)

“Ver, sentir e ouvir são os três fatores básicos em que se apóia a energia estonteante do rock. Com minha guitarra sou mais rápido do que uma bala” (Ted Nugent)

“Então, você quer ser um astro do rock and roll?/ouça só o que eu digo/compre uma guitarra elétrica/e espere um pouco/até você aprender a tocar” (cantaram os Byrds, em 1967, na canção So You Want To Be a Rock and Roll Star).

BRASIL

Elas chegaram para ficar. No final dos anos 50 e início dos 60, a Jovem Guarda adaptou como pôde a onda de libertação que explodia em todo o mundo. Antenados com a onda, Caetano, Gil, Tom Zé e Torquato Neto fizeram o Tropicalismo a partir de 1967. As guitarras elétricas haviam chegado para ficar. Musicalmente, a Tropicália incorporava as novas informações do mundo pop, sobretudo dos Beatles, fase Sgt. Pepper´s.
Cada vez mais interessados em colocar instrumentos elétricos em sua música, Gil convida o grupo Os Mutantes para tocar Domingo no Parque, segundo lugar no Festival da Record. Mais do que simples coadjuvantes da Tropicália, Os Mutantes (Arnaldo, Sérgio e Rita) chegavam para contaminar a nossa música jovem com o vírus da rebeldia. Independentemente de todo o rebuliço contra ou a favor da guitarra na MPB, Jorge Bem inventou uma fusão do afro-samba-jazz-rock que o tornaria um dos músicos brasileiros mais respeitados no exterior. A década de 70 assiste à proliferação de dezenas de grupos de rock espalhados pelo país. O rock carioca era representado pelo Vimana (Lobão, Lulu Santos e Ritchie). O Terço era cultuado pela tribo roqueira de São Paulo, assim como o Som Nosso de Cada Dia.

Em Salvador, o momento era para os Cremes, Banda do Companheiro Mágico, dentre outros. Os Novos Baiano fazia uma fusão onde incluía cavaquinhos, sintetizadores e guitarras. Raul Seixas surgia para provocar polêmicas e agitar o rock. A ex-mutante Rita Lee embalava seu fruto proibido.
Saindo uma vez do underground, o rock nacional dos anos 80 vira fenômeno. Desde grupos como Inocentes, Ira!, Ultrage a Rigfor, Camisa de Vênus, Barã Vermelho, Titãs, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial até Sepultura e Ratos do Porão, que conquistaram o país e o exterior.
E surgem novos conjuntos como o Virna Liso que mistura guitarras e instrumentos de samba; Killing Chaisaw com sua muralhas de guitarras, Faróis Acesos, Elite Marginal, Garagem, além de nomes de peso na guitarra baiana como Armandinho, Rudnei Monteiro, Mou Brasil, Kleber Leoni, Maninho e Nino Moura. E olha que eu não falei no “pau elétrico” da guitarra baiana no carnaval com o famoso trio elétrico de Dodô e Osmar. Fica para as próximas conversas...

29 maio 2007

Guitarra é símbolo de juventude aos 85 anos (2)

A importância de Leo Fender está no fato de ter revolucionado as técnicas de construção de instrumentos ao desenhar guitarras a partir dos captadores. Em 1949 ele inventou a Fender Telecaster (modelo usado por Keith Richards) que muitos consideram uma invenção básica para o surgimento do rock and roll. O corpo forte de Telecaster, seu desenho dinâmico e formato anatômico, e a capacidade de evitar distorções, mesmo sob um dedilhado violento, tornou a guitarra preferida das bandas de rhythm and blues.

Em 1951, Leo Fender criou seu Fender Bass, que acabou substituindo os pesados contrabaixos acústicos em praticamente todas as bandas de rock and roll. Monk Montgomery, Jacó Pastorious, Stanley Clark e Alfonso Johnson foram os músicos de jazz que também adotaram o instrumento. A Gibson, que era uma das maiores indústrias de instrumentos dos EUA, resolveu entrar em competição com a pequena fábrica de Fender, em 1952, lançando a Gibson Les Paul, que ficou popular entre os músicos de jazz. Mas em 1954, Leo Fender respondeu, lançando a Fender Stratocaster. A Gibson Les Paul só foi conseguir alguma popularidade entre os músicos de rock nos anos 60, quando começou a ser usada por Jimmy Page e Eric Clapton. Mas Jimi Hendrix usava uma Stratocaster. As guitarras que Fender inventou são as preferidas dos guitarristas de rock, de Chuck Berry, Boddy Holly e Jimi Hendrix, Eric Clapton, Keith Richards, Eddie Van Halen, Mark Knopfler, Andy Summers e muitos outros.

Se nos anos 50 Chuck Berry transformou a guitarra em instrumento básico do rock and roll, na década de 60, três músicos ingleses levaram o velho blues de Chicago a um novo formato, ampliando as fronteiras da guitarra. Eram Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page. Foram eles que transformaram os amplificadores em verdadeiras usinas sonoras controladas pelas guitarras, geralmente Gibson Les Paul. Embora contemporâneo de Clapton, Beck e Page, Jimi Hendrix é um caso à parte, único em seu estilo. Com sua Fender Stratocaster usada de cabeça para baixo, já que era canhoto, ele integrou a guitarra ao amplificador a tal ponto que ambos pareciam um único instrumento. Hendrix era um verdadeiro mago da guitarra e foi mais além, incorporando definitivamente ao idioma do rock o uso de pedais de efeito como phaser, wah-wah e fuz. Tudo isso, aliado à uma ânsia de experimentar coisas diferentes, fez com eu ele abrisse novos caminhos para a guitarra, ampliando a linguagem do rock e elevando o ruído à categoria de música.

PAULEIRA

Usando as técnicas da música de vanguarda, Frank Zappa levou a utilização dos pedais de efeito às últimas conseqüências, obtendo sonoridades que dificilmente poderiam ser associadas à guitarra como ela era conhecida até então. Egresso da banda de Zappa, Adrian Belew avançou ainda mais nessa direção, arrancando de sua guitarra urros de elefantes, gritos de golfinhos e outros sons animalescos. Numa outra direção, Mark Knopfler retomou a clareza sonora da música pop no início dos anos 60, tocando sua Stratocaster com os dedos em vez e palheta. Carlos Santiago também extraiu de sua guitarra os mais curiosos efeitos percussivos.

O rock da virada dos anos 60/70 foi sacudido pelo heavy metal, música que não usa nenhum metal, mas é feito na base da pauleira, da força bruta das guitarras amplificadas e distorcidas por toneladas de equipamentos. Rick Nielson tinha uma coleção de guitarras o grupo Cheap Trick; Angus Young comanda o AC/DC. Tem ainda o som furioso do Iron Maiden e muitos outros. O poeta e guitarrista Lou Reed ajudou a dar a saída na revolta punk juntamente com Iggy Pop. O punk rock surgiu entre 1974 e 1976, em Nova Iorque e Londres. E o rock garagem lançou Ramones, Dammed, mas foi o Sex Pistols que colocou o movimento punk em fogo para os meios de comunicação de massa. Com o grupo Clash, o punk ficou ainda mais político.

No início dos nos 80, o caso de amor entre o rock e a guitarra parecia perder força. Houve quem falasse em divórcio, novo casamento ao som de sintetizadores. O certo é que as novas gerações de roqueiros – pelas mãos de feras como Adrian Belew, Steve Ray Vaughn e tantos outros – reavivaram a velha chama, a guitarra como alma do som do rock. Na década de 80, a guitarra deixou de ser apenas um instrumento elétrico para se tornar eletrônico. Captadores especiais não mais se limitaram a captar a vibração das cordas e transformá-las em som – eles passaram a codificar esses sons em informações digitais que, através de um interface, são capazes de controlar sintetizadores, samplers, baterias eletrônicas e computadores. Nos anos 90 o rock pesado renasceu com o grupo Nirvana comandado por Kurt Cobain que cantava, compunha e tocava a guitarra principal. Seu tom de voz mistura e se confunde com alguns acordes das guitarras. Outro grupo, o Metallica, ocupou um bom tempo as cabeceiras das paradas. O produtor, guitarrista e vocalista Steve Albini celebrava uma overdose de guitarras sobre bateria eletrônica. Tem ainda o Red Hot Chili, Guns N´Roses, Faith No More, REM, Skid Row, Alice in Chains, Suicidal Tendencies, dentre outros. O movimento de guitar bands (culto iniciado nos anos 60) não pára.

28 maio 2007

Guitarra é símbolo de juventude aos 85 anos (1)

Símbolo máximo da contestação da juventude ao tradicionalismo musical desde a década de 50; instrumento maior de todos os líderes desta contestação, de Elvis Presley e Jimi Hendrix até as bandas da novíssima geração roqueira, a guitarra, no entanto, não é tão jovem como o leitor imagina. A guitarra, que começou com um som seco e metálico, percorreu um longo e diversificado caminho, abrindo, como nenhum outro instrumento, a consciência da atual geração para uma nova era musical: a era eletrônica. Aos 85 anos, a guitarra continua sendo o instrumento-mor dentro do rock e o que possui o maior volume de som. É indispensável a qualquer tipo de música e assumiu a posição de verdadeiro fetiche cultuado pelos jovens. “Você quer ser um astro do rock and roll??/ouça só o que eu digo/compre uma guitarra elétrica/e espere um pouco/até você aprender a tocar”, diz a canção “So You Want To Be a Rock and Roll Star”, cantada pelos Byrds, em 1967.

Desde os seus primórdios, a guitarra se revelou um instrumento com sonoridade própria, muito diferente do violão. Muito antes de ser criada, a guitarra elétrica era uma necessidade para os músicos, principalmente os bluesmen. Uma guitarra acústica colocava em situação embaraçosa até o mais hábil instrumentista. Em 1922, o artesão e desenhista de instrumentos Leo Fender desenhou e registrou um modelo de guitarra com um captador embutido na própria madeira. Essa primeira guitarra deu origem à Fender Esquire, uma das primeiras guitarras totalmente acústicas.

Assim, a guitarra passou pelas mãos de Eddie Lang, Lonnie Johnson, Charles Christian e, através dos grandes guitarristas do “coll” dos anos 50, chegamos a B.B.King e, daí, uma linha direta até Jimi Hendrix, que inventou a linguagem no final dos anos 60. Os punks ressuscitaram o instrumento em 1976 e, com o predomínio do heavy metal e suas variações, a guitarra estava de novo em alta. Como é o instrumento que possui o maior volume de som, justifica o seu enorme sucesso no rock e na música pop.

A popularidade alcançada por esse instrumento é algo sem precedentes na música. Milhares de jovens em todo mundo aderiram à guitarra elétrica e grande parte deles manipula com tanta habilidade seus recursos eletrônicos de transformação timbrística que, à vezes, pelo puro efeito, se torna difícil identificar o instrumento. Um jovem empunhando uma guitarra é um símbolo perfeito de rebeldia adolescente. Todas as tribos roqueiras cultuam o mito do “herói da guitarra” e está presente em todas as fantasias juvenis. A guitarra passou a ser um instrumento indispensável a quase todo tipo de música. Mais ainda: assumiu a posição de um verdadeiro fetiche, um símbolo de identificação das massas jovens.

ORIGEM


A guitarra era um instrumento de acompanhamento, pura e simplesmente: batia o ritmo e harmonizava o canto o mesmo tempo. Os cantores de folk-blues, worksongs e das antigas baladas-blues acompanhavam-se com guitarra ou banjo. Johny St. Cyr tocava banjo e guitarra com King Oliver, Louis Armstrong e Jelkly Roll Morton, nos anos 20. Lonnie Johnson nesse mesmo período, preferia atuar solando. Nos anos 30, o grande representante da guitarra rítmica/harmônica foi Freddie Green, um músico que acompanhou Count Basie. O jazzista Charlie Christian foi o primeiro a se utilizar de uma guitarra semi-acústica para forjar, entre 1939 e 1941, uma nova linguagem para o instrumento. Ele criou o estilo sonoro da guitarra elétrica e toda a geração posterior foi influenciada por ele. Nos dois anos em que integrou a Orquestra de Benny Goodman, Christian adotou a guitarra elétrica como forma de se sobressair em meio ao som dos metais e da bateria. O som obtido por Charlie Christian influenciou seus contemporâneos que tocavam blues em Chicago, como Muddy Waters e Hubert Sumlin que logo eletrificaram seus instrumentos.

Nos anos 30, nos Estados Unidos, começou-se a procurar uma forma de amplificar o som do violão sem o uso de microfones. Surgiram, assim, os captadores magnéticos, desenvolvidos originalmente por George Beauchamp e Paul Barth. As antigas guitarras elétricas eram violas acústicas com pequenos microfones adaptados na caixa de ressonância – o som de retorno era de enlouquecer. Clarence Leo Fender começou a construir instrumentos na década de 20. Em 1922, criou uma guitarra com captador embutido. Em 1931, Adolph Rickenbacker produziu, comercialmente, pela primeira vez, uma guitarra elétrica construída em alumínio. Era a famosa “Frigideira”. Mais ou menos nessa época, o músico e inventor americano Les Paul começava a fazer experiências com um captador adaptado ao violão, mas sem obter bons resultados, devido à microfonia provocada pela caixa do instrumento. Ao saber que Thomaz Edison havia construído um violino elétrico de madeira maciça, Les Paul decidiu aplicar o mesmo princípio ao violão. Em 1941, ele construiu a primeira guitarra maciça (solid body), cortando ao meio um violão e colocando entre as duas metades um bloco de madeira sobre a qual estavam montados dois captadores e um braço de violão Gibson.

25 maio 2007

Música & Poesia

Silêncio (Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown)

Antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor


Teus olhos (Barcarola) Castro Alves

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;
Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;

E como em noites de Itália,
Ama um canto o pecador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com biquinho
Das aves rubras do céu.

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias, Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor! ...

Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;

Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor,
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

(Recife, janeiro de 1867).

24 maio 2007

Cipriano Barata

Jornalista, cirurgião. Cipriano José Barata de Almeida nasceu no dia 26 de setembro de 1762, em Salvador, na freguesia de São Pedro Velho. Embora homem de poucos recursos, seu pai, o Tenente Raymundo Nunes Barata conseguiu mandar seu filho Cipriano estudar em Coimbra, quando já tinha 24 anos de idade. Em 1786 matricula-se no curso de filosofia, no qual se bacharelou, tomando grau em 1790. Em 1787 matriculou-se, também, no curso de matemática. Fez ainda, na mesma Universidade de Coimbra, estudos de cirurgia, tornando-se cirurgião aprovado, profissão exercida com dedicação durante sua vida. Regressando à terra natal se casa com Anna Joaquina de Oliveira, com quem teve seis filhos.

Nos primeiros anos de casado Cipriano procurou viver do exercício da medicina, que praticava como cirurgião aprovado. Por não auferir grandes rendimentos nessa profissão, nada cobrava dos pobres (sua maior clientela), fez-se, também, lavrador de cana no Engenho de João Ignácio da Silva Bulcão, posteriormente Barão de São Francisco. Nessa atividade, buscava condições financeiras para sobreviver. Foi na imprensa que se realizou, fazendo tremer os inimigos da liberdade e da democracia. Inicialmente, foi redigir a Gazeta Pernambucana. Logo depois, fundou seu próprio jornal, Sentinela da Liberdade. O jornal exerceu enorme influência na vida política brasileira, surgindo, em diferentes pontos do território nacional inúmeras Sentinelas, t
odas objetivando, também, lutar pelos ideais democráticos. Através da Sentinela da Liberdade exerceu extraordinária influência na vida pública brasileira, tornando-se temido dos déspostas e ditadores. Pagou caro por sua luta em prol da liberdade. Viveu e morreu pobre, mas aqui, sempre, com independência e dignidade.

Cipriano Barata foi o mais autêntico representante do pensamento liberal brasileiro dos fins do século XVIII e primeiras décadas do século XIX. Em 1798 ele foi um dos fundadores da Loja Cavaleiros da Luz, na Bahia, e manteve-se fiel à Maçonaria, sendo, algumas vezes, por ela socorrido financeiramente. Foi preso por se envolver nos movimentos de liberdade. Após prisão que durou mais de um ano, em 1799 foi libertado e dedicou-se à sua clínica e aos trabalhos agrícolas, como lavrador. Envolveu-se na Revolução Pernambucana. Após a derrota da revolução, foram remetidos, presos, para a Bahia, 104 insurgentes, que acabaram se salvando da morte em virtude do decreto de 1812, de D. João. Salvos do fuzilamento, permaneceram presos, mas, já aí, mantendo contactos abertos com os liberais baianos, Cipriano deles se aproximou e foi, logo, considerado “amigo dos presos”. Presidiu comitês para arrecadação de meios para o sustento dos presos. O real prestígio popular de Cipriano seria comprovado em 1821. Ele se pôs à frente de um movimento popular visando prestar apoio à revolução portuguesa.

No dia 03 de setembro de 1821 realizaram-se as eleições para a escolha dos deputados brasileiros às Cortes Portuguesas. Cipriano foi o grande vencedor. Desde a posse, procurou demonstrar ali estar para defender, incondicionalmente, os interesses de sua terra. Deixou patenteado não se considerar português e, sim, brasileiro. Enfrentou o clima de coação. Sua coragem e até mesmo audácia na defesa das coisas do Brasil o tornaram, desde logo, conhecido e odiado por todos. Não era só a coragem no debate que marcava sua qualidade de brasileiro. Também sua indumentária constituía-se numa afirmação de brasilidade e se tornava uma verdadeira provocação aos portugueses, pois calçado e vestido desde os pés até a cabeça com fazendas manufaturadas na Bahia. Em 09 de abril de 1823 saía o primeiro número do seu jornal, Sentinela da Liberdade. É eleito deputado à Assembléia Constituinte, mas recusou e acabou sendo preso. Pretexto: obrigá-lo a assumir a cadeira de deputado à Assembléia Legislativa.

Cipriano foi, por sentença de 22 de novembro de 1825, condenado à prisão perpétua, sendo solto em 1830, após haver a Relação da Bahia modificado a sentença condenatória e proferindo a absolvição. Foi necessária, ainda, a intervenção da Assembléia Legislativa para que, depois de absolvido, fosse posto em liberdade. A prisão não o intimidava. Mal se instalou, cuidou de lançar seu jornal. No dia 12 de janeiro de 1831 circula o Sentinela da Liberdade. Era o mesmo jornalista corajoso e destemido, o mesmo inimigo da tirania e do absolutismo. Mais uma vez ele é preso na madrugada do dia 28 de abril de 1831. E começara a surgir protestos contra a prisão. A imprensa liberal do Rio se pôs, por inteiro, ao lado de Cipriano. Também os liberais pernambucanos se puseram ao lado do velho lutador da causa democrática.

Para se ter uma idéia do prestígio que gozava junto às massas, basta atentar-se no relato do próprio Ministro da Guerra, na sessão do dia 20 de maio de 1833 da Câmara dos Deputados, segundo o qual, na Bahia, as pessoas que não queriam ser molestadas, colocavam nas portas de suas casas o letreiro Barata. Esse prestígio era facilmente constatável em todo o território nacional. Ao ser libertado, estava coberto de glórias e admirado pelos liberais, mas, estava, também, impossibilitado de continuar residindo na Bahia, dadas as perseguições sofridas e em virtude do clima de hostilidade contra ele armado pelos poderosos. Libertado em princípios de 1833, mantinha, praticamente intacto, o prestígio junto aos baianos, mas, devido ao ódio que lhe votavam os ricos e poderosos, retornou em junho de 1834 a Pernambuco, berço de sua vida de jornalista. E ali voltou a publicar seu jornal, agora com o título de Sentinela da Liberdade em sua primeira Guarita, a de Pernambuco, onde hoje brada Alerta!. Foi rápida sua passagem por Pernambuco. Antes de findar o ano de 1835, já velho, doente, desiludido e pobre, transfere residência para Natal. Lá abriu uma farmácia que era gerida por sua filha, reabriu seu consultório e, depois de muitos anos, voltou a clinicar. Lecionou francês no Ateneu, tendo fundado um colégio primário e secundário. Faleceu no dia primeiro de junho de 1838, aos 76 anos de idade.